Angra - Capítulo 16: O Presente




Não sabia bem o motivo, mas de maneira espontânea, Sofía acordou antes do sol nascer.


Geralmente, ficaria na cama e tentaria dormir novamente, ainda faltava para amanhecer, tinha ido dormir tarde, pouco depois da meia-noite, depois de um dia de praia e de uma noite de farpas trocadas, estava bastante cansada. Mas por algum outro motivo, também demorou para pegar no sono, a última coisa que tinha visto antes de entrar para o seu quarto, havia sido Angra desaparecendo para dentro do quarto no começo do corredor, ao lado de Guilherme e, aqueles três segundos não saíram da sua cabeça. Ele entrando na frente, ela depois, mas parando na entrada e por três segundos, olhando para Sofía entrando em seu próprio quarto.


Ficou com aqueles três segundos repetindo em sua mente, o jeito que Angra lhe olhou, os olhos dela mais escuros do que Sofía estava acostumada a ver sempre que estava perto dela e podia jurar que havia acontecido ali uma emoção diferente por segundo: atração, vontade, impossibilidade. E então lembrou porque aquilo lhe pareceu tanto um déjà-vu.


É porque era um.


Em Abrolhos, haviam ficado em quartos exatamente assim, no mesmo corredor e acabou que quando subiram depois do check-in, foram todos de uma vez e no meio do caos das pessoas e Angra entrando para seu quarto, elas se olharam assim. Guilherme entrando, Angra entrando em seguida, um olhar para o lado, e seus olhos tinham pegado Sofía: atração, vontade, impossibilidade.

E desapareceram para quartos diferentes.


Mas disso, só se deu conta de manhã.


Olhou para o lado, Frederíca dormia profundamente. Sentou-se na cama, olhou para ela um pouco mais, camiseta, calcinha boxe, as tatuagens diversas, cada uma especial por algo particular, os cabelos longos, escuros, gostava daquela menina demais. À parte qualquer coisa, a amava, a tinha em melhor estima que se pode ter alguém, mas havia uma sombra que sempre ofuscava que tal sentimento aparecesse.


Levantou-se. Pegou um dos seus Kimonos para pôr sobre a lingerie branca que usava, pegou um pouco de água, procurou seus limões. Sempre tinha limões perto da cama, espremeu um dentro de sua água e foi para o banheiro. Havia uma janela enorme, por onde se podia olhar o mar quando se estava na banheira e tal janela tinha um peitoril bem largo, que permitia sentar. Deixou a porta fechada e sentou-se ali, para que a luz não incomodasse Frederíca, o dia estava começando a se levantar.


Trinta e três anos. Havia acabado de nascer. Sofía Angie Gonzalez, nascida no dia 10 de janeiro de 1987, sob uma tempestade daquelas no Rio de Janeiro. Nascida na casa que sua mãe e seu pai tinham acabado de adquirir, herdeira dos nomes de suas duas avós, Angie e Sofía. Dado aleatório: em 10 de janeiro de 2015, Angra e Guilherme se casaram, provavelmente, no exato momento em que Sofía entrou em um restaurante com seus colegas de trabalho para comemorar seu aniversário, e por obra de qualquer destino, encontrou Frederíca romanticamente jantando com outra. Não era a primeira vez algo assim, mas era a primeira vez que acontecia e tantas pessoas viam. Não conseguiu voltar para o trabalho. Na verdade, mal conseguiu voltar pra casa, arrumar uma mochila, catar seu tapete de ioga e pegar um voo para Brasília.


Sim, foi para Brasília. Não sabia bem para onde ir, decidiu ir para o meio do país, naquela mesma noite, dormir lá e então decidir o que faria, para onde iria. Mal disse para Kalinka o que estava fazendo, apenas foi, precisava sair de lá, a discussão com Frederíca foi de cortar qualquer coração, o seu, o dela, sabia que Frederíca precisava de mais e sabia muito bem que expor Sofía daquela forma era a última coisa que ela gostaria. Mas havia exposto, as duas estavam expostas e Sofía sabia que tinha que ir para outro lugar.


Foi para Brasília, dormiu lá, não pegou hotel, nada, chegou perto do final da tarde e ficou na sala VIP, pensando em tudo. Conseguiu comer, dormiu e quando acordou, estava passando na TV uma reportagem sobre a Bahia. Também não pesquisou nada, apenas comprou uma passagem e no final da tarde do dia 11, estava em Salvador. Passou uns dias em Salvador e depois decidiu ir descendo de ônibus, parando em um lugar e outro, dormindo em lugares inesperados, sem reservas, conhecendo praias, meditando, cuidando de si. No dia 17, alguém lhe falou de Abrolhos e dos live on board. E decidiu ir, assim, também escolhendo a primeira pousada que surgiu no seu app de reservas.


Encontrou Angra assim que entrou. E no primeiro segundo que olhou para ela, não era história, não era verso bonito de livro, ou cantada barata: no primeiro segundo que olhou para ela, teve certeza de que a conhecia do seu futuro. Aquele que havia sonhado, ao lado da mulher que amaria com cada vírgula de um amor que valia a pena.


O sol nasceu majestoso, a ponto de encher o seu peito e quase lhe fazer chorar. E então, a porta se abriu e lá veio Frederíca, passando por cima da banheira apenas para lhe abraçar forte e carinhosamente...


Abraçou, cheirando os cabelos de Sofía, a beijando no pescoço enquanto uma sacola foi abandonada dentro da banheira.


— Era para eu acordar primeiro... — Ela disse, lhe beijando o pescoço de novo e fazendo Sofía rir.

— Ah, era?

— Era, eu coloquei para despertar às 5:45, acabou de vibrar aqui — Mostrou o relógio sorrindo, ela nunca dormia de relógio, era verdade — Feliz aniversário, mi guapa, que já acorda cheirosa assim — A cheirou profundamente, não sabia como era possível Sofía sempre acordar tão cheirosa — Eu te desejo felicidades desde quando você se casou comigo e sei que não ajudo da maneira que deveria para isso, mas felicidades, amor. E todas as melhores coisas do mundo porque você merece. Eu comecei a namorar uma menina de grande futuro e hoje, aqui está você, no futuro grande, como uma mulher forte, que aguenta a pancada, chefe de si mesma, dona do próprio negócio, chefe e dona de mim... — Disse, fazendo Sofía rir demais — Eu tenho muito orgulho de você.


Sofía a olhou nos olhos. Trocaram um beijinho carinhoso.


— E eu de você. Você nunca duvidou de nada. Lá, na Maré, tinha certeza de que ia ser grande, que ia vencer, tinha certeza dos números mágicos: 12 mil por mês, 100 países, 4 idiomas.

— Uma mulher incrível para ser meu porto — Beijou a mão dela com carinho.

— Sendo que você ama navegar.


Ela apenas esboçou um sorriso. Se esticou, pegou a sacola preta e elegante que havia trazido.


— Presente?


Ela riu.


— Você tem razão quando diz que presentes são importantes. Meus presentes sempre foram: “ah, seu presente é esta viagem”. Ou coisas do tipo e me dei conta de que dizer isso é o mesmo que dizer: “ah, seu presente é a casa onde vivemos”, ou “ter conforto”, ou pior, uma vez eu disse que seu presente era uma ida ao Café del Mar e você quase me atirou montanha abaixo.

— Isso também é verdade — Sofía seguia sorrindo.

— Então, te comprei um presente desta vez — Entregou a sacola para ela que foi aberta imediatamente. E:

— Fer, que coisa mais linda... — Era um Kimono boho, daqueles que Sofía adorava — E ele é...?

Mojácar Pueblo. Para onde eu fui quando nos separamos há seis meses. Comprei lá e guardei para o seu aniversário porque sabia que não ia encontrar outro igual. Este povoado na Almería Espanhola é dividido em dois, Mojácar Pueblo, com casinhas brancas, como Santorini, escalando as montanhas e Mojácar Playa, a parte abaixo das montanhas. Mojácar Pueblo mantém conservado muitos detalhes da ascendência árabe do povoado e achei essas peças lindíssimas. E muito parecidas com você.


Era mais que uma peça. Era um Kimono boho extremamente étnico, branco, mas com símbolos e inscrições árabes lindamente multicoloridas, tinha um sarongue tão bonito quanto, e uma saia longa que Sofía também era apaixonada por usar.


— Eu amei meu presente, de verdade. Vou começar usando hoje! — Agarrou Frederíca a apertando muito firme nos braços. E não a soltou — Você lembra que me pediu em casamento num amanhecer bonito assim?


Ela sorriu, saindo do abraço, beijando a testa de Sofía.


— E aqui, em Búzios. Nós saímos à noite, amanhecemos fora e quando o sol começou a nascer assim, estávamos as duas deitadas no capô do carro e... Eu tive certeza. Precisava de uma parceira assim ao meu lado.


Frederíca escapou do casamento por semanas, apesar da insistência de Sofía e olhar para trás agora, para o momento em que o pedido aconteceu, também dizia muitas coisas. Ela pediu em casamento a Sofía daquela noitada, não a Sofía de todas as outras semanas, que reclamava de passar a noite fora, ou que recusava passar todos os finais de semana em baladas, churrascos e afins. Sofía buscou os olhos dela.


— Eu gostaria de te pedir um segundo presente agora.


Ela nem precisava verbalizar. Frederíca respirou fundo e por um instante, baixou a cabeça em seu colo, segurando suas mãos. Sofía se curvou sobre ela e ficaram assim, naquele tipo de apego e despedida, que terminou em um último beijo. Frederíca respirou fundo e a beijou, ali, na luz solar que escorria por dentro da janela de vidro. E quando voltaram ao quarto, Sofía pegou os papéis do divórcio, e finalmente, Frederíca os assinou.


— Eu queria dizer uma coisa — Ela disse, depois de assinar o último documento.

— Que coisa?

— É prerrogativa do cônjuge mudar ou manter o nome de casado depois do divórcio, eu pesquisei a respeito... — E Sofía já estava rindo demais.

— Sério, Frederíca?

— Muito sério, aqui, olha — Mostrou sua assinatura — Eu quero seguir assinando assim, muito melhor que Brito Moreira...

— Isso é mais que um sobrenome, é a sua marca registrada. Você segue Frederíca Gonzalez, e eu tenho muito orgulho que assim seja.


Voltaram para a cama por uma horinha mais ou menos, acertando algumas coisas, pensando no retorno para a Colômbia, Frederíca tinha um lançamento para fazer na Espanha, “Chiloé” seria lançado por lá também e quando Sofía se deu conta, enquanto se arrumava com seu Kimono novo, Frederíca já estava lhe envolvendo em seus planos.


— Frederíca, nós acabamos de nos separar, lembra? Não é que a gente nunca mais irá viajar juntas, mas contemporização, ok?

— Mas é uma coincidência! Hvar está logo ali de Barcelona... — Ela lhe disse, ficando linda ao seu lado também, de camiseta preta, aberta no colo, Fedora sobre os cabelos, com aquele sorriso conquistador aberto. Sofía nem se surpreendia, é claro que não.


Tinha um tipo.


Casanovas irresistíveis.


Desceram juntas e já havia um banquete esperando na mesa! Kalinka, Erica, Saadi e, Angra. É claro que Angra estava junto, em outro estilo pelo qual Sofía era uma queda completa, camisa manga-longa de botões, que alcançavam as coxas dela, escondendo o shortinho por baixo, as mangas dobradas em três quartos, botões abertos no colo, rosto lavado, cabelos soltos, mais do que atraente, extremamente charmosa. Trocaram um olhar e, Sofía teve suas pernas agarradas. Por uma coisinha linda, vestida de... Aquaman? Era, com a fantasia do Aquaman e um lindo e delicado buquezinho de rosas vermelhas nas mãos, enquanto I Was Born to Make You Happy tocava pela sala.


Não era uma música qualquer, nunca era. Era uma das músicas preferidas de Sofía de sua playlist dos anos 90/2000.


Mami, mami, feliz aliversário! — E se agarrou em Sofía, lhe enchendo de beijos e, a fazendo chorar, claro que sim — Te quiero mucho, mami, mucho... — Ela disse, com a voz molinha, apegada, amava tanto aquela menina, mas tanto que...


Chorou. Claro que Sofía chorou. Lagrimou, se abaixou sorrindo, olhando bem para ela naquela fantasia primorosa dourada e verde de Aquaman.


Te quiero muchísimo, mi amor, mucho — Beijou Estela, a apertando um pouquinho, porque as rosas eram lindas, ela era a coisa mais linda e, seus olhos emocionados pegaram Angra se aproximando — Você comprou pra ela... — Cheirou Estela, tirando e recolocando o boné da Mera de sobre os cabelos dela, cor de avelã, iguais ao da mãe.


Haviam tido uma longa conversa sobre a liberdade de Estela poder brincar com o que bem quisesse, Guilherme não entendia certas coisas muito bem, mas eram duas contra um e ele sempre acabava cedendo. Era tradicionalista, era, mas era um ótimo pai também e tinha como uma enorme qualidade nunca ter interferido no relacionamento de Estela com Sofía. Ele não questionava, aceitava e agora estava ali, sua Estela vestindo o que tanto queria desde quando vira o filme. Esta era uma outra questão importante, não queriam perder o bom relacionamento de Guilherme e Sofía, esta sempre foi uma das preocupações sobre a separação ser tranquila, sem confusão.


— Ela queria tanto ser Aquaman, eu não tenho direito de dizer não, olha como ela ficou linda.

— É verdade, você está linda, bebê... — Disse para ela sorrindo, ainda derretida demais, com os olhos tão cheios de bons sentimentos. Era seu aniversário e estava com o seu bebê agarradinha daquele jeito.

— É para tirar o lixo da praia! Pra não ser igual do filme...

— Os atlantis não jogarem o lixo todo de volta na gente, não é?

— Aham, não pode, você chorando, também não pode... — Ela disse, limpando o rosto de Sofía com aqueles dedinhos tão pequenos.

— É que eu estou muito feliz, filhote, muito.

— Tem outro presente, outro presente! — E lá se foi Estela correndo para buscar o tal outro presente, Sofía levantou-se e, abraçou Angra muito longamente. Abraço longo e silencioso, apegado e eloquente o suficiente.

— Ficou me esperando descer para colocar a música?


Angra a beijou no ombro.


— O que você acha?


E lá veio Estela de volta, com os passinhos rápidos e ansiosos.


— Aqui, Sofía, outro presente! Outro presente!

— Outro, meu amor? — Se abaixou de novo e, seu outro presente era uma caixinha muito delicada. Abriu devagar e lá estava, uma gargantilha linda, com um pingente brilhando bonito demais, delicado demais.

— É um “sarosfisque”! — Ela disse, muito empolgada, sorrindo e Sofía trocou um olhar com Angra, sem conseguir não sorrir.

— Um Swarovski, bebê, entendi.

Isso, um “sarosfisque”! É pra você, porque é seu aliversário e eu nunca tava num aliversário seu... — Ela disse, na inocência dos seus quatro anos, um comentário que ela faria com qualquer um, no qual não estivesse participado de um aniversário em sua longa vida de quatro anos, mas que pegava Angra e Sofía de uma maneira especial — Eu gosto de estar aqui no seu aliversário, porque eu amo você, eu amo fazer você rir... — Estela buscou o colo de Sofía, seu abraço, seu carinho. A mão agarradinha em sua blusa, o rosto buscando o cheiro dela, instintivo, apegado, cheio de amor.


Sofía chorou mais. Foi a primeira frase completinha que ouviu de Estela, havia sido há cinco meses, Sofía estava triste, já estava pensando em voltar para Cartagena e quando tirou Estela do banho e a colocou na cama para vesti-la, ela começou a fazer carinhas engraçadas que fizeram Sofía gargalhar. Então, havia dito, perfeitamente: “eu amo fazer você rir”. Uma frase completa, de uma fala que estava começando a amadurecer e linda, vinda de uma criança tão pequena e que tanto amava.


— Eu amo fazer você rir, eu amo você, minha pequena, minha colombiana, eu amo tanto...


A pegou no colo e levantou-se com ela, sentindo todo aquele carinho que vinha daquele bebê, a cheirou, a beijou e, Angra a puxou para pertinho, lhe olhando nos olhos, lhe sussurrando que havia nascido para fazê-la feliz e isso era tudo o que importava. Sofía lembraria da frase, dos olhos dela degradando a cor e do beijo carinhoso em sua testa enquanto ainda estava com Estela no colo, com as flores, a joia e, Frederíca fotografou.


— Fer, você sabe que é bem esquisita, não é? — Era Kalinka, vendo a foto tirada.

— Olha que família linda — Ela disse sorrindo — Dá uma inspiração e tanto para uma cena. Você sabe que, no nascimento dessa criança das cavernas aí, eu lembro de sair do hospital e pensar que estava deixando uma família muito bonita lá dentro. Elas combinavam, tinham carinho, muito a ver uma com a outra. A esquisitice só fica no fato da Sofía ser minha esposa naquele momento... — Daí caminhou na direção delas — Angra, não dá para competir com você, sabia? Nem é justo, eu não tenho uma criança das cavernas coisa mais linda para vestir de Aquaman, e entregar flores e joias — Disse, arrancando riso delas duas.

— Cada um luta com a arma que tem, Gonzalez.

— Eu sei, Fernandes, eu sei...


Tiveram um momento maravilhoso e extremamente agradável, e assim, seguiu-se uma pequena festa de aniversário num café da manhã. Todos foram acordando, descendo, abraçando Sofía, o clima bom restabelecido, tudo parecia leve novamente e Sofía parecia feliz. Estava sorrindo facilmente, brincando com Estela, ajudou a deixar a fantasia de Aquaman completa improvisando um tridente para ela e, Angra queria estar perto. Queria estar conversando com ela, passando tempo junto, mas novamente, Guilherme não estava lhe dando nem um pouco de espaço. Não era culpa dele, ele queria dar atenção, sempre achava que as distrações de Angra vinham da sua falta de atenção e sabia que era desatencioso. Sabia que às vezes se perdiam nas suas coisas, que preferia sair com os amigos, fazer as coisas que gostava, cuidar do que lhe era gostoso fazer e acabava deixando Angra um pouco de lado.


Guilherme tinha atitudes que não se orgulhava, mas por outro lado, tinha certeza de que não deixava de comparecer na forma que Angra precisava. Então, passou a manhã inteira ao lado dela, deixou inclusive o preparo do churrasco de lado e, a crise asmática de Angra simplesmente reapareceu.


Os olhares se cruzavam em um momento e outro. Iriam todos para a praia, mas o tempo não estava muito convidativo e por isso, acabaram optando por ficar em casa, pensariam em praia novamente à tarde. Sim, os olhares, sim, a vontade de falar e sim, algo havia acontecido entre Sofía e Frederíca, porque as duas pareciam bem mais luminosas aquela manhã.


E a única coisa que Angra conseguia pensar é que Sofía tinha sido seduzida por aquela sujeita outra vez.


Perto do meio-dia, tiveram uma pequena brecha. Os homens, mais Frederíca, decidiram fazer um pequeno campeonato de videogame.


E Angra foi atrás de Sofía na piscina imediatamente.


— Sofía...

— Ela assinou — Foi a primeira coisa que ela lhe disse com um sorriso no rosto — Conversamos de manhã, já planejamos a primeira parte de tudo e ela aceitou assinar. Só quer ficar com o meu sobrenome.

— Ela... Sério? — Angra abriu um sorriso imediato! Não acreditava que tinha sido este o motivo das duas estarem luminosas.

— Muito sério — Sofía não conseguia parar de sorrir também — Você não faz ideia de como eu estou me sentindo. Morrendo de medo, mas aliviada, livre, não sei te explicar. É algo que deveríamos ter feito lá atrás, naquela traição pública que me levou até você.

— É algo que eu deveria ter feito antes de te reencontrar pela primeira vez.

— E eu não deixei — Sofía olhava para ela brilhando ao sol, os olhos mais clarinhos, do jeito que amava — Sei que fui eu quem insistiu para você não se separar antes, mas como é que eu ia imaginar? Que tudo ia ficar tão... Difícil assim.

— Eu estava imaginando — Outro sorriso de Angra — Porém, enfim, tomamos outras decisões.

— Que no final, nos trouxeram até aqui. Eu... Amei meus presentes. Você tão delicada sempre, tão gentil comigo...

— Gentileza é obrigação para quem ama. Eu amo você. Espero que não esqueça, que não duvide, eu amo você.


Sofía a abraçou.


— Não esqueço e nem duvido. A gente sempre quis passar um aniversário meu, juntas novamente, com a Estela maiorzinha, conseguimos, afinal.

— E é apenas o primeiro. E está longe de ser como eu quero.

— Angra...

— Não é, está bem? Não é. Pode colocar o meu presente?


Sofía abriu um sorriso.


— Agora?

— Eu estou ansiosa para ver ele em você.


Colocou a gargantilha, do jeito que ela pediu e o dia acabou não ficando gentil, o que impediu os planos de praia em definitivo. Almoçaram e ficaram pela casa mesmo e Kalinka liberou seu último lote de cervejas colombianas. Música alta, as crianças brincando pela piscina e o clima bom e tranquilo que tiveram pela manhã, de repente, começou a virar junto com o tempo.


E Angra sentiu que veio com a tal cerveja colombiana. Notou que Marcela estava bebendo um pouquinho demais, Eduardo e Felipe também, Kalinka era a que trazia a cerveja, mas não bebia e quando a percebeu começando a retirar a bebida discretamente, sentiu que precisava ficar mais atenta. Carolina estava bebendo, Marianne também, Guilherme estava acompanhando a bebida e a conversa, e não deixava Angra sozinha nem por um segundo. Tinha encarnado um traço de personalidade, que era o seu maior medo, no que tocava colocá-lo no mesmo ambiente que Sofía: quando Guilherme bebia além do ponto, ele virava um conquistador barato, e a vítima era sempre Angra.


Não ia reclamar disso, afinal, ele podia virar conquistador de outras mulheres na sua frente, o que seria particularmente um pouco mais constrangedor e podia provar porque, estava acontecendo naquele exato momento: Frederíca tinha se tornado uma conquistadora barata na terceira cerveja.


Não sabia se eram os efeitos da separação, ou puramente culpa do álcool, mas ela foi gradualmente se afastando de Sofía durante a tarde e claramente se aproximando de Luria, que foi proibida de beber por Angra. Se Frederíca não estava em si, ela precisava estar, ou a coisa sairia do controle e o tanto de dinheiro que Angra teria que gastar com terapia, não tinha precedentes não, porque vendo as atitudes de Frederíca e vendo Sofía ficando cada vez mais deslocada por isso, desejou que as cenas da noite anterior voltassem a acontecer. Frederíca esfregando seu relacionamento com Sofía na cara dos outros, jurava que preferia assim a ver Sofía ficando mais e mais sozinha, e mais sem jeito, conforme a tarde avançava.


Ela se isolou definitivamente perto das quatro da tarde. Pegou seu livro, foi para um canto, outra coisa estava acontecendo, ela estava deslocada nos assuntos do grupo também, que de repente, tinham se voltado inesperadamente para o exibicionismo dos casais presentes. Marcela não parava de falar, Carolina também não, era como uma inversão de tudo o que tinham conversado no iate e quando começaram a falar de fidelidade, ouvir Guilherme falar doeu tanto que Angra até agradeceu que Sofía tivesse se isolado. Detestaria que ela tivesse ouvido o discurso dele, porque até para si mesma foi complicado de ouvir.


Sua paciência acabou com Guilherme perto das cinco.


— Você vai ficar aqui em cima sim! — Havia o arrastado para o quarto.

— Por quê? Está todo mundo curtindo, por que você não quer curtir também? Eu só quero curtir a minha mulher, caramba!

— Bêbado! É quando você decide que tem mulher e quer curtir alguma coisa! Você quer é aparecer para aqueles dois idiotas!

— Para com isso, claro que não, Angra!

— Ah, claro que não, por que você não age naturalmente? Por que não fala sobre como as coisas realmente são entre a gente? Nós não somos mais um casal, faz tempo que não somos!

— Porque você não quer!

— Independente disso, não somos mais! Não tem o que você exibir naquela roda de conversa, que não dissesse nada, mas não inventasse situações que só existem na sua cabeça! Outra coisa, fala por você! Por que em todas as suas opiniões você tem que me colocar no meio? Nunca diz: “ah, eu não gosto de tal coisa”. É sempre: “Angra e eu não gostamos”. Somos duas pessoas, eu não desgosto de tudo o que você não gosta, para de agir assim!

— Você não pode me prender aqui, que coisa!

— Não vou prender, você vai tomar um banho, porque o seu estado está lastimável. Toma um banho, dorme um pouco, cura essa maldita bebedeira e depois você volta para falar comigo.

— Você me envergonha.

— Sério? Não fui eu quem acabou de vomitar no meio da casa. E cabe a mim descer e limpar, ou estou errada?

— Angra, a gente não pode...

— Separar? É o que nós vamos ver.


Ele se calou. E foi para o banho. E quando Angra chegou na sala, ao menos, Felipe já tinha cuidado da bagunça toda. Melhor assim.


Basta. A palavra se formava em sua mente. Basta.


Passou até a cozinha para preparar uma jarra de sangria sem álcool e, sem Sofía, uma vez que sempre que se aproximava dela, agora um clima esquisito surgia e isso estava simplesmente... Lhe sufocando. Sentia uma mão apertando sua garganta, um dedo de cada coisa: julgamentos, desconfianças, frustração, medo, arrependimento. Mais frustração, achava que a frustração, inclusive, estava com mais dedos que os outros e apertava com uma força diferente.


Sofía estava separada. Disponível. E Angra...


Parou o que estava fazendo, respirando muito fundo, sentindo uma pontada no meio da sua cabeça. Devia ser seu chakra coronário, que estava totalmente desequilibrado.


— Ela está te pondo contra a parede? — Carolina apareceu atrás de si do nada.

— Sofía? Eu preferia. Agora ela simplesmente saiu da minha frente, abandonou a pressão, está feliz de ter se separado, empolgada para recomeçar.

— Angra, ela só está te dizendo isso para te pressionar...

— Na verdade, ela está me deixando confortável, me deixando livre. Você não a conhece, pare de presumir coisas sobre ela.

— Angra, para um pouquinho, eu quero falar um negócio com você. Marcela anda sussurrando coisas, aqui, nos grupos de WhatsApp que você nunca olha...


Angra cruzou os olhos dela.


— Anda dizendo o quê?

— Que a Sofía dá em cima de você. Que se separou por sua causa, e que seu casamento já não vai bem das pernas há muito tempo. E agora acabou de dizer que mulheres como a Sofía são ameaças duplas para qualquer relacionamento, ali na conversa. Saadi ficou irritada, deu uma quase discussão...


E Angra nem queria ouvir mais nada, já estava irritada o suficiente. Irritada pelas duas coisas, por Marcela estar falando de Sofía e por estar falando do seu casamento, coisa que nunca permitiu a ninguém e que nenhum casal deveria permitir de ninguém também. A vida de um casal é um livro fechado, os acordos surgidos dentro de um casamento não dizem respeito a mais ninguém, o que cega qualquer estranho para qualquer julgamento.


— Angra, você não vai...? — Carolina lhe segurou e Angra a olhou reto nos olhos.

— Você jura que eu não vou? Que ela fale o que quiser de mim, mas que não ouse chegar perto da minha Sofía.


Foi buscar Marcela na piscina imediatamente e lá estava ela, seguia falando e falando, como se sua heterossexualidade fosse um grande privilégio, falando sobre traições e mulheres que traíam, o tipo de mulheres especialistas em destruir casamentos. Basta, basta, a palavra piscou mais forte na mente de Angra. Basta, basta. Pegou o braço de Marcela.


— Angra...?

— Para dentro, vamos.


Ela sequer contestou. Angra a levou para o canto da sala de estar enquanto pelo canto dos olhos, puderam ver Sofía subindo para o quarto, claramente constrangida.


— O que está dando em você? Pra ficar com este seu discurso furado sobre traição? O que você sabe sobre isso?

— Ah, Angra, me poupe! Agora eu tenho que ficar aqui aplaudindo traição? Se ela se doeu, é porque tem culpa na história!

— Em qual história, Marcela? — A segurou pelo braço outra vez, a fazendo lhe olhar nos olhos — Essa bebida colombiana comeu o seu cérebro por acaso? Como é que você desata a falar essas indelicadezas de alguém que está dividindo esta casa com a gente?

— Que indelicadeza? Frederíca que disse que elas se separaram e eu imaginei o motivo, a Sofía não para de dar em cima de você...

— E de onde você tirou isso? Eu te disse algo do tipo?

— Claro que não, Angra, mas eu vejo que...

— Você presume que vê alguma coisa. As questões do casamento da Frederíca e da Sofía só dizem respeito a elas, tal como as questões do meu casamento só diz respeito a mim e ao Guilherme, e você não tem nada a ver com nenhuma dessas duas coisas, nenhuma! Se resuma a falar do seu casamento, este que acabei de passar horas ouvindo você falar fanfic, porque eu, você e todo mundo ali sabe muito bem que este romance pintado só existe quando você bebe. E não bastando, fica falando da Sofía, da Sofía, Marcela, sério?!

— Angra, até o Guilherme está desconfiado! Fica muito claro que ela está aqui para atrapalhar o seu casamento!

— E não passou pela sua cabeça nem por um segundo que pode ser eu quem está interessada nela?


O olhar de Marcela apertou.


— É claro que não. Você é muito bem casada, por favor...

— Como que você sabe que eu sou? De onde tirou isso também? Eu não falo do meu casamento com você, aliás, antes de ontem, no iate, você me ouviu dizendo algo? Hoje, agora mesmo, me ouviu dizendo algo? Este título aí, veio apenas da sua presunção. O que acontece entre Sofía e eu, só diz respeito a nós duas!

— Não, senhora, claro que não, Angra! Eu não sei se você está me dizendo alguma coisa, mas uma relação assim, diria respeito a mim também, nós somos sócias, esqueceu?

— E onde é que isso afetaria os meus negócios ou a minha capacidade técnica, me explica? Você está bêbada e louca!

— Acha que nossos clientes ficariam confortáveis com essa ideia?

— E por que eles ficariam desconfortáveis? Nunca precisamos levar maridos a tiracolo em reuniões de negócios, isso não faz o mínimo sentido! Outra coisa, Sofía já faz parte desta empresa de qualquer forma, ela abriu a minha mente para a expansão do projeto, ela me deu metade das ideias que implementamos na gestão e deu certo, ela faz a nossa consultoria de imagem e processos, inclusive, qual é o seu problema com isso agora quando anteriormente ele nunca existiu?


Marcela ficou olhando bem para ela. E então, respirou fundo, se desmontando um pouco.


— Olha, eu... Eu acho que bebi demais. Vou dar um mergulho, não estou entendendo você muito bem, mas já entendi que passei do limite nos comentários.

— Passou mesmo. Nos comentários e comigo. A Sofía é extremamente importante para mim. Pensa duas vezes antes de falar qualquer vírgula dela novamente.


O assunto encerrou assim. Marcela foi dar seu mergulho na piscina e Angra deitou-se no sofá, pensando nas coisas que ela tinha lhe dito. Basta, basta... Sua cabeça ainda ia explodir. Sua cabeça ainda ia explodir e nem falaria nada do seu estômago e do seu coração. Não estava conseguindo comer coisa alguma, respirar direito, pulsar direito.


— Ei, Angra, o que foi? — Kalinka se aproximou.

— Me casei com uma homofóbica. E ela nem sabe disso — Respondeu, se sentando e fazendo Kalinka rir.

— Como assim?

— O meu relacionamento com a Marcela é de antes do meu namoro com o Guilherme, pra você ter uma ideia, a gente se conhece desde a faculdade e nunca imaginei que ia ouvir umas coisas absurdas como as que eu acabei de ouvir agora da boca dela, como se sexualidade mudasse caráter ou competência, ou alterasse qualquer traço da pessoa que você conhece.

— Ela agiu como se você esquartejasse pessoas para viver?

— Mais ou menos assim — Abriu um sorriso cansado — Kalinka, eu sempre quis tanto um momento assim, sabia? Sempre que saíamos de férias, eu passava os dias imaginando como seria se Sofía estivesse presente nesses momentos. Ficava imaginando as coisas que a gente faria, como seria ter a minha parceira preferida ao meu lado enquanto a gente se divertia, relaxava, eu sempre quis isso. E agora estamos aqui, e...

— Ainda não é do jeito que você imaginava, porque ainda não é como você imaginava de fato. Nessas suas vontades, vocês deveriam estar apenas uma com a outra, não é? Sem precisar se ocupar ou se preocupar com mais nada.

— É isso. E agora o meu tempo acabou. Nem é o tempo dela, é o meu próprio tempo que acabou. Olha, ela subiu chateada demais, a gente precisa tirar ela daquele quarto, levar ela para jantar, é aniversário dela, o segundo que eu consigo passar com ela...

— Você consegue ir sem o Guilherme? Talvez um grupo menor, pra gente relaxar um pouco.

— Consigo sim. Você a convence sair? Porque quando Sofía Gonzalez se enfia em um quarto...

— É como No Man’s Land, aquela cena de guerra da Mulher-Maravilha, você precisa atravessar uma zona obscura para chegar até ela...


Angra sorriu, porque era bem assim mesmo. Não podia deixar as coisas assim, basta, bastava. Queria uma noite com Sofía e teria.


Basta. Sentiu a palavra em seu coração e soou como um terremoto.


Basta.

Notas:


Então, primeiramente, eu queria fazer jus ao nome do capítulo, O Presente.

Vocês merecem muito mais, então, adiantar foi um presente nosso para vocês. Obrigada!


Segundo, o capítulo 17 vem como vulcão em erupção e para fazer jus a ele, o nome é Kilauea. rsrs

E por este motivo também, acho que vocês precisam se preparar.


E bom, sobre o capítulo de hoje, então, tivemos um pouco mais daquela que eu sempre mencionei, por meio de incógnitas, que seria a vilã da história. O que acharam? E gente, só eu que acho que nosso BB Angra está ficando cada vez mais difícil de escolher um lado? Sofía, Angra, Frederíca... Turminha se complicando e talvez até o fim da história, tenhamos um paredão quádruplo, e teremos que excluir pelo menos 2 pessoas. Qual a escolha de vocês?


E para o capítulo 18, teremos que ter pelo menos 45 comentários de leitoras diferentes no capítulo 16 de Angra. Digo para o capítulo 18, pq o 17 já foi garantido. Vcs lindamente bateram a meta de avaliações na Amazon e por isso, amanhã teremos a postagem do 17.


Beijos e até amanhã,

Ana Reis.

👇 👇


Grupo muito amorzinho no Whats’App, para quem quiser conversar sobre as histórias assinadas por Tessa Reis, quem tiver interesse, basta clicar aqui:

Grupo Whats'App: https://bityli.com/LetqE



514 visualizações56 comentários