6 AM - Capítulo 40 - La Cruz del Mapa

22/12/2019

 

Laura acordou sozinha. Bem, quase sozinha, o sol estava entrando pela janela e tinha uma rosa vermelha ao seu lado na cama. Abriu um sorriso, pegou a rosa, se vestiu, colocou um roupão e, uma margarida no chão, perto da saída do quarto, uma flor de lavanda no corredor apertado, foi as juntando, um girassol mais perto da sala e na mesa da cozinha, haviam duas flores: uma flor de maracujá nas mãos de sua Ívi.

 

Ela estava linda, de bermudinha e camiseta branca, e veio buscar Laura, lhe pegando pela cintura, lhe roubando cheiros e sorrisos, a apertando em seus braços porque meia hora longe dela já era tempo demais. Abraçou sua Laura toda quentinha, toda cheirosa e lhe mostrou a mesa surreal de café da manhã!

 

 — Cadê todo mundo, mi amor?

— Todos na praia já, este café da manhã é só seu, amoriño.

— Como assim só meu? Tem tapioca, pão, bolo de rolo, bolo de cenoura…

— Só seu, melhor, nosso, não é? Senta aqui, vamos tomar café juntas que já estamos quase atrasadas.

— Atrasadas para…?

Para os nossos dias no paraíso.

 

Tomaram café juntinhas, depois Laura entrou no banho, se vestiu e era hora de ir, para aquele lugar em que Ívi se recusava a lhe contar! Foram andando, ela disse que a praia era pertinho, falaram com a família dela na areia e Ívi se despediu dizendo que voltava em alguns dias e, puxou Laura em direção ao mar, já estavam indo.

 

— Ívi…?

Amoriño, você lembra daquele iate ali?

 

Tinha um iate ancorado no final do píer.

 

— “Singularidade” — Era o nome do iate — É da Heidi?

 

Ívi a abraçou por trás.

 

— É da Heidi. Mas será nosso pelos próximos dias…

 

Laura ainda não estava acreditando! Mas como Ívi lhe levou pelo píer, como ela falou com o capitão e recebeu as chaves das mãos dele…

 

— Ívi, nós vamos ficar aqui sem piloto?

— Laura, eu sou fuzileira, esqueceu? Eu tenho carta para embarcações… — Respondeu, a levando para dentro, vendo aquele sorriso brilhando demais.

— Então seremos só nós duas…?

— E este mar tão azul quanto o do Caribe, amoriño — A abraçou pela cintura, a grudando contra si — O que você acha?

 

Achava que estava sonhando. E que não ia sobreviver muito bem ao charme que era Ívi pilotando aquele iate, de biquíni, óculos escuros, falando termos técnicos no rádio, ah, não, não ia conseguir com ela! Navegaram por duas horinhas mais ou menos, curtindo aquele mar irreal, se deslumbrando com as praias e Ívi lhe informou que estavam no limite entre Alagoas e Pernambuco.

 

— O que acha de a gente almoçar aqui?

— Ívi, olha isso! Olha essa cor, essa água, aquela praia!

 

Ívi a abraçou por trás, lhe beijando o ombro e sorrindo.

 

— É Porto de Galinhas, bebê. Vem, vamos ver como funciona a cozinha desse iatezinho aqui que eu enfim vou te contar nossa rota de navegação…

 

Foram para a cozinha juntas e Ívi tinha pensado em todas as coisas, cardápio para cinco dias, rotas de abastecimento, água, toda e qualquer coisa que Laura pudesse imaginar, e o iate era uma graça! Tinha sala de estar conjugada na cozinha, um quarto pequeninho, mas muito confortável, tinha deck aberto onde poderiam pegar sol, uma rede de proteção dentro d’água para relaxarem e Laura ainda não estava acreditando! Mas Ívi lhe contou tudo direitinho enquanto almoçavam, vendo as águas inacreditáveis de Porto de Galinhas brilhando ao redor de si.

 

— Foi ideia da Heidi! Ela me ofereceu o iate quando eu contei que tinha carta marítima, ela é esquisita, mas é uma garota muito legal, Laura, cansada de pessoas querendo tirar alguma vantagem dela o tempo todo. Você tinha que ver a luta para ela me deixar assumir ao menos o combustível e ela não permitiu, disse que eu pago depois, quando estiver tocando na Tomorrowland belga ou algo assim.

— Heidi é muito legal sim, eu tenho algumas restrições com ela, mas não posso negar o quanto ela anda sendo essencial para você e a Julia. Só me preocupa uma coisa...

— Você acha que ela quer separar Julia e eu.

— Eu sinto isso.

— Ela acha na verdade que temos um enorme potencial juntas, mas que separadas…

— Vão ganhar o mundo. Mas vocês estão ganhando apenas o Rio de Janeiro ainda.

— Você não precisa se preocupar com isso, viu. Julia e eu temos Nat e Heidi, mas as decisões são nossas sempre.

— Eu sei, enfim. Essa menina conseguiu a nacionalidade pra Julia, te emprestou um iate, é sempre extremamente gentil comigo, eu não posso reclamar. Olha isso, Ívi! — Era o mar deslumbrantemente azul!

— Eu sei — A beijou, abrindo um sorriso — Escuta, os planos são o seguinte: vamos passar o primeiro dia aqui, em Porto de Galinhas, visitamos a cidade, jantamos aqui e voltamos para dormir no iate. Seguimos amanhã, Cabo de Santo Agostinho que você vai adorar também e no dia três, Recife. Daí nós voltamos, dia quatro São Miguel dos Milagres, eu conheço uma praia incrível, amoriño, quase inabitada e então voltamos, passamos por Coruripe, Maceió e chegamos em casa para a virada, o que você acha?

 

Que Ívi era louca e que Laura era louca por ela. Foram dias de paraíso, não podiam descrever de outra maneira, passaram a tarde em Porto de Galinhas e a noite inteira ficaram passeando pela cidade, comendo guloseimas porque, doces eram vendidos a cada metro de distância e Laura estava enlouquecida com os doces nordestinos! Dormir no iate foi algo completamente à parte, Ívi lhe preparou uma noite romântica, em que fizeram amor devagar, à meia-luz, o balanço suave do mar, o quanto que Laura era gostosa quando lhe pegava, lhe tomava, lhe fazia sua da maneira que bem entendia e Ívi não tinha uma defesa que fosse, além de ficar extremamente abalada por ela. Seu corpo se abalava, sua mente, sua pele e ainda depois do prazer, Laura ainda existia em si, na sensibilidade que ficava, nas marcas de boca pela pele, nas marcas de amor pela alma de Ívi. Tinham chegado cedo, dormiram cedo e naquela noite, Ívi acordou com Laura se movendo na cama.

 

Mas ela não estava sonâmbula, só estava mordiscando a sua nuca, atacando sua calcinha, sussurrando que queria fazer amor outra vez.

 

Fizeram outra vez, com sorrisos e um tesão inacreditável no finalzinho da madrugada. O sol nasceu pegando as duas na cama, nuas em pele, rindo demais de qualquer coisa que havia acontecido no dia anterior e já eram 6 da manhã, era a hora delas e o dia começou com um gostoso banho de mar, apenas elas duas, muito juntinhas, muito agarradas uma na outra. Laura fez o café da manhã, tomaram vendo as piscinas naturais de Porto de Galinhas ao longe e então, navegaram por uma horinha, porque Ívi fez questão de ir bem devagar, para não perder nenhum detalhe que fosse. Aportaram em Cabo de Santo Agostinho, Laura se deslumbrou, não acreditou naquele pedacinho de paraíso, andaram pela cidade um pouquinho, almoçaram num restaurante de praia, passaram a tarde pegando sol na areia e vieram pegar o pôr do sol no iate, com Ívi lhe tocando algumas das músicas de amor que tinha lhe composto apenas no último mês. Ela e Julia já tinham um álbum romântico se quisessem gravar. Não voltaram para curtir a noite na cidade, preferiram fazer um jantarzinho gostoso no barco, sob aquele céu perfeito, deu uma esfriadinha, puderam ficar agarradas uma na outra no cobertor assistindo qualquer coisa na tevê enquanto o carinho seguia infinito. Acordaram cedo, navegaram para Recife, uma parada estratégica, um mergulho gostoso demais, num pedacinho de mar só delas. Não desceram em praias, pois estavam lotadas demais! E se sentiram privilegiadas de poderem curtir o mar com privacidade total. Laura não se cansava de ver Ívi no comando daquele iate, não se cansava do quanto estava se sentindo completa ao lado dela.

 

Depois do dia no mar, desceram para a praia, porque estava acontecendo um festival de frevo e Ívi precisava levar Laura até lá. E não fazia ideia, IDEIA de como o frevo mexeria com ela, com o tanto que ela ficou eufórica ao ouvir “Frevo Mulher” pela primeira vez, como ficou apaixonada pelo passos inacreditáveis do frevo e quando o forró tradicional deu as caras, ela e Ívi dançaram até os cabelos de Laura molharem de suor, até Ívi precisar tirar a camiseta porque estava ensopada, os pés descalços na areia, os corpos juntos, aquela paixão, aquele ardor, a felicidade estampada em diversas cores diferentes. Era um amor sinestésico.

 

Totalmente sinestésico.

 

Acordaram mais tarde no dia seguinte e foi o dia em que Ívi mais pilotou. Cerca de três horas até São Miguel dos Milagres e que foi gostoso demais. Tomaram café juntinhas e depois Laura ficou agarrada em Ívi o tempo todo enquanto ela pilotava e elas conversavam muito, assunto infinito porque se havia algo que interessava demais uma a outra eram suas histórias particulares. Chegaram naquele outro paraíso, cru, ainda não desbravado pelo turismo, almoçaram no iate e passaram a tarde praticamente sozinhas numa prainha de areia, pegando sol, pegando onda, Ívi surfava e Laura babava por ela, não aguentava com sua garota, tão bronzeada, tão forte, nem sabia de nada. Deram uma voltinha pelo vilarejo e voltaram para o iate, outro jantar romântico, paella espanhola porque por algum motivo, Laura tinha encontrado tudo o que precisava no tal vilarejo e então, violão e Ívi, violão e Laura cantando, porque Ívi agora estava viciada na voz dela e só queria ouvir mais, mais um pouquinho sempre. A lua cheia as pegou dançando bachata muito, mas muito juntinhas, com toda a paixão e a sensualidade que a música pedia, um corpo grudadinho no outro, seguindo o ritmo, Ívi adorava os ritmos de sua terra, mas aquela tal de bachata, hum… Era uma delícia.

 

Fizeram amor, rebelde, fora do quarto, amor contra uma das paredes do iate porque não deu tempo de pensar em chegar uns metros para lá e achar o quarto. As pernas de Laura enroscadas por Ívi, os músculos todos ativos, a mão ansiosa, que encontra, toma, faz sua, as bocas que não se separam e aquele amor pulsando na pele tão, mas tão forte que…

 

Ívi levou Laura nos braços para o banho, então no colo para a cama, para dormirem assim, muito apegadas enquanto não acreditavam que terminariam aquele ano assim. Tão felizes.

 

Porém, Heidi tinha ligado assim que o celular pegou sinal novamente em Coruripe. E Ívi achou que ela estava louca.

 

— Heidi, você está sem tomar os seus remédios por acaso?

 

Ela riu alto do outro lado.

 

— Ívi, quer parar? Julia já disse que consegue fazer!

— É porque ela é cantora, criatura! Se você der um microfone e um caixote para ela subir, ela faz um show, mas não eu!

— Me deixa falar com a Laura.

— Heidi…

— Me deixa, por favor?

 

Ívi colocou no viva-voz.

 

— Laura te ouve.

— Heidi, ela está apavorada, menina, o que você está dizendo que ela tem que fazer? — Laura perguntou sorrindo.

— Você sabe que elas compuseram uma música incrível chamada “La Cruz del Mapa”.

— Sei, é incrível mesmo.

— Então, tem um festival digital acontecendo agora, cujo a data final para envio de vídeo de inscrição é amanhã. Eu já falei com a Julia, ela tem a base gravada, vai arrumar um microfone e gravar em alguma praia, eu só estou pedindo que Ívi faça a mesma coisa, afinal, La Bruja também vai à praia… — Disse, as fazendo rir demais, era um poder de Heidi — Laura, junta umas pessoas, cabem 20 nesse iate, monta a pickup, pega um microfone, elas gravam juntas, mas separadas, temos como fazer as duas se ouvirem e deixa o resto comigo e com a Nat, nós resolvemos. Chá de hortelã, você já jogou GTA na vida?

 

Laura ainda estava rindo muito.

 

— Já joguei sim.

— Tem um drone lá no quarto, você pilota ele igualzinho um helicóptero no GTA, são as mesmas alavancas e quando quiser que ele retorne para o lugar de partida, você coloca os dois sticks para baixo e para o meio que ele volta…

 

Ívi já estava surtando, mas Laura não permitiu. Era uma chance ótima, uma possível projeção nacional, por que não acreditar em Heidi um pouquinho e fazer o que ela estava pedindo?

 

— Laura, eu não… Eu não consigo. Subir num palco sozinha com um microfone.

— Não é sozinha, espera — Testou o fone de ouvido — Julia? Fala com a Ívi, por favor? — Colocou no ouvido de Ívi.

Juls, faz você…

— Schelotto, nós somos uma dupla, esqueceu? Vamos fazer isso juntas. Eu vou conseguir arrumar um palco e público aqui em uma hora, deixa a Laura fazer o mesmo por você aí?

 

Ainda parecia uma loucura, mas Ívi decidiu acatar. Laura lhe acalmou, pediu que ela se vestisse, bermudinha, biquíni, camisa praiana aberta, ficaria irresistível como sempre. A deixou montando a pickup, conversando com Julia e foi testar o tal drone, ok, podia voar aquela coisa e conseguir gravar, agora só precisava de pessoas.

 

E nunca na vida achou que as garotas viriam tão fáceis ao seu convite.

 

Chamou algumas meninas que estavam na praia mesmo, se apresentava, mostrava o iate, mostrava vídeos de suas garotas no celular e elas aceitavam sorridentes demais a participar de uma festa assim! Conseguiu quinze garotas e voltou para o iate, para organizar o que mais precisava e para sua surpresa, entre uma ida na cozinha e sua volta, Ívi já estava tocando para mais cinco desconhecidas. Era o que ela fazia de melhor, com uma enorme facilidade, a guitarra pendurada no pescoço, as mãos na pickup, o mar turquesa-deslumbrante, o céu azul-infinito, o sol brilhando com capricho e aquela música, que Julia e Ívi tinham feito juntas. Uma música de amor, mas com uma força inacreditável, falando de intensidade, paixão, disparos de fuego e hielo, um amor que marca, que salva, amor por uma garota que não se pode decifrar, que ama inversamente ao que se pode esperar, uma música de veneno, de antídoto, do beijo que fica, e ah, sim, uma canção que fala sobre os mares navegados e a cruz do mapa para onde sempre se deve voltar.

 

Laura era a sua cruz no mapa. Ívi só sabia.

 

A festa feita em meia hora já estava rolando pesada quando Ívi subiu em seu improvisado palco.

 

Mi amor, Julia está pronta — Trouxe o celular para Ívi ver, Julia linda demais, de cropped, saião hippie, cabelos soltos, perfeitos, os olhos brilhando, ela brilhando demais, fazendo tudo aquilo sem nenhum esforço para um público grande o suficiente para não caber na câmera — Escuta, meu bem, você é a minha cruz no mapa, lembra?

 

Ívi a beijou sorrindo, sentindo o sol brilhando na pele, ouvindo os gritinhos do seu público do qual não conhecia ninguém.

 

— Eu amo você.

— Eu amo também — Laura colocou o retorno no ouvido, estava com Thai do outro lado da linha e quando as duas deram sinal, a música mudou na pickup de Ívi no mesmo momento que mudou no show improvisado de Julia.

 

Iriam cantar juntas, os mesmos versos, não podiam se perder, duas câmeras de celulares em Ívi, a introdução vibrou forte, primeiro na guitarra de Ívi, depois em sua pickup, Laura viu o sorriso de Julia em Florianópolis, ela estava linda demais, estava solar, mais do que feliz, as bases gravadas perfeitamente alinhadas e Laura subiu o drone, igualzinho a como fazia com seus helicópteros no GTA, enquadrou Ívi, a coisa mais linda da vida, a bruxa mais solar do mundo naquele cenário dourado e translúcido em que se misturavam mar turquesa e luz do sol.

 

Pode ser que ainda me perca do tanto que te preciso… — Ívi entrou na música, no tempo certo, mas com a garganta tão seca que tropeçou quase imperceptível, mas não para Laura que a conhecia tão bem — Pode ser que queira escapar por não compreender as amarras…

Pode ser que eu ainda tema os teus olhos-abismos… — A voz de Julia sempre tão precisa, era de uma afinação cirúrgica, Laura ainda se surpreendia — E que me perca realçando o veneno de uma dor já calada…

Te quiero, lo sabes, y dejame te respirar… — Cantou para Laura, abrindo um sorriso, começando a relaxar com a voz de Julia no seu ouvido.

Que quieres que haga si és mi puerto a donde retornar… — E Julia estava intensa, brilhante e vibrante. O sorriso, os olhos de fogo, aquela paixão pela voz dela.

 

Havia uma luz que explodia sempre que aquele refrão poderoso era cantado, havia a força de Ívi, os fios afiados de seus olhos caprichados, havia a beleza de Julia e toda a sua intensidade cantando sobre o amor que se torna porto, que vira cruz do mapa, sobre o mar que se torna capitão, inspiração, os disparos de hielo y fuego, o gelo que queima, o fogo que marca e o ataque voraz da última estrofe, aquela que Laura tanto adorava e que fazia arrepiar, que empolgava, que fazia o público sentir ainda que fosse a primeira vez que estivessem ouvindo aquela música. Era a parte que elas cantavam juntas.

 

Y dame los rosnados tanto cuanto quieras, quero teu conflito, mas não a sua guerra, tu manos a peligro y no dejas pasar! Mas nunca me deixe um segundo de amar! Es la cruz del mapa donde me aporto, teus beijos me enlouquecem quando não retorno, eu vivo a fissura de te reencontrar, dinamite, teu corpo em campo estelar!

 

Talvez Heidi tivesse razão. Talvez fosse aquela música que faria toda diferença.

 

Aquela música gravada há quilômetros e quilômetros de distância, para dois públicos completamente diferentes, por una bruja e una chica solar, que inesperadamente tinham se juntado e criado Haíz.

 

Ívi não estava acreditando quando a gravação chegou à noite. Porque sim, a festa tinha durado, Ívi tinha feito aquele iate ferver e Laura tinha virado praticamente piloto de drone, tinha feito imagens ótimas! Voltaram para Maragogi durante o anoitecer e quando ancoraram, receberam o áudio pronto e Ívi…

 

Se arrepiou inteira.

 

— Laura, ouve esse poder! A Julia é…

— Vocês são, Ívi! Esse poder todo vem de vocês duas, olha a escala que vocês estão atingindo juntas, ela sobe e você vai atrás…

— Sempre dois passinhos atrapalhados para trás, mas vou — Abriu um sorriso.

— É doce e brutal. Ívi, Heidi é maluca, mas acho que ela está certa. Essa é a música, as outras vão estourar também, mas dois passinhos atrás desta aqui.

 

O vídeo ficou pronto dez minutos antes da meia-noite. E se as desconfianças sobre Heidi se baseavam em ela ser irresponsável, bem, dez minutos antes da virada do ano, ela estava no estúdio de gravação, terminando de enviar aquele vídeo. Ívi e Laura passaram a virada com a família de Ívi, de volta a praia onde tinha crescido, cercada de sua família que agora também era Laura, que era seu sol, seu porto, a sua cruz no mapa. Havia um sentimento distinto por dentro, uma energia diferente, uma sensação de virada muito maior do que Laura já tinha lembrado de sentir.

 

— Acha que será o nosso ano?

— Ívi, eu não sei. Eu não sou muito boa em gerir esse tipo de sensação. Eu só sei que sinto que algo grande está chegando e sei que me sinto segura por te ter ao meu lado — Se abraçou a ela, deitada a cabeça no peito de Ívi — Te quiero, mi amor.

— Te quiero, mi sol — Beijou os cabelos dela sorrindo e começaram a ouvir a contagem oficial.

 

Os fogos explodiram no céu. Lindo demais na praia de Angra em que Karime e Noah estavam agarradas, descalças, felizes demais, beijando, se sentindo, vivendo aquela energia imensa que acontece quando um ano se quebra no outro. Thai e Julia estavam em Jurerê Internacional, tão agarradas quanto, felizes, solares demais e com toda a certeza da vida a última coisa que Julia esperava caminhando por aquela praia mais do que lotada era…

 

Apertou os lábios e Thai lhe agarrou pelas costas um pouquinho.

 

— Thai… Eu achei que ela estava em estúdio.

— E estava, chegou hoje de manhã, estava em um estúdio daqui e eu pensei que… Que você merece.

 

Julia virou-se de frente, olhando para Thai.

 

— Eu dei a entender alguma coisa, Thai? Fiz alguma coisa de errado ou…?

— Claro que não fez, Juls, mas… Eu conheço você. Eu sinto você. E nós estamos juntas, estamos casadas, está vendo? — Entrelaçou seu dedo aliançado no dela — Eu confio em você, confio agora, no que você sente por mim, eu não tenho mais nem uma vírgula de dúvida sobre isso. Eu acho que, no final, você tem razão, Juls. Quando me disse que o que nos levou uma para outra foi uma característica em particular. Eu nunca tive problemas com a Karime, os meus problemas sempre foram com a Laura porque ela…

Ela não compartilha.

— Ela não compartilha. Eu não sei decifrar o que está acontecendo entre nós duas e a Heidi, mas ela…

— Está apaixonada por nós duas.

— Olha pra mim, Julia: você confia em mim? Confia em tudo o que eu sinto por você?

 

Julia a beijou, a puxando pela nuca, a agarrando pela cintura.

 

— A nossa imprudência é uma canalha, Thai.

— Mas é o que a gente é de verdade, Juls.

 

Talvez houvesse sentido. Talvez não houvesse sentido nenhum e nenhuma delas precisasse de direção. Encontraram Heidi no meio do caminho, linda demais, de vestidinho hippie e pés descalços, a loira que desnorteava Thai desde o programa na tevê, a mulher que tinha deixado Julia sem pés no chão na noite em que se conheceram.

 

Apenas se olharam, número ímpar.

 

— Onde você está hospedada? — Foi Julia que perguntou.

 

Heidi apenas apontou uma casa enorme, bem ali, 30 metros do mar.

 

— Tem uma festa esperando a gente lá dentro — Heidi puxou Thai para perto quase que por instinto, já era algo muito delas.

— Para quantas pessoas? — Julia perguntou lhe olhando no olho.

Três. Eu gosto do número. Vão curtir a praia um pouco mais ou…?

 

Julia puxou Heidi pela cintura e respondeu a beijando. Mão na nuca, o sorriso dela abrindo, a língua lhe recebendo, sim, ok, há quanto tempo queriam aquele beijo mesmo?

 

Dame guerra.

 

Heidi daria.

 

Entraram em casa em dois minutos, a piscina pareceu tentadora, mas não mais do que a cama king size esperando em um dos quartos. As mãos de Heidi por Thai, a boca de Julia por ela, os dedos de Thai soltando zíperes, botões porque nunca Julia conseguiria despir uma mulher tão rápido quanto Thai fazia. Bocas que se pegam, se encontram, buscam mais, um corpo pegando o outro, encaixando aqui, achando posição ali, Thai morrendo de tesão em ser a vítima perfeita novamente, Julia descobrindo o corpaço de Heidi, testando que sensação causava cada coisa. As mãos dela por Thai, explorando, pegando, sentindo, a boca que não parava num só lugar, nuca de Julia, coxas de Thai e, aconteceu de novo, na contagem final dos orgasmos intensos enquanto a festa de ano novo acontecia voraz do lado de fora da casa, aconteceu o apego de Thai e Julia, aconteceu aquela paixão incendiária que sentiam, a vontade de fazer de novo só que em duas, olhando nos olhos, se sentindo, se comendo em beijos, se entregando de uma forma que só acontecia entre elas, paraíso exclusivo, que só podia ser observado.

 

Para alguém como Heidi, sexo com amor ganhava gosto de fetiche sexual.

 

Assistiu, mordendo a boca e cheia de vontade, e lhe pegou tanto que deve ter gozado junto sem sequer precisar se tocar.

 

E assim, amanheceu o primeiro dia de 2017.

 

Notas do Capítulo:

 

Olá, meninas!

 

Como estamos?

 

Por aqui as coisas andam um pouco reviradas, mas aos poucos, tudo vai voltando para o seu lugar ^^. Quero dizer que Sal em livro físico ficou pronto e está lindo! Acho que é o projeto com mais qualidade que já fizemos até agora, o livro ficou robusto, mas ficou seguro e não vejo a hora de ele começar a fazer companhia para Bali e Havana na estante de vocês!

 

Meninas, quero aproveitar para desejar Boas Festas para todas vocês! Eu sou um tanto como Havana Exposto e acredito que há uma energia especial que só acontece nesta época, naqueles segundinhos de passagem entre um ano e outro. Sempre faço a contagem e mentalizo a coisa que mais quero para o ano recém-chegado, deu muito certo ano passado, algo se quebrou entre o meu 2018 e o 2019 e ganhei até mais do que eu pedi :). Então, apenas gratidão ao meu 2019 e aproveito também para estender esta gratidão a cada uma de vocês, sempre por aqui, sempre apoiando o meu trabalho ^^.

 

Faremos um recesso pelas festas de final de ano, estarei de férias por duas semanas e, 6 AM retorna, numa quarta-feira, 8 de janeiro nos vemos novamente!

 

Abraços!

 

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