Angra - búzios - Capítulo 1



Cartagena das Índias, janeiro de 2020.


Existia tanta energia em seus banhos que havia dias que eles se tornavam quase uma oração.


Estava num banho-oração aquela tarde, tão carregada de tantas coisas que fechava os olhos e sussurrava por paz para a água, como se ela fosse um deus, como se fosse lhe ouvir e trazer a calma por dentro da maneira que tanto precisava. Para os Incas, a água era um deus, as montanhas eram deuses, o condor e o puma também, e parte de Sofía, acreditava que deuses estão onde nossa energia está, portanto, podia se agarrar à água e pedir a ela o que precisava.


Paz. Calma. Tranquilidade. O desapego demora para processar, mas vem.


Não era de hoje que Sofía partilhava uma ligação especial com a água. Havia nascido durante um temporal no verão carioca, aqueles que assustam todo janeiro, com sua mãe contando apenas com a ajuda dos vizinhos no Morro de Santa Tereza, porque ninguém conseguia descer e não havia ambulância que pudesse subir. E havia isso também, faria aniversário em breve, era capricorniana ambiciosa e no chão, e sabia que energias também se abrem durante fechamentos de ciclos. Estava aberta, vulnerável, e cansada.


Estava tão cansada...


Respirou fundo, sentindo a água quente pelo seu corpo, a pele dourada, as curvas delicadas, os longos cabelos castanhos escuros sendo lavados, e uma música alta começando do lado de fora. Invadindo a meditação do seu banho, lhe arrancando dos pensamentos que estava tentando alinhar. Estava ansiosa, faria um voo longo no dia seguinte, mas a questão nem era essa: sua ansiedade de voos havia deixado de ser um problema há um tempo, a questão era...


O que lhe aguardava. Quando chegasse lá, o que lhe aguardaria?


Teve um pressentimento esquisito desde quando concordara com aquela viagem. Algo diferente por dentro, que não conseguia explicar. Era a sensação de que algo iria acontecer, de que alguma coisa sairia do lugar, e a grande verdade, é que sair do lugar era tudo o que Sofía queria, ao mesmo que também, era tudo o que mais temia.


Paradoxos. Ambiguidades. Sempre havia sido feita disso.


Uma risada alta fez companhia à música que por um instante, havia ficado mais próxima ainda. Seu banho havia acabado de ser invadido por alguém.


Frederíca.


— É sério?

— Nós somos casadas, amor, você esquece disso, mas nós somos — Ela respondeu leve, sorridente, de short jeans, camiseta hipster e um Fedora sobre os cabelos castanhos para compor o visual. Os braços tatuados, aleatoriamente tatuados, pássaros, árvores, galhos, plantas, mandalas, flores, chacras, olho de Hórus, aliens, coração, frase em grego, em espanhol, era uma volta ao mundo, e uma declaração de amor a Sofía. Era encantadora a criatura. E extremamente irritante, Sofía nem sabia como era possível. Ambiguidades, paradoxos, era feita disso sempre.

— Eu não me lembro de ter assinado termo nenhum que dissesse “sem privacidade”.


Frederíca parou do lado de fora do box transparente, ficando mais séria. Sofía e seus termos, contratos, acordos sentimentais. E Frederíca havia quebrado um deles.


— Sofía, eu já pedi desculpas, não foi nada demais.

— Nunca é nada demais, Frederíca, eu só... Estou cansada. De passar pela mesma coisa o tempo todo.

— Flertar não é trair.


E Sofía olhou nos olhos dela.


— A última coisa com a qual eu estou preocupada é com uma traição sua, a última. Se eu estivesse preocupada com isso, não estaríamos mais casadas e de alguma maneira... Aqui estamos — Disse, sentindo sua garganta fechar — Eu ainda estou aqui — De verdade, era o que doía, não acreditava que ainda estava ali, naquele apartamento, naquele casamento.

En Cartagena, con tu mujer. No habla así. Sofía, tem um churrasco acontecendo na nossa casa, caso você não tenha percebido. As pessoas estão chegando.

— Um churrasco que você inventou, não sei por quê. Eu preciso fazer a minha mala, descansar, temos um voo de oito horas pela frente e você decide dar uma festa.

— É sábado! Qual o problema de se dar uma festa em um sábado?

— Nenhum — Desligou o chuveiro, buscando uma toalha — Mas eu preciso descansar e fazer a minha mala. Eu não vou sair do quarto.

— Você... — Frederíca sorriu, como quem não acredita — Vai ficar trancada no quarto mesmo? Feito uma adolescente?

— Na verdade, feito uma mulher que trabalha muito e que quer curtir seu primeiro dia de férias em paz. Eu pedi pra você.

— Sofía... — Outro sorriso, que Sofía nunca conseguia decifrar, se era de quem se divertia ou de quem estava debochando, as ambiguidades seguiam — É cada coisa que você me faz passar...


Sofía abriu o box, se enrolando na toalha e olhando reto nos olhos dela:


— Eu juro que um dia, ainda vou te fazer passar por alguma coisa de verdade — E assim, cruzou a frente dela e saiu do banheiro.


Oito anos de relacionamento e necessidades tão diferentes. Não se disseram mais nada, Frederíca simplesmente foi curtir a festa que precisava enquanto Sofía ficou no quarto, para arrumar a mala que precisava.


Tinham se cruzado quase ao acaso, um flerte de internet que de repente, transformou-se em algo real. Frederíca era escritora, e uma talentosa escritora, diga-se de passagem, com uma sensibilidade especial para escrever romances femininos, protagonizados por mulheres fortes que se apaixonam por outras mulheres. Frederíca escrevia romances como quem escreve uma poesia homérica, costurando as palavras, criando mágica aqui e ali, de maneira tão, mas tão delicada, que às vezes, Sofía achava que aquelas histórias não vinham dela, deviam vir de uma segunda Frederíca que morava dentro da charmosa Casanova, por quem havia se apaixonado.


Havia a conhecido antes dos best-sellers, antes dos seguidores medidos em milhares, quando Frederíca ainda ensaiava alguns romances curtos em plataformas independentes da internet. Se esbarraram pessoalmente pela primeira vez mais por acaso ainda, num barzinho no Rio de Janeiro, o flerte digital tinha resultado num encontro não planejado que evoluiu para algo mais, muito rapidamente. Ainda lembrava de Frederíca chegando, sentando-se à sua frente e lhe dizendo: “Eu só acho que nós duas daríamos um belo casal de Instagram”. Com olhos brilhando e um sorriso muito aberto que cravou direto em seu coração.


Sofía só não fazia ideia de que no final, seria tão literal assim.


Seu celular deu sinal, Frederíca havia acabado de postar uma foto romântica delas duas, com um texto lindo como legenda e quem quer que lesse, jamais poderia imaginar que a foto tinha sido tirada há meses, menos ainda que naquele exato momento, estava tendo que fazer as malas sozinha, porque Frederíca estava se divertindo numa festa sem Sofía ao seu lado. A falsa felicidade digital, que atingia quem via, e quem estava na postagem também. Nem incomodava mais, esta era a grande verdade, há quatro, cinco anos, seria motivo de discussão, uma postagem romântica em meio a uma briga, mas agora, não incomodava mais. Sofía até preferia, Frederíca tinha o que precisava de si e assim, lhe deixava em paz para se dedicar às coisas que mais lhe faziam sentido.


E sobre as coisas que mais lhe faziam sentido...


Parou as malas sobre a cama e caminhou até o armário. Abriu seu guarda-roupa e foi buscando uma camisa específica, manga longa, de botões, branca e com um perfume que...


Cheirou a camisa, caminhando pelo quarto, sentou-se perto da janela. Estava chovendo e isso deixava Cartagena mais bonita ainda. E alguém bateu na porta do quarto.


Obviamente, não era Frederíca.


— Sofía?


Abriu a porta e encontrou o abraço de sua melhor amiga, mais do que afetuoso...


Era Kalinka. Meio grega, meio brasileira, cabelos longos, numa cor de praia, cor que sempre fazia Sofía sorrir. Tons de caramelo, era sua paleta preferida do mundo.


— Até você aqui?

— Mas não vim para o churrasco não — Ela respondeu, sempre sorrindo — Vim te ver antes de você ir.

— Sério que não consegue ir comigo?

— Não consigo, mas chego lá em uns dias. Como você está? Fala pra mim. Parecia tão aflita no celular que eu decidi vir aqui rapidinho.

— Eu estou... Eu nem sei te dizer. Acho que preferia ficar aqui, sozinha, em paz, tentando colocar minha mente em ordem, as ideias no lugar. Acabou de amanhecer um ano lindo e pela primeira vez na minha vida, desde o vestibular, eu não tenho um plano a seguir, não tenho um objetivo aparente.

— Sofía, é claro que você tem, por favor, este deveria ser o seu ano, você sabe disso. Você só precisa ter calma, ter mais um pouco de paciência...

— Mais calma? Você tem certeza de que está me pedindo mais calma e paciência do que eu já dei?

Kalinka apertou os lábios.

— Só... Escuta ela. Ela é diferente. Não quero te ver daqui uns anos sofrendo por ter aberto mão do amor da sua vida. Paciência, ok? E curta a nossa cidade, se apegue naquela cidadezinha que foi nossa segunda casa na época da faculdade, faz isso?


Sofía respirou profundamente. Ok, isso conseguia fazer. Se despediram e Sofía retornou para a sua solitude.


As coisas eram complexas, eram complicadas e havia dias em que já acordava se perguntando como. Como havia dado aquele nó tão grande, aquela volta tão enrolada, na sua própria vida? Como podia desfazer? Podia desfazer? Onde havia se perdido? Não tinha essas respostas e isso andava lhe acordando no meio da madrugada já fazia algumas noites. Voltou para as malas, arrumando suas roupas, extremamente bem dobradas em rolinhos que iam se encaixando perfeitamente, para que nada faltasse, nenhum espaço sobrasse, terminou a sua e a de Frederíca também, sabia que ela não viria dormir tão cedo e menos ainda com tempo para fazer uma mala decente. Então, deitou-se na cama, virou-se de lado, buscou a camisa novamente e a abraçando contra o peito, tirou alguns minutos para meditar.


Mas não meditar tentando limpar a mente, na verdade, meditar buscando um lugar seguro, uma lembrança boa, afetuosa, de um momento no tempo que já havia lhe feito muito feliz.


E acabou sorrindo de olhos fechados. Porque não haveria dia que não retornasse para aquele lugar, e acontecesse o que acontecesse, pensar nela não lhe fizesse sorrir. Ela era diferente, sabia e deveria ser justamente por isso que era tão difícil decidir por desapegar. Ou por... Desistir.


Respirou fundo novamente, abrindo os olhos devagar e vendo a chuva cair lá fora, pediu para que o sono a pegasse logo, que descansasse, que aquele dia passasse e que seu voo chegasse de uma vez.


Nunca na vida imaginou que seu trauma de voar pudesse ser curado com tanta facilidade. Abriu outro sorriso pensando nisso, porque na verdade, havia descoberto há um tempo, que não há trauma que resista a uma necessidade, ou a um ataque súbito de saudade. Estava com saudade, era uma grande verdade, e estava com vontade, estava morrendo de saudade e de vontade de enfim, voltar pra casa mais uma vez.


Seria bom. De repente, só teve a mais clara e absoluta certeza de que seria bom.


📚


Brasília, dois dias antes.


Já estava na terceira mala e fazendo contas mentais de como tudo aquilo caberia no carro.


Angra sempre prometia que iria melhorar na próxima viagem, mas quando percebia, já estava atrasada, em cima da hora e não querendo se esquecer de nada, sempre acabava levando tudo, literalmente. Ainda mais, tendo que fazer as coisas do jeito que fazia. O notebook ligado, o som viajando pelo apartamento inteiro, música eletrônica tocando, o celular dando sinal, mensagens chegando, ainda estava resolvendo coisas do trabalho, acertando detalhes da casa para onde iriam, fazendo a lista do que precisava comprar no caminho, fechando contas, tentando deixar a casa mais ou menos arrumada e para tudo isso tinha...


Trinta minutos.


Tudo bem, tudo bem! Não era nada que ela não fizesse todo dia. A sensação que tinha é que passava vinte e quatro horas por dia correndo, como se o tempo inteiro estivesse atrasada para alguma coisa, ou esquecendo de alguma coisa e geralmente estava mesmo. Fechou a segunda mala, colocou a terceira inacabada sobre a cama, trocou a música no notebook, o AirPod no ouvido, checou uma mensagem de voz enquanto buscava rapidamente pelas coisas que precisaria.


Abriu o armário e o espelho da porta lhe pegou em detalhes mais de perto. Os cabelos vivares presos numa trança, os olhos castanho-mel buscando as camisas que precisava, o rímel escurecendo seus cílios apenas pela metade, porque seu dourado natural sempre dava um jeito de se mostrar. Ou de lhe fazer desaparecer. Angra sempre achou que suas cores naturais tendiam a fazê-la desaparecer, ao invés de lhe destacar, mas já fazia um tempo que tinha aprendido a ver suas cores de maneira diferente. Pegou suas camisas, seis, sabia que era um exagero, mas era melhor ter do que faltar e quando se encarou no espelho novamente, sorriu. O rímel sendo expulso dos seus cílios lhe lembrava de um apego seu, que não havia dia que fosse lembrar, que não lhe fizesse sorrir.


Checou seu Smartwatch e ele ressaltou que estava mesmo atrasada. Pegou tudo o que queria do armário e jogou dentro da mala, lutando para fazer caber do jeito que era possível, seu celular começou a tocar, era do banco outra vez, sério que era do banco? Era do banco, e de um banco em Tallinn, atendeu porque não tinha saída e começou a andar pelo quarto catando produtos de higiene enquanto discutia um novo cartão de crédito, em inglês, respondia um e-mail e outro sorriso lindo lhe escapou. Motivo?


O riso de sua filha invadindo o quarto.


Ela estava na sala brincando com o pai e Angra nem precisava estar lá para saber que os brinquedos deveriam estar espalhados por todos os cantos outra vez, para ter certeza de que sua garotinha estava rolando no chão, e menos ainda para visualizar Guilherme a fazendo rir com qualquer bobagem inventada por ele, porque definitivamente, fazer rir era o que seu marido fazia de melhor. Correu, terminou a mala e notou uma quarta mala abandonada pelo chão e incompleta. A de Guilherme, é claro, ele tinha a estranha mania de achar que as tarefas de casa se concluíam quase magicamente se abandonadas pela metade. Desligou o celular e voltou para o armário, pegando as coisas dele desta vez, e no meio do celular dando sinal, do set tocando nas caixas de som, ouviu uma determinada voz se fazendo pelo corredor:


— Só me tira uma dúvida... Você pretende colocar esta criança aqui no meu carro?


Era Carolina, sua melhor amiga, trazendo sua Estela de ponta cabeça no colo, morrendo de rir e coberta de chocolate dos pés à cabeça.


— Ela... Ela estava pronta! Estela, como que isso aconteceu, filha?

— O papai, ele, o papai! — Ela não parava de rir, porque Carolina também não parava de fazer cócegas nela.

— Você a deixou com o papai, o que esperava? — Carolina respondeu, já passando para o banheiro com o bebê aos risos — Angra, a gente tem que sair em 15 minutos!

— Chama o Guilherme para resolver, eu preciso terminar a mala dele e pegar o equipamento de som...

— Que você ainda está usando! — Carolina apareceu na porta do banheiro, cedendo sua irritação num sorriso — Como é que você sobrevive? Guilherme desceu, disse que tinha alguma coisa para resolver antes de sair, mas eu desconfio que deve ser o restante da coisa que ele saiu para resolver ontem à noite e que o impediu de terminar esta mala que você está cuidando aí...

— Você implica... — Abriu outro sorriso, fechando a mala e indo recolher seu equipamento eletrônico, não haveria música se esquecesse seus equipamentos.

— Eu vou me separar — Ela disse, só de uma vez, voltando para dentro do banheiro para dar banho em Estela.

— Você o quê?

— Vou me separar, já estou cansada de viver deste jeito, se é para fazer tudo sozinha, eu faço, simples assim e ainda vou ter tempo para assistir as minhas séries e meus filmes em paz, nos meus finais de semana.


Angra parou o que estava fazendo e caminhou até a porta do banheiro.


— Você está falando sério? Você me disse que estava com problemas, mas eu não imaginei que...

— Angra, você tem que arrumar as coisas e conversar! Ou a gente vai sair daqui amanhã...


Angra riu.


— É que eu tenho dificuldade...

— De fazer duas coisas ao mesmo tempo, você parece o Felipe, pelo amor!

— Deve ser por isso que você parece tão irritada comigo. Calma, está bem? Eu ouvi que seu dia começou complicado hoje...

— E eu nunca ouço nada do seu apartamento, nada, nem uma coisa! — Terminou o banho rápido em Estela e a tirou do box, enrolando-a numa toalha — Como você consegue? Como nunca tem problemas?

— Quem disse que eu não tenho problemas? Eu tenho problemas... — Disse, voltando seu olhar para a mochila, onde estava guardando seus equipamentos.

— Onde? Porque eu nunca vejo — Colocou Estela sobre a cama e ela começou a pular, e a cantar a música eletrônica em espanhol que estava tocando antes — Não, espera, teve aquele seu choro inexplicável da semana passada...

— Você vai voltar nisso?

— Você estava chorando, Angra e não era pouco. Eu só quero entender, chorou uma noite inteira e pela manhã, já estava radiante outra vez e desde então... — Ela lhe olhou sorrindo, e aquele sorriso dela... O sorriso de Angra tinha luz, brilhava, sempre trazia tantas coisas boas, Carolina nem conseguia explicar — Desde então está assim, com este sorriso que nunca mais foi embora.

— Eu já te expliquei, aquela crise não tinha a ver com o Guilherme, só tinha a ver comigo mesma, e... Foi resolvida.

— Crises pessoais levam anos para serem resolvidas, é só uma coisa que eu não consigo fazer sentido em você. Eu sei que seu casamento é relativamente recente, vocês ainda estão indo para o quinto ano juntos, mas namoraram uma vida antes e essa harmonia toda, ainda que exista este caos em volta de você... — Apontou a bagunça de malas, roupas e brinquedos que seguia pelo corredor.

— Nós só... Não temos... Problemas. Este tipo de problema que você tem com o Felipe — Terminou a mochila e começou a catar as coisas pelo quarto, ao menos seu quarto tinha que estar arrumado quando voltassem.

— Uma vida conjunta sem problemas, é uma vida sem emoções válidas, aquelas que checam nossa condição de estar vivo, sabe?

— Carol, é só... Um relacionamento tranquilo. Sempre foi tranquilo, foi por isso que durou tanto tempo. Nos meus relacionamentos anteriores, eu passei por vários tipos de emoções e você sabe o quanto essas emoções levaram de mim...

— Eu sei. Eu só... Fico preocupada. Em não te ver sentindo tanto mais. É quase... Como se tivesse passado do ponto também — Estava terminando de vestir Estela, que seguia cantando, nadando no ar e rolando pela cama, era elétrica aquela sua criaturinha, Angra sabia — Você é feliz?


Angra olhou para sua filha, abriu outro sorriso lindo.


— Eu sou feliz. Mas acontece também que, da mesma forma que sempre dá pra gente ser mais infeliz, também sempre há a possibilidade de se ser mais feliz.

— Você podia ser mais?


A mente de Angra viajou para os dias de praia que teriam pela frente.


— Eu posso sim.


Carolina olhou nos olhos dela, terminando de vestir Estela.


— Eu ainda preciso entender como é que essa menina aqui, acabou nascendo colombiana...

— Colombiana, eu! — Estela já estava acostumada em ser a única colombiana por perto sempre.

— Está vendo? Ela adora ser colombiana... — Angra pegou sua garotinha no colo que veio sorrindo demais.

— Eu sei que ela adora, eu só quero entender como isso aconteceu.

— Já te expliquei mil vezes... — Angra saiu andando com Estela pelo quarto e ouviu Guilherme voltando.

— Me explicar direito, Angra, eu sou mais inteligente que o Guilherme... — Disse, checando alguma coisa no celular e fazendo Angra gargalhar — Sabe quando que o Felipe vai me fazer uma declaração assim? — Mostrou o celular para Angra e aquele sorriso deu uma balançada.


Tanto balançou, como seu coração acelerou e sua pele entregou o rubor que subiu pelo seu pescoço.


Frederíca Gonzalez.


— Você... Você também não pode exigir que ele escreva como uma autora de romances...

— Ele não escreve nem como ele mesmo. Eu nem consigo me lembrar qual foi a última foto nossa que ele postou e sabe? Isso é o de menos. E antes que você me diga que o problema é que eu não consigo perdoar aquela traição, isso também é o de menos. Eu só não consigo perdoar a traição a nós dois. Ao que a gente se prometeu, ao que queríamos e ao que a gente jurou que não iria fazer. A gente não se prometeu fidelidade, se prometeu companheirismo — Respirou fundo, ela tinha ficado emocional — Companheirismo assim — Mostrou o celular outra vez.


Angra baixou o celular da mão dela.


— Não acredita em tudo o que você vê na internet. E nem nas coisas que você não ouve vindas do meu apartamento. A gente já pode ir?


Carolina respirou fundo.


— Eu ainda quero saber como esta criança das cavernas nasceu colombiana...


Ela continuava obcecada e Angra nem sabia de nada. Levaram as coisas pra fora e pouco antes de saírem:


— Você pode ir com o Felipe no carro da Carolina? Eu quero conversar com ela no caminho... — Angra pediu a Guilherme.

— Ela anda meio sensível, Felipe tem me falado.

— E tenho certeza de que ele não usou “sensível”.

— Na verdade, usou “surtada”, mas eu me recuso a repetir... — Ele respondeu sorrindo e Angra acabou sorrindo também.


Ele era bom, muito bom, Angra sabia.


— Eu vou com ele, está bem? E você vai tranquila com ela. Outra coisa, Frederíca está vindo mesmo?

— Aham, Sofía chega junto com a gente — Respondeu, já pegando o elevador para descer. Checou a hora, realmente estavam saindo tarde.


Seriam dezoito horas até Búzios, que fariam em dois dias, dormindo em hotéis pela estrada. Podiam ir de avião, se não fosse o pânico de Angra em voar. Preferia assim, enquanto podia ir de carro, iria, fora que adorava dirigir e a companhia de sua amiga nunca era demais, ainda mais quando sabia muito bem para onde estava indo.


Checou seu celular outra vez, sentindo seu coração apertar e acelerar ao mesmo tempo.


— Tudo bem? — Carolina apareceu na garagem.

— Tudo bem — Angra apertou o alarme e Giulia lhe piscou de volta.


Era uma de suas garotas preferidas. O Alfa Romeo azul-italiano pelo qual era tão apaixonada.


— Eu achei que a gente ia no meu carro normalzinho...

— De jeito nenhum, a gente vai de nave espacial, e você começa dirigindo — Disse, já pondo Estela na cadeirinha e entrando no banco da frente.


Carolina abriu um sorriso e imediatamente entrou do lado do motorista. E era entrar naquele carro e Angra sempre se distraía, sua mente ia para outro lugar. Foi novamente, ela já estava apenas meio ali. Deu start na direção e a máquina rosnou pela garagem.


Ouça a sinfonia mecânica — Angra disse quando ouviu o motor, ainda com a mente em outro lugar — Eu adoro este som.

— Você é realmente apaixonada por este carro. Certeza que está tudo bem?

— Tudo bem sim — Abriu seu sorriso — Eu só não vejo a hora de chegar.

— Vai demorar, já que você não voa...


Angra riu.


— Jura que vai pegar no meu pé por nove horas seguidas hoje?

— De jeito nenhum — Carolina pegou a mão dela na sua — Eu acho que só queria companhia na minha busca obstinada pela felicidade. Mas como você já é feliz, então...

— Não significa que eu não possa te acompanhar. E você também já é feliz, para com isso, só pode ser mais, como todo mundo. Vamos lá, pra estrada desanuviar essa cabeça, é para isso que estamos indo para tão distante, não é?

— Eu só acho que talvez você esteja indo também para tentar achar um pouco mais de felicidade. Estou errada?


Outro sorriso, não estava. Carolina dificilmente estava errada sobre alguma coisa.


📚


Depois de dois dias de estrada, a última noite passada no Rio de Janeiro encheu seu peito de uma ansiedade diferente. Tinham se separado dos rapazes na estrada, eles acabaram optando por dirigir mais e chegar antes, enquanto elas optaram por irem mais devagar e com Carolina ao seu lado, o tempo de Angra ganhava mais horas. Ela lhe ajudava com Estela, com as outras tarefas, dividiram a direção e terminaram todas as noites fazendo jantares divertidos, leves, que permitiam a mente de Angra viajar um pouco mais. Dormiu bem por duas noites, mas naquela noite, antes de irem para Búzios, não conseguiu dormir quase nada.


Estava inquieta, sabia, havia um algo não a deixando dormir e passou parte da madrugada acordada olhando a noite lá fora e pensando neste algo. Não era algo ruim, muito pelo contrário, era algo bom, doce, uma ansiedade que lhe fazia balançar os pés e sorrir só de pensar no que lhe esperava. Checou o celular, Sofía e Frederíca já estavam na cidade também e pensar nisso lhe deixava um pouco...


Empurrou um livro sobre a cama, “Santorini”, de Frederíca Gonzalez.


O abriu, leu um bilhete dentro dele, em alemão, escrito com uma letra nervosa, apressada e sentiu seu coração reagindo por dentro. Quase chorou, sozinha no escuro naquele quarto de hotel. Mas seus pensamentos foram sobrepostos pelos dias que teria pela frente e se recusou a sentir doendo, não sentiria. Preferiu amanhecer e pegar no sono lendo pela enésima vez, pedaços do seu livro preferido de toda a vida.


Acordou em outro estado de espírito, mais três horinhas e pronto, estaria em um dos seus lugares preferidos, estaria na praia, numa casa incrível, cercada de pessoas de quem gostava. Então, colocou seus óculos escuros, os cabelos soltos, sua altura e sua beleza não passaram despercebidas quando ela desceu do carro numa conveniência para pegar um chá mate gelado para aliviar o calor. Checou o celular mais uma vez, o Smartwatch, era hora de voltar para a estrada.


Dirigiu seu Giulia por um caminho curtinho e ensolarado, feito ao lado de sua amiga que já estava muito melhor depois do detox de dois dias longe do próprio marido. Eles ficariam bem, Angra sabia bem como aquelas crises eram entre aqueles dois, aliás, sabia bem como qualquer crise era dentro de um casamento. Casamentos são construções, algumas mais pesadas, outras mais leves, havia passado boa parte de sua vida aos vinte, construindo com Guilherme, pensando para o futuro, erguendo muros altos e uma fundação firme, capaz de resistir a qualquer crise, ou a qualquer terremoto. Sabia que tinha um casamento sólido, isso lhe confortava e lhe apavorava na mesma proporção.


— Angra? Angra! — Carolina lhe chamou à atenção enquanto aqueles olhos se perdiam pelo mar turquesa que já estava acenando.

— Oi, o que foi?


Carolina sorriu.


— Nada, você que foi para outro planeta. Tem certeza de que estamos no endereço certo? Por que se for...


Aquela casa era realmente inacreditável.


Era uma casa enorme, com seis quartos e uma suíte com banheira, sala grande, cozinha também, o deck de madeira com piscina olhava para o mar e o mar sempre seria uma parte importante de Angra, sempre. Era uma ligação particular, íntima, sempre havia sido mais feliz na praia, o que lhe fazia refletir os motivos de ainda assim, ter decidido seguir morando em Brasília. Olhou para o mar daquele deck, agradeceu por estar ali, e percebeu também o quanto não estava sozinha.


A casa já estava lotada! Pelo que conseguia contar, oito adultos, três crianças e tudo já estava em movimento. Tinham chegado mais cedo, mas o almoço do dia já estava em andamento num caos inacreditável. Já tinha música rolando, fogo sendo aceso para churrasco, milhares de malas por todos os lados e quando perguntou o motivo:


— Frederíca e Sofía não chegaram ainda, não dá para dividir os quartos sem elas chegarem...


Ainda não haviam chegado. Não era como se Angra pudesse não notar.


📚


Frederíca sempre estava atrasada.


Sofía já não se estressava com isso, era atrasada, dava jeitos de se atrasar, deveria atrair um tipo que se atrasava, havia de ser culpa sua, só podia. Tinham chegado tarde na noite anterior, depois de irem a uma balada que Frederíca queria, enfim, atrasaram e para variar, ela estava um pouco lenta para dirigir. Sono, provavelmente. Mas pronto, enfim, haviam vencido a Região dos Lagos e quando chegaram no endereço combinado...


— Como é que eu não vou escrever uma história aqui? Essa casa parece um romance! — Frederíca tinha ficado muito empolgada já na entrada.

— Quantas pessoas estão aí dentro? — O barulho era inacreditável.

— Seremos quinze, lembra? Ou mais, eu nem sei, temos as crianças — Ela seguia sorrindo, tirando as coisas do carro.

— Eu nem... — Respirou fundo, nem tinha se atentado a isso. Ajudou Frederíca a tirar as coisas da mala e assim que pisaram na varanda de entrada, Sofía riu, porque era muito barulho mesmo — Como é que você vai conseguir escrever aqui, Fer?


Frederíca lhe beijou a mão sorrindo.


— A minha mente é instransponível. Você sabe.


Sofía sabia sim. Entraram e foi uma festa imediata. A grande verdade, é que Frederíca sofria mais do que Sofía por estar morando fora, apesar de ter sido decisão dela estarem em Cartagena. Ela sentia falta do Rio de uma maneira que Sofía não sentia. Era falta das suas pessoas e parte daquele grupo eram suas pessoas, com quem ela gostava de farrear e jogar conversa fora, e a outra parte do grupo seria conquistada por ela em breve, Sofía sabia. E falando em parte do grupo...


Seus olhos encontraram olhos em degradê lhe olhando do andar de cima.


Eram mel em degradê, mel numa paleta de cores particular, que parecia esmaecer até perto do verde e retornar. Os olhos de Angra eram particulares, o olhar dela também sempre seria, Sofía conseguia sentir, sempre conseguia encontrar e a sensação que tinha era que se ela lhe olhasse entre dez mil olhos em plena Avenida Paulista, ainda assim, saberia que era ela.


O coração de Sofía disparou.


Angra tinha aquela densidade nos olhos da qual Sofía nunca sabia nada, só sentia, só afundava em si e sempre acabava lhe deixando perguntar quem mais percebia. Quem mais via que ela lhe olhava assim. O que também era uma bobagem, afinal, estavam falando de Angra Fernandes, que nunca olharia para fora dos muros do seu casamento, disso cada pessoa ao redor sabia muito bem.


Respirou fundo e seguiu em frente, sorrindo, cumprimentando, revendo uma boa amiga que era Carolina! Enquanto Angra desceu as escadas bem devagar, tentando desacelerar os batimentos que corriam pelo seu corpo, sabia que suas pulsações agiam sozinhas, mas nunca seria refém delas. Mexeu nos cabelos, e passou atrás de Sofía, muito perto dela; Sofía baixou os olhos respirando fundo em meio aos cumprimentos. Houve um arrepio na nuca, mais batimentos disparando, uma energia despendida que subiu pelo seu corpo e escapou por um apertar de lábios...


Não se falaram, respirações fundas, um arrepio escapando da pele.


O tempo voltou a girar.


Angra passou por ela e voltou de frente, um abraço em Frederíca, outro em Sofía, o sorriso de sempre aberto, bonito, luminoso, afetuoso, era uma casa alugada por um grupo grande de pessoas e já havia uma disputa não declarada pelo posto de anfitriãs entre as mulheres, mas não Angra, ela não precisava disputar nada com ninguém para receber bem, para fazer com que todo mundo se sentisse em casa, ainda que a casa não fosse dela. Cinco minutos e todos os gelos haviam sido quebrados, a conversa fluiu fácil e misturada, Frederíca sempre tinha o que conversar com uma de suas leitoras preferidas e enquanto falava com ela, Angra observou Sofía se afastando para a cozinha com o canto dos olhos.


Apertou os lábios, respirou fundo. Voltou a sorrir.


E já que todo mundo, enfim, havia chegado, decidiram fazer o tal sorteio com o quarto com banheira e dividir os outros quartos de vez. Kalinka ainda iria chegar, mas solteiras se ajeitam mais facilmente em qualquer lugar, ela não iria reclamar. Se reuniram na sala e o clima estava eufórico, todos estavam empolgados com a casa, com a vista, e em ter o tal quarto com banheira, a casa em si já era um romance e um quarto com banheira não faria mal a ninguém. Quarto sorteado, e:


— Adivinhem quem vai ter lua de mel?! — Frederíca tinha acabado de se auto sortear para o quarto com banheira.


E a expressão de Angra mudou imediatamente. Decidiu deixar pra lá, recebeu seu quarto e lembrou que sua filha estava dormindo num quarto que não lhe pertencia. E quando estava subindo, fugindo da ampla comemoração de Frederíca pela banheira conquistada, foi pega. E levou um susto tão grande que Guilherme riu.


— Calma, sou apenas eu. Está tudo bem?

— Está, eu só... Só vou ver a Estela...

— É impressão minha ou vocês não estão se falando? Você e a Sofía?

— Você... Viu a minha mochila? Com os equipamentos?

— Eu deixei lá fora, na piscina...

— Entendi. Vou subir, tá?


Guilherme a deixou subir e Frederíca se aproximou logo em seguida.


— Cara, ela queria muito aquele quarto com banheira...


Ele riu, deveria ser isso mesmo.


Ninguém subiu para os quartos, decidiram almoçar primeiro, o clima estava bom, estava gostoso, mas a chuva quase conseguiu estragar o churrasco. Vieram comer dentro, muito assunto, muitas risadas, estavam em cinco casais, além de Angra, Guilherme, Carolina e Felipe, a sócia de Angra, Marcela, também estava presente com o marido Eduardo. E além deles, Erica e Mariane formavam outro casal, eram as amigas convidadas por Frederíca, Erica era sua amiga de infância e Mariane era muito próxima de Kalinka e Sofía, e esta havia sido a ponte que fizera aquele casal acontecer. De solteira, além de Kalinka, tinham Luría, que também trabalhava com Angra. Sofía já a conhecia, Frederíca ainda não, se apressou para suprir esta necessidade, Sofía pôde notar. O futebol começou no videogame, reunindo todos os homens e Frederíca, mais olhares, mais energia, parecia que a energia simplesmente despendia.


Sofía respirou fundo, apertando a própria nuca, vendo Angra do outro lado da sala, agora lotada e movimentada por causa do jogo. Respirou fundo novamente e decidiu subir com suas coisas, ainda não havia chegado em seu tal quarto com banheira tão desejado e quando lá chegou...


O primeiro sorriso pleno de seu dia apareceu.


Estela estava acordando em sua cama.


— Mas que sono infinito é este, hein? — Disse, já pulando na cama e fazendo Estela rir demais.

— Sono infinito!

— Você segue dormindo por todo o sempre! Só não dorme a noite, né? Para perturbar a mamãe?


Ela caiu no riso, se agarrando em Sofía, rindo sem conseguir parar.


— Eu durmo! Eu durmo sim, durmo! Tem piscina, eu quero ir na piscina! Me leva na piscina, Sofía, a piscina...!


E foi Angra quem abriu um sorriso vendo a cena da porta do quarto. Havia seguido Sofía pelas escadas.


— Eu vim tirar ela mais cedo, mas ela estava dormindo profundo, acabou pegando no sono tarde ontem — Angra informou, se aproximando da cama devagar.

— Eu já estava me perguntando o que tinha feito com o meu bebê — Sofía respondeu, cheirando Estela mais um pouquinho. Ela tinha os traços da mãe, parecia até que Angra tinha a feito sozinha de tão parecida que era.

— Eu quero piscina!

— Está chovendo, filha.


Sofía se levantou da cama com Estela no colo.


— Ela é uma criança das cavernas, ela aguenta um pouco de chuva.


Angra olhou para Sofía. Uma coisa no coração.


— Se ela ficar doente, você que vai cuidar.


Sofía deu de ombros e quando passou pertinho de Angra, ela só sorriu, mordeu a boca e lhe deixou sair.


E lá se foi sua Estela pra piscina, toda agarrada em Sofía, mais do que feliz por vê-la, e Sofía com Estela, como Angra podia explicar? Ela levou sua menina para a piscina, com todo cuidado, carinho e amor possível. A trocou, perguntou se ela estava com fome, levou para almoçar primeiro, com calma, com paciência, cortando a comida pra ela, a incentivando a comer sozinha, conversando com ela em espanhol e português, Estela era completamente apaixonada por Sofía e Angra não podia culpá-la. Foram para a piscina em seguida e a guerra com armas de água durou tanto que deu tempo de Angra ler mais uns três capítulos do seu livro de agora. “Maiorca”, de Frederíca Gonzalez, havia acabado de ganhar, devidamente autografado de sua autora preferida. Era um livro especial e Angra tinha perdido seu exemplar original, que gentilmente, Frederíca repôs assim que chegou. “Maiorca” tinha sido escrito durante os seis meses que Frederíca havia passado na Espanha, que correspondiam exatamente aos seis primeiros meses de nascimento de sua Estela.


Então, ficou por ali, na parte coberta entre o deck e a sala, enquanto o jogo seguia agitado, as crianças corriam pela casa e Sofía nadava com Estela na chuva. Abriu outro sorriso, os óculos escuros apesar da chuva, eram quase parte de Angra e nunca seriam apenas proteção para os seus olhos sensíveis, também eram proteção aos sentimentos que sabia que escapavam mais fáceis por ali. Ouviu a risada de sua filha, viu o sorriso de Sofía, um gol agitou a sala, mas não fez diferença. Retornou para sua leitura, tudo estava em paz.


Para Sofía também.


A tarde passou que Sofía nem percebeu. A chuva também passou sem que ela notasse direito e com o fim do jogo na tarde e a partida da chuva, de repente, aquela casa ficou vazia. Tinha inaugurado a banheira sozinha, num banho mais longo, havia uma bela vista para o mar que se mostrava através de uma janela de vidro e Sofía aproveitou aquele tempo para pensar um pouco mais. Estava mais relaxada, menos tensa, pelo meio do seu banho, Frederíca anunciou que estava saindo e esqueceu de perguntar se Sofía queria ir também. Ainda bem. Terminou seu banho com calma, se trocou, short curto, top preto, com uma fenda que deixava escapar um pedacinho de pele, buscou na mala algo que precisava, um suéter preto, com o perfume certo. Saiu do quarto e descobriu que estava sozinha.


Não havia um som que fosse na casa, estava absolutamente silencioso, todos haviam saído para jantar, aparentemente.


Não fazia mal, foi até a cozinha, deu uma olhada na interessante dispensa que havia sido montada. Pegou uma taça e um dos vinhos que havia trazido, que aliás, já estava aberto. Encontrou queijo, cortou em cubos, patê, torradas, azeitonas, tudo perfeito, vinho chileno, queijo mineiro, patê de suas amigas cariocas, azeitonas colombianas, melhor combinação, não poderia haver. Pegou tudo certinho, sua taça, seu livro que estava lendo agora, e decidiu ir para a piscina.


A noite estava linda, friazinha, o céu havia limpado e estrelas pareciam brotar enormes, como rosas colombianas na primavera. Caminhou para o deck e quando chegou lá...


Não, não estava sozinha.


Angra estava lá.


Com o olhar distante, camisa branca de botões, os pés na água, os cabelos de avelã soltos, uma taça de vinho na mão, linda, Sofía se perguntava como ela conseguia ser linda o tempo inteiro. Lembrava da primeira vez que haviam se visto e de como seu coração correu no peito, porque Angra passeando por uma piscina sempre seria de uma imposição física de deixar qualquer olhar meio nervoso. Bela, alta, com um sorriso que grudava na mente, não se deixava ser esquecido. Havia ficado com aquele sorriso grudado em sua mente por dias, até que enfim, não tinha resistido à vontade de falar com ela.


E então que Angra olhou para trás de repente.


— Sofía...! — Abriu aquele sorriso lindo nervoso, ela havia levado um susto — Eu achei que não tinha ninguém...

— Eu achei que não tinha ninguém — Seu coração deu uma corrida no peito, era impressionante, sempre corria — Foi você quem abriu meu vinho.


Angra respirou fundo, olhando bem para Sofía.


— Quem abriu o nosso vinho, fui eu sim. E você não tem permissão para beber este vinho aqui com outra pessoa, você sabe disso — Disse, se levantando da borda.

— Angra...

— Eu vou passar pela porta de novo.


Sofía riu. Não teve saída, acabou rindo, porque às vezes tinha certeza de que Angra era louca.


— O quê?

— Eu vou passar por estaporta de novo, deixa isso aqui — Colocou sua taça sobre uma mesa, a taça e o bowl de aperitivos de Sofía também — Espera aqui — Angra saiu do deck e fechou a porta de acesso, fazendo Sofía rir mais ainda contra a sua vontade.

— Angra, vem aqui...

— Abre a porta — Ela pediu, com aquela voz densa do outro lado da porta.


Sofía apertou os lábios. E, abriu a porta.


E ali estava Angra do outro lado, apoiada na porta, sorrindo e olhando para baixo de uma maneira... Outro sorriso de Sofía e quando aqueles olhos cor de mel pousaram dentro dos seus...


Quantas vezes já havia passado pelo mesmo?


A puxou para o deck e se agarrou nela, afundando o rosto por aquela camisa branca, sentindo profundamente aquele perfume gostoso, que só Angra tinha e mais do que isso, sentindo aquele abraço firme, aqueles braços em volta de si, lhe apertando, tão forte, quase a ponto de fundir uma pele na outra de tão apertado, de tanta falta.


— Angra, você é doida, sabia? Eu não me acostumo...

— Vem aqui, fica assim, pertinho de mim... — Colocou Sofía contra a parede, a cercando com seu corpo, com suas mãos, com seu bem-querer por ela.

— Eu aceitei vir, mas a gente não pode...

— Não pode o quê?

— Qualquer coisa, a gente não pode aqui.

— Sofía... — Angra deslizou o rosto pelo lado do rosto dela, roçando devagar, sentindo a respiração dela tão perto da sua e sempre haveria aquela coisa, a energia que despendia, aquela atração que nunca havia tido limites, a pele que arrepiava, o corpo que reagia sempre que estavam tão perto uma da outra. Haviam fugido disso o dia inteiro, mas agora... — Eu acho que você precisa me acalmar...


Sofía sentiu o arrepio, um tremor subindo por dentro, o sangue que fervia tão rápido só porque Angra estava por perto, do outro lado de uma porta que fosse. Com o corpo dela tão perto do seu então...


— Angra...

— Sofía, isso não tem perdão, sabia?

— O que não tem perdão? — Os batimentos de Sofía já estavam disparados, correndo pelo seu corpo inteiro, apertando de dentro do seu peito até o meio das suas coxas...

Nós duas — E lentamente, colocou suas mãos na cintura dela, e a apertou contra si, porque precisava, apertando a respiração das duas junto, no mesmo compasso, respiraram fundo, soltaram o ar ao mesmo tempo, a vibração, aquele tesão, aquela saudade, nada era maior que a saudade — Este amor aqui, não pede perdão.


Sofía a olhou nos olhos. E Angra fechou a porta de acesso, a travando pelo lado de dentro e com um único movimento, enlaçou Sofía pela cintura e sem deixá-la respirar, comeu a boca dela em um beijo.


Notas da Autora:


Olá, meninas!


Aqui estamos, de volta à casa, de volta a esta rotina de ter história semanal no site, a nossa troca sempre valiosa nos comentários, confesso que já estava com saudades dessa inteiração com vocês!


Voltamos para as nossas postagens semanais, com uma história novinha, inédita e com a qual vocês já demonstraram bastante interesse com os dois capítulos de degustação postados anteriormente! Então, aqui estamos, com "Angra" prontinha para ser postada de maneira regular e o que eu posso dizer desta história? É um desafio! Sempre que começo a escrever, vem toda uma lista de coisas, eu quero que a história seja boa, que seja interessante, instigante e principalmente, diferente das histórias anteriores e sendo "Angra", o meu sexto romance, este último quesito anda sendo bastante exigente de ser cumprido haha.


Mas modéstia parte, acho que consegui entregar "Angra" com atendimento a todos os requisitos listados, haha. É uma história diferente das outras, com uma construção diferenciada, cenários distintos que se conversam, personagens densos e com diversas conexões diferentes entre si. Se Havana era sobre maternidade, Sal sobre autodescoberta, Bali sobre cura, eu acho que posso dizer que Angra é sobre relacionamentos, sobre sentimentos sendo redescobertos, sobre mudanças mentais tão complicadas de acontecer quando, bem, a vida já está toda construída e certinha ao redor. Angra é este tipo de aventura! E espero contar com a leitura de todas vocês até o final da jornada da nossa protagonista!


Agora, vamos lá! Aos detalhes técnicos haha.


Angra está prevista para ser postada duas vezes na semana, às terças e sextas e a liberação do próximo capítulo estará sujeita a marca de 50 comentários :). Como vocês já sabem, as histórias gratuitas se pagam com comentários de vocês, que me ajudam a ganhar visibilidade e manter o site no ar. Então, todas prontas?


A jornada de Angra começou agora!


Abraços!

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