6 AM - Capítulo 26 - La Eche

1/9/2019

 

 

 

Fizeram a versão latina de Haíz na sexta à noite, naquele restaurante que agora recebia muito feliz um duo ao invés de apenas uma cantora. Julia seguia sendo encantadora, mas o que ela era junto com Ívi era algo que agradava tanto quanto. O show andava sendo reformulado, o que antes era uma fazendo participação no palco da outra, agora era um show das duas, aberto e fechado por ambas, e a nova fórmula andava agradando demais! Foi uma noite ótima, divertida, em que mais uma vez, Noah foi assistir, não tinha trabalho no dia seguinte o que significava que podia terminar a noite aos beijos com Ívi. E mais uma vez, no final da madrugada, Noah foi a cavalheira perfeita em não forçar a barra com Ívi e ainda se oferecer para levá-la em casa com Julia. Ívi sabia que ela estava morrendo de vontade e sabia bem que as coisas andavam caminhando com Laura e Kelsey, era uma questão sua, de saber ou não o que queria.

 

Julia subiu primeiro e Ívi ficou no carro um pouco mais, beijando, sentindo Noah e aquelas mãos que cada vez ficavam mais e mais andarilhas pelo seu corpo. Gostava das mãos dela, gostava dos beijos, gostava dela, ponto. Era algo que estava ficando cada vez mais claro. E então, se despediram e Noah partiu para sua casa em Jacarepaguá sozinha enquanto Ívi subiu. Dormiram juntas, Julia e Ívi na cama de Laura e somente quando acordaram perceberam que…

 

— Eu achei que ela tinha vindo pra casa! — Thai estava muito nervosa.

— Mas você não voltou pra casa com ela, Thai, caramba — Julia estava muito preocupada, estava branca e trêmula, o que fez Ívi tomar pé da gravidade da situação imediatamente.

— Ela disse que ia ficar para o hóquei de depois da aula, eu achei que ela tinha chegado de madrugada…

— Tudo bem, tudo bem, ela costuma fazer isso? — Era Ívi.

— Só… Quando está em crise. Daí ela costuma fazer isso, ela está sem os remédios de novo, é por isso que eu estou preocupada — Thai explicou.

— Tá bem, e o que vocês fazem quando ela some assim?

— Nada. É a Laura quem faz tudo — Julia sentou-se no sofá sentindo seu coração acelerado no peito.

 

Ívi respirou bem fundo.

 

— Escuta, a Laura não deve fazer nada além de ligar para os amigos dela, ir no lugar que ela foi vista por último, vamos fazer isso já que a Karime não está atendendo.

 

Fizeram isso, ligaram para todos os contatos que tinham de Karime, mas a luz só veio quando falaram com as garotas do hóquei. Nem quiseram falar por telefone, elas pediram que Ívi fosse até a faculdade e foram as três imediatamente. Chegaram lá e Thai foi buscar as meninas que conhecia. Trouxe as três para conversar e o que elas contaram aumentou o nível de preocupação consideravelmente.

 

— Como assim ela teve uma crise?

— Sempre tem uns desentendimentos em quadra, a Thai sabe como é, é um esporte agressivo por natureza, mas ontem saiu do controle. A Karime ficou muito alterada, rolou um estresse real com outra garota, elas caíram no chão, se embolaram, a gente teve que separar, mas não solucionou. Ela estava muito nervosa, falando alto, ameaçando, teve duas garotas que vieram para cima dela e, assim, gente, as garotas assustaram, mas a Karime é alta, é muito forte, quase quebrou o taco em uma das traves, não agrediu ninguém, mas acho que foi por pouco.

 

Thai se afastou começando a chorar de imediato. Ívi olhou para Julia, se entendiam olhando, Julia foi atrás dela para acalmá-la e Ívi ficou.

 

— Tudo bem, o que aconteceu depois disso?

— Ela saiu sozinha, jogou o equipamento no chão e foi embora. Eu juntei tudo, as coisas dela estão aqui — Ela lhe entregou o estojo com o taco — Ívi, as coisas saíram do controle, mas nós queremos ela de volta, todas nós queremos. Aquela não é a nossa La Eche, todo mundo aqui sabe que não é.

 

Ívi recebeu o estojo. E contra a sua vontade, porque também tinha se comprometido não a preocupar com coisas à distância, ligou para Laura.

 

— Ívi, ela não pode ficar sozinha sem os remédios, a Thai sabe disso.

— Ela sabe, nós sabemos, mas deixamos ela sozinha e agora? — A verdade é que Thai estava bem distraída por Julia para prestar atenção em qualquer coisa e, Ívi e Julia andavam bem distraídas também com o trabalho e, com Thai e Noah, enfim, ninguém sequer estava falando direito com Karime, só se deram conta disso agora — Elas me disseram que você sempre acha a Karime.

— Espera — Ela levou uns dois minutos e então voltou — Ívi, ela está no Morro da Babilônia.

— Oi? Como você sabe?

— Eu tenho um rastreador no celular dela, de comum acordo porque ela sabe que perde o controle de vez em quando. Eu chequei agora e ela está no Morro da Babilônia.

— E o que ela está fazendo num morro, Laura, me explica?

— Ela tem uma ex-namorada que mora nesse morro, eu já fui lá buscá-la algumas vezes, mas…

— Eu vou lá, Laura, me diz onde fica que eu vou.

— Não vai não, Ívi, é perigoso se as pessoas não conhecem você, me dá mais uns minutos, eu já te ligo.

 

Ela ligou de volta em dez minutos.

 

— Ívi, sabe a Praia Vermelha?

— A sua preferida, é claro que eu sei.

 

Laura sorriu em segredo antes de prosseguir a informação. Ívi sempre sabia tudo de si, ficava impressionada.

 

— A menina vai deixar a Karime lá, disse que ela não está nada bem e Ívi…

— Eu sei, amoriño, não se preocupa, tá? A gente vai cuidar dela direito daqui pra frente, eu prometo para você.

 

Foram buscá-la na Praia Vermelha. Levou um tempinho e logo a garota apareceu de moto com a Karime delas na garupa. Bem, apareceu com Karime, mas nem de longe parecia a Karime que era delas.

 

— Ei, cariño — Ívi a abraçou e ela estava… Irreconhecível. Abatida, fria, muito fria, era o que mais assustava, o quanto ela estava fria. Não corporalmente, não era isso, era fria na alma mesmo — Tudo bem, vamos pra casa, tá?

 

Ela não se opôs, aliás, ela não disse coisa nenhuma e Julia lhe fez um sinal, era assim mesmo que uma crise de Karime costumava acontecer. Ela chegou ainda silenciosa e apenas foi para o seu quarto dormir, não quis comer, tomar banho, não quis falar com ninguém, como se sequer estivesse ouvindo o que elas estavam falando. Ívi julgou que tinha visto machucados nela, mas Julia lhe garantiu que deveriam ser do hóquei, que ela estava suja, deveria estar piorando a aparência. Aceitou esta explicação e discretamente, retirou as chaves das portas quando Karime deitou. E as garotas tinham compromissos. Thai tinha que ir pra aula, Julia tinha aceitado um trabalho na guarderia absolutamente de última hora, precisavam dos remédios para ontem. Ívi ficou. Se perguntando o que poderia fazer.

 

— Eu não sei como ajudar, Noah. Eu sei que ela precisa de acompanhamento médico, mas não temos como pagar, pelo governo leva uma vida para cada consulta… — Ela tinha lhe ligado no final do expediente da manhã.

— Escuta, eu tenho alguns contatos da faculdade, eu sei que têm clínicas que prestam atendimento gratuito a quem não pode pagar, eu posso ver se consigo alguma coisa…

 

Ívi ficou extremamente grata. E pelo meio da tarde, ouviu o chuveiro ligando.

 

Karime tinha levantado, tomado banho e agora estava na cozinha olhando para a geladeira. Ela estava mesmo machucada e Ívi se perguntou até que ponto a briga física tinha chegado. E então se perguntou se tal briga tinha acontecido no hóquei ou depois e tudo isso lhe deixou extremamente desconfortável. Tal como o olhar de Karime.

 

— Karime?

— Eu… Eu não tenho fome — Ela disse, com uma voz muito vazia — Eu sei que preciso comer, mas não tenho fome, eu… Não sinto nada, Ívi. É só um vazio.

 

Ívi foi até ela e a abraçou, bem forte, muito carinhosa.

 

— Você sente isso aqui? O nosso amor por você?

 

Ela chorou. Da frieza congelante ao choro descontrolado, com o coração disparado e Ívi pediu para ela respirar fundo, para se acalmar que ia fazer algo para elas comerem. Fez um lanche e sentou-se na frente dela para comerem juntas. Karime já estava mais calma e parecia um pouco mais presente.

 

— Karime, essas marcas em você…

— São do hóquei — Ela se limitou a dizer enquanto lutava para comer um queijo quente. Era uma luta, parecia que ela estava comendo papel.

 

Quis perguntar mais, mas sentiu que estaria a invadindo se continuasse. Ela tinha marcas, principalmente nos braços que não pareciam… Bem, podiam ser de um taco de hóquei, pareciam com marcas que um taco faria. A boca estava estourada e isso deve ter sido o punho de alguém, a marca vermelha junto do olho também.

 

— Karime, tem a ver com a conversa que vocês tiveram…? — Aquela em que decidiram parar de ficar.

— Não tem não, Ívi, eu não vou te dizer que não fico um pouco triste, porque eu acho que gosto da Julia de verdade. Tem ficado mais claro todos os dias. Mas eu só gosto, não é paixão, a Thai está apaixonada, a Juls apaixonada por ela, tudo isso é muito maior que apenas o meu gostar. Acho de verdade que o que mais me atinge é o sentimento de ficar sozinha.

— Você não está sozinha, Karime, por favor. Eu estou aqui, as garotas também, a Laura nem se fala, ela deu um jeito de te resgatar de um morro aqui no Brasil estando lá em Londres… — Disse, a fazendo rir um pouquinho.

— É por isso que eu amo aquela galega.

— Por que você não veio pra casa?

 

Ela respirou bem fundo.

 

— Eu estava envergonhada. Não ia saber o que dizer. Eu briguei em campo, fiquei muito agressiva, fui expulsa do projeto, foi horrível, Ívi e foi tudo culpa minha, eu estou morrendo de vergonha — Ela começou a contar, sentida, mas agora sem uma lágrima — A Bárbara não me faz perguntas, entendeu? Ela nunca me faz perguntas, eu não queria responder nada, eu não sei como responder…

 

Daí que Ívi queria que ela estivesse alterada novamente. Mas ela estava simplesmente inexpressiva. Aquela versão fria era a que mais assustava.

 

— Ívi, você viu a Bárbara? Viu aquela preta linda que eu namorava, que era louca por mim? A gente teve que terminar porque eu morria de medo de acabar ficando agressiva com ela, eu não sei, sinceramente eu não sei. Eu quero fazer isso melhorar, eu não quero mais ter esses ataques, me sentir assim, ficar perdendo pessoas, coisas que eu gosto de fazer por causa dessa doença…

 

Ívi levantou, saiu da cozinha e voltou com os equipamentos de Karime.

 

— Elas te querem de volta, ok? Inclusive — Tirou o taco de dentro do estojo — Sabe o que é isso aqui? É prova de quem você é, uma garota que colocou um assediador para correr em defesa de uma linda desconhecida em um ponto de ônibus. Esta é você, não é você o que esta doença te faz, entendeu?

 

Ela abriu um sorriso e abraçou Ívi bem forte.

 

— Muito obrigada, de verdade. A primeira coisa que pensei quando o surto passou é que eu tinha subido um morro de madrugada sem a Laura por perto.

— Não precisa agradecer. Mas eu juro que se você fizer a minha espanhola subir um morro sozinha atrás de você outra vez…

 

Karime riu.

 

— Eu não faço mais.

— Obrigada pela parte que me toca.

 

Ela comeu o que Ívi tinha preparado a duras penas, mas comeu e disse que estava bem, que só precisava dormir um pouco mais porque Bárbara, a preta linda, não tinha lhe deixado dormir nem um segundo que fosse. Ela parecia melhor.

 

É provável que se Laura estivesse por perto, teria visto que ela apenas parecia.

 

De qualquer forma, as coisas se acalmaram nos próximos dias. Foi assim que Ívi sentiu, depois do susto com Karime, todas pareceram acordar e ficaram totalmente comprometidas a não comprometer a ausência de Laura. Todas tinham uma parcela de culpa no que tinha acontecido, Karime tinha surtado, um, porque estava sem remédios, até tinha conseguido um dinheiro com a mãe e andava procurando qualquer emprego que nem louca e ninguém se deu conta da gravidade que era deixá-la sozinha com aquela responsabilidade e dois, porque todas estavam tão imersas em si mesmas, em seus próprios relacionamentos que sequer puderam notar que algo estava prestes a se passar com ela. Nunca teria acontecido com Laura por perto. Nunca teria acontecido porque ela era incapaz de se centrar apenas em si (o que era sua maior qualidade humana e o que sempre lhe causava certos problemas).

 

Então, naquela mesma noite, enquanto jantavam todas juntas (hábito que também tinham abandonado desde a partida de Laura), pegaram um caderno e se realinharam em todas as coisas. Eram mulheres crescidas todas elas, não era possível que continuassem agindo como se precisassem de alguém para lhes dizer o que fazer, elas sabiam o que fazer, bastava colocar em prática. Distribuíram tarefas, anotaram o que precisavam fazer, as contas que tinham para pagar, contaram os remédios de Karime da mesma forma que Laura fazia, calcularam quando poderiam comprar, em três dias se parassem de gastar com bobagens. Passear, se divertir, jantar fora era uma delícia, mas nem se comparava em ver Karime bem e quando se deram conta de que se Ívi, Julia e Thai abrissem mão de algumas coisinhas por apenas três dias o problema estaria resolvido, se sentiram péssimas. Ívi sabia bem que andava em falha até consigo mesma, todos os almoços e jantares com Noah não eram gratuitos, tinha parado de conseguir juntar dinheiro como estava fazendo antes, elas haviam esquecido da cama que tinham que comprar, era uma bagunça, mas que juntas, decidiram que dariam um jeito. Estavam ganhando mais agora e mal conseguiam tomar um café da manhã decente, não, elas tinham que melhorar e decidiram que começariam imediatamente.

 

Karime não voltou para a faculdade. Pediu muito que as garotas lhe entendessem, ela estava bem, mas precisava de um tempo para si, um tempo para pensar melhor nas coisas e apesar dela pouco ter estado presente nos próximos dias, ao menos estava dentro do seu próprio quarto, onde podiam ter certeza que ela não estava em perigo. Julia e Thai estavam ótimas em suas posições de amigas não ficantes e tudo parecia caminhar bem entre elas também, elas andavam conversando mais do que nunca, se entendendo melhor do que nunca, o clima na casa ficou mais tranquilo e a divisão de tarefas que fizeram, conseguiu manter todas as coisas num lugar melhor de onde estavam antes.

 

E enquanto tudo isso acontecia no Rio, algo havia mudado em Londres.

 

Desde quando Laura decidiu assumir as decisões de seu relacionamento com Kelsey, as coisas entre elas melhoraram significativamente. Sua estratégia de casar seus passeios próximo dos lugares onde Kelsey estava acabou funcionando perfeitamente e com encontros inesperados no meio do dia, tudo ganhou um gosto muito melhor. Kelsey escapava para um passeio, para uma surpresa, a encontrava para um almoço não planejado ou para um namoro num parque sem aviso prévio e tê-la perto de si mais constantemente, fez Laura lembrar os motivos pelos quais se interessou por ela. Kelsey era inteligente e agradável, era gentil e carinhosa, não tinham ideia de como seria ter mais tempo juntas, porque desde quando se conheceram, o tempo era contado entre elas e por mais corrido que tudo ainda estivesse agora, a verdade é que tinham mais tempo do que nunca e descobrir o que um pouco mais de tempo andava fazendo com o relacionamento delas estava sendo tão bom que acabou surpreendendo ambas.

 

Ainda não era o ideal? Não era. Laura ainda estava passando longas horas sozinha, mas também não fazia tão mal quando na realidade, nunca estava sozinha de verdade.

 

 Ívi sempre estava por perto.

 

Sempre, o tempo inteiro. A sensação era de que estavam conversando muito mais naqueles dias do que quando estavam juntas correndo com coisas diferentes. Os fusos horários de uma forma engraçada se conversavam, Laura já estava acordada enquanto Ívi estava tocando e nos dias em que ela foi trabalhar no estaleiro, também se encontravam, era manhã no Brasil, era tarde na Inglaterra e elas acabavam se pegando naquelas conversas tão delas, tão particulares que nunca tinham um fim. Elas não se davam bom dia e nem boa noite, era simplesmente uma conversa contínua, que retomavam sempre que se encontravam online, sem nenhuma cobrança ou linearidade, falando de coisas aleatórias, se mostrando fotos, se contando coisas e evitando qualquer assunto pessoal demais.

 

Foi uma coisa que se intuíram, sem sequer precisar falar: Julia estava certa, Laura ficaria um mês inteiro fora e elas precisavam andar. Tinham ficado, Ívi e Laura, mas Laura ainda namorava e devia a chance que tinha se comprometido dar junto com Kelsey àquele relacionamento delas, um relacionamento onde havia sentimentos importantes, acordos importantes. Não podiam dar pause nas escolhas que tinham feito. Precisavam seguir e concluir, seja lá qual fosse a conclusão.

 

Por enquanto, estavam inconclusas, Ívi e Laura. Enquanto Kelsey e Noah estavam em andamento.

 

Nunca mais o dia de Ívi se perdeu do de Noah desde aquele primeiro beijo na boate. Noah era uma menina muito legal mesmo, estava saindo de um namoro de três anos, com o tal cara da boate, era muito clara, muito direta, muito simples de se lidar, de conversar, havia entendido quando Ívi pediu para darem uma pausa nas saídas que requeriam dinheiro, estava a ajudando a encontrar um médico que pudesse atender Karime sem cobrar nada e estava sendo bom. Ter alguém para encontrar, sair, beijar um pouco, alguém para encontros noturnos e cafés no meio do dia. Ela sabia da relação complexa de Ívi e Laura, e tinha uma postura parecida com a de Kelsey, não queria competir com isso.

 

— Eu só acho tenso ela não ter ciúmes, como assim ela fica de boa? — Noah perguntou uma noite em que jantavam pouco antes de um show marcado naquele restaurante que lembrava Ívi de Laura o tempo todo. É claro que terminou falando dela.

— Ela não tem, eu não sei como acontece — Respondeu sorrindo — Ela sabe de você, sabe que estamos ficando e é a reação mais racional possível, nós não estamos juntas, por que ela vai se desgastar?

— Porque somos humanas, é irracional se apegar em coisas que não são nossas, é da nossa natureza, Ívi! — Ela lhe respondeu sorrindo também — Estou cada vez mais curiosa para conhecer essa menina, preciso pegar umas aulas... — Noah disse sorrindo.

— Espera, você é ciumenta?

— Menina, você não faz ideia...

 

Terminaram de jantar num clima muito agradável, Noah lhe beijou e foi pra casa, porque tinha que trabalhar cedinho no dia seguinte. Ívi também trabalhou no dia seguinte, passou direto para o estaleiro sem dormir, faltava pouco para comprar os remédios de Karime e queria fazer isso de uma vez. Voltou pra casa e passou um tempo com ela, conversando, porque nem ficar ela parecia disposta mais. Sabia como era estar na situação dela, se sentindo sozinha e sem saída, e não queria de jeito nenhum, Karime se sentindo assim sozinha. O quarto escuro em que conversaram era assustador também, Julia estava preocupada, Thai também, não lembravam de uma crise que tivesse sido tão longa assim.

 

E a maratona do final de semana começou. Ainda bem, estavam com a sexta e o sábado marcados em duas boates e no domingo, tinham um barzinho para fazer em Copacabana. Conseguiram comprar os remédios de Karime na sexta, ela ficou grata e envergonhada, teve outra crise, uma crise de tristeza de partir o coração e quando enfim ela conseguiu pegar no sono, Ívi pôde notar uma certa aproximação na cozinha enquanto o jantar era feito. Julia e Thai, é claro, juntas, conversando, se ajudando, os olhos brilhando o tempo todo, o sorriso constante e uma vontade que Ívi conhecia como ninguém: a necessidade de tocar em quem se gosta. Estava ali, entre elas duas o tempo inteiro, dedos que se tocam sem querer, que sem perceber se empenham em mesmas tarefas que levam a delicadas colisões, a toques de raspão e Julia sentia tanto que estava quase irreconhecível. A bachelor ficava nervosa ao estar sozinha com Thai, fugia de contatos visuais e não sabia o que fazer das mãos enquanto se perdia olhando para ela.

 

Era bonito e terno. Ívi queria muito que desse certo. E que desse certo sem vitimar Karime. Mensagem de Laura, ela estava perto do céu: estava no The Shard, o prédio mais alto do Reino Unido, tomando um drinque sem álcool... Sozinha. Kelsey tinha lhe prometido um momento romântico, para curtir o anoitecer e então irem jantar em algum lugar. Mas ela estava atrasada, no que resultava em Laura linda demais de vestidinho, salto e casaco longo observando aquela vista maravilhosa sozinha.

 

— Você precisa ver essa ponte de onde eu estou, a Tower Bridge é maravilhosa — Disse, olhando por um dos enormes mirantes de vidro.

— Eu vou, pode deixar, vou no The Shard, então no Atomium em Bruxelas, no A’dam Lookout em Amsterdã e na Torre Eiffel, você já foi na Torre Eiffel, galega?

 

Laura sorriu.

 

— Eu nunca fui a Paris.                 

— Nós vamos juntas, pode deixar, eu acho que você gostará de Paris — Disse, a fazendo sorrir — Às vezes você é romântica que se envergonha, lembra?

— Lembro e você nunca mais vai me deixar esquecer aparentemente...

 

Ívi abriu um sorriso. E alguém tocou a campainha.

 

— Eu tenho que ir, amoriño.

— Posta tudo, tá? É uma boate diferente hoje, não é?

 

Outro sorriso de Ívi. Ela andava tão empolgada com o jeito que as coisas estavam indo bem!

 

— Pode deixar, gravo tudo e mando para você.

 

E então que Laura foi abraçada por trás e o sorriso dela foi tão claro que foi audível para Ívi. Kelsey havia chegado. E Noah também.

 

Ívi foi recebê-la na porta, e ela estava linda demais, de vestido vermelho, esvoaçante, com aqueles olhos verdes e o sorriso sempre aberto. Comeram juntas antes de irem para a boate, Thai se juntou a elas, ainda não conhecia Noah, tal como Karime também não, mas Veneza parecia um tanto mais funda aquela noite e elas não quiseram insistir para que ela saísse do quarto. Kelsey chegou abraçando Laura por trás e trocando o drinque sem álcool dela por uma taça de champanhe. Elas precisavam brindar naquele pôr do sol, porque sim, ela chegou antes do pôr do sol, faltando apenas alguns minutos e o coração de Laura quase parou pelo quanto ela estava linda...

 

Calça social preta com o terninho feminino que ela usava por cima da camisa branca, com os primeiros botões abertos, deixando o colo delicado à mostra, os cabelos presos charmosamente desgrenhados num rabo de cavalo, saltos altos, finos e a gravata borboleta desamarrada por dentro do colarinho era um charme total, ela estava linda, elegante, sexy o que deixou Laura... A abraçou, a beijou, suspirou sorrindo, sem ter ideia do motivo de tanta beleza.

 

— Kelsey...

— Você está tão bonita, caramba...

— Ainda bem, porque você não me avisou que vinha assim! — Laura respondeu sorrindo.

— Foi o figurino da sessão de fotos, eu pedi emprestado porque achei que o resultado pudesse ser este... — Ela confessou sorrindo.

— Ah, você desconfiou?

— Tem um tempinho que eu ando querendo fazer você suspirar — Respondeu beijando a mão dela com carinho, lhe olhando com aqueles olhos azuis que desnorteavam Laura com uma certa frequência —Você não faz ideia de onde nós vamos jantar e nem de onde nós vamos dormir...

 

Laura abriu um sorriso.

 

— Hum, então nós vamos dormir fora?

— Eu te prometi lua de mel, não prometi? — Ela lhe perguntou, muito dócil, lhe olhando nos olhos, lhe sorrindo, ela tinha prometido lua de mel. E Laura não podia negar que estava começando a sentir o gosto.

 

Assistiram a um belíssimo pôr do sol apesar do céu escuro, juntinhas num canto do The Shard, conversando, tomando o champanhe preferido de Laura enquanto Julia, Ívi e Noah iam de metrô até a boate em Ipanema onde tocariam. Julia estava um pouco distante aquela noite, os olhos no celular, a troca de mensagens com Thai. Desceram do topo do The Shard para o restaurante alguns andares abaixo e Laura não estava acreditando. Nem no lugar, nem na vista, nem no jantar, nem no quanto Kelsey estava sedutora e nem no quanto parecia feliz. Por terem pegado um pôr do sol juntas, pelo jantar com aquela vista deslumbrante, pela oportunidade de estar com Laura naquela cidade que feito um quadro de Monet, anoitecia extraordinariamente bem diante dos seus olhos.

 

King Crab? — Ela lhe perguntou, muito mais perto e carinhosa do que costumava ser em público. Laura entendia esta distância sutil, Kelsey era britânica e era uma das mais calorosas que já tinha conhecido, aprendeu sobre a discrição e adorava quando ela lhe surpreendia com calor, tal como havia acontecido nos jogos da Olimpíada.

— Você sabe que sempre que envolve frutos do mar a minha resposta é sim — Laura respondeu sorrindo.

King Crab parece perfeito! O que você quer beber, baby?

— Pode ser... Água com gás?

— É claro que pode ser — Então ela repassou o pedido ao maître educadamente — King Crab do menu Surf and Earth e água com gás para nós duas, por favor...

 

Mais dez minutos de caminhada até a boate, Julia levando a guitarra nas costas, Ívi a mochila com os equipamentos, Noah puxando a mala com a pickup enquanto riam demais lembrando de algo que tinha acontecido no último show em que Noah estava presente por que...

 

— Vocês são duas máquinas de atrair mulheres, eu não entendo, é sério, eu estava lá beijando e com todos os dedos em cima da Ívi e a garota pedindo o telefone dela na minha frente... — Dizia ouvindo os risos e com a mão agarrada na mão de Ívi.

— São todas fãs da Julia, tá, eu não causo esse tipo de efeito quando estou sozinha...

— Quê? As héteros caem todas em cima de você! — Julia lembrou deste detalhe que era totalmente real.

— Sou prova irrefutável de tal efeito...

 

Ívi a olhou sorrindo.

 

— Ah, você é?

 

Noah lhe sorriu e a beijou, assim, no meio do caminho.

 

— Eu sou. Pensa em um desnorteio.

 

Outro sorriso de Ívi, outro beijo longo no meio da rua, porque os beijos estavam cada vez mais longos, e cada vez mais quentes. Entraram na boate, Julia ainda grudada no celular, Ívi ainda grudada em Noah, a levou para o palco outra vez, montou seus equipamentos e ainda tinham vinte minutos até o show, vinte minutos que Julia passou no celular com Thai, vinte minutos em que Laura e Kelsey brigaram com o King Crab tentando conquistar aquelas patas deliciosas que recusavam a sair de dentro da casca dura aos risos e, Ívi e Noah...

 

Ívi a encostou contra uma pilastra enquanto se beijavam e beijavam, o som da boate, as luzes, o clima quente, Noah naquele vestidinho vermelho que... A apertou contra o seu corpo, a puxando pela cintura, a sentindo levemente morder a sua boca e suspirar no seu ouvido, lhe puxando mais para perto ainda, trazendo as mãos de Ívi para a sua cintura, para os seus quadris e Ívi a pegou mais firme, subindo a mão pela nuca dela, por baixo dos cabelos e o corpo dela reagindo ao seu era...

 

Ívi afundou seu corpo contra o dela, a ouvindo suspirar e lhe puxar pelos quadris, grudando um corpo ao outro mais ainda, elas estavam assim há mais de uma semana, naqueles beijos longos, naquela vontade gostosa, Ívi queria? Noah era toda cheirosa, gostosa, a coisa mais deliciosa.

 

Ouviu a voz de Julia lhe chamando. Era hora de Haíz!

 

Fizeram um passeio a pé depois do jantar! Pela Tower Bridge, bem juntinhas porque estava frio, parando em um canto e outro para trocarem beijos, para namorarem um pouco, Laura adorava o beijo de Kelsey, adorava o quanto ela era delicada, a calma que vinha dela. Tiraram algumas fotos enquanto Kelsey lhe dizia que podiam casar naqueles outfits, que estava perfeito, o vestido preto de Laura, o casaco elegante, tudo aquilo que Kelsey estava atraente, caminharam por uma galeria linda, toda iluminada, viram o The Shard ao longe mais uma vez e quando o tempo esfriou e elas esquentaram, era hora de ir para o hotel.

 

Que ficava no próprio The Shard.

 

— Kelsey! Como você... Caramba... — Laura não estava acreditando naquele quarto de vidro no céu — Deve ter sido mais caro que o meu apartamento na Tijuca, Kels...

 

Ela lhe abraçou por trás sorrindo.

 

— Não foi barato, mas não foi um assalto também, baby, é só por uma noite e eu acho que a gente merece — Ela lhe cheirou a nuca enquanto olhavam por aquela belíssima parede de vidro, aquela cidade linda, totalmente acesa. Beijou o ombro dela com carinho — Vamos para Madrid depois de amanhã, estou contando as horas.

 

Laura beijou a mão dela em seu ombro com carinho, virando-se de frente para ela.

 

— Eu também estou. Kelsey, obrigada. Por isso aqui, pelos nossos dias, por ir comigo para Madrid. Obrigada.

— Obrigada por aceitar, meu bem. Eu estou muito grata por nós duas.

 

O show foi enlouquecedor! O público estava fervendo e, Ívi e Julia ferveram com ele, entraram no ritmo, na temperatura e cada noite andava sendo uma experiência única, em que cada vez mais, Ívi ganhava confiança cantando, Julia se aclimatava mais nas boates e a energia delas se completava cada vez mais. A sensação era de que a alma do duo estava ganhando densidade, a identidade e quem eram juntas estava cada vez mais claro e quanto mais genuíno algo parece, mais conexões surgem com quem assiste. Haíz ia muito bem, obrigada! Final de show e Ívi perguntou se Julia voltava bem sozinha. Ela lhe sorriu, voltava bem sim, Ívi não precisava se preocupar. Ela ficou um pouco mais com alguns amigos que encontrou e Ívi partiu.

 

Para o apartamento de Noah.

 

Era um apartamento bonitinho, pequeno, todo bem arrumado, nada que não esperasse de Noah, é claro. Entraram, ela perguntou se Ívi queria alguma coisa, água, queria um pouco de água, estava quase sem voz. Ela lhe serviu água, lhe mostrou o apartamento e elas conversaram sobre qualquer coisa na sala, se aproximaram por qualquer motivo e os beijos que começaram no sofá, acabaram com Noah levando Ívi para o quarto.

 

Aos beijos e cheias de mãos, os dedos de Ívi buscando aquela pele, subindo aquele vestido devagar, descobrindo aquele corpo lindo enquanto a notou arrepiar inteira, por cada pedacinho de pele descoberto pelos seus dedos...

 

Ela estava se arrepiando mesmo? Estava e o tesão de Ívi acendeu imediatamente ao ver aquele corpaço naquela lingerie vermelha. A pegou firme a pondo contra a parede, a pressionando com o seu corpo, a sentindo lhe agarrando, lhe pegando, querendo tanto que... Mordeu a boca e arrancou a camiseta do corpo de Ívi, os dedos abrindo a calça rapidamente enquanto Ívi alcançou a calma e a tirando de contra a parede, a levou para a cama devagar, seguindo o beijo, sentindo o corpo dela se agarrando ao seu por inteiro e o coração dela estava tão rápido que Ívi estava sentindo.

 

Estava muito rápido mesmo.

 

— Tudo bem?

 

Noah deslizou a calça de Ívi, descobrindo seus quadris, pegando seu bumbum, a puxando, mordendo a boca e tremulando ao olhar para os seios. Ela estava com muito tesão, Ívi mordeu a boca com a constatação.

 

Desconfiou de algo assim que sentiu as mãos dela tão ansiosas pelos seus seios, assim que percebeu a boca dela cheia de vontade de encostar pela sua pele, mas sem saber se devia e quando Ívi a despiu da lingerie enquanto a deixava louca beijando rápido, beijando forte, comendo a boca dela com a sua e apenas a tocou... Ah, sim, o jeito que ela choqueou o corpo e estremeceu alertou Ívi de algumas coisas. Ela deslizou sua calcinha, se agarrando em Ívi muito forte que apenas a tomou devagar, afundando seus dedos e seu corpo contra o dela, beijando sua boca e seu pescoço, buscando seus olhos, sentindo a pressão das coxas dela em volta de si, a sentindo estremecer gostoso, pedir por mais, ficar sem ar e quando a sentiu tão molhada gozando contra os seus dedos...

 

Deixou o tesão explodir, a deixou choquear inteira e então, lambeu os próprios dedos a olhando nos olhos e pediu que ela respirasse fundo.

 

Ívi deslizou beijos pelo pescoço dela, pelo meio dos seios, pegando um com a boca e então o outro, tocando e estimulando, a sentindo acelerar o coração de novo, se atrapalhar na própria respiração, ela ainda estava sensível pelo prazer, mas Ívi sabia muito bem como fazer. Foi descendo os beijos devagar, abdômen que se comprimiu, pele que arrepiou, entre as coxas, junto a virilha e quando a língua de Ívi lhe tocou intimamente...

 

Ah, não, o jeito que o corpo dela arqueou, a forma que se agarrou por Ívi, que gemeu alto, que seu abdômen comprimiu e o jeito que apenas pouquíssimos minutos depois ela gozou tão forte, tão úmida...

 

Ela estava sem ar quando terminou de gozar, segurando Ívi com tanta força que quase machucou e Ívi voltou para a boca dela sorrindo, a tocando devagar, fazendo o corpo dela acalmar aquela sofreguidão intensa e epitelial em que ela se encontrava, tão sensível, tão à flor da pele e ela sabia que Ívi também precisava gozar.

 

— Ívi...

Shsssssss... — Subiu na coxa dela, a beijando delicada, bem devagar, pegando a mão dela e pondo exatamente onde precisava — Fica assim, me toca aqui...

 

Levou um pouquinho mais de tempo, mas Ívi teve seu orgasmo. Foi bom, foi suficiente, principalmente pelo sorriso de Noah depois. Ela não estava conseguindo parar de sorrir o que deixava Ívi um tanto vaidosa.

 

Sabia que tinha feito tudo direitinho, o corpo de uma mulher nunca mente, o grande problema dos homens é se fixar no som quando na real, a verdade está toda nas reações corporais.

 

— Noah... — Estavam deitadas de bruços, mas olhando uma para outra. Ívi abriu um sorriso — Eu sou a sua primeira garota, não sou?

 

Ela abriu um sorriso escondendo o rosto na cama.

 

— Foi tão ruim assim?

— Não foi nada ruim — Ívi a beijou, a encheu de carinhos — Eu adorei, você não adorou?

— Pareço com quem não gostou de alguma coisa por acaso? — Ela lhe olhou de sorriso aberto outra vez, não cessava nem um pouquinho.

— Ainda bem que não parece! Por que você não me disse nada? Eu teria sido mais cuidadosa — Disse, acariciando os cabelos dela.

— Mais cuidadosa ainda? — Ela lhe olhou nos olhos — Você foi carinhosa demais, perguntou o tempo todo se eu estava bem, se podia fazer isso ou aquilo, se estava gostoso, confortável, eu estou acostumada a fazer sexo com sujeitos que nem olham para mim, imagina se falam. Se você tivesse sido mais linda e gostosa do que acabou de ser, eu nem sei — Beijou a mão de Ívi com carinho — Ívi, por que você não me deixou...?

 

Ela nem precisava completar! Ívi a beijou sorrindo.

 

— É que... É tão delicado, tão íntimo, a primeira vez que você faz, você não esquece e quando eu percebi que era a sua primeira vez... — Olhou naqueles olhos verdes — Você tem que estar apaixonada pela garota que você vai pôr na sua boca pela primeira vez, Noah.

— Ívi... Eu nunca estive apaixonada. Por ninguém.

 

Ívi a olhou mais surpresa do que quando percebeu que era a primeira garota dela.

 

— Mas você namorou por três anos aquele cara lá do bar.

— Eu sei. E já namorei mais uns tantos e ainda assim, nunca me senti apaixonada por nenhum deles. Nada nunca foi extraordinário, eu nunca senti nada intenso, só... Pequenas coisas, mínimas felicidades, conforto por não estar sozinha. Você é a minha primeira garota da vida, eu nunca tinha saído com mulher, beijado mulher nenhuma, já até me interessei, mas nunca aconteceu nada. Mas quando eu vi você lá no estaleiro... Você me chamou a atenção. Eu senti a sua vibe e decidi investigar um pouco mais só para ter certeza. Eu queria saber se sentiria alguma coisa diferente ficando com uma mulher.

— E você sentiu?

 

Noah mordeu a boca sorrindo.

 

— O sexo é uma delícia. A convivência também. Eu sempre me perguntei como deveria ser namorar a minha melhor amiga porque é maravilhoso passar tempo com ela, falando, conversando, indo no vôlei na praia, sabe? Esse tipo de coisa de garotas. Agora eu sei como deve ser.

 

Ívi beijou os dedos dela com carinho.

 

— Tem sido bom, não tem?

— Muito bom — Tanto que Noah estava começando a reconsiderar o que realmente queria com Ívi.

 

Laura acordou no céu.

 

Na cama ao lado de Kelsey, com aquela enorme janela descortinada lhe mostrando toda a beleza daquela cidade lá embaixo. Olhou para sua garota, ela estava dormindo muito pesado ainda, sabia que ela andava cansada e o amor resumidinho da noite também lhe contou o quanto. Não fazia mal, a noite tinha sido linda, o esforço que Kelsey fazia para ficar ao seu lado também, Laura estava feliz, ponto. Beijou o colo dela e foi para o seu banho, no caminho checou seu celular.

 

Eram nove da manhã em Londres e cinco da manhã no horário de verão brasileiro.

 

“Você vai em Camden Town comigo, não vai?”.

 

Laura abriu um sorriso só com a introdução da mensagem de vídeo. Viu que Ívi estava saindo de algum lugar, provavelmente do apartamento de Noah, ainda não estava superando aqueles piercings.

 

— Deveria fazer um, sabia? — Ela lhe disse quando Laura retornou a ligação por vídeo — Em Camden Town! Faz um móvel, amoriño, no nariz, vai ficar linda demais.

— Ívi, olha pra mim, acha que eu tenho estilo para isso? — Perguntou sorrindo.

— Estilo para qualquer coisa, mí amor, para qualquer coisa que você queira, vai ficar linda de qualquer jeito até mudando de rosto se você mantiver a mesma alma — Ela lhe disse da maneira mais doce — Eu já estou com saudades. Não quero te pressionar com o meu sentimentalismo, mas eu estou mesmo e precisava dizer.

 

Laura lhe sorriu. Falou com ela um tempinho mais e entrou na banheira, que ficava entre duas paredes transparentes, um privilégio só. E Kelsey apareceu.

 

— Ei, meu bem — Ela veio e lhe beijou, muito doce, muito carinhosa.

— Você acordou — Laura a cheirou com carinho — Vem, entra aqui comigo.

 

Ela entrou e tomaram um banho muito gostoso juntas enquanto Kelsey lhe contava a agenda dela daquele dia.

 

— Eu não vou poder almoçar com você, mas te pego pra gente jantar.

— Sem problemas. Eu acho que vou almoçar em Camden Town…

— Ah, em Camden Town, senhorita.

— E depois vou fazer aquela tour…

— Do Jack, o Estripador! Laura, você é muito esquisita às vezes… — Ela lhe disse rindo demais.

— Eu sei, por isso nem te peço para ir comigo, não tem problema — Respondeu sorrindo também.

— Ívi pode ir com você, não tem problema nenhum. Aliás, como ela está? Não tenho tido tempo de falar com ninguém.

— Ah, ela está bem, as coisas estão dando certo com a Julia, elas estão trabalhando muito e, acho que a Ívi está namorando.

— A moça do estaleiro?

— Ela mesma. Quero dizer, elas estão ficando há duas semanas, caracteriza namoro, não é?

— Nas minhas regras e nas suas sim, nas regras dessas pessoas modernas eu não sei não…

 

Terminaram o banho juntas, tomaram café nas alturas, Laura agradeceu a Kelsey mais uma vez pela noite, pelo dia, por aquela experiência, por todas as coisas. Foram pra casa, onde Kelsey trocou de roupa correndo e a beijou saindo, dizendo que já estava atrasada e Laura…

 

Laura decidiu ir a caráter para Camden Town.

 

Calça preta justa, rasgada, uma renda sexy escapando pelo cós da calça, preta, transparente, camiseta branca, deixando ver parte do abdômen, botas de salto nos pés, jaqueta de couro por cima, cabelos soltos, óculos escuros e ok, estava pronta!

 

Pegou o metrô e assim que desceu da estação, só conseguia pensar em como Ívi adoraria aquele lugar! Era o bairro punk de Amy Winehouse, tão cheio de contraversões e cores para todos os lados, era o lugar dos cabelos coloridos, dos piercings, das roupas de couro, Laura iria se sentir totalmente fora de lugar se tivesse ido como si mesma ao invés de ir como… Ívi? Andou um pouquinho, viu as lojas específicas de produtos punks com suas fachadas criativas, viu milhares de lojas de tatuagem e a primeira de piercings que viu, entrou, comprou e colocou um, argola, delicado, um nostril bem pequenino que podia remover quando quisesse e só então, ligou para Ívi enquanto caminhava por Camden Lock.

 

E Ívi quase teve um ataque cardíaco.

 

— Meu Deus, Laura Bueno...

— Você gostou? Eu me vesti de você... — Disse sorrindo.

— Não, você se vestiu para me matar, não se vestiu de mim! A Kelsey já te viu? Ela vai ter um ataque, espera, eu vou acordar a Julia...

— Ívi!

— Ela tem que te ver, eu não posso passar por isso sozinha não...

 

Ela chamou Julia, que quase teve uma coisa, porque Laura vestida daquele jeito ganhava quase contornos de fantasia sexual, nunca a imaginaram daquela forma e nem o quanto ela ficaria atraente assim, e aquele piercing... Ívi nem conseguiu voltar a dormir, não dava. Passeou um pouco com ela a distância, ela ia lhe mostrando as coisas, lhe ouvindo vibrar com as botas que eram vendidas ali, as calças, as jaquetas, todo tipo de coisa esquisita e quando Laura contou que iria fazer a tour do Jack, o Estripador, Ívi não acreditou!

 

— Eu vou numa livraria antes e vou te comprar um livro que eu vi, uma coletânea de Penny Bloods que você vai adorar...

— Eu não vou conseguir ler, Laura.

— Vai começar o curso que eu te falei. É importante, Ívi, me promete que vai pensar de verdade?

 

Ívi prometia, qualquer coisa que ela pedisse, ainda mais naquele visual de tirar o fôlego. Laura almoçou, fez a sua tour assombrada e quando Kelsey a encontrou para jantar, ninguém jantou, ela lhe arrastou para o quarto tão imediatamente que acabaram fazendo amor no corredor de entrada, numa intensidade que... Laura ficou toda perdida, Kelsey lhe pegou de uma forma que só tinha imaginado até então. Jantaram em casa mesmo, enquanto conversaram com María por vídeo um pouquinho, ela estava feliz e ansiosa para a chegada de Laura! E parecia muito mais calma, aliviava o coração de Laura vê-la assim.

 

Dia seguinte, Kelsey correndo, Laura a encontrando quando conseguia, outro dia com tempo para pensar, para se encontrar, se entender. Passou uma tarde toda em Sky Garden, um jardim de inverno que ficava no topo de um prédio com uma vista incrível. Apenas foi para lá, passou a tarde provando cafés diferentes e lendo o livro que tinha comprado para Ívi sobre personagens assombrados, e foi nessa tarde que realizou que ficar sozinha consigo mesma era uma das coisas mais raras.

 

Estava sendo bom. Se reencontrar, arrumar a sua mente, ter tempo para si mesma. E seu último dia em Londres terminou com Kelsey lhe levando para um passeio lindo em Berkshire, para conhecer o Castelo de Windsor e foi muito bom. Passar o dia com ela, naquela cidadezinha de cinema, num encontro perfeito.

 

Partiram para Madrid no dia seguinte, num voo logo pela manhã, Laura escreveu uma mensagem para Ívi, dizendo que estava entrando no voo enquanto Ívi terminava de fazer a sua matrícula num curso de inglês. Checou o horário e já estava atrasada! Tinham sobrevivido aqueles dias pós-crise de Karime da melhor maneira possível, tinham feito supermercado, conseguido manter a casa em ordem e, tinham voltado a cozinhar suas próprias refeições e a comerem juntas. O simples hábito de comerem juntas havia as reaproximado e naquele domingo especificamente, tinham decidido fazer um almoço caprichado, para comemorar as conquistas recentes de Julia e Ívi, as boas noites que tiveram e para ver se Karime saía do quarto, ao menos por um pouco. O afundar de Veneza parecia ter reduzido a velocidade, mas não tinham certeza se ainda não estava acontecendo.

 

Tinham chamado Noah e Natalia para o almoço. E Noah ficou de chegar mais cedo com os congelados.

 

Bem, Ívi se atrasou mesmo e Noah era pontual feito uma britânica.

 

Karime foi acordada pelo interfone tocando insistentemente. Abriu os olhos em seu quarto completamente escuro e esperou que alguém atendesse. Tinha perdido a noção exata de que dia da semana era aquele, mas achava que era final de semana e achava que tinha ouvido as garotas falando sobre um almoço. Com algumas pessoas. Interfone outra vez, não, por aquele tanto de toques não tinha mais ninguém em casa. Daí se pôs de pé e saindo de seu quarto pela porta que dava na cozinha, atendeu. A pessoa se identificou.

 

— Noah?

— Eu sou amiga da Ívi, trabalho com ela no estaleiro, ela não está? É que ela tinha marcado comigo para o almoço...

— É claro, você me dá só dois minutinhos? Eu já abro para você.

— Devo ter te acordado, né?

 

Karime sorriu, que voz agradável.

 

— Não faz mal não, eu só preciso me trocar.

— Façamos melhor, eu vou comprar um negócio que eu esqueci e volto em 20 minutos, pode ser?

 

Voz agradável, atitude agradável. Ela foi comprar o que precisava e Karime tomou um banho rápido se dando conta de um dado que particularmente lhe assustou: não havia tomado banho no dia anterior. Não conseguiu sair da cama, não conseguiu se mover, achava que tinha tomado um copo de leite e só, as garotas tinham passado o dia inteiro fora e ela não sentiu nenhuma vontade de fazer qualquer coisa que fosse. Então tomou um banho rápido, mas eficiente, lavou os cabelos, se depilou, escovou os dentes e só de fazer isso, já se sentiu um pouco melhor. Não podia continuar fazendo aquilo consigo mesma. Anotou no quadro em sua parede enquanto se vestia: não podia continuar fazendo aquilo consigo mesma. Tinha que lutar. Se olhou no espelho, achava que tinha perdido peso e não entendia bem as suas próprias motivações. Melhor, a sua falta de motivação.

 

Respirou fundo, se vestiu, um short jeans curto e na hora de pegar uma camiseta, pegou do armário de Laura. Estava sentindo falta dela. Não era o motivo de sua queda, mas não a ter por perto lhe fazia afundar mais rápido. E foi vestir a camiseta e ouviu o interfone tocando novamente. Era a menina de Ívi outra vez. Destrancou o portão, disse para ela subir, ela sabia qual era o apartamento? Sim, disse que já tinha estado ali algumas vezes. Algumas vezes em duas semanas eram muitas vezes, Karime de fato já estava offline por um tempo significativo.

 

Pegou seu celular, checou suas notificações, estavam lotadas, Laura, suas amigas, as meninas do hóquei, elas estavam sendo tão legais que Karime teria que arrumar um jeito de ir lá se desculpar e aceitar voltar para o grupo de onde tinha sido expulsa, e para onde tão insistentemente elas lhe queriam de volta. Mas andava tão ausente de vontades que...

 

A campainha da porta tocou. Foi lá atender e assim que abriu a porta...

 

— Ei, oi! Desculpa, eu sinto muito por ter te acordado! — Ela lhe pediu, da maneira mais simpática possível e Karime estava...

 

Seu coração disparou. Muito forte. Tanto que achou que literalmente sentiu o sangue correndo para se acumular em seu rosto.

 

— Nada, está... Está tudo bem — Achou um sorriso perdido há semanas para pôr no rosto.

— Eu dei uma volta aqui perto e tem um Mcdonald’s, então, para me desculpar por ter te acordado, eu te comprei um café da manhã — Ela lhe entregou uma sacola de papel com o símbolo do Mac Café e Karime estava... Mordeu outro sorriso. Ainda não estava acreditando que era sério. Ou que era real.

— Você... — Apertou os olhos, achando outro sorriso, aparentemente tinha encontrado seu estoque de sorrisos novamente — Me desculpe, entra, por favor, me deixe te ajudar com essas sacolas... — Ela estava cheia de sacolas.

 

Pegou algumas sacolas da mão dela. Pegou os olhos dela lhe olhando bem de perto.

 

— Você é a Karime, então.

— Karime, isso.

— Eu sou a Noah.

 

Noah.

 

Finalmente ela tinha um nome.

 

Era a garota do ponto de ônibus.

 

Notas do Capítulo:

 

Olá, meninas!

 

Enfim, de volta às notas novamente ^^.

 

As últimas semanas têm sido bem intensas para mim, pelas minhas contas deve ter sido mais de dez trechos de voos em um mês, o que é maravilhoso tanto pelas cidades por onde passo, como pelos trabalhos que estou desenvolvendo, tanto pelo amor encontrado nessas pontes aéreas malucas, coisa de quem é filha da floresta (esta mesma que infelizmente andam queimando :/) e precisa atravessar o país para chegar em qualquer lugar que seja. Isso tem um preço, é claro e o último precinho pago quase que foi meu notebook, com os últimos capítulos de 6 AM ainda não salvos online haha. Em um dos últimos trechos desta semana acabei esquecendo notebook e passaporte em um dos aviões e foi aterrorizante as horas até me devolverem meus capítulos, ops, meu notebook haha.

 

Isso abriu uma janelinha aqui na minha mente sobre foco e cansaço mental, voltei determinada a colocar minha vida de volta nos horários e isso inclui conseguir fazer as postagens sem correria. Como Ana disse a vocês, estaremos de férias em setembro e teremos que dar uma reduzida nos capítulos, até mesmo porque, ainda faltam a mim escrever os últimos capítulos e isso me dará uma margem para que eu possa me reorganizar direitinho ^^. Então, 1 capítulo por semana no mês de setembro e logo voltamos ao normal, porém, como vocês mesmas poderão constatar, estaremos tendo quatro capítulos de, em média, 16 páginas de word (geralmente são capítulos de 10 páginas), então podemos dizer que ainda assim, teremos um capítulo e meio por semana dado o tamanho do texto 😊.

 

Ops, isso ficou enorme haha. E nem tem spoilers, né? Eu sei, sinto muito, sou terrível para contar as coisas, maaaaaas, aqui estamos, quem apostou que Noah seria a menina da Karime levanta a mão! Próximo capítulo, “Noah” e quem sabe o que irá acontecer? Grandes momentos estão vindo!

 

Bali também e o livro ficou lindo!!!

 

Ótimo domingo a todas!

 

Beijos!

 

Tess

 

 

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