Angra: Capítulo 22 - Estela



O tempo passou diferente dentro daquela ambulância.


A questão toda é que Sofía havia pesquisado tudo o que poderia a respeito de gravidez e trabalho de parto, e mentalmente, mapeou todas as maternidades de Cartagena por motivo nenhum, apenas de passar em frente e lembrar que Angra estava grávida. Não iria questionar o acontecido, afinal, havia acontecido também de algo lhe colocar no caminho de Angra em Abrolhos, um ponto totalmente fora da curva das duas, o que era isso diante do fato de Sofía ter memorizado todas as maternidades de sua cidade? Ou o número do serviço de uma emergência específica? Refletia sobre isso enquanto dentro da ambulância, não largava a mão de Angra de maneira nenhuma.


Ela estava bem, mas não conseguia falar. Tinha ido direto para o oxigênio, estava com dificuldades de respirar, mas estava acordada, atenta, os olhos não abandonavam os olhos de Sofía nem por um segundo. O que ela estava vendo? Sofía fez uma anotação mental para perguntar a respeito depois, porque Sofía estava vendo algo naqueles olhos que amava para além do olho degradê que sempre via, era algo ainda mais bonito, mais doce, algo que ela nunca, nunca esqueceria.

Sofía também não disse nada, sentia que não precisava, Angra se mantinha em seus olhos e num sorriso doce por baixo da máscara de oxigênio. Ela estava tranquila, e de maneira inesperada, Sofía também estava, era quase como se... Tivesse que ser assim. Que as duas soubessem e sendo assim, não havia motivo para nenhum desespero.


Angra sentia sua filha forte e segura, isso também tão pouco fazia sentido, ela apenas sabia.

Chegaram ao hospital e enquanto corria-se pelos corredores com sua maca, Angra começou a se sentir mais zonza. As paredes brancas, o idioma que não compreendia, Sofía, onde estava, a mão de Sofía, onde...?


— Aqui, meu amor. Vão levar você para fazer alguns exames, está bem?

— Você tem que vir comigo... — Sussurrou por baixo da máscara quando a maca parou de correr e, Sofía se abaixou junto dela, lhe tocando os cabelos, vendo aqueles olhos degradê ainda mais de perto.

— E você acha que há motivo no mundo que me faça soltar de você agora? Eu amo você, está tudo bem, essa menina que está animada para nascer colombiana, obstinada feito a mãe... — Disse, arrancando outro sorriso luminoso de Angra.


Mais olhares de perto, o olhar para dentro, a conexão, o amor. Sim, qualquer um que visse teria a mais absoluta certeza de que o amor sobrava ali.


Angra foi levada para exames emergenciais e tudo parecia extremamente... Normal. Sofía ouviu os médicos, Estela estava em posição de parto, o corpo de Angra parecia pronto, as contrações aumentando, tudo parecia no lugar, normal, como um parto de nove meses costuma ocorrer. As horas seguiram passando diferente, nem Sofía e nem Angra lembraram de celulares, de avisar qualquer pessoa que fosse, naquelas horas que precederam o parto de Estela, apenas ficaram juntas, Angra agarrada nas mãos de Sofía, nos punhos dela, naquele olhar de serenidade. Desde quando engravidara, o medo do parto lhe fazia refém noite sim e noite não, mas agora a única coisa que Angra conseguia pensar era em sua Estela, era na ansiedade de encontrá-la, a dor era algo tão sobre-humano que por questões de sobrevivência, acreditava que seu corpo não estava a processando completamente.


Houve uma discussão breve sobre o tipo de parto. O parto cesariano é mais cômodo para médicos e o bebê, mas nem sempre é para a mãe, tal como o parto normal nem sempre é a melhor opção para todos também. O que Angra queria?


Estela estava em posição, o corpo de Angra também estava, não viu sentido em outra opção.


Cinco horas depois, em 06 de dezembro de 2015, às 12:15, na cidade de Cartagena das Índias, nasceu Estela Garcia Fernandes, com dois quilos e trezentos gramas, pequena, mas nem tanto, sagitariana, de choro nervoso, nascida de parto normal e, humanizado. O máximo que haviam conseguido que fosse, dada a prematuridade da situação. Era algo que Angra queria, Sofía sabia e naqueles cinco minutos em que saiu para buscar um hospital, buscou por um com esta prática. Estela veio ao mundo numa sala mais escura, tal como o útero de sua mãe, ao som de música celta, com uma doula e uma equipe médica por perto, doula e equipe que só falavam espanhol, mas não importou muito, eles falavam, Sofía sussurrava de volta, no ouvido de Angra, a apoiando, a mantendo muito perto, muito segura, na mesma energia.


Quando Estela nasceu, Angra perdeu a última energia. Pôde ouvir seu bebê chorando e achou que ela veio para o seu peito, mas não pôde abraçá-la. Estava sem ar, sem energia, precisou ser atendida e sabia que iria apagar, mas apagou feliz vendo que ainda com o cordão umbilical, Estela por segundos, foi parar nos braços de alguém que a amava.


Nos braços de Sofía.

📚


Quando Angra acordou, não sabia exatamente onde estava. Levou um tempo para lembrar das coisas, para que tudo começasse a fazer sentido. Estava num quarto em que não conhecia, porque estava numa cidade que não conhecia e, tinha tido sua Estela? Abriu um sorriso porque achou que estava vendo algo apenas na sua cabeça...


Era Sofía, pertinho da janela, sentindo os suaves raios de sol, de short jeans e, uma camisa sua? Parecia sua e quando ela lentamente se virou de lado, pôde ver que ela tinha um filhote de canguru em seu peito.


Sofía... — A chamou baixinho, do jeito que a máscara de oxigênio permitia.


E ela olhou em sua direção, com o sorriso mais lindo do mundo naquele rosto que tanto amava.


— Ei, minha linda... — Veio para perto imediatamente, sentando-se na cama, se curvando devagar com o bebê no peito para beijar a testa de Angra carinhosamente... — Bebê coala, mamãe acordou, veja só...

— Sofía, ela...? — Os olhos de Angra se encheram imediatamente, só de perceber seu bebezinho ali, tão perto, tão...


No mundo!


— É perfeita. Nasceu pesadinha o suficiente, brava o suficiente, respira muito bem e, gosta de dormir mais do que você pelo que pude perceber. Linda, fica aqui, deixa eu chamar a enfermeira para ver você...


Chamou a enfermeira, que ajudou Angra a sentar, que testou se ela já estava respirando melhor, parecia que estava, apesar de estar fisicamente exausta.


— Eu não sei se... — Conseguia segurá-la, suas mãos estavam trêmulas e Angra se sentia incapaz de levantar-se sozinha.

— Vou te ajudar com ela.


Sofía lhe ajudou a sentar numa posição confortável em que Estela pudesse simplesmente recostar em seu peito, pele na pele e aquela sensação...


Ah, não, aquela sensação não esqueceria jamais. Angra começou a chorar.


— Ei, meu amor... — Sofía sorriu, beijando a testa dela novamente.

— Ela... Nasceu. E é perfeita, ela... É perfeita... Não precisou de UTI?

— Precisou, mas basicamente só da incubadora, para manter a temperatura agradável para ela. Ela respirou bem, os pulmões estão bem formados, você já estava com 32 semanas e a doula disse que Estela já estava impaciente aí dentro de você, por saber que já estava pronta para dar uma volta aqui fora — Contou sorrindo, vendo Angra acariciando seu bebê pela primeira vez.

— Ansiosa...

— E linda, igualzinha a mãe.


Angra olhou para Sofía. E a puxou pela nuca, a beijando, a mantendo muito pertinho enquanto sentia as batidas do seu coração suavizarem em virtude de estela.


— Linda, isso, isso não foi hoje, né...?


Sofía riu, beijando a mão dela.


— Esta é a segunda noite. Ela ainda não havia saído da incubadora até então, precaução, ficou em observação, eu demorei para conseguir falar com o seu médico e, você está amamentando, está bem? Retiramos o leite e...

— Você cuidou dela. Linda, eu prejudiquei o nascimento dela? Você perguntou sobre isso? Como sabia que eu estava em trabalho de parto?

— Eu realmente estudei muito sobre gravidez — Outro sorriso, outro carinho — Eu li sobre os sinais de parto, sobre parto prematuro e em algum lugar eu li que essa questão de partos prematuros pode ter origem genética. E você nasceu prematura, uma prematura forte, pesada o suficiente, que dispensou a UTI. Eu sabia que você queria um parto humanizado, e lembrei deste hospital aqui.

— Está usando uma camisa minha?

— É para ela se acostumar com o seu cheiro, eu fiquei preocupada com isso.


Ela parecia preocupada com tudo e Angra nem sabia.


— Amor e... E todo o resto? Você disse que falou com o meu médico e a minha família deve estar louca atrás de mim...

— Eu imaginei que estaria. Então, liguei para a única pessoa que eu conheço que sabe da minha existência na sua vida.


Angra riu.


— Ligou para minha mãe?

— Liguei, assim que o bebê nasceu. Liguei pra ela, me apresentei, contei o que estava acontecendo da maneira mais calma que consegui, e ela e eu concordamos imediatamente que você é louca e daí pra frente, a conversa funcionou muito bem. A tranquilizei, você teve um esgotamento físico e a sua asma se aproveitou do momento. Os médicos acharam melhor você se recuperar naturalmente, já que não estava apresentando nenhum risco para si mesma e eles não tinham históricos seus, alergias, patologias, eu também não tenho tudo isso, já anotei para ter. E enquanto isso, já fiz chamadas de vídeo com a sua mãe, com a Carolina, com o seu irmão Matias, seu pai disse que você vai ficar de castigo quando voltar e todos eles se derreteram por essa coisinha linda aqui. Não foi, filhotinho? — Cheirou o bebê, deixando Angra...


Com os olhos cheios. O coração transbordando. Como podia existir tanto amor assim dentro de um quarto?


— E, ela conheceu o papai.

— Você...?

— Chamada de vídeo com ele também. E ele apenas ficou imensamente emocionado, enormemente grato, em uma felicidade tão intensa que ele sequer perguntou qualquer coisa mais. Só quis saber da Estela, saber de você.

— E ele?

— Disse que vem, semana que vem, precisou de um tempo para arrumar as coisas no trabalho e, Marcela verbalizou que se a moça nova não for espetacular, vai separar de você assim que você retornar — Mais sorrisos, de Angra, de Sofía e, Estela decidiu acordar.


E Angra chorou mais, vendo todos os detalhes do seu bebê, o quanto era linda, o quanto tinha um cheirinho só dela, os cabelos bem castanhos, avelãs, Sofía lhe corrigiu e da mesma maneira que Angra não sabia como podia haver tanto amor no mesmo quarto, também não sabia que era possível ser tão feliz da maneira que estava sentindo.


Conseguiu comer alguma coisa enquanto vieram trazer o alimento de Estela antes de ela voltar para sua incubadora. Acharam melhor não tentar a amamentação direta ainda, Estela estava em aprendizado, aprendendo a sugar e, era melhor que Sofía o fizesse. Já estava fazendo desde a noite anterior e aquela cena em si, encheu os olhos de Angra mais uma vez. Não fazia ideia... De que aquela era uma realidade muito real mesmo. Tudo ainda parecia... Surreal demais.


— E a Frederíca? — Perguntou, depois que seu bebê voltou para o casulo.

— Já veio aqui, já viu o bebê, disse para eu cuidar de você, porque aparentemente tudo fica ainda mais bizarro depois do nascimento...

— Ela disse “bizarro”?

— Disse. E que você não tem que passar por isso sozinha. E ainda que não tivesse dito, você acha, meu amor? Que eu deixaria você sozinha aqui? No momento que fica mais bizarro?


Angra sorriu, os olhos brilhando, sentia como se não parasse de brilhar nem um segundo.


— Parece um sonho.

— Eu sei.


Os três próximos dias foram os mais bizarros mesmo. O corpo de Angra estava diferente, se comportando de maneira inesperada e esperada, afinal, havia acabado de dar à luz a uma coisa linda e era simplesmente...


Linda, é bizarro mesmo, Frederíca tem toda razão... — Angra estava em posição fetal na cama, tudo doía, absolutamente tudo.

— O que você está sentindo, amor? — Sofía estava do seu lado, claro, não importava que fosse duas da manhã, ela estava acordada, lhe cuidando, lhe apoiando e Angra nem sabia qual havia sido a última vez que ela tinha dormido. Achava até que tinha sido aquela noite no hotel.

— É uma dor, uma cólica, eu não sei...

— É seu útero retornando para o tamanho original — Sofía deitou-se por trás de si, calidamente lhe abraçando de conchinha — Você já conseguiu ir ao banheiro hoje, o sangramento melhorou, está tudo como o esperado.


Angra abraçou os braços dela em si.


— Pode ficar aqui?

— Eu estou aqui, linda.

— Não, Sofía, ficar aqui, assim, comigo aqui.


Sofía beijou a nuca dela carinhosamente.


— Claro que posso. Tenta dormir, está bem? Estela vai precisar mamar em duas horas.


E desta vez, finalmente, Angra conseguiu amamentá-la sozinha. E amamentar foi uma sensação que... Era maravilhoso e, doloroso. Quando Estela terminou de mamar e foi para os braços de Sofía, Angra não conseguia parar de rir.


— O que foi agora, Angra? — Sofía estava andando de um lado a outro com sua coalinha, que tinha se alimentado, e claro, já estava dormindo novamente.

— Isso é doloroso! — Seguia rindo — É romantizado e dói demais.

— Não é confortável, né?

— Não é. É necessário, mas é doloroso. Será que melhora? Pergunta pra enfermeira depois...

— Vai melhorar, mas ainda será dolorido provavelmente — Contou, fazendo uma cara de dó.

— Você pesquisou também...

— Eu pesquisei tudo, estou vendo o quanto que foi útil ter pesquisado tanta coisa aleatória...


Foram seis dias de descobertas. Angra foi se sentindo mais forte com o passar dos dias, mas os ajustes do seu corpo era algo que realmente não esperava. Sentiu muita dor, vários desconfortos diferentes, tudo em volta parecia ter outra densidade, outra textura e cada vez que Estela era retirada da incubadora para se alimentar e passar um tempo consigo, ainda parecia... Uma loucura. Aquele bebê estava no mundo. Tinha sido gerado dentro de si e agora de repente... Estava do lado de fora. Respirando, olhando, agarrando seu seio, seu dedo, seu amor. E mais surreal do que isso, era erguer os olhos e ver Sofía bem ali, pertinho de si, cuidando das coisas, se dividindo em resolver hospital, comprar as coisas que Estela precisava, as coisas que Angra precisaria, cuidando das suas entregas no trabalho e retornando, para cuidar de Angra, passar tempo com o bebê, dormindo numa poltrona, num sofazinho apertado, estava tudo bem para ela. Angra tinha atropelado sua vida novamente e, estava tudo bem para ela.


Não refletiu muito sobre a loucura que tinha feito. Estela estava bem, Angra estava bem, havia uma bagunça enorme ao redor de si, mas de alguma maneira, sentia que precisava ser assim. Não estava sentindo culpa, nem pelo parto prematuro e nem pela bagunça, conversou com o seu médico brasiliense, que conversou com seu médico colombiano improvisado, a medicina podia prever quase tudo, mas o corpo humano sempre apresentava alguma surpresa. É provável que Angra também entrasse em parto prematuro se tivesse continuado em Brasília? Era uma pergunta sem resposta. Por hora, o que sabia é que Estela estava bem e que Sofía estava do seu lado. Aceitou as coisas como elas foram e apenas se permitiu ficar grata por cada vírgula daquela história.


Porém, Sofía delicadamente lhe sugeriu que pudesse falar com a sua terapeuta.


— Quer ter certeza de que está tudo bem?

— Às vezes, nem você sabe que não está tudo bem. Vamos marcar uma sessão por vídeo?


Marcaram, e sua sessão com Catarina foi maravilhosa. Contou tudo o que tinha acontecido, todos os sentimentos bagunçados por dentro e havia algo que estava camuflando sim: Estela ter nascido longe de Guilherme. Era algo que teria que cuidar, sabia, e pelo que lembrava, esta foi a primeira vez que Angra se sentiu literalmente, dividida em duas vidas. Estava imensamente feliz por Estela ter nascido perto de Sofía, mas estava triste por ela ter nascido longe de Guilherme.


Porém ele só chegou na semana seguinte e Angra ainda estava tentando entender a demora. Apesar de não se sentir em condição de cobrar qualquer coisa que fosse. Ele conheceu Estela na incubadora, ela ficaria ali mais uns dias ao menos, era mais confortável para ela apesar da capacidade de respirar sozinha e de já estar mamando. Mais tarde, ele pôde pegá-la no colo muito sem jeito e muito feliz, Angra sabia que ele estava feliz, apesar de não saber exatamente o cenário que teriam pela frente.


— Você só tirou a licença?

— Eu não tenho como tirar férias agora, Angra. Estamos num momento muito importante na empresa, é importante pra gente, pra Estela.


Achou que seria o que ele iria dizer. Angra também estava passando por um momento importante em sua empresa, mas nem valia a pena argumentar.


— Você sabe que ela só vai poder voar com mais de três meses, não sabe?


Não, ele não sabia.


— Eu... Eu nem pensei nisso. E como você vai fazer?


Angra sorriu, olhando para baixo.


— Eu ainda não sei como vou fazer. Achei que você pudesse pensar em algo comigo, achei que viria de férias.

— Ninguém estava esperando uma situação assim. Sabe se alguém pode vir ficar aqui com você? Da sua família? Quem sabe a Carolina, não sei...

— Eu... Eu vou pensar em alguma coisa.


Houve um silêncio.


— Você está bem? O hospital é bom?

— É bom sim, deu tudo certo. Estou me sentindo bem agora, apesar de ter sido mais difícil nos primeiros dias.

— Quando vão trazer ela aqui pra você novamente?

— Em uma hora mais ou menos.

— Vou aguardar então, para eu ficar com ela, a gente tirar algumas fotos, meus pais estão loucos para ver ela um pouco mais...


Ele ficou até a próxima hora, tirou as fotos que queria, ficou curtindo Estela, fez algumas chamadas de vídeo e quando anoiteceu, anunciou que iria para o hotel.


— Pra você ficar mais confortável. Sofía vai voltar, não vai?


Para sorte de Angra, ela voltou com algumas coisas de Estela e já não encontrou Guilherme no hospital.


— O que aconteceu?

— Ele... Ele foi para o hotel.


Ela apenas lhe olhou. Não disse nada, sabia que Angra estava numa situação bastante desconfortável, não é que quisesse mesmo que Guilherme tivesse ficado, mas a falta de inclinação dele em ao menos sugerir isso, lhe deixou quase envergonhada diante de Sofía. Sabia que ele não tinha feito por mal, ele realmente deveria estar perdido sobre o seu papel naquela situação e a ausência geral de homens naquela maternidade, contava a Angra que ele não era o único.


O parto era íntimo, feminino, a gravidez era assim também, por mais que pais sejam presentes neste momento, ainda assim, sempre serão o estranho no ninho formado pelo corpo da mulher e seu bebê. Guilherme lhe acompanhou em suas consultas sempre como espectador, um ouvinte, de participação limitada, ele nunca sabia o que perguntar, ou se tinha que perguntar algo. Angra não sabia se podia ter feito algo para que ele se envolvesse mais e agora se perguntava se as tentativas dele de partilhar o momento com os outros poderia vir disso.


Uma forma de ele participar, de se mostrar presente. Não andavam conversando, sabia disso também, as conversas eram sempre sobre o quarto do bebê, a sessão de fotos newborn, as consultas que tinham que ir, os jantares que ele andava promovendo, o negócio de Angra, o negócio dele. Angra teve uma gravidez relativamente tranquila, sem enjoos, sem mal-estar, sem grandes sustos. Ele cuidava do que ela permitia. E isso lhe fez chorar no banho aquela noite.


— Angra, você precisa de ajuda? — Ela não respondeu e Sofía desconfiou do que estava acontecendo — Linda, se você precisa chorar, pode fazer isso comigo, não tem problema.


Ela ficou quieta. E então, destrancou a porta e abraçou Sofía.


Molhada, nua, longamente. Seu corpo estava bizarro, mas não fazia mal, era Sofía, não precisava se esconder, se sentir desconfortável, isso não cabia ali naquela relação. Ela lhe acalmou, ajudou a terminar o banho, lavou seus cabelos, pediu um chá para elas duas no pós-banho. E então, conversaram. Uma conversa difícil e muito desconfortável, muito sem jeito.


— A previsão é que você já tenha alta médica depois de amanhã. E a Estela, em uma semana, ela já nasceu com um peso confortável e está ganhando mais, nasceu com os pulmões desenvolvidos, eles estão convencidos de que ela pode ir pra casa nesse tempo.

— Mas que casa? Sofía, eu não sei o que vou fazer, ainda não tinha parado para pensar nisso e...


Sofía pegou as mãos dela.


— Escuta, nós vamos resolver. Eu estava jantando com a Frederíca antes de vir pra cá e ela veio com uma novidade.

— Que novidade?

— Nós estamos com uma viagem marcada para a Espanha, em dois dias. Ela me perguntou se eu me importaria de ela ir, uma vez que eu não posso deixar você sozinha aqui, com o bebê, sendo que você só conhece a mim aqui nesta cidade...


Angra cruzou os olhos dela.


— Ia viajar sem me dizer?

— Por três meses. Ela veio com essa ideia, de pegar um Airbnb em Maiorca para terminar o livro novo, eu poderia fazer algumas viagens por vilarejos perto, escrever mais postagens e isso me manteria ocupada, enquanto a Estela nascesse. Mas agora, o bebê nasceu aqui — Abriu um sorriso ao dizer — E a Frederíca está bem animada em viajar sozinha, por este tempo todo, enquanto eu fico aqui com você. Me fala, você vai pedir para alguém vir? Afinal, serão no mínimo três meses.

— Eu não tenho quem possa vir. Minha mãe deve vir me visitar, mas não ficar, você sabe como minha mãe é...

— A carreira sempre na frente.

— Carolina mesma coisa, disse que vai tentar uns dias de férias, mas não sabe bem ainda, e...


Sofía a beijou, suavemente.


— Você não tem que se preocupar. Se ninguém puder vir, eu estou aqui. Vamos resolver, está bem?


Angra a abraçou, muito longamente, chorando muito de novo, mas não fazia mal. Podia chorar com Sofía, ela entendia e queria resolver as coisas ao seu lado. E foi assim que procederam. Guilherme apareceu no dia seguinte, passou o dia com Angra e com o bebê, enquanto Sofía cuidava de coisas externas. Novamente, ele partiu durante a noite e o dia seguinte reservou um encontro inesperado.


Frederíca apareceu.


Com flores, bichinhos de pelúcia, morangos para Angra, sempre bonita, de jeans, camisa esverdeada, repuxada até os cotovelos, as tatuagens em evidência e a simpatia de sempre. Cumprimentou Angra e então Guilherme, parabenizando os dois pelo bebê e a conversa puxada foi mais do que agradável. Sofía também estava presente, porém, bem menos eloquente, ela ficava mais quieta na presença de Frederíca, Angra já tinha notado, mas não desconfortável. Era mais... Dando palco a ela. A artista, a escritora, a mais agradável de se dar, era um comportamento que estava chamando atenção de Angra.

Frederíca e Guilherme se deram bem de cara e foram unidos por uma coincidência: tinham voos nos mesmos horários. Frederíca passaria em casa para pegar sua mala e então, podia pegá-lo no hospital, ficou acertado assim. Ele retornou para o hotel, para pegar suas coisas também e checando o horário, Frederíca também precisava ir embora para não se atrasar. Se despediu de Angra e foi se despedir de Sofía lá fora, o que deixou Angra...


Sério? Sentia algo na sua espinha só de imaginar Sofía aos beijos com Frederíca do lado de fora do seu quarto. Mas se comportou. Até mesmo porque, dez minutos depois, Sofía voltou, com Estela contra o seu peito no método canguru com o qual as duas já estavam tão habituadas.


— Olha quem chegou...


E isso causou um sorriso imediato em Angra, que puxou Sofía para perto com sua pequena coala, que era tão preguiçosa para acordar que nem acreditavam. Os olhos brilhando, os sorrisos abertos, aquela conexão entre elas duas e aquele bebê. Frederíca tirou uma foto, da sua visão do corredor para a porta aberta.


Dava uma cena linda, não podia deixar passar.


Mais tarde, foram brindadas as duas com uma foto no Instagram de Frederíca, dela e de Guilherme em um dos inúmeros bares de Cartagena, bebendo cerveja colombiana, comemorando, é claro, o nascimento de Estela. E foi tão esperado e inesperado que elas duas nem sabiam, Angra acabou rindo e Sofía, ia fazer o quê? Era Frederíca Gonzalez.


— A melhor anfitriã que você possa imaginar, ela é assim, Angra. Espero que não se importe.

— Eu não me importo, mas ia morrer se ela tivesse levado você para esse bar duvidoso aqui — Angra respondeu sorrindo — Ela está diferente, não está? — Se referia a Estela, que tinha acabado de ser devolvida para sua incubadora-carrinho, para ser levada de volta.

— Está. Nasceu um ratinho e agora já é um bebê-coala — Sofía sorriu olhando para o bebê um pouco mais — Acredita? Que já faz duas semanas? Tem todo este tempo e tudo ainda parece irreal para mim.

— Nem me diga. Como nós vamos fazer, Sofía? Depois da alta, eu não faço ideia...


Sofía sorriu, sentia que nunca mais havia parado de sorrir desde a chegada súbita de Angra em sua porta.


— Olha, você chegou até aqui e a gente pouco planejou. Eu vi alguns lugares, porque não sei se você se importaria de ficar no meu apartamento com a Frederíca, você se importa?

— Eu não sei, você se importaria?

— Eu também não sei, é uma situação bem atípica. Olha, vamos esperar até amanhã, a gente vai pra casa e descobre como será. De qualquer maneira, a gente vai passar mais tempo aqui do que em casa, se eu não consigo deixar a Estela aqui, imagina você. Vamos revezando as noites, vai ficar tudo bem.


Fizeram assim, decidiram deixar para compreender no dia seguinte. Angra fez alguns exames e teve alta antes do meio-dia, e foi esquisito demais sair do hospital sem Estela. Voltariam em breve, tinham uma rotina a seguir com ela, hospital humanizado, tratamento humanizado, sairiam para levar as coisas de Angra para o apartamento, tinham decidido ao menos tentar o apartamento, Sofía faria algo diferente para Angra comer, que já estava exausta da comida de hospital e voltariam em breve. E então, que já dentro do carro, Sofía recebeu uma ligação.


E ela estava desesperada. Sofía falou com ela três minutinhos e Angra achava que tinha trocado a direção em que iriam com o motorista.


— Linda, eu posso cuidar de você na casa da Kalinka? Ela separou e não foi nada tranquilo.

— É você quem me diz, se eu posso ir, nesta situação.

— Vocês duas já passaram do tempo de se conhecerem. A gente resolve lá, almoçamos e voltamos para o bebê, tudo bem?


Então, a casa de Kalinka. Quanto mais se aproximava, mais Angra se identificava e quando pararam em frente ao lugar, parecia um recorte de algum dos seus sonhos. Era uma casa de dois andares, com uma garagem ampla e o andar de cima todo feito em vidro, como se fosse um grande aquário suspenso. Passaram pela garagem e, um determinado carro azul seduziu os olhos de Angra enquanto Sofía buscava as chaves na bolsa.


— Tinha que ser.

— Quê?

Alfa Romeo Giulia, é um carro feminino... — Disse, fazendo Angra sorrir.


E quando a porta se abriu...


Que privilégio. Podia ser ver o mar pelas paredes transparentes da sala. Sofía beijou Angra, pediu para ela ficar à vontade e foi atrás de Kalinka no quarto. E Angra não fazia a mínima ideia de como tinha acontecido, mas quando deu por si, Sofía estava lhe acordando com um beijo no sofá.


— Ei, linda, pegou no sono.

— E no sofá da Kalinka que nem me conheceu ainda, meu pai...


E lá estava a moça, meio grega e meio brasileira, com um sorriso enorme lhe oferecendo um abraço. Os olhos estavam inchados, ela estava chorando há tempo suficiente, ninguém precisava contar.


— É um prazer enorme conhecer você! — Angra disse para ela sorrindo.

—Te digo a mesma coisa, Sofía fala tanto de você, mas tanto que sinto inclusive que já te conheço! Desculpa não ter ido até o hospital, mas essas duas semanas foram muito complicadas para mim.

— Não se preocupe com isso, de verdade.

— Bem, mas eu me preocupo e ouvi dizer que você é amante da cozinha do Mediterrâneo! Mas já provou a cozinha do Pacífico? Vou preparar um almoço decente pra gente, pra você, Sofía e a Estela me perdoarem...


Ela preparou um delicioso almoço para elas três, a casa era aberta, atravessaram a sala até a cozinha, onde puderam cozinhar e conversar ao mesmo tempo. Kalinka contou de sua separação, Angra sobre como havia ido parar ali, Sofía do nascimento de Estela e da situação em que agora estavam.


— Eu tenho uma proposta — Kalinka disse, enquanto já almoçavam um consomé de mariscos maravilhoso com um peixe regional grelhado — Por que vocês duas não ficam aqui? Esta casa é enorme e eu estou aqui chorando sozinha por estes cantos. Tenho três quartos, é espaço mais do que suficiente, o hospital fica a cinco minutos daqui, é um convite, uma ideia, o que acham?


As duas se olharam. Achavam que de fato, quando se tratava delas duas, cada coisa acontecia da maneira que deveria acontecer.

Notas da autora:


Olá, meninas!


Olha que eu avisei vocês, hein? Marca de comentários não atingidas e ficamos sem este capítulo tão delicado na terça-feira. Confesso que este capítulo, eu escrevi sorrindo do começo ao final, com o coração apertando aqui e ali, mas sorrindo em sua maior parte. O nascimento de Estela foi um marco para Angra e para Sofía também, foi um elo que apertou um relacionamento tecnicamente muito curto, de menos de 11 meses, mas que fincou suas raízes de maneira muito profunda quando mesmo sem querer, compartiram um momento tão importante.


A vida é feita de momentos e para mim, este momento em si, cravou Angría como um casal, em definitivo. Tirou as duas da esfera do virtual e trouxe para o mundo real, do cotidiano e é exatamente isso que veremos mais no próximo capítulo 😊.


Entonces, next chapter, “O Pacífico”, onde poderemos dar uma olhadinha na vida compartida entre Angra, Sofía e Estela em seus primeiros meses de vida. Ansiosas? Favor, comentarem! Eu fico angustiada quando não temos capítulo também haha.


Agora alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;

- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;

- Lançamos 6am: A hora mais curta! Está disponível na Amazon! Quem já estava com saudade das nossas garotas? Ou quem está louca para conhecê-las? Corre aqui! encurtador.com.br/frBO4.


Beijos! Se cuidem!


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