6 AM - Capítulo 44 - A Parte Difícil

5/2/2020

 

 

Quando Laura abriu os olhos, notou que estava num lugar bem diferente da sua confortável cama.

 

Abriu os olhos, sentiu a luz entrando, estava perto da janela, estava...?

 

— Laura?

 

Sendo esquisita logo na primeira noite de Renata em casa. Era isso mesmo? Era, estava acordando nas almofadas perto do piano de Ívi e Renata já estava pronta para o trabalho, num uniforme que Laura conhecia bem.

 

— Você está trabalhando...?

— Na Starbucks aqui perto, foi você quem me indicou, lembra?

 

Laura sentou-se, toda dolorida, devia ter dormido do pior jeito possível.

 

— Eu lembro, eu só não sabia que... Tinha dado certo — Thai tinha pedido a Laura quando Renata decidiu mudar de Arraial do Cabo. Que a ajudasse a encontrar algo no que pudesse trabalhar, Thai tinha apoiado a mudança, mas se preocupava com sua melhor amiga, é claro que se preocupava. A época que Julia sentia ciúmes de Renata havia ficado para trás e foi um pedido das duas, que Laura pudesse olhar Renata um pouco mais.

— Deu certo. Laura... — Ela estava desconfortável, é claro — Espera, eu vou te pegar um café.

 

Ela foi até a cozinha e voltou com duas xícaras de café.

 

— Renata, eu não te disse por que achava que não ia acontecer logo e...

— Thai já me explicou tudo — Ela respondeu sorrindo — Eu fiquei preocupada, eu acordei e você estava andando pela casa, e então eu decidi dar uma ligada para ela. Ela me tranquilizou e eu esperei você achar um lugar. Você deitou perto do piano e eu te coloquei nas almofadas pra você dormir melhor. Laura... Você acompanha isso?

— Acompanho sim, vou ao médico, faço terapia, mas às vezes eu fico mais agitada e acabo saindo da cama.

— E desenhando — Tinham desenhos inacabados ao lado.

— É. Acontece isso também.

— Laura... — Ela estava dividida em preocupação e desconforto — Você tentou sair.

— Como...?

— Pela porta da sala, eu tive que tirar as chaves. Você não pode... Ficar aqui sozinha. Dormir sozinha neste apartamento.

— Se você não tiver ficado muito assustada, eu não vou dormir sozinha.

 

Renata sorriu. Porque aquela espanholinha sonâmbula era uma coisa linda acordando contra o sol.

 

— Você andou, desenhou e então só deitou aqui, parecendo a coisa mais tranquila do mundo dormindo.

 

Laura abriu um sorriso, ainda que constrangido.

 

— Vem, galega, vai se atrasar, eu fiz seu café da manhã.

 

Ela tinha feito. Laura pediu que ela esperasse um pouco, foi tomar um banho, se arrumar, se acalmar porque tinha ficado bastante constrangida com o que tinha acontecido, mas Renata se desfez deste constrangimento durante o café. Era uma menina leve, de sorriso constante, parecia muito com Thai, tinham a mesma vibe e sentiu naquela manhã que tinha sido uma boa decisão. Falou com Ívi no caminho para o trabalho, ela ainda estava acordada, tinha tocado sozinha em uma boate e estava sem sono. Seu mundo andava invertido, suas funções vitais também, Laura se preocupava, mas Ívi parecia bem. Estava empolgada com a turnê pelo Nordeste! E depois da empolgação vinha a outra parte, ficaria mais tempo do que imaginou sem voltar ao Rio e era provável que só fossem se ver no final do mês. O final do mês ficava a duas semanas daquele dia.

 

— Foi uma boa ideia, amor, a Renata.

— Eu disse a você que seria. Ruim é não ter ninguém com quem falar no final do dia, amoriño, eu me sinto péssima por isso.

— A gente conversa o tempo todo, Ívi.

— Precisamos de mais. Eu fico dividida.

— Eu sei que fica. Mas não precisa ficar.

 

Era algo complicado de se administrar e de se sentir e Laura passou aquele dia inteiro pensando a respeito disso, sobre como agir, como se sentir, pensando se iria se habituar, ou se iria incomodar sempre porque conhecia bem as suas meninas, o sucesso não iria parar tão cedo e nem Laura queria que parasse. Voltou para casa no carro com o qual estava tentando se habituar e para aquela sensação com a qual estava tentando se habituar também. Só veria Ívi no final do mês. Suspiro. Somente no final do mês, sua mente ratificou.

 

A semana passou muito rapidamente, o Instagram de Julia e Ívi enchendo de postagens de shows enquanto o de Laura se enchia de desenhos feitos enquanto ela dormia e de dados empolgados de uma pesquisa que só dava certo e mais certo. Se cruzavam em publicações sobre saudade e nas horas que passavam ao telefone tentando sanar a falta, e de alguma maneira, sanava. Conversar com Ívi durante seus almoços se tornou rotina e falar com ela antes de dormir também.

 

Então Laura ia para a cama, Ívi para os palcos.

 

Na sexta-feira da semana seguinte, Karime apareceu para jantar.

 

E foi ótimo tê-la por perto! Estava carente de suas amigas, de suas pessoas, era uma sensação distinta.

 

— Eu me sinto como a mãe que ficou em casa depois que as filhas se casaram e partiram para outra vida... — Disse Laura, fazendo Karime morrer de rir.

— Laura, é difícil pra mim também, sabia? As coisas vão muito bem com a Noah — Elas tinham realmente se casado há um mês, numa cerimônia linda em Angra dos Reis — Eu não tenho uma vírgula para reclamar, mas acha que eu não sinto falta? Fizemos uma vida aqui, você e eu, depois com as meninas, nós criamos costumes, o nosso jeito de convivência. Uma coisa que tem desencontrado por exemplo, Noah precisa de muitas mais horas de sono do que eu para ficar bem, e você e eu por exemplo, tínhamos aquele horário.

— De acordar cedinho, nossos cafés conjuntos.

— Isso. Meus cafés cedinho agora são solitários, porque minha guapa é dorminhoca... — Completou sorrindo no mesmo momento em que Renata entrou no apartamento.

 

De short curto, moletom, boné sobre os cabelos soltos. Deu boa noite, abraçou Karime com carinho e beijou Laura no canto da testa.

 

— Trouxe para a sua sobremesa. Vou tomar um banho.

 

Bolos de pote. Era o que ela tinha trazido de sobremesa. Ela entrou para o quarto de hóspedes, que finalmente tinha ficado pronto, deixando Laura e Karime sozinhas novamente.

 

— Laura, ela...

É um amor. Eu não fazia ideia de que ela podia ser esta pessoa também. A gente conheceu ela como...

— A garota festeira do litoral.

— Exatamente. Mas de alguma maneira esquisita, acho que o casamento da Thai a amadureceu, de maneira indireta, mas amadureceu. Ela tem sido ótima companhia, faz os cafés da manhã, permite que eu tenha ainda o meu espaço porque ela costuma chegar nesse horário ou até mais tarde quando tem faculdade e, tem me ajudado no sonambulismo.

— Você anda tendo crises?

— Ando tendo. Já marquei o médico novamente, mas enquanto isso, ela arrumou uma maneira de me fazer voltar para a cama. Eu me sinto mal, o quarto ficou pronto, mas ela insiste em dormir na sala para...

Prevenir que você entre em perigo. Laura, escuta, té de menta, a Ívi vai ter uma crise se ouvir tudo o que eu acabei de ouvir. Essa menina linda aqui dentro, toda do seu estilo, cuidando do seu sono e te comprando bolos de pote.

 

Laura começou a rir.

 

— Foi a Ívi quem me sugeriu que ela ficasse aqui.

— Aquela Renata festeira hétero do litoral, não esta Renata, gentil, cuidadosa com você, que mudou de estilo completamente! E se ela estiver se apaixonando sem perceber?

— Claro que não, Karime...

— Você já fez vítimas antes. Umas dez. Ao menos. Sem exagero.

 

Laura ainda estava rindo, poderes de Karime.

 

— Não é o caso, Karime, não é mesmo — Estava muito tranquila quanto a isso.

— Certeza?

— Absoluta. E a Ívi confia em mim de qualquer forma, imagina se eu começar a surtar por garotas que andam cercando ela. Eu não vou ter mais vida.

 

Isso era uma verdade. O assédio em Ívi e Julia só crescia, Laura inclusive se abstinha de ler os comentários das fotos, fazia bem para a sua saúde mental e para o seu relacionamento, era inteligente não ler e Laura se considerava um ser humano relativamente inteligente. Mas não era fácil.

 

Tanto que sequer conseguiu reagir direito quando Ívi voltou pra casa quinze dias depois e passou três horinhas na companhia de Renata.

 

Saíram de casa e Laura demorou a entender o motivo.

 

— Ívi, isso é um hotel...

— Eu sei — Ela fez check-in rapidamente — Agora eu preciso sair de casa para discutir com você direito — Ívi parecia... Furiosa. Laura só estava tentando entender.

— Você quer parar e me explicar o que está acontecendo aqui?

 

Ívi não disse nada até entrarem no quarto, do mesmo hotel em que Laura tinha ficado com Kelsey meses atrás. Só percebeu quando entrou.

 

— Ívi, é sério que você me trouxe pra cá?

— É um hotel qualquer. Agora você vai me explicar o que está acontecendo, aquela menina grudada em você o tempo inteiro!

 

Laura se sentou, não estava acreditando em muitas coisas e sua cabeça estava estourando. Também não sabia o que era, tinha acordado assim.

 

— Ninguém está grudada em mim, Ívi, ela mora no nosso apartamento, algo que você mesma sugeriu, amor...

— Ela está apaixonada por você!

— É claro que não, Ívi, por favor!

— Laura, eu vi o jeito que ela te olha!

— Ainda que houvesse alguma razão no que você está dizendo, sou eu, Ívi! — Levantou-se, sentindo sua cabeça apertando demais — A sua noiva, lembra? Sou eu... — Sentou-se novamente porque começou a se sentir enjoada demais, a ponto de achar que...

 

Ficou pálida.

 

— Laura? Laura!

 

Aquela conversa teve que se encerrar ali. Ívi sentiu que Laura desmaiaria a qualquer momento e nem deixou ela se explicar de novo. Laura teve um mal-estar muito forte e perdeu algumas coisas. Sua ida ao hospital, por exemplo. Quando se deu conta, estava lá.

 

— Ívi, não precisava...

— Se sente melhor agora?

 

Respirou fundo, a dor tinha acalmado.

 

— Melhor agora. Eu tomei alguma coisa...?

 

Ela não lembrava. E Ívi só queria chorar. Aparentemente era um quadro de enxaqueca que ela estava sentindo há algum tempo, e para a médica em atendimento, podia explicar a inquietação que Laura andava sentindo para dormir também. Saíram do hospital e Ívi chorou no carro, deixando Laura...

 

— Ívi, eu não sei o que fazer. Você precisa me dizer por que está chorando, eu não estou conseguindo entender. Aliás, eu não estou conseguindo acompanhar desde quando você entrou no apartamento, amor, me ajuda.

— Você precisa de mim, linda, tem que precisar de mim e quem está cuidando de você agora é aquela ex-hétero do litoral que tem um cabelo muito melhor que o meu...

 

Daí Laura teve uma crise de riso. Sua cabeça ainda estava sensível, mas Ívi estava demais. Estava com ciúme, estava insegura, estava com falta e saudade, e com um medo de perder que não conseguia explicar de onde vinha.

 

— Você quer falar com a sua outra namorada e explicar por que eu me comportei mal? — Agora ela tinha acalmado e só estava com vergonha.

— Eu só tenho uma namorada, está bem? Minha noiva, aliás, lembra disso aqui? — Mostrou o dedo aliançado. Ívi tinha lhe dado uma aliança logo depois do pedido de Laura.

 

Ívi beijou sua mão.

 

— Deveríamos estar nos casando hoje.

 

E Laura se deu conta que no final da equação de sexta potência, era isso que tinha a entristecido. Beijou sua menina, longamente, de um jeito que não tinham se beijado ainda aquele dia.

 

— A gente pode voltar para aquele hotel e ter lua de mel de qualquer forma...

 

Ívi a beijou de volta, morrendo de falta, de saudade e ficou com aquela opção sorrindo demais. Voltaram para o hotel, em um clima totalmente diferente, agarradas, pegadas, sentindo uma a outra. Ívi a levou para o quarto, como sua Ívi de sempre, o amor da vida de Laura, aquela com quem ela queria ter bebês e acordar fazendo amor todas as manhãs. Fizeram amor, muito longo e muito gostoso, cheio de olhos nos olhos, de pele buscando pele. Ficaram agarradas depois do amor, nuas, apegadas demais, grudadas até aquele ponto de quase fundir uma na outra. E tinha ficado tarde, Laura disse que ia pedir o jantar para que elas enfim pudessem conversar.

 

Pediu, dois pratos lindos, um risoto com queijo delicioso que sabia que sua Ívi adorava, suco de maracujá para acalmá-la um pouco mais e foram comer numa mesa de escritório improvisada como mesa de jantar, porque era o mesmo hotel de Kelsey, mas o quarto era bem mais simples e não fazia a menor diferença. Ívi jantou com Laura em seu colo, agarradas o tempo inteiro, matando a saudade física daqueles 15 dias longe. Começaram falando de como havia sido a turnê, Ívi estava empolgada, feliz, tinha dado tempo de ver sua mãe e Laura ouviu tudo tão empolgada quanto ela. Adorava ver o sucesso de Ívi, ver que ela estava alcançando o que tanto queria todos os dias. E então contou dos seus dias, do avanço da sua pesquisa, da perspectiva nova de mudar de departamento tão cedo e tão rápido, mas a reação em Ívi...

 

Não parecia a mesma.

 

— Laura, você não sentiu saudade esses dias?

— É claro que eu senti, Ívi...

 

Ela lhe olhou.

 

— Não passa pela sua cabeça...?

 

Laura sabia o que ela queria que passasse por sua cabeça.

 

— Ívi, você tem um emprego e eu tenho outro, é o natural, nós já falamos disso. Escuta, mi amor, eu sei que é complicado, eu sinto igual, mas eu estou fazendo as coisas que eu queria também, está dando certo pra mim também. Eu tenho objetivos.

 

Que Ívi julgava que poderia entregar todos a ela sem tanto esforço ficando separadas.

 

— Ívi, amoriño, escuta, sabe o que acontece em quarenta dias?

 

Ívi abriu um sorriso.

 

— Nós vamos para Londres.

— E você vai me levar para aquele encontro em Notting Hill, eu vou te levar para outro encontro assombrado que começa no The London Dungeon e termina em Camden Town, vamos ler nossos livros no Sky Garden e namorar no The Shard, pode focar nisso, mi amor? — Perguntou, com as duas mãos tocando o rosto de Ívi enquanto no colo dela estava — É mais uma coisa que você tanto quis e conseguiu, Ívi, você lembra disso?

 

Ívi lembrava sim e isso lhe aqueceu o coração, ao menos um pouquinho. Estava muito empolgada com aquela viagem! Ainda nem acreditava que iriam mesmo, e, iriam sem precisar fazer contas e isso significava demais. Dormiram no hotel aquela noite, voltaram pra casa pela manhã e Ívi fez questão de que tudo ficasse normal com Renata, não sabia bem se sua crise tinha ficado evidente, mas fez questão de normalizar tudo. Não podia deixar Laura sozinha de jeito nenhum e, Renata era boa. Era um perigo, bonita daquele jeito que era, mais madura e estava sim apaixonada por Laura, mas de maneira diferente. Conversaram sobre isso na quinta-feira, quatro dias depois da chegada de Ívi e quando ela já tinha que partir outra vez. Conversaram lá fora, sozinhas, Ívi tinha aprendido com Kelsey o poder da clareza em qualquer situação.

 

— Ívi, ela é uma menina incrível, qualquer um que conviver com ela vai se apaixonar, vai querer ajudar, cuidar de alguma maneira. Mas é só isso, entendeu?

 

Achava que tinha entendido. Fez as pazes em definitivo com Renata e Laura foi lhe deixar no aeroporto. Um apego enorme na hora de despedir, tanto de Ívi, como de Julia e Thai também. Laura chorava muito raramente, mas chorou aquele dia no aeroporto e foi quando Ívi se deu conta que doía muito mais nela. Laura sentia em triplo. Ívi entrou naquele avião e Laura só voltou a vê-la quinze dias depois e então, quinze dias se passaram novamente, mais correria, mais shows, Haíz em rádios e em vários programas de tevê, foi o mês em que estiveram em todos os canais e programas diferentes possíveis e quando Ívi voltou uma semana antes do previsto...

 

Laura saltou no pescoço dela ainda no aeroporto, a beijando, a agarrando e então abraçou sua Julia, muito forte, muito apegada.

 

— Vamos ficar juntas, tá? Esses dez dias antes da viagem, só temos agenda no Rio e eu quero ir pra casa, pra nossa casa — Julia lhe pediu chorando e Laura não tinha intenção de lhe dizer não de jeito nenhum.

 

Fizeram assim, foram direto pra casa, juntas, as quatro, era a primeira semana de dezembro e aconteceu de Noah ir visitar a família em sua primeira semana de férias e quando chegaram no apartamento, e viram Karime... Foi outra choradeira, que Karime não estava entendendo nada.

 

— Mas por que choram? Eu passei tanto tempo fora assim, gente?

 

Os risos ecoaram pelo apartamento e lhe explicaram que teriam dez dias livres e que estavam felizes demais por vê-la disponível para elas aqueles dias também. Se houvesse sido combinado, não teria sido tão perfeito de forma nenhuma. Foram dias muito tranquilos, ainda com Laura trabalhando, não havia comparação. Era a rotina delas novamente, a casa cheia, Laura e Ívi curtindo seu quarto novo, seu apartamento novo, Karime, Julia e Thai dividindo um quarto novamente, as refeições cozinhadas a muitas mãos, Ívi podendo levar sua galega no trabalho, estando lá para trazê-la para almoçar, as tardes criativas, com Julia ao violão e Ívi ao seu piano, compondo, transformando coisas, fazendo vídeos caseiros para o Youtube outra vez.

 

Pareceu a vida de antes, porém muito mais confortável, muito mais tranquila.

 

— Ívi, só vai fazer sentido assim — Julia lhe disse aquela tarde, agarrada ao seu violão, enquanto estavam sentadas no chão, perto do piano, tinham acabado de compor mais uma música linda — Se a gente puder ter isso aqui também.

— Eu sei, mas eu me preocupo de a gente perder a tempestividade das coisas.

— Você já perdeu uma tempestividade, não sei se está se dando conta.

 

Ívi na verdade estava sim.

 

— Eu queria me casar agora, na Itália, eu tenho nacionalidade italiana, a Laura é espanhola...

— Então faz isso, casar é importante pra Laura, você sabe disso.

— Às vezes eu sinto que ela não quer mais tanto, Juls...

— Ela só está protegendo você, não quer que você se sinta mal por causa desses adiamentos. Ívi, você precisa ficar do meu lado nisso. Heidi e Natalia são os tubarões do tanque, se a gente não freia as duas, elas acham que está tudo bem e caímos naqueles dias de trabalho ininterruptos. Eu sei que você aguenta este ritmo, mas eu não consigo, Ívi. Eu preciso voltar pra casa e olha que a Thai está comigo. Eu não sei como você consegue...

 

Ívi lagrimou.

 

— Eu só... Faço o que preciso fazer. As coisas estão dando certo, eu quero conseguir mudar a minha mãe de casa logo, terminar o apartamento, construir a casa em Maceió, temos contas a pagar, programas para cumprir, você sabe. Mas é claro que eu sinto, Juls. Que eu sinto demais.

— Eu acho que você ainda não sentiu de verdade, não como eu sinto.

 

Ívi respirou fundo e cruzou os olhos dela.

 

Obrigada. Pela sua crise, por ter batido o pé e dito não. Eu também precisava disso.

— Então favor não se atrasar. Saia daqui e vá buscar a minha Laura.

 

Ívi ia, fazia questão de não se atrasar, não perder nem um tantinho dela que fosse. Os dias pré-viagens foram maravilhosos e tranquilos, cheio de momentos delas e durante as tardes de Julia e Ívi, praticamente um álbum inteiro acabou sendo composto.

 

— Álbum Julia Torre, que deveria chamar... Pôr do Sol. Julia, este álbum é seu, é solo — Ívi lhe disse quando contaram doze músicas lindas demais.

— Não funcionaria, Ívi...

— É claro que funcionaria. É o seu talento, puro, essa mágica que você tem enquanto canta. A gente deveria propor.

— Você me deixaria?

— A gente deveria fazer sem separar. Só pensa nisso.

 

E o tempo com Laura era precioso. Cada minutinho com ela, cada noite de amor e as manhãs tão amorosas quanto. Ao lado dela, Ívi simplesmente acordava feliz, apegada, dentro daquele romance gostoso e perfeito demais. Foi importante também para que Ívi visse no que Laura estava trabalhando, para fazer ideia da grandeza do trabalho dela, no bem que aquela pesquisa poderia resultar.

 

— Laura, isso tudo veio da sua mente — Ívi estava... Chocada. Positivamente. Estavam no saguão internacional do aeroporto, tomando um café enquanto esperavam pelo embarque, Julia e Thai estavam em outra mesa, Karime e Noah também e elas estavam aproveitando um momento mais a duas. Ívi, naquele tempo inteiro, ainda não havia ouvido do que se tratava o trabalho de Laura realmente.

— É uma possibilidade. Mas se os resultados forem positivos, esses príncipes e essas princesas aqui que eu te mostrei, poderão viver com mais qualidade de vida — Laura trabalhava com crianças atingidas por paralisias decorrentes do surto de microcefalia em 2015 — Há muitos estudos na área, mas estamos fazendo em tempo real, as crianças já estão afetadas, não se sabe nada do desenvolvimento delas, como irá ocorrer, o próprio Zika vírus é recente, então há muito trabalho a ser feito.

— Meu amor, eu sou tão injusta com você... — Disse, baixando a cabeça na mesa e fazendo Laura rir e lhe pegar as mãos.

— Claro que não é, mi amor.

— Isso é mais importante que música, que qualquer distância entre nós duas, é mais importante que a minha carreira.

— A música também salva vidas, amor. Eu canto para eles e você precisa ver as reações!

 

Ívi a olhava com todo o amor do mundo.

 

— Você canta pra eles?

Ay, ayayay, amor, eres la rosa que me da calor... — Abriu um sorriso, vendo o sorriso lindo de Ívi se abrindo — Eres el sueño de mi soledad, un letargo de azul, un eclipse de mar, pero...

Ay, ayayay, amor, yo soy satélite y tú eres mi sol... — Ívi beijou a mão dela com carinho, cantando aquela verdade para ela. Sempre seria apenas satélite em volta de Laura, sempre seria — Nunca mais me deixa ser estúpida com você, por favor, quando eu estiver demais me manda para o inferno, me diz que eu estou chata pra caramba e que não tenho noção das coisas...

 

Laura estava morrendo de rir.

 

— Jamais, mi amor, jamais. Você é a mãe dos meus filhos, lembra? Eu nunca vou falar assim com você.

— Ainda que eu mereça?

— Ainda não mereceu. Escuta — Apontou para o alto, para o anúncio — É o nosso voo — Abriu um sorriso.

— Meu Deus, é o nosso voo...

— Para onde você sempre quis, seu sonho de criança, Ívi.

Meu sonho com você. Eu me prometi isso enquanto você estava em Londres com a Kelsey, que iria te levar pessoalmente nos passeios que nós fizemos a distância. Me conta o seu sonho, o mais antigo, conta pra mim.

 

Ela abriu um sorriso, corando um pouquinho. E puxou Ívi pela mão, a levando para a fila de embarque para onde suas outras garotas já tinham corrido, ela não precisava responder, Ívi sabia qual era o seu sonho mais antigo. Era se casar, com o amor da sua vida e Ívi não via a hora de poder realizar.

 

O voo foi muito tranquilo. Voaram durante a noite e fizeram uma sessão de filmes da Disney para passar o tempo, coisa que Ívi nem precisava. Estava ansiosa por Londres, mas ter Laura pertinho, em exclusividade, não tinha preço não. Pegaram no sono agarradas, bem juntinhas, no voo mais longo que Ívi já tinha feito na vida. Sorriu pensando nisso porque, apenas nos quatro últimos meses, havia feito 75 voos, era um absurdo e totalmente inesperado. Acordou com café da manhã, nada de primeira classe, passagem normal, para que Karime e Noah pudessem vir junto e Ívi já se sentiu da própria realeza. Imaginava como seria uma primeira classe então. Tomaram um café animado, num clima maravilhoso e duas horas depois, pousaram em outro sonho de Ívi.

 

Sentiu uma coisa apenas de pegar o metrô dentro do aeroporto! Era tão grande que tinha metrô para levar até o desembarque, o idioma estava por todos os lados, a tradição daquela cidade também, Karime, Noah e Thai estavam deslumbradas! Mas Ívi estava...

 

— Amor? Tudo bem? — Laura a puxou para perto sorrindo quando desceram em Canary Wharf para trocar de linha.

— Laura, é que... É o metrô! Aquele da Rainha Victoria...

— De 1893, não é incrível?

— É incrível, é... — Olhava de um lado a outro na suntuosa Estação de Canary Wharf — Olha este lugar!

— Eu sei, é a minha estação preferida.

— É que vocês não viram a minha estação! A King’s Cross! — Era Julia, muito empolgada também.

— A de Harry Potter, você lembra que deixou a mamãe louca com isso?

— E ela me levou — Respondeu sorrindo, se agarrando na mão de Laura — Comprou a coleção em inglês porque queria que eu aprendesse o idioma.

— Julia aprendeu lendo. Já tinha alguma memória de quando morou nos Estados Unidos e quando a mãe percebeu, ela estava lendo em inglês e morreu de orgulho. A gente precisa mudar para a linha de trem...

— É sério? — Noah estava saltitante!

— É sério — Laura estava se sentindo a guia turística — Greenwich é mágica no inverno.

 

Ah, era inverno, estava congelante e nenhuma delas estava reclamando. Havia uma neve fina caindo nas ruas, algo que encantou as meninas demais, encantou inclusive Laura, sim, nevava em Madrid e ela e Julia sempre adoraram a fina neve que caía raríssimas vezes por ano. Pegaram o trem para Greenwich, um bairro tranquilo, familiar, onde viram bebezinhos empacotados parecendo ursos polares, casas tradicionais, com porões e portas azuis ou vermelhas, uma decoração linda de Natal.

 

— Vai nevar mais? — Thai estava empolgada demais!

— Vai nevar mais segundo a previsão e, eu acho que é aqui.

 

Era um apartamento tradicional de porta vermelha. Fizeram check-in e foram direto para a cozinha fazer chá e chocolate quente antes mesmo de pensarem em almoço, o apartamento era confortável, tinha sala e cozinha conjugados, porém três quartos para que tivessem privacidade. Avisaram Kelsey que tinham chegado, o casamento seria em cinco dias, ou seja, tinham muito a curtir e relaxar. Em cinco dias, Laura iria ver María, confirmou isso com Kelsey, ela já tinha recebido autorização de Alejandro e as passagens de María já estavam ok. Sentiu um alívio enorme, ligou para sua irmã, falou com ela junto com Julia e ela estava feliz que mal cabia em si. Desligou a chamada, viu Ívi olhando pela janela da sala enquanto tomava o seu chá. Foi até ela, a abraçou por trás, beijou seu ombro.

 

— Tudo bem, meu amor?

— É que... — Abraçou os braços de Laura em si, brilhou os olhos, abriu um sorriso — Parece um sonho — Ela lhe disse com os olhos brilhando.

 

Laura abriu um sorriso. Entendia, estava em Londres com Ívi, algo que quis tanto na sua viagem anterior, não que tivesse sido ruim estar com Kelsey, não era nada disso, mas estar ali com Ívi... Parecia só um sonho. Mas agora era real.

 

— Eu sei.

 

Londres no inverno e no Natal, parecia mais que um sonho.

 

Notas do Capítulo:

 

Olá, moças!

 

Tudo bem?

 

Deixa eu começar esclarecendo que não tivemos capítulo semana passada porque até o meio-dia da terça-feira não havíamos batido a meta de comentários :/. Para que o mesmo não se repita, já começo lembrando a todas que esta autora lê todos os comentários e que não consegue mais responder pelo tempo corrido mesmo, porém, os comentários seguem alimentando minha vontade de escrever, ou seja, preciso de vocês, para escrever e para manter conteúdo gratuito do site ^^.

 

Dito isto, vamos ao capítulo! Todo mundo já lembrou quem é a Renata? A amiga-crush da Thai, lá do comecinho da história, aquela que Julia morria de ciúmes e que como toda hétero colorida, tinha uma queda pela Laura. Teremos a presença dela por aqui pelos próximos capítulos e não, a moça não veio a passeio como devem imaginar ;).

 

Haíz segue a todo vapor! Tanto vapor que aparentemente, nossa Julia anda sentindo demais o ritmo apertado de Ívi que focada nas coisas que precisa fazer, não está sabendo se administrar direitinho com Laura. Porém, temos viagem de lua de mel pela frente e prometo que um capítulo lindo está vindo por aí! Próximo capítulo, "Víveme Ahora", não esqueçam dos comentários!

 

Abraços!

 

 

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