Angra: Capítulo 21 - Cartagena



Brasília, agosto de 2015.


Havia algo sobre a gravidez que Angra julgava que era apenas lenda urbana: as mudanças súbitas de humor, de amor, de paciência... E o quarto mês chegou a tornando uma verdadeira bomba-relógio de hormônios.


Nem sabia se explicar direito, eram tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, estava correndo com o quarto do bebê e isso, obviamente, havia lhe tirado o seu quarto-refúgio, agora seria de seu bebê, que... Ainda não tinha nome. Não conseguia definir, sequer tinha uma lista, enquanto Guilherme não parava de lhe trazer nomes todos os dias e, andava lhe dando o mínimo de espaço possível. Andavam discutindo por coisas inesperadas, tal como as horas que Angra trabalhava, ele insistia que ela podia trabalhar menos, que ele poderia prover a casa sem ela, sem nenhum problema e Angra sabia que era pensando no seu bem, em poder passar mais tempo em casa descansando, porém, não era este tipo de mulher. Não ficaria trancada em casa velando uma gravidez no melhor momento de sua empresa.


Os negócios na Europa haviam causado um boom em suas finanças. Um boom positivo, que andava lhe exigindo muito, tanto de si mesma como de Marcela e a pressão sobre a equipe que tinham estava se tornando quase impossível de ser suprida. Naquela semana, havia entrevistado vinte candidatas diferentes, tinham aproveitado duas, mas ainda precisavam que alguém extraordinário aparecesse. Com um diferencial, algo que pudesse somar no escalão estratégico, onde Marcela e Angra andavam se sentindo pressionadas também e quando finalizou aquela tarde sem essa pessoa...


Angra achou que fosse ter uma coisa. E o pior, é que sabia onde tinha essa pessoa com diferencial, estava lá em Cartagena, cuidando da carreira de uma determinada escritora e poderia só... Era quando se dividia. Porque amava aquele bebê sem nome dentro de si mais do que qualquer coisa que já tinha amado, a bomba de hormônios se dividia com uma bomba de amor que não conseguia explicar, era além da compreensão. Então não pensava jamais em não tê-la, não pensava que poderia ser diferente, essa fase tinha passado, mas ao mesmo desejava que...


Desejava que Sofía estivesse perto. E isso lhe quebrava em duas com uma enorme facilidade...


— Angra? Chegou uma menina aqui, com meia hora de atraso e... — Marcela entrou na sua sala — Eu detesto atrasos. Mas o motivo pelo qual ela atrasou, está me obrigando a deixar ela fazer a entrevista.


Angra descobriu que o motivo estava no colo dela.


— É que meu namorado não voltou pra casa no horário que combinamos, e...

— Qual o nome deste príncipe que não chora? — Angra sentou-se novamente ao recebê-la na sua sala. Impecável, num vestido básico e elegante, saltos altos, cabelos tão perfeitos quanto e um bebê no colo.

— É Bernardo. Ele é muito calmo mesmo e eu sei que esta é uma péssima maneira de se apresentar para uma entrevista de emprego, mas...

— Bem, eu também trouxe o meu bebê para o trabalho, então...


Ela abriu um sorriso, o primeiro desde então, parecia uma moça bastante séria.


— Qual o seu nome?

— Luria Ribeiro. E eu consigo dizer só de analisar alguns números, quanto a sua empresa estará rendendo ano que vem, ou se ela vai falir, ou se vai escalar mercado. E eu tenho como provar. É um algarismo calculável.


Marcela e Angra se olharam. Aparentemente haviam acabado de encontrar alguém diferente.


Ligou para Sofía de dentro do carro.


— Então este problema foi resolvido! Achou quem você precisava para te ajudar...

— Achei, ela parece muito promissora, vamos ver, fico mais tranquila com alguém para apoiar a Marcela quando eu precisar me afastar. Linda, você... Você vai conseguir vir?


Sofía sorriu. Iria conseguir.


E conseguiu por sete dias inteiros. Frederíca iria viajar até a Ilha Múcura, no Arquipélago de San Bernardo, queria uns dias sozinha para avançar na história que estava escrevendo e Sofía decidiu passar seus dias em Brasília, perto de Angra.


Chegou de madrugada, foi para o hotel sozinha, a sensação já era de estar voltando pra casa, era distinto, era voltar para o seu país, para o seu idioma e, para a mulher que simplesmente adorava. Combinaram um encontro diferente no dia seguinte, Sofía precisava resolver algumas coisas, renovar seu passaporte, trocar a carteira de identidade, aproveitou para fazer tudo isso e, marcou com Angra numa cafeteria, no caminho do hotel.


Pediu um americano e pegou uma mesa do lado de fora da cafeteria, e quando viu Angra chegando...


Naquele Fusca branco conversível, com os cabelos mais escuros, num tom de avelã lindo demais, os óculos escuros e aquele sorriso que... Era de parar o coração de Sofía. Estacionou e quando ela desceu do carro, Sofía pôde vê-la visualmente grávida pela primeira vez.


Angra estava de legging preta, camiseta e uma jaqueta verde por cima, a barriga evidente pela primeira vez.


— O quanto que eu perdi de você! — Sofía levantou-se e elas trocaram um abraço muito longo, muito apegado, apertado demais e, Angra lhe roubou um beijo rápido, o que fez o coração de Sofía quase parar novamente! — Angra!

— Eu sei, mas foram 32 dias longe de você... — Ela respondeu sorrindo, sem medo nenhum.

— E você está...

— Enorme.

— A coisa mais linda — Sorriso de Sofía, outro abraço apegado, cheirado, do jeito delas — Que saudade de você, linda...

— Nem me fala em falta. Meu amor, consegui uma noite pra gente...


E conseguir uma noite naquela configuração era uma coisa enorme! Tomaram um café da tarde, conversando, colocando os assuntos no lugar, Angra seguia uma rebelde, iria dormir fora sem uma explicação condizente, porém, Guilherme não parecia tão preocupado quanto Carolina que ligava sem parar.


Ligou até a entrada do hotel, onde Angra decidiu desligar o celular.


— Angra...

— Deixa desligado, vem, que eu estou morrendo de saudade de beijar você...


Acharam o caminho do quarto e o beijo veio assim que a porta se abriu, apegado, profundo, cheio de saudades e descobrir o corpo de Angra agora era coisa de todo encontro. As curvas novas que surgiam, a diferença na pele, as linhas inesperadas, os seios que lhe deixavam tão louca e o tesão dela... Não conseguia explicar o tesão de Angra. O desejo dela, o quanto sempre estava molhada, como sempre podia gozar de novo e como o cérebro de Sofía não processava cansaço quando estava na cama com ela...


Foram dormir às quatro da manhã. E acordaram às oito já morrendo de saudades...


Fizeram amor rapidinho e assim, Angra não pôde ficar nem para tomar café. Precisava ir trabalhar, precisava voltar pra casa e naqueles sete dias em que Sofía ficou em Brasília, elas conseguiram se ver por algumas horas por dia. Angra fugia pela manhã, ou passava a tarde numa reunião externa com Sofía e cada vez mais, a hora de ir se tornava mais e mais longa. Foi um encontro diferente aquele. Não por algum tipo de sentimento, o que havia entre elas apenas se tornava mais e mais forte, porém, o tempo de Angra tinha se modificado demais.


Ela andava correndo com as coisas do bebê, correndo para se manter em casa agora que Guilherme não mais saía, as coisas no escritório andavam fervendo e ela corria para se dividir em tudo isso e, ver Sofía algumas horas daqueles dias. Não fez mal passar tempo sozinha; tempo sozinha era um verdadeiro luxo para Sofía, com ambas trabalhando em casa, ela e Frederíca, tempo sozinha era realmente algo que não sobrava e que andava incomodando um pouco. Tanto que Frederíca precisou sair e para Sofía, foi uma oportunidade que não podia deixar passar.


Pouco saiu do quarto naqueles dias. O quarto era espaçoso, conseguia fazer sua ioga sem nenhuma dificuldade, descia para as refeições e para passar um tempo na piscina pegando sol, lendo seus livros, escrevendo, pondo suas ideias no lugar e quando começou a de fato colocar tudo em ordem...


Os últimos cinco meses tinham sido uma ansiedade só. Não sabia dizer quantas vezes tinham chegado perto de terminar e retornado, porque apesar de terem ido muito mais longe do que podiam imaginar, também andavam sentindo falta uma da outra de uma maneira que não puderam calcular. E era provável que só piorasse, Sofía não andava conseguindo equilibrar as coisas, sentia ciúmes, sentia dor a cada postagem que acabava recebendo, de uma família feliz, esperando pelo primeiro filho. Filha. Era uma menina. Tinham descoberto aquela tarde finalmente. Em um dia que Angra não conseguiu aparecer, em que ficou presa na empresa, no consultório com o marido, e então, numa comemoração inesperada que lhe aguardava em seu apartamento. Sofía não estava lá, mas teve que assistir tudo ainda que não quisesse na verdade.


Nunca iria entender o motivo do ser humano ser atraído por aquilo que lhe machuca.


Sabia que não deveria abrir o Instagram se não quisesse se machucar, mas quando viu, já estava lá, cavando e cavando mais, buscando cada foto, vídeo que pudesse lhe ferir, achou tudo. Inclusive, uma foto de Frederíca com uma desconhecida que fez questão de lhe marcar. Não derrubou nenhuma lágrima. Se proibiu de chorar. Não tinha direitos de chorar pela felicidade de Angra e não deveria chorar pelas escorregadas de Frederíca, afinal, tinha voltado para ela sozinha, mesmo a conhecendo melhor do que ninguém. Acordou com alguém já dentro do seu quarto, recolhendo a garrafa de vinho com um dedo no fundo apenas, a taça suja, seu cérebro mais lento processando que era Angra quem estava ali.


Linda, eu fiquei presa, me perdoa...

— É uma menina — Disse, sentando-se na cama.

— É, uma menina. Eu vim te contar pessoalmente, mas... Você já descobriu.

— Seu marido não para de fazer publicações, eu sei como você ficou presa, sei que é uma menina, está tudo explicado.

— Sofía, eu já pedi pra ele parar com essa exposição toda, mas...

— O Instagram é dele, a felicidade também, o bebê, a esposa, está tudo certo. Eu que estou errada aqui.

— Sofía, você... Está muito irritada? O que ele postou? Eu estou com vergonha agora...

— Não precisa ficar. Nem com vergonha e nem desconfortável comigo. Eu não quero mais que fique ansiosa pelas coisas, sério, você está entrando no quinto mês, precisa cuidar de você melhor, não ter este tipo de estresse que a nossa relação anda causando.

Linda, você não está pensando em terminar comigo, está?


Sofía a beijou, muito delicada, muito longamente, foi se pondo de joelhos devagar, chegando mais perto dela.


— O meu voo é hoje à tarde, como está o seu tempo hoje?

— É todo seu se você quiser.


Sofía quis. E tiveram algumas horas muito agradáveis juntas, conversando, rindo, namorando e, decidindo o nome do bebê.


Estela. Estrela em italiano. Em homenagem às noites cataporadas de estrelas que tiveram em Abrolhos.


Angra foi deixar Sofía no aeroporto e o sentimento era distinto demais. Se despedir era algo que estava cada vez pior e o tempo que passaram dentro do carro, trocando beijos sem conseguir parar contou o quanto. O último beijo de Sofía foi em sua Estela. E então, trocaram um sorriso e ela foi pegar seu voo.


Chegou em Cartagena antes de Frederíca, ela sequer saberia que Sofía tinha viajado aqueles dias. Chegou sabendo o que precisava fazer, pelo seu bem, a sua saúde mental e pela de Angra também.


Não houve um término verbalizado. Sofía tentou se afastar aos poucos, para que Angra não sentisse tanto e foram dois meses muito distintos. Sofía foi inocente demais em achar que Angra não perceberia seu distanciamento, ela que podia dizer se havia algo de errado ou não apenas com o jeito que Sofía lhe dava bom dia. Ela notou, claro, foi contra, sabia que a situação tinha sido demais para Sofía, mas não conseguia aceitar. Ela tinha razão, Sofía era o tipo de mulher que geralmente tinha razão, mas Angra não conseguia. Sentia falta dela demais, ainda escrevia todos os dias e foi notando pelo tempo de resposta dela, o quanto ela já estava navegando mais longe. A mensagem que havia quebrado seu coração tinha sido uma em que Sofía lhe dizia que talvez fosse o momento de focarem em suas relações, tinham pessoas muito especiais ao lado e uma situação que não podiam mudar.


Não era para sempre, não era definitivo, era apenas para aquele momento e de que forma Angra conseguiria fazer aquilo, não tinha a mínima ideia.


Mas ao menos, ela não tinha sumido. Se recusou a vir lhe ver no mês seguinte, quando Angra estava com cinco meses, pareceu coeso, sucinto, bem como era da personalidade de Sofía, mas aquilo lhe fez sofrer demais. E o pior era não poder chorar em paz. Angra simplesmente não tinha mais espaço em sua própria casa, Guilherme não lhe deixava respirar, não parava de sugerir coisas, de ler milhares de livros, ele queria ser o pai e o marido perfeito, e Angra começava a se arrepender do que havia pedido a ele.


A questão não era Guilherme, era ela mesma. Que não tinha jeito para ser a esposa perfeita que ele queria, que andava se irritando de encontrá-lo em casa todas as noites e sempre fazendo algo, ele estava aprendendo a cozinhar e todas as noites agora, Angra encontrava seu apartamento cheio. Ele fazia jantares, convidava amigos, queria aprender com os outros e quando Angra completou 63 dias longe fisicamente de Sofía, achou que seu coração fosse parar.


Não seu coração, mas sua mente parou. Com as milhares de coisas a fazer, porque Guilherme seguia fazendo milhares de coisas, mas nenhuma de fato lhe ajudava em suas tarefas de Estela. Angra estava cuidando do quarto do bebê sozinha, uma coisa que nunca terminava, tinha encomendado móveis que estavam atrasados e com seis meses e meio, teve uma tarde em que simplesmente achou que não daria conta. Sofía agora lhe escrevia uma vez por dia, isso quando Angra tinha sorte, não lhe atendia mais quando ligava e as postagens de Frederíca na internet estavam simplesmente lhe tirando do sério. E naquela tarde especificamente, depois de ver uma postagem e de Sofía não ter atendido a sua ligação, teve que ouvir que seus móveis levariam mais uma semana para ficarem prontos e não fazia ideia de como tudo havia acontecido.


Mais tarde em casa, tentaria lembrar de como tinha entrado em seu carro e não encontraria aquela lembrança. Mas entrou no carro e de alguma maneira, conseguiu bater em outro carro ainda no estacionamento da loja.


E foi uma confusão imensa. O motorista desceu e veio para cima dela, que teve que pedir um segundo, sem abaixar o vidro, sem abrir a porta, apenas um segundo para se recompor e respirar. Então desceu, e sua barriga de quase sete meses, fez o motorista baixar o tom imediatamente.


Estava bem, não tinha se machucado, os prejuízos foram apenas financeiros. Tentou ligar para Guilherme umas trinta vezes e como ele não atendeu, teve que ligar para o seguro e dar um jeito de ir pra casa. E quando lá chegou, entendeu o motivo de ele não ter atendido, seu apartamento já estava cheio novamente e ele estava na cozinha, preparando um jantar, com o celular carregando no quarto.


Sequer deu boa noite, simplesmente passou para dentro do seu quarto e se trancou ali, sozinha, tentando se acalmar de todas as formas que era possível, porém, só queria chorar. Chorou tudo o que precisava, chorou vendo Brasília brilhando lá fora, chorou em seu banho, escreveu uma mensagem imensa para Sofía, contando o que tinha acontecido e ela respondeu imediatamente, preocupada, perguntando como Angra estava, como Estela estava.


Era essa a mulher que amava. Era essa mulher que estava convencida de que Angra não a amava tanto assim.


Falaram por celular, só alguns minutos e já fazia quase duas semanas que não ouvia a voz dela.


— Sofía, por favor, vem me ver.

— Eu não consigo — A voz quebrada dela lhe respondeu do outro lado.


Ela estava com medo, Angra sabia. Com medo do que seria dos sentimentos das duas, e sabia que a possibilidade de se machucarem ainda mais era imensa, mas de alguma maneira, o ser humano sempre tenta cavar um pouco mais.


Angra comprou uma passagem mesmo assim.


📚


O primeiro voo a fazer sozinha na sua vida. Fez tudo certo dentro do possível, foi em seu médico, ele lhe garantiu que se ela seguisse o que ele estava dizendo, tudo ficaria bem. Angra era saudável, forte, o bebê estava ótimo, a única questão é que ela não poderia tomar o calmante que geralmente tomava para pegar voos. E que ela teria que voar sozinha.


Tudo bem! Fez uma mala pequena, não iria passar muitos dias, estava indo em um domingo para retornar no sábado seguinte. Embarcou, hiperventilando um pouco, com as mãos suando, tendo que secá-las na ventilação de seu assento e tinha a mais absoluta certeza de que não conseguiria dormir. Oito horas até Cartagena. Foi o melhor voo que conseguiu e, Sofía andava fazendo aquelas viagens praticamente todo mês, porque simplesmente não conseguiam ficar separadas. Seu coração estava acelerado, sabia, tinha dito em casa que faria uma viagem de negócios e sequer deixou Guilherme argumentar, ele não entendeu, Angra detestava voar e de repente estava ali, tão decidida a fazer aquela viagem. Mas também já sabia que quando ela batia o pé, sempre acabava fazendo, não foi como se tivesse deixado ela ir, ela simplesmente foi. Com sete meses, havia acabado de completar.


Foram oito horas sem dormir ou sem relaxar. Angra foi tensa o tempo inteiro, mas tentava se concentrar nas suas motivações de estar fazendo aquela loucura. E finalmente, o avião pousou.


E Cartagena era tão linda quanto Sofía lhe contava. Desceu no aeroporto no meio da tarde e não tinha ainda um hotel para ir, o único endereço em mãos era o de Sofía. Pegou um táxi e foi até ela, vendo um pouco mais daquela cidade mágica, de arquitetura refinada, ruas charmosas, cafés aconchegantes demais. E quando o motorista lhe disse que tinham chegado, achou mesmo que seu coração fosse parar. Desceu, com sua mochila e sua pequena mala de puxar. Não pensou em muita coisa, era um prédio histórico e residencial, passou pela portaria sem ninguém lhe abordar, era um apartamento no terceiro andar, por onde subiu por um elevador antigo até a porta número sete.


Não pensou, apenas bateu.


E Sofía abriu a porta.


— Angra...?! — Gritou seu nome e soltou um palavrão, levando um susto enorme e isso fez Angra cair no riso, enfim relaxar, depois daquelas dez horas de loucura que tinha saído de casa para cometer.

— Será que eu posso entrar? Ou você pode sair? Não sei bem o que...


Sofía a puxou para si e, a beijou, se agarrando no pescoço dela, sentindo o seu cheiro, vendo se ela realmente estava ali, se aquilo era real e aparentemente... Era.


— Angra, você é doida, sabia?!

— Você está me beijando na porta do seu apartamento... — Respondeu sorrindo a sentindo lhe puxar para dentro imediatamente.

— Você dirigiu até aqui por acaso? Com a minha filha aí dentro?!


Mais risos, mais um beijinho dela enquanto ela fechava a porta.


— Eu peguei um voo, eu e este bebê nosso...

— Um voo? Sozinha?

— Com o meu bebê, eu não estava sozinha. E estou com muita saudade...


Levou um tempo para Sofía começar a fazer sentido outra vez. Levou Angra para a sua cozinha, fez algo para elas duas comerem enquanto tentava realizar que ela realmente estava ali, na sua frente, na sua casa.


— Aqui, suas frutas, come bem, eu fiz um chá também. Angra, eu não acredito que...

— Você se recusou a ir me ver. Eu não consigo, Sofía. Eu sei que isso tudo é uma loucura, que não deveria acontecer, sei que te chateei demais naquele dia, mas...

— Não é mais sobre aquele dia, linda, isso já passou. É sobre você e o Guilherme poderem sentir este momento em paz, sobre você ser feliz sem culpa, sobre curtir este momento tão especial. Aquele dia de manhã, você chegou até mim com tanta culpa, Angra, tanta culpa que... Você não precisava estar sentindo tão culpada. Você só estava feliz, comemorando algo que queria, eu sei que você estava sonhando com uma menina, qual o problema disso? Nenhum. Foi por isso que eu me afastei. Não porque fiquei magoada com alguma coisa. Isso é maior que nós duas — Disse, pondo a mão na sua barriga.

— É. Mas é nós duas também e eu não quero não poder dividir este momento com você. Eu sinto falta. Eu preciso de você.


E neste exato momento, Frederíca Gonzalez chegou em casa.


Houve um momento distinto ali. Obviamente ela reconheceu Angra e ficou muito surpresa de encontrá-la em sua sala. Ela reagiu simpaticamente, cumprimentou Angra com um abraço e um sorriso gentil demais. Era ainda mais bonita ao vivo, pessoalmente. Conversaram um pouquinho, Angra explicou que estava a negócios na cidade, que ficaria alguns dias e ressaltou o quanto os livros de Frederíca eram importantes para si. E ela lhe convidou para ficar para o jantar, que ela mesma iria preparar, que podia ficar à vontade, se comia frutos do mar.


— Gosto bastante.

— Vou fazer uma paella bem leve pra gente.


Ela ficou na cozinha, preparando as coisas, ouvindo música enquanto deixava Sofía e Angra à vontade na sala. Conversaram mais, sobre aqueles últimos meses, sobre como andava a empresa, superficialmente, sem aprofundarem em assunto nenhum, porém, seus olhos pareciam incapazes de não mergulhar uma na outra. Sofía ainda estava com seu coração disparado pelo inesperado daquela situação. E Frederíca estava Frederíca, ela não conseguia não jogar charme em uma mulher bonita. O jantar foi agradável, regado a uma genuína conversa sobre as personagens dos livros, risadas foram ouvidas, um relaxamento incomum, a brisa da cidade passeando pela sala. Havia dias em que a salinização se fazia tão presente que a sala de estar parecia estar na praia.


E ficou tarde, Angra precisava ir embora. Pediu para usar o banheiro antes de ir para o hotel que Sofía havia a ajudado escolher.


— Ela e o marido não estão bem — Frederíca lhe disse.

— Como você sabe?

— Ela está aqui, grávida, sozinha. Ela é gay, Sofía, só não sabe disso ainda.

— Talvez ela já saiba.

— E o que faz ainda casada? Ah, o bebê. Isso deve ter sido sem querer.


Angra retornou para a sala e Sofía já tinha trocado de roupa.


— Sofía...?

— Eu vou levar você, claro. Frederíca está no banho, te deixou um beijo e, eu.

— Você?

— É, eu — Sorriso, beijo na mão dela.


Pegaram um táxi e Angra não acreditou na graça de hotel que Sofía estava lhe levando.


— Pertinho da praia assim?

— Nós vamos na praia amanhã, vamos no centro histórico, nos meus restaurantes favoritos, no roseiral que você queria conhecer...

— Vamos fazer tudo isso?


Sofía olhou para ela ainda dentro do carro.


— Meu amor, você é doida. E o mínimo que eu posso fazer, é essa loucura valer a pena por cada batimento acelerado que você deve ter tido naquele avião por nossa causa.


Fizeram check-in, Sofía pediu cama de casal e um quarto com banheira, Angra estava inchada, precisava de um bom banho quente e de uma massagem de corpo inteiro. Ainda não estava acreditando que ela tinha estressado seu bebê num voo de oito horas.


Linda, eu não podia vir sem ela, se é que você me entende...

— Era só ameaçar que ia pegar um avião que eu ia até você... — Respondeu, fazendo Angra rir demais. Tinham entrado no quarto e o beijo assim que passaram da porta foi...


Longo, saudoso, cheio de amor demais.


E as mãos de Angra seguiam iguaizinhas.


Agarraram o vestido de Sofía, zíper encontrado, aberto, mãos na pele morena de sua mulher, porque ela era sua, sentia que era, tinha certeza de que era...


— Não era você que estava errada lá. Nós estamos erradas nos nossos relacionamentos, você entende isso? — Angra perguntou, muito agarrada pelo corpo de Sofía.


Entendia, é claro que entendia. Não fizeram amor, Sofía a levou para a banheira, para a água quente, queria massagear as pernas, os pés dela, checar se realmente tudo estava bem, não fizeram amor e fizeram, quando Sofía decidiu entrar na banheira com ela, ficar de namorinho e, não voltar pra casa.


— E a Frederíca?


Sofía beijou o ombro dela.


— Ela vai entender.


Pediram uma sopa, apesar de terem comido muito bem com Frederíca, Sofia ainda estava preocupada demais. Algo parecia fora de lugar, não sabia dizer, só sabia que tinha um pressentimento dentro de si lhe dizendo para não deixar Angra sozinha nem por um segundo. Ela dormiu depois da sopa. Estava acordada há quase 24 horas. Sofía foi fechar as cortinas, o quarto tinha duas paredes de vidro, com vista para a praia. Demorou para dormir pelo simples motivo de não conseguir parar de olhar para Angra. Em algum momento, pegou no sono. E no primeiro raio de sol, Angra despertou e não parecia muito bem.


Estava com dores na lombar, com cólicas no abdômen, nauseada e com uma pressão na pelve que não estava conseguindo processar.


Bem, Sofía conseguiu. O lado da cama de Angra estava molhado com um líquido que lhe deixou...


Linda, escuta — Tinha a deixado sozinha por uns cinco minutos e retornado, se abaixando junto de Angra na cama — Tem uma ambulância esperando a gente lá fora.

— Ambulância?

— Pode não ser nada, mas pode ser alguma coisa. Você é prematura, não é?

— Sou, o que você acha...?

— Acho que temos que ir para o hospital, está bem? Eu te amo, te amo muito, você é o amor da minha vida — Beijou as mãos dela com muito carinho e Angra estava assustada, ansiosa, mas segura. Sofía estava do seu lado, tudo estava bem — Te amo, minha linda, e amo esse bebezinho aqui — Beijou a barriga de Angra carinhosamente — Tudo vai ficar bem — Ela lhe prometeu, com os olhos brilhando.


E Angra soube que tudo estava como deveria ser.


Notas da autora:


Olá, moças! Tudo bem?


Finalmente descobrimos como Estela nasceu colombiana! E para quem me lê há algum tempo, já deve saber que eu adoro deixar meia-pistas pela história e lá no capítulo um, tivemos a primeira: quando Sofía diz que ataques súbitos de saudade curam até pânico de avião e o segundo, numa conversa entre Angra e Sofía, acho que no capítulo 12, onde Sofía diz a Angra que também gosta de chamar Estela de "prova de amor".


E no final das contas, foi exatamente isso o que aconteceu, Estela nasceu na Colômbia por uma prova de amor, um lapso do destino ou, o fio reto de dois destinos que não conseguem se afastar? Angra também é sobre destinos, sobre um grande trabalho de nornas e moiras que existem em apertar o laço entre Angra e Sofía.


Espero que tenham curtido o capítulo! Próximo da fila, "Estela", onde vamos vislumbrar como foram os primeiros meses desse bebê ao lado de Angra e Sofía. A regra segue a mesma, 50 comentários e, capítulo novo na terça-feira!


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Beijos! Se cuidem!

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