Angra: Capítulo 27 - tempos líquidos





Deve ter sido o amanhecer mais lento do qual Frederíca lembrava em muito tempo.


Na verdade, havia acordado às quatro da manhã, com um chorinho vindo do quarto ao lado. Se virou e abriu um sorriso, porque seu corpo estava girando por dentro dos braços de Luría. Ela estava dormindo, muito profundamente e lhe guardando de modo tão protetivo que... Nem sabia. Depois da noite que haviam tido, Aristóteles e Frederíca sabiam a mesma coisa: nada. Nenhuma coisinha. Só que o sentimento era bom, muito bom. Então, beijou a testa de sua protetora, ela tinha colocado apenas a lingerie e caído dormindo depois do amor longo que haviam feito. Frederíca não lembrava qual havia sido sua última noite assim, feita de um amor que nunca termina, em que um orgasmo leva a outro, em que o tesão nunca mais se acalma. Sabia que em determinado momento, tinha sido assim com Sofía, mas aquilo já fazia muito tempo mesmo.


A cama continuava ótima? Sim, mas o sentimento... O sentimento era totalmente diferente do começo delas.


E era tão bom! Aff, não tinha a mínima condição de negar o quanto era bom, escrevia capítulos e capítulos sobre isso em todos os seus livros, aquela sensação gostosa de fazer amor com muito tesão, em grau de descontrole, onde o corpo faz o que quer, o coração mais ainda e se tinha uma coisa que Frederíca sabia há muito tempo é que noites assim, não existem sem nenhum sentimento. Levantou-se, colocou sua lingerie e atravessou até o outro quarto, onde Bernardo estava acordado, reclamando sozinho.


— Ei, Tarzan... — O pegou no colo, sentindo os braços dele se enroscando pelo seu pescoço imediatamente.

— É que eu tô com saudade da minha mãe... — Ele disse, cheio de manha, fazendo Frederíca sorrir.

— Eu entendo, é muito tempo longe dela, não é? — Respondeu sorrindo e o fazendo rir um pouquinho.

— E tem um... Dinossauro...


Risada de Frederíca. A cara dele nem tremia, mas o risinho de quem está fazendo graça... Ah, sim, estava lá. Um sedutor.


— Claro que tem, como que não vai ter, né? — Voltou para o seu quarto e colocou Bernardo no meio da cama — Ela está cansada, mas eu vou ficar acordada até você dormir novamente, tudo bem?


Ele concordou. Viu mais um ou dois dinossauros e voltou a dormir. E seguia assim, ainda dormindo, agarrado na mãe que sequer se movia. Luría seguia num sono profundo enquanto o sol ensaiava nascer lá fora. Frederíca se colocou de pé, procurou seus Airpods, pegou seu celular e colocou sua playlist para tocar.


Checou suas notificações, tinha mensagens de Sofía, é claro, não esperava menos dela. Estava lhe resumindo a caminhada, tinha chegado no Rio bem, ia pegar um voo para Brasília e depois, iria dirigir até Ouro Preto e isso fez Frederíca sorrir. Coragem, coragem, coragem, que só ela achava que não tinha. Também nas mensagens dizia que lhe desejava o melhor e que esperava que Frederíca estivesse se dando uma chance com Luría. Tudo estava bem, retornaria para Cartagena em um mês para cuidarem do que fosse necessário. Se desculpou por ter levado consigo “O Livro dos Segredos” e “This Is Me Letting You Go”, disse que precisaria deles mais do que Frederíca e a mensagem final lhe fez lagrimar.


“Obrigada por ter tomado conta de mim até aqui, nesta vida novamente. Sei que nos conhecemos de outro lugar, de outro momento, foi o que eu senti assim que coloquei os olhos em você. Foi assim que eu me senti quando você disse que me amava apenas três dias depois de nos conhecer. Era verdade. Porque já tinha sido verdade antes. E segue sendo verdade agora. Amo você. Isso nunca vai mudar”.


Olhou pela janela, vendo o sol subindo, olhou para trás, Luría dormindo com Bernardo em seu peito. Andou até o outro quarto, buscou sua caderneta de anotações, abriu uma página em branco, escreveu:

“Há pessoas que conhecemos do passado, de uma outra vida. E há pessoas que conhecemos do futuro, desta mesma vida aqui, só que evoluída, dois passos à frente”.


Escreveu o nome de Luría por indução mental.


📚


Kalinka já estava de pé, vendo o sol nascer pelas enormes janelas envidraçadas da cozinha.


O café puro esfumaçando na caneca, calça moletom bem justa, tanto quanto o sutiã preto rendado, a única coisa que usava na parte de cima. Os cabelos revoltos, naturalmente coloridos de sol, ondulados pelo vento, o rosto incomum, com traços gregos, traços brasileiros, a cor solar na pele, o abdômen firme, sem músculos, mas forte, dava para ver isso e tudo mais, tudo o que fazia Kalinka tão atraente.


A ponto de Carolina não resistir.


Entrou na cozinha, ainda com a mesma roupa da noite anterior e, abraçou Kalinka por trás, afundando o nariz no pescoço dela, os braços cruzando por aquele abdômen irresistível e os dedos ancorando na pele com muita vontade.


— É sério, Carolina? — Kalinka se arrepiou inteira — Me convenceu a ficar aqui para eu ser torturada desse jeito? Theé mou... — Suspirou em grego.

— Repete o sobrenome grego? — Carolina pediu sorrindo, muito agarrada nela.

Avgeropoulos, ninguém consegue dizer isso direito, falei para você...

— Por isso usa Kalinka Mendes.

— O sobrenome pronunciável.

— Eu ganho o que se decorar a pronúncia?

— Ah, Carolina...


Ela queria matá-la. Kalinka teve total certeza desde a noite anterior...


Tinham ficado de papo e quando sentiram fome, decidiram sair para comer alguma coisa na rua e papear mais. Felipe já tinha se despedido e subido, Luría e Frederíca seguiam de conversa, e pareceu uma boa ideia saírem, comerem algo num barzinho e retornar. Fizeram assim, saíram de Subaru, dirigido por aquela mulher de luvas, saltos altos e moletom, que estava deixando Carolina muito zonza, muito sem saber direito o que estava sentindo. Pegaram uma pizzaria ainda aberta, comeram juntas, conversaram ainda mais, riram ainda mais e quando voltaram pra casa...


O quarto de Kalinka estava interditado.


— Está ouvindo? — Perguntou para Carolina, o quarto dela era ao lado do seu.

— Eu acho que você só deve entrar aí se quiser participar, senão...


Kalinka caiu no riso, porque ela tinha razão. Carolina também não entrou, Kalinka explicou que ia dormir no carro, que ele era preparado para isso e, decidiu ter aquela experiência com ela. Dane-se Felipe, iria fazer algo que queria e ponto.


Bem, porém, só deu para ter a experiência de dormir em um carro porque qualquer outra experiência que queria, Carolina teria que esperar.


E foi gostoso ainda assim, dormir no carro, num acampamento improvisado, que as obrigou a dormir tão pertinho uma da outra. Fez frio e então calor, e Kalinka tirou a blusa, dando a Carolina a sensação da pele dela queimando na sua. Pele macia, gostosa, delicada, Carolina ficou com tesão metade da noite e na outra metade... Se sentiu viva. Revigorada. Interessada no mundo novamente. Tinha quase certeza de que os humanos não deveriam agir assim, tão escravos de boas emoções, mas não era sobre isso a questão de viver bem? De se ter bem-estar? Acordou nos braços dela e com um sentimento de beatitude lhe invadindo por dentro que nem sabia explicar.


— Eu senti também — Kalinka lhe disse, quase como se lesse os seus pensamentos.

— Sentiu o quê?

— O bem-estar quando acordei. Obrigada pela noite, Carol. Obrigada.

— Não se agradece essas coisas — Beijou pouco abaixo da nuca dela — A gente repete.


E então que, ouviram alguém descendo. Instintivamente, Carolina cobriu Kalinka com a manta onde tinha dormido e, era Felipe. Ele desceu, sorriu, beijou Carolina, perguntou se já tinha café e porque ela tinha descido tão cedo.


Ele sequer tinha notado que ela não havia passado a noite ao seu lado.


📚


Não conseguia mensurar o quanto que entrar em um Uber e partir tinha sido... Empoderador.


Não era por nada, era apenas porque Sofía já deveria ter dito que ia embora duzentas vezes para cada uma delas e o máximo que sempre conseguira chegar, tinha sido até a porta da sala. Mas daquela vez, estava indo mais longe, daquela vez estava deixando Angra e Frederíca livres de verdade e tinha certeza de que isso apenas faria bem para elas duas. E, para si mesma também. Chegou na rodoviária, seu ônibus estava prestes a partir, subiu direto, sem tempo para pensar em coisa nenhuma. Em minutos, estava em movimento, em minutos estava sorrindo sozinha apenas porque havia conseguido se mover.


Ficou observando a estrada por algum tempo, e então, foi olhar as fotos que tinham tirado pela manhã. O sorriso de Estela, o quanto Angra estava bonita, o absurdo que ficavam bem juntas, o tanto que parecia que se pertenciam e, o quanto que de fato se pertenciam. Eram bem maior do que aquelas fotos lindas podiam contar. Pegou no sono por alguns minutos e quando despertou, o ônibus estava parando em um restaurante. Desceu, comprou pão com linguiça alemã e a primeira mordida lhe fez sorrir. Como amava seu Rio de Janeiro. Estava delicioso, o dia estava bonito, olhou mais fotos, suas, de Angra, de Estela, sorriu mais, sentindo algo bom por dentro lhe esquentando.


Voltou para o ônibus e no vai e vem do sinal de celular na estrada, comprou uma passagem de avião. Estava indo direto para o aeroporto e agora já sabia para onde ir. Iria pra casa. Uma das casas que tinha, aquela onde se sentia tão à vontade que já conseguia andar sem ter que perguntar para ninguém. Iria para Brasília, se sentir um pouco no lugar e quem sabe, até aceitar a loucura de Angra de lhe emprestar o Fusca. Aquele carro era parte da história delas duas também, se fosse dirigir sozinha pela primeira vez, que fosse naquele carro mesmo. E assim que pisou no aeroporto, seu celular tocou e sabia que era Estela, Angra jamais estaria lhe ligando assim, por vídeo, logo depois de terem se separado fisicamente.


Era sua Estela e conversar que fosse um pouquinho com ela, lhe encheu de coisas boas mais uma vez. Sofía estava se sentindo leve como em muito não se sentia, ainda teria um tempo para analisar este sentimento, mas era parecido a quando choramos muito e de repente, uma calmaria toma conta. “Não tente acalmar a tempestade. Acalme a si mesma e espere a tempestade passar”, era uma de suas notas preferidas em Santorini e nunca tinha feito tanto sentido. Estava naquela tempestade, tentando acalmá-la ao invés de se acalmar e esperar que tudo passasse. Havia quisto controlar sua situação com Angra desde o começo, colocá-la numa trilha, desconsiderando que o coração faz o que quer e o destino idem, e agora que tinha simplesmente aceitado...


Aceitado que as coisas eram como eram. E que no momento, o que conseguia fazer, era observar o amor da sua vida sendo feliz... Longe de si.


Chorou um pouco durante o voo. Vendo as fotos, os vídeos daquela viagem que tinha sido muito boa, cada pedacinho, cada segundo, não podia reclamar de nada, inclusive, o flagra havia se mostrado extremamente necessário para que pudessem se mover de fato. Queria ficar mais tranquila, queria Angra tranquila, ela não estava pronta para separar e não achava que estaria tão cedo. Não era por nada, era apenas porque essas coisas eram difíceis mesmo. A culpa não era dela e nem de Sofía, apenas sentiu que não conseguia mais esperar e já sabia disso há algum tempo. Precisava andar e estava enlouquecendo Angra com uma necessidade que era sua, que não tinha necessariamente a ver com os passos dela. Tinha medo de andar sozinha e por isso, permaneceu parada ao lado de Frederíca por tanto tempo.


Vinha daí a sensação de empoderamento. Estava andando sozinha e isso significava demais.


Chegou em Brasília de madrugada e foi direto para o hotel de sempre. Aquele em que estava acostumada a encontrar com Angra, até trocavam de lugar uma vez e outra para variar um pouco, mas voltavam a ele sempre que era possível. Não tinha ideia de quantas vezes já havia estado ali, mas os funcionários sorriam como se lhe conhecessem e a pergunta por Angra já havia acontecido algumas vezes. Gostaria de saber que pensamentos passavam pela mente deles. Que história faziam daquelas duas que se encontravam ali e tinham uma menina ainda pequena agarrando pelas suas pernas.


Subiu para seu quarto, tomou um longo banho quente, uma oração na madrugada. Era engraçado, nunca havia sido de passar madrugadas acordada, mas aquele horário em si, era o que geralmente chegava em casa depois de voltar de Brasília e... Era gostoso, era familiar. Suas melhores sensações tinham Angra envolvida. Pensou nisso sob o chuveiro e se deixou sorrir.


Saiu do banho, se vestiu, apenas lingerie, era uma noite de verão, estava agradável. Olhou para tudo o que era seu naquele momento, uma mochila com roupas, um tapete de ioga e sua pasta de couro com seu Moleskine, suas canetas, marcadores, blocos extras e o livro que estava lendo. Buscou nos compartimentos da pasta e encontrou o que procurava: duas fotos específicas, uma sua e de Angra em Paris, provavelmente a foto mais casal que já tinha tirado na sua vida, as duas sorrindo, sob a Torre Eiffel, mais agarradas impossível, mais apaixonadas também, os sorrisos contavam tudo, os olhos brilhando também, era noite e as luzes de Paris abraçavam elas duas. A segunda foto era ela duas em outro momento tão brilhante quanto: o nascimento de Estela. A foto tirada na saída da maternidade por uma das enfermeiras, Estela canguru em Sofía, Angra agarradinha nelas duas. Adorava aquelas duas fotos, amava demais, lhe traziam duas das melhores sensações que já tinha tido na vida.


Beijou as fotos e quando ia devolvê-las para o esconderijo, parou. Não precisava mais esconder. Podia deixar público o quanto era louca por aquelas duas. Prendeu as fotos de modo que sempre que abrisse a pasta, fosse a primeira coisa que veria. E foi mais simbólico do que podia imaginar.


Tinha ultrapassado uma fronteira, para si mesma, mas havia.


Foi pra cama e antes de fechar os olhos, achou que tinha sonhado acordada com o encontro perfeito.

O dia perfeito em Paris dançou pela sua mente até finalmente pegar no sono.


Acordou no dia seguinte com um sentimento muito bom andando dentro do seu coração.


Sofía se colocou de pé, tomou um banho longo, se vestiu e enquanto realizava o checkout do hotel, decidiu que iria tomar café em outro lugar. Era melhor se adiantar, era melhor não se dar tempo de mudar de ideia, se iria fazer aquilo, que fizesse de uma vez, que se encontrasse de uma vez, para então, recomeçar de uma vez. Pegou um Uber, com destino certo e quando Catarina entrou na cafeteria aquela manhã, foi informada que alguém a esperava.


E definitivamente, ela nunca seria visualmente a psicóloga padrão e isso deveria ser o que Sofía e Angra mais gostavam naquela moça. Ela veio sorrindo na direção de Sofía, toda de preto, com uma camiseta mais comprida, os cabelos longos soltos e charmosamente, virou o boné para trás quando se aproximou para beijar Sofía no rosto.


Ela era charmosa demais. Sofía entendia perfeitamente por que Angra tinha ficado interessada nela por um tempo.


— Mas que surpresa encontrar você por aqui! Chegou quando?

— Hoje de madrugada — Sofía estava sorrindo, era sempre tão bom ver Catarina! — Angra disse que eu podia pegar a chave do Fusca com você...

— Ela deixou comigo sim, está no estacionamento daqui. Mas se não veio tomar café comigo, não tem a mínima chance de eu entregar essa chave para você...


Sofía desconfiava que haveria essa chantagem. Por isso, guardou seu café para Catarina.


Sentou-se para tomar café com ela, que já tinha adiantado o pedido de waffles que aquela cafeteria só servia por causa de Sofía. Pedido de Angra, é claro, depois da viagem a Paris, Sofía passou a realizar algumas consultorias para a empresa e assim, passou a frequentar aquele lugar mais livremente. Foi quando conheceu Marcela, se aproximou um pouco mais de Carolina, e é claro, acabou conhecendo Catarina também. Era terapeuta de Angra e amiga das duas, era para quem Angra corria sempre que precisava desabafar e, meio que acontecia o mesmo com Sofía.


E já que estava ali, antes de pegar o carro, aproveitou para contar o que havia se passado em Búzios.


— Então vocês...?

— Acho que a gente precisava de um fechamento de verdade, tanto eu, como ela também. Nós não seremos a primeira história bonita que não teve um final conjunto, este é o final que deu para ser, Catarina. E desde ontem, eu tenho me sentido livre para assumir o que nós tivemos, e eu sou muito grata por cada momento, sabe? Cada... Página avulsa de amor que nós vivemos — Perdeu uma lágrima — Grata pela experiência toda que é a Estela, que eu sei que a Angra não vai querer tirar de mim, ela tem muito respeito pela minha relação com aquela menina. As coisas... Terminam, Cah. Mas a história não apaga e qualquer pessoa que eu venha a conhecer daqui pra frente, vai me ouvir falar muito dessas duas relações, do meu casamento que tem muitas páginas maravilhosas também e, da Angra.

— E você vai descrevê-la como...?

— A melhor namorada que eu já tive, a melhor... Parceira possível, um amor enorme, muito vivo, muito presente. A mulher com quem eu queria me casar de novo, ter filhos e com quem eu tive tudo isso, de certa forma. Catarina, acho que talvez eu seja uma daquelas almas predestinadas a ver meus portos preferidos sendo felizes com outras pessoas. Seguindo uma vida boa, onde na verdade, eu nunca fui necessária.

— Sofía...

— Eu devo ter feito isso com outras pessoas na minha caminhada, o tempo é circular, afinal. Eu tinha uma missão com a Frederíca, outra com a Angra, as duas estão entregues e cumpridas. Eu sei que a Frederíca vai se casar novamente e deve dividir as coisas diferente com essa nova pessoa e eu sei que a Angra vai se separar. Mas não agora, num futuro, quando a natureza dela se manifestar forte outra vez. E, ela deve ter um outro tipo de movimento com essa nova pessoa, algo que aprendeu na nossa história e ambos os casos justificarão o meu tempo na vida das duas.

— Mas e você? O que sabe sobre você agora?

— Eu também aprendi muito com elas duas, e não me sinto pronta para ninguém agora. Eu ainda estou romanticamente ligada a Angra, quero cuidar disso com o tempo e a paciência necessária antes de pensar em outro relacionamento. Então, por agora, o que eu quero é decidir onde morar e trabalhar para construir um lugar confortável para mim.

— Só isso?

— Eu também quero ter um lago no quintal, acha que é pedir demais? A Estela gosta de nadar... — Disse, fazendo Catarina rir demais.

— Não, não é. Mas você já conversou isso tudo com a Angra?

— A minha participação na vida da Estela? Ainda não, mas vou voltar com tempo. Tenho que devolver o carro dela e vamos ter um tempo para conversar sobre todas as partes difíceis.

— Sofía, precisa discutir a sua participação na vida da Angra também. Escuta, eu conversei com ela ontem rapidinho e eu posso estar muito enganada, mas ela não entendeu como um término a sua partida.


Sofía a olhou.


— Você acha que... Não ficou claro para ela?

— Eu tenho certeza de que não, ela está desesperada, eu pude sentir, mas não é aquele desespero de quando ela pegou um avião sozinha grávida de sete meses. Sofía, eu acho extremamente válido e corajoso que você tenha ido em frente, exigido um tempo para você mesma, que esteja precisando colocar suas ideias e os seus sentimentos no lugar. Mas nós estamos falando de você e Angra. Do casal que durante a terapia conjunta, descobriu que só brigam de verdade quando a TPM aperta. Vá para onde você precisa ir, mas eu quero acabar com a sua ilusão de que a Angra aceitou o término e que não vai atrás de você assim que ela chegar aqui. Ela ama você demais.

— E eu a amo demais também.

— Posso ver sua proteção de tela?


Sofía sorriu. Mostrou a proteção de tela, uma determinada foto tirada em Paris.


— Ela segue essa moça aí, do romance em Paris. Meio atrapalhada, enrolada, mas segue esta mesma moça aí. Vá para onde você precisa ir, mas os sentimentos já estão no lugar, são as coisas que precisam se mover, não os sentimentos.


Fazia algum sentido. E foi assim, que no final daquela conversa, Sofía abraçou Catarina longamente e achando coragem no fundo do seu bolso, pegou o novo Fusca, baixou a capota, e sozinha, dirigiu em direção à mudança que precisava.


Mas com Angra em sua proteção de tela.


📚


Angra abriu os olhos e eles estavam amarelados diante da luz do sol.


Sabia que ainda era muito cedo, nunca foi de acordar muito cedo, mas quando estava com Sofía, sempre acordava e acabou se tornando um hábito seu, principalmente, depois de Estela. Que estava nos seus braços, dormindo no forte na sala.


Sentiu algo poderoso por dentro apenas de estar acordando fora de sua cama, fora do mesmo quarto que Guilherme, naquele mesmo casamento. Ter continuado naquele quarto diria bastante sobre a sua personalidade e a de Sofía. Ela não era de ensaiar tomar uma decisão, ela tomava, por mais planejada e não impetuosa que fosse, quando ela decidia, decidia e Angra se via muito nela neste aspecto.


Ao menos, era quem costumava ser antes de Estela.


Beijou sua coala e aproveitou-se do quanto ainda era cedo. Subiu, fez o que precisava, Guilherme seguia dormindo profundamente, provavelmente com a cabeça cheia, foi o que contaram as latinhas extras ao lado da cama. Tomou um banho rápido, se trocou e desceu, já checando se tinha mensagens de Sofía, apenas uma, dizendo que ela tinha decidido pegar o carro e que ligava quando estivesse na estrada. Tinha feito um mapa com ela, ainda naquele café da manhã fora com Estela, Sofía dirigiria por cinco horas primeiro, até Três Marias e então seguiria viagem até Ouro Preto, a cidade inicial do trajeto da Estrada Real. Acreditava nela, que ela dirigiria direitinho, sem nenhum problema e seria bom. Tinha decidido encarar essa decisão de Sofía como algo que elas precisavam, para resolver as coisas que precisam e, bem, ir em frente. Foi até a cozinha, se fez um café rapidinho, caminhou até a área da piscina e, viu Frederíca sentada sozinha na praia.


Sozinha, enrolada num cobertor, olhando para o mar e, a cena não parecia... Comum. De jeito nenhum. Decidiu descer até ela.


Colocou chocolate quente numa garrafa térmica, duas canecas e foi até lá, pela trilha curtinha que levava até a praia e quando chegou mais perto, descobriu que ela estava com as roupas da noite anterior, enrolada numa manta e, chorando, chorando de soluçar.


— Frederíca?

— Quê? — Ela nem lhe olhou, seguiu olhando o mar.

— Eu trouxe chocolate quente — Informou, sentando-se ao lado dela, já pegando a garrafa térmica e servindo na caneca.


Frederíca apenas olhou para o lado.


— Trouxe chocolate quente?

— Daquele que você gosta.

— Trouxe assim e nem vai perguntar por que eu estou aqui chorando?

— É pela Sofía, eu sei. E provavelmente não quis chorar na casa, a Luría poderia ver, seria uma situação desconfortável — Angra entregou a caneca para ela e serviu a sua.


Frederíca seguiu olhando para ela.


— Não é engraçado como nos conhecemos tão bem nesses cinco anos?

— E não foi nada planejado, tudo o que eu sabia de você, era o que eu perguntava para Sofía, ela sempre ficou desconfortável com qualquer proximidade nossa — Angra colocou os olhos no mar.

— Ela é muito certinha e você a levou para fazer bagunça. Aliás, você também é muito certinha, já pensou em como...?

— Vim parar aqui? — Tomou um gole do seu chocolate — A gente casa porque acha que encontrou uma pessoa legal e que é o que deve ser feito, porque obviamente, a pessoa ideal só existe em livros.

— E daí de repente, você descobriu que não é bem assim. A Sofía descobriu, eu também descobri. Parecia tudo certo, sabe? Nós duas tínhamos várias coisas em comum, nos entendíamos bem em quase tudo e, por que não? Eu gostei da ideia de me casar — Frederíca parecia muito abatida ainda.

— Ideia da Sofía.

— É, que me assustava demais inclusive. Mas sabe? Foi a melhor decisão que eu já tomei na vida, eu precisava disso, precisava acalmar, criar uma rotina e eu adorava passar tempo com a Sofía, por que não passar o tempo todo?

— Eu conheço este sentimento — Angra respondeu, abrindo um sorriso.

— Eu sei bem como é, porém, faltava. Sempre faltou. E depois que ela conheceu você, eu a peguei muitas vezes longe de mim, cada vez que a gente brigava era como se a mente dela dissesse: “Você não precisa passar por isso”. “Esse relacionamento não vale tudo isso” — Ela abriu um sorriso no meio do choro — As coisas valem mais quando você ama. Não como eu a amo, porque eu a amo, você sabe disso, mas quando se ama incondicionalmente, do tipo... — Ela olhou para o alto, como que tentando evitar mais lágrimas — Assumir um bebê sem pensar duas vezes. Quando eu cheguei e encontrei você no nosso apartamento aquele dia... Eu soube que era sério. Que você não ia se dar por vencida.

— Eu não estava muito em mim, e nunca me desculpei com você pela invasão.

— Você viajou grávida para fora do país, é claro que não estava muito bem — Abriu um sorriso, perdendo uma lágrima — Sabe quando não há muita certeza sobre o que se quer? Você era uma ameaça, eu sabia, mas também achava que não iria querer mais do que... Já estava disponível.

— O que você fez naqueles meses?

— Ah, Angra... Eu conheci uma menina...


Angra abriu um sorriso. Não era como se não soubesse.


— Não foi ruim para mim, mas ao mesmo tempo, todos os dias eu pensava que tinha deixado a Sofía no casamento que ela gostaria de ter, com a mulher por quem ela estava encantada e que... Deu o bebê que ela queria. Você sabe que a Estela...

— É tão dela quanto minha ou do Guilherme, eu sei, ele sabe disso e na cabeça da Estela está tudo certo, ela consegue compreender tudo.

— Sofía não dormia depois que você voltou para o Brasil com a coalinha. Então imagino que para a Estela, deve ter sido mais intenso ainda essa mudança.

— E foi. Ela não dormia, não ficava tranquila, eu só me dei conta de que essa parte era toda da Sofía quando voltei pra casa. Foi... Muito difícil. E — Olhou para ela — Não faço ideia de porque estou contando essas coisas para você.

— Está contando por que a Sofía não contou e essa história parece linda. Eu vivo disso, de histórias bonitas e ela não quis me contar.

— Porque é sensata.

— Ela é. Me conta o que aconteceu há seis meses. Ela sequer me ouviu, apenas foi embora, tomou a decisão em dez minutos e foi embora, e sei que ela deve ter ido encontrar você.

— Eu deveria ter me separado, era o prazo. Ela já deveria estar falando disso com você há um tempo. — Afirmou Angra.

— Falava e eu dificultava. O medo que tenho de ficar sem a Sofía é algo que eu não consigo te explicar — Outra lágrima — Mas eu sentia que estava perdendo a situação, que não ia conseguir alongar demais.

— Você entende que não vai perdê-la, não entende?

— Eu sei que não. Mas dá medo mesmo assim. Eu sei que a minha história com a Sofía ocorreu sempre em momentos diferentes. Sei que ela era muito apaixonada por mim no começo e eu não era tanto; de repente, em meses, isso inverteu, a paixão deve ter durado seis meses, e então, o sentimento normalizou e adivinha? Eu fiquei louca por ela. As coisas inverteram novamente pouco antes de a gente decidir sair do país. Ela perdeu a mãe e isso me tornou algo a mais para ela, eu sei disso. E nisso tudo, Angra, ela se tornou algo muito maior para mim, algo que ela nem faz ideia. Me conta a história de vocês, vamos, resume em vinte minutos.


Levou meia hora, porque cada coisa contada trazia uma memória diferente, uma emoção diferente, Angra chorou um pouco, sorriu demais, contou de maneira resumida e superficial. Não queria Frederíca machucada, do jeito dela ela amava Sofía, de uma maneira tão complexa que era difícil até para ela mesma entender. Então, Angra resumiu, explicou, lembrou e quando terminou, Frederíca estava lhe olhando diferente.


— Você sabe que um dos conceitos da sociedade atual que mais assusta é o conceito de tempos líquidos. Antes, a maioria das pessoas vivia no mesmo dogma assim que o aceitava; se você era batizado, seria católico para o resto da vida, se você se casava, seguiria casado para o resto da vida e você deve imaginar que isso dava uma segurança absurda para todo mundo. Mas os tempos hoje são outros, são líquidos, isso quer dizer que as coisas mudam de forma muito rápida, mudam de caminho abruptamente, e ainda pra gente, da geração desta sociedade líquida, isso assusta, Angra. Olha, eu quero te dizer que vou escrever essa história sua e vou dar a ela o final que você gostaria...


E Angra sorriu pela informação que ela escreveria aquela história, porém, resistiu com algo:


— Eu ainda não perdi.

Vocês tiveram uma filha juntas. E é só por isso que você não perdeu ainda.


Angra ouviu. Sentindo um pouco de verdade e um tanto de ressentimento da parte dela. Se colocou de pé.


— Ela não se importaria... — Disse de repente.

— Quem?

— Luría. Ela é tão pé no chão que vai chocar você. Ela não se sentiria esquisita por você está sentindo tanto pela Sofía: não se compara dias com anos; ela sabe disso muito bem — Estendeu a mão para Frederíca que, estranhou o gesto.

— O quê?

— Levanta um pouco. Eu não sei quando vou ver você outra vez e queria...


Frederíca se levantou e a abraçou, muito longamente.


Agradecer. Não de maneira debochada, só... — Angra tinha ficado emocionada — Por ter me acolhido num momento tão difícil. Seus livros abraçam a gente, trazem tanta coisa boa, tanto... Acalento. Você sabe que há mais mulheres por aí, vivendo num eu secreto e que diante de um romance seu... Santorini hoje é uma amiga, não é apenas um livro — Olhou para ela — Obrigada. Por fazer diferença. Você é especial.


Frederíca a abraçou mais uma vez.


— Basta. Angra, lembra. Agora basta.

— Eu lembro sim.


Voltou pra casa. Carolina e Kalinka já estavam com Estela, tinham dado banho nela e estavam agora brincando, enquanto ela tomava seu café da manhã.


— Angra, você...?

— Vocês duas, parecem um casal, está bem? E um casal lindo, caramba. Eu preciso de mais dez minutos.

— Vai resolver tudo em dez minutos?

— Só começar.


Subiu. Acordou Guilherme. Informou. Suas malas estavam no carro, iria partir com Estela.


— Angra, partir pra onde? Do que você está falando?!

— Divórcio, você lembra?

— Mas não aqui, não na frente de todo mundo!

— Isso... Realmente não é o mais importante...

— E para onde você vai? Com a minha filha ainda por cima!

— E eu a deixando com você, como seria? Só para eu saber... — Não estava sequer alterando a voz — Você não consegue alimentar no horário, detesta fazer dormir e com toda certeza, não vai deixar de tomar suas cervejas para olhar ela brincando na piscina. Basta, Guilherme. Fica aí, ainda tem dois dias. Eu já vou indo pra casa.

— Angra, você está completamente louca! — E ele começou a chorar, e Angra já não tinha o que conversar.

— Quer dar um beijo nela? Eu saio em cinco minutos.


E ele decidiu gastar os cinco minutos com Estela. Desceu, segurando o choro, abraçou a filha, disse que a encontraria em dois dias, que agora ela teria um tempinho só com a mamãe.


— Está indo atrás dela? — Ele lhe perguntou, quando Angra já estava dentro do carro.


Respirou fundo.


— Estou indo atrás de mim mesma. E por favor, não me siga.


Angra pegou a estrada antes das nove da manhã, sozinha, com sua Estela cantando suas músicas preferidas em sua cadeirinha. Pegou seu celular, a lockscreen agora era uma das fotos tiradas na manhã anterior, Estela em seu colo, Sofía agarrada em seu pescoço. O antídoto para tempos líquidos eram amores sólidos. Olhou para Sofía em sua tela.


— Você ainda vai sentir muito orgulho de mim.


Notas:


Hei, pessoas! Como estão?


E chegamos num ponto crucial da história. Com certeza estes acontecimentos é o ponto de virada do relacionamento de nossas protagonistas. Angra precisa realmente ter a certeza de que se ela não agir, vai perder o amor da sua vida para sempre e a nossa linda e poderosa Sofía precisa descobrir que ela pode sim percorrer o “mundo” sozinha, é capaz disso e muito mais.


Bom, vamos agora a uma informação importante…


A partir de hoje, Angra passará a ter apenas 1 capítulo por semana. Estamos com alguns novos projetos e agora na reta final da história, teremos apenas uma postagem semanal. Eventualmente viremos com postagens surpresas.


E como sendo uma postagem por semana, passaremos a postar então todas quartas-feiras, ok?


Para o capítulo 28 estar apto, precisamos de 50 comentários até terça, dia 02/03 às 23h00.


Ah, e no dia 27/02 teremos o Quiz de Delirium: Sinta a Febre no nosso grupo de WhatsApp. Caso queiram participar, o link do grupo se encontra aqui: https://bityli.com/LetqE;


E vamos de alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;

- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;

- Lançamos 6am: A hora mais curta! Está disponível na Amazon! Quem já estava com saudade das nossas garotas? Ou quem está louca para conhecê-las? Corre aqui! encurtador.com.br/frBO4.


Beijos! Se cuidem!


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