6 AM - Capítulo 46 - Gene Obscuro

19/2/2020

 

 

Laura não soube como se mover. 

 

E isso era algo completamente novo para Ívi, porque Laura Bueno sempre sabia o que fazer, sempre sabia como se mover, ainda que a situação fosse muito atípica, ela sempre sabia. Mas depois de ouvir aquele resultado, ela simplesmente não soube. Não soube como reagir, nem como se descongelar e foi a situação mais improvável que Ívi pensou que poderia estar. María estava chorando, mais do que assustada, estava em pânico, apavorada e Laura não parecia capaz de resolver. Nem de sair do lugar. 

 

Ainda bem que Tiziana estava com elas. 

 

Ela cuidou de tudo. Cuidou de acalmar María e levá-la para o hotel, e disse para Ívi fazer o mesmo com Laura, que deveria cuidar dela, acalmá-la. 

 

— Tiziana... Ela nunca... Precisou. Que eu cuidasse dela assim. Precisou de outras maneiras, mas assim... Nunca. 

 

Tiziana respirou fundo. 

 

— Todo mundo precisa ser cuidado, Ívi. Ela vai precisar mais vezes, por mais incrível que ela seja e você vai ter que aprender a lidar com isso. É parte importante de estar junto, estar forte enquanto a outra não estiver. 

 

Ívi respirou fundo, ela tinha toda razão. Então, Tiziana partiu antes com María, tentando acalmá-la, fazê-la parar de chorar e Ívi tinha sua Laura para cuidar. 

 

Respirou fundo e olhou para sua menina. Sentada no corredor, do jeito que havia recebido a notícia e nunca mais tinha se movido. Os cotovelos apoiados sobre as coxas, a cabeça inclinada, o olhar reto, mas para lugar nenhum. Ívi chegou perto dela e se abaixou à sua frente. 

 

— Laura... Nós temos que ir. 

— Eu sei. Eu só não sei... Pra onde. 

 

E aquilo pegou Ívi direto pelo coração. Pegou a mão dela, lhe beijou o rosto e deixou que ela lhe abraçasse, bem forte, bem apertado, do jeito que ela precisava e deixou que ela chorasse também, no seu ombro, do jeito que a própria Laura tinha lhe aguentado chorar na noite em que se conheceram. E então, ela aceitou ir para o hotel. Pararam numa cafeteria antes, para que Laura se acalmasse e retornasse para si. Pegaram uma mesa em frente ao Museu de Leonardo da Vinci e quando Ívi voltou com os cafés, ela ainda olhava distante. Os olhos escuros. Como açúcar que perde o ponto do caramelo. Mas Ívi voltou para perto e ela abriu um leve sorriso. 

 

— Eu não canso de te ouvir falando em italiano, sabia? 

 

Foi um acalento ver um sorriso nela, ainda que fraco, era sua Laura reagindo, Ívi sabia. 

 

— E eu não canso de te ouvir em qualquer idioma, amor, qualquer um que seja. Laura... 

— Eu estou ouvindo a minha mãe na minha cabeça, gritando comigo, sobre como deixei isso acontecer, Ívi — Os olhos dela seguiam no museu de Leonardo. 

— Laura... Por que ela está gritando com você? Por que não está gritando com a María? 

— Ela tem quatorze anos, Ívi... 

— E é extremamente inteligente. Ela explica conceitos de física quântica e não sabe como se engravida? Laura, por favor. Ela sabe, eu só não estou conseguindo entender por quê. O que ela pretendia com isso. Ela não é o tipo que faz algo sem pretensão. 

 

Aquilo tocou Laura. Era assim que precisava começar aquela conversa com María. 

 

Quando chegaram no hotel, Tiziana ainda estava com María, que ainda não tinha conseguido parar de chorar, mas ao menos estava mais calma. Nem precisou dizer nada, entrou e Tiziana saiu, lhe deixando um beijo na testa e trazendo Ívi consigo. Era um assunto de família, que precisava ser conversado em particular. 

 

Laura cruzou os braços e respirou fundo olhando para sua irmã menor. Os olhos de pôr do sol também queimados, vermelhos de tanto chorar. Mas ela olhou para Laura, arrogante, altiva, mas apenas como defesa, Laura sabia. 

 

— Você queria sair da Espanha. Eu sei por que fez isso. Eu só não entendo se você compreende o valor que vai ter que pagar. Quanto tempo você sabe? 

— Soube agora, Laura, soube junto com você! Você acha que eu sabia e não contei? — Ela estava desesperada, seguia desesperada. 

— Você estava esquisita desde quando chegou. 

— Porque eu estava me sentindo esquisita! Estranha por dentro, mas eu não sabia, eu não tinha ideia, eu não queria isso, eu não quero isso, Laura! Você tem que me ajudar a resolver! 

— Ajudar a resolver? — Laura andou para cima dela, trêmula, furiosa e assustada — Você está com dois meses! Dois meses! E ainda que estivesse com duas semanas, María, tem um bebê aí dentro! Um bebê com o seu sangue, o meu sangue, nós não vamos assassinar ninguém! Menos ainda em família! 

— Você não tem o direito de me obrigar a ter um bebê! 

 

Laura a agarrou pelo braço e a olhou nos olhos: 

 

— Eu tenho. E se eu não tiver o direito, a lei te obriga. 

— Eu sou espanhola — Ela disse, desafiadora — Eu tenho no mínimo mais 6 semanas para decidir sobre isso. 

— Você é espanhola, mas em território brasileiro. E do país que eu venho, nós não matamos bebês — A soltou. 

 

E o coração de María desacelerou. 

 

— Laura, você está dizendo que... 

— O pai vai te pôr na rua, sem pensar duas vezes. Você conhece o Alejandro, ele não é bom com crianças, não vai querer uma criança extra dentro de casa por conta de uma malandragem sua! — Estava falando em catalão, mas disse em português — Conhece esta palavra? Você é malandra, María! Uma malandra que se acha inteligente demais para os outros! 

— Laura, eu não queria isso! Coño, yo no quería! Eu fui pra cama sim, mas fui calculada, com tudo pensado, era só isso que eu queria que o pai descobrisse, já seria suficiente para ele me enviar para você! 

— Você tem quatorze anos, María! Como é que... — Laura respirou fundo, apoiando a mão na cabeça — Quantas vezes? 

— Uma. Foi uma única maldita vez. Eu não sei o que aconteceu. Não era para ter sido assim. Eu não quero estar grávida, Laura. 

— Deveria ter calculado isso antes. Não agora — Respirou fundo, passou as mãos pelo rosto, pelos cabelos — Olha pra mim, María: nesta família, nós não matamos. 

 

Foi a última frase de Laura. Ela saiu do quarto e o mais gentil que conseguiu, perguntou se Tiziana podia... 

 

— Ficar com ela, claro. 

— É só até eu me acalmar e... Conseguir ver as coisas da melhor maneira. 

— Não se preocupa com nada. 

Durou muito pouco a sua preocupação controlada. 

 

Era vinte e cinco de dezembro. 

 

— Laura, eu vou ter que voltar. Temos shows a partir do dia vinte e sete, e... 

 

Ívi nem precisava continuar. Laura se levantou, foi para o banheiro, sem dizer uma palavra que fosse e Ívi a seguiu, claro que a seguiu. 

 

— Laura, eu ficaria se pudesse, amor, você sabe que eu ficaria! Mas eu tenho cláusulas contratuais e... 

— Você não tem que me explicar, Ívi, eu sei, é só que... — Abriu o box, ligou o chuveiro, ainda de lingerie, só precisava da água quente imediatamente — Eu vou ter que ir para Madrid, vou ter que conversar com o Alejandro, ele vai acabar com a María, eu nem sei se devo levar ela de volta pra essa conversa... 

— E nem deve aparecer lá você sozinha. Laura, eu sinto muito, eu deveria te acompanhar, deveria conhecer o seu padrasto, a sua cidade. 

— A gente não veio para isso — Ela respondeu, respirando fundo ao sentir a água quente no chuveiro — Nem para esta outra situação. Você acha que a gente consegue mudar a minha passagem? 

 

Ívi tirou a camisa e entrou no chuveiro, de calça e tudo. E Laura se jogou nos seus braços, lhe abraçou muito forte enquanto Ívi lhe deu todo aquele carinho, lhe deu seus braços, parte da segurança que sabia que ela precisava. 

 

— Esta é a última coisa com que você precisa se preocupar. É só nisso que eu consigo ajudar agora, amoriño. 

— Já é muita coisa. 

 

Enfim, Ívi conseguiu acalmá-la, mas vê-la ligar para Julia e receber a mesma explicação técnica de Ívi, partiu seu coração. Julia ficou furiosa, desesperada e então pareceu ficar calma, porque não tinha como lidar com aquilo. Também tinha que voltar, também não podia ficar, Laura sabia que teria a mesma resposta, mas estava buscando alento, algo que lhe acalmasse, foi outra crise de choro depois que desligou com Julia e enquanto tudo estava intenso e desesperador, quando Ívi já não sabia o que fazer e faltava pouco para amanhecer, alguém ligou. 

 

Era Kelsey Harris. 

 

— Laura, eu chego aí meio-dia... 

— É a sua lua de mel, Kelsey. 

— Eu sei, Vik também sabe, nós vamos para Bali, mas fazemos uma escala antes. A gente só precisa... Entender como isso vai funcionar. O que pode ser feito. Me espera, eu chego aí rapidinho. 

 

Alguém, enfim, conseguiu fazer Laura se acalmar e dormir um pouco. 

 

Fizeram assim no dia seguinte... Tiziana partiu de trem e Laura foi deixar Ívi no aeroporto. Kelsey chegou uma hora antes do embarque de Ívi, puderam se ver e participar daquela conversa sobre o que fazer com María. 

 

— Certeza de que ele vai expulsar ela de casa? 

— Absoluta. Eu vou ter que levar ela comigo, Kels. 

 

Kelsey pegou a mão de Laura. 

 

— Eu te ajudo com ela. Ívi e Julia também, ela terá o bebê, mas e depois? 

— Eu... Eu não tenho ideia. 

 

E Laura chorou outra vez e para Ívi a coisa mais difícil foi ter que deixá-la naquele aeroporto, com Kelsey interrompendo uma lua de mel para não a abandonar. Por outro lado, um lado que ela jamais esperou sentir, também ficou aliviada de entrar num avião e não ter que lidar com María. Não era com Laura, nunca seria, seria sempre com María. 

 

Partiram com María ainda aquela tarde, um voo direto para Madrid. Laura foi se desculpando com Vik o voo inteiro, estava se sentindo péssima, muito desconfortável, de estar interrompendo uma lua de mel com seus problemas, mas Vik era um anjo, e era uma salva-vidas muito eficiente, disso todas já sabiam. Ela foi compreensiva, cuidou de fazer Laura se sentir bem e cuidou de tentar ajudar María. Ela seguia em desespero. Chegaram e o caminho até a casa nunca pareceu tão perto. Concordaram que era melhor que María não encontrasse com o pai, a depender da reação dele, teriam a segunda conversa, mas para começar... 

 

— Eu vou com você. Vik, você...? 

— Vamos comer alguma coisa em algum lugar — Pegou María pela mão e falou com ela — Independente de qualquer coisa, você precisa se cuidar agora. 

— É o meu corpo, eu tenho direitos, Vik. 

— Sobre o seu corpo, mas não sobre este corpo dentro de você. 

 

Assim, Vik partiu com María e, Laura e Kelsey, para a casa de Alejandro. 

 

— Laura, se ela não quiser mesmo ficar com o bebê, Vik e eu temos uma ideia. 

— Eu imagino qual seria a ideia, mas... É muita coisa para pensar agora. 

 

Kelsey a segurou, pouco antes de baterem na porta. 

 

— Você sabe sim o que pensar. Você sente que é sua responsabilidade. E você sequer é aquela que deixou a María — Disse, se referindo ao abandono sumário e sem culpa de Julia — Você é boa, Laura. 

 

E sua bondade parecia estar lhe batendo a vida toda. 

 

A conversa com Alejandro foi tão desastrosa quanto Laura achou que seria. Ele já ficou nervoso só por ver Laura sem María, ele sabia que alguma coisa estava acontecendo, só que aquela era a última coisa que ele esperava, a última. 

 

— Eu preferia pegar outra filha na cama com outra mulher! Eu preferia isso! Eu preferia isso! 

 

E ficou agressivo como na manhã em que tinha pego Laura na cama com Julia e se não fosse Kelsey... 

 

Se não fosse Kelsey, teriam ido parar na delegacia outra vez. Ele acusou Laura, de não estar presente, por não ter visto acontecer, por ter posto ideias na cabeça de Julia e na cabeça de María e Laura não tinha... Vontade de se defender. Nenhuma. 

 

— O que acontece agora? 

— Acontece o mesmo que aconteceu a você! 

 

Ele fez as malas de María, chorando, furioso, fez uma mala mínima e disse que não queria vê-la, que Laura resolvesse, ela não precisava voltar, ela não queria tanto ir embora? Pronto, estava indo, podia ir, onde tinha que assinar?  

— Eu te trago um documento para assinar — Resposta Harris que finalizou a conversa. 

 

Kelsey cuidou desta parte o mais rápido possível. Saíram de lá e retornaram no final da tarde, com advogados e um termo que Alejandro não hesitou em assinar. 

 

— Eu não nasci para ser pai. De nenhuma das três. Vocês podem desaparecer. 

 

Doeu tanto em Laura que ela não conseguiu se controlar. Mais choro, mais desespero, Ívi ainda estava voando e não tinha ideia de como iria se acalmar. Tinha essa dependência de Ívi, que precisava reduzir, manter sob controle, mas não sabia como fazer. Tinha uma necessidade dela imensa e ela estava fora de mão, estava longe, chegaria em algumas horas e Laura não sabia bem como se manter até lá sem essa necessidade extrema de estar perto dela. De falar com ela. Lê-la que fosse. 

 

— Laura, tudo bem se desesperar, sabia? Tudo bem precisar de alguém, e melhor ainda que essa pessoa seja sua noiva. 

— Eu sei, mas é que... 

— Você está fragilizada. 

— Eu odeio estar fragilizada. Eu sinto como... — A voz embargou outra vez — Como se minha mãe tivesse morrido outra vez. É o mesmo desespero, Kels, é o mesmo desespero... 

 

Karime chegou à noite. Noah tinha voltado ao Brasil também, tinha que trabalhar, mas Karime pôde ficar. Estava de recesso até o começo do ano e não deixaria Laura sozinha daquele jeito, naquele desespero. María ficou triste como nunca imaginaram quando soube da reação do pai, estava com vergonha, com medo e Laura sabia que parte daquilo tudo, além do óbvio, era também porque ainda não tinha a tocado desde então. 

 

A abraçou aquela noite no hotel, depois do jantar que ela se recusou a comer, tentando acalmar um choro que estava ativo há mais de 36 horas. 

 

— A gente vai resolver, está bem? Vamos para o Brasil, para o Rio de Janeiro que você sempre quis conhecer. 

— Laura, eu não quero este bebê, eu não quero ser mãe... 

— Shssssss — Calou a boca dela com a mão, mas delicadamente — Não diga mais isso. Ele ou ela está ouvindo. Nós vamos para o Rio, está bem? Para o meu apartamento com a Ívi.  

— Ela me odeia, ela é diferente da Kelsey... 

— Não odeia não. Veja o hotel em que estamos, as passagens confortáveis para casa, é ela, está bem? Cuidando de mim e de você. Nós vamos nos entender e vamos resolver tudo. Você lembra? Como se chama este urso aqui? 

 

Era um urso com a camiseta da Inter de Milão, presente de Kelsey na viagem para Itália.

 

— Gianne. 

— Vamos começar a nos referir a este bebê aqui como Gianne, só esta semana, depois mudamos o nome, está bem? 

 

María a olhou. 

 

— Quer me fazer entender que é um ser humano, já. 

— Ele já é um ser humano, já. Se este urso fosse uma ursa, que nome teria? 

 

María abriu um sorriso leve, o primeiro desde o hospital. 

 

— Claudia. Mas não soa como um nome para bebê, não é? 

 

Sorriso de Laura também. 

 

— Não soa muito. Podemos chamá-la de... Angra. A ilha que você quer tanto ir — Mais um sorriso. 

— Angra, eu gosto do som! 

— Soa muito bem. Então, agora eu preciso que você coma e que durma, sei que não está dormindo. 

— É que... Eu estava correndo na neve, com... O Gianne. 

 

Terceiro sorriso de Laura. 

 

— Nós vamos em um médico amanhã, fazer exames, ver se tudo está bem e... 

— Nós deveríamos passar o ano novo em Paris — Foi Karime propondo e o rosto das duas se iluminou um pouquinho — Ívi quer, Laura. Ela acha que vai fazer bem para vocês duas, ambas sonham com Paris, não sonham? 

 

Era verdade, as duas sonhavam com Paris. E Laura só podia agradecer, por tê-la, ainda que a distância, lhe cuidando tão bem, dando um jeito de estar presente. Foram ao médico no dia seguinte, fizeram os exames necessários, tudo estava bem com o ursinho, não aquele da Inter de Milão, aquele que María estava carregando dentro de si há dois meses sem fazer ideia. Laura acreditou nela, geralmente sabia quando María estava mentindo, só não gostava de admitir e desta vez, não havia conseguido identificar traços de mentira nela. Foi um passo em falso, de alguém arrogante, que se superestima.  

 

A calma pareceu se fazer presente depois que foram ao médico, Karime era ótima nisso, em manobrar clima, deixar as coisas de maneira mais leve e convenceu María e Laura para um passeio por alguns museus de Florença antes de irem embora. Eram duas nerds, a sedução funcionou. Fizeram passeios pela tarde, jantaram num lugar agradável e enfim, Laura e María dormiram de verdade aquela noite. 

 

Ívi estava preocupada, Julia também, mas o ritmo dos shows depois das férias parecia estar atropelando as duas. Laura sentiu uma distância nova, mas devia ser culpa do ritmo de final de ano e culpa sua também, não conseguia parar de pensar em María e no que faria, também estava fora de compasso. Externalizou isso na tarde em que chegaram em Paris. María preferiu ficar no apartamento, tinham pego um Airbnb, prédio antigo, perto do Gare du Nord, mas apartamento moderno, com cozinha, sala aconchegante, preferiu ficar assim a ir para um hotel. Sendo assim, María decidiu ficar em casa, ainda com sono e Karime convenceu Laura a dar uma volta. 

 

E foi simplesmente maravilhoso! Karime não existia não, era de outro planeta aquela colombiana, passearam pelos Jardins de Luxemburgo, onde segundo Karime, fizeram o piquenique de casal que nunca haviam sido, admiraram Notre-Dame, ou o que havia restado dela, andaram então a esmo, meio sem rumo enquanto Laura divagava sobre sua paixão pela Sagrada Família de Barcelona, tema recorrente de seus desenhos noturnos enquanto dormia. Foi bom pensar em outras coisas, foi bom comer Crepe Suzette com uma de suas almas gêmeas e admirar a cidade. Foi bom dar uma volta, e deram tantas que se perderam dentro do metrô! As estações estavam estranhas, Laura estava começando a ficar nervosa novamente porque já estava anoitecendo quando...

 

Karime a tirou do metrô, dando certeza de que estavam na estação certa, porém quando subiram as escadas, saíram em um cenário de filme.  

 

Sim, estavam perdidas e num lugar inacreditável. 

 

Estavam na Champs-Élysées, acendendo suas luzes naquele exato momento e Laura aceitou como um presente. Estava apressada para voltar, naquele momento não ficou mais porque... Ficou sem ar, sem reação por algo bom, lindo, um privilégio. Fez uma ligação por vídeo, ela e Ívi seguiam separadas por fuso horários diferentes, mas Ívi estava acordada e brilhou os olhos quando viu onde sua Laura estava. 

 

— Ainda te devo Paris, amoriño. 

— Deve, meu amor. Mas eu sei que vamos nos pagar todas as dívidas. 

 

Incluindo aquela, de passar o réveillon separadas uma da outra. 

 

Karime a consolou porque Laura tinha ficado triste de novo e a levou para uma típica confeitaria francesa! Dane-se, deveria até ser proibido ficar triste em Paris, Laura estava proibida de quebrar as leis! Pediram um bom café com pain au chocolat, com uma talhada generosa de Red Velvet, uma verdadeira delícia, e durante aquele belo café, com as luzes de Paris se acendendo, Laura confidenciou o quanto estava fora de compasso. 

 

— Isso me lembrou compass, em inglês é...? 

— Bússola. 

— Eu ouvi isso numa conferência outro dia, às vezes nós precisamos ser mais bússola do mapa — Karime começou a lhe explicar — Entende o sentido? Eu sei que você é boa de mapas, é boa de planejar, alcançar, fazer novamente, ir buscar outras coisas, mas às vezes, té de menta, a gente só precisa... Usar a bússola. Mapas — Apontou a cabeça — Bússola — Tocou no coração. Use a sua bússola, Laura, nós vamos achar uma saída, mas talvez, desta vez, os seus mapas não funcionem. 

 

Laura lagrimou. Talvez Karime tivesse razão. 

 

Colocou seu coração à frente de tudo aqueles dias. Tentou não pensar no que estava acontecendo e aliviar María também, ela seguia assustada, com medo, Laura também estava, mas precisavam lidar com aquilo da melhor maneira possível. Então, fizeram coisas naqueles seis dias em Paris. Foram ao Palácio de Versalhes, porque María era apaixonada por María Antonieta, de quem havia herdado seu nome, era María Antonela Torre Bueno e os motivos da paixão de Claudia por aquela rainha francesa fizeram sentido dentro do palácio. Subiram à Torre Eiffel, fizeram cruzeiros pelo Rio Senna, andaram sem rumo, apenas curtindo a arquitetura da cidade, o clima de arte. Laura desenhou. Desenhou pelos jardins de Paris e pela Rua dos Pintores, deixou um recado no Muro do Amor e visitou a casa onde havia vivido Pablo Picasso. Laura desenhou mais do que nunca aqueles dias. 

 

E também teve mais ataques de sonambulismos na vida que Karime já tinha visto.  

 

Haíz seguia trabalhando intensamente, fazendo até três shows por noite, Laura e Ívi se falavam, mas as ligações estavam cada vez mais escassas pela simples falta de tempo. 

 

No dia 31, quando decidiram curtir a virada na Torre Eiffel, chegaram antes, fizeram um piquenique no Campo de Marte, foi muito bom, muito agradável, e quando os fogos anunciaram o Ano Novo chegando, Laura agradeceu. Por Ívi, por Karime e até por aquele bebê, o ursinho, era um Bueno, era da sua família e seria amado. Não importava os rumos que tomassem, o bebê seria amado. 

 

Ívi lhe ligou meia-noite em Paris, ainda faltava para ser ano novo no Brasil, se falaram, choraram um pouco, de apego, de saudade, Ívi já estava trabalhando há muitas horas e Julia parecia... Exausta. Triste. Era a situação de La Mari, Laura sabia. Desligaram e na volta pra casa, Laura ainda tinha uma pergunta a fazer. 

 

— María, o pai... É relevante? 

— Ele é lindo. Fim da relevância. 

 

Pegaram o voo no dia seguinte e a volta para o Brasil foi silenciosa e longa. Karime estava cuidando das duas, mas a grande verdade é que nunca pensou que veria Laura tão abatida. O gene obscuro, lembrou disso e sentiu algo negativo lhe agarrando por dentro. Chegaram depois das longuíssima horas de voo, Ívi jurou que estaria no aeroporto para buscá-las, mas assim que ligou o celular, Laura recebeu uma mensagem culpada, de alguém se sentindo péssima, mas um convite tinha aparecido de última hora e... 

 

— Ela chega mais tarde? — Lhe perguntou Karime pondo as malas no Uber. 

— Chega semana que vem. 

 

Foram pra casa em silêncio. Apesar dos olhos de María estarem radiantes captando cada coisinha que passava pela sua janela! Teve uma luz nela, fraquinha, mas teve, mas quando chegaram no apartamento... 

 

— Laura, é tão... Pequeno. 

— Pequeno? Nós vivíamos em 5 aqui, muito bem aliás — Disse, trazendo as malas para dentro. Karime tinha partido direto para Jacarepaguá e Laura precisava correr porque, começaria a trabalhar no dia seguinte e ainda não fazia ideia de... Do que faria com María. Na verdade, até sabia, só não fazia ideia de por onde começar — Precisamos ir ao consulado, solicitar sua permanência e marcar um exame que prove que você pode falar e escrever em português, para então achar uma escola para você. 

 

— Laura, eu não vou ser a estrangeira grávida aos 14 numa sala de aula, por favor. 

— Você não vai ser? María, você vai ser o que for necessário que seja. O pai não é relevante, a mãe precisa ser — Laura estava seca, abrindo as janelas, andando pelo apartamento. 

 

Os olhos de María se encheram. 

 

— Laura, você tem que me ajudar. Eu não vou conseguir. 

 

Laura parou e olhou para ela. Andou em passos longos e a abraçou, contra o seu peito, a sentindo se agarrar pela sua camiseta e chorar, chorar, chorar. 

 

Chorou até dormir outra vez. Daí Laura a deixou na cama e foi checar seu celular, tinha 104 mensagens de Ívi, como assim? Há quanto tempo não olhava o celular? 

 

Saiu do quarto e ligou para ela. 

 

— Laura, a Julia simplesmente sumiu daqui! 

— Como assim sumiu, Ívi? As pessoas não somem assim! 

— Ela sumiu! Tivemos um contratempo ontem, ela discutiu com a Natalia muito feio, foi para o quarto dela, temos um show em quatro horas e ela simplesmente não está no quarto, não atende celular, nem a Thai sabe onde ela está. 

— Como assim a Thai não sabe? Elas dividem o quarto! 

— Laura, a Thai não veio com a gente desta vez. Disse que estava cansada, que precisava de mais uns dias, ela está no apartamento delas, não faz ideia de onde... 

 

A porta da sala se abriu. 

 

— Ela está aqui. 

— Como? 

— A Julia acabou de entrar aqui. Já ligo para você. 

 

Tinha chegado, de mochila, óculos escuros, aparência cansada. Não disse nada por um tempo, apenas correu e abraçou Laura o mais forte que conseguia, chorou, tremeu, estava tremendo muito e Laura estava tentando entender. 

 

— Eu não consigo mais tocar, está vendo? — Mostrou as mãos tremendo demais — É por movimento repetitivo, eu fui ao médico, eu não consigo tocar agora... 

— Julia, você abandonou um show. Um show... Onde mesmo vocês estavam? 

— Em São Paulo. E antes estávamos em Belo Horizonte, e antes em Brasília e antes... — Ela respirou fundo, apertando as mãos — Eu não me lembro. Eu não consigo lembrar... 

— Juls, Juls, calma, está bem? Fica calma, você está tendo uma crise nervosa. 

— Como você não teve uma crise? Nossa irmã de 14 anos está grávida! O pai não quer saber da gente de novo, o que você vai fazer com a María, com um bebê? Como é que não surtou ainda, Laura?! 

— Eu não posso surtar! Surtar é um luxo, eu não posso, está bem? — Laura esfregou os olhos, estava exausta — Julia... — Respirou fundo — O que você quer? O que precisa? Você abandonou a Ívi sozinha lá, para tocar para...? 

— Vinte mil pessoas — Daí foi Julia quem respirou fundo — Eu... Eu vou voltar. 

— Julia...? 

— Até São Paulo leva quarenta minutos de voo, eu vou comprar um, dá tempo de chegar. 

 

Julia não estava pensando direito, Laura sabia, mas por outro lado, ela precisava fazer o que tinha que fazer. 

 

— Espera, compra um voo pra mim também, eu vou com você. 

— Laura... — Ela lhe olhou e os olhos transbordaram — Você vai? 

— Vou sim. Me deixa só falar com a Thai... 

 

Falou com Thai, ela veio ficar com María e uma hora depois, estavam no aeroporto, embarcando para São Paulo num voo caríssimo, mas que devolveu Julia para onde ela deveria estar em tempo. Conseguiram chegar, faltando meia hora para o show, sem tempo para explicações, passou para a maquiagem, para os microfones, a arena lotada esperava por elas e quando Ívi viu Laura... 

 

Seu coração parou. Correu para sua garota, a abraçou, a beijou, a cheirou, perguntou como ela estava e Laura se apertou contra o corpo dela, naquele ponto de quase fundir. 

 

— Eu não sei direito. Mas sei que precisava garantir que a Julia chegasse aqui e, precisava de você. 

 

Precisava, mais do que qualquer coisa precisava. Precisava de Julia, precisava de Ívi, precisava daquela noite que tiveram, em que Julia e Ívi subiram ao palco com uma energia inacreditável e fizeram mais de vinte mil pessoas dançarem. Julia estava... Radiante. Não tinha como dizer que ela havia estado em crise nervosa apenas umas horas antes, ela estava dançando, energizando aquela arena, pondo fogo em todas as coisas junto com Ívi e algo aconteceu no intervalo entre um set e outro. Vinte e mil pessoas pedindo “El Secreto”, aquela música para Thai, que por ser romântica não fazia parte do setlist daquela turnê. Ela atendeu sorrindo. Não conseguia tocar o violão, mas Ívi podia e elas improvisaram juntas “El Secreto” e “Salva-vidas” e o abraço no final das canções teve tom de pedido de desculpas. 

 

O show terminou, hora de ir para o hotel, muitas fotos, muitos autógrafos e enfim, hotel. Laura descobriu que tinham pego a suíte presidencial, com piscina interna, três quartos, algo que Laura só tinha visto com Kelsey. Entraram em muitas, mas sequer notaram, estavam aos beijos desde o final do show e quando pisaram naquele quarto, Ívi carregou Laura para o seu quarto sem se dar conta de mais nada.  

 

Fizeram amor, com as roupas sendo tiradas pelo caminho, com a cama sendo buscada, as bocas se encontrando, se provando, se levando para outros limites e tudo foi intenso, absurdamente intenso. Laura jogou Ívi na cama, se ajoelhou no chão, a tomou para si, voraz, quente demais, arrancando calça e calcinha enquanto começava a tomá-la, com pressa, com fome, com necessidade e foi tão, mas tão bom que se tocou pelo caminho, deixando Ívi louca ao perceber aquele tesão todo, a fazendo gozar rápido demais, profundo demais e quando tudo ainda estava pela sua pele, Laura subiu para o seu colo, para a sua boca e isso teve duplo sentido. Ela precisava de Ívi e precisava naquele momento. 

 

O céu já estava clareando quando finalmente, foram para o banho. O banho delas, agarrado, quente, cheio de risadas. Como Laura estava precisando disso, relaxar, soltar toda tensão, estar com sua garota, a sua gata de rua, estar nos braços dela. Terminou o banho assim, agarrada nos braços dela, sentindo seu coração bater contra o peito de Ívi. Isso sempre lhe acalmou. Estar nos braços dela sempre lhe acalmou. Voltaram para o quarto, trocaram de roupa e, Ívi estava com fome, é claro que ela estava com fome. Deram risada e foram para a cozinha, ver o que se tinha para comer no minibar e assim que abriram a porta... 

 

A voz de Julia. Inconfundível, preenchendo a sala, junto ao seu violão sendo tocado nota a nota porque ela não estava conseguindo mover mais de um dedo. Uma música linda, em castelhano, quase um bolero sendo recitado, algo que deixou Laura e Ívi arrepiadas. Esperaram que ela terminasse, ali, sentada na sala, tocando, anotando, achando uma nota ou outra e então, deixaram ela cantar tudo de novo, música pronta, inédita, arrepiante. E só então, se aproximaram dela. 

 

— Juls... 

— Eu não posso ficar, Ívi. Eu não consigo mais. Eu quero fazer outra coisa, que não me demande tanta energia, eu amo o que gente faz, mas nós duas temos ritmos diferentes. Eu estou cansada. Eu queria mais dias em casa. Em Barcelona. Con mi gente. Mi voz. Mi guitarra, Thai, nada más.

  

Ívi lagrimou. E pegou a mão dela. 

 

— Eu quero fazer outra coisa também. Quero voltar só a tocar, a compor minhas músicas. Não é terminar com tudo, mas talvez... 

— Pausar. Eu não quero me separar de você, mas neste momento você parece imparável. 

— Eu adquiri mais contas que você para pagar, Juls. Mas não posso te pedir para ficar, eu sei que você está esgotada... 

— Quando você vai ficar esgotada? 

 

Ívi olhou para Laura. 

 

— Nós temos... Planos. 

 

Mapas traçados, Laura sabia. 

 

— Você é um mapa, a Julia bússola. 

— Como, Laura...? 

— Não é necessário explicar agora. 

— Ívi, olha, eu só preciso de uns dias eu acho, você segue tocando como DJ, eu sei que tenho contrato assinado e uma multa que eu não vou conseguir pagar e... 

— Você não vai precisar pagar nada — Heidi tinha aparecido, vindo da varanda. Sequer tinham notado ela ali. 

— Como...? 

— Natalia e eu conversamos, você não precisa pagar nada, porque não irá rescindir nada. Nós temos shows que não podemos desmarcar até o final de janeiro e eu peço que você se esforce e fique com a gente até finalizar. E depois, Juls — Heidi se abaixou à frente dela — Depois você vai para Barcelona. Gravar o seu álbum, no seu ritmo, com a sua gente. Eu fico com você, Natalia com a Ívi, Haíz segue nas plataformas digitais, todas ficamos bem. Você faz mágica com isso aqui — Tocou o violão — A Ívi faz magia com a pickup. É isso. 

 

Julia chorou, Ívi chorou, as duas choraram muito e choraram juntas. E então, pediu-se café na suíte para comemorar! Era a melhor separação desde o término de Laura e Kelsey, sem ódio, se amando muito, com promessas de seguirem juntas, apesar de separadas. Laura teve orgulho de Julia, por ter se posicionado, dito não, pedido por outra coisa ainda que o sucesso estivesse fazendo as duas flutuarem. Porém, com Ívi, o sentimento era diferente. 

 

— Eu senti que estava a puxando para trás, Laura — Julia explicou para Laura, mais tarde, quando haviam tido um tempo sozinhas. 

— E você estava. A minha preocupação não é essa, Juls. 

 

Julia buscou os olhos dela. 

 

— Você teme o contrário. 

 

Laura baixou a cabeça. 

 

— Eu me sinto muito egoísta. 

— Eu também estava me sentindo assim. Ainda me sinto meio egoísta agora. Mas sabe qual é a diferença? Eu não estou feliz. Ela está. E isso me assusta. 

— Não mais do que me assusta, Julia. 

— Você... Você já pensou no que vai fazer com a María? 

 

Laura balançou a cabeça, sorriu para a pergunta. 

 

— Sou eu apenas que tem que fazer algo com ela, não é? 

— Eu não sei o que fazer, Laura. Eu sinto muito. 

 

Bem, nem era algo que Laura não esperava. 

 

Notas do Capítulo:

 

Olá, meninas!

 

Tudo bem com vocês? Outra nota corrida, esta autora escreve em meio a dois relatórios de gestão que precisam serem entregues até depois de amanhã, então já antecipo minhas desculpas pelas poucas linhas aqui escritas, tá?

 

Reta final de 6 AM! No próximo capítulo já começamos nossa última fase da história denominada "Horas", com o capítulo 47, "Mapas". Estou escrevendo os dois últimos capítulos da história e já estou com saudade dessas meninas :). Tempos tempestuosos se aproximam, favor confiarem nesta autora que vos fala, hein?

 

Beijos! Não esqueçam dos comentários!

 

 

 

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