6 AM - Capítulo 28 - Revival

22/9/2019

 

 

 

 

 

O encontro com Alejandro deixou suas duas filhas meio sem saber bem o que estava acontecendo, então Kelsey sentiu que precisava agir. Quebrou todos os gelos, enxugou as lágrimas, sentiu a pressão da mão de Laura agarrada na sua e com toda a sua liderança inerente de capitã, convidou os envolvidos para uma conversa em outro lugar que não fosse o estacionamento lotado do Madrid-Barajas. Sentiu o quanto María estava assustada, o quanto Laura estava surpresa, mas Alejandro apenas concordou e as garotas se sentiram mais seguras de irem com Kelsey por perto.

 

Foram até uma cafeteria, na clássica e antiga Madrid, para terem uma conversa muito sem jeito de ser iniciada. Laura e María tinham ido se falando todo o caminho no banco de trás, conversando baixinho, em catalão, Kelsey achava que era, e Alejandro dirigia para a cafeteria. Mas depois que estavam na mesa, um silêncio estranho reinou e logo ficou claro o motivo: Laura e Alejandro precisavam antes de tudo, conversar sozinhos. Foi quando Kelsey propôs que fosse lanchar em outra mesa com María, perto o suficiente para interferir caso fosse necessário enquanto Laura e Alejandro tinham aquela conversa que nunca tiveram a chance.

 

— Laura, eu... Eu sinto muito por como as coisas terminaram entre a gente. Eu tenho pensado muito, principalmente por causa dos problemas que a María anda se envolvendo, que o jeito que eu guiei as coisas naquela manhã de forma nenhuma foi o mais adequado. Eu demorei para entender, mas hoje eu consigo ver as coisas de um outro jeito. Perder a Claudia de maneira tão violenta não era algo que eu esperava depois de ter perdido a mãe da Julia, eu já não estava muito bem e não soube lidar com a perda. Nem com a ausência de respostas. Eu tive muito medo, tive um grande sofrimento, achava que não ia conseguir superar, criar a María sem falhar, apoiar você e a Julia, alimentar as três, manter o nosso padrão, muitas coisas. Eu estava à flor da pele aquela manhã e quando eu vi você e a Julia...

— Alejandro, você não precisa me explicar nada sobre isso, nada. Eu não posso exigir que você compreenda o que viu, ou que compreenda a minha relação com a Julia naquele momento porque foi algo que eu mesma levei muito tempo para entender. Eu não exijo isso de você. Eu só sinto muito que a gente não tenha chegado a uma outra conversa depois daquela cena.

— Eu também sinto muito. E comecei a sentir ainda mais depois que a Julia foi embora do jeito que foi. Eu não soube como manter as coisas no lugar depois que você foi embora, Laura. Foi como perder a sua mãe outra vez. Eu não tinha controle sobre a Julia, não sabia como cuidar da María, as coisas ficaram uma bagunça aqui e comecei a só sentir a sua falta. A esquecer tudo e só ficar com a falta — Os olhos dele se encheram — Para saber da minha filha eu preciso entrar no Youtube, Laura, você faz ideia do que é isso?

— Na verdade, eu sei. O nosso rompimento me obrigou a fazer o mesmo com a María, principalmente quando a Julia foi embora daqui.

 

Ele a olhou.

 

— Me desculpe pelas agressões daquela manhã.

— Me desculpe pelas agressões daquela manhã também. Aquilo nunca deveria ter acontecido, mas eu me apaixonei. Um amor profundo, um dos sentimentos mais bonitos que eu já senti. E sei que você não tinha como ter visto assim. Naquela cena você só viu a minha traição e o desrespeito à sua casa.

— A casa era sua. Era da sua mãe, portanto, sua. Mas a filha era minha e eu sequer fazia ideia de que ela... Bem, é gay. Foram várias coisas juntas. E eu só quero que você pense em como seria se ao invés de mim, fosse a María a entrar no seu quarto. Porque ela sempre ia acordar você.

— Eu sei. Eu sempre pensava nisso.

— Ela não viu. Mas viu a nossa briga, viu as agressões e eu sei que tudo o que está acontecendo agora, é fruto daquela manhã, em que a família que tinha restado a ela se atacou e essa culpa é minha. Ela me odeia por ter mandado você embora. Me odeia porque a Julia foi embora. E eu não sei o que fazer, não sei como me aproximar e...

 

Laura pegou a mão dele sobre a mesa.

 

Você se aproximou de mim. Acabou de aproximar.

 

Tinha aproximado, era verdade.

 

Conversaram um pouco mais, se pediram mais algumas desculpas, choraram um tanto mais juntos enquanto Alejandro lhe contava seus medos, suas dificuldades e a realidade de María agora.

 

— Eu estou em um relacionamento e ela a odeia. É claro que odeia. Não deixa ninguém se aproximar, bate portas, foge da escola e você sabe que ela herdou mais do que os seus olhos. Ela é extremamente inteligente, Laura, é como você. Se ela não quer que eu saiba, eu não sei, se ela quer escapar dos meus olhos, ela escapa, ela me manipula, me convence, me derrota e tem aquelas defesas mentais que você também tem: a sua mente é intransponível. Era o que sua mãe vivia me dizendo, que ela nunca conseguia entrar na sua mente e descobrir o que há aí dentro. María é como você, eu não consigo vencê-la, lidar com ela, estar no comando. Vocês são muito boas em manter o controle.

 

— Ela tem treze anos, Alejandro.

— Você com dez salvou uma garota de um acidente de trem.

 

Laura deu de ombros.

 

— Se eu fosse tão boa em manter o controle, não teria me envolvido com a Julia da forma que me envolvi. Você ainda acha que eu a manipulei.

 

Alejandro a olhou.

 

— Você é inteligente, mas é uma boa garota, inclusive, depois que tudo passou, eu me dei conta que apesar da sua inteligência blindatória, é muito comum que você acabe do outro lado, sendo manipulada ao invés de manipular. Quando alguém te alcança nos sentimentos, é o que geralmente acontece. Porém, neste momento, María tem a sua inteligência, mas não as suas fragilidades. No lugar de fragilidades, ela tem algumas más intenções que eu não sei como gerir.

 

Laura ficou olhando para ele. Porque era real quando diziam que apesar de inteligente, Laura era enrolada com muita facilidade. Olhou para María conversando, sorrindo com Kelsey, uma menina de treze anos empolgada com uma campeã olímpica. Então olhou para Alejandro, o homem que tinha lhe expulsado de casa há cinco anos.

 

— Você diz que ela só te deixa saber o que ela quer, porém, você a seguiu até aqui.

— E você acha que ela não queria isso? O nosso encontro?

 

Laura olhou para María novamente. Respirou fundo.

 

— Ela continua tendo só treze anos. Escuta, eu vou ficar por alguns dias, você permite que eu fique perto dela esses dias? Pra gente conversar, para eu tentar entender o que anda acontecendo com ela.

— Fique com ela o tempo que você quiser, eu não vou me opor.

— Então, ela pode ficar com a gente por esses dias? — Kelsey estava perto o suficiente para ouvi-los. Usou seu melhor espanhol para falar com Alejandro.

 

Alejandro olhou para ela.

 

— Com vocês?

— Nós vamos ficar num apartamento, você pode ir conosco para conhecer, ver onde fica, pode ficar com os nossos contatos. São cinco anos.

 

Ele pareceu pensar. E meia hora depois, estavam todos juntos no carro novamente, em direção a casa onde em uma manhã de inverno, Laura tinha sido expulsa como se fosse ninguém.

 

Ela sentiu antes de entrar, Kelsey sabia que tinha sentido. A mão agarrada a sua tão forte enquanto Alejandro e María iam na frente, Alejandro falando, María empolgada em correr ao seu quarto e fazer uma mochila para passar uns dias com a irmã, mas Laura estava sofrendo um pouco. A casa antiga de pedra e madeira era o tempo mais feliz que havia tido. A sala de piso de pinho era María chegando da maternidade, o bebê mais lindo do mundo, a cozinha clean e moderna era sua mãe cozinhando aos domingos porque ela adorava cozinhar para as filhas, o quintal com cerca de madeira era Alejandro lhe ajudando a treinar, vibrando com suas conquistas e o seu quarto…

 

Foi quando desabou. Na porta do seu quarto e nos braços de Kelsey, a abraçando forte, escondendo o rosto em seu ombro porque não queria que lhe vissem chorando. Seu quarto era Julia e todo o amor que tinha nascido, era o namoro escondido e a primeira vez daquela menina que tanto amou e amava. E era toda a quebra e a dor. Era onde estava de castigo quando soube da morte da mãe e onde Alejandro a pegou com Julia na cama. A casa não era apenas uma casa. Era suas dores, lembranças, amores e arrependimentos.

 

— Laura, eu acho que você tem que entrar — Era Alejandro atrás delas, no corredor dos quartos.

— Por quê?

Porque eu só me curei quando entrei. Entra. Fica o tempo que precisar. E quando sair, eu acho que, não sei, sabe os abraços que você me dava sem nenhuma justificativa?

 

Ela sabia. Eram os abraços de “obrigada por cuidar de mim, obrigada por ser meu pai”, Laura não era boa dizendo, mas era boa em outras coisas.

 

— Eu vou ajudar a sua irmã — Kelsey lhe disse — E acho que você deveria entrar também.

 

Ele desceu, Kelsey foi ajudar María, Laura ficou na porta do seu antigo quarto.

 

Entrou.

 

Se iria curar não sabia, mas entrar em seu quarto e vê-lo arrumado como no dia em que partiu, lhe fez sofrer como há muito tempo não sofria. Sua cama, suas coisas, inclusive, suas roupas ainda estavam no armário, não era por cuidado, era apenas porque Alejandro não foi capaz de se desfazer ou empacotar as coisas. Ele era desses homens que não entendiam bem o conceito de lar, não foi por carinho, foi por não saber o que fazer com as coisas. Ou com as lembranças, não sabia. Tudo estava limpo e no lugar, talvez houvesse alguém que fizesse a limpeza. As fotos intactas, de sua mãe, de Julia, de María pequena, de sua família. Laura nunca se perdoou por ter arruinado a família que amava.

 

Mas agora…

 

Ligou para Julia, por vídeo.

 

— Ei… — E os olhos de Julia se encheram imediatamente ao ver onde Laura estava — Laura, você…

— Eu acho que a gente precisa ter aquela conversa aqui. Aquela que a gente nunca teve. Em que eu admito, em voz alta e clara para você que… — A voz de Laura quebrou, ela se sentou na sua antiga cama — Você foi minha. Minha namorada, meu amor, a menina que roubou o meu coração, o meu discernimento e me deu uma das coisas mais bonitas que eu já senti na vida — Veio a primeira lágrima enquanto Julia teve que se afastar por já estar chorando demais. Entrou no banheiro, estavam quase saindo para a praia — Eu nunca tinha te olhado de outra maneira, mas eu nem acho que era por nada, talvez fosse porque você era muito nova, talvez eu fosse começar a te olhar diferente, mas só mais tarde, sabe? Porém, quando você me beijou lá naquela festa, tudo mudou. Algo destrancou na minha mente, foi o que eu sempre te disse, mas nunca mencionei o nome deste algo: é paixão. Você me beijou e eu me apaixonei, pronto e imediato. Eu não podia dormir pensando em você, querendo você de novo e depois disso, cada vez que você chegava perto de mim… Eu não conseguia não te tocar. Não conseguia não querer você ou querer qualquer outra coisa, outra pessoa. Foi muito forte, Juls — Confessou, olhando naqueles olhos que adorava — Foi muito bonito. Eu gostaria que algumas coisas fossem diferentes, mas nunca quis não ter você, nunca quis que não tivéssemos acontecido. Eu ficava mal pela nossa configuração, mas aqui na minha cabeça, deitada nessa cama, sozinha e em segredo, eu fiz mil planos para nós duas no futuro…

 

Julia fechou os olhos sorrindo, o rosto sendo molhado de lágrimas imparáveis.

 

— Eu achava que teríamos um futuro juntas. Se conseguíssemos sobreviver a isso aqui, a morte da mãe, ao pai, a fase difícil da María, os problemas de nós duas, eu achava que poderíamos recomeçar. Na Galícia que fosse — Laura limpou uma lágrima sorrindo — Ou em outro lugar, lembra como você queria voltar para Londres?

— Porque aqueles dias com a mãe lá foram… Perfeitos — Mais lágrimas — Eu só queria que tivesse sido sempre assim.

— Eu também queria, mi vida. E queria uma história bonita para nós duas igual a nossa primeira vez, ou ao amor que nós vivemos, o nosso romance, era isso que eu queria. Mas não deu, Julia. Era muito difícil que desse certo, você sabe disso. Você e eu nesta configuração podia ferir muitas pessoas.

— E feriu muitas pessoas, eu sei disso.

— E depois que feriu, quebrou. Eu não consegui mais consertar o sentimento. Sabe quando você faz alguma coisa e fica com tanta vergonha que só quer esquecer que aconteceu? Eu fiquei assim. Mas não tem a ver com o que eu sentia por você que era lindo. Era apenas com o contexto em que nós duas estávamos inseridas. Então eu decidi te ligar para dizer que sim, você não sentiu nada sozinha, eu fui louca por você, apaixonada, te amei tanto que doía, eu só te queria, tanto que mal conseguia dormir ou respirar direito longe de você — Laura respirou fundo, soltando o ar e alguns sentimentos — Outra coisa, doeu muito quando nos separamos. Doeu te ver com outras meninas, doeu ficar longe de você, eu sofri de uma forma que te daria pena, mas eu não disse nada. Não queria te confundir porque eu sabia que a nossa relação nunca mais poderia ser por inúmeros motivos. Mais uma coisa, eu te amo. Te amo agora, neste momento, nesta vida, no presente. Mas não é mais como namorada, porque nós nos ferimos, doeu, a ferida fechou, não há como voltar atrás. Porém, nós temos laços indestrutíveis, temos a María e o que nós sentimos uma pela outra, temos a nossa história que começou lá naquele trem e não acabou porque nós nos amamos, Juls. Mas é de outra maneira, e a minha necessidade de ficar perto de você é...

— A gente se precisa, eu sei. A última coisa que eu quero é te afastar de mim, te perder de verdade e... — Julia puxou o ar profundamente — Eu sei que já me comportei muito mal com você, sei que te feri e te forcei em algumas situações, e sei que nem assim, você me considerou nociva em nenhum momento. Você sempre me entendeu. Eu que falhei nisso.

— Talvez porque eu te atrapalhei por um tempo, te confundi, não sei, isso não importa agora. Juls, nós terminamos aqui, de vez, de verdade. E pra mim é simbólico que seja nessa cama em que você me deu a honra de ser minha, mi vida — Lágrimas, dos dois lados do vídeo — Terminamos como namoradas e eu quero que você saiba claramente que você é livre para ter um romance novo com quem quiser que você não vai me perder, que isso não vai nos afetar de forma alguma. O que nós tivemos é intocável, foi lindo, nós duas temos que guardar para sempre. Mas hoje, o que nós temos é a nossa família, o nosso laço, o nosso fio. Desculpa não ter dito nada disso antes, mas eu não sabia como dizer. Lo siento, Julia, lo siento. Mas agora eu sinto que preciso mesmo renascer.

 

Revival, sim. Porque às vezes, Julia pensava que a sua Laura tinha morrido junto com a mãe. Mas era um engano, era apenas um engano.

 

Houve mais lágrimas e outras declarações de amor e compreensão seguida de pedidos de desculpas. Lembraram de como tudo havia sido bom e bonito, e se sorrindo, se juraram ir em frente de verdade. Aceitaram a última cama e o último beijo. E se disseram claramente os sentimentos que estavam nascendo por outras pessoas.

 

Os sentimentos de Julia não guardavam tanta surpresa quanto os sentimentos de Laura.

 

Desligaram uns trinta minutos depois. Oito anos de relacionamento encerrados em trinta minutos e Julia estava...

 

Ligou para Karime.

 

— Vem no banheiro.

— Quê?

— Só vem, por favor, vem.

 

Karime foi. Meio sem entender coisa nenhuma, mas foi porque o tom na voz dela estava confuso e choroso. Entrou no banheiro e Julia estava sentada num canto com os olhos vermelhos de tanto chorar. Porém, ela estava sorrindo.

 

Juls...?

— Vem aqui, perto de mim, por favor — Esticou a mão para ela que veio para perto imediatamente.

— Ei, o que te aconteceu? — Beijou a mão dela sorrindo.

Você é uma mulher maravilhosa — Disse, só para começar — Você é gentil, inteligente, divertida, é uma garota forte, corajosa e eu nem vou citar o quanto você é linda, porque isso, meu Deus, ninguém precisa citar, né...

Juls... — Karime estava sorrindo, que ataque de doçura era aquele? — O que você precisa me dizer? Me diz, meu bem.

Cariño, o que eu preciso dizer é que... — Respirou fundo, beijou a mão dela com carinho, olhando naqueles olhos castanhos — Não existe nenhuma razão lógica para eu não ter me apaixonado por você. E também não tem razão química e nem física, porque a gente se deu bem desde o começo em todos esses aspectos. Eu não sei por que não aconteceu e eu sei que isso não é unilateral: você também não se apaixonou por mim. E é por isso que não teríamos futuro namorando.

 

Karime a olhou nos olhos. E sorriu.

 

— Estamos terminando, não é? Aquilo que nem começamos.

— Mais ou menos isso — Julia sorriu também, ainda com a mão dela dentro das suas — Aconteceu uma coisa esquisita, eu acho que estou apaixonada pela Thai... — Disse, a fazendo rir demais.

— Ah, uma coisa esquisita, entendo. Eu tenho que te contar outra coisa esquisita, ela também está apaixonada por você — Outro sorriso — O que deixa tudo mais esquisito ainda, eu sei que este é um problemão, não é? — Mais riso de Julia entre o choro que ainda não tinha cessado — Juls, vocês estão apaixonadas uma pela outra e eu não vejo a hora de vocês darem certo, de verdade — Agarrou as mãos dela contra o seu peito, olhando naqueles olhos de pôr do sol — Eu amo você, Juls. E amo a Thai também, o que nós três tivemos chega a ser romântico de tantos sentimentos envolvidos, foi meu melhor relacionamento e eu quero que você saiba que a felicidade de vocês não vai me afetar negativamente. Nada pode me afetar negativamente neste momento além de mim mesma. Nem você, nem a Thai, nem ninguém deve se sentir refém desses meus sentimentos sem sentido, desse céu escuro que não clareou mais. Mas vai clarear. Eu sei que vai. Olha pra mim — Julia olhou — Você pegou a escapatória que a Laura encontrou.

 

Julia sorriu, sentindo os olhos se enchendo outra vez.

 

— Ela me pediu para renascer. Eu também preciso, eu quero, eu estranhamente me sinto livre agora, tem uma paz, eu não sei te explicar. Eu amo muito você, menina, e não quero que a gente se perca por nada.

— É lógico que não vamos nos perder, nem nos separar, só... Separar os sentimentos. Juls, eu também quero renascer. Eu preciso renascer. Eu só não sei por onde começar.

 

Laura começou descendo as escadas, correndo para a sala, andando com passos firmes em direção aos braços de Alejandro.

 

Longo abraço, longo choro, longos sentimentos, longo perdão, bilateral.

 

Ívi viu Karime escapando do banheiro e voltando para o seu quarto. E então notou que Julia ainda estava lá dentro. Decidiu ver o que estava acontecendo. Entrou e a encontrou lavando o rosto, respirando fundo e Ívi perguntou o que se passava.

 

— Ah, Ívi... Eu acabei de terminar dois namoros.

 

Ívi sorriu e a abraçou, muito carinhosa.

 

— Como assim dois namoros, Torre del Mar?

Laura. Karime. Lembra de quando você fala da ferrugem que consome de dentro pra fora? Acabou a ferrugem.

— E como você se sente?

 

Ela abriu um sorriso.

 

Nova.

 

Ívi beijou a testa dela e limpou as lágrimas que ainda caíam apesar do sorriso. Não adiantou muito, saíram do banheiro e Julia ainda estava chorando, e foi vê-la daquele jeito e Thai correr para buscá-la.

 

— Ei, Julia, ei — Tocou o rosto dela com carinho, a sentindo se agarrar inteira pelos seus braços imediatamente — Juls, o que foi? — Mas ela não conseguiu responder, apenas se agarrou em Thai mais forte ainda, que a guardou com carinho, a mantendo muito junto a si. Daí Thai olhou muito feio para Ívi — Ívi, o que você fez? — Perguntou muito inquisitiva.

— Eu não fiz nada — Respondeu, erguendo as mãos sorrindo, declarando inocência.

— Ela está chorando! Juls, o que aconteceu? — Tocou o rosto dela novamente, buscando aqueles olhos bonitos, mas ela não conseguiu responder novamente. Daí olhou para Ívi de novo — O que a Laura fez?

 

E Ívi sorriu novamente.

 

— Por que tem que ter sido a Laura?

— Só ela faz a Julia chorar assim.

— Você também faz — Julia respondeu, entre soluços.

— Eu também faço? Meu bem, eu não fiz nada para você...

— Você não quer mais ficar comigo, isso me magoa, eu gosto de você, sabia?

 

Thai a olhou nos olhos.

 

Julia.

— A Laura me fez chorar, mas você me magoa também...

 

E Thai a beijou, de surpresa e longamente, cheia de cuidado, apego, carinho, deixando Julia... Sem ar, meio tonta, poderes de Thai. Eram sempre os melhores beijos, aqueles inesperados que ela lhe dava sem motivo nenhum e agora que fazia tantos dias que... Julia se agarrou nela, nos braços dela, a mantendo muito perto.

 

— Para de chorar, está bem? Para de achar que eu não gosto de você.

— Thai...

— Meu bem, para de chorar primeiro. Hum — A olhou nos olhos, a puxando para pertinho — Para de chorar que eu odeio quando você chora. Vem cá, eu vou pegar uma água para você...

 

Ívi sorriu, porque eram a coisa mais doce. Renascer, revival, secretamente se questionou que efeito aquele término poderia ter sobre Laura.

 

Karime havia acabado de entrar no quarto quando ouviu batidas em sua porta. Ninguém batia na porta naquela casa, só podia ser uma pessoa. Se olhou no espelho rapidinho, se envergonhou do seu quarto bagunçado de dias, mas abriu a porta de qualquer forma.

 

— Você vem com a gente para a praia.

— Noah, é que...

 

Ela lhe olhou nos olhos.

 

— Eu quero te levar num lugar...

— Na praia.

— É claro que não é só na praia — E apoiada na porta e olhando com aqueles lindos olhos verdes, Noah completou — Eu quero te levar no lugar do nosso primeiro encontro... — Com aquele sorriso lindo, fazendo Karime se derreter inteirinha. Se encostou na porta também, olhando-a bem de perto.

— A Ívi falou com você?

— Eu falei com ela antes, porque eu tinha certeza, mas não tinha certeza, já que eu estava muito abalada aquele dia, mas sim, eu soube assim que você abriu a porta, então... — Ela lhe olhou, apertando os lábios — Obrigada. De novo, decentemente, olhando nos teus olhos. Muito obrigada por aquele dia.

 

Karime a olhava, sorriso constante, então ela sabia.

 

— Não precisa agradecer.

— Bem, você deveria me deixar tentar.

— Você me comprou café esta manhã — Outro sorriso.

— Me deixa te comprar outro sorvete. De creme, é o seu preferido — Mais sorrisos, porque, sério que ela lembrava do seu sorvete preferido? Ela tinha lhe comprado um sorvete enquanto caminhavam para a casa do seu ex-namorado, Noah comia quando estava nervosa.

— Eu acho que com um outro sorvete estará agradecido.

— Eu também acho. Então, será que você pode pôr um biquíni e ir com a gente?

 

Karime respirou fundo. Podia. Achava que podia sim.

Laura só acreditou quando entrou no apartamento que tinham alugado com María do seu lado. Então ela saiu correndo para ver todas as coisas, a vista, a varanda, a piscina interna no canto da sala e Laura ainda não estava acreditando naquele dia. Nem em Kelsey. A abraçou, muito forte, muito agradecida.

 

— Como você...? Como você convenceu ele?

— Ele queria a sua confiança, eu dei a ele a chance de te provar que não era apenas uma cena. Ela fica com a gente, você mata a saudade, descobre se está tudo bem com ela. De qualquer maneira, ele me pareceu sincero e emocionado de verdade com você.

— Eu também fiquei e baby, eu estou uma tonelada mais leve. Leve por estar com a María, por ter falado com o Alejandro, ter conversado com a Julia como deveria, você não faz ideia — E então agarrou os olhos nos olhos dela — Mas eu não sei como teria sido se você não tivesse aqui.

 

Kelsey sorriu, a abraçando, a guardando em seus braços plenamente.

 

— Eu estou aqui por você, meu bem. Quando a gente chegou em Londres eu tive algumas conversas com a Julia que foram bem pertinentes, sobre te cuidar, dividir algumas responsabilidades com você, porque você é complicadinha e não se deixa ser cuidada facilmente — Disse, fazendo Laura sorrir — Mas de qualquer forma, eu estou aqui. Escuta, eu conversei muito com o Alejandro enquanto você estava lá em cima, disse quais eram as suas intenções, me perguntou de você, da Julia e eu perguntei a ele da possibilidade da María ir para a Itália com a gente no final de semana...

— Itália?

— Eu não te disse que a gente ia na Itália?

— Que talvez fossemos para a Itália! Mas não me deu certeza.

—  Nós vamos, para Milão onde mora a minha bisavó, a minha família é enorme na Itália, a casa está sempre cheia, eu tenho muitas primas da idade da María, pode ser bom para ela, a sensação de família de novo, sabe? E, eu também quero ver a minha irmã.

— Irmã?

— Eu não te disse que a minha irmã estava na Itália?

 

Laura apertou a expressão. Irmã?

 

— Você nunca me disse que tinha irmã, Kelsey — Abriu um sorriso.

— Bem, é que é tanta coisa, eu devo ter esquecido. Ela se chama Hanna, está morando com a minha bisavó para aperfeiçoar o italiano dela, a gente não se vê, sei lá, têm uns três anos e já que nós estamos tão perto, por que não? O que você acha?

 

Laura a beijou, a mantendo muito perto.

 

— O que você quiser, meu bem. O que você quiser.

 

Notas do Capítulo:

 

(Meninas, achei o capítulo certo hahaha, ignorem o anterior, já o trago de volta, está bem? Vamos pôr na conta das conexões aéreas ^^)

 

Hola, chicas, como están?!

 

Escrevendo diretamente de inacreditável parque em Barcelona ♥️. Um lugar lindo, cheio de verde e com patos que me lembram a vinícola de Havana 🦆🦢❣. A cidade é linda e artística, cheia de arte e cafés, algo virá daqui, certeza que virá!

 

Agora vamos falar do capítulo de hoje!

 

Meninas, preciso confessar que este capítulo é um dos meus preferidos, porque acho que ele explica a Laura demais. Sei que tenho o hábito não intencional de criar protagonistas com risco de "antipatia" meio alto. Aconteceu isso com Diana de Delirium, aconteceu com Rafaela de Sal (Que era adorável demais na verdade, e isso gerou antipatia por ela logo no começo), e esta característica começou a me preocupar tanto que trabalhei seriamente nela e em Havana, consegui uma protagonista que despertava paixão imediata (Havana Exposto) e o mesmo se passou com Chloe de Bali, ou seja, esta autora aprendeu algumas lições haha. Mas ao mesmo tempo, quando comecei 6 AM, senti que precisaria retornar para onde Diana e Rafaela nasceram para que Laura se tornasse a mulher que eu precisava que ela fosse. Começamos com uma protagonista bonita, simpática, com um ato nobre demais, mas aos poucos, a indecisão e a frieza dela começaram a incomodar que eu sei. Incomodou mais ainda o fato dela ter decidido seguir com Kelsey para Londres, mas ao mesmo tempo, eu não consigo pensar em nada melhor para entender e resolver Laura Bueno do que esta viagem. Era necessário, para Laura se desfazer, se refazer, se curar, se entender. Era necessário para que ela renascesse de verdade, que se resolvesse com seu passado e o resultado parcial, é este capítulo aqui. Espero que tenham sentido a emoção que eu senti ao escrever a cena de Laura e Julia terminando um grande amor em prol de outro, que é o irrevogável amor familiar que elas tem uma pela outra.

 

Temos mais, tá? ^^ Próximo capítulo, "Frios Cruzados", a ser publicado no próximo domingo caso a meta seja alcançada.

 

Abraços calorosos de Barcelona! Ich vermisse dich schon! (Já treinando meu alemão para Áustria) Haha

 

Beijos!

 

 

 

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