Angra - Capítulo 12: Ilhas Vulcânicas




Gostava de como as coisas eram vistas de cima.


E aquele pedaço de praia e aquela casa...


Frederíca fez o drone ganhar ainda mais altura enquanto o pilotava da área da piscina, estava sozinha, dentro de sua mente instransponível, enquanto aquela casa parecia acordar lentamente, de maneira arrastada depois da noite anterior. Os olhos no visor do celular, já adorava a arquitetura daquela casa, os três andares que acompanhavam o terreno acidentado, os detalhes em madeira, as janelas enormes, de vidro, deixando ver o cenário por completo o tempo todo, e a costa com mata atlântica sobrevivendo aqui e ali, a faixa de areia branquinha e o azul intenso do mar. Como amava o seu oceano, adorava o Pacífico que podia ver pela sua janela todos os dias em Cartagena, mas era o Atlântico que via todos os dias pela sua janela quando era pequena na Favela da Maré.


Não lembrava de um dia em que tivesse acordado ali e quisto não sair daquele lugar. E deve ter sido assim que havia ido parar em outro país apenas para sentir tanta falta de casa, que agora não havia um dia que não acordasse e não lembrasse da casa onde cresceu.


Sempre havia sido assim. Quisto as coisas que não tinha em mãos, para então ter em mãos e sentir falta do que havia perdido e se não era exatamente assim que se sentia sobre Sofía, não sabia explicar diferente. Tinha a visto pela primeira vez na internet, uma foto de perfil lhe chamou atenção, a garota refinada e inteligente que podia falar sobre qualquer assunto, lhe fisgou de vez. Frederíca estava namorando quando se conheceram e bastou um primeiro encontro para ter certeza do que precisava fazer. Haviam vindo do mesmo lugar, ela não pensava duas vezes em ir pra sua casa como acontecia em seus relacionamentos anteriores, era corajosa, ambiciosa, um tipo que não permitia que ninguém viesse chover na sua parada. E, era uma ilha. Uma misteriosa ilha vulcânica, dessas que se forma de uma erupção, no meio do Pacífico, uma ilha misteriosa e selvagem, onde ninguém tinha permissão de pisar.


Sofía era o motivo das personagens de Frederíca terem nomes de ilhas. E o mistério dela lhe manteve interessada e ocupada a ponto de quando menos percebeu, Frederíca se deu conta de que estava casada com ela.


Não era um problema inicialmente, as duas eram escritoras, por mais que Sofía escapasse do título, era tão escritora quanto Frederíca, que entendia como ninguém a necessidade de ser ilha, ainda mais quando se cresce com cinco irmãos num barraco no morro. Frederíca também era uma ilha quando precisava escrever. Mas era uma ilha como Ibiza, ensolarada e cheia de gente, enquanto Sofía era uma ilha inabitada do Havaí, com algum grande vulcão sempre em erupção e sem nenhum sinal de formação de istmo por onde se pudesse chegar.


E a falta de um istmo agora, parecia estar cobrando um preço mais alto.


Havia aprendido com ela a diferença entre magma e lava, e a sua reação em magma à noite anterior... Preferia que ela tivesse explodido em lava assim que percebeu que algo havia se passado, mas fazia tanto tempo que Frederíca não via uma explosão assim que nem sabia. Mas assim eram os vulcões havaianos, Kilauea não explodia como Krakatoa na Indonésia, a composição do magma é diferente, é necessária uma determinada composição química para que um vulcão seja do tipo que exploda e os vulcões havaianos não explodem, apenas escorrem e espirram.


Sofía era assim. Queimava sem explodir, espirrava e escorria silenciosamente, o que deixava Frederíca totalmente perdida.


E foi assim, queimada por um vulcão silencioso de uma ilha misteriosa que acabou sozinha com Luria num microvestido azul-petróleo no banheiro daquele restaurante.


— Ei, aqui — E era assim que a única a ouvir que estava morrendo de dor de cabeça tinha sido Angra Fernandes, a apaixonada descarada de sua mulher, que estava lhe trazendo água e um comprimido. Precisava ser gentil também? Frederíca ficava louca.

— Você pousa ele pra mim? — Entregou o controle para ela.


Angra colocou os olhos no visor e viu algo que adorava. Levou o drone até lá, aproximando mais, até Sofía perceber, lhe sorrir, jogar um beijo na direção da câmera.


Ela tinha saído com Kalinka havia um tempinho já, foram fazer uma trilha curta que passava ao lado da casa e saía na praia, e ali estavam elas e Sofía... Como que explicava? Ela de biquíni e bermudinha curta, com uma camisa xadrez amarrada na cintura, óculos escuros, tênis nos pés, os dias de praia a deixando pretinha demais, naquela cor que Angra simplesmente adorava. Andava sofrendo.


— Olha quem eu achei... — Mostrou para Frederíca, que abriu um sorriso. Angra sempre achava Sofía, sempre, ficava impressionada com aquela capacidade nela.

— Sabe que eu não me lembro de outra fase em que ela esteve mais bonita do que está agora. Ela está com a pele bonita, o corpo saudável que ela sempre quis, o cabelo tão hidratado, todos os elementos de fazer brilhar equilibrados e ainda assim... — Respirou fundo — A minha mente desfoca.

“Relacionamentos não são feitos de um único sentido” — Angra citou, a filmando tirar a roupa para mergulhar, tinham chegado na praia — Foi você mesma quem escreveu — Disse, a fazendo sorrir. Todo mundo havia acordado numa vibe densa aquela manhã, envergonhados ou ressacados, só havia esses dois times.

— A vida real é um pouco diferente.

— Eu também achava que era, mas agora, eu acho que não é, não: é a gente que se precipita. Somos nós que não temos paciência, porque o natural não é cruzar com a pessoa certa toda hora, o normal é estarmos no momento certo com a pessoa errada, ou com a pessoa certa no momento errado, daí que não esperamos pelo alinhamento das coisas e só... Vamos em frente. Com o momento errado ou a pessoa errada.

You never meet the right people at the wrong time, because right people are timeless — Frederíca respondeu, com os olhos fixos no oceano.

— O quê?

— Espera — Ela entrou de repente e Angra ficou... Meio sem entender. Pousou o drone em segurança e Frederíca apareceu novamente, com um livro na mão — Eu vou deixar você me trair com a Heidi Priebe, leia o capítulo sobre conhecer a pessoa certa no tempo errado. Você conseguiu o barco?

— Um iate.

— Você não faz nada simples, não é?


Angra apenas sorriu, se era para fazer simples, nem saía de casa. Frederíca gostava do que via nela, havia gostado desde o começo, quando inesperadamente a conheceu grávida em Cartagena. Ela estava grávida, mas não parecia como as grávidas padrão, era uma grávida diferente, de moletom, camisa branca e jaqueta jeans. Bonita sempre, ambiciosa também, obstinada, focada, com uma autoconfiança e uma energia que Frederíca se identificou imediatamente. Ela era um tipão. Charmosa, inteligente, de óculos escuros e seu carro veloz, sabia que era o estilo de Sofía e mais do que isso: sabia que Angra era apaixonada por ela; ninguém precisava contar, estava no olho de Angra cada vez que Sofía aparecia, estava perto. O que não tinha certeza é se a ambição de Angra era maior que a sua bolha de proteção; ou se a atração que Sofía sentia era maior do que a culpa por fazer algo fora do casamento.


Era isso, no final das contas, Frederíca estava segura por um istmo que sequer merecia.


Deixou Angra lá fora e entrou, o clima na casa seguia esquisito, estava silencioso demais, podia se ouvir o som das louças na cozinha. Subiu para os quartos e na varanda do final do corredor, Bernardo estava chorando.


Mas chorando demais, sentido com alguma coisa, chorando sem querer aceitar o colo da mãe e a cena não fazia muito sentido. Mas lá estava o garotinho de cabelos compridos (o que rendia a ele o apelido de Tarzan), recostado num canto da varanda chorando sem parar.


— Ei, Tarzan, o que foi? Ei... — Ele não tinha ido para o colo da mãe, mas aceitou ir para o colo de Frederíca.


Que o cuidou, o acalmou, tentou entender o motivo do choro, mas seguiu obscuro. Então, apenas tratou de acalmá-lo, o fazendo respirar e bem lentamente, ele foi finalmente se tranquilizando, respirando fundo, limpando o rostinho todo molhado. Frederíca prendeu os cabelos dele num coque samurai, tirou a camiseta do Homem-Aranha para ele refrescar um pouco.


— Sabe o que a Estela está fazendo? Jogando videogame! Por que você não desce lá com ela? Ela detesta jogar sozinha, você sabe.

— Eu sei, ela não gosta de ficar sozinha. Eu também não gosto. Eu jogo com ela. Depois a gente faz jiu-jitsu?


Frederíca sorriu.


— Depois a gente faz jiu-jitsu, eu prometo. Vamos fazer melhor, vamos comprar quimonos, eu levo você e a coalinha, vamos treinar uniformizados, o que acha?


Ele respondeu agarrando Frederíca num abraço muito apertado.


— Tá bem! Tá bem!


Frederíca beijou a testa dele.


— Perfeito. Agora vai lá, vai.


Ele desceu animado e, os olhos de Luria estavam bem ali.


Bonita, sim, em outro microvestido que a fazia parecer quase indefesa. Luria tinha uma estrutura física pequena, mas forte, dava para ver músculos suaves pelas coxas, vê-los surgindo no abdômen quando ela ria, a fragilidade era só uma ilusão de ótica. Tinha 1,65 de altura, um olhar reto e cheio de si sempre, Luria era uma daquelas mulheres que podia fazer qualquer coisa usando saltos altos sem perder o equilíbrio, nem por um segundo. Angra costumava dizer que apenas bruxas eram capazes de saltar e correr de saltos altos do jeito que Luria era capaz. Devia ser bruxa. Frederíca ainda estava pensando a respeito.


— O que aconteceu com ele? — Frederíca perguntou.

— Nós vamos fazer o passeio, ele veio me perguntar se ia ficar também, porque as crianças vão ficar com os pais, e... É sempre um problema. Ele perguntou como ele ficaria aqui se o pai dele não está aqui.

— Caramba.

— Então, tem sempre uma questão, sabe. Ele está ficando mais velho, percebendo mais coisas e em contrapartida, parece que quanto mais consciente ele fica, mais o pai se afasta.


Frederíca se aproximou devagar. Fisicamente, e nas perguntas também.


— Como é a relação deles?

— Ah, Fer, ele é pai de final de semana. Na verdade, agora está se tornando mais pai de quinzena do que de final de semana, anda vendo o Bernardo duas vezes no mês e eu nem sei até onde isso faz bem para ele. Ele fica feliz quando o pai chega, mas já faz algumas vezes que ele me liga pedindo pra voltar pra casa logo.


Frederíca olhou bem para ela. Os olhares se cruzando. Os olhos de Luria adoravam as tatuagens pelos braços de Frederíca, o sorriso fácil, o cabelo desgrenhado e sempre charmoso. Ela chegava perto e... Algo acontecia. Luria cruzou os braços, respirando fundo, desviando os olhos.


— Disse pra ele que a Julia vai ficar aqui com a outra mãe? Que ele não é o único sem pai?

— Disse e ele me disse que nem outra mãe ele tem — Contou rindo porque tinha sido engraçado.

— Ele está cheio das respostas... — Frederíca estava sorrindo também.

— Com criança, cada idade parece uma nova era. E para esta era dos quatro anos, eu preciso me preparar. Ele vai ter mais perguntas daqui pra frente.


E Frederíca ficou olhando para ela por um tempinho. Os cabelos longos, naturalmente frisados, os olhos puxados, a pele de avelã.


— Você se parece muito com a Carolina.


Ela riu.


— Eu ouço isso demais...

— E não há nenhum parentesco?

— Nenhum. Mas sei que a Angra me contratou por causa disso. Depois por aquela habilidade...

— De descobrir cirurgicamente, só de olhar para os números, quando as empresas vão falir — Tinham conversado muito na noite anterior. Luria era gerente de portfólio na empresa de Angra, contadora especialista em mercado internacional e em análise financeira, e Frederíca nunca diria que ela teria um trabalho tão empresarial, o que provava que mesmo mulheres inteligentes e feministas, podem se ver envolta de estereótipos machistas.

— Exatamente.

— Se sente melhor? Da pancada?


Ela lhe olhou bem nos olhos.


— Da pancada, sim. E... — Abriu a bolsa de praia e tirou de lá um exemplar de Santorini — Sofía me deu para ler ontem pós-pancada, em que ela foi... — Estava um tanto sem jeito de falar de Sofía — Ela é maravilhosa. Eu comecei ontem à noite porque não conseguia dormir, e se foram três capítulos muito rapidamente.

— Está gostando?

— Adorando. Frederíca... — Ela respirou fundo, olhando pra frente — Eu gosto de você. E gosto da Sofía. E eu acho que vai ser até bom eu ficar por aqui hoje, vocês precisam de tempo juntas, e...

— Eu sei. É... Bem. Escuta, você devia ir ao passeio e eu fico com o Bernardo, cuido dele pra você. Você precisa relaxar.

— Mas... — Aquilo a pegou de surpresa.

— Vai. Vai você, Luria, o objetivo de tal passeio é dar uma folga para as mães, vai você, eu te dou a folga e, vou fazer o Tarzan entender que alguém ficou com ele. Fora que eu prometi quimonos, você ouviu...


Ela riu e então, mais olhos nos olhos. Tinha uma coisa ali. Quando os olhos se encontravam.


— O quanto você bebeu ontem? — Frederíca perguntou.

— O que você quer descobrir se eu me lembro ou não? — Ela devolveu sorrindo.

— Lembra de como eu te chamei?


Ela não respondeu, apenas sorriu. Mas não era como se fosse possível esquecer alguém lhe chamando de “La Isla Bonita”, quando esta música começou a tocar e ela lhe tirou para dançar. Mas não era hora disso, não antes de Luria entender melhor o que na verdade, era aquilo. Sendo assim, deixou o momento ir. Conversaram mais um pouco sobre coisas aleatórias e Frederíca desceu, indo encontrar Bernardo no sofá e Luria a seguiu com os olhos do patamar da escada. A conversa de perto, olho no olho, o sorriso dele quando a ouviu falar. Respirou fundo e, respirou de novo.


O que estava fazendo? Ou, o que estava acontecendo?


— Eu te disse, mães têm um fraco por ela... — Erica surgiu de repente, fazendo graça — Como você se sente?

Luria pensou a respeito, ainda vendo Frederíca com Bernardo lá embaixo.

Atingida.


Era a melhor definição.


📚


De fato, Angra não sabia fazer nada simples.


Um iate esperava por elas, em um ancoradouro que não ficava longe, foram em dois carros e ver Angra pondo as luvas para dirigir seu Giulia azul devia ser uma das coisas mais sexy que Sofía achava. O jeito que ela calçava as luvas, que dirigia com imposição, o virar de volante habilidoso, feito com uma mão só e Sofía ficava... Mordiscando a unha do dedão. Alguém já havia lhe dito que chegava a ser lascivo, ela precisava botar atenção, nem duvidava que não fosse. Angra a olhou de lado e sorriu, Marcela e Luria iam conversando no banco de trás e Angra sabia muito bem que Sofía levava qualquer dedo na boca quando sentia um tesãozinho, ela era oral a este ponto. E, como Kalinka também não sabia fazer nada simples, ela ultrapassou o Giulia num Subaru WRX preto, com cara de Need for Speed, Erica e Carolina tinham ido com ela, achou interessante como Carol sequer cogitou não entrar no carrão preto, ponto de atenção, analisaria mais tarde. Saíram deixando o clima esquisito para trás e todas as mães vieram mais tranquilas quando Frederíca disse que ficaria, ela e Marianne olhariam as crianças em conjunto e aquilo pegou Sofía de surpresa.


Ela não querer ir. Não que esperasse uma cena de ciúme ou insegurança, isso jamais faria parte de Frederíca, mas ela lhe empurrar muito claramente para um dia inteiro ao lado de Angra sem Guilherme por perto... Podia ser algo. Ela podia estar reconsiderando a decisão de separar, ou não, nunca conseguia saber ao certo o que se passava pela cabeça de Frederíca. E enquanto não sabia, era melhor apenas... Relaxar no momento. Havia entendido a importância de estar presente plenamente no momento quando começou a se relacionar com Angra, isso lhe tirava o peso de sempre precisar saber o que aconteceria depois, o que lhe levava uma energia enorme e nunca era de fato, algo conclusivo.


Inconclusivo era o estado permanente de tudo o que é vivo.


Sofía estava distraída em si quando ouviu Luria cantarolando algo no banco de trás.


Last night I dreamt of San Pedro... Just like I'd never gone, I knew the song...

A young girl with eyes like the desert... — Seguiu com ela, trocando um olhar com Angra, uma garota com olhos como o deserto... Ou olhos em degradê, também servia — It all seems like yesterday, not far away...


Parecia que tudo havia acontecido ontem, não muito distante... E não é que parecia mesmo? Chegaram no ancoradouro e o iate acenou, médio porte, com um mastro muito alto e foi quase como estar de volta a Abrolhos, era muito parecido com o iate que tinham feito o living on board e aquele mar azul, aquele sol brilhando sem uma única nuvem no céu... Angra colocou seu equipamento de som para tocar assim que colocaram os pés dentro dele e assim que começaram a navegar...


Era de se prestar atenção no quanto alguns parceiros se comportam diferente quando estão longe um do outro.


Marcela era outra, rindo, conversando, tal como Erica também era e Carolina estava quase tão relaxada que já estava, inclusive, falando o dispensável com Angra novamente. Sofía estava solta, solta como a Sofía que Angra conheceu em Abrolhos, passaram direto para a área do bar, Angra e Sofía, para preparar a especialidade de ambas, Sangria Espanhola para todo mundo, haviam trazido tudo o que precisavam, vinho suficiente, água tônica, laranjas, maçãs, abacaxis, cubos de gelo. Foram fazendo tudo juntas, conversando baixinho, se olhando nos olhos aqui e ali, e foi servir nas jarras e Sofía tirou Angra para dançar.


Estava solta assim, a tirou para dançar pelo convés sem problema nenhum, cantando a letra junto com ela, enquanto trocavam dois ou três passos de salsa, bem devagar porque não era exatamente o estilo de Angra, mas era o estilo de Sofía, e Angra sempre se esforçava para segui-la. Angra tinha colocado La Isla Bonita para tocar e ali estava, sua garota agarrada no seu pescoço, sua mão passeando discretamente pelos quadris dela, sua Sofía, sua, como podia?


Tropical the island breeze, all of nature wild and free, this is where I long to be, La isla bonita... —Tropical a brisa da ilha, toda natureza selvagem e livre, é lá onde eu gostaria de estar, La isla bonita... — And when the samba played, the sun would set so high, ring through my ears and sting my eyes, your Spanish lullaby... — E quando o samba começava a tocar, o sol se punha tão alto, ecoava nos meus ouvidos e ardia meus olhos, sua canção de ninar espanhola...


Angra a girou, como sempre a girava, então abriu o movimento e a trouxe de volta, a prendendo sorrindo em seus braços, arrancando risos e aplausos, beijando o ombro dela e ouvindo o resto daquela letra, fazia tanto sentido, se apaixonar numa ilha, desejar que os dias passem mais devagar, porque aqueles três dias a bordo simplesmente, pareciam ter sido dias de 10 horas, não de 24, de tão rápido que pareceram passar.


— Você não vai acreditar no que eu aluguei...

— Deve ser algo perigoso que você e a Kalinka vão usar, me deixando com o coração na mão, provavelmente.


Angra riu, Sofía lhe conhecia tão bem.


Colocaram a Sangria para gelar, trocaram biquínis, e a próxima coisa que Sofía viu, foi Angra e Kalinka contando até três para dispararem pelo convés e pegando impulso na proteção do barco, saltaram para a água, dando mortais pra frente e como que não se batiam, não colidiam, não se machucavam, era um verdadeiro mistério. Mas mergulharam assim, seguidas de mergulhos bem menos ousados de Marcela, Luria e Erica, e a única companhia que Sofía teve para descer pela escadinha, foi Carolina mesmo.


— Elas são... Da mesma espécie. Tem certeza de que nunca foi apaixonada pela Kalinka?

— Eu sou, mas de um jeito diferente — Sofia respondeu sorrindo.

— O mesmo jeito que eu sou apaixonada pela Angra, provavelmente.

— Pensei nisso — Outro sorriso — É um outro tipo de paixão. Eu acho até que é um comportamento padrão, garotas se apaixonam pelas suas melhores amigas e em sua grande maioria, não trocam momentos partilhados com amigas por nenhum namorado.

— Mas quando você namora uma garota, consegue ter as duas coisas ao mesmo tempo. Você notou como os homens ficaram felizes de terem a casa só para eles? É natural do ser humano querer ficar perto dos seus mutuais, eu nunca tinha parado para pensar nisso direito. Você... — Respirou fundo — Parece outra perto da Angra. Com mais liberdade para estar perto dela de verdade.

— Ela é uma das minhas melhores amigas, Carol. Como a Kalinka é, a Frederíca também é, mas Angra tem o plus que você estava falando aí. Eu me apaixonei por ela das duas formas, como amiga e como amante, você já parou para pensar na origem deste termo? Amante, para relação fora do casamento? Amante é aquele que ama, que sente paixão, ou aquele que admira, como quando a gente usa o termo para descrever um amante de cinema, por exemplo. Mas em algum momento histórico, começamos a chamar de amante os relacionamentos fora de namoros ou casamentos. E eu desconfio que isso tenha acontecido quando socialmente, começamos a considerar o casamento mais um compromisso, um ato de honra, do que um laço entre duas pessoas que de fato, se amam. O amor começou a perder o significado real, eu entendo que o amor de verdade também é companheirismo, lealdade, ter com quem contar; mas isso não quer dizer que a paixão tem que ficar fora disso, que a atração não é importante, que o sexo não é importante. Tanto que... — Tirou a camisa xadrez que usava e a bermudinha em seguida e Carolina sabia que Angra deveria estar sofrendo com Sofía tão atraente, sem poder fazer quase nada, conhecia sua amiga, não concordava, mas a conhecia o suficiente para saber o que se passava com ela. E a atração por Sofía acabava com ela desde Abrolhos — Se não fosse, eu poderia simplesmente seguir casada com a Frederíca, ou me casar com a Kalinka.

— Sofía, eu acho que me apaixonei pelo jeito que a Frederíca fala de você. Eu jamais imaginaria algo assim entre vocês duas. Sabia da atração sua e da Angra desde lá em Abrolhos, mas olha... Frederíca me convenceu do contrário.


Sofía sentou-se de volta ao lado dela, as duas sentadas na parte de trás do iate, onde dava para pôr os pés na água.


— Ela é escritora. Quem a lê falando de mim, deve achar que ela está descrevendo a mulher mais bonita do mundo, a mais inteligente, a mais incrível. Sabe por quê? Porque ela me vê romanticamente assim. Qualquer descrição dela será a mais poética e bonita possível. Ela já me viu assim que eu sei. Já foi apaixonada por mim tal como eu fui por ela, e já fomos amantes extremamente satisfeitas uma com a outra. Hoje ela escreve a partir das coisas que um dia ela viu em mim. Mas ela já não vê a mulher mais bonita do mundo, a mais inteligente, a mais incrível. Mas tem a lembrança de quando me via com olhos de quem ama. Tem essa diferença, sabe.


Carolina respirou fundo. E então, se deu conta do que Angra tinha alugado.


— Sério?


Era uma flyboard, uma prancha que flutua com a propulsão da água, e obviamente, a primeira a decolar foi Angra. De colete, mas sem capacete, Kalinka fazia tudo funcionar com um jet ski, pilotando em volta dela enquanto ela se entendia com a prancha no ar, caindo, mergulhando, mas sem medo nenhum, até compreender exatamente como aquilo funcionava. Não duvidava nada que ela estivesse fazendo pequenas manobras até o final do dia, Angra era assim, sem medo, nunca facilmente vencida, Sofía era a maior prova da obstinação daquela garota.


Tiveram um tempo ótimo no mar, se descobrindo com a flyboard, se divertindo com o jet ski, ou simplesmente saltando, estavam com garotas que adoravam saltar, adoravam mergulhar, o dia estava lindo e o clima estava mais do que agradável. Não havia uma mulher naquele iate que não merecesse um tempo de descanso, de um momento de pura diversão, de jogar conversa fora, se divertir no mar.


Uma horinha depois, Kalinka subiu para adiantar o almoço e Carolina a seguiu, ajudando a preparar algo rápido e que fosse gostoso para todo mundo, risoto de camarão com limão siciliano, fizeram rapidinho, enquanto falavam de uma coisa e outra.


— Então, você quase não para em casa... — Era Carolina perguntando.

— Eu tento voltar ao menos por uma metade do mês, foi aí que comecei a ser piloto de teste, esses vídeos são ótimos também e permitem que eu passe algum tempo em casa. É importante pra mim conseguir manter este relacionamento com a minha casa, com as pessoas com quem eu convivo.

— Mas como é? Viajar tanto, por tantos lugares. Você é grega.

Naí — Sim, em grego — Mas filha de jornalistas, que também não tinham muito paradeiro, minha mãe é grega, meu pai brasileiro, eles nunca ficaram juntos de verdade e eu meio que fui crescendo pelos lugares onde eles trabalhavam. Foi então que com treze, quatorze anos, eu vim morar com a minha avó aqui no Brasil, julgaram importante eu ter uma identidade, ter uma língua bem desenvolvida, o meu ensino fundamental foi concluído em cinco países diferentes — Ela seguia contando e sorrindo.

— E quando você conheceu a Sofía?

— Na faculdade. Ela chegava atrasada todos os dias e como ela era bolsista, estava correndo risco de perder a bolsa por causa dos atrasos. Foi então que eu descobri que ela se atrasava porque morava em Santa Teresa, muito longe da faculdade e eu me ofereci para trazê-la todos os dias. Ela achou que eu estava dando em cima dela — Abriu um sorriso contando.

— Sério?

— Ela é muito convencida, aff.

— E você... Estava?

— Nada. Eu nunca tinha ficado com mulher nesta época...


O que queria dizer que ficava agora. Carolina segurou aquilo no pensamento por algum motivo e, o almoço ficou pronto. Foi servido junto com a Sangria, e:


— Dá nome de ship, não dá? Se misturar Angra e Sofía... — Era Marcela.

— Dá nome de ship sim, a dupla que faz a melhor sangria da vida! — Era Erica, erguendo o copo e propondo um brinde! Um brinde a qualquer coisa, àquele dia lindo, à oportunidade de estarem juntas, num momento bom, a qualquer coisa boa que pudessem emanar naquele momento — Tudo o que vocês duas fazem juntas, dá muito certo, sério...

— Concordo plenamente — Era Marcela, já provando de seu copo também — Nós só temos uma startup internacional porque essas duas mentes pensaram juntas.

— E porque a Angra é louca, eu jamais que ia imaginar que ela fosse simplesmente correr para a Estônia... — Era Sofía, sentando-se junto delas, provando do risoto quentinho e cremoso, estava uma delícia.

— O quê? Imediatamente #PartiuEstônia, eu queria ganhar em Euro, linda...


E os ouvidos de Luria captaram aquele linda como ninguém. Não era a primeira vez que ouvia Angra chamando Sofía assim. Seguiram o almoço, a música seguia tocando o tempo todo, o assunto leve, as risadas ficando mais altas conforme a Sangria desaparecia das jarras e como exatamente começaram a falar de casamentos, nenhuma delas saberia dizer.


— Não existe esta coisa de natureza do homem. Mulheres gostam de sexo tanto quanto os homens, desde que o sexo seja bom — Era Kalinka — Se as mulheres gozassem tão facilmente quanto os homens, a gente também iria querer sexo todo dia, não haveria nenhum problema nisso, quem não gosta de gozar? Não existe isso, não. O que existe, é sexo mal feito, sexo preguiçoso ou pior, sexo para dar prazer a um só. No auge da crise do meu casamento, eu lembro que o sexo terminava na cama e eu ia me masturbar no banheiro sozinha, para terminar eu mesma a relação sexual enquanto o Diego já estava roncando na cama porque ele tinha gozado. Isso não faz o menor sentido, o menor que seja e quando eu decidi conversar sobre o assunto, só recebi acusações de volta. O problema era meu, a dificuldade era minha, ele não tinha nada a ver com isso, estava convencido de que era um deus do sexo maravilhoso, que o problema só podia ser comigo mesmo. Não houve conversa, não houve acordo, ele inclusive, se recusava a falar do assunto e o mais impressionante é que essas não-conversas colidiam em brigas enormes e no final da noite, ele ainda tinha a cara de pau de me procurar na cama. Como se fosse uma obrigação que eu tinha que cumprir só porque ele era meu marido. Hoje, a minha cama tem uma regra. Ninguém se deita nela se não estiver com disposição para gozar e fazer gozar.

— E o mais engraçado disso, é a lenda de que sexo não é problema num bom casamento, eu não sei de onde isso veio — Luria se serviu de mais um copo de Sangria — Tanto não é um problema, que eu era traída todos os meses por causa disso e ainda tinha que ouvir que, fulana não significava nada, que não era nada sério, era só sexo mesmo. E eu comprei essa desculpa por quase dois anos, não sei bem como, acho até que pensava que a culpa era minha, ele procurava sexo fora porque eu não queria saber de sexo em casa. E eu não queria mesmo, era ruim, eu não me sentia atraída por ele mais, não queria ir pra cama com ele. Porém depois de me separar e de ter externalizado isso, eu ainda sou a vagabunda do escritório até hoje, um escritório FEMININO, porque Marcela e Angra fazem questão que assim seja, uma equipe feminina. Mas ainda assim, há esse tipo de julgamento o tempo todo.

— A gente vela esse machismo, está longe de vir apenas do homem — Marcela parecia outra desde quando havia pisado naquele barco, havia acordado tão envergonhada, mas agora se sentia abraçada, era bom não ser a única a ter problemas — Nós temos muitos problemas, mas por incrível que pareça, eu acho que a base de todos os outros, é que hoje eu estou ganhando mais do que ele. E é uma situação muito complicada, inclusive, para eu admitir que aquele homem maravilhoso com quem eu me casei, é machista também. Mas ele é. Machista porque foi criado num meio que incentiva isso, o mesmo que a gente cresceu também, este que nós estamos falando aqui, onde se ouve das necessidades masculinas, que homem precisa de sexo, tem que gozar, que a gente tem que entender que é instinto e que mulher que gosta de gozar é vagabunda. É a mesma sociedade que diz para estes mesmos homens que eles têm que sustentar a casa, dar conta de tudo, que é dever deles. Se fosse o Eduardo dobrando o faturamento da empresa dele em um ano, como Angra e eu fizemos, seria motivo de orgulho, todo mundo saberia. Mas como é a esposa quem fez tal feito, não se pode falar disso, ou ele se constrange. Ele não queria vir porque o aluguel da casa de férias era alto. E tudo isso começa a virar um problema dentro do casamento. Eu não pedi para ele pagar, só pedi para ele vir, e ele está irritado e constrangido com isso o tempo inteiro aqui — Daí os olhos dela caíram em Erica do outro lado da mesa — Por que você está se separando? Eu juro que não entendi até agora, vocês parecem tão bem.

— É porque nós estamos realmente bem desde que decidimos no separar. Aqui os problemas são diferentes, o sexo corresponde, todo mundo goza, nos entendemos muito bem financeiramente, socialmente também, porém, eu perdi a minha mulher quando a Julia nasceu, simples assim — Erica abriu um sorriso descompassado, era simples, mas abalava da mesma forma — Ela só... Perdeu o interesse. E eu acho que eu também perdi e poderíamos viver assim por muito mais tempo, num casamento de amizade, tranquilo, mas então que, eu me interessei por outra pessoa. E eu quero tentar. Eu realmente acredito que essa combinação existe, de casamento de amizade tranquilo com uma ardência de amantes, que leva a gente pra frente. A amizade é importante, mas é importante também se sentir atraída pela pessoa que acorda do seu lado todos os dias. Se não é para ter isso...

— Eu me caso com a Sofía — Disse Kalinka, causando riso pela mesa enquanto Angra e Sofía apenas se olhavam.


Se olharam o assunto inteiro, sem nenhuma das duas se pronunciar sobre seus casamentos. Mas sobre elas mesmas...


Não faziam ideia de como aqueles olhares eram inteiros pronunciamentos sobre elas duas.


— Carol? — Carolina estava estranhamente quieta, olhando para a comida, refletindo sobre algo claramente.

— Eu... Não sei mais por que estou insistindo. Estou ouvindo vocês aqui e me perguntando por que eu estou insistindo. Eu o amo, eu sei disso. Mas acho que... Não estou amando a vida que estou levando ao lado dele. E ele também não, ou não teria pedido o divórcio ontem.

— Veio do nada? — Angra não fazia ideia de que isso havia acontecido no intervalo entre deixar o restaurante e ser flagrada com Sofía.

— Eu pedi pra dançar, na verdade — Olhou para Luria, havia sido no momento em que Luria havia sido tirada para dançar com Frederíca — Ele negou, então eu me irritei, ele se irritou, disse que só queria ir ver o jogo no andar de baixo e foi assim. Um pedido de divórcio por causa de uma dança. Bem, eu sei que não foi por causa da dança, enfim, mas foi assim.

— Vocês se falaram hoje? — Sofía perguntou, Carolina parecia tão triste.

— Falamos, demos bom dia. Você não é boa dançando — Disse, olhando para Angra que riu, tomando outro gole de sua Sangria.

— Não sou, não.


Mas havia dançado com Sofía mesmo assim, La Isla Bonita que tanto havia quisto dançar na noite anterior.


— Eu acho que a melhor decisão, é realmente se separar.

I agápi eínai éna synaísthima. Óchi apófasi — Kalinka disse terminando de raspar seu prato. Todas olharam para ela.

O amor é um sentimento. Não uma decisão — Sofía traduziu.

— Para. Você fala grego? — Luria deu uma risada empolgada.

— Ela fala, diz que não, mas fala — Angra beijou a mão dela carinhosamente, levando os olhos de Marcela naquele gesto.

— Eu precisava poder ensinar alguma coisa para essa garota, gente, fosse grego...


Seguiram com a tarde. Navegaram mais, com mais música tocando, encontraram um outro ponto para ancorar e irem para mais uma rodada de mar, de mergulhos, de flyboard e jet ski. Sofía nadou um pouco e passou um tempo com Angra, escondidas aqui e ali, ficando perto, querendo tocar uma na outra, como podia? Ter tanta vontade de tocar assim? Mergulharam onde era raso, quatro metros para baixo tentando alcançar o fundo de areia branca, os pés desaparecendo em direção ao fundo, agora Sofía já nadava, agora já não temia a água como antes, agora, pertinho do fundo, dava para sentir as mãos de Angra pelo seu corpo, sentir o arrepio que o toque dela causava e a vontade de...


Angra a pegou no fundo, o corpo de Sofía indo parar no colo dela, o azul-esverdeado da água do mar sendo cortado pela luz do sol, os braços enroscando pelo pescoço de Angra, um beijo longo, em forma de sorriso e um retorno tranquilo para a superfície, sem beijo, mas muito perto uma da outra. A vontade queimando tanto, os sorrisos abertos, olhos brilhando. “Parecia Abrolhos”, a ilha delas, Sofía sussurrou em algum momento, parecia Abrolhos e já não deveria parecer mais. E isso deixou Angra... Triste. Sofía sentiu que ela havia ficado triste, apesar de não ter sido a sua intenção. Adorava pensar em Abrolhos, lembrar do que elas tinham tido lá, mas entendeu a tristeza. Elas não deveriam mais estarem assim. Tendo que se beijar escondido, de segurar o relacionamento do qual tanto se orgulhavam, que não caberiam naquela conversa de casamentos em crise do almoço de forma nenhuma. Mas ainda assim, ainda eram uma crise. Não pelo relacionamento em si, mas sim por ainda estarem clandestinas.


Isso doía. Sofía sabia que doía.


Voltaram para o barco, Angra tinha ficado triste e Sofía achou que as sangrias tinham culpa nisso também. Fez um café para ela, bem quentinho com leite vaporizado, do jeito que ela gostava (a ponto de andar com uma vaporizadora portátil na mochila quando saíam para qualquer lugar em que fossem passar mais tempo). Ela sorriu, relaxou, mas quando Sofía voltou da cabine, ela tinha subido no mastro.


No mastro de cinco metros de altura. Estava sentada lá em cima, com os olhos perdidos no nada.


— O que aconteceu com a minha parceira de flyboard?

— Ah, Kali, eu disse uma coisa e ela acabou ficando triste.

— Uma coisa ruim?

— Uma coisa à toa, na verdade. A gente mergulhou para dar uns beijinhos e quando subimos, eu disse que estava parecendo Abrolhos, uma lembrança boa, mas ela refletiu que sei lá, cinco anos depois, isso não deveria mais acontecer.

— E não deveria mesmo.

— Eu sei que não, mas não queria ela triste. Você sabe que é diferente sem os olhos do Guilherme ou da Frederíca na gente, não queremos ferir ninguém, mas a gente gostaria de um tempo assim, como esse que estamos tendo hoje e... Enfim.


Kalinka olhou para cima.


— Você sabe que eu não tenho coragem de subir ali, né?


Sofía sorriu.


— É constatado até o presente momento que Angra Fernandes só tem medo de duas coisas: de voar, e de mudar.

— Sofía...

— É verdade, você sabe que é. É por isso que nós estamos nesta situação até então. Provavelmente, o melhor relacionamento daquela mesa na qual almoçamos é o nosso e ainda assim... Não é.

— Sofía, quando se tem essa probabilidade de ter encontrado a pessoa certa para tudo, não se abre mão.


E então, Angra desceu até a metade do mastro.


Linda, eu vou pular.

— Angra, por que, menina? Não pode só descer normalmente?

— Vou deixar a câmera aqui, acho que vai dar um fotão se eu pular...


Acharam que ela não fosse pular na verdade, mas quando menos perceberam...


Ela pulou. Em salto “anjo”, de cabeça e braços paralelos ao corpo, de biquíni preto, coragem indômita, Angra. Angra era assim. Saltou de três metros para baixo e mergulhou de cabeça no mar azul-esverdeado-cristalino.


— O que é que você costuma dizer mesmo? Ausência de medo também é um tipo de coragem. Ela vai resolver, Sofía e será um fotão também, viu?


Ela emergiu sorrindo, precisava mostrar para Sofía que estava bem, nadou para perto do barco e quando Sofía se inclinou, Angra a agarrou pela mão e pediu para ela pular, de um metrozinho só, levava só um pouco de coragem. Daí Sofía riu, tirou a bermuda, saltou para ela, era mais fácil saltar se era Angra quem estava lhe esperando no mar. Daí se esconderam no casco, daí se pediram desculpas, fizeram as pazes, um beijo escondido, fora da água e um abraço tão longo que Kalinka nem podia cogitar que Sofía realmente iria deixar aquela mulher em algum momento. Ela não queria deixá-la, ponto. Ela tinha parado de pensar no futuro, outro ponto, um ponto que machucava Angra demais.


O final da tarde caiu, dourado, bonito demais, Sofía decidiu fazer um bom café para todo mundo e Carolina viu Angra se isolando mais uma vez. Pegou seu café, beijou Sofía no ombro e foi sentar-se sozinha na lateral da embarcação. Pegou um café para si e foi para perto dela.


— Eu acho que... Fiquei com ciúmes de você ter outra garota... — Começou dizendo, num tom lúdico, arrancando um sorriso de Angra.

— Você ficou?

— Eu acho que sim, lembra que já tive ciúmes da Marcela, não é?

— Eu sofri tanto, meu Deus...

— Você só queria fazer as coisas com ela, ué.

— Estávamos trabalhando — Mais sorrisos.

— Não importa, eu senti ciúmes mesmo. Você sabe que, o dia inteiro de hoje, eu tenho lembrado de algumas coisas, pistas que você foi deixando durante a vida e que eu nunca tinha prestado atenção. Você sempre parecia tão entediada quando a gente desatava a falar de homem. Era como se... Se esforçasse para acompanhar. Só para acompanhar, não para participar ativamente. Entre outras coisas, outras situações, com o próprio Guilherme. Todo mundo queria namorar ele, você meio que foi no efeito manada, não queria sair com ele, ele estava apaixonado, querendo você e você nada, nem parecia interessada. E é porque você não estava. Eu achei que você só estava endurecendo o jogo, ele tinha fama de mulherengo, achei que estivesse o enquadrando, mas agora eu acho que talvez você realmente não estivesse interessada mesmo.

— Eu não estava. Mas fui gostando mais dele depois. Ele era tranquilo, não me prendia, não era grudento, ciumento, nada disso. A gente se via durante os finais de semana e estava bom, eu ainda tinha meu espaço, minha liberdade. Ele segue sendo um ótimo amigo pra mim. É paciente, me entende, me respeita muito. A gente teve aquele estranhamento no começo do casamento, mas depois que eu engravidei, nós encontramos um bom termo de convivência.

— Angra... Olha, eu estou entendendo tudo o que você está me dizendo, mas você e a Sofía... O que vocês vivem é um romance. Não é vida real. Vocês se vêm de vez em quando, a saudade deve fazer uma diferença enorme, se encontram num lugar fora dos problemas da vida real.

— Se você fizesse ideia das coisas que aquela mulher ali já passou do meu lado... Eu não fazia ideia de como que ia ficar quando tivesse que voltar da Colômbia com a Estela pequena e sem ela comigo. Você não faz ideia do que foi ter a mão dela na minha no nascimento da Estela, não faz ideia de que ela ficava acordada comigo nas madrugadas que o bebê não dormia e nem das horas que ela passou comigo, me acalmando depois de um surto num voo curto que eu tive que fazer há um tempo. Ela está no meu dia inteiro. Ela sabe o que eu faço, onde eu estou, me ajuda a manter o planner em dia, a organizar minhas coisas, eu não vou dormir sem falar com ela, eu não acordo sem falar com ela, eu acabo passando muito mais tempo com ela do que com você, por exemplo, que mora ali, na porta ao lado da minha. Eu não consigo explicar.

— Tenta, me explica mesmo assim. O que mais é tão diferente com ela?

— Eu nunca tive o nível de conexão mental que eu tenho com ela com ninguém na minha vida. A gente... Completa o pensamento uma da outra, se entende sem precisar falar, se entende só de olhar e a convivência... Sabe quando você reclama que não pode ficar muito tempo abraçada no Felipe que ele já quer outras coisas? A gente passa horas juntas na cama, horas abraçadas, só fazendo carinho sem nenhuma outra intenção, apenas conversando, apenas sentindo o apego, mexendo no cabelo, tocando na pele, sentindo o cheiro, sabe? E eu não tenho que me preocupar em estar enviando a mensagem errada, a mensagem está sempre certa. Tem muito tesão, você não faz ideia do quanto, mas tem apego tanto quanto, tem carinho, amorzinho, companheirismo, conversa.

— E o sexo?

— Olha, não tem nem como comparar muito... — Disse, fazendo Carolina gargalhar.

— Sério?

— Ah, Carolina, eu já gozei, sei lá, oito vezes num único dia, quatro vezes numa única cama, ela me faz gozar em um minuto se ela quiser. Ela conhece o meu corpo, eu conheço o dela, sou louca por ela, pelo beijo, pelo cheiro, eu nunca beijei tanto num relacionamento, nunca. É o beijo mais gostoso da vida, é o cheiro mais gostoso que eu já tive na cama e o jeito que ela causa estragos nas minhas calcinhas é um fenômeno que eu nem sabia que o meu corpo podia produzir...


Mais risos de Carolina.


— Aqueles probleminhas...?

— Esta relação aqui nunca viu um lubrificante na vida. É assim, sabe? E o jeito que ela cuida da Estela, que ela cuida de mim...

— Ela... Ela por acaso veio do Rio uma vez só porque você teve uma crise de asma?

— Você não estava, ela ficou preocupada e, ela estava fazendo o café na cozinha quando eu acordei. É assim, entendeu? Se eu preciso, ela vem. Se ela me precisa, eu vou.

— E por qual raio de motivo você não se separa de vez? Isso não é correto, você sabe.

— Eu sei e eu quero resolver, ela vai me deixar se eu não resolver. Mas a verdade é que... Eu nem sei por onde começar. O Guilherme não está bem, os negócios dele não vão bem, ele anda triste, passando mais tempo ainda fora de casa, eu não queria... Sair deste jeito.

— Mas se não sair...?

— Eu sei. Eu preciso resolver. Mas por hoje, eu já estou feliz de ter me resolvido com você. Eu nem acredito que acabei de falar com você sobre a Sofía...


Carolina a abraçou, bem longamente, muito apertado.


— Desculpa não ter dado segurança pra você me contar. E, falar neste assunto... — Ela não completou a frase, mas também não precisava. Kalinka estava bem ali, dançando com Sofía, do jeito que uma salsa deveria ser dançada.

— Posso te dizer uma coisa por experiência própria? Mais perigoso do que um homem charmoso, apenas uma mulher sedutora.

— Luria que o diga... — Mais risadas altas — Angra, aquela Frederíca, com o sorriso fácil, os braços tatuados, coitada da sua estrela dos números, sério...

— Fala pra mim, aconteceu alguma coisa?

— Até onde eu vi, nada fisicamente, mas eu já vi isso acontecer antes.

— Onde?

Abrolhos. Você e aquela menina linda ali.


Ela tinha razão.

Notas da Autora:


Olá!


Feliz Ano Novo! Espero encontrar tod@s bem, que tenham vibrado muito no positivo na virada de ano, 2020 finalmente ficou para trás e estamos aqui para começar uma nova jornada, muito melhor que a anterior, disso, eu tenho certeza!


E com o ano novo, capítulo novinho de Angra 😊.


Eu comentei que neste capítulo teríamos um pouco mais da mente de Frederíca e apenas agora percebi que talvez, tenha demorado um pouco demais. Por outro lado, acho que Frederíca é uma das incógnitas desta história e acho válido também estarmos a conhecendo assim, um pouco de cada vez ^^.


O que acharam de Angra e Sofía neste capítulo? Aliás, tivemos algumas conversas relevantes durante o capítulo, e quero saber o que acharam a respeito também! Angra é uma história de discussões e espero que estejam curtindo esse formato.


Ansiosas para o próximo capítulo?


Então, vamos lá! Temos algumas prerrogativas rolando.


Tod@s já puderem ler “4 Contos para se Ler Sorrindo” na Amazon?


Se você leu, te convido a participar da meta de 50 avaliações do livro para liberarmos 2 capítulos de Angra na sexta-feira, o que acham?

Acharam legal? Avaliem mais, porque se chegarmos a 80 avaliações, teremos mais uma rodada de capítulos duplos na próxima sexta-feira, podemos contar com vocês?


Link para o livro: https://www.amazon.com.br/dp/B08R9PCYTN


E, nosso combinado básico de sempre, para que tudo isso aconteça, precisamos de 50 comentários no capítulo de agora!


Próximo, capítulo 13, “Erupções”, prontinho para a leitura de vocês!


Beijos!


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Grupo muito amorzinho no Whats’App, para quem quiser conversar sobre as histórias assinadas por Tessa Reis, quem tiver interesse, basta clicar aqui:


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