Angra - Capítulo 3: Angra



Búzios, tempo atual.


As mãos de Angra sempre estavam nos lugares certos.


Sempre estiveram, desde o primeiro toque, Sofía já havia se declarado rendida, perdida, porque o jeito que Angra lhe tocava...


Respirou fundo, num movimento leve de subir e descer pelo colo dela, aquelas mãos lhe apertando a cintura suavemente enquanto os braços lhe apertavam para junto, não lhe davam espaço, tempo para processar, respirar, Sofía mal suspirava estando assim, no colo dela, de frente para ela, naquele beijo com uma saudade que já durava mais que quatro meses inteiros... Nunca havia sido tanto. Nunca havia ficado tanto tempo longe de Angra, tanto tempo sem se verem, sem se tocarem e nem sem Sofía voltar para ela.


O último ano havia sido difícil, feito de dezenas de separações, cujo a última não tinha sido desfeita, mas de repente, agora... As taças de vinho seguiam intocadas, as coxas de Sofía apertando contra as coxas de Angra, as mãos quentes que Angra tinha, deslizando suavemente pelo seu corpo, tocando por cima e por baixo do suéter preto, correndo pelos seus punhos, pela sua cintura, quadris e então, os dedos subindo pelo meio de suas costas... Caminhando pela sua cervical, até alcançarem sua nuca, onde a pegada se fechou firme e delicada, arrepiando Sofía, que pegou a boca dela em outro beijo, se apertando contra o corpo de Angra, precisando dela, como podia? Tanto tesão e tanta falta acumulados numa pessoa só? Mordeu a boca dela e a sua, deixando um suspiro escapar, a mão irrequieta de Sofía subindo pelo colo de Angra, até a sua garganta, os dedos deslizando pela sua mandíbula até alcançar a parte de trás, sua nuca, os lóbulos da orelha e Angra...


Mordeu a boca sozinha, suspirando fundo, de olhos fechados enquanto a vontade esquentava sua pele, disparava seus batimentos porque aquela mulher...


Ai, Sofía... — Suspirou no ouvido dela, sentindo aqueles lábios brincando pela sua orelha, pelo seu pescoço.

— Respira, você está tensa...

— Eu estou sobrevivendo aqui, Sofía, com saudade e tesão, olha o tempo que faz... — Ela reclamou, apertando Sofía contra o seu corpo, afundando o nariz pelo seu pescoço, pegando a lã do suéter e pele no mesmo movimento. O coração batendo tão forte que Sofía podia sentir, sabia que Angra estava sofrendo o afastamento delas, era bem mais do que uma saudade física.


Não era por falta de amor, atração ou bem-querer que estavam separadas. E aquela reação fez Sofía sorrir.


— Você faz parte do meu Hygge, caramba... — Sofía a cheirou mais uma vez, a puxando pela camisa, pondo a boca no pescoço dela.

— Você é o centro do meu Hygge, amor, ainda não entendi como é que você conseguiu...

Sofía a beijou novamente, sorrindo, as mãos descendo pelos braços de Angra, que tanto adorava, apertando seus punhos enquanto ela lhe apertou contra o seu corpo outra vez... Longa respiração, um suspiro conjunto. Era seu Hygge mesmo, aquele conceito dinamarquês de felicidade que vai de coisas simples, como tomar chocolate quente no inverno a ler um livro numa rede no verão, a... Beijar a mulher por quem se é apaixonada, ficar no colo dela, sentir o seu cheiro, simples assim. Hygge, sim, aquela era a sensação.

— Consegui o que, Angra? Eu estou aqui no seu colo... — Agarrada na camisa dela, beijando seu pescoço sem conseguir parar.

— Mas não queria vir... — Subiu as mãos por dentro daquele suéter preto, alcançando a sua pele, o suéter era um tamanho maior que Sofía, porque na verdade, pertencia a Angra. Tinha deixado com ela no último encontro.

— Angra, como é que eu poderia querer vir? Aliás, eu nem sei direito como aceitei vir parar aqui, você é louca, mas eu não era...


Ela abriu aquele sorriso lindo, capaz de iluminar uma noite de lua nova como aquela, com uma enorme facilidade.


— O tempo verbal está certinho, você não era louca, mas isso foi antes de mim, antes de nós duas, antes dessa... Situação nossa aqui.

— Está chamando a gente de situação...?

— Eu chamo a gente de amor, mas você me proibiu.

— Eu não proibi você de nada, Angra, eu só... Ainda não sei bem como chegamos até aqui. É sério, isso aqui é uma loucura.

— Eu precisava te ver e você sabe que eu gostaria de ter outras alternativas, mas não sobrou nenhuma. Eu não conseguia escapar de estar aqui e não podia passar mais um mês sem te ver, ainda mais com você não falando comigo.

— A gente estava falando.

— Não como deveríamos, não como nós duas. Linda, eu precisava te ver e sei que você precisava também. Eu não consigo aceitar que você não esteja com saudades.

— Eu estou, min Hygge — Sofía falava tantos idiomas e Angra adorava cada um deles na boca dela — E queria mais do que qualquer coisa passar um tempo com você. Mas não era aqui, nesta situação esquisita, era nós duas em San Andrés, do jeito que...

— Eu prometi pra você, eu sei — Angra a acariciou na cintura, deitando a cabeça no colo dela e Sofía... A acarinhou, tocando os cabelos dela, a cheirando porque não resistia. Se Angra estava perto, suas mãos sempre estavam por ela, sempre — Sofía, a gente vai pra San Andrés, vamos ter a lua de mel que sempre quisemos, mas agora...

— Agora você não teve como sair, e é provável, que não terá mais por um bom tempo. Nossas desculpas esgotaram, Angra, simples assim. Até duraram muito, aliás, duraram exatamente dentro do prazo que a gente tinha se dado para resolver tudo isso. Você queria um tempo, para arrumar as coisas, para a Estela crescer, combinamos três anos e aqui estamos, nada mudou.

— Inclusive, o que a gente sente uma pela outra. Eu não acredito que você está descartando a nossa conexão...

— Não sou eu que estou. Você entende que não sou eu que estou?


Angra respirou fundo.


— Você também não conseguiu se separar. E olha quantas vezes já tentou, você sabe que isso não é simples...

— Não é, mas complica ainda mais cada vez que a gente desiste das coisas. Eu acho que preferia quando você sentia culpa. Mais culpa do que eu.

— Você acha que eu não sinto mais culpa? Culpa é tudo o que eu sinto o tempo todo, Sofía. Culpa por você, pelo Guilherme, pela Estela...

— Queria que sentisse só um pouquinho de culpa por você mesma... — Se levantou do colo dela, mas Angra não a deixou completar o movimento.


A segurou, delicadamente, a trazendo de volta.


— Não faz isso. Eu estou morrendo de falta de você. Não faz. Por favor.


O coração de Sofía virava líquido dentro do peito.


Voltou para o colo dela, a beijando outra vez, sentando-se de frente para ela, porque sentia falta de muita coisa, mas a falta do beijo dela... Isso doía mais que qualquer coisa. A beijou, sentindo as mãos de Angra se apertando pelo seu corpo novamente, sempre nos lugares certos, com apego, com vontade, mas com tanta delicadeza que Sofía sempre se perdia. Foi algo que Angra lhe ensinou, lhe ressignificou, o jeito que Sofía gostava de ser tocada era aquele, gentil, suave, extremamente carinhoso. Angra lhe olhou nos olhos, aqueles olhos de mel, no efeito degradê pelo qual era tão louca, com aquele olharzinho doce, pedindo carinho e Sofía...


Escorregou as mãos pelo rosto dela e a beijou suave, morrendo de falta daquela boca que adorava, tinha match na sua, tinha vício, o corpo de Sofía afundando por ela, sentindo a vibração que causava no corpo de Angra, no desejo dela, escorregou a mão para entre as coxas dela e ouviu o gemido baixinho, sussurrado, Angra estava tensa e Sofía sabia bem qual era a causa de metade daquela tensão. E Angra...


Pegou Sofía, porque ela era sua, a enlaçando pela cintura, escorregando a boca pelo colo dela enquanto seus dedos percorriam um caminho que já conheciam tão bem, a linha inferior daqueles seios, sua obsessão, os dedos tocando além, passeando, a sentindo enrijecendo imediatamente, arrepiando a pele devagar, o arrepio seguia igual, a reação em pulsação também e quando Sofía sentiu sua calcinha molhando por inteiro...


Ouviram alguém chegando.


E não, não era apenas alguém, era alguéns chegando.


Se recompuseram rapidamente, respirando fundo, puxando as roupas, Sofía tomou a taça de vinho só de uma vez, o que fez Angra rir demais.


— Ficou quente, linda?

— Te mostrar o que ficou quente aqui... — A puxou pela frente do short rapidamente, a fazendo rir novamente e Angra a segurou pelo punho, a puxando para perto, a beijando em silêncio com a mão no puxador da porta.

— Eu amo você, não esquece disso. Não esquece nunca.


Sofía se perguntava quando tinha esquecido.


Abriram a porta e todas as mulheres do grupo estavam de volta, menos Frederíca, Sofía sequer se surpreendia.


— Ei, ela dormiu? — Angra caminhou para Carolina que estava trazendo Estela no colo.

— Você tem um bebê coala, sabe disso, não sabe? — Respondeu, colocando Estela nos braços de Angra ao dar uma olhadinha para a piscina. Duas taças de vinho, acompanhamentos que sequer pareciam terem sido tocados.

— A mãe dela é coala, o que você espera? — Sofía beijou os cabelos de Estela e Carolina parou um segundo olhando elas duas. Às vezes, sentia que Angra estava por um fio de Sofía. O tempo havia passado, porém, perto de Sofía, ela ainda parecia balançada como ficou há anos em Abrolhos.

— Estavam aqui fora?

— Sofía trouxe vinho chileno e essa vista explica tudo por ela mesma...


Era maravilhosa mesmo. Ficaram pela piscina um pouco e começou a ventar mais frio, Sofía agasalhou Estela em seu colo e puxou Angra de lado.


— Ela pode dormir comigo? A Frederíca deve chegar mais tarde, e... — Usou reticências verbais e Angra olhou para ela, ficando imediatamente desconfortável.

— Vocês estão brigadas, não estão?

— E ela está lá naquele restaurante bebendo e se divertindo, vai chegar alterada, e...


Angra fechou a expressão por completo, não tinha pensado naquilo. Sofía tinha, estava desconfortável, sabia que Angra também estava e Angra Fernandes desconfortável... Era uma bomba-relógio.


— Sua mulher tem que aprender a entender um não...

— Angra, ela entende, eu só não quero... — Sofía estava tentando fazê-la falar mais baixo, afinal, estava na piscina e não estavam mais sozinhas.

— Sofía, ela acha que pode ficar fora bebendo e quando volta, se sente no direito de... Aconteceu antes? Enquanto vocês estavam vindo pra cá? Nós temos um combinado, caso você tenha esquecido...

Shssssss — Sofía levantou-se com Estela no colo, chegando mais perto de Angra. Alguém tinha colocado música e encontrado vinho na cozinha — Vamos colocar o bebê na cama?

— Sofía...

— Me coloca na cama? Não pensa mais nisso, não vai acontecer nada, vem me colocar na cama...


E assim, Angra acalmou. Subiu com Sofía e juntas cuidaram de Estela, para descobrir que nem banho acordava o bebê-coala, ela mal reclamou. Deram banho, a trocaram num pijaminha, Sofía a colocou na cama e Angra lhe colocou na cama.


— Desce, eu vou tentar dormir logo.

— Seu voo foi desconfortável?


Sofía segurou o punho dela, carinhosamente.


— Lembra de quando eu fazia este voo uma vez por mês?

— Porque eu ficava doente se não via você.

— Só você, meu amor? — Sofía beijou a mão dela com carinho — Desce. Há coisas que a gente não gosta que a Estela ouça nem dormindo. Vai lá, amanhã a gente conversa melhor.


E era tão, mas tão bom ouvi-la lhe chamando de “meu amor” outra vez... Angra a beijou uma última vez, e saiu.


Só queria saber quando que ia parar de sair do quarto da mulher da sua vida sempre que a noite caía.


Desceu, foi até a piscina, resgatar seu vinho chileno antes que alguém detonasse com ele. Achou a garrafa, enfim, mordiscou o queijo e as azeitonas que Sofía tinha preparado, olhou para o mar mais uma vez, ouvindo uma conversa ruidosa e cheia de risos. E Carolina se aproximou.


— Vocês ficaram bem por aqui?

— Ficamos, ficamos sim — Angra abriu um sorriso, apesar de sua cabeça estar latejando. Também acontecia, costumava ter reações físicas cada vez que se afastava de Sofía.

— Ela parecia puta com você mais cedo.

— Ela estava — Outro sorriso — Você sabe como ela é.

— Mais brava que você quando quer. Ela vai dormir com a Estela?

— Vai, elas são apegadas uma na outra, você lembra.

— Lembro — E os olhos de Carolina pegaram algo no colarinho da camisa branca de Angra.

— Bem, eu vou dormir. O dia foi longo hoje, o Guilherme ficou...?

— Vendo NBA, disse que não vai demorar.

— Entendi. Vou subir, tá? — Beijou sua melhor amiga no rosto, e...

— Angra?

— Hum?

— Tem batom no seu colarinho.


Angra checou o batom, colocou a mão em cima imediatamente.


— É meu. Boa noite.


Ela saiu da área da piscina e Carolina ficou...


Pensativa.


— Eu admiro a confiança da Sofía! Você viu como a Frederíca ficou... — Luría tinha se aproximado, cortando os pensamentos de Carolina. Ela trabalhava com Angra na empresa, sua especialista em comércio exterior, uma das solteiras do grupo, Carolina já a conhecia bem.

— Conversando com várias mulheres, inclusive com você.


Ela riu.


— Ela é charmosa...

— Eu sei. E é apaixonada pela esposa, só não sei se ela tem consciência disso. Frederíca age como se não tivesse medo de perder a Sofía.

— Sabe quem morre de medo de perder a mulher? Guilherme. Ele estava incomodado de Angra ter ficado aqui. Só não mais incomodado do que você...


Carolina a empurrou, abrindo um sorriso.


— Me deixa em paz, vai...

— Está preocupada com o seu casamento, né? Está séria o dia inteiro.

— Também é isso, e também é... Não sei. Você não sente uma disputinha aqui dentro para saber qual é o casal mais perfeito da casa?

— Motivos pelos quais eu preferi ser mãe solteira. Vou ver meu príncipe, tá? — Que tinha cinco anos de idade e estava dormindo no sofá.


Foi ver o príncipe. E Carolina foi ver se conseguia dormir. Sozinha.


Os homens começaram a chegar aos poucos e Frederíca sabia que deveria estar sendo a última a entrar. Já era quase duas da manhã e se perguntou se Sofía estaria irritada. Ou se tinha ao menos percebido. Subiu devagar, tentando não fazer barulho e quando alcançou seu quarto, respirou fundo:


Sofía estava dormindo muito bem agarrada em Estela.


Soltou o ar pela boca vendo a cena e cuidou para não as acordar. Aquela relação de Sofía com Estela, fazia Frederíca sentir como se sua mulher tivesse tido um filho fora do casamento e meio que... Havia sido assim mesmo. Estela era de Angra, mas também era de Sofía, de alguma maneira, as peças se encaixaram para que fosse daquela forma e tudo bem, não se importava, era uma relação pura, de amor, que não cabia a Frederíca aprovar ou não.


Sentou-se no aparador da cama e começou a tirar a roupa no escuro mesmo. Soltou os tênis dos pés, tirou a camisa manga-longa exibindo todas as tatuagens que tinha pelos braços, olhou para Sofía dormindo com Estela mais uma vez. Sabia o quanto Sofía já havia quisto ser mãe e o quanto que Frederíca lutou contra aquele sonho até ela decidir deixá-lo de lado. Era fato que eram muito jovens quando começaram a falar sobre o assunto, Frederíca queria outras coisas, Sofía também queria, mas agora...


Agora pensava que talvez, uma criança pudesse uni-las outra vez. Talvez uma criança pudesse salvar aquele casamento, da mesma forma que sabia que Estela tinha salvado o casamento de Angra e Guilherme, até onde estavam vivendo. E então, pensava em Guilherme dizendo que desde Estela, o segredo é que eram mais amigos do que marido e mulher, e se questionava se era o mesmo que queria pra si. Não queria ser amiga de Sofía, nunca havia quisto, mas a verdade, é que não sabia se já não estava acontecendo.


Ao mesmo tempo, amava Sofía. Do seu jeito, mas amava. E era frustrante, porque sabia que o desejo entre elas andava abalado há muito tempo, sabia que tinha uma mulher maravilhosa ao lado, mas as coisas simplesmente não se conectavam. Faltava algo.


Ou algos.


Levantou-se, ainda de calça jeans, buscou seu bullet journal em sua bolsa de couro lateral e foi para o banheiro. Fechou a porta, acendeu a luz, se olhou no espelho, os cabelos escuros, compridos, os olhos castanhos, correu os dedos pelas páginas anotadas, desenhadas, era algo que tinha em comum com Sofía, as duas desenhavam muito bem. Fez um desenho rápido, disruptivo, anotou: CONEXÃO, bem grande e então, ligações à palavra: mental, sentimental, sexual.


“Ter as três conexões com a mesma pessoa é como ganhar na loteria.” Havia lido em algum lugar, sabia que seu casamento sofria, mas se perguntava se não estava pedindo demais. Sofía era boa, era inteligente, interessante, tinham uma conexão mental ainda muito forte. Tomou banho, se tocou para relaxar, foi para a cama de cabelos molhados, olhou para ela.


Amava Sofía. Apesar de pensar em deixá-la todos os dias.


📚


Não havia paz durante o café da manhã.


De jeito nenhum, não com crianças correndo por todos os lados, várias pessoas cozinhando ao mesmo tempo, música já cedinho, uma agitação natural saudando aquela luz solar, o céu azul, límpido, contando o dia de praia perfeito que teriam pela frente. Sofía desceu por último, com sua pequena coala já acordada e querendo disparar pela casa junto com as outras crianças. E, Angra estava com cara de quem podia ter dormido mais enquanto arrumava a mesa gigantesca para o café.


Angra sempre podia dormir mais, Sofía nunca duvidava.


— Ei, dormiu bem?

— Você vai dormir com a Estela todas as noites, acabei de decidir... — Disse, fazendo Sofía abrir um sorriso.

— Que passou?

— Sua esposa, olha ali, a exibida.


Olhou. E lá estava Frederíca, de bermuda xadrez vermelha e preta mais comprida, cabelos soltos, desgrenhados, biquíni preto, no meio de TODAS as mulheres da casa.


— Você sabe que para ela, Carolina é a Moana e ela é completamente apaixonada por esta ideia. Você leu “Maui”, ela se apaixonou por uma Moana multirracial, uma preta linda com aqueles olhinhos puxados ali, se a Carolina está perto, ela joga charme.

— E você...?

— O que tem eu? Eu já tenho problemas demais para ter ciúmes da Frederíca, Angra, não foi saudável nem quando deveria ter sido, no começo, quando eu era tão apaixonada por ela — Explicou, ajudando Angra a pôr a mesa e daí olhou para Frederíca outra vez, o sorriso aberto pra cima de Luría numa conversa mais de perto — As mães a adoram, eu fico impressionada... — Disse, fazendo Angra rir demais.

— É a mágica de “Santorini”, linda...

— Angra, você não pode me chamar de “linda” aqui, pelo amor, treina isso.

— Eu vou treinar — Seguia sorrindo, aquele sorriso lindo de sempre — Mas você lê “Santorini” pela visão da protagonista, mãe solteira, saída de um relacionamento hétero e daí aparece aquela heroína, sedutora, boa moça, bem sucedida, perfeita, aquela mulher não tem defeitos...

— E não é a Frederíca. Mas esta parte ninguém precisa saber, o interessante nela é essa fantasia despertada. Eu admiro isso nela, sabia? Essa confiança que ela tem em abordar mulheres, sério.

— Mas isso você tem também — Angra lhe disse buscando seus olhos, ainda com aquele sorriso lindo aberto enquanto distribuía xícaras pela mesa.

— Eu? Eu morro de vergonha... — Tanto que ficou vermelha quase que de imediato.

— Ah, então a abordagem foi exclusividade minha?


Sofía buscou os olhos dela abrindo um sorriso.


— Pior que... Foi exclusividade sua mesmo, sabia? Eu nunca tinha... Abordado uma mulher antes.

— Eu fiquei muito perdida quando você falou comigo, porque eu tinha te visto no check-in, você tinha chamado a minha atenção e daí de repente... Lá estava, aquela moça linda, puxando assunto comigo. E eu ainda fui muito bobinha com você...

— Tentando me contar o livro sem dizer que era lésbico — Mais um sorriso.

— Quase tive uma coisa quando você falou que conhecia o livro, que conhecia a autora, foi surreal demais. Eu fui dormir e sonhei com você aquela noite inteira.

— Eu também sonhei. De forma mais grave, sonhei acordada porque desde quando eu te vi naquele check-in... — Desviou os olhos por um instante — Eu tive todo tipo de sonho acordada que se pode ter com alguém. Eu vi a mãe dos filhos que eu queria ter, vi a mulher com quem eu gostaria de me casar, ter uma vida conjunta, uma vida diferente de... Encontrar a mulher com quem você é casada com outra. Eu sei que estava frágil, Angra, mas foi mais do que isso. Foi mais do que... — Outro sorriso, emocional, ela tinha ficado emocional — Uma fantasia. Eu senti uma coisa mais forte de imediato, eu nunca vou saber explicar direito, era como... Uma conexão direta. Mas não como um déjà-vu, não foi como se eu te conhecesse de uma vida passada, nem nada assim, isso eu senti com aquela outra moça ali — Apontou para Frederíca — Eu te conhecia. Mas era da minha vida futura.


Angra a olhava nos olhos. A puxou pela cintura, beijou a testa dela com carinho e bem perto do seu ouvido...


— Eu gostaria de te lembrar, que já sou a mãe da sua filha. A de agora, e a do nosso filho que está nos esperando aí neste futuro. De onde a gente já se conhecia.


Sofía sorriu e lhe beijou o ombro, e era desta forma que as camisas de Angra sempre acabavam marcadas de batom.


Foram para a praia depois do café da manhã e por si só, já eram um crowd respeitável. As crianças se entendendo e se desentendendo, os adultos passando pelo mesmo, e quando Frederíca correu para dar um mergulho, Sofía preferiu ficar na areia um pouco mais, observando o tom da praia, as cores do mar, o sol brilhando tão forte, dando ar de paraíso para todas as coisas.


— Pensando em quê? — Guilherme tinha entrado no mar com Estela e só havia um lugar onde Angra queria estar. Sentou-se bem do lado de Sofía.

— Em Abrolhos — Respondeu, já com um sorriso aberto, porque querendo ou não, estava com uma falta enorme daquela sujeita — Lembra que passamos o dia juntas e depois fomos pra praia...?


Angra abriu um sorriso também


— Eu lembro de cada segundo daquele dia, eu tenho suas anotações.

— Você ainda tem? — Perguntou muito surpresa. Sofía tinha registrado todos os encontros delas em crônicas tão bonitas quanto os livros de Frederíca, que faziam Angra se perguntar por que Sofía não se lançava como escritora de uma vez. Os artigos sobre viagens que ela escrevia não eram simples informativos, eram uma construção também, um tipo de crônica muito agradável de se ler. E o jeito que ela tinha registrado seus encontros com Angra... Era a coisa mais linda.

— Como que eu não vou ter, linda? Eu tenho, ainda não acredito que você quis se desfazer daquelas crônicas até hoje, é a nossa história, escrita com a sua letra.

— Não era desfazer delas...

— Era pior, era desfazer de nós duas. Eu ainda tenho e leio de vez em quando, ainda que eu lembre de cada segundo, que já tenha decorado quase cada palavra escrita por você, eu leio e me faz sorrir todas as vezes, meu coração fica aquecido, eu me sinto... Protegida. Você está ali, seus sentimentos estão ali, eu não vou te perder.


Sofía olhou para ela.


— Como termina a primeira crônica?

“Abrolhos: abra os olhos”.

— E parece que não abrimos até hoje — Trocaram outro olhar.


Tão longo que Carolina conseguiu ver mesmo que a distância.


Estava em solitude aquela manhã. Queria ficar mais reservada, mais sozinha, já tinha discutido com Felipe quando ele chegou de madrugada, sabe-se lá depois de quantas cervejas, querendo relaxar antes de dormir e lhe tratando como se fosse a coisa que ela deveria estar esperando, depois de ter sido enviada pra casa sozinha. Não conseguia entender esse comportamento, menos ainda aceitar, a desconexão, a falta de nexo entre o mental, o sentimental e o sexual, como ele não entendia que se estavam com problemas nas duas primeiras instâncias, também teriam na última e não sabia bem o que fazer. Talvez aquela viagem tenha sido um erro e talvez...


Talvez devesse desviar sua mente daquele assunto e notar algumas outras coisas.


Será que estava mesmo exigindo demais do seu casamento? Porque prestando atenção nas coisas, talvez estivesse. Carolina sempre havia se baseado em outras relações para medir a sua, sabia que era bobagem se comparar com os outros, mas no auge do seu desespero, queria ter um parâmetro que fosse, queria fazer ideia de como um casamento deveria ser, porque o casamento no qual cresceu não servia. Seus pais foram casados em uma outra época, as coisas eram diferentes agora, então, o que sua mãe lhe dizia que era normal em um casamento, talvez não fosse mais tão normal agora.


Não tinha ilusão de que deveria haver um romance contínuo, não era isso, sabia muito bem que as coisas não eram assim, mas gostaria de ter ao menos um pouquinho de romance que fosse de vez em quando, aquele tanto que Frederíca entregava a Sofía por exemplo; não achava que existia casamento sem brigas, mas um pouco do bom entendimento de Angra e Guilherme também não faria mal.


Porém, porém...


Lá estava Guilherme, sempre ocupado com alguma coisa, naquele momento por exemplo, estava extremamente ocupado em descobrir onde podia encontrar determinada coisa para o churrasco, ou específica bebida que iria precisar, distante de Angra, em contrapartida a Felipe, que não parava de tentar contato para fazer as pazes, lhe dando atenção, se mostrando arrependido do seu jeito enquanto Frederíca seguia flertando e distribuindo sorrisos para todos os lados, menos para Sofía. Que estava com Angra. Fazendo castelos de areia com Estela, aos risos. Pensou naquilo, guardou para si.


Voltaram para a casa e o almoço foi feito na área da piscina. Carolina cedeu, fez as pazes com Felipe, Frederíca voltou para perto de sua Sofía para escrever, dizendo que só conseguia escrever com sua inspiração por perto, o que causou um sorriso indecifrável de Angra.


— Angra, qualquer dia você vai me morder de ciúmes, eu me sinto ameaçada o tempo todo... — Frederíca estava sorrindo demais, o notebook sob o braço, o cabelo desgrenhado, o olhar preguiçoso, charmosamente desleixada e atraente demais. Era a filha da mãe de uma Casanova, tão sedutora que nem Angra conseguia se irritar de verdade com ela.

— Você corre risco, sabe que corre risco e fica provocando...

— É divertido, você tem que admitir. Você nem esconde mais...

— Minha paixão pela Sofía, não escondo mais não, era ridículo, todo mundo sabia... — Dizia enquanto estava deitada pegando sol em uma das espreguiçadeiras, os cabelos avelã, os óculos escuros.

— E eu não tenho a mínima condição de puxar briga com você, você é mais alta, mais forte, faz o estilo dela, eu faço o quê? Provoco, para ao menos me divertir com esta situação...


E Sofía quietinha, olhando para baixo, brincando com Estela, as duas sabiam que ela ficava sem jeito e se divertiam com aquilo demais, Sofía já estava até acostumada. Frederíca lhe beijou os cabelos e disse que ia escrever, Guilherme passou para jogar videogame, o que lembrou Angra de...


Go play your video game... — Angra cantarolou, pegando o celular imediatamente para mudar a música que estava tocando.

— Angra, você não se preserva e não me preserva, vai fazer eu ter um ataque cardíaco aqui, é o que você quer?

It's you, it's you, it's all for you, everything I do... — Trocou de música ambiente, colocando um remix de Video games — I tell you all the time, heaven is a place on earth where you...



Daí, Sofía riu, porque de fato, ela não tinha jeito. E menos ainda tinha jeito o que sentia por Angra.


Era muito distinto, não conseguia ficar furiosa com ela por muito tempo e outra coisa que também tinha certeza: nunca conseguiria tirá-la da sua vida totalmente. Estavam terminadas, não havia sido um término de fato, mas havia sido a decisão mais difícil que Sofía já tinha tomado na vida: a de que precisava se afastar de Angra, por si mesma, por ela, porque havia pontos que simplesmente não faziam mais sentido. Sabia do casamento que ela vivia, sabia que inclusive, era bem mais simples do que era o seu relacionamento. Tinha certeza dos sentimentos de Angra, de tudo o que ela sentia por si, só não tinha certeza, na verdade, do que ela sentia em relação a Guilherme, porque isso de fato, não fazia sentido.


O que Angra dizia que sentia com as ações que tomava. Afirmava para Sofía que não viviam mais um casamento propriamente dito, que eram mais amigos do que marido e mulher, e então que não fazia sentido mesmo. Ela lutar tanto para seguir naquele relacionamento. Fazia sentido ser por Estela também, que ainda era tão pequena, mas à parte disso... Não fazia muito sentido. E acabou que Sofía chegou ao seu limite, duplamente chegou, com Frederíca, com Angra e...


Começou a rir. Como é que tinha ido parar naquele lugar com as duas ao mesmo tempo? Ainda não sabia bem. Mas estar perto de Angra, explicava boa parte dos seus motivos.


Seu Hygge. Sua sensação de bem-estar, de aconchego, aquele algo bom que sentia por dentro quando estava apenas a alguns quilômetros dela. Com Angra, sempre começava a se sentir feliz ainda no aeroporto.


Ela lhe fazia bem, ponto. Estar perto dela mudava seu humor, melhorava sua pele, eram poderes que ela tinha. Angra lhe fazia rir, lhe fazia sentir protegida, mais bonita e estar com ela era... Olhou para ela ao seu lado. Só era bom. Só lhe fazia bem. Ainda que aquela ideia tenha sido uma loucura, ainda que estar perto de Guilherme fosse extremamente desconfortável (e de forma alguma era por ele, mas sim por aquela situação), estar com Angra era...


Era a melhor coisa possível.


E mais do que isso, estar com Angra e com Estela ao mesmo tempo, algo que tinha pedido tanto a ela e apesar de parecer extremamente irresponsável, estar ali também era uma prova de amor. Era algo que Sofía queria há muito tempo e que pelas impossibilidades da sua situação, Angra não conseguia fazer. Angra não podia dizer a Guilherme que iria tirar férias sozinha, que levaria Estela e também, não cabia a Sofía poder dizer a Frederíca que iria tirar férias com Angra, ou tirar férias sozinha. Já haviam escapado de todas as formas possíveis, usado todas as desculpas disponíveis para estarem juntas e era sempre escasso, era sempre corrido, Sofía viajava por oito horas para passarem algumas tardes juntas e a grande verdade, é que isso nunca foi um problema.


Se depois de oito horas voando, pudesse passar 4 horas com Angra, Sofía sequer sentia cansaço.


Respirou fundo, a ouvindo rir em grupo, contando qualquer história enquanto uma divisão natural acontecia pela casa, homens no videogame, mulheres conversando ou mimando Frederíca, que já havia se isolado em sua bolha para escrever enquanto recebia atenção feminina sem sequer se esforçar. E em meio a tudo isso, quase que num campo invisível, Angra e Sofía aconteciam, sem chamar atenção de ninguém.


Bem, de quase ninguém.


Sofía estava irritada, estava magoada, estava sentida, mas a grande verdade é que não havia possibilidade de se negar a aproveitar qualquer tempo junto com Angra. E nem era para muita coisa, era apenas para o simples, era tempo para ficarem na piscina conversando sobre qualquer coisa, tempo no qual Sofía podia cuidar de Estela, para que Angra pudesse dormir um pouco no meio da tarde, ou que pudesse ler duas páginas de seu livro atual sem ser interrompida. Era tempo para pegarem um sol ou rediscutirem suas palavras por absolutamente nada. Tinham palavras juntas, duas de Angra, duas de Sofía, as de Angra estavam tatuadas em alemão em seu calcanhar: Schönheit und Hartnäckigkeit, “beleza e obstinação”. Enquanto na parte de trás do braço de Sofía, se lia: “Talent et Guerre”, talento e guerra, em francês. As duas tatuagens com um símbolo de mar acompanhando, “Abrolhos”, os olhos que Sofía achava que ainda não havia aberto, porém...


Ali estava. Olhos abertos olhando para Angra mais uma vez. A vendo rindo numa roda de conversa qualquer, usando um biquíni minúsculo naquele corpaço que deixava Sofía sem dormir. Literalmente sem dormir, havia noites em que sentia tanta falta dela, que ardia tanto de vontade que não conseguia ficar na cama, precisava levantar, buscar o quarto de hóspedes (ou do bebê que nunca veio) para aliviar o que estava sentindo, a necessidade que gritava na pele. Isso lhe acalmava um pouco, imaginar era gostoso, mas sequer se aproximava do que tinham quando estavam juntas. E lá estava Angra, dourada como quando se conheceram e Sofía...


Angra lhe trouxe uma caipirinha e bem perto do seu ouvido:


— Mergulha para eu ver.


Sabia muito bem o que ela queria ver.


Mergulhou, foi nadar um pouquinho, sentindo que estava sendo olhada, que tinha alguém lhe desejando, a sua Angra, a sua garota proibida, que entre algumas coisas, tinha lhe ensinado a nadar e a ver o tanto de coisas bonitas que haviam por si. Era parte da construção e da desconstrução social ao mesmo tempo, da mesma forma que não sabemos o que é feio em nós, também não sabemos o que é bonito e em ambos os casos, são vozes de fora que apontam o que a mente não consegue ver sozinha. Angra lhe apontava belezas onde ainda não tinha olhado sozinha, ela adorava suas curvas imperfeitas, amava detalhes seus que Sofía sempre lutou para esconder e o mesmo se passava com Angra.


Uma vida insegura pela sua altura, pelos seus tímidos contrastes, a implicância que desenvolveu com seu corpo, principalmente depois da gravidez e que Sofía jamais poderia imaginar. Era tão cheia de confianças sociais e tão insegura com coisas que Sofía simplesmente adorava nela. Se cuidavam assim as duas, cuidavam da autoestima, cuidavam dos sentimentos da mesma forma e se Angra assim lhe cuidava, não havia o mínimo motivo para que Sofía não entregasse a ela seu corpo e seu tesão da maneira plena que entregava. Era uma tarde quente, estavam quentes quando Sofía saiu da piscina, sabia, sentia, Angra estava ardendo.


— Sofía, a gente devia...

— Se comportar. Eu vou pegar um vinho pra você e achar a nossa coala.


Pegou o vinho, achou a coala que já queria colo, já queria mimo, já queria amor e a mulher que tinha todo o tesão de Angra na mão direita, alcançava o seu coração com toda a paciência e o carinho que tinha com Estela. A enrolou numa toalha, a colocou no colo, ouviu o que ela queria, chocolate quente, não havia o que Sofía não fosse fazer por ela.


E lá estava Sofía, subindo para o mezanino, achando um lugar com menos barulho porque Estela era sensível a sons altos, principalmente, quando ficava cansada do jeito que estava. Colocou o chocolate quente no copinho dela e saiu para uma das varandas, ainda de biquíni e quando Angra as alcançou, ela estava andando de um lado a outro com Estela no colo, tomando chocolate, e a música que estava tocando, não podia ser mais apropriada, podia?


Abraçou Sofía por trás, ela apenas de biquíni e Kimono boho aberto, com o bebê no colo e as duas, gentilmente, balançando com ela...


You make the sun come up on a cloudy day, you're my number one, you're my special thing... — Sussurrou a letra no ouvido dela, a fazendo sorrir, porque era uma música especial, que falava exatamente do tipo de apego que tinham uma pela outra — Diz que não me retirou do cargo... — Perguntou, sabendo que ela estava sorrindo novamente.

— De minha coisa especial?

You're my everything... Não pode ter me tirado do cargo assim, linda.


Sofía se virou de frente e deitou um beijo no ombro dela, com Angra beijando os cabelos de Estela, que já dormia, e a testa de Sofía com carinho em seguida.


— Todo mundo tem um fantasma, e eu tive um bebê com o meu — Sofía lhe disse sorrindo.

— Mas de jeito nenhum que sou, me recuso a ser — A olhou de pertinho, porque sua imagem preferida na vida devia ser Sofía segurando seu bebê — Seu fantasma, seu passado, me recuso. Sou seu presente, e seu futuro, não esquece desta parte — Beijou a testa dela outra vez, a mantendo muito pertinho — Quer ir tomar seu banho? Eu fico com ela e depois a gente troca...


Abrolhos, “abra os olhos”, Sofía estava de olhos abertos e Angra ficava linda de short jeans e qualquer camiseta, preta e branca, Calvin Klein, foi assim que ela saiu do banho, assim que se arrumou para saírem para o jantar. O perfume que ela não trocava, feminino, só um tantinho adocicado, extremamente atraente, sedutor, o ouro sempre por ela, na correntinha em seu pescoço, nos anéis em seus dedos enquanto Sofía era prata, na gargantilha, na aliança pendurada em seu punho, bonita sempre e naquele vestidinho que... Estava querendo fazer Angra passar mal, não precisava de metade para que ficasse ansiosa, nervosa por ela estar do seu lado, tão perto e sem poder...


Correr a mão por ela. Como queria. Estavam todos num restaurante, numa mesa cheia, Sofía a olhou, olhos nos olhos, conexão sem precisar de uma palavra que fosse. Desviaram, olhando para outras coisas, mas a verdade, é que os olhos de Sofía sempre acabavam por Angra, acabaram novamente, a vendo rindo pela mesa de jantar, sendo a alma de qualquer festa sem sequer se esforçar e todos os planos que tinha feito de deixá-la de vez, todas as certezas que tinha de que não valia mais a pena esperar por ela... Se desfaziam.


A ansiedade que vivia em seu estômago quando pensava que deveria se separar dela, migrava para o seu coração, sofria mutação para vontade de ficar com ela que não acalmava, não mudava, não reduzia. Frederíca estava pela mesa, ensinando métodos de se encontrar o próprio Ikigai sem muito esforço, ela era ótima nisso também, em processos de gestão administrativa e de gestão pessoal, Sofía não fazia ideia de como aquelas duas personalidades podiam habitar a mesma pessoa, mas habitavam, ali estavam, naquele ponto delicado em que Frederíca ficava parecida com Angra e algumas coisas faziam sentido.


Todos da casa estavam ali. E elas não viam a hora de conseguir escapar daquela noitada na qual não tinham nenhum interesse.


Estela dormiu. Pouco antes das dez, se arrumou pelo colo de Angra e dormiu.


— Leva ela pra casa, eu vou ficar mais um pouco, vai ter futebol mais tarde.


Angra olhou bem para Guilherme. Não é que quisesse que ele fosse consigo, mas talvez ele pudesse ao menos lhe levar em casa? Principalmente, depois que Luría lhe pediu para levar Bernardo junto?


— Você pode me levar rapidinho?

— Ah, amor, eu não quero sair daqui agora não, vai você, pega o carro, você disse que estava com dor de cabeça, não disse?


Não havia dito. Mas disse algo para Sofía sem precisar de uma palavra que fosse. Foi pra casa, era pertinho, Sofía a olhou saindo, e foi surpreendida.


— Vai com ela, eu vou ficar um pouco mais com os meninos e sei que você não está a fim — Frederíca lhe disse de repente.


Sofía olhou bem para ela.


— Está me despachando pra casa ou é impressão minha?

— Se você for ficar pegando no meu pé aqui, eu prefiro que você vá logo, amor. A gente combinou isso, não combinou? Eu não te forçaria a estar em lugares que você não curte e você não me faria não ir nestes lugares. Sofía, eu sei que a gente precisa conversar, por que a gente não faz isso quando eu chegar? Eu queria fazer isso ontem...

— Quando, Frederíca? De madrugada, quando você chegou depois de sei lá quantas cervejas? Eu sei qual conversa nós duas teríamos. E só para constar, ainda estamos separadas e não estou disponível para você resolver seu tesão comigo depois de ficar flertando com metade das mulheres dessa mesa.

— Nós também já falamos de flerte e você segue não entendendo...

— Frederíca, eu nem estou reclamando, sério. A gente vai conversar, mas acho que as coisas estão tão claras. Você estaria muito mais feliz se estivesse livre aqui.


Ela apenas lhe olhou. Não confirmou, mas também não negou e por mais que não doesse mais, aquela rejeição ainda irritava. Sofía terminou de jantar e decidiu ir embora também, achou que uma das mães iria querer vir consigo, não, todos queriam ficar naquela conversa animada na mesa e Sofía não podia dizer que isso a chateou. Foi pra casa sozinha, de Uber e quando entrou em casa...


Angra já estava sozinha na piscina. Estela dormia num tatame na sala, muito bem agasalhada ao lado do príncipe de Luría, em sono tranquilo e profundo.


— Ei, cadê nosso vinho?


Angra lhe olhou daquele jeito lindo. Tinha certeza de que Sofía daria um jeito de vir.


— Esperando meu amor para abrir uma garrafa comigo...


Sofía abriu um sorriso, Hygge, sim, seu Hygge, sua coisa especial, uma das melhores sensações que já tinha sentido na vida. Ficar com Angra. Simples assim.


— Vamos fazer uns hors d'oeuvres? Daqueles frios que você gosta para acompanhar o vinho, eu trouxe aquele chocolate peruano... — Sofía a agarrou pela mão, já a levando em direção à cozinha.

— E eu trouxe os queijos caseiros que você adora e também brownies...

— Que você faz e eu amo. Vem, vamos fazer nossos canapés...


Foram para a cozinha, portas abertas, onde podiam ver as crianças dormindo na sala, e Angra a puxou para dentro, fazendo Sofía rir naquele beijo todo roubado porque parecia mesmo que sempre que cruzavam uma porta, iam parar numa parede, num beijo gostoso, que acelerava o coração e tantas outras coisas mais...


Sofía a puxou pela camisa e enroscou os braços pelo pescoço dela, a puxando para mais perto, o corpo de Angra pressionando contra o seu, esquentando no seu, sempre esquentavam rápido, sempre acendiam gostoso demais, a mão de Angra em sua nuca, em sua cintura, a boca mordiscando devagar, pegando, a pulsação disparando, subindo até a garganta... E a respiração pesando um pouquinho mais, os braços de Angra enroscando pela sua cintura, lhe apertando firmemente enquanto o corpo de Sofía se empurrava contra o dela, a mantendo junto, muito perto...


Sofía suspirou outra vez, porque o jeito que Angra lhe beijava era...


A coisa mais quente, suave e gostosa da vida. Os lábios delicados e firmes que encaixavam pelos seus de uma maneira que...


Lhe desconectava do mundo.


E deve ter sido por isso que sequer ouviu que mais alguém havia chegado.


— Então, foi assim que aquela menina nasceu colombiana.


Era Carolina.


Notas da Autora:


Olá, meninas!


Finalmente, capítulo totalmente inédito para vocês e espero que tenham curtido o ritmo que terá esta história!


É um pouco parecida com Delirium, quando tínhamos capítulos no presente e também no passado, explicando como cada coisa foi se dando, montando duas linhas temporais diferentes que se encontram mais para próximo do final da história. Bom, já deu para notar que Angra e Sofía tem muita história juntas e muito a contar pela frente!


Particularmente, eu gosto muito deste capítulo por ele ser uma espécie de momento de aterrisagem de algumas personagens, nele podemos ver um pouquinho mais de Angra, de Sofía e de seus parceiros também, que começam a nos acenar algumas coisas e...


O finalzinho, eu sei, deu uma acelerada no coração, não deu? Ao menos, das nossas protagonistas eu tenho certeza que acelerou!


O que estão achando da história? Comentem aqui com a gente, afinal, nossa meta de 50 comentários segue firme e forte! E meninas, temos um grupo muito amorzinho no Whats’App para quem quiser conversar sobre as histórias assinadas por mim, quem tiver interesse, basta clicar aqui:


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Beijos!



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