Angra: Capítulo 23 - O Pacífico




Fora uma semana muito intensa, de muito cansaço, muita dedicação, muitas lágrimas e muitos sorrisos, muitos olhos cristalizados, muito amor. Angra e Sofía se dividiram em estar com Estela no hospital, em cuidá-la, em tornar aquela incubadora o mais próximo de um lar que fosse possível. Passavam o máximo de tempo que conseguiam com ela, colocavam músicas para ela ouvir, liam para ela, lhe contavam coisas, de como ela havia nascido, de como era a cidade dela, de onde moraria em breve e a casa para onde teria que voltar.


— Acha que fará diferença? Ela ouvir os dois idiomas? — Angra perguntou numa noite de volta à casa de Kalinka, que tinha sido chamada para uma reportagem em Bogotá.

— Ela pode ser criada em duas línguas, ela está ouvindo espanhol no hospital...

— Está te ouvindo ler em espanhol para ela... — O que particularmente deixava Angra muito derretida.

— Aquela menina é colombiana, amor, mais colombiana do que eu — Comentou sorrindo.

— Você estava lendo sobre Gaudí quando eu cheguei. Em catalão.

— Ela vai adorar Barcelona, você vai adorar Barcelona, é uma cidade colorida, artística, vai adorar La Casa Batló e La Pedrera, do jeito que você adora arquitetura, vai viver sorrindo naquela cidade.


Angra pegou a mão dela sobre a mesa.


— Vamos trazê-la pra casa amanhã. Eu estou ansiosa e com um pouquinho de medo.

Linda, a gente conseguiu montar um lugarzinho muito confortável para ela, a louca da Kalinka comprou até um berço, um mobile, a gente comprou roupinhas, mantas, lenços pra gente manter o canguru que ela adora e fizemos o curso, sobre como cuidar de um prematuro, estamos aprendendo tudo o que podemos no hospital, é isso, Angra. Estamos prontas e, perto do hospital — Disse, arrancando um sorriso dela, que lhe beijou, delicadamente, amorosamente.


Estavam prontas sim.


Foram buscar Estela no dia seguinte, com o coração acelerado, uma felicidade imensa, ela não era mais aquele bebezinho frágil que nascera de surpresa, ansiosa, inesperada, estava visivelmente mais fortalecida, mais atenta ao mundo, veio de canguru no peito de Sofía enquanto Angra dirigia um dos carros de Kalinka pelo qual andava tão encantada.


O tal Alfa Romeo Giulia azul-metálico.


Se isolaram numa bolha naquele primeiro dia. Deixaram os celulares de lado e focaram em Estela, em cada movimento dela, cada olhar curioso, cada vez que ela moveu os pezinhos, as mãozinhas minúsculas, todos os reflexos estabanados de um bebê de pouco menos de um mês. Passaram o dia inteiro no quarto, contando as mamadas, velando o sono daquele bebê-coala que seguia sem nenhum problema para dormir. É comum prematuros dormirem até 22 horas por dia. A deixaram dormir no berço, para ver se habituava-se, colocaram um filme baixinho no notebook que assistiram deitadas no chão, pertinho do berço, namorando e cuidando do bebê, revezando o sono, porque estavam extremamente cansadas e em uma dessas vezes, com Angra dormindo no quarto, Sofía ouviu algo inédito até então:


O chorinho de Estela.


Ela quase não chorava, pouco reclamava, as horas juntas com ela no hospital eram sempre tranquilas e o choro era raro. Foi até o quarto, Angra seguia dormindo profundamente, então, pegou Estela no colo e ainda parecia irreal que... Estivesse ali. Com aquele bebê no colo e com Angra dormindo pertinho. Iria passar? Essa sensação do irreal? Não queria que passasse.


Nem a sensação e nem o tempo.


Então que era 24/12, véspera de Natal e essa situação fez Sofía rir sozinha também. Nem haviam se dado conta direito, o fechar na bolha não permitiu e até preferiu assim. Deixou Angra dormindo e levando seu bebê no carrinho para a cozinha, preparou o que conseguiu para uma pequena ceia. Assou um frango, fez arroz à piamontese, que Angra adorava, cortou algumas frutas, vinho, encomendou uma rosca natalina salgada e quando Angra acordou, não acreditou no que estava vendo.


— Mas Sofía... Como... Como conseguiu tudo isso em, sei lá, duas horas? — A mesa não estava arrumada, ela estava “posta”, completa, com prataria, flores, guardanapos.

— É véspera de Natal, linda — Sofía a abraçou pelas costas carinhosamente — O primeiro Natal da Estela, eu tinha que fazer alguma coisa.

— E eu estou de pijama...

— Não é perfeito? — Beijou a nuca dela — Vem, o bebê dormiu, vamos curtir nossa ceia.


Foram curtir, Angra de pijama, Sofía de lingerie e moletom, Estela dormindo feito um anjo e o jantar delicioso, calmo, Kalinka tinha uma vizinha pianista que aparentemente, estava fazendo um sarau para sua família aquela noite, com músicas clássicas de filmes tradicionais, o que foi maravilhoso. A cada nova música, acertavam juntas, um jogo bobo, de descompressão, coisa que as duas precisavam. As paredes descortinadas, o Pacífico acenando, os pés descalços, sem toda aquela formalidade obrigatória do Natal que as duas cumpriam apenas por obrigação mesmo. Não havia obrigatoriedade ali, apenas conforto, apenas... Felicidade plena. Era assim.


Depois do jantar, deitaram-se agarradinhas no sofá, vendo um filme natalino qualquer e planejando a rotina que teriam. Sofía precisava ajustar seus horários de trabalho e, andava vendo o quanto Angra estava preocupada com o seu.


— Angra, a gente divide as horas. Eu tomo conta dela determinado horário para você poder trabalhar, tem escritório aqui, com aquela vista ali, se é que você me entende. Você monta seu home office, eu monto o meu, a gente encaixa os horários, não quero Marcela se separando de você e, acho que você quer voltar. A trabalhar. Você adora o seu trabalho.


Angra abriu um sorriso. Reclamava de sua mãe workaholic, mas era igualzinha.


— Só por quatro horinhas. É que estamos num momento de expansão, eu confio na Marcela, mas sei que é muita coisa.

— Que seja por essas quatro horinhas, eu te ajudo.


E se fosse apenas nisso que Sofía tinha decidido lhe ajudar...


Não sabia como teria passado aquela primeira noite sem Sofía. Estela pareceu ter se dado conta de que estava em outro lugar, e aparentemente, havia decidido chorar tudo o que não tinha chorado antes. Não havia o que a fizesse acalmar, algo parecia estar incomodando demais e quando estava prestes a ligar para o hospital, Sofía lembrou de algo...


— É cólica, linda, nós compramos o remédio e aprendemos como dar o remédio também, vamos lá.


Provavelmente era uma cólica simples, um sofrimento comum e aos poucos, depois do remédio, Estela pareceu se acalmar. A colocaram no berço e então, mudaram o berço de lugar, o deixaram grudado na cama, onde podiam tê-la mais perto e entre despertares para amamentação, um choro e outro de Estela, elas dormiram pouco menos de três horas. Mas não fazia mal. Porque quando Angra acordou, tinha um café da manhã lhe esperando, uma namorada já trabalhando no escritório e um bebê calminho no berço.


Parecia uma vida sonhada. Era o que parecia.


Mas trabalhar quatro horas de tempo, logo se mostrou quase utópico.


Estela não dava muito tempo, precisava de tanto, tanto cuidado, tanto amor, tanta atenção que ainda se desdobrando da maneira que estavam, o tempo ainda parecia insuficiente. Não deu inicialmente para quatro horas, mas deu para duas horinhas, uma que fosse nos dias complicados que estavam fazendo diferença, tanto para Angra, como para Sofía. A verdade é que o tempo ali naqueles primeiros dias foi de muito aprendizado, sobre Estela, sobre as necessidades dela, as horas de sono na primeira semana foram quase desumanas, porém, na semana seguinte, tudo já estava mais ajustado: elas aprendiam do processo e o melhoravam, e das duas horas dormidas em noites anteriores, Angra passou a dormir quatro, com mais uma horinha que cavava durante o dia.


Passaram a revezar as noites e a confiança, e o amor fazia uma diferença enorme. Estela seguia precisando ser alimentada a cada três horas e seguia tendo problemas para dormir, porém, nas noites que eram de Sofía, o subconsciente de Angra aprendeu a não acordar nos choros de Estela, era como se seu cérebro lhe acalmasse dizendo que Sofía estava ali, que tinha acordado, que estava cuidando dela. E quando o choro se alongava, era como se seu coração dissesse para acordar, para se colocar de pé, para ver sua menina e para ajudar Sofía, e isso era mútuo, acontecia o mesmo com Sofía e este tipo de confiança acabou por construir um abrigo sólido, onde Estela e o sono das duas seguiam protegidos.


Rapidamente, cinco horas de sono passou a ser suficiente, tanto para Angra como para Sofía. Se Angra estava cuidando de Estela, Sofía conseguia dormir de meia-noite às cinco da manhã quase sem interrupções e neste horário trocavam, Sofía assumia para que Angra pudesse dormir até às dez da manhã. A maior parte dos dias, tudo funcionava muito bem assim, mas claro que havia madrugadas que Estela conseguia colocar as duas de pé e, parecia se divertir com isso.


Tiveram uma noite de réveillon com Carolina, Felipe e Elisa, agradável de uma forma que Angra sequer se lembrava que já tinha passado. Sua mãe havia conseguido ir! Nem acreditou quando a viu, chegando com Felipe e Carolina, louca para conhecer Estela de perto e a noite da virada foi simplesmente... Perfeita. Algo muito mais calmo, tranquilo do que estavam acostumados todos, um jantar divertido, em que Elisa se propôs de verdade a conhecer Sofía melhor, a mulher que estava ao lado de sua filha e para quem Estela olhava como... Como quem pede o colo da mãe.


A observou em seus detalhes, no carinho com o qual tinha preparado o jantar e posto a mesa, porque aquele capricho todo, não tinha jeito de ter vindo de Angra não. Foi o que sua mãe lhe contou depois do jantar, quando ela lhe acompanhou para trocar Estela e Sofía ficou conversando com Carolina e Felipe na sala.


— Cerâmica grega! Eu estou apaixonada por aquelas cerâmicas, e pela comida também, ela fez tudo sozinha?

— Fez sim, ela adora gastronomia, gosta de ir pra cozinha estudar e praticar. Tirou o jantar de um livro de receitas e agradeceu que deu certo, porque essa menina aqui, não deixa a gente praticar coisa nenhuma, viu.

— Angra, ela... Ela é linda. A Sofía. Quando eu tive você, eu imaginava que fosse crescer e se tornaria uma mulher assim... — Disse, fazendo Angra morrer de rir.

— Mãe, explica o que você está querendo dizer! Sou tanta decepção assim, gente?


Sua mãe estava rindo demais também.


— É que ela é refinada, isso você também é, mas é... Tão feminina. E você nunca foi lá muito feminina, né... — Ela disse, fazendo Angra rir ainda mais.

— Mas...

— Não é, filha e tudo bem, tudo bem mesmo — Angra tinha herdado o sorriso bonito de sua mãe — É que a Sofía é este tipo de mulher. A que cuida de detalhes. Da mesa posta e da cerâmica grega. Ela fala o quê? Cinco idiomas? Eu cheguei e ela estava lendo em espanhol para o bebê.

— Catalão, de alguma maneira essa língua acalma a Estela.

— Eu... Entendo.

— O quê?

— Que tenha se encantado por ela. Angra, você não... Planejou, certo?

— Que a Estela nascesse aqui? De forma nenhuma. Eu só precisava... De um tempo com a Sofía. Para me acalmar.

— Ela provavelmente se recusou a ir ver você nessa situação. Ela não está errada.

— Sofía é o tipo de mulher que raramente está errada. Mas eu não estava conseguindo... Ficar tranquila.

— Angra, o que você vai fazer?


Era a pergunta que mais temia. E que não pôde ser respondida, porque ouviram alguém chegando.


Kalinka tinha voado durante a noite do dia 31 e ali estava, chegando a apenas uma meia hora antes da virada. Carolina estava tomando um vinho com Sofía, numa mesa montada junto à parede de vidro por onde veriam os fogos, quando de repente, a porta se abriu. Achou que fosse Felipe voltando, ele havia descido para cometer uma falta de educação, reclamou que não tinha cerveja e ele não passava nenhuma virada de ano sem cerveja, era como um ritual, bobo, mas era, Carolina não pôde impedi-lo. Mas não era Felipe voltando, era...


Uma mulher.


De botas coturno, jeans azul, camiseta branca desbotada. Um mochilão nas costas, os cabelos compridos, revoltos, braços firmes, bonita? Sim, muito bonita, bonita clássica e bonita diferente, e foi uma surpresa para Carolina quando mentalmente se pegou analisando a beleza de outra mulher com tanto afinco na sua mente.


— Kalinka! — Sofía correu até ela e ela lhe abraçou sorrindo, mas mantendo o corpo um pouco distante — Meu Deus, você nem parece viva! Eu disse que isso podia te mastigar, Kali...

— Eu pareço mastigada? — Ela perguntou sorrindo, já passando a mochila para Sofía, parecia mal estar se mantendo de pé.

— Muito! E, temos visitas — Os olhos de Kalinka bateram nos olhos de Carolina.


Ela estava lhe olhando. Os cabelos longos, uma etnia muito insular, não sabia explicar muito bem, mas viu mulheres como ela pelas ilhas do Havaí, da Indonésia, da Papua-Nova Guiné. Era bonita assim, como as mulheres das ilhas que Frederíca tanto gostava de descrever. Ela veio em sua direção.


— Ei, tudo bem? Invadimos sua casa aparentemente — Carolina lhe abraçou simpaticamente.

— Eu andava desejando este tipo de invasão, essa casa é enorme! Não foi feita para uma pessoa só de jeito nenhum. Eu sou a Kalinka, tudo bem? — Tocou os braços dela e Carolina sentiu algo.

— E eu sou a Carolina. Tudo bem sim, mas o que aconteceu com as suas mãos?


Kalinka virou as palmas pra cima.


— Kali, pelo amor! Como estão seus pés se as mãos estão assim? — Sofía perguntou.


Era uma pergunta quase constrangedora. Carolina sorriu.


— Você estava...?

— Numa maratona. Uma ultramaratona, no Deserto do Atacama.

— Foram 250 km, sete dias fazendo isso. Vamos, vai para o banho, temos alguns minutos e me chama que vou ver como você de fato está — Kalinka obedeceu Sofía e Carolina ficou...

— Tem gente que consegue fazer isso? No deserto?

— Então, ela é este tipo de repórter. Passou por uma separação difícil e decidiu só ir, a TV para qual ela trabalha adorou a ideia, ela treina todos os dias, então...

Estava preparada. Para 250 km se precisasse.


Ela tomou um banho rápido e chamou Sofía, que foi lá, olhou e saiu rindo de nervoso.


— Carol, eu acho que... Vou chamar a Elisa, acha que ela vai se incomodar de dar uma olhada no pé daquela moça de aço?

— Eu olho, pode deixar.


Foi lá olhar, uma moça de lingerie rendada, muito em forma e muito... Mastigada. Sofía tinha toda razão. A pele estava queimada, esfolada em muitos pontos, tinha machucados, roxos e um pé muito inchado, que Carolina cuidou. Estava inchado pelo esforço? Estava, mas aparentemente a moça estava tão anestesiada que não notou que...


— Como uma pedra?!

— Está aqui, é sério — Carolina respondeu sorrindo — É uma pedra pequena, mas está no seu pé, você tem um alicate de unha e uma lâmina? Dá para tirar...


Dava, com uma dor infernal, mas deu para extrair e assim que a tal pedrinha foi parar nas mãos de Carolina, Kalinka já se sentia mais confortável. Acabou rindo demais, porque...


— Tinha uma pedra! Que absurdo...

— A sola do pé é muito resistente, acaba que algumas coisas podem perfurar e ficar nesta parte mais grossa, notou? Nem sangrou. Mas acaba doendo muito por pressionar a pisada de qualquer forma. Me fala sobre essa experiência, de correr num lugar assim, eu corro também, mas é corrida de rua, nada de desertos...


E quando Kalinka ia começar a falar da experiência, Felipe bateu na porta. Ele havia retornado.


Com as cervejas, a conversa de sempre, os stories no celular onde se gabou de estar passando a virada ao lado de mulheres maravilhosas. Kalinka se vestiu e se juntou a eles para a virada. Os fogos explodiram através das paredes de vidro, algo lindo, que Angra jamais esqueceria. Tinha sua melhor amiga por perto, sua mãe, sua filha e, sua Sofía. Segurando Estela contra o peito, cuidando dos ouvidos dela com um protetor auricular que tinha comprado especialmente para aquele momento. Ela não assustou, não reclamou e passou a virada se apaixonando um pouco mais por Sofía. Tanto Estela, como Sofía.


O jantar foi especial e estava delicioso, uma mesa farta de pratos e de boa conversa, Kalinka era maravilhosa, uma anfitriã gentil e divertida, os olhos de Carolina caíam por ela em um momento e outro, seus olhos a procuravam também, com curiosidade. Sobre quem ela era, as coisas que fazia, que gostava. Deram como encerrado o jantar pouco antes da uma da manhã, estavam cansadas, Angra, Sofía, Kalinka nem se fala, Elisa ficaria com elas por mais uns dias, Felipe e Carolina iam caçar uma festa qualquer para virar a noite. Tinham pegado uma semana de férias para conhecer Estela e por que não? Cartagena também.


— Não é culpa nossa ela ter nascido numa cidade tão maravilhosa, tá — Carolina respondeu sorrindo para Angra em uma tarde, três dias depois do réveillon. Felipe tinha decidido sair sozinho, ele estava com uma lista infinita de coisas a fazer, e teoricamente, tinha esquecido que o objetivo inicial era passar um tempo com Angra, ajudando com o bebê. Estavam no quarto, brincando um pouco com Estela — Angra... Eu não seria maravilhosa como a Sofía está sendo. E olha que eu amo você pra caramba... — Disse, fazendo Angra se derreter num sorriso. Não queria derreter tanto, mas ninguém precisava lhe dizer que Sofía estava sendo fora de série — Ela parou a vida dela por vocês duas.

— Ela fez mais do que isso: ela cuida de nós duas e segue na vida dela. Mudou o blog de plataforma, está fazendo mais ghost writer do que nunca e produzindo para ela mesma, para o novo modelo de negócios que ela está entrando e... Nas noites que ela fica com a Estela, às vezes eu acordo e ela está escrevendo, esperando pela hora de mamar. É como se o corpo e o cérebro dela se adaptassem a qualquer coisa.

— Você é assim também. A diferença é que primeiro surta e depois se adapta...

— Há uma verdade no que você está dizendo — Concordou rindo.


E então, houve um silêncio. Daqueles típicos de quando se vai migrar para um assunto complicado em uma conversa.


— Angra... O Guilherme não vir, não está te deixando louca?


Angra apertou os lábios, desviando o olhar.


— Eu acho que ele poderia fazer pouco aqui, tenho pensado sobre isso. Ele viria só porque é o que estão esperando que ele faça, mas para vir, ficar três dias e voltar, realmente não faz muito sentido. Ele tem me mostrado que está cuidando do que precisa para quando nós duas voltarmos pra casa.

— De um quarto pronto e de prover você de um dinheiro que você não precisa...?


Foi a primeira vez que Angra viu Carolina mudando de lado.


O grupo partiu em breve. Foi muito bom ter sua mãe por perto em um momento tão especial, mas Angra já estava morrendo de saudade de ter sua Sofía só para si no momento que bem quisesse. Kalinka partiu no mesmo dia, para um projeto especial: dirigir uma Maserati de Modena até o Mediterrâneo, cruzando a Itália em um vlog de viagem muito especial, que Sofía dispensou.


— Você... Dispensou?

— Minha filha está fazendo um mês hoje, acha mesmo que eu troco isso pela Itália? — Ela respondeu sorrindo enquanto trocava Estela naquela tarde.


Angra nem sabia por que ainda se surpreendia.


Algumas coisas são mais importantes do que dinheiro.


Ficaram de namoro aquela noite, matando a saudade daquela liberdade, beijando, se sentindo, deitadas no tapete muito agarradas uma na outra enquanto riam de qualquer coisa acontecida. Foi uma bobagem, até mesmo porque já esperava que Sofía ficasse, mas ela ter realmente ficado, feito isso por escolha... Foi mágico. E Angra foi dormir tão intensa que acabou chorando, mas nem era por nada, era apenas de plena felicidade.


O aniversário de Sofía logo chegou e houve outra festa particular, com apenas três participantes e que não podia ter sido mais gostosa. Cozinharam juntas, um jantar romântico, de frente para o Pacífico, à luz de velas e veladas por um bebê que decidiu dormir a noite inteira em que Angra e Sofía sequer dormiram, ficaram na cama, de namoro novamente, maratonando uma série completamente abandonada na TV porque estavam mais interessadas em namorar, estarem juntas, perdidas em mais uma conversa infinita sobre coisas já acontecidas. Amavam falar sobre a história delas, era algo que nunca se cansavam, adoravam estarem juntas e ver Estela se desenvolvendo.


Foi um momento mágico a primeira vez que a viram sorrindo.


O tal do sorriso dos dois meses, que ninguém consegue provar que é de felicidade, mas ninguém também consegue provar que não é. Ela sorriu numa madrugada e ninguém mais pôde dormir, tamanha a felicidade que tomou conta das duas com um gesto tão simples.


— Este sorriso aí indica que o desenvolvimento psíquico e afetivo vai muito bem.


Significava. Era impossível que o afetivo não estivesse indo tão bem.


Cada coisa podia ser ainda mais especial porque ninguém andava exausta. Ainda era muita coisa? Era, mas divididas o suficiente para curtir o banho, a hora de mamar, as descobertas que Estela andava fazendo, como o dia em que a viram levantando a cabeça de bruços pela primeira vez, como que procurando quem estava por perto. Foi um desafio ter uma pequena colombiana. O registro foi uma luta e foi assim que ela acabou herdando apenas o sobrenome da mãe, Angra a registrou sozinha em Cartagena, uma vez que Guilherme não havia conseguido espaço para retornar novamente. Quanto mais tempo Estela precisava ficar, mais distante o retorno dele se mostrava e logo notou-se que três meses seriam ainda insuficientes.


O terceiro mês chegou com uma série de mudanças, e a principal, foi a mudança no padrão de sono de Estela. Não, o bebê-coala agora passava mais tempo acordada, estava mais durinha em seu corpo, os olhos perscrutavam o mundo e eram capazes de reconhecer Angra, reconhecer Sofía, de diferenciar brinquedos e, a diferenciar vozes. Angra tinha certeza de que ela reconhecia Sofía pela voz e que adorava ouvir histórias em espanhol. Sabia também que sua menina lhe amava muito e que chegava a ponto de chorar cada vez que a pegava no colo e ela lhe sorria, e buscava seu peito, e queria ficar canguru, doce, apegada e forte. Ouviram do médico que cada prematuro é uma surpresa e apesar de seguir pequenina, Estela estava plenamente equilibrada em seu corpinho. Estava saudável, não havia tido nem uma gripe, parecia muito bem adaptada ao clima tropical da cidade e seguia se comportando muito bem.


A não ser, pelo gosto acurado de ficar acordada durante as madrugadas.


Foi um ponto enorme para Angra e Sofía. As instabilidades das noites do terceiro mês, fizeram Kalinka mudar para o apartamento de Sofía. Ela foi rindo, dizendo que tudo bem, mas que achava melhor mudar por um tempo, era coisa de bebê normal, o tanto de informações que se recebe nesta idade é de se enlouquecer qualquer um. O bebê começa a enxergar melhor, a ouvir melhor, o mundo ganha contornos e as sinapses celulares estão a pleno vapor e Angra não parava de se perguntar o quanto mais Sofía havia estudado.


Linda, eu estou fazendo ghost writer desses meses...

— Você... Está? — Abriu um sorriso encantada.

— Queria que você soubesse quando fosse publicado e hoje, saiu a primeira publicação, aqui — Entregou o iPad para ela com a reportagem aberta — Leia para nós duas, vamos... — Sentou-se ao lado de Angra com Estela em seu colo. Era uma noite linda, Angra nunca pensou que uma noite tempestuosa pudesse ser tão bonita naquelas paredes de vidro e menos ainda pensou, que maternidade partilhada pudesse ser tão bonita assim.


Como havia ficado nas palavras de Sofía.


Leu para elas. Terminou chorando. Namorar uma escritora tinha dessas. Esperava que Sofía aceitasse o que era, era uma escritora, uma talentosa escritora, que jamais deveria estar escrevendo como ghost writer.


— Eles pagam bem, meu amor — Beijou a testa de Angra sorrindo — Eu preciso ter essa independência para mudar de vida, lembra?

— Então você ainda pensa em...?

— Angra, eu não consigo não pensar. Menos ainda depois de agora. Depois dessa experiência toda. O Pacífico ali fora nos assiste todos os dias nos desdobrando para dar conta das coisas e nós estamos dando.

— E sem dez minutos de discussão. Você já se deu conta disso? Nós não brigamos nem dez minutos durante esses quase quatro meses. Amor, eu não quero pensar, mas...

— No seu retorno, eu sei que já está pensando nisso. Mas você decidiu ficar até ela fazer cinco meses, Guilherme está de acordo, Frederíca está em outra ilha, terminou um livro, está começando outro, tudo está bem. Não vamos ter medo do que não conhecemos.


Angra a olhava. E, deitou-se no peito dela, se encolhendo, fazendo caber seu 1,74 no 1,65 de Sofía. Estela já estava dormindo em seu bebê conforto novamente.


— Eu tenho médico amanhã, pra mim, para ver a questão...


Sofía lhe beijou a testa.


— Eu já não disse que não é um problema? Essa queda da libido é normal, linda, temos que dar um tempo para os seus hormônios, para o seu corpo.

— Mas eu quero de volta. Parece que meu corpo não está correspondendo à minha mente, às coisas que eu quero, tudo estava tão normal durante a gravidez, nunca achei que poderia ser, sabia? Nós estivemos juntas e as coisas pareciam mais intensas ainda do que eram antes. Sofía, vai fazer um ano que eu só tenho você. E eu quero proteger isso, mas eu não sei como... Como vai ser quando eu voltar. Sem gravidez para me esconder atrás. Eu sei que não é agradável a gente falar disso, mas isso também tem me assustado neste retorno.


Sofía a apertou nos braços. Assustava a si mesma também.


Notas da autora:


Hei, galera!


Como estão? Mais um tempinho no passado para esclarecermos um pouco do fato da nossa menina ter nascido colombiana.


Próximo capítulo, Giulia, será lançado na sexta, caso os comentários sejam batidos como sempre.


Beijos e fiquem bem. ˆˆ


Agora alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;

- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;

- Lançamos 6am: A hora mais curta! Está disponível na Amazon! Quem já estava com saudade das nossas garotas? Ou quem está louca para conhecê-las? Corre aqui! encurtador.com.br/frBO4.


Beijos! Se cuidem!


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