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ACRÓSTICO 4


Capa Acróstico
Acróstico


Face Card



Despertou toda dolorida.


Presley moveu-se na cama devagar, alongando o pescoço, os braços e a coluna. Respirou profundamente e notou que sua menina ainda estava dormindo. Uma noite inteira de sono ininterrupto, Presley nem sabia quando havia sido a última. Seu quarto ficava de frente com o quarto de sua filha, e seu instinto de mãe a fazia acordar sempre que Aika despertava durante a noite, e isso não era algo comum. Quer dizer, crianças acordam de noite, é comum. Acordam e geralmente vão para o quarto dos pais, mas não Aika. Ela acordava, descia da cama e ia brincar com alguma coisa. Ou ia até a cozinha e achava algo para comer. Às vezes, ia para o sofá e ficava lá até dormir novamente. Presley já tinha se preocupado muito com esse comportamento, porque era raro, e ninguém conseguia explicar. Mas ultimamente, andava aceitando que Aika era única, que não era algo com o que precisava se preocupar pra valer.


Deixou um beijo nela e saiu do quarto, ainda se sentindo toda dolorida. Sério? Será que tinha sido pelos 10 minutos de jiu-jitsu com Hanni? Quando tinha se tornado tão fora de forma assim? Bem, sua saúde nunca havia sido lá essas coisas. Lembrava de ter ouvido comentários da mãe de Leo bem mais do que gostaria sobre a sua fragilidade. "Mulheres frágeis geram bebês frágeis." Já tinha escapado de cometer homicídio algumas vezes por causa daquela mulher. Saiu do quarto e encontrou a mesa do café da manhã posta. Café, pão fresco, as frutas de Aika cortadas, e um bilhete:


"Sinto muito por termos discutido ontem. Prometo que vou melhorar. Vamos fazer algo hoje à noite? Pense em algo, farei o que você quiser. Te amo, Leo."


Presley respirou fundo. Se ganhasse um dólar neozelandês por cada bilhete de desculpas de Leo, já estaria milionária. Mas ficou feliz de ter café da manhã, então apenas se sentou e aproveitou aqueles minutos de silêncio. O que Hanni estaria fazendo? Ainda era bem cedo. Pegou o celular e decidiu só dar uma olhadinha, mas foi impedida antes de acessar os stories. Seu celular começou a tocar.


Era da embaixada; sua chefe estava ligando.


— Oi, bom dia!

— Presley, como vai? Escuta, eu sei que é muito cedo, que não é o seu horário de trabalho, mas estou com uma emergência aqui e só pensei em você para me ajudar.

— Ah, não se preocupe, do que você precisa?

— Eu preciso que traduza algo para mim. É um discurso, e eu sei que você não foi contratada para isso, mas é uma tradução em NZSL. A outra tradutora está doente, e sei que você tem proficiência, então, se for possível. Nós pagaremos por este extra.

— Fui contratada como tradutora, posso traduzir das línguas que tenho proficiência, sem problema nenhum. Mas, como você quer fazer? Estou em casa.

— Pode fazer de casa mesmo, num fundo neutro. Você grava e nos envia?

— Sem problemas. Fica por ontem, que não pude comparecer.

— Ótimo! Preciso até às onze, pode ser?


Podia, podia sim. Aquele não era o emprego dos sonhos, mas era um ótimo emprego de qualquer forma e havia sido sim uma espécie de luz no fim do túnel para Presley. Sabia que precisava sair de casa, sabia que precisava voltar a trabalhar em si mesma, ainda mais quando o casamento com Leo parecia tão sem perspectivas.


Entrou num banho rápido, sentindo a água quente pelo seu corpo, descendo pelas suas curvas. Era interessante, elas ainda estavam ali. As pernas bem torneadas, a cintura delicada que nunca havia perdido, os seios volumosos, mas nem tanto, algo que ela sempre adorou.


Tinha parado de lutar pelo seu casamento há um tempo. E havia lutado bastante por ele, por bastante tempo mesmo. Quando as coisas com Aika começaram a acalmar, Presley tentou ser esposa de novo, tentou estar mais presente para Leo, tentou que eles entrassem nos trilhos novamente, mas depois de algumas tentativas onde ela sempre apenas terminava frustrada, parou. Esperou por ele. E nada nunca veio de verdade.


Então, a ideia de se separar começou a pairar pela sua mente. Mas como faria? Se realmente se separassem, Presley tinha que estar apta a tomar conta de si mesma, coisa que nunca aconteceu porque havia saído da casa dos seus pais ainda uma universitária, com 22 anos, direto para se casar. Não sabia de muita coisa naquele momento, mas sabia que tinha dado um passo ao conseguir aquele emprego e sabia que, se Leo realmente não mudasse, teria que andar mais. Andar para além do medo. Respirou fundo.


Tudo o que você deseja está do outro lado da fronteira do medo.


Saiu do banho e foi se vestir. Colocou um jeans escuro, uma camiseta preta, e separou um blazer da mesma cor para usar por cima, três quartos. Era importante suas mãos estarem livres. Já tinha feito uma tradução em NZSL na embaixada, num discurso ao vivo do embaixador, e ele havia gostado dela. Podia ser outra janela. Presley falava mandarim e tailandês, além do coreano e do inglês. Havia crescido num bairro de imigrantes em Seul, aprender novas línguas era algo que ela fazia com facilidade. Na ausência de conseguir uma nova formação, havia tirado proficiência no que já tinha. Aquele podia ser um bom começo.


Fez uma maquiagem básica, natural, e prendeu os cabelos num coque baixo e bagunçado para trás, com parte de sua franja longa caindo ao redor do seu rosto. Hum, havia ficado bonita! Despretensiosamente bonita. E ficando bonita, decidiu fazer algo que não fazia há muito tempo:


Presley foi até a luz natural de sua janela na cozinha e tirou uma selfie.


Uma foto simples, bonita e clean, seu rosto em destaque contra o preto que vestia, espantando a ideia de dona de casa em tempo integral. Postou nos stories, com um 🖤 na legenda e percebeu que tinha uma nova solicitação para seguir.


kaoritay.


Que estranho! Foi lá, olhar o perfil, e era a graduada, Kaori Taylor, a faixa azul alta de sorriso fácil que havia ido jantar com Hanni na noite passada. Que inesperado! Aceitou a solicitação para seguir e a seguiu de volta. Um perfil com quatorze mil seguidores, outra famosinha, só o que faltava. O perfil dela estava cheio de fotos e vídeos de jiu-jitsu, trilhas, baladas, dias de praia, algumas fotos na Sky Tower, com um uniforme diferente; ela deveria trabalhar por lá ou algo assim. Aparentemente, ela estava na universidade ainda, provavelmente arquitetura. Quando Presley ia saindo do perfil, recebeu uma DM:


"Olá! Será que você tem um minuto para uma pesquisa de opinião? Juro que será bem rápida!" Muitos emojis felizes. Era uma mensagem de Taylor.


Pesquisa...?


"Ok, um minuto eu tenho." Escreveu e se arrependeu no mesmo momento; só faltava ser uma daquelas pesquisas universitárias infinitas.

"Ótimo! Presley, por que você não gostou de mim?"


Presley riu alto! Viu que recebeu o texto da embaixada, mandou imprimir rapidinho. Teria que lê-lo, gravar-se lendo em voz alta e, em seguida, gravar-se traduzindo em NZSL enquanto ouvia o texto.


"Como assim eu não gostei de você?"

"É que todo mundo gosta de mim, quero dizer, TODO MUNDO! Sou muito legal, sou bonita (não tanto quanto a Hanni, porque se fosse, estaria fazendo o dobro de dinheiro que ela faz. Hanni é preguiçosa!), e eu tenho uma boa conversa. É sério, todo mundo gosta de mim. Você foi a primeira a não gostar..."


E agora, Presley estava rindo demais. Havia caído num mar de convencidas, como podia?


"Taylor, eu não tenho nada contra você, a gente mal se conheceu."

"Mais grave ainda: você não gostou só de olhar 😭."

"Kaori é o seu primeiro nome?"

"Isso."

"Kaori, chega de drama, vamos, eu sou mal-humorada! Juro que não foi pessoal. Amanhã levarei a Aika para treinar e a gente desfaz o mal-entendido, ok?"

"Tá bem! Por que você não vem treinar também? É divertido!"


Presley pensou um pouco.


"Ok, farei uma aula."


Assim, Presley a deixou e foi correr com o que precisava. Há quanto tempo não tinha ninguém novo a seguindo? Agora tinha duas pessoas novas em menos de 24 horas. Sério que tinha deixado transparecer que não havia gostado da garota? Sorriu um pouco lembrando disso e sua coisinha linda acordou, pedindo colo, pedindo amor, toda apegada. Aika correu para a cozinha, trazendo a Senhorita Bubu e o quimono arrastando pelo chão.


“Lavar. Papai disse.” E ela mesma colocou na máquina, o que Presley achou uma graça. Preparou o café da manhã dela, as frutinhas cortadas, leite com cacau e um sanduíche de queijo.


— Filha, mamãe vai ter que trabalhar um pouco, você toma o seu café sozinha?


Ela pegou a Senhorita Bubu.


— Ah, você não está sozinha, eu tinha esquecido — Abriu um sorriso — Vamos colocar... Viva! A vida é uma festa. O que você acha? — Ela ficou muito animada — Eu já volto para ficar com você, está bem?


Ela sinalizou.


"Você está linda, mamãe."


Presley derreteu. A encheu de beijos.


— Obrigada, meu amor!

"Eu gosto de ver você assim."


Era por isso que seu mundo, de repente, tinha se tornado apenas aquela menina.


Aika foi muito colaborativa, ficou quietinha, vendo o filme, tomando café da manhã enquanto Presley leu o texto em voz alta, gravou no notebook, então posicionou o celular para se gravar. A casa era relativamente espaçosa, tinha três quartos (ambos queriam dois filhos, mas essa ideia parecia ter ficado em algum lugar muito distante), sala e cozinha integrados e um escritório, onde Leo se trancava nos finais de semana e trabalhava mais, em qualquer coisa que fosse. Colocou o celular num tripé, usou a luz do escritório e começou a gravar. Era um discurso de duas páginas, levou um certo tempo, mas o resultado ficou satisfatório. E quando terminou, notou que tinha mensagens não lidas.


Park Manu 🥵.


Era, na verdade, um print de uma montagem lado a lado feita com a foto que Presley havia postado mais cedo e uma foto de Hanni, seu último storie, provavelmente. Hanni estava de terninho feminino, cabelos presos num rabo de cavalo, os dedos entrelaçados, os braços esticados para frente, toda vestida de preto, com brincos sofisticados. Seu olhar era reto e penetrante, o rosto em destaque na foto em preto e branco. Presley notou que haviam postado praticamente no mesmo horário, e a mensagem abaixo da montagem dizia: "a categoria é: face card". A mensagem era de...


Kaori Taylor, a própria.


“Acabei de receber no grupo do jiu-jitsu, estou sendo exposta.”


Presley estava sorrindo demais, andava uma constante.


“O que face card quer dizer...?”

"É um rosto que parece um cartão de visitas, tão bonito. E você, com toda certeza, tem um face card difícil de ser recusado. Por que você está tão bonita assim logo de manhã cedo?"


Mais sorrisos, as bochechas de Presley começando a esquentar. Como podia?


"Tive que fazer uma tradução em língua de sinais. Daí é visual, é para a embaixada, enfim. Você já está modelando tão cedo?”

“Desde às oito, cheguei aqui às cinco da manhã. Meu dia começou muito cedo. Onde está a Aika? Está bem? Acordada?”


Presley tirou uma foto e a enviou para ela enquanto transferia o vídeo para o notebook. Em seguida, disparou correndo para a sala, pois Aika estava prestes a derrubar o copinho de leite da mesa. Com uma criança que não recebe estímulos auditivos, a reação é sempre no físico; Presley havia se tornado uma grande corredora desde então. Deu um pique forte e conseguiu evitar o desastre.


— Filha! — Tocou no ombro dela — Cuidado, o leite ia caindo.


Ela arregalou os olhos, não havia percebido.


— Atenção, está bem? — Deu um beijo nela e voltou para o escritório, para o celular e... — Ah, não!


Havia mandado a foto de Aika para o seu notebook e o vídeo para Hanni.


“Eu sei que você só está traduzindo um discurso diplomático, mas é tipo sexy pra caramba!”

“Hanni, eu mandei errado! Não era isso que eu deveria mandar, era uma foto da Aika!” E apagou o vídeo.

“Tarde demais, eu já tinha salvo. Eu sabia que você tinha enviado errado e sabia que eu ia querer assistir de novo.” E Presley podia quase ver que ela estava sorrindo.

“Aika estava derramando leite na sala, eu acabei confundindo tudo.”

“Eu ainda quero vê-la. Posso fazer uma chamada de vídeo rapidinho? Estou no meu intervalo.”


Presley ligou por vídeo e Hanni atendeu. Toda arrumada, numa cadeira de maquiagem, alguém estava refazendo o cabelo dela. Face card. Entendeu exatamente o que queria dizer.


— Você é convencida porque é bonita mesmo, não tem como negar.


Ela riu alto.


— Está me elogiando, Presley Park?

— Eu elogiei os seus dentes ontem, não é suficiente?

— Somos um tipo esquisito de duo, está decretado. Onde está o bebê hurricane?

— Bem aqui — Presley caminhou para a sala e colocou o celular na mão de Aika — Hanni — Sinalizou para ela.


E ela pegou o celular imediatamente, ficando muito, muito empolgada. Saltou do sofá, e Presley nem tinha o que fazer, apenas observar. Aika mostrou a Senhorita Bubu e depois mostrou o que estava assistindo, sinalizando com uma mão só. Em seguida, passou a andar pela casa, mostrando uma coisa ou outra, então fez uma pergunta no meio. Presley ia traduzir, mas Hanni entendeu.


— Estou tirando fotos, bonita para as fotos — Viu Hanni sinalizando: “Você está muito bonita.” Presley havia ensinado a ela no dia anterior, e Hanni não havia esquecido. O tour continuou, agora para o quarto. Lá, viu um brinquedo, depois outro. Passou pela cama e pela cabaninha que ela adorava. Saiu da cabana e foi para a cozinha, onde mostrou o quimono na máquina de lavar. Hanni estava morrendo de rir já.

— Filha, filha, a Hanni tem que trabalhar — Sinalizou.

— Infelizmente, eu tenho que ir. Presley, como digo isso?


Presley surgiu atrás de Aika, fez o sinal para Hanni, e ela reproduziu imediatamente.


"Tudo bem, eu tenho que voltar para o filme, mestre." Ela respondeu. Presley traduziu, e Hanni gargalhou novamente.

— Ela sinalizou "mestre"?

— Sinalizou!

— Explica para ela que mestre somente no tatame; fora de lá, Hanni.

"Hanni unnie", ela fez com os dedinhos. Unnie é um termo respeitoso coreano para se referir a uma mulher mais velha.

— Meu Deus, essa menina louca para ser coreana, e eu louca para ser neozelandesa — Presley sinalizou e sinalizou — Apenas Hanni está ok, filha.

"Hanni, ok."

— Isso, Hanni, ok.

— Presley? — Hanni chamou.

— Oi!

— Te vejo amanhã?

— Sim, Kaori acha que a detestei. Preciso reparar isso.

— Ela estava tão chateada porque você, supostamente, não gostou dela, sendo que vocês duas não trocaram UMA PALAVRA. A dramática que tenho como amiga — Ela ficou quieta por um instante, apenas olhando para Presley.

— O quê?

— Seu face card — Ela soltou o ar, sem perceber — Eu tenho que ir. Boa sorte no seu dia.


Presley ficou pensativa depois que desligaram. Então, teve que correr porque sua filhinha estava COLOCANDO A MÁQUINA PARA LAVAR SOZINHA.


Correu o resto da manhã, enviou o vídeo após revisar. Ainda bem, havia acertado tudo de primeira. Em seguida, correu com o almoço, com Aika para o banho, e a vestiu para a escola. Depois almoçou com ela e saiu apressada, pois já estava atrasada. Levou Aika para a escola, e seu coração apertava sempre que tinha que deixar sua filha naquele lugar. Achava que essa era a melhor escola até então. Aika já havia passado por duas escolas anteriores, onde não tinha se encaixado, onde a turma não ajudou e os professores não se sentiam seguros com sua menina, que era desafiadora. Não só a comunicação com ela, mas o quanto Aika parecia à frente da turma. Haviam passado por duas escolas, e na terceira, aquela onde ela estava atualmente, um exame de nível foi aplicado, o que levou sua filha a avançar uma série, onde ela se sentia mais desafiada pelas atividades. Uma garotinha surda adiantada, essa era a sua Aika, a mesma que Leo julgava como menos capaz.


Já havia uma mensagem dele no celular, não lida. Pela prévia, Presley leu que ele se atrasaria à noite de novo. Nada novo sob o sol.


Deixou Aika na escola e correu para a embaixada, cruzando a ponte, indo para o centro, passando pelo hospital e pela academia. Era o caminho até o trabalho. Chegou lá, e o tempo passou muito rápido. Tinha muitas traduções para fazer, documentos oficiais, com palavras desafiadoras até para uma nativa. No seu intervalo, deu uma olhada no Instagram. Hanni já tinha se movido para um almoço que parecia delicioso em algum restaurante na praia. Aparentemente, ela havia caído no mar antes, surfado um pouco. Havia uma foto da prancha na areia e um sorriso molhado, half face.


Finalizou o seu dia, buscou sua filha e foi direto para casa. Tarefas de casa, limpou porque não havia dado tempo de manhã, cuidou de Aika que estava agitada novamente, subindo pelas coisas e escalando as paredes em busca de algo para fazer. Presley teve que parar e brincar com ela um pouco, acabando por ser atacada por sua filha de três anos. Hanni tinha toda a razão, Presley foi atacada por golpes de jiu-jitsu, mas felizmente, sabia como se defender. Isso levou horas no tatame de brinquedo, horas em que as duas se divertiram muito. Aika quis colocar o quimono novamente e fez Presley colocar o quimono de Hanni.


Colocou a parte de cima, que tinha o perfume dela. Claramente, tinha vindo de alguma lavanderia, mas ainda mantinha o seu perfume, algo caro. Presley buscou fundo em sua memória, pois já tinha sentido aquele perfume antes.


Coco Mademoiselle — Era esse o perfume, tinha quase certeza.


E quando Leo chegou, encontrou sua filha e sua esposa rolando pelo tatame de E.V.A, aos risos. Foi tão contagiante que ele só...


— Eu vou fazer o jantar!


Ele foi. E Leo cozinhava muito bem. Ele tirou o terno e preparou o jantar para elas, que acabou sendo simples, mas agradável. Essa era a constância daquele relacionamento há muito tempo: pequenos desentendimentos que ninguém aprofundava, pequenos pedidos de desculpas que nenhum deles levava muito a sério. Era quase uma programação, algo a seguir. Ambos sabiam o que vinha depois, e ficava por isso mesmo. Jantar, sofá, dormir. Alguns minutos depois, Leo estava roncando ao seu lado. Presley se perguntou o que Hanni deveria estar fazendo. Não podia ficar nos stories dela o tempo todo; isso era esquisito. Hanni era uma amiga, uma boa amiga, divertida, nada tediosa, o tipo de amiga que trazia amigos novos, e Presley queria mantê-la por perto.


Dormiu se perguntando se não estava pensando nela demais.


Acordou com outra energia no dia seguinte e teve uma manhã mais parecida com todas as outras. Limpar a casa, fazer café da manhã, cuidar de Aika que havia acordado de noite, andado pela casa e dormido no sofá mais uma vez. Presley a encontrou no sofá e, depois do café da manhã, decidiu passar um tempo com ela, ajudando-a com as atividades da escola e assistindo a vídeos que ela queria. Ela ficava mais cansadinha após noites assim. E quando foram para a escola, ela não queria ficar, chorou um pouquinho antes de entrar.


"Maldosos comigo." Aika sinalizou. Presley se abaixou ao lado dela.

— Quem, filha? Quem está sendo maldoso com você?

"Alguns garotos. Outra sala. Intervalo."


Aquilo apertava o coração de Presley demais. Respirou fundo.


— Eu venho mais cedo, vou conversar com a diretoria, tudo bem? Eu vou resolver isso para você.


Ela balançou a cabeça, concordando, olhando para baixo. Presley a puxou para seus braços mais uma vez, buscando os olhos dela para ela ler os seus lábios.


— Você lembra? Temos jiu-jitsu hoje, eu treinarei com você!


E isso fez um sorriso brilhar no rosto de sua menina.


"Posso ficar? Quimono?"

— Você quer ficar com o quimono? Ok, claro! — Presley já tinha os quimonos no carro, porque não daria tempo de ir em casa. Pegou o de Aika, que Hanni tinha a ajudado a enrolar da maneira certa por vídeo e amarrar com a faixa. Aika jogou o quimono sobre os ombros, assim como havia visto os adultos fazerem, o que fez Presley sorrir novamente.


E assim, ela pareceu confiante e entrou na escola.


Presley fez de tudo para conseguir sair um pouco mais cedo, mas no final das contas, saiu um pouco atrasada. Se ficasse para falar com a diretora, perderia a aula de jiu-jitsu. Quando chegaram, os alunos já estavam perfilados, Hanni estava pronta para iniciar a aula, vestindo branco naquele dia, com os cabelos presos num coque bagunçado no alto da cabeça e um sorriso que se abriu assim que viu Presley e Aika chegando. Presley gesticulou através da vidraça, perguntando se podia entrar, e Hanni permitiu.


— Taylor, puxa o aquecimento, por favor.


Deixou Taylor puxando o aquecimento e veio até Presley e Aika que, pediu licença para entrar no tatame, recebeu autorização e correu para os braços de Hanni. Acesso de sorrisos, beijos, cheiros, muitos abraços!


— Eu senti sua falta demais, bebê!


Achou que ela tinha dito que também sentia, mas podia ser apenas o convencimento de Hanni.


— Vem, eu vou ajudar vocês a se vestirem.

— Ajudar a me vestir?!


Hanni riu.


— Presley, você é uma graça! Para de ficar vermelha na minha frente que eu não me responsabilizo pelos meus atos — A pegou pela mão e foram indo para o vestiário.


Ela tinha razão, Presley realmente precisou de ajuda. Se trocou no reservado, trocando as roupas sociais pela calça legging, top e camiseta. Depois, vestiu as duas peças do quimono, mas precisou de ajuda.


— Hanni?


Sua filha já estava pronta, usando o quimono, com tranças boxeadoras e ansiosa demais para ir para o tatame. Hanni se aproximou de Presley, ficando muito perto dela, enfiou as mãos nos cordões de sua calça, ajustando, o que fez o corpo de Presley se aproximar ainda mais do dela. Enquanto dava o laço, Hanni manteve os olhos baixos, e Presley manteve seus olhos nela. Ela gostava daquela proximidade, mas isso a deixava com calor e com reações que uma mulher na posição dela não deveria estar tendo. Talvez devesse falar com alguém sobre isso, não deixar apenas dentro de sua cabeça, mas com quem falaria? O que diria?


— Essa parte da lapela fica por cima, tá? Sempre por cima, tem essa etiqueta aqui — Mostrou a etiqueta para ela — E a sua faixa... — Hanni mexeu na sua bolsa esportiva e puxou uma faixa branca novinha de lá — A faixa você coloca assim, com o lado da etiqueta à esquerda, você coloca de frente para trás, dá uma volta, cruza e, o nó é esse aqui — Fez o nó — Perfeito!

— O quê?

— Você fica realmente linda de azul. Vem aqui — Pegou Presley pela mão e Aika pelo ombro, tocando-a para chamar a atenção dela. Em seguida, pegou seu celular e parou com as duas em frente ao enorme espelho do vestiário — Face card ativado, Presley.


Isso fez Presley rir, aquele sorriso lindo era tudo o que Hanni queria. Ela tirou uma foto das três, com Aika agarrada em sua perna, Presley logo atrás dela, com o rosto em seu ombro. Tinham praticamente a mesma altura, a mão de Presley estava nas costas de Hanni, e as três exibiam sorrisos lindos.


Linda, ficou linda. Posso postar ou tem algum problema?

— Problema?

— É, problemas com...?


Ela não terminou, mas Presley entendeu. Problemas com o seu marido, era a frase não dita.


— Ah, não, nenhum problema, pode postar sim.


Hanni postou a foto e foi explicando as regras do tatame para Presley durante o retorno. Precisava pedir para entrar e sair do tatame, cumprimentar todo mundo por ordem de graduação, pedir para beber água, solicitar permissão se precisasse sair por qualquer motivo, ser cordial e respeitar os graduados.


— Incluindo a Kaori — Ela ressaltou, fazendo Presley rir — E no tatame, eu sou sua mestre, ok?


Presley concordou, mas por algum motivo, a palavra mestre a fez lembrar dos romances eróticos duvidosos que lia na adolescência. Soltou um sorrisinho.


— O quê?

— Nada, mestre.

— Pronta para entrar?

— Pronta.

— Não está, não.


Hanni parou atrás dela, e quando Presley percebeu, estava com uma belíssima trança em seus cabelos.


— Agora, pronta.


A aula foi ótima, como a anterior, e Presley precisava admitir que parecia bem mais simples e menos cansativa apenas observando do lado de fora. Aika foi diretamente pareada com Pipe, que não aguentava de ansiedade por sua coleguinha de treino, enquanto Presley ficou com Kaori, já praticando a técnica do dia ensinada por Hanni, intercalando os movimentos base para que Presley pudesse fixar melhor. E não, zero reações inadequadas com Taylor; seu problema de fato não era o jiu-jitsu, era Hanni mesmo.


— Parece que vocês se conhecem há tempo pra caramba, não parece? — Taylor disse de repente, no meio da técnica — Coloca seu pé bem aqui, tipo um gancho, na minha coxa, isso, certinho.

— Assim? — Encaixou o golpe.

— Isso, perfeito! Esse golpe se chama De La Riva.

— Eu também sinto que a gente se conhece há muito tempo. Tem pessoas que são assim, né? Eu puxo...?

— Essa manga aqui, puxa, me derruba, vamos!


Presley puxou e, graduada no tatame, Hanni viu de canto de olho e abriu um sorriso.


— Muito bom! — Kaori elogiou, Presley estava pegando tudo bem rápido — Então, minha avó diz que quando a gente conhece alguém assim e já parece que é tempo pra caramba, é porque é tempo pra caramba. Vem de outras vidas. Sei que parece que a Manu é uma amiga-piranha, mas ela não é, não, ela não se apega a todo mundo.


Presley riu, já se colocando em guarda de novo para reiniciar o exercício.


— Amiga-piranha?

— É que ela é toda expansiva, né? Só que não. Conheço a Manu há dois anos e às vezes parece que tudo o que sei dela é o que ela posta no Instagram. Mas o Instagram é o quê? Dois por cento da vida de alguém? Ela é fechada, Presley. Mas vi vocês duas no café aquele dia e pensei: hum, acho que essa moça tem uma chave.


Presley a prendeu novamente, entrando na posição de queda, então parou:


— Você acha isso mesmo?

— Ela olha para você diferente. Esperei para ver vocês duas juntas de novo para ter certeza, agora tenho. Ela... é um tipo especial, sabe?!


Presley respirou fundo e a derrubou novamente, com mais som, desta vez. Hanni riu de novo, tal filha, tal mãe.


— Presley!

— Desculpa, ainda estou aprendendo a dosar a força que eu nem sabia que tinha. Taylor?

— O quê?

— O que você acha que ela viu em mim?

— Minha querida, você tem aquele bebê lindo e esse face card aqui. Começamos por aí... — Respondeu, fazendo Presley rir mais.


Técnica ok. Foram para os rolas, e Presley achou que fosse morrer. Primeiro, Hanni a fez rolar com Aika, que estava ligada no 220 e passou como um carro em cima de sua mãe. Depois, a fez rolar com uma das juvenis. June fez o mesmo, mas Presley já estava mais atenta e, ao menos se defender, conseguiu. Por último, veio Hanni. Ela abaixou na sua frente, e Presley estava sorrindo, sem fôlego e de cabeça baixa.


— Olha pra mim.

— Eu não acho que essa seja uma boa ideia, você vai acabar comigo.

— Claro que não! Eu só quero ver você se movendo, vamos, testa em mim tudo o que você aprendeu.


Fizeram o tal rola, onde Presley foi sufocada, então pegada, colocada para baixo, para cima, foi orientada, quando encaixar tal golpe, como sair de tal golpe. E Hanni já tinha feito cinco rolas, estava exausta e achou mesmo que a parada fosse ser mais tranquila com Presley, mas ela tinha força, determinação e, entendia de mecânica. Ela entrava nos golpes, mas compreendia a mecânica de sair deles, o que deixou Hanni mais exausta ainda. A pegou no finalzinho, a deixou se mover como queria, mas no final, a prendeu em sua montada e espalhou o corpo em cima de Presley, a impedindo até de respirar direito.


— Não faça sons; se você fizer sons numa luta oficial, é desclassificada. Se sentir que vai morrer, bata.

— Eu não vou morrer! Quanto tempo falta?


Hanni ergueu os olhos para o cronômetro.


— Vinte segundos.

— Eu não vou bater por vinte segundos!


Hanni quis rir. Ela era determinada igual Aika e, por outro lado, não estava a apertando tanto assim. Só queria descansar e ficar em cima dela um pouquinho.


Hanni havia sonhado com aquela sensação.


Fim de treino, Presley sobreviveu, descabelada, vermelha, mas viva, muito viva. Ela nem havia considerado vomitar! Todo mundo vomita no primeiro treino, Kaori fez questão de dizer. Era para Presley se orgulhar de verdade, então ficou orgulhosa. Perfilaram, Presley a última da fila, já que sua menina era mais experiente com uma aula na frente, e após cumprimentar todo mundo, Hanni veio para perto outra vez.


— Vamos descer para um café? Mave não veio, a Pipe queria brincar um pouco com a Aika, tem como?

Tinha, claro que tinha. Uma cozinha esperava Presley em casa para ser limpa, e um café pareceu mais atraente.


Se trocaram, desceram, Hanni toda de preto, calça moletom, rash guard, rabo de cavalo, e Presley...


Em sua calça legging e um moletom de Hanni, porque não havia levado nada para trocar e não achou que fosse suar tanto. Moletom branco, cheirando a Coco Mademoiselle, com toda certeza. Pediram chocolate quente para as meninas, biscoitinhos e as deixaram brincando na mesa ao lado. Pipe havia trazido um jogo que queria mostrar para Aika, e zero traduções foram necessárias.


— Eu não quero parecer uma stalker, mas já parecendo, ontem desci no seu Instagram até chegar em vídeos que você dança... — Hanni disse a ela enquanto provavam o café que havia acabado de ser servido.

Stalker! Isso foi... Foi muito para baixo, 2016?

— Eu acho que 2016. Fiquei surpresa em te ver dançando e tipo, dançando muito bem, não dançando como eu dançaria, por exemplo. Você tem formação?

— Então, eu fiz balé clássico por bastante tempo, comecei na Coreia, continuei dançando aqui, me formei aos quatorze anos e quando fui para a faculdade de Design, ingressei num programa de dança porque estava trabalhando num projeto.

Dancing by design.


Presley sorriu. Ela havia lido até o seu projeto?


— Esse. Nossa, parece outra vida, sabia? A faculdade, o programa de dança que eu fazia à noite, o estágio numa empresa de design de interiores.

— Você teve que parar tudo, não é?

— Tudo. Eu estava no último ano da faculdade e de repente, estava grávida e tudo foi como um vento forte. Eu estava grávida, o casamento pareceu a solução para o deslize e num piscar de olhos, estava enorme e casada, em outra casa, em outra vida. Então outros eventos vieram, mais vento, mais furacão, e de repente parece que a Presley da faculdade piscou os olhos e os abriu aqui nessa mesa, casada, com uma filha pequena, com você.


Sorriso de Hanni.


— Comigo? Me senti um evento agora.


Presley cruzou os olhos dela. Presley tinha olhos mais claros, mas Hanni tinha olhos muito escuros, eram lindos.


— Você é um evento, também é um vento forte, um... furacão. Daqueles que passam na Tailândia, sabia? Se formam do nada?


Mais sorrisos. E, Hanni levantou-se em dois segundos e agarrou Aika pelo gorro do moletom.


— Aika, Aika! — Hanni a segurou; ela estava prestes a cair da cadeira. Se abaixou à frente dela depois que a estabilizou — Não pode, não suba na cadeira assim, você pode cair.


“Eu não ia cair!” A pequena contestou.


— Ia sim, que eu vi — Presley se aproximou também — Filha, não pode ficar de pé em cadeiras, já falamos sobre isso.

— O que você queria da mamãe? — Hanni perguntou, ela estava se inclinando em direção a Presley, de costas para ela na cadeira.


Ela sinalizou, sinalizou, e Hanni:


— A Bubu... A Bulbassauro!


Ela riu, era isso mesmo.


— Onde está a Senhorita Bulbassauro?

— Você memorizou? — Presley perguntou, pegando a pelúcia em sua mochila.

— Metade sim, eu acho que... — Fez um sinal — B?

— B, correto.

— S? — Fez outro sinal.

— S! Você é boa.

— Ah, muito obrigada, acabei de aprender duas letras, parece promissor.


Aika queria mostrar a pelúcia para Pipe e Hanni, e Presley voltou para a mesa.


— Pres...

— Oi!


Hanni olhou para ela.


— Eu queria te fazer um convite.

— Um convite? Hum... — Enfiou um Monteiro Lopes inteiro na boca — Acho que faz anos que eu não recebo um convite, vamos, faça.

— Você estaria livre no sábado à noite?


Presley a olhou. Um convite para uma noite.


— Tipo...?

— É que a Diesel está inaugurando uma loja na Queen Street no próximo sábado. Você... teria interesse?


Sorriso de Presley.


— Você é embaixadora Diesel, né?

— Sou. Terá um coquetel, um DJ, esse tipo de coisa. Tenho um convite extra, para um acompanhante. E eu vou cantar.

— Você vai cantar?!

— Vou! Eles gostam de explorar os embaixadores com talentos extras, enfim. O que você acha?


Presley pensou um pouco.


— Acho que... tudo bem. Posso ver se o Leo fica com a Aika, ou a deixo com os meus pais, enfim, eu consigo ir sim! Espera, eu não sei se tenho o que vestir.

— Certeza de que você tem e não se preocupe com isso. Vista algo que vá bem com uma jaqueta preta.

— Ah, isso eu tenho.

— Perfeito! Eu consigo uma jaqueta Diesel para você, tenho umas sete, você pode escolher.

— E de resto?

— De resto? O seu face card resolve. Eu não acredito que você aceitou ir comigo! — E abriu aquele sorriso enorme, perfeito, de olhos fechando quando ela sorria grande assim.


Tão bonita.


Presley apertou os lábios olhando para ela. Estava encrencada. Verdadeiramente encrencada.


 

Notas da Editora: Ana Reis


São tantas visitas nesses stories. Ai, ai 😅

Beijos! Voltamos 08/10.


E se você ainda não adquiriu Estilazo, não perca a oportunidade. Afinal, é uma história inédita de nosso site, escrita em 25 dias, com 21 capítulos, 360 páginas.











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10 Comments


Espero muito que a Presley volte para a faculdade, para terminar o curso.


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sylber1011
sylber1011
Oct 19, 2023

👏👏👏

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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
Oct 05, 2023

Ah que lindeza! Ansiedade me define! 😍

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Tessa Reis
Tessa Reis
Oct 06, 2023
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Vem aí um capítulo bem interessante, viu 🤌🏼

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Jaqueline Almeida
Jaqueline Almeida
Oct 04, 2023

São tão lindas, meu Deus! 🥰

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Tessa Reis
Tessa Reis
Oct 06, 2023
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me diz se não são 🤧

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Samily Lima
Samily Lima
Oct 04, 2023

Kkkkk ai ai, ja tem gnt percebendo q já esta quase arriando os pneus pela Hanni 😏

Aff ja estou me apegando nessa história, chega fiquei feliz por hj ter cap ❤️

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Tessa Reis
Tessa Reis
Oct 06, 2023
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A bichinha PERCEBENDO QUE TÁ GRAVE, veja bem. Um pequeno spoiler do próximo capítulo: chama-se DIESEL e não é apenas pelo nome da marca 👀

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