Angra - Capítulo 19: LUZ





Se havia dormido por duas horas de tempo, havia sido muita coisa.


Angra não conseguiu, nem dormir profundamente, nem manter um sono linear, a todo momento despertava, olhava para o lado, Guilherme dormia profundamente e Angra se perguntava de Sofía, se perguntava de si mesma e era difícil voltar a dormir. Da última vez que acordou, decidiu se levantar. Checou o relógio, seis e pouquinho da manhã, se colocou de pé, tomou um banho para despertar sua mente e se vestiu. Short curto, um biquíni mais colorido, mais composto em cima e, precisou de um cinto. Nunca imaginou que estaria perdendo peso com aquela facilidade, mas andava acontecendo aquela semana, pegou uma camisa branca, ajustou as mangas, deixou aberta e saiu do quarto.


Passou um tempo significativo contemplando a porta de Sofía e outro tempo fazendo o mesmo na porta de Saadi.


Tinha esquecido de sua filha.


Não acreditava que tinha esquecido de Estela, que tinha a deixado com quase duas desconhecidas, (Erica e Saadi eram amigas de Frederíca, convidadas por ela), e sequer checado como ela estava em seu retorno, foram tantas coisas, mas tantas que...


Nem sabia. Sua filha deveria estar se sentindo abandonada, esperava que ela tivesse conseguido dormir, porque era algo que tinha dificuldades fora de casa, com pessoas que não conhecia bem, enfim. Sua dose de culpa estava muito bem aplicada já pela manhã. Decidiu descer, não perturbar o sono de quem cuidou de sua filha, provavelmente, Estela deveria ter dado um baile em Erica e Saadi, e ido dormir de madrugada, seria inclusive indelicado de sua parte bater tão cedo. Então, decidiu ir começar o café da manhã e quando desceu...


Viu pernas escapando do forte na sala.


Chegou mais perto, afastou o lençol da entrada e...


Sofía estava dormindo, muito, mas muito agarrada em sua Estela.


Ficou uns minutinhos, sentada sobre os joelhos, com os olhos presos nelas duas e um sorriso escapando do seu rosto. Seu bebê não tinha dormido com nenhuma estranha, tinha dormido com Sofía, com sua outra mãe, por quem era apaixonada desde quando tinha nascido. Houve uma ligação imediata entre Sofía e Estela. Angra havia tido um parto exaustivo, com algumas complicações e por três dias inteiros, ficou tão sem energia que não conseguia levantar. Estela nasceu antes do previsto e por isso, precisou ficar numa incubadora por alguns dias e Angra não conseguia. O colo que Estela conheceu primeiro foi o de Sofía e ela seguia reconhecendo até hoje.


A mãozinha agarrada na camiseta de sua mami contava que nada havia mudado, nem uma coisa que fosse.

Era sua mami. Ninguém precisou dizer nada, Estela sempre soube por instinto.


Não lhe espantava que sua filha fosse tão apaixonada por Sofía. Que sentisse falta dela e fizesse chamadas de vídeo constantemente por dia, porque queria mostrar tudo, um brinquedo novo, a tarefa da escola feita, um bichinho qualquer que Estela encontrasse no jardim, ela queria Sofía participando de cada detalhe da sua vida, era como uma necessidade, e em contrapartida, Angra também via filhos tentando fazer o mesmo com pais e mães que estavam longe, e não via metade do afinco que tinha Sofía em tal tarefa. Ela sempre atendia Estela, sempre lhe dava atenção, ainda nos meses em que se separaram e Sofía recusava falar com Angra, nada mudou entre ela e Estela. Estela era um assunto à parte sobre a relação das duas e se não era assim que casais separados deveriam se portar com os filhos, Angra nem sabia de nada.


Estela em seus problemas de sono já havia ligado para Sofía em horas muito irregulares, ela pedia, Angra não sabia como negar e podia ser 3 da manhã em Cartagena e Sofía nunca deixou de atender Estela. A atendia, a acalmava, a colocava na cama a distância e como que com mágica, conseguia fazer Estela dormir. Ela pedia que Sofía viesse morar com eles. Sim, com elas duas e o pai, por quem era louca, era o mundo ideal para Estela. Mas o mundo dos adultos era bem mais complicado do que isso.


— Angra...? — Sofía começou a acordar bem devagar.

— Você dormiu aqui com ela... — O sorriso seguia aberto, os olhos brilhando.

— Dormi, fiquei sem ter onde ir e eu não podia deixar ela dormir com a Erica e a Saad, primeiro, que ninguém ia dormir, você conhece nossa menina... — Abriu um sorriso, se sentando dentro do forte, sem tirar o bebê do seu colo.

— Frederíca...?

— Não, não me expulsou nem nada. Mas nós nos separamos, certo? É necessário dar um passo para consolidar a ação, ou ela pode só cair no abstrato.


Angra olhava para ela. Fazia sentido. Já estava prevendo Guilherme acordando e ignorando tudo o que tinham conversado na noite anterior, afinal, ainda estavam dividindo a mesma cama, nada tinha saído do lugar de fato.


— Sofía, ontem à noite...

Shssssss. Deixa te perguntar, o que você acha de a gente tomar café fora daqui?


Angra abriu um sorriso.


— Fora daqui?

— A gente leva a Estela, acha alguma padaria, toma café e conversa, o que você acha?


Angra achava uma ideia maravilhosa! Mais ainda com Sofía dizendo que só precisava lavar o rosto, escovar os dentes, só, tirou a camisa de Angra e ela sempre tinha alguma lingerie gostosa no corpo, Angra sempre ficava perdida com isso, amarrou a camisa na cintura, vestiu uma camiseta de alguém que encontrou pelo sofá, boné sobre os cabelos e ficou estilosa muito rapidinho, a coisa mais linda, que Angra não parava de apreciar. Sofía pegou Estela no colo, ainda adormecida.


— Não vai acordar ela não? — Angra mexeu naqueles cabelos bagunçados e deitou um beijo em sua testa.

— Ela precisa dormir mais um pouquinho. Eu a peguei quase uma da manhã.


Angra sorriu.


— Ela vai de pijaminha?

— Eu preciso de mais alguém de pijaminha junto comigo...


Ia de pijaminha. Um pijama-macacão do Stitch, azul, de capuz, que Estela simplesmente adorava. Sofía pegou a boneca de pano da Xêpa, também do filme que ela adorava e que Sofía andou a Colômbia inteira até conseguir comprar. Sua menina era diferente, merecia a boneca diferente por qual tinha se apaixonado. Saíram sem avisar ninguém, era muito cedo, foram até a garagem e Angra riu demais do jeito que Sofía tinha estacionado seu Giulia.


O carro estava em três vagas diferentes, simples assim, Sofía não estacionava muito bem, mas também não se permitia desenvolver essa habilidade direito, ela adorava viajar de carro, mas não podia fazer isso sozinha por este detalhe. Colocaram Estela na cadeirinha, ainda dormindo e seguiram pelas ruas apertadas da cidade, tranquilamente, conversando sobre qualquer coisa sem peso, lembrando de coisas boas, como a viagem a Paris enquanto uma determinada playlist dos anos 2000 tocava bem baixinho. Sofía amava as músicas dos anos 2000, amava.


I remember like it was yesterday, first kiss and I knew you changed the game, you have me, exactly, will you want it, and I'm on it... — Sofía cantarolava baixinho, sorrindo, olhando para Angra e a fazendo sorrir demais. Eu me lembro como se fosse ontem, primeiro beijo e eu sabia que você tinha mudado o jogo, você me tinha, exatamente, você queria e eu também quis...And I ain't ever gonna let you get away, holding' hands never made me feel this way, so special, it's your, it's your smile, we so in love...


E eu nunca vou deixar você partir, andar de mãos dadas nunca fez eu me sentir deste jeito, tão especial, é você, o seu sorriso, nós tão apaixonadas... Angra reduziu a velocidade, a orla de Búzios correndo ao lado, o vento, o sol subindo e seus lábios beijando a testa de Sofía, carinhosamente...


And I just can't get enough of your la la la la la... Yeah we so in love, love, I want you to know...


Achava que ela sabia, que era ela o seu amor, que junto com Estela, Sofía era a razão do seu nascer de sol todos os dias, que era tudo o que Angra já tinha sonhado na vida, que era parte do seu tudo, que era especial, a única que já tinha conseguido lhe derreter daquela forma. E que ainda não havia tido suficiente dela, que não eram uma deadline, que ainda haveria saída. Ela sabia? Os olhos de Angra se encheram ouvindo a música enquanto dirigia.


— Meu amor, o que foi? — Sofía a abraçou, se chegando para muito pertinho dela.

— Você sabe o quanto eu amo você? Sabe que é a minha coisa especial neste mundo inteiro?

— É claro que eu sei, linda. E eu quero que você saiba que eu adoro tudo sobre você, cada pedacinho, tirando um ou dois centímetros de indecisão, eu amo tudo sobre você... — Disse, a fazendo rir e, lhe roubar um beijo rapidinho, enquanto estacionava na padaria que tinham encontrado.

— Sofía... A gente veio aqui pra você terminar comigo?


Sofía abriu um sorriso, a beijando muito longamente outra vez. A mão na nuca dela, as mãos dela pelos seus braços, como tinha que ser, como sempre deveria ter sido.


— A gente veio aqui para tomar café com a nossa filha, pode ser?


Podia ser, apesar do aperto que Angra estava sentindo em seu peito. Desceram juntas, Sofía carregando Estela ainda dormindo, Angra a apoiando, a mantendo junto de seus braços, em seu ombro, a puxando pela cintura, sempre elegante e estilosa, ao lado de sua garota que ficava linda de qualquer jeito, imagine de moletom, camiseta e boné. Eram claramente um casal, possivelmente uma família, não precisava ser explicado. Pegaram uma mesa perto da janela, Angra foi fazer os pedidos no balcão enquanto Sofía ficou sentada com Estela em seu colo, o mar podia ser visto brilhando ao longe, era um dia bonito, tinha sua menina perto, não estava podendo reclamar de nada.


Logo Angra voltou, com um belo café da manhã e aquele sorriso pelo qual Sofía sempre se derreteria.


— Tem waffles, linda, pedi para fazer pra você, mais cinco minutinhos...

Waffles...? — Estela começou a acordar no colo de Sofía.


E acordou elétrica. Feliz em ver que estavam em outro lugar, que tinha pão quentinho na chapa do jeito que ela adorava, chocolate quente que ela se recusou a beber no copinho, apesar de Sofía ter trazido na bolsa, ela já era grande, conseguia beber o chocolate quente na xícara, ela reivindicou, fazendo Angra e Sofía morrerem de rir. Deixaram na xícara e dar conta daquela espoleta sempre seria para duas pessoas. Elas estavam dando conta, enquanto conversavam o que não haviam se dito na noite anterior.


— Antes de a gente vir pra cá, umas duas semanas antes, eu atendi uma ligação que não deveria. Frederíca estava no banho e estava esperando a ligação da editora espanhola, se eles lançariam “Vicentina” lá também. Como o número era desconhecido, ela me pediu para atender, e bem, era alguém que ela estava conhecendo, saindo, sei lá, alguém dizendo que tinha perdido o celular e ficaria naquele número, que era para substituir na agenda. Eu não disse nada para ela a respeito, não estava interessada e nem atingida, mas enfim, não estava com paciência e estava querendo um motivo para me isolar da Frederíca um pouco. Ela me deu, eu me isolei. Na tarde anterior ao nosso voo pra cá, outra situação aconteceu. Eu me recusei a participar de um churrasco e ela me disse que eu a fazia a passar por cada coisa. E eu retruquei dizendo que um dia, iria fazer ela passar por algo de verdade... Estela, bebê, não se inclina assim na mesa, é perigoso.

— A alien tem que comer, a Xêpa... — Era a boneca e Sofía nem sabia. A beijou, a puxando para o colo junto com a boneca.

— Então, continuando, ontem, ela disse que eu finalmente a fiz passar por algo de verdade.

— E ela te culpou?

— Não culpou. E eu disse que nem era o caso, você nunca foi uma vingança pra mim, de forma nenhuma. Não importa o que a Frederíca fez ou não, você é o meu amor, eu fiz por mim, não para ofendê-la ou me vingar dela. Eu me apaixonei por você, a culpa é disso. Me apaixonei e não quis abrir mão, é o resumo. E o Guilherme, estava muito chateado com você?

— Sofía, eu pedi o divórcio.

— Como...?

— Eu pedi o divórcio ontem. Não faz mais o menor sentido estarmos juntos, ele sabe disso.

— E ele reagiu...?

— Negando, chorando, foi dormir sem falar comigo.

— Ele nunca vai te dar o divórcio simples assim, Angra.

— Você achava que a Frederíca também não.

— Mas é diferente. Nós não temos raízes juntas. Não compramos um apartamento juntas, não tivemos filhos, sequer compramos um carro. Eu sabia que ela cederia se por acaso se apaixonasse por alguém e foi o que acabou acontecendo. Agora o Guilherme, não me parece ligar muito para paixão. Ele liga para conforto, para segurança, não para paixão. Para ele, tudo está bom.

— Mas pra mim não está.

— E você não conseguiu andar nisso até hoje. No fundo, está bom pra você e não, não é no sentido que está bom e que você está em plena felicidade, só está bom. Eu não estava num relacionamento bom e ainda assim, levou este tempo todo. Eu compreendo você.

— Não compreende não. Se compreendesse, não teria ido embora daquela forma de Brasília.

— Compreendo, mas não aceito. Há diferenças, Angra. Eu compreendo, mas não posso ficar mais.


Angra olhou nos olhos dela, enquanto Estela agora tinha descido e estava andando de pijaminha pela padaria.


— O que isso quer dizer?

— Eu... Decidi ir embora hoje. Depois que a gente voltar pra casa. Vi que tem um ônibus que sai às 14:00, eu vou para o Rio e vou pensando sobre o que fazer.

— Sofía, claro que não! Ainda temos quatro dias aqui, não faz sentido você ir embora antes. Você disse que a Frederíca reagiu bem, que está de boa com você, é mudar você de quarto...

— Angra, é mais do que isso, você sabe que é...

— Pãozinho um queijo! — Estela voltou para a mesa, se agarrando por Sofía — Pãozinho um queijo, mami, mami...


Sofía sorriu e a pegou no colo.


— Pãozinho de queijo, aqui, meu amor, com doce de leite?

— Também! — Ela respondeu, se agarrando no pescoço de Sofía, e Angra...


Não conseguia parar de olhar para ela.


— Fica por ela.

— Golpe baixo, pãozinho um queijo é irresistível.

— Mas Sofía...

— Linda, não tem mais clima, é o melhor a fazer.

— Mas vai pra onde? Fazer o quê?

— Eu vou pensar em tudo isso no ônibus.


E Angra não estava acreditando bem em tudo, mas sabia que era verdade, e que não podia ser mudado.


— Quando se tornou esta pessoa? Desprendida desta forma?


Sofía não sabia bem, mas era assim que estava se sentindo, desprendida.


E extremamente amada.


Ficaram na padaria um pouco mais, conversando um tanto mais, brincando com Estela, a vendo gargalhar, ela estava particularmente falante aquela manhã, risonha demais, com os cabelos de avelã ainda amassados e seu pijaminha azul. Angra insistiu na ideia de fazê-la desistir de ir embora, mas a tranquilidade de Sofía estava lhe assustando demais. Ela não parecia com alguém que iria mudar de ideia. Então, apenas cuidou de alongar ao máximo o tempo que teria com ela.


— Sabe o que eu acho? Vamos dirigir um pouco.

— Vamos, é?

— Você dirigiu bem ontem, e olha, dirigiu muito nervosa e se saiu muito bem. Só precisa de mais treino.

Sofía a olhou.

— Vai deixar eu dirigir o Giulia de novo?

— Eu só o tenho por sua causa, vamos, amor, pegar uma estradinha.


Estradinha. Era como ela chamava Sofía para passear nos meses que passaram em Cartagena. Pegaram Estela, a boneca alienígena, uma tapioquinha, alguns pãezinhos um queijo e foram para o carro. Angra estava falando sério, colocou Estela na cadeirinha e entrou no banco do passageiro, queria Sofía dirigindo e assim fizeram. Sofía era boa motorista, era cuidadosa, prestava atenção em tudo, só precisava ter mais confiança para dirigir e ali estava, saíram do centro e pegaram a orla novamente, em direção à saída da cidade, ouvindo suas músicas ano 2000, cantando juntas, ouvindo Estela cantando e brincando, e rindo de todas as coisas. Sofía já havia conhecido muitos países lindos, mas nada se comparava ao seu.


Angra foi lhe ensinando uma coisa e outra, sobre o carro, sobre a estrada, o que era importante Sofía prestar atenção, de que forma se portar numa coisa e outra.


— Ninguém acredita que eu aprendi a dirigir num Alfa Romeo, tá? Apenas para constar.

— E aprendeu na estrada! Lembra, linda? A gente precisava trazer ele pra casa...

— A Kalinka dirigiu de Cartagena até Porto Velho, quarenta horas, em uma semana e a gente dirigiu de Porto Velho até Brasília, cinco dias, trinta e quatro horas. Isso foi uma loucura total...

— E com você, coala! Sabia que você estava com a gente? — Perguntou, mexendo com Estela no banco de trás.

— A gente já fez tanto... E com este bebê aí com a gente. Você me ensinou a nadar, a dirigir...

— Você me ensinou a ter coragem, a fazer as coisas. Eu aprendi, está bem?


Sofía a olhou. E tão confiante estava que conseguiu beijar a mão dela e guardar pertinho de si enquanto dirigia.


O Giulia azul metálico enfrentou uma íngreme subida, a estrada ainda vazia, o sol subindo tão alto, o mar brilhando em diamante correndo ao lado. E foi tanta adrenalina que Sofía teve que parar em seguida, ainda com o coração disparado, sorrindo demais, sentindo o sol na pele. Tinham parado em um mirante, uma coisa bonita demais.


Então desceram, Angra comprou um aviãozinho de varetas e papel de seda para Estela pilotar no ar, subiu para ela e a subiu para cima do capô do carro, onde podia vê-la de perto e, fez o mesmo com Sofía. A empurrou para sobre o capô, sentindo as pernas dela lhe agarrem pelas pernas de imediato, os sorrisos, a proximidade, as mãos de Sofía tocando as laterais do corpo de Angra, onde sabia que ela era sensível e sempre ria, Sofía adorava vê-la sorrindo daquela forma e ali estava, sua atenção plena, absolutamente focada, sabia que ia lembrar daqueles minutos com tanta nitidez, que seria capaz de se transportar de volta para aquele momento. Para o Giulia, para a manhã perfeita, a vozinha de Estela pilotando o avião, a risada e a beleza de Angra.


Ela era uma parte enorme do seu tudo o que tinha. Ela segurou seus braços e lhe fez as cócegas de volta, fazendo Sofía se encolher inteira e gargalhar, até se agarrar nela, até deter aquelas mãos, até afundar o rosto pelo peito dela, pela camisa aberta e a brincadeira de fazer cócegas se tornar um abraço muito apegado, muito agarrado, que se resultou em beijos longos na testa, no rosto, em cheiros que não tinham limite, e nem prazo para enjoar. Angra pegou o celular e tirou algumas fotos, delas duas, de seu bebê-coala brincando atrás delas, fotos de apego, de risadas, sorrisos, de um amor que tinha exigido existir. Beijou a testa de Sofía, ela seguia agarrada em seu corpo inteiro.


— Ela nos vê com naturalidade — Sofía comentou, agora que Estela estava correndo um pouquinho com seu avião no ar.

— Ela nasceu nesta configuração, você sempre esteve presente. Eu não sei se você faz ideia de como ela ama você, mas ela ama tanto... Quer que você participe de tudo o tempo todo, morre de saudades.

— Eu sinto que ela ama. Como eu a amo demais. E sei também o quanto ela ama o Guilherme e sei o quanto você luta para não tirar isso dela, não só você, eu também. Mas Angra, a gente chegou até aqui tentando manter as coisas nos lugares certos e de repente, tudo parece absurdamente errado.


Angra sabia bem.


— Eu acho que vou fazer a rota sozinha, sabia? Alugar um carro e apenas ir, fazendo a Estrada Real, eu acho que consigo dirigir.

— É claro que consegue. Aliás, se você vai mesmo fazer isso, pega o meu carro.


Sofía a olhou surpresa.


— O Giulia?

— O fusca, vamos devagar, Sofía Gonzalez, bem devagar... — Disse, fazendo Sofía gargalhar — Você conhece aquele carro mais do que conhece este aqui, é pequeno, você não vai ter dificuldades de estacionar e... Você vai sozinha mesmo? Eu confesso que fiquei um pouquinho nervosa com aquela história de outra blogueira...


Sofía a agarrou mais, gargalhando!


— Você ficou, meu amor?

— Basta a Frederíca e tudo o que ela me fez passar. Eu sei que sou bem julgada por causa do Guilherme, mas ele é homem, não é minha natureza preferencial, até quando nos conhecemos tudo foi muito controlado e padrão, nunca teve ardência, já você e a Frederíca...

— Angra, sexo com tesão é muito gostoso, mas sexo com amor, apego, tesão, tudo junto... Não tem comparação não. Sabe quando a gente está fazendo o nosso amorzinho, todo intenso, todo apegado e gostoso, e no final, terminamos suadas e abraçadas, tão grudadas uma na outra que parecemos uma só? E a sensação é tão gostosa que a gente só quer dizer que ama, que adora, que não vê a vida uma sem a outra...


Angra derreteu sorrindo.


— E isso é só nosso?

— Claro que é, linda.

— Então, você já tem a sua ex-safada, não quero este cargo e nem quero... Você sabe...

— Sei. E Angra, eu verdadeiramente acho que isso vai ser bom pra gente.


Angra só podia confiar. E era hora de voltar pra casa.


Ligaram os celulares, já havia bastante pessoas preocupadas com o sumiço das três, mas tinham sido cinco horas de muita paz e muitas risadas, precisavam, as duas sabiam disso muito bem. Angra fez sua última tentativa de fazer Sofía ficar, no caminho de volta, mas nada. Ela estava decidida. Estacionou o carro na garagem e antes que descessem, Angra a segurou pela mão:


— Eu nunca mais vou te pedir em namoro. Da próxima vez que te pedir alguma coisa, será em casamento.


Sofía beijou a mão dela e em segredo, desejou que pudesse ser assim.


Entraram, e tudo seguia bem normal pela casa. Pelo que entenderam, estavam se arrumando para irem para a praia, e sendo assim, Sofía conseguiu passar praticamente invisível em direção ao seu quarto. Tomou um bom banho, e então, veio arrumar suas coisas. Não eram tantas e enquanto arrumava, se deu conta de que também não precisava de nada além do que tinha levado.


Quando terminou de colocar as coisas em sua mochila e fechou sua mala, tomou sua primeira decisão:


Não voltaria para a Colômbia tão cedo. Tinha roupas suficiente, todos os equipamentos importantes, não precisava de muito mais. Terminou de se vestir, top preto, uma jardineira saia verde-oliva, tênis nos pés, cabelos soltos e, seu quarto foi invadido duplamente: Kalinka e Frederíca.


Tentativas para que Sofía ficasse, Frederíca não tinha ideia de que ela iria embora, Kalinka menos ainda e o plano que ainda não tinha um destino certo, deixou as duas extremamente desconfortáveis.


— Sofía, você não precisa sair assim! — Frederíca estava tendo uma coisa com aquela decisão — A gente conversou, não conversou? Ficamos bem, guapa... — Colocou as mãos na cintura dela — Por favor. A Estela está aqui, o seu bebê.

— Eu sei. E ficamos bem, Fer, você e eu. Mas eu quero. Eu preciso... Me colocar no lugar.


Kalinka respirou fundo ao ouvir a falta de planos também. Sofía era capricorniana com ascendente em virgem, ela nunca saía nem até o mercado sem um plano.


— Olha, por que você não me diz para onde quer ir e me deixa te levar? A gente pega a estrada, você relaxa, coloca as ideias no lugar, a gente faz isso quando os dias terminarem aqui...


E Sofía não respondeu nada. Apenas beijou o rosto de Kalinka, fez o mesmo com Frederíca e, saiu do quarto. Desceu as escadas já chamando um Uber e a despedida de Angra foi apenas visual.


Um único olhar. Nada de beijo final.


Sofía foi embora. E Angra teve que mais uma vez, arrumar um lugar onde pudesse chorar.


Procurou lugar, achou, se escondeu feito uma adolescente num canto do banheiro e recebeu uma mensagem dela. Uma música enviada, “Halo” e a mensagem:


“Eu sou viciada na sua luz. Encontrei o meu anjo em você. Obrigada por todas as coisas”.


Agora sim.


O término.

Notas:


Olá, pessoas!


Aqui chegamos, a um inevitável capítulo 19, e com ele, posso dizer oficialmente que fechamos a primeira parte de “Angra”. O quartevois do capítulo anterior se consolidou e a partida de Sofía era esperada, ao menos também, que acho que para alguma de vocês, o sentimento era igual ao de Angra: ela não vai, ela ainda não vai.


Mas nossa co-protagonista partiu, em busca de arrumar sua própria bagunça interna e descobrir do que ela pode ser capaz sozinha. Sofía é uma moça corajosa e do mundo, mas que ainda assim, não se reconhece muito bem como capaz estando por sua própria conta.


Qual será o caminho dela daqui pra frente? O que apostam que vai acontecer nessa audaciosa viagem pela Estrada Real? E nossa protagonista? Como acham que vai reagir a esta decisão?


Próximo capítulo, “Angría”, vamos iniciar a segunda fase da história por uma breve viagem no tempo com destino a Cartagena e há um mistério que perdura desde o capítulo 1: Afinal, como a personagem mais adorada desta história, também conhecida como criança das cavernas, nasceu colombiana?


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