Angra - Capítulo 15: Ilhas Oceânicas




Às vezes, o espaço para o sofrimento simplesmente inexistia.


Era uma das coisas que Sofía temeu desde o começo daquela viagem, ficar sem um espaço que fosse para chorar, porque não estava bem, sabia que não estava, estava frágil demais, com os sentimentos bem despedaçados e antes de embarcar, sua frequência de choro deveria contar dois ou três pequenos choros esporádicos durante o dia. E um maior durante o banho. Então que estava indo para uma casa cheia de gente, onde dificilmente teria qualquer privacidade, e...


Bem, lhe preocupou. E agora a preocupação se mostrou pertinente.


Subiu com o café da manhã para Frederíca, o mais rápido que conseguia, entrou no quarto, entregou a bandeja para ela e sem dizer uma palavra, passou direto para o banheiro. Se falasse, choraria, sabia muito bem disso.


Frederíca notou, franziu as sobrancelhas.


— Sofía?


Ela não respondeu. Mas uma mensagem chegou em seu celular. “Vou tomar banho para me arrumar”. Frederíca tinha plena certeza de que ela já havia chegado arrumada, mas ok. Viver com uma ilha vulcânica era dar espaço nos primeiros sinais de sismo. Provou seu café, ouviu a banheira enchendo e logo em seguida, uma música começou a tocar.


A ilha estava isolada.


Estar com Angra tinha dado a Sofía a habilidade de esconder sentimentos dentro de casa, algo completamente novo, pela qual nunca tinha passado. Sempre achou interessante a origem latina para o verbo “casar”, que dá origem aos substantivos “casa”, “casal”, “casamento”. Nas línguas latinas, quase não se utiliza “lar”, que é a palavra que dá origem nas línguas anglo-saxões, como inglês e alemão, a “house, home”. “House” e “home” são traduções utilizadas para se referir a “casa”, “lar”. “Lar” é onde moramos com nossa família, nossos pais, mas de alguma maneira, nas línguas latinas, tudo isso virou sinônimo de casamento. Na cultura latina, o casamento é a origem de se ter uma casa, que de certa forma, pensada assim, só pode se ter em casal, e uma casa é território partilhado, onde privacidades não são bem aceitas. É a mesma questão quando os filhos pedem privacidade aos pais, se passa boa parte da vida querendo sair de casa para se ter mais privacidade e de repente, a cultura latina incentiva que só se saia de casa “casado”, e o ciclo de ausência de espaço pessoal permanece.


Latinamente, espaço pessoal não é bem-vindo em casamentos. De maneira escandinava, espaço pessoal é o que mantêm casamentos felizes.


Mas na primeira vez que Sofía falou a respeito disso com Frederíca, ela lhe mandou se casar com uma dinamarquesa.


E desde então, não pedia mais por seu espaço, simplesmente o pegava para si, quando precisava, saía de casa, se trancava no banheiro, no quarto, em qualquer lugar que pudesse ficar sozinha e, chorar sozinha. Era o que havia feito agora, trancou a porta, colocou uma música, a banheira para encher e deixou o choro vir, com os olhos no mar lá fora, no dia bonito que tinha limpado novamente, chorou buscando uma calma por dentro, qualquer restinho de calma, de discernimento, precisava, precisava desaguar tudo ali, porque não poderia ficar trancada tanto tempo.


Chorou na banheira, sentindo seu corpo inteiro quente, vermelhando por conta de seus batimentos acelerados, estava trêmula inteira, com a respiração atrapalhada e, só queria ir para qualquer lugar, onde pudesse se trancar num quarto por tempo indeterminado até tudo aquilo passar. O que faria? Separaria de Frederíca e iria pra onde? Não tinha uma casa, a casa que tinha estava alugada num contrato de mais um ano e já sabia que não queria ficar em Cartagena. A grande verdade é que queria morar em Brasília, perto de Angra, perto do interior de Goiás pelo qual era tão apaixonada, nem queria morar com ela, essas coisas levam tempo, mas ao menos morar perto, a ponto de poder buscar Estela na escola uma vez e outra, e levá-la para brincar em algum lugar. Mas agora não fazia sentido algum. Porque não podia simplesmente ir para Brasília e ter que assistir Angra pousando ao lado do marido, como que eternizados em seus bonecos de bolo de casamento, felizes, intocáveis, perfeitos.


Não cabia mais. Não era o tipo de coisa que podia suportar, estar perto dela e ainda assim, escondida com ela, não era este o plano, nunca havia sido, porém, precisava de um lugar para ficar, precisava decidir se voltaria para o Rio, ou se tentaria outra cidade, mas entre essa decisão e a cura que precisava, achou melhor passar três meses em outros lugares. A cura para todas as coisas é água salgada, mergulhar em três mares diferentes deveria resolver e, lhe daria ótimas oportunidades de trabalho. Tinha dinheiro para isso. Para isso e para se estabelecer bem, tinha se estruturado para uma mudança, só não achava que seria uma mudança assim. Chorou, chorou mais, a ponto de preocupar Frederíca do lado de fora.


Terminou seu café e ficou na porta do banheiro, se perguntando se deveria bater. Vai que Sofía tivesse descoberto da noite anterior. Frederíca pegava no pé de Angra por ela se preocupar tanto com a imagem do seu casamento, mas tinha teto de vidro quando se preocupava com a mesma coisa, detestaria um escândalo. Presencial ou Instagram. Daí se perguntou quando Sofía já tinha dado um escândalo, não fazia sentido. Mandou outra mensagem, perguntou se tudo estava bem, ela respondeu dizendo que estava e Frederíca disse que ia tomar banho em outro lugar. Fez isso, pegou as coisas que precisaria e quando ia saindo do quarto, tropeçou na mochila de Sofía. O Moleskine caiu e abriu numa página marcada.


Sofía desenhava muito bem e naquela página, tinha três desenhos de ilhas oceânicas diferentes e bastante emblemáticas:


As escadarias de Hvar, cheias em seus degraus das pequenas lojas de vinho, incrustados em pedras que levavam ao Mar Adriático; Porto Flavia na Sardenha, imponente sobre o Mar Mediterrâneo e, as escadarias infinitas de Santorini sobre o Mar Egeu, esta era impossível de ser confundida. Tinha datas, estimativas de tempo em cada lugar, oportunidades, três meses fora. E antes de procurar onde tomar banho, Frederíca procurou por uma península ibérica chamada Angra Fernandes.


A encontrou limpando seu carro, que nunca parecia estar limpo suficiente.


— Foi expulsa do quarto? — Frederíca estava com tudo o que precisaria para tomar banho nos braços. Seria tão bom se tivesse sido expulsa, tão bom, Angra nem sabia explicar o quanto seria.

— Sofía se trancou no banheiro e eu tenho certeza de que ela tomou banho no iate antes de vir pra cá, ela não sai da cama sem tomar banho.

— Ela... Tomou banho mesmo.

— O que aconteceu? Alguém fez alguma coisa, você fez alguma coisa?

— Eu?

— Qualquer coisa que tenha a chateado a ponto de fazê-la chorar! Ela fica muito envergonhada quando chora, você sabe se ela falou com alguém? Sabia que ela quer viajar? Que vai se separar de mim e se enfiar em ilhas oceânicas por meses? Quanto de você tem nessa decisão? Você está apoiando, incentivando...?

— Eu soube hoje de manhã! Me causou isso aqui, tá? — Mostrou o curativo na mão — Eu não sabia disso também e, são ilhas que ficam em mares, não sei se pode chamar de oceânicas...

— Sabia que os oceanos eram chamados de sete mares antigamente e que em virtude disso, todo mundo hoje ainda fica conferindo mares e eles sempre passam de sete? Nem tudo é o que parece. Ou tem um nome que reflete. E, eu estou falando do meu casamento e do seu. Olha, eu vou achar um quarto para tomar banho e me arrumar, porque se a Sofía descer mesmo chateada, vai descer a coisa mais linda e, eu ainda estou do lado dela.


Angra processou e apenas respirou fundo enquanto ela se afastava. Sua relação com Frederíca nunca havia sido ruim, muito pelo contrário, havia um jogo de soma não zero que ninguém gostaria de admitir, mas havia. Como os seis meses que Sofía cuidou de Angra e Estela em Cartagena e assim, Frederíca teve o pretexto perfeito para passar todo este tempo sozinha na Espanha. Não julgava, quem era Angra para julgar, porém, o comportamento dela estava começando a simplesmente... Lhe irritar. Não achou que seria tão difícil ouvir certas coisas e falando nisso, avistou Carolina. Deixou seu carro e foi falar com ela.


— Vem cá, o que você disse pra Sofía?


Ela resumiu o que havia dito, sem aumentar e nem omitir parte nenhuma e Angra... Não estava acreditando.


— Você disse tudo isso pra mulher que eu amo? É claro que ela está magoada...

— Eu não disse nada que ela não saiba, Angra.

— Sabe qual é a pior parte disso tudo? É não poder ir lá! Subir atrás dela, saber como ela está, se está furiosa comigo, se está muito magoada, se está chorando, caramba... Isso tudo... Eu não aguento mais, sério. Eu não tinha ideia de que esta situação ia ficar tão difícil.

— Angra, deixa eu te falar, ela gosta mesmo de você, eu não preciso te dizer isso, ninguém precisa. Mas eu te conheço. Você sonhava com um casamento desde os oito anos de idade, cada cara que você conhecia, você queria se casar, lembra? Falava disso o tempo inteiro, trocava de namorado porque não achava que ia dar em casamento e sempre ia para o próximo pensando nisso.

— Ou talvez trocasse tanto de namorado por outros motivos, mas isso não vem ao caso agora.

— Não vem mesmo. O que vem é que você precisa terminar essa situação de vez, porque está lidando com alguém que realmente gosta de você, eu te conheço, você não vai para lugar nenhum além daquele que definiu lá atrás, quando se casou com o Guilherme.


Angra olhou para ela.


— Você só me conhece até certo ponto. O resto, ainda é desconhecido até para mim mesma. Não fala mais com a Sofía. Os seus achismos. Ela não precisa ouvir. Nem eu preciso. Guarda pra você.


Pareceu levar uma eternidade inteira. Frederíca apareceu, impecável, de biquíni branco, short jeans curto, camisa de botões aberta, com flores havaianas, os cabelos desgrenhados e arrumados, o efeito que ela conseguia e uns cinco minutos antes do almoço, Sofía desceu. Com um maiô maravilhoso, preto, com faixas transpassadas que percorriam pouco abaixo dos seus seios, davam uma volta e terminavam na parte baixa de sua cintura, o short de tecido preto, o Kimono aberto perfeito por cima, azul-mediterrâneo, que lembrava Angra tanto do que Frederíca, como do que Carolina tinha feito questão de contar.


O que Sofía pretendia. Claro que Carolina contou.


Ela mal lhe olhou, mas a verdade é que mal olhou para todo mundo que estava na mesa. Almoçaram na área da piscina, um churrasco delicioso e Sofía seguiu com o olhar baixo, observando qualquer coisa no celular e Angra desconfiava que ela estava segurando o que podia para não desabar na frente de ninguém. Sabia muito bem que Carolina era afiada quando queria, o suficiente para magoar, a questão era por quê. Por que tinha sido tão afiada com Sofía? Bem, desconfiava o motivo. Carolina, decidida a se separar, já estava aos beijos com Felipe novamente, como se nada houvesse acontecido. Ela já não estava interessada em parceria no time daquelas que queriam se separar.


O almoço acabou e Sofía sentou-se na piscina, com seu livro atual. “This Is Me Letting You Go”, era o livro que Frederíca andava lendo e que emprestou para Angra. E enquanto todo mundo estava correndo para pegar as coisas para o passeio de iate, Angra viu uma brecha. Passou para a área da piscina e, discretamente, encostou a porta de acesso.


Sofía apenas a olhou. E estava explicado o motivo de ela não estar olhando para ninguém. Os olhos dela se encheram imediatamente.


— Angra, por favor, eu não quero falar...

— Como que você não quer falar, Sofía? — Angra sentou-se à frente dela — Você está irritada comigo, temos que resolver.

— Eu não estou irritada com você, estou... Triste. Com a situação inteira, porque... — Duas lágrimas grossas rolaram pelos olhos dela e apertaram o coração de Angra imediatamente. Não podia tocá-la, limpar as lágrimas, não podia nada. Seus próprios olhos molharam — Olha, não é porque eu sei, que eu gostaria de ouvir e nem porque eu tenho certeza, que eu realmente acredito... — Ela disse, deixando outra lágrima cair e Angra nem sabia.

— É cena de “Maiorca”. Quando a outra leva a menina até o aeroporto e acredita que ela não vai mesmo embora.

— É, é parecido — Sofía limpou o rosto.

— Se você sabe que não é verdade, por que está se importando, linda? Se você sabe que não é verdade porque está planejando sair por aí, ir embora por meses, para essas ilhas que ficam tão longe? Caramba, amor, isso, isso... — Lagrimou também — Está acabando comigo, eu senti um frio na espinha desde quando li e ainda não consigo entender o motivo disso...

— Eu vou pra onde quando eu me separar, fala? Eu ainda não tenho pra onde ir, não consigo decidir onde vou ficar, então, decidi trabalhar fora enquanto isso. Vou pegar o trabalho da Estrada Real e depois eu vou ficar fora, até me entender, até me encontrar.

— Sofía, a gente combinou que você ia pra Brasília...

— Como da última vez? Eu tive que sair de Brasília e voltar para Cartagena porque você não conseguiu cumprir a sua parte. Faz cinco meses hoje. Eu fiz tudo, eu me separei, saí de casa com uma única mala e fui, peguei um Airbnb, passei um mês inteiro indo atrás de apartamento, procurando oportunidades para trabalhar e... Nada. Nada aconteceu.

— Eu já expliquei pra você que o momento era complicado! Sofía...

— Complicado? Eu saí de casa, da minha cidade, de outro país para que a gente pudesse ter uma chance, dentro do tempo que você mesma já tinha atrasado um ano, e você vem me dizer que era um momento complicado? Ah, claro que era, sair do melhor casamento, com o melhor homem possível, é de fato, um momento complicado, eu nem sei como eu existo aqui! Me explica, eu não consigo entender, como é que eu vim parar aqui? Não com você, mas... Nesta situação? — E a situação era com sua esposa dormindo com outra na casa em que ambas estavam, enquanto Sofía fazia o mesmo num iate com uma mulher casada — Eu só preciso... Eu nem sei. Vou sobreviver hoje, tentar não chorar na frente de ninguém e acho que vou embora amanhã...

— É seu aniversário. É claro que você não vai a lugar nenhum — Angra limpou o rosto outra vez, como é que voltaria para dentro daquela forma? — Me perdoa pela bagunça anterior. Eu não vou falhar novamente, eu só preciso de...

— Mais tempo? Nós não temos mais tempo, nem eu, nem você. Você está a ponto de ser descoberta, já que decidiu nos enfiar numa casa cheia de gente, e eu preciso recomeçar. Tudo de novo, a minha vida, a minha carreira, encontrar um lugar para morar, decidir que sonhos eu quero ter, se ainda quero ser mãe, se não, as implicações disso tudo, enfim. Eu tenho que recomeçar. E eu não vou conseguir estando a só algumas horas de voo de você. Não bastaram oito. Nem isso separou a gente — Outra lágrima — Eu preciso achar um outro sonho pra mim.


Outra lágrima de Angra. O coração apertando inteiro.


— Por que isso hoje? Do nada?

— Não do nada, a gente apenas não falou disso.

— Porque você entrou num avião e não me disse nada, apenas foi embora. Me fez encontrar um apartamento vazio — Angra soluçou, aquilo ainda doía muito.

— Eu também o encontrei vazio quando cheguei. Você deveria estar lá.


Silêncio. Angra respirou muito fundo, chorar com asma era a pior das combinações.


— Quanto tempo você vai passar nesse projeto da Estrada Real?

— Angra...

— Quanto tempo?

— Vinte dias no máximo. Eu vou ter parceria, uma outra blogueira...


Os olhos se encontraram.


— Nem você acredita que eu vou falhar novamente com a gente.

— O que eu acredito ou não, já não importa muito. Angra, eu só... Tentei te deixar devagar, um pouquinho de cada vez, mas é impossível. Eu não consigo. Você é como... O meu coração batendo fora do corpo — Mais lágrimas — Eu amo... Quatro pessoas neste mundo. Eu não tenho mais a minha família, pai, mãe, irmão, os outros parentes são conhecidos, pessoas que eu ouvi falar, que converso de vez em quando. Mas que eu não amo. Eu amo a Kalinka, amo a Frederíca, ela é extremamente importante pra mim e eu não quero perdê-la e, amo você e a Estela. Mas preciso aprender a amar a distância.


E havia quem estivesse observando a conversa da entrada da sala.


— Eu disse pra você que a aproximação ali é estranha — Era Marcela conversando com Eduardo — Foi assim o tempo inteiro, essa proximidade, esses olhares, esse clima aí. Lembra de quando eu te disse que achava que a Angra estava com alguém em Paris? Era com a Sofía, eu descobri ontem...

— Você acha que...? — Eduardo abriu um sorriso.

— Olha para essas outras mulheres aqui, você diria? Angra sempre foi meio esquisita, eu falo pra você...


Guilherme ouviu isso. Luria também.


📚


Finalmente, chegaram até o iate. Em quatro carros desta vez e esta foi apenas uma das diferenças em relação à tarde anterior, que tinham tido naquele mesmo iate. Angra levou mais um tempo na piscina e conseguiu retornar, pondo toda culpa do mundo na sua crise de asma, Sofía apareceu depois, de óculos escuros e foi direto ficar com Kalinka. A abraçou forte e ela lhe apertou pela cintura, nem precisava perguntar nada, apenas sabia de tudo.


— Você vai passar esta tarde com a sua melhor namorada, tá? Ou seja, eu mesma...


Só Kalinka para lhe fazer rir daquele jeito. Foi no carro dela, conversando qualquer coisa, distraindo a mente um pouquinho e, quando chegaram no iate, passaram direto para a cabine de comando, Kalinka tinha dispensado o capitão novamente, conseguia ir a quase qualquer pedacinho de mar da costa do Rio de Janeiro, era como seu quintal, e outra festa começou a acontecer.


Uma festa muito diferente da acontecida no dia anterior, até o som das risadas parecia diferente, Sofía sequer conseguia explicar. Marcela e Eduardo tinham feito as pazes e pareciam fazer questão de ressaltar que estavam em lua de mel, tal como Carolina tinha apagado da mente todos os problemas e estava no mesmo estado. Marianne e Erica seguiam ótimas juntas, sempre num clima muito bom, com muita tranquilidade, as crianças estavam simplesmente apaixonadas pelo iate, indo de um lado a outro, querendo conhecer tudo e Luria não viu problemas de ser guia dos quatro pequenos marinheiros que estavam empolgados demais. Kalinka os levou até uma praia reservada, onde poderiam descer tranquilamente e, ela tinha alugado algo novamente.


— É sério?

— Me diz se não é a coisa mais legal que você já viu?!


Era uma boia gigantesca, que mais parecia uma cama elástica, onde as crianças podiam brincar, pular, deitar, fazer o que bem entendessem, e é claro que os adultos adoraram também. Colocaram atrás do iate e foi um verdadeiro evento, as crianças amaram, os adultos viraram crianças e Kalinka se deu conta de que a festa estava diferente com os homens e as crianças, mas nem era isso que estava de fato fazendo a diferença: o que estava faltando, eram a inteligência e as boas histórias de Angra, Sofía e, Frederíca.


Ela não estava bem e isso tinha pouco a ver com a crise de asma. Frederíca simplesmente não estava presente, não estava nas rodas de conversa, apesar de participar sorrindo sempre que era solicitada. Ela estava mais quieta, mais reservada, tinha trazido seus cadernos e a todo momento anotava algo, fotografava, ou apenas pensava. Os olhos caíam em Luria de vez em quando e então, caíam em Sofía e lá pelo meio da tarde, numa recorrência que Sofía conhecia bem, ela veio para perto.


Pedindo para ficar junto, para falar do que ela estava rascunhando, era uma ideia nova, de uma história nova, queria mostrar os desenhos, as anotações e o sorriso que Sofía trocou com Kalinka só queria dizer que, na verdade, Frederíca estava precisando de sua atenção e do seu carinho. Era uma mistura de arrependimento com Síndrome da Impostora que nunca mudava.


— Eu me sinto muito mal — Ela confessou, no final.

— Está perdoada já.

— Mas você não sabe o que aconteceu...

— Eu sei sim — Sofía abriu um sorriso — Sabe? Um sinal de que estamos tomando a decisão correta é este, eu sei e está tudo bem.


Ela ficou quieta um instante.


— Para quem eu vou mostrar os meus cadernos?

— Para mim. Para a namorada nova, porque eu espero que você se relacione com alguém que admire o seu trabalho, que entenda o quanto você é talentosa — Disse, com os olhos em Luria lendo “Santorini” logo ali, enquanto uma mini rave acontecia — Tem coisas que não precisamos mudar.


Silêncio. E:


— Tô com medo.

— Eu sei — Sofía riu, a abraçando muito apertado, tinham praticamente a mesma altura, mas tal como Angra, Frederíca dava um jeito de se apequenar e caber em seus braços — Está tudo bem. Nós vamos ficar bem...


E tudo isso, queimou nos olhos de Angra.


Estava muito difícil passar por aquela tarde.


Havia começado, inclusive, ainda dentro do carro, Guilherme havia feito questão de virem sozinhos e a conversa foi bem complicada. Ele estava irritado, chateado, falou sobre algo que tinha ouvido de Marcela, algo que aconteceu no dia anterior e tudo o que Angra não precisava, era ter aquele tipo de conversa naquele momento.


Guilherme estava chateado e com razão. A lista de queixas ia de coisas básicas como a sua desatenção, ela estava desatenta novamente naquele exato momento em que ele estava tentando falar com ela, até coisas mais desconfortáveis como a cobrança dele em relação ao seu comportamento.


— Você não pode me comprometer assim, está bem? Não pode deixar que os outros fiquem dizendo coisas sobre você...

— Que coisas você ouviu, afinal? Quer me dizer claramente?

— Você sabe muito bem o que eu devo ter ouvido! Dessa sua situação aí que eu prefiro nem saber. Eu dou tudo o que você quer...

— Como se você não quisesse uma noite sozinho com o Felipe e o Eduardo, não é?!

— Uma noite de homens, sem eu desrespeitar você na frente de todo mundo! E você? O que fez na sua noite?

— Quer ter essa conversa aqui, né? Na frente da Estela, é claro, porque eu quis te contar mais cedo e você fez questão de ignorar, como vem ignorando todas as minhas tentativas de conversa nos últimos seis meses!


Ele parou o carro, tinham chegado.


— Ninguém sai deste casamento. Se é o que você quer conversar novamente, não, eu não estou interessado. Mas quero que você me respeite.


E dito isso, Guilherme não lhe deu um segundo de espaço dali pra frente. Ele se acalmou depois, disse que detestava ouvir alguém falando de Angra, que ele nunca permitiria e que podiam encerrar aquele assunto simplesmente ficando juntos, passando um tempo na companhia um do outro, coisa que ainda não havia feito desde o começo daquela viagem. Ele estava certo. O que estava errado era Angra não poder ter nem um segundo para conversar com Sofía.


Bem, até conseguiu um segundo, quando Guilherme foi nadar um pouco com Estela, que queria ir para o mar e Frederíca decidiu se isolar sobre a boia coletiva, finalmente abandonada no final da tarde, porém, Sofía não estava disponível. Ela se isolou, se envolvendo numa conversa com Marcela, Eduardo, Erica e Marianne, algo que ela, com toda certeza, não tinha nenhum interesse, mas que lhe protegeria de uma abordagem de Angra e isso... Só lhe deixou muito triste.


Foi para trás do barco, se afastando das risadas e da mariscada que estava acontecendo, viu Frederíca com os olhos no céu, tocando a água do mar de vez em quando enquanto pilotava seu barquinho de controle remoto (outro sucesso entre as crianças). Viu sua Estela rindo com o pai, ela era completamente apaixonada por ele. Guilherme tinha descido com Julia também, mas nada se comparava ao jeito que Estela ficava feliz só de estar brincando com o pai. Seu marido era o tipo que levava presentes de Dia dos Namorados para Angra e para Estela, desde quando ela era muito pequena e não entendia coisa alguma, só sorria, amava, se apegava àquele pai, que surpreendentemente, indo contra tudo o que Angra temia, tinha se tornado um tipo raro de presença paterna. Angra via Eduardo, via outros pais e não enxergava em nenhum deles metade da dedicação que Guilherme tinha com Estela.


Precisava ser justa: marido devedor, pai com pontos extras.


E isso tinha uma duplicata de valor altíssimo para Angra. Se as coisas dessem muito errado em sua separação, era uma questão de optar sobre quem pagaria o preço: se seu coração, ou a própria Estela.


Sofía havia lhe dito algo seis meses atrás. Se Angra perdesse Estela, ela perdia Estela por tabela e não havia nenhum lado disso que não assombrasse Angra todos os dias. E nem Sofía. Ela sofria com isso também.


E enquanto pensava nisso, alguém sentou-se ao seu lado. De biquíni, boné, tomando algo que parecia...


— Sprite?

— Eu não estou bebendo nada alcoólico hoje — Luria respondeu sorrindo — Angra, eu preciso falar um negócio, eu vou ficar louca se não falar com ninguém e só tem você e a Marcela aqui que eu conheço bem, e a Marcela, você sabe, ela é meio tradicionalista em algumas coisas...

— Nascida e criada na sociedade mineira tradicionalista, sim, eu sei sim — Abriu um sorriso — Aconteceu alguma coisa? — E automaticamente, Angra ficou preocupada. Tinha um instinto de proteção com Luria desde o começo, ela era mais nova, mais susceptível, sensível, apesar de não parecer e o que já tinha passado na vida, a tornara meio retraída em algumas situações — Alguém desrespeitou você ou algo assim?

— Na verdade, eu desrespeitei alguém.


E muito vergonhosamente, Luria resumiu para Angra o que tinha acontecido. A atração inesperada que sentiu assim que viu Frederíca, então as conversas que evoluíram nos dias anteriores e relatou o que tinha acontecido na noite em que Angra e Sofía deixaram o restaurante mais cedo.


— Nós estávamos conversando muito, ela ouviu sobre o meu trabalho, se interessou, depois me falou do trabalho dela, me mostrou as capas dos livros e me resumiu sobre a história de cada um. Me explicou o motivo de todas as suas protagonistas terem nomes de ilhas e me disse que... É casada com uma ilha vulcânica belíssima, exótica e sem istmo.


Angra sorriu ao ouvir esta parte.


— Como uma ilha do Havaí.

— Foi a exata comparação. Então, que começou a tocar uma música, La Isla Bonita, sabe?

— Aff, essa Frederíca...

— Eu sei, eu nem acredito que caí em tudo isso — Admitiu sorrindo — Mas veja bem, ela me tirou para dançar e no final, me chamou de Isla Bonita e me levou da pista de dança. A gente se beijou em algum lugar. Eu tinha bebido, e é sério que eu nunca tinha sentido nada parecido, um tipo diferente de atração, sabe? Uma coisa na pele, dentro de mim, em ondas cerebrais, eu nem sei explicar, mas é o tipo de coisa que não cabe dentro da gente. É como se viesse...

— Do seu core — Era algo que Sofía sempre lhe dizia. Que sua atração por Angra tinha vindo do core, como se algo tivesse vivo dentro dela, não permitindo se manter guardado.

— Exatamente — Outro sorriso — Eu senti assim. Eu me perguntava como seria, sabe? Ficar com uma mulher, queria provar ao menos uma vez antes dos trinta.

— Faltam quinze dias.

— Isso — Mais sorrisos, apesar de ela estar claramente envergonhada — Daí que no meio desses beijos, eu lembrei da Sofía. Putz, a Sofía. Gentil, atenciosa, cuidando do Bernardo como se ele fosse a Estela. Então eu parei, ela parou, parecia que ela tinha se arrependido imediatamente. Mas como a coisa vinha pelo core, ela não conseguiu segurar também. Nos desculpamos e eu me senti enjoada, ela me levou até o banheiro e eu acho que me machuquei de nervosismo, sabia? De... Estar perto dela. De a gente ter se beijado. Eu me sinto muito boba dizendo essas coisas, mas é verdade, eu me senti assim. E então, Sofía foi um amor quando eu cheguei e ela me deu “Santorini” de presente e eu nunca tinha lido nada que...

— Falasse tanto com você, eu sei. Está em qual parte?

— Capítulo vinte já e isso porque não tive muito tempo, ou já teria terminado. Ela é fantástica, sensível, a história é linda e eu me sinto a protagonista, perdida, querendo um rumo, querendo me descobrir e ontem à noite... Eu acho que me encontrei. Se vinha do meu core, tomou conta do meu corpo, que simplesmente, sabia o que fazer, sabia o que queria e agora eu tenho comigo uma sensação maravilhosa, de uma noite diferente de tudo e uma sensação horrível de traição e deslealdade.


Angra respirou fundo.


— Eu entendo você muito bem.

— Desculpa a intromissão, mas você e a Sofía...?

— Há uma paixão. Uma atração de core sim, mas...

— Você é mais forte do que eu.


Angra tinha uma enorme curiosidade em saber por que as pessoas lhe presumiam tanto.


— Ela ignorou você o dia inteiro? — “Ela” era Frederíca, Angra estava a vendo distante.

— Na verdade, acho que estamos mais envergonhadas uma com a outra mesmo.

— Vai ser pior se ficar um clima.

— Você acha que...?

— Vai lá falar com ela, sobre como está se sentindo, sobre o que quer e o que não quer que aconteça mais, o mundo fica muito mais simples quando falamos às claras.


Ela pensou um pouco, e simplesmente mergulhou, com boné e tudo. Emergiu, virando seu boné, passou por Guilherme, pegou seu príncipe que tinha descido para brincar também e, saiu nadando em direção da boia onde estava Frederíca. E mal o lugar esfriou ao lado de Angra e Carolina o ocupou.


— Vocês brigaram, né?

— Este verbo está bem amplo e aplicável hoje.

— Você e o Guilherme.

— Discutimos. Pergunta: você tem ideia do que eles fizeram ontem à noite?

— Ah, Angra, coisa de homem, na verdade, eu nem quero saber. A gente tinha meio que separado, lembra?

— Lembro, quem aparentemente esqueceu foi você.

— Angra, não começa, eu estou bem, estou feliz...

— Feliz com o quê? O que mudou de ontem pra hoje?

— Você não pode me embarcar no seu mau humor.

— E você pode me embarcar na sua felicidade instantânea? Me deixa, vai, eu acabei de ter dez minutos de solitude.

— Lembra que eu te perguntei se você era feliz antes de a gente vir pra cá?

— Agora eu não sei mais. E nem se existe felicidade em estado permanente.


E lá na frente, Luria alcançou a boia de Frederíca.


— Ei, Tarzan! — Ela o recebeu sorrindo, o ajudando a subir e em seguida, fez o mesmo com Luria. Delicada, educada, gentil. Qual a necessidade? Luria nem sabia.

— Você quer brincar sozinha! — Ele disse, com um sorriso lindo no rosto.

— Engano seu, eu nunca quero brincar sozinha, na verdade — Frederíca beijou os cabelos dele e cruzou os olhos de Luria.

— Eu quero navegar! — Era o barquinho de controle remoto.

— Aqui, príncipe, mas não pode levar ele pra longe, está bem?

— Não vou levar! Eu cuido dele, eu cuido!


Frederíca sorriu, o beijando novamente e entregando o controle para ele.


— Pronto, capitão, todo seu.


Bernardo foi brincar pela boia e, Luria sentou-se ao seu lado, em silêncio. Um silêncio a ponto de ficar engraçado.


— Não vai me dizer nada?

— É que... — Luria abriu um sorriso muito envergonhado, olhando pra frente — Eu estou me sentindo meio vagabunda, sabe...


E Frederíca caiu no riso.


— Ah, não, por favor, depois de ontem? Eu aceito a culpa, mas não quero que você se sinta assim.

— Você está triste hoje.

— Estou, mas é porque tudo é muito triste. Sofía e eu estamos nos separando e não é fácil, eu tenho medo de ficar sem ela.

— Eu não sabia que...

— Eu sei, teria ajudado você a não se sentir tão mal, né? Mas é difícil pra mim admitir que estamos nos separando, eu sei que precisamos, mas... Nós moramos fora. Construímos as coisas em outro lugar. Você não quer ficar sozinha num país que não é seu.

— Não fica. Ou não fica neste país ou, não... Fica sozinha.


Frederíca olhou para ela. E trocaram um sorriso.


O sol começou a cair e era hora de voltar. Para o barco, para perto do ancoradouro, podiam fazer o jantar durante o caminho, Guilherme se propôs, Saadi e Marcela também foram para ajudar, o clima bom de festa seguia, agora mais tranquilo com a chegada da noite, música mais tranquila e Angra só conseguia pensar nas diferenças com a noite anterior. E o quanto que as pessoas mudavam ao lado dos seus parceiros, deveria ser algo a preocupar. Trocou um olhar com Sofía, ela parecia mais calma e estava conseguindo lhe olhar nos olhos novamente. E então, que no meio de toda a movimentação na cozinha, de crianças indo e saindo do banho, de taças de vinho e risadas, seus olhos pegaram Carolina indo para a cabine de comando.


Sério que ela tinha ido? Tinha.


— Tem algum aviso de “não fale com o motorista”, ou...? — Ela entrou perguntando, trazendo uma bandejinha com...

— Tapioquinha? Não brinca!

— Com aquela geleia de blueberry que você trouxe, elas estavam desaparecendo rapidamente lá do balcão... — Disse Carolina.

— Quem fez?

— Eu, sobrou meio pacote ainda de ontem, mas sério que desapareceu muito rápido quando eu comecei a fazer. Estamos longe ainda?

— Mais vinte minutos no máximo. Curtiu o passeio de hoje?

— Curti sim — Sentou-se ao lado dela enquanto Kalinka pilotava.


Tinha curtido, mas tinha sentido falta de estar com Kalinka também.


Tudo pareceu passar diferente naqueles vinte minutos até o ancoradouro e então, na meia hora durante o jantar. Angra tomou um banho longo, trocou de roupa e quando saiu do banheiro, encontrou Sofía no quarto. Ela estava arrumando a mochila para quando desembarcassem e, não se disseram nada, nem uma coisa verbal. Apenas se olharam, apertaram os lábios, e:


— Vem jantar, vem — Sofía pegou e apertou os dedos de Angra, a levando para fora.


Jantaram em paz e todos pareciam mais leves. Angra sentou-se ao lado de Guilherme, Sofía ao lado de Frederíca, configuração original e quando ancoraram e se deram conta de que havia um casal se beijando na proa, houve um alvoroço.


Porque era Erica e Saad, e aquele beijo, de repente, fez parecer que tudo realmente estava no lugar que deveria estar. Que não era o lugar ideal, mas era ao menos um lugar de paz.


Retornaram pra casa, Guilherme deu uma desviada no caminho, parou para cortar o cabelo e fazer a barba enquanto Angra ficou com Estela por uma pracinha, tomando um sorvete, brincando e só de Sofía ter apertado os seus dedos... Como podia? Tanto poder em um simples gesto? Ela tinha e de caso pensado ou não, havia enchido Angra da sensação de que as coisas ainda teriam saída.


Nada no mundo deveria lhe assustar mais do que Sofía perder a fé em elas duas.


E quando saiu daquela barbearia, Guilherme até parecia seu galã outra vez.


— Diga, outro homem?

— Outro homem, definitivamente — Respondeu sorrindo e ele se inclinou para um beijo.


Que suavemente, Angra desviou. Ele beijou sua testa e a olhou nos olhos.


— Nós vamos ficar bem, ok?


Angra o abraçou, recostando a cabeça contra o peito dele.


— Nós vamos sim.


Voltaram pra casa e, a terceira parte da festa parecia já estar em andamento. Havia crianças derrubadas pela sala, vinho na piscina, mais conversa, mais risadas e Angra não tinha a mínima ideia de onde o interruptor em sua mente havia virado para a escuridão novamente, mas achava que foi quando chegou na piscina e ouviu Frederíca falando sobre Sofía. Falando bem, é claro, muito bem aliás, Sofía estava na cozinha, preparando alguma coisa, Guilherme subiu para colocar Estela já dormindo na cama e Angra passou para a área da piscina.


— Não tem como se brigar contra isso, ou você encontra alguém com tudo, ou se contenta com o melhor dentro do que você espera... — Frederíca estava dizendo.

— Que palavra forte, não acha? — Angra pegou uma taça de vinho e sentou-se perto da conversa. Olhar firme, reto, ombros para trás, nenhum sorriso — Contentar.

— Ficar contente é o mesmo que ficar feliz, não é?

— Não sei, vamos ver aqui — Pegou o celular e digitou “felicidade” — Então, “felicidade”, substantivo feminino, qualidade ou estado de feliz; estado de uma consciência plenamente satisfeita; satisfação, bem-estar. E tem o segundo significado que eu gosto muito também que é: boa fortuna; sorte. E vamos ver agora, “contentamento”: substantivo masculino, estado de contente; satisfação, gosto; alegria, júbilo. Pra mim, não parece a mesma coisa não. Contentamento parece algo que precisa de complemento, ou de uma busca, enquanto felicidade já vem com o pacote completo — O olhar seguia reto nos olhos de Frederíca — Então, você é feliz, ou contentada?


E ela abriu aquele sorriso inacreditável.


— Você está perguntando pra mim? E se eu devolver a pergunta pra você? O que você me diria? Felicidade ou contentamento? Está ao menos buscando, ou só... Curtindo?


E os olhos de Sofía pegaram aquelas expressões corporais inconfundíveis. Angra estava com os cotovelos apoiados nas coxas, inclinada pra frente e Frederíca com o calcanhar esquerdo sobre a coxa direita, inclinada para trás, e as duas posturas contavam a mesma coisa: tensão.


Se apressou com seus hors d'oeuvres e encontrou Kalinka passando para a área da piscina, provavelmente sentindo a mesma coisa.


— Defina Península Ibérica — Angra para Frederíca mais uma vez.

— Por quê?

— Já me chamou assim duas vezes.

— Não é ilha, não é continente, é bonito, ensolarado, agradável demais, não está fora do continente, e tem istmo ligando para uma ilha, Gibraltar, onde deve estar localizado, pasmem, a possível cidade de Atlântida. Consegue fazer as ligações? Você é muito boa para existir, Angra Fernandes — Ela seguia com aquele sorriso provocador nos lábios.


Angra se inclinou para mais perto ainda:


— Não me respondeu até agora: você é feliz ou só está contentada? Está ao menos contentada, aliás?

Olha para ela — Seus olhos apontaram para Sofía se aproximando — Me fala, você estaria feliz ou apenas contentada?

— Você nem contentada está. Você deveria ser estudada...

— Angra, a Frederíca é uma eterna descontente, faz parte do charme dela — Kalinka interferiu, quebrando o clima, arrancando o riso pela piscina.

— É verdade, você quer relaxar? Eu estou te provocando só — Ela abriu aquele sorriso novamente, Frederíca reinava em sorrisos enigmáticos, sabia que mexia com Angra desta forma.

— O dia inteiro, aparentemente.

— Eu sei, se tornou algo que por algum motivo, eu gosto de fazer. Relaxa, vai. Que tipo você fez, mi amor? — Perguntou para Sofía — Aqueles que a gente comeu em Paris?


E aquele “mi amor” cravou direto no coração de Angra. Como podia? E depois de falar de Paris, vieram mais uma série de histórias que tinham se passado em viagens que fizeram juntas, vieram planos para as próximas viagens e Angra não estava entendendo coisa alguma mais. Levantou-se, com sua taça vazia, claramente chateada, Guilherme já estava de volta, todos os adultos estavam por ali e Angra sentia de verdade, que não deveria mais ficar presente.


— Vai subir, mô? — Guilherme lhe perguntou, fazendo seus pés gelarem por um simples apelido carinhoso, que ele sequer usava normalmente. Que situação, esperou que Sofía não tivesse ouvido, porém...


Ela ouviu sim. E Angra desistiu de subir. Só desconversou e tentou achar um pouco de privacidade na sala. Kalinka puxou Sofía de lado.


— Sofía, pelo amor, em algum momento algo vai sair do controle aqui, você viu elas duas.

— Ou eu vou sair do controle. Você viu o jeito que todo mundo já estava se olhando? Não nasci para este tipo de emoção, Kali, eu nunca tinha feito nada assim antes, nunca traí nem namorada de adolescência, para agora... Olha esta situação!

— Sofía, é sério. E não é a Frederíca que vai perder o controle.

— E você quer que eu faça o quê? Eu já pensei em mil maneiras de ir embora, mas nenhuma não vai causar um mal-estar por aqui, e... — Seu coração disparou, lá vinha Angra, seu 1,74 de altura e nada tranquila — Angra...

— Por que ela continua se comportando como sua mulher? Por que está ali contando os planos de viagem, me explica?

— Angra, é o que ela faz! Planos de viagem, já estavam prontos, não quer dizer que eu vou com ela, ou que todos vão se concretizar...

— Eu não consigo entender isso, sinceramente, você passou o dia inteiro pondo banca em cima de mim, me lembrando de todos os meus erros, me chamando de covarde...

— Eu nunca te chamei de covarde, não me confunda.

— Chamou de fraca, vamos mudar os adjetivos se este te incomoda tanto!

— Angra, acalma, de verdade — Kalinka tentou.

— Eu estou tentando, mas ela não me ajuda! Sofía, você tem que se separar, não é por mim, não é pela gente, é por você, está bem?


E Sofía entendeu a raiz do problema.


— Você soube da Luria.

— Como todo mundo vai acabar sabendo! Você... Você não tem que passar por isso...

— Angra, está tudo bem. Eu não ligo, você não tem que defender a honra que eu nem tenho mais...

— Lógico que você tem. E, lógico que eu tenho, você é minha mulher, caramba — Perdeu uma lágrima — Essa é a verdade. Nós não estamos certas, mas não somos um erro.


Sofía olhou ao redor e, claro que já tinha olhos nelas duas. Marcela, Eduardo, Erica, Luria, Guilherme.


— Angra, escuta, amor: faz muito tempo que eu me vejo em situações assim, dor e escândalo. Um tempo contado certinho, até... 18 de janeiro de 2015. Cinco anos em alguns dias. Sabe o que aconteceu nessa data? Você apertou o meu core numa fila de check-in. Eu sentia muito, até aquele dia. Depois daquele dia, eu troquei de lugar com a Frederíca.


E Angra deu um suspiro quase engraçado.


— Claro que não, Sofía, ou você teve outras namoradas além de mim e eu não estou sabendo?


Sofía riu, segurando Kalinka que rindo, ia se afastando.


— Fica aqui, não afasta. Angra, eu não ligo mais, está tudo bem e estará resolvido em breve. Não se importa você com isso, está bem?

— Ela tem contas para acertar comigo. Há débitos para os dois lados.


E de repente, tudo pareceu calmo e vazio, tal como uma praia fica, segundos antes de um tsunami.


Notas:


Olá, menin@s! Tudo bem?


Primeiro, eu sei, estamos passando por uma montanha-russa de emoções, já passamos por mar tranquilo e maremotos, algumas explosões vulcânicas, algumas boas, outras nem tanto, mas aqui estamos, tal como Angra e Sofía também estão ainda, tentando se ajustarem em situações cada vez mais complicadas.


Capítulo tenso, emocional, mas onde os caminhos começam a se mostrar de alguma forma. Uma onda está se formando e Angra está de olho nela, o que nos resta saber é qual será a atitude dado ao que está por vir.


Próximo capítulo "O Presente", Sofía está de aniversário, fechando um ciclo importante para si mesma e receberá alguns presentes bem especiais. Vamos subir a montanha-russa novamente, se cuidem e, confiem nesta autora.


E então, para 2 capítulos na sexta:


Primeiro, 50 comentários de leitoras diferentes no capítulo 15 de Angra;


Segundo, temos que bater 140 avaliações em Havana, na Amazon (que já foi batida), e 90 avaliações em Delirium, também na Amazon (que ainda precisamos bater).


Meta batida, teremos postagem dupla na sexta novamente.


O que acham?


Bora bater mais este desafio?!


Beijos!

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