Angra - Capítulo 4: Rapa nui




Brasília, fevereiro de 2015.


Não havia uma coisa naquele apartamento que não lhe irritasse profundamente.


Angra estava tentando, jurava que estava tentando, mas nunca pensou em sua vida que sair da casa de seus pais, pudesse ser tão desafiador como andava se mostrando.


Não sabia o que estava acontecendo, mas a grande verdade, é que as coisas pareciam muito mais simples com Guilherme, quando não dividiam o mesmo espaço 24 horas por dia. Absolutamente tudo lhe irritava nele, a falta de cuidado que era praticamente parte da personalidade dele, as coisas que ele deixava fora do lugar, os pratos que sempre ficavam na mesa, os sapatos pelo meio da casa, o jantar solitário porque ele já chegava em casa com os olhos no celular, nos jogos de RPG e quando completaram uma semana morando juntos, “comemoraram” tendo a maior briga que jamais haviam tido em três anos de namoro, regado à paz.


— Não é possível que você seja incapaz de fechar um tubo de creme dental!

— Angra, é um maldito creme dental!

— O terceiro que você perde a tampa em uma semana, meu Deus! Guilherme... — Respirou fundo — Nós saímos de casa. Não tem mais a sua mãe para fazer as coisas pra você, a casa não vai se manter arrumada sozinha, é da coisa básica — Mostrou o tubo de creme dental sem tampa — Ao mais complicado. É do fazer supermercado a lavar as louças que você usa para cozinhar.

— Eu já disse pra você contratar alguém.

— Contrato, mas eu tenho certeza de que não vamos encontrar alguém que venha fechar o tubo de creme dental que você usa, ou que vá atrás de você monitorando onde vai jogar as chaves do carro, para colocar num lugar no qual nós dois somos capazes de achar!

— Você está se estressando por nada!

— Deve ser por nada mesmo, eu tenho quase certeza que deve ser por nada! — Angra saiu do quarto batendo a porta e foi se trancar no quarto ao lado, respirando fundo, sabendo que ele estava lhe seguindo.

— Por que você não volta pra casa da sua mãe? É a única coisa que você fala o tempo todo!


Angra abriu a porta novamente, o encarando de frente.


— Se eu achar que devo voltar, eu vou voltar. Se eu achar que é você quem tem que sair, você vai. Todas as nossas economias estão dentro deste apartamento, ele não é só seu, tal como este casamento também não é só meu. Se esforça. Eu também não lavava louça na minha casa, mas estamos só nós dois aqui, agora. Se você quiser que eu fique aqui, você vai ter que fazer mais — Fechou a porta.


Ele não disse mais nada e nem Angra disse também, sua cabeça estava fervendo e a lista de coisas que lhe incomodavam, não paravam de crescer.


Pra começar, só tinham dormido juntos por duas noites, Angra não se acostumava em dividir a cama, não suportava que ele se movesse a noite inteira e o cheiro de cerveja após o happy hour do dia anterior, ainda estava lhe irritando até aquele momento. Sabia que Guilherme estava devendo no relacionamento, mas sua parte de dívidas também existia e Angra não fazia ideia se...


Iria se adaptar. Com o apartamento novo, com a vida nova, com o convívio contínuo. Sentou-se na cama e Brasília brilhava através da enorme janela de vidro, evidenciando o estilo nova-iorquino/moderno de decoração, que percorria o apartamento inteiro. Havia pensado em cada detalhe, passado horas folheando revistas e criando pins no Pinterest, decoração de interiores era uma de suas paixões e havia investido demais em seu próprio apartamento, tanto que ele tinha a sua assinatura em cada detalhe. Tinha feito muito, mas Guilherme havia feito também, havia investido todo o lucro do seu terceiro ano de empresa, onde os resultados começaram a ser mais expressivos naquele projeto. Ele tinha uma empresa de engenharia civil, em sociedade com dois colegas de faculdade, que estava indo muito bem, aquele apartamento havia sido um sonho duplo, em que ambos investiram alto, ambos quiseram muito e agora que estavam ali dentro... Algo não fazia sentido.


Respirou profundamente, pegou o celular. O desbloqueou, foi até o WhatsApp, digitou o nome de Sofía, abrindo a janela da conversa cujo a última mensagem contava de semanas atrás. Não haviam conversado desde quando se despediram em Abrolhos e isso já tinha quase três semanas. A cada hora do dia, praticamente, Angra abria aquela tela de conversa, começava a digitar alguma coisa e então parava. Apertou os lábios, escreveu duas palavras, parou novamente.


Sofía deveria estar lhe achando maluca. Primeiro, a abordagem incisiva dos últimos dias em Abrolhos e então, seu sumiço. Haviam trocado contatos, prometeram que iriam se procurar, e era verdade que Angra esperou por uma mensagem de Sofía todo aquele tempo e nada também. Ela não havia escrito nada, nem uma linha. Não havia ligado ou lhe procurado no Instagram, nenhum direct, nenhum e-mail, nada, e Angra ficava se perguntando o motivo. Bem, é claro que deveria ter a ver com seu casamento e os motivos pelos quais a própria Angra não havia entrado em contato, apesar de estar morrendo de vontade, era que...


Não sabia. Exatamente, não sabia o que estava fazendo. Não sabia bem o que pretendia e se nem ela mesma sabia, como podia? Ir atrás de Sofía depois do flerte claro, depois do que haviam compartido em Abrolhos, especialmente naqueles dias sozinhas a bordo? Engraçado, sentia que havia sido exatamente assim. Que haviam estado sozinhas naquele barco o tempo todo porque ainda quando se esforçava, não conseguia lembrar do rosto das pessoas com quem tinha convivido. Devia ser porque não havia convivido com ninguém. Não havia visto ninguém. Era apenas Sofía o tempo inteiro...


Deitou-se na cama, respirando muito fundo outra vez.


— Angra? — Guilherme a chamou da porta.

— Eu vou dormir aqui.


📚



Sofía havia voltado para Cartagena, mas não pra casa.


Já tinha uma semana que havia voltado do Brasil, suas férias estavam quase no final e sua grande verdade, era que tinha entrado num avião sem fazer ideia do que fazer da sua vida. Só sabia que quando pisou no aeroporto de Cartagena, voltar para o seu apartamento pareceu a coisa menos indicada a se fazer.


Era o que Frederíca estava esperando que fizesse, ela havia dado o tempo que Sofía pediu, mas já estava lhe esperando de volta, como se pudessem só despausar a vida de onde haviam parado e retomar todas as coisas. Era assim que ela agia, era isso que esperava de Sofía, sabia, tinha certeza e se fosse voltar para dentro de sua cabeça e se analisar, sinceramente, era o que Sofía estaria pronta a fazer em um cenário que...


Em um cenário em que Angra não houvesse aparecido.


Era uma questão simples e complexa ao mesmo tempo. Conhecer Angra tinha sido uma pancada inesperada, cheia de coisas que nunca haviam lhe acontecido antes. Tinha passado todos os outros dias sem ela no Brasil, pensando sobre tudo o que tinham tão rapidinho vivido, sobre cada sentimento causado, da atração física insana a atração mental intensa, até aquela vontade de tocá-la que lhe acelerou inteira o tempo todo...


Nunca havia sentido nada assim. Aquela urgência por alguém. Aquele encantamento total, a conexão imediata, a pele ardendo por ela, pedindo, exigindo o toque, tudo aquilo era novo, tudo era inesperado e durante todas aquelas horas depois dela, a única coisa que Sofía conseguia pensar quase que em obsessão era: o que teria acontecido se houvessem se beijado?


Não fazia ideia. Só sabia que quando pisou em Cartagena, ir para outro lugar foi a única coisa certa que lhe veio em mente.


Pegou um hotel e tentou pôr suas ideias em ordem. Se desconectar de tudo, tentar avaliar os sentimentos que Angra estava lhe causando, podia ser apenas atração? Queria poder afirmar que era, mas quando pensava em todas as horas que passaram juntas conversando... Não tinha como dizer que era apenas atração.


E foi quando começou a sentir medo.


Preferia que fosse. Uma atração, que acalmaria com um beijo, uma noite no máximo e já se repreendia apenas por estar cogitando algo do tipo, mas se pudesse, se o sentimento pudesse ser parado... Estava com medo de que não pudesse. Essa era a grande verdade e por isso, não havia se movido desde então. Se Angra não lhe procurasse, não iria atrás dela porque simplesmente não fazia sentido. Angra era casada, recém-casada, o que Sofía podia esperar? Não podia ir atrás dela. E por mais que estivesse morrendo de vontade de tê-la perto, de qualquer forma que fosse, talvez fosse melhor que nada acontecesse. Talvez, inclusive, fosse o que Angra estivesse tentando fazer, manter distância pelo que já havia acontecido e pelo que poderia vir a acontecer. E se ela estava distante, talvez fosse melhor de fato que as coisas seguissem assim.


Havia sido curiosidade. Da parte de Angra. Poderia ter sido apenas uma curiosidade momentânea, que de volta para a vida nova que lhe aguardava em Brasília, já deveria ter ficado de lado. O que não significou que Sofía não tenha ficado extremamente triste por isso.


Cheirou a camisa dela que estava usando aquela tarde, enquanto terminava de ler seu livro vegetariano na piscina do hotel. Que fosse nada, que passasse logo, esperava que tudo passasse de uma vez.


No sexto dia no hotel, Frederíca apareceu na sua porta.


— Como você...?

— Eu sempre vou descobrir onde você está. Sofía, por favor. Desce comigo, vamos conversar.


Sofía olhou bem para ela, apertando os lábios. Frederíca estava... Abalada. Toda de preto, de boné, os olhos de quem não dormia há um tempo e um constrangimento que de jeito nenhum era habitual se ver por ela.


— Quer que a gente desça para conversar? — Isso também era inesperado.

— Eu te devo desculpas. Um pedido de perdão. Eu não mereço sua privacidade antes de te pedir perdão em público, meu amor.


Sofía desceu com ela.


E foi uma conversa muito diferente que tiveram numa confeitaria em frente ao hotel. Uma conversa fluída, até engraçada, mas que em nenhum momento, se voltou propriamente para a traição de Frederíca. Ela lhe perguntou de sua viagem, sobre como havia sido, Sofía perguntou como ela havia passado aqueles dias, ela lhe mostrou seus olhos.


— Eu só choro até dormir. Nem sair estou conseguindo. Eu não vou justificar o que aconteceu, só pedir que você me perdoe e que volte comigo pra casa. Nossas coisas estão todas lá, eu preciso de você e espero que você ainda precise um pouquinho de mim.


Não respondeu na hora, pediu para pensar um pouco mais. Sua estadia ia até o dia seguinte. E sem nenhum exagero, durante aquele dia, Sofía entrou e saiu da janela de conversa com Angra 500 vezes antes de pegar no sono. Ela não lhe escreveu. E sua ansiedade estava lhe comendo de dentro pra fora. Precisava tirar aquela ideia da sua cabeça, precisava tirar Angra da sua cabeça e quando desceu para o café da manhã no dia seguinte, lá estava, Frederíca lhe esperando no saguão.


Mãos para trás, respiração nervosa e um sorriso de culpa... Como podia? Achava que tinha sido seduzida pelo bendito sorriso de culpa.


— Sofía, eu preciso dormir. E eu preciso terminar o livro de agora...


Sofía a abraçou longamente. Também precisava dormir. Pensou em Angra e no incêndio que estava sentindo por dentro. Talvez a frieza de Frederíca pudesse ajudar.


Voltou pra casa quase como recorrência.


E estava uma bagunça, porque Frederíca estava uma bagunça e não se admirou em nada que ela não estivesse conseguindo dormir ou escrever. Sofía passou o seu primeiro dia inteiro tentando pôr as coisas em ordem, pela casa, pelo seu relacionamento, por dentro de si, e funcionou. Ao menos pelos dois primeiros dias, se manter ajustando as coisas aliviou sua mente um pouco, lhe desviou do pensamento obsessivo em Angra e de alguma maneira, lhe conformou. Estava de volta à sua casa, ao seu casamento, Angra tinha desaparecido, nada parecia fora do lugar e para alguém que prezava pelo linear das coisas, esta lhe pareceu a melhor opção possível.


Porém só durou até o terceiro dia.


Porque Frederíca era incapaz de ouvir qualquer opinião de Sofía, nem sabia por que ainda se surpreendia. Para Frederíca, haviam se desentendido por conta de uma discordância na identidade visual, para o livro novo que não havia ficado tão boa, mas não era isso, era mais, o que havia pesado era o jeito que Frederíca simplesmente desconsiderou sua opinião, rejeitando automaticamente, porque havia acabado de ter uma ideia melhor, o que lhe isentava de ter que ouvir que fosse por educação, uma opinião que ela mesma havia pedido. Mas isso ela nunca veria. A gravidade por trás de algo simples. Tal como Guilherme também não conseguia ver que o que havia tirado Angra do sério aquela noite, não tinha sido o balde de pipoca virado no carpete e sim, a atitude dele de não esboçar esforço para resolver.


Terminaram em uma nova briga, em que novamente, Guilherme a mandou voltar pra casa dos pais e que Angra se trancou no quarto de hóspedes para não gritar mais.


Olhou para a janela transparente naquele quarto, que já julgava mais seu do que aquele que dividia com Guilherme. A vista lhe acalmava, mas não era suficiente.


Já Cartagena era linda. E sempre acalmava Sofía.


Sofía estava respirando fundo em sua varanda, observando os carros passarem lá embaixo, quando seu celular deu sinal.


“Qual a distância geográfica entre nós duas agora?”.


Foi a mensagem que apareceu absolutamente do nada e que colocou um sorriso imediato em seu rosto. Achou que deveria pensar duas vezes para responder, mas quando percebeu...


“Está puxando qualquer assunto mesmo?”


“Qualquer um. Eu não aguento mais de vontade de falar com você...”.


Mais um sorriso de Sofía e seu coração disparando no peito de uma forma... Respirou fundo, mordeu os lábios, sorriu novamente. Como era bom estar falando com ela outra vez... Mandou a localização, tantos quilômetros que até lhe apertou por dentro. Como estavam longe uma da outra! Mas não precisavam estar, não tão longe, não precisavam mesmo.


“Diz que a gente pode conversar, Sofía...”, como é que não podia? Podia. Mas tinha um assunto por onde Sofía fazia questão de começar.


“O que uma mulher em lua de mel hétero fazia lendo um romance lésbico? A gente só pode conversar se começar daqui...”.


Angra abriu um sorriso. Haviam falado de tudo, mas não havia falado daquilo mais profundamente.


— Angra, eu vou assistir ao jogo lá da hamburgueria do Felipe... — Ouviu Guilherme lhe informando do lado de fora. Tinham feito pipoca para assistir ao tal jogo, Angra andava pedindo que assistissem a um filme juntos, ela adorava assistir filmes, era um dos seus passatempos preferidos, mas ele deu um jeito de recusar todas as vezes. Então, decidiu dizer que veriam ao jogo juntos e ele aceitou, porém, não tinham durado 10 minutos.

— Traz um sanduíche pra mim quando voltar? — Perguntou, levantando da cama e digitando uma mensagem.

— Trago — O ouviu saindo e enviou a mensagem.


“Posso responder por vídeo?”


Sofía olhou para dentro, pelas portas venezianas da varanda e Frederíca estava saindo, rindo numa ligação de celular.


— Está indo pra onde?

— Respirar — E simplesmente saiu.


Sofía pensou um pouco. Voltou para a sala, sentou-se no sofá, deixou o celular sobre a mesinha de centro. Decidiu. Pegou de volta e ligou por vídeo para Angra.


E ela surgiu no vídeo, atraente demais, com os cabelos soltos, aquele sorriso lindo aberto, caminhando pelo seu apartamento em Brasília, buscando uma poltrona confortável para conversar com Sofía, porque assim que ela tinha surgido na tela, seu coração tinha disparado demais. Jurava que estava preparada para olhar para Sofía outra vez, mas isso foi apenas até ela surgir linda de camiseta branca surrada, com aqueles cabelos negros jogados de lado, numa sala Mediterranean decor e lhe sorrindo com os olhos, de um jeito doce que apenas Sofía era capaz e Angra...


Angra já sabia muito bem o quanto estava encrencada.


Começaram jogando conversa fora, apresentando seus apartamentos, ambos seguiam estilos que as duas conheciam, o de Sofía mais colorido, no estilo mediterrâneo, com tons de azul que lembravam Santorini, Barcelona, a costa Amalfitana, enquanto o de Angra era moderno e clean, claro, minimalista, ambas haviam cuidado pessoalmente das decorações de seus apartamentos, ambas tinham decoração como hobbie e eram as duas apaixonadas pelo mesmo estilo, o escandinavo e tinham aberto mão para outros estilos que se aproximassem dele e agradassem seus parceiros ao mesmo tempo. Design de interiores era uma paixão em comum, na verdade, outra paixão em comum, da lista imensa que elas já conheciam. E depois de relaxadas, depois das duas terem preparado um café para tomar juntas, ainda que a distância, entraram na pergunta que Sofía havia feito.


— Então, sempre teve alguma coisa em mim. Eu olho pra trás, vejo essas coisas, mas só consegui perceber o que elas significavam há um tempo. Eu lembro de como gostava de ser moleque quando era mais nova, na pré-adolescência preferia estar correndo com os garotos do que falando sobre eles com as meninas, que aliás, eram um mistério pra mim. Hoje eu sei que passei três anos do meu ensino fundamental, apaixonada por uma menina, que logicamente, nunca me notou e no ensino médio tinha uma outra menina, aliás, tinha uma família de três irmãos que me deixava... — Abriu aquele sorriso lindo mais uma vez — Muito interessada. Mas ainda era confuso, achava uma das meninas extremamente atraente, a outra linda, mas o irmão era interessante também e acho que... Foi assim. Desde lá, eu conhecia algumas garotas, ficava interessada, mas acabava saindo com os irmãos, ou com os amigos delas. Acho até que foi por isso que nunca fiquei sem um namorado por muito tempo. Eu sempre namorei sério, tive poucos relacionamentos até o Guilherme, três namoros longos e só, o conheci, estamos aqui. Toda vez que ficava sem um namorado, eu sentia esta parte minha mais forte, reagindo mais, sempre acabava meio obcecada por alguma menina nestes períodos e consumia tudo o que você possa imaginar. Filmes, seriados com personagens lésbicas, pornô, claro — Disse, fazendo Sofía gargalhar do outro lado — Seguia casais no Youtube, lia fics de internet e livros, tudo. Teve um problema que aconteceu aqui...

— Que tipo de problema?

— Ah, Sofía, eu dei uma surtada geral com essa situação. Começou a me perturbar muito, comecei a me sentir ansiosa pelas coisas que não sabia, passei a querer muito estar com uma menina para entender o que eu sentia, fiz algumas coisas das quais não me orgulho para ver se conhecia alguém, porém, nunca fui em frente. Por causa do Guilherme, é claro, nesta fase já estávamos namorando e eu tive um surto mesmo. Queria... Escapar da minha própria vida, acho que era essa a sensação. Não estava feliz com meu trabalho, nem com meu namoro, eu via as coisas acontecendo, evoluindo, minha família falando de casamento o tempo inteiro e numa sexta-feira, eu desapareci. Peguei a estrada e fui pra Alto Paraíso sozinha, sem falar nada para ninguém, eu precisava me organizar e mais do que qualquer coisa, precisava me entender, me conhecer. A sensação o tempo inteiro é que eu não me conhecia de verdade, que não tinha me permitido viver as coisas que eu precisava, antes de tomar uma decisão tão importante quanto um casamento.

— E o que aconteceu lá? Em Alto Paraíso?


Angra abriu um sorriso.


“Santorini”. E aquele livro salvou a minha sanidade. Eu lia os seus bilhetes e via uma mulher incrível passando pelo mesmo que eu. Ela também não se conhecia, a protagonista. Também tinha fugido para uma viagem sozinha tentando se conhecer. Eu acho que li o livro inteiro em dois dias, trocando o dia pela noite porque era viciante e eu não conseguia parar. Era como... Uma conversa comigo mesma. Uma discussão pessoal das minhas dúvidas, dos meus medos, de um lado meu que eu não quis dar ouvidos, que eu tentei silenciar uma vida inteira — Parou um instante, olhando para Sofía através do vídeo — Isso é muito insano. Você escreveu aqueles bilhetes e de repente... Está aqui. Conversando comigo.

— O quê? Você leu os meus bilhetes e eu fui parar na sua lua de mel! — Respondeu sorrindo demais e o sorriso dela... Tinha um efeito em Angra. Estava tendo flashes de coisas o tempo inteiro estando ali com ela, o olhar dela estava lhe trazendo coisas, o sorriso também, o momento na piscina, se conhecendo ou deitadas naquela rede no iate, tão perto uma da outra...

— E eu passei parte da minha lua de mel com você. Já pensou por este lado? Que tivemos uma lua de mel juntas?

— Angra...

— Nós tivemos. E eu adorei que tenha sido assim. Foi especial, Sofía.

— Eu sei o quanto foi especial. Eu senti a mesma coisa, Angra...

— Essa conexão é real, não é?

— É. Eu sei que é. Mas a gente precisa... — Parou o que estava dizendo olhando nos olhos dela, aquele degradê melado e doce que fazia seu coração... Acelerar demais — Eu preciso cuidar de você.

— O que você está querendo me dizer com isso?

— Você acabou de se casar, Angra, a gente precisa cuidar para que... Eu não te comprometa.


E isso deu uma leve esperança a Angra, que ela não tivesse voltado para a sua relação.


— Você voltou... Para a Frederíca?

— Voltei. Mas as coisas são diferentes aqui, o nosso relacionamento... Como te explico...?

— É aberto?

— Não, necessariamente. Mas nós temos... Uma liberdade. Quase um acordo silencioso sobre certas coisas. Desta última vez, Frederíca extrapolou o acordo. Ela sabe que extrapolou, mas de alguma maneira... Outra coisa que não vou saber explicar direito, mas a traição dela, me aliviou. Nós temos este acordo silencioso, mas eu nunca usei. Nunca quis, minha relação não é a ideal, mas eu nunca me interessei muito por relações, de modo geral. São todas parecidas, feitas da mesma coisa, não faz muito sentido eu fazer uso deste acordo. Mas então que aconteceu a nossa aproximação...

— Sentiu culpa?

— Não é... Certo, Angra.

— O que é certo? Eu acho que me pergunto isso a vida inteira. O certo pra mim, sempre foi arrumar um bom emprego, conhecer um cara legal para um casamento, comprar um apartamento, construir uma família. E agora que eu estou aqui... Sofía, eu amo o Guilherme. Sei que amo, ele é um cara incrível, a gente sempre se deu bem desde o começo, um relacionamento tranquilo, ideal para se passar um bom tempo da vida ao lado. Mas naqueles dias sozinha em Alto Paraíso, eu fui me dando conta de várias coisas, como o fato de estar sempre focando energia em alguma coisa específica para manter o relacionamento.

— Como assim?

— Eu sempre estava querendo alguma coisa, trabalhando por alguma coisa. No namoro, eram viagens, eventos, festas para ir, então, evoluímos para o noivado porque precisava me sentir em movimento, precisava sentir que estava fazendo alguma coisa. Depois do noivado, minha energia foi toda para este apartamento, em conseguir dinheiro para comprá-lo e depois de comprado, foco para decorar tudo, eu fiz sozinha, queria que ficasse também do jeito que tinha planejado e depois de pronto, minha atenção foi toda para o casamento, para que ele fosse da maneira que eu sempre quis, que fosse... Perfeito. Impecável. E foi. E agora eu estou aqui, há menos de dias buscando... Algo para fazer nesta relação. Algo para me manter focada. Para eu não ter que pensar nos problemas que já tenho, naquilo que eu nunca dei voz, nunca me permiti ouvir. Mas então, você apareceu.


Sofía respirou fundo, vendo aqueles olhos lindos lhe mirando de uma forma... Mas tinha uma responsabilidade. Duas, aliás.


— Angra... Me fala... Me fala mais de Alto Paraíso. Você está com seu livro aí? Eu vou pegar o meu, quero te mostrar meus bilhetes preferidos...


Foram pegar seus livros, desviar o foco do assunto, foram trocar ideias sobre “Santorini”, sobre decoração, sobre os negócios de cada uma, história sobre coisas qualquer, pedaços da vida uma da outra divertidas e que davam mais profundidade em se conhecerem ainda mais. Foi difícil desligar. Difícil como havia sido quando voltaram do iate. Sofía tinha chorado sozinha, Angra tinha ficado transtornada. Mas isso não se contaram.


Desligaram por vídeo, mas grudaram por mensagem, conversando mais, falando de tantas coisas, estavam empolgadas com o simples fato de estarem perto uma da outra novamente. Sofía sabia que queria, mas não fazia ideia de como seria bom se reconectar com ela outra vez, subestimou a vontade e a grande verdade, é que quando Frederíca chegou, estava tão tranquila que sequer lembrava pelo que tinham brigado. Demorou para dormir pensando em tudo e Angra também, terminaram de conversar e já era madrugada em Brasília, meia-noite em Cartagena e mal podiam imaginar que o cálculo de fuso horário se tornaria tão natural quanto se darem bom dia todos os dias.


Agarraram assim a semana inteira.


Sofía mal abria os olhos e já buscava o celular, sabia que seu bom dia já estava lá, lhe esperando e ler as mensagens de Angra enquanto tomava café da manhã, virou parte de sua rotina imediatamente. A troca de fotos também se tornou rotina fácil, adorava ver Angra sempre tão bem vestida para ir para o escritório e amou vê-la se transformar com tanta facilidade durante uma mesma semana. A viu em camisas brancas que lhe tiraram o fôlego, então a viu numa saia longa, mesclada com tênis, a camisa masculina da quarta-feira lhe fez tremer e o vestido preto com saltos para um jantar de negócios lhe deixou nervosa de verdade. Ela mudava com extrema facilidade e ficava linda em qualquer estilo que fosse.


A troca de mensagens e de ligações por vídeo, por voz, se tornou coisa de todas as horas e as duas viviam sorrindo pelas situações do cotidiano. Sofía trabalhava em casa em um horário, o apartamento tinha dois espaços de trabalho, um escritório onde Frederíca preferia trabalhar (nos dias que não pegava o notebook e saía para escrever em algum restaurante, café, etc.) e outro na sala, onde Sofía trabalhava por meio período, porque suas tardes ela passava no roseiral, em um novo, uma vez que Sofía tinha saído do anterior e as fotos dali, simplesmente deslumbravam Angra. Fosse pela beleza em si, fosse pela beleza de Sofía e o quanto ela se vestia bem. Adorava vê-la em roupas curtinhas que o verão de Cartagena permitia e adorava vê-la de jeans para o trabalho no campo. Sofía tomou uma posição, a de que seria responsável naquela aproximação, a de que manteria Angra segura, manteria seu relacionamento seguro, apesar de saber que Frederíca estava sentindo alguma coisa.


— Eu quero mandar um livro pra ela. Autografado — Ela lhe disse numa tarde, em que estava trabalhado na sala e Sofía estava se dividindo entre escrever um texto e trocar mensagens com Angra. Tinha contado a Frederíca sobre quem Angra era e como haviam se conhecido.

— Ela vai adorar, admira o seu trabalho demais.

— E admira a minha mulher também. Sofía, você sabe que ela está interessada.

— E você sabe que ela é casada, contei esta parte também.

— Sei, mas está interessada. Eu converso com mulheres como ela todos os dias, você sabe disso. Claro que existem aquelas que só leem pela beleza do romance, que não ligam se é hétero ou gay, mas existem aquelas que não se descobriram, ou que usam a leitura para acalmar um desejo guardadinho lá no “eu secreto” de cada uma.


Sofía abriu um sorriso. Frederíca era tão inteligente, era a coisa que mais lhe atraía nela o tempo inteiro. Era bonita demais a sua Casanova, mas sequer era o que ela tinha de mais impressionante.


— Janela de Johari.

— O “eu público” que você conhece, todo mundo conhece, o “eu cego” que os outros conhecem sobre você e você desconhece...

— O “eu secreto”, que apenas nós mesmos conhecemos...

— E o “eu desconhecido” — Frederíca levantou-se da mesa com o notebook e veio sentar-se no sofá ao lado de Sofía, pegando a manta azul que sempre ficava pelo sofá branco-gelo, seria inverno em Cartagena muito em breve — Que nem a gente e nem os outros conhecem. A capacidade do “eu cego” evoluir dentro do “eu desconhecido” é sempre convidativa.


Sofía cruzou os olhos dela.


— E se ela estivesse interessada em mim?


E ela abriu um sorriso quase doce.


— Eu acho que você não teria coragem.


Sofía apertou os lábios. E Frederíca voltou a escrever muito tranquilamente.


Mais dias passando, mais conversas intermináveis entre Angra e Sofía, apesar de Sofía dificultar demais a vida de Angra. Elas conversavam, trocavam mensagens, mas as ausências de Sofía eram comuns, os sumiços entre as mensagens também, às vezes, ela levava horas para aparecer novamente e isto deixava Angra extremamente ansiosa. As coisas tinham se acalmado em casa, desde que voltara a falar com Sofía, sua implicância com Guilherme havia diminuído e eles estavam se entendendo melhor. Sabia do que se tratava, Sofía lhe deixava mais relaxada, mais entusiasmada, a conversa com ela era sempre maravilhosa, mas as ausências...


As ausências batiam na sua ansiedade. E isso piorou muito com o passar das semanas.


Não sabia qual era a razão dos gelos e dos sumiços, mas eles lhe chateavam demais. Ficava presa entre demonstrar sua chateação e afastá-la de vez, em não demonstrar e ela achar que estava tudo bem. Lhe incomodava os desaparecimentos, as demoras, lhe incomodava que Sofía nunca mais tivesse aprofundado assunto nenhum depois daquela primeira conversa e se perguntava o motivo. E foi aí que o bem-estar que ela lhe causava, começou a dar lugar a um mau humor constante e sua falta de paciência começou a dar as caras novamente.


O que só piorou quando em maio, Sofía lhe contou que iriam tirar férias.


Numa ilha isolada, porque claro, Frederíca era fascinada por ilhas e lá iam elas, para mais uma viagem, provavelmente, para mais uma inspiração, um livro novo, uma chance nova para aquele relacionamento. Foram para Rapa Nui, a mágica e mitológica Ilha de Páscoa, para quinze dias que pareceram uma vida inteira para Angra.


Nem sabia explicar o que lhe aconteceu naqueles dias sem contato com Sofía. Ela passou quatro dias inteiros sem contato nenhum e o mau humor de Angra, que estava complicado, se tornou negro. Não sabia explicar o motivo daquele sentimento, nem sabia como acalmar sua ansiedade, quando percebeu que estava quase no mesmo nível de ansiedade, que lhe fez fugir para Alto Paraíso há um tempo, decidiu marcar terapia.


— Você acha que... Tem a ver com aquela sua situação? — Guilherme lhe perguntou, depois de uma noite romântica que havia dado errado. Angra tinha planejado um restaurante para eles dois, era uma data especial, 10/05, o dia em que começaram a namorar. Guilherme não apenas esqueceu, como se atrasou no seu chegar de todo dia, tinha decidido passar numa barbearia antes e o assunto estendeu, quando se deu conta, correu pra casa, mas já tinham perdido a reserva. E agora estava ali, com Angra sentada no sofá, se desarrumando e calada. Estava calada desde que Guilherme chegou.

— A minha situação? Você chama de situação?

— É uma situação, ué! Eu disse pra você que entendia, que ia te ajudar a entender tudo isso...


Guilherme tinha ido lhe buscar em Alto Paraíso e Angra tinha contado seus motivos. Nem sabia bem naquele momento porque tinha contado, agora achava que sabia o motivo. Talvez ele só... Terminasse tudo. Ao invés de se mostrar tão compreensivo, o que subiu o muro da relação deles. Não podia se separar de quem era tão bom e compreensivo consigo.


— Eu não quero falar sobre isso agora, Guilherme, de verdade, não quero...

— Tem alguma coisa a ver com a menina que você conheceu lá em Abrolhos?

— Tem a ver com o jantar que a gente perdeu.

— Mas vocês têm conversado muito.

— Nada demais — Não tinha mesmo — Conversar ainda pode.


Guilherme olhou para ela.


— Quer descer lá na hamburgueria?

— Eu quero dormir.


Guilherme desceu, Angra dormiu. E quando ele voltou, quase uma da manhã, alguma coisa dentro da sua mente o convidou a dar uma olhada no Instagram. Não no seu, não no de Angra, no de Frederíca. Correu os dedos pelas postagens e foi encontrando cada um dos comentários de Angra, ela sempre estava presente, aparentemente, conhecia todos os livros dela. Lhe incomodou, sim, incomodou, porém, nada lhe incomodou mais do que ver Angra nos comentários de cada uma das fotos de Sofía...


A acordou no meio da noite.


— O que foi, Guilherme?

— Me explica isso aqui.


Eram seus comentários nas fotos de Sofía. E foi uma situação muito longa e muito intensa, porque Guilherme lhe cobriu de perguntas, de questionamentos e a grande verdade, é que não havia nada, absolutamente nada entre Angra e Sofía. Não havia acontecido um beijo que fosse e sua negação chegava a lhe chatear, porque era toda a verdade e Guilherme seguia espremendo, seguia exigindo, pressionando numa fúria que Angra nunca havia visto por ele.


— Caramba, não aconteceu nada! Eu já te contei tudo o que aconteceu, não aconteceu nada!

— Tudo o que você faz é ler estes livros!

— São livros! Lê você, vai perceber o quanto são bem escritos... — Angra já estava cansada.

— Me deixa ver.

— Os livros? Estão na estante, sempre à disposição.

As mensagens. Que você troca com a Sofía. Me deixa ver.


Angra gelou a espinha. Não era por nada, porque não tinha nada mesmo, mas de alguma maneira...


— Isso é uma invasão. O que está público você pode ler o que quiser, mas minhas mensagens são pessoais, como as suas são pessoais.

— Desde quando são privadas? Seu celular nunca teve senha!

— Ah, então você tentou acessar o meu celular...?

— O que você queria que eu fizesse quando vi as suas ações no Instagram?!

— Nós nunca fizemos isso um com o outro!

— Nunca mesmo — Ele lhe olhou nos olhos, furioso — Me deixa ver a conversa.


Angra devolveu o olhar.


— Não. É pessoal.


Ele chegou muito perto, e:


Covarde.


E assim, ele saiu do quarto e foi dormir em outro lugar.


Angra decidiu voltar para a casa da sua mãe, no final de semana. Tudo isso se passou numa quarta-feira e durante aqueles dois dias, Guilherme não lhe dirigiu a palavra e ela também não quis dirigir. Sendo assim, decidiu sair pelo final de semana, arejar a mente, tentar se acalmar de alguma forma e ele não se opôs. Mas fez questão de dizer, quando a viu saindo, que era o que ela queria desde o começo. Angra não sabia se não era. Foi para o apartamento da sua mãe e enfrentou outra represália enorme. Ela não entendia, queria uma explicação, por qual motivo Angra estava abandonando Guilherme daquele jeito, que ele já havia dito a ela o que aconteceu...


— Ah, ele já ligou?

— Você abandonou seu marido, Angra! Eu liguei para saber o que tinha acontecido!

— E por que não perguntou pra mim?

— E você diz alguma coisa? Você nunca me diz nada!

— Eu sempre te contei tudo! Isso não é justo!

— Então me conta o motivo desta nova fuga.

— Você não vai querer saber o motivo...

— Ah, eu não vou? Angra, não me testa! O que está acontecendo?


Angra a olhou.


— Eu acho que estou apaixonada por outra pessoa.


E aquilo pegou sua mãe absolutamente de surpresa. Ela parou, chegou mais perto.


— Você... Está apaixonada por outra pessoa?

— Eu acho que estou. Eu não consigo parar de pensar nessa pessoa, não consigo focar em nada diferente...


Daí que sua mãe se sentou à sua frente.


— Angra, Angra: você não está fazendo sentido...

— Não estou! Faz tempo que eu não estou e daí que ela apareceu...

Ela? Como assim ela?

— É uma mulher, eu sempre disse pra você que podia...

— É que eu achei que este assunto já tinha sido... Resolvido — Ela não estava irritada, só estava surpresa — Você se casou, filha. Não tem cinco meses.

— Eu sei, eu sei que me casei, sei que o Guilherme é maravilhoso, mas eu conheci essa menina...

— Quem é essa menina?

— O nome dela é Sofía...

Gonzalez.


E aquilo pegou Angra de surpresa.


— Como...? Como você sabe?

— Eu vejo seu Instagram. Eu tenho visto... Esta movimentação. Filha, você nunca quis falar disso direito...

— Mas você sabe dos problemas que eu tenho. Os problemas... Gerais.

— Filha, 70% das mulheres têm os mesmos problemas sexuais — Sua mãe era ginecologista.

— Não é só isso.

— Não é. Mas o resto dos problemas são comuns da maioria dos casamentos.


Angra não queria ter um casamento igual ao da maioria. Queria ter um casamento excepcional.


Postou uma foto aquela tarde. Era aniversário de sua mãe e postou uma foto sua pequena, no colo dela. Era simbólica demais. E, finalmente, recebeu uma mensagem de Sofía.


“Eu estou apaixonada por uma foto!”.


Abriu um sorriso imediato. Respondeu, perguntou como ela estava, ela lhe disse que tudo estava corrido, mas que a ilha era linda, era mística, que estava sendo uma experiência única, e...


Podiam fazer uma chamada de vídeo rapidinho?


Angra estranhou. Sofía nunca sugeria chamadas de vídeo com Frederíca por perto e numa ilha paradisíaca achou que...


— Ela não me deixaria sozinha aqui, né? — Ela lhe respondeu sorrindo quando ligaram por vídeo.

— Então... — Outro sorriso, como era bom estar olhando para ela outra vez! Bom, e tinha lhe deixado nervosa como todas as vezes. Era olhar para Sofía e seu coração acelerar.

— Serei justa com ela, ela me pediu para ir junto, mas eu já estou exausta. Precisei dormir um pouco e ela foi no passeio sozinha.

— Foi sozinha mesmo? Numa ilha desconhecida?

— Ah, Angra, ela foi criada na favela da Maré, morou até os dezenove anos numa quebrada daquelas que ninguém anda sozinho, Frederíca não tem medo de nada, se vira bem em qualquer lugar do mundo.

— E você veio do Morro de Santa Tereza.

— Vim. Mas ela é muito mais corajosa do que eu — Confessou sorrindo. Sofía estava linda, com uma pele hidratada apesar do inverno — Você está onde? — Não estava reconhecendo o quarto.

— No apartamento da minha mãe. Você tem uns dez minutinhos? Acho que preciso falar uma coisa com você.


Precisava. Mas Angra nem sabia bem por onde começar. Mas começou de qualquer forma, contou da briga com Guilherme, da situação que ele tinha encontrado no Instagram, contou que tinha saído de casa por causa daquilo e que tinha acabado de contar tudo para sua mãe...


— Tudo, tudo o quê? Angra! Eu te deixo sozinha cinco dias e você apronta tudo isso, meu Deus... — Sofía abriu um sorriso, sentindo seu rosto queimando. Aliás, tudo estava queimando, seu rosto, seu corpo, seu coração, Angra era louca — Angra, qual foi o tudo que você contou? A gente...

— Não tem nada, eu sei...

— A gente sempre foi cuidadosa com tudo — Tinham sido cuidadosas, mas o coração de Sofía estava... Agitado demais — Por celular agora, nós nunca passamos do ponto, eu sempre tentei respeitar você ao máximo.

— Eu sei disso. Que você toma cuidado, que é respeitosa, mas é que... Olha, Sofía, pode não haver nada da sua parte, mas não é bem assim da minha.


O celular quase caiu da mão de Sofía.


— Eu gosto demais de você. Você mexe muito comigo. Eu tenho deitado para dormir todas as noites pensando em você, e...

— Angra, Angra, espera...

— Sofía, por favor. Para de resistir. Para de me empurrar. Eu quero estar perto.


E ouviram uma voz chamando.


— Sofía? O passeio cancelou, amor, o tempo está virando lá fora...


Frederíca tinha acabado de entrar.


— Vai lá, eu sei que você precisa ir. Mas pensa no que eu te disse.


Acabou que Sofía passou o resto daquela viagem da mesma forma com a qual havia a começado: com Angra na sua cabeça o tempo inteiro.


Não se falaram pelos próximos cinco dias. Angra não sabia se tinha feito besteira, Sofía não sabia como não cometer uma besteira e isso tinha várias nuances. Angra havia se declarado e não conseguiu responder sem não corresponder. A verdade é que pensava em Angra da hora que acordava a hora que ia dormir, que estava por aquela ilha mágica imaginando como seriam as coisas se ela estivesse por perto e andava pensando nela tão obsessivamente que não conseguia se concentrar nas coisas. Estava cuidando de Frederíca como sempre, provendo as coisas que a faziam feliz, que a faziam relaxar, mas a grande verdade, é que não estava se sentindo feliz. Menos ainda relaxada. “Para de resistir”, isso não saía da sua cabeça. Nem por um segundo saía.


Parou de resistir. Ligou para ela assim que chegou em Cartagena.


— Então você voltou pra casa... — Angra, não Sofía.

— Você sumiu de novo, Sofía.

— Angra, isso... Isso não importa. O que importa é que...

— Que a gente tem que descobrir do que tudo isso se trata. Eu tirei uma foto para você...

— Uma foto pra mim?

— Tirei, ontem, depois que saí do banho. Tirei, mas agora estou com vergonha de enviar...


Sofía abriu um sorriso.


— É o tipo de foto que eu estou pensando que é?

— Eu não sei. Que tipo de foto você está pensando que é?

— Foto heib... — Era “quente” em alemão, o idioma pelo qual Angra era apaixonada.


Ela gargalhou.


— É heib. Mas estou com vergonha.

— Não precisa enviar se não se sentir segura.

— Mas eu quero enviar. Eu tirei pra você.

— Então... — Checou o relógio, Sofía estava na empresa na qual trabalhava, em meio a rosas colombianas — Preciso chegar em casa. Eu vou enviar umas fotos pra você se sentir mais segura.


Havia voltado de férias sozinha, porque de última hora, Frederíca tinha decidido passar uns dias no Rio, coisa que apenas o seu trabalho autônomo permitia. Sofía ainda não sabia bem o que estava fazendo, mas quando deu por si, já estava pondo uma lingerie que havia acabado de comprar, e estava posando para o seu celular.


Fotos quentes, mostrando pele, mostrando curvas, começou timidamente, mas quando viu o resultado das fotos, Sofía ficou mais confiante, mais ousada, se achando bonita, sedutora. Se era para enviar uma foto heib, que fosse uma capaz de testar a heterossexualidade de Angra.


Enviou.


E o coração de Angra disparou assim que olhou. O coração, outras partes suas, sua pele arrepiou e quando percebeu, uma coisa incomum tinha acontecido.


Sua calcinha estava completamente molhada. E a última vez que isso tinha acontecido...


Abrolhos. A bordo. E a última vez que tinha acontecido antes daquilo... Fazia um certo tempo mesmo. Não sabia explicar, os cabelos longos e castanhos lhe causavam uma coisa, a pele delicada outra, as curvas do corpo dela e os seios... Os seios perfeitos naquele sutiã de renda deixaram Angra totalmente fora de si...


“Sobe o brilho do seu celular”, escreveu para Sofía e enviou a sua foto heib.


Sofía recebeu a foto, completamente escura. Mas quando subiu o brilho da sua tela... Era Angra, de joelhos sobre a cama, delicadamente cobrindo os seios, apenas de calcinha.


“Se eu te enviar uma passagem, você dá um jeito de vir me ver?”


Sofía ainda estava transtornada de vontade quando respondeu que sim. Ligou para ela.


— Precisa ser logo... — Foi a primeira coisa que Sofía disse para ela.

— Logo semana que vem? Eu vou ter uns dias livre...

— Logo semana que vem, eu tenho umas folgas para tirar, posso resolver.

— Está bem, a gente vê a passagem então e eu preciso conversar com o Guilherme, preciso resolver a situação...

— Não, Angra, espera, não resolva nenhuma situação com o Guilherme. A gente não sabe do que se trata tudo isso ainda, um casamento é algo sério, não dá só para separar, não é assim. Nós duas... Pode ser nada, a gente não sabe.

— Eu sei que nós somos alguma coisa, apesar de você não acreditar nisso.

— Pode ser só uma fantasia.

— Pode ser que isso mude a nossa vida.

— E isso não te assusta, meu Deus? — Porque deixava Sofía apavorada.


Angra caiu no riso.


— Assusta. Mas eu preciso te ver novamente.


Sofía também precisava. Vê-la e entender do que tudo aquilo se tratava.


— Você vem? Eu estou com a passagem na tela.


As mãos de Sofía estavam suando, ela estava andando de um lado a outro na sua sala. Uma foto linda do seu casamento lhe encarava num porta-retrato na estante. Sofía de branco, vestido sofisticado e simples, Frederíca sexy de vestido preto e Fedora sobre os cabelos, os sorrisos, a empolgação, a felicidade daquele dia.


— Sofía...


Fechou os olhos, respirou fundo, suas mãos tremendo.


— Eu não tenho mais mental para resistir a você... — Disse, numa sofreguidão que fez Angra se desmanchar no sorriso mais lindo do mundo... Ela estava baixando a guarda, enfim?

— Isso quer dizer que...?

— Que temos muito a resolver, mas a gente precisa se ver novamente para dimensionar as coisas de uma vez, por que... Eu sinto que, espera — Sofía estava nervosa, estava vermelha inteira, mas tinha anotado algo no dia em que conversaram pela primeira vez. Achou seu planner, buscou o dia, mostrou para Angra.


“A Good Night”, de John Legend, estava tocando na piscina, no momento que se conheceram, e ficou na cabeça de Sofía o tempo inteiro depois que se separaram no final daquele dia. Tanto que só conseguiu dormir, quando pegou seu planner e escreveu com uma letra nervosa numa página inteira: “I think I just met my wife”. E ao ver aquela página, os olhos de Angra se encheram de tantas coisas...


Linda... — Ela lhe chamou assim pela primeira vez.

— É isso aqui, está bem? E a gente precisa se ver de novo para conseguir sentir o quanto disso tudo é encanto e o quanto é real. Eu não digo, mas é o que eu sinto de verdade, é por isso o cuidado e a calma que eu falo pra você, eu sinto grande assim, sinto que... Posso ter encontrado a mulher da minha vida, mas eu estou casada, ela também está e temos pessoas com quem nos importamos, pessoas que não podemos machucar porque uma ferida assim, pode macular essas pessoas, pode ferir um possível futuro nosso.

— Sofía, eu também tenho medo de tudo isso, mas ao mesmo tempo, tudo o que eu estou sentindo é tão forte que não consigo frear.

— Eu também tenho medo de tudo isso, medo das precipitações, por isso te peço calma...

— Eu não consigo mais ter calma. Eu preciso, Sofía, eu só... Preciso.


Sofía olhou nos olhos dela e o que viu foi... Foi o sentimento mais lindo que alguém já havia conseguido lhe transferir por um olhar.


— Olha, Angra, você trouxe a gente até aqui, você não desistiu, apesar de eu ter tentado, então... Então, só deixa. Me deixa assumir uma responsabilidade aqui: eu preciso de você. Sou eu quem precisa. E se nada der certo, só não deu. E nós tentamos.


E o sorriso de Angra brilhou seus olhos de mel ainda mais.


— E se eu ficar mais apaixonada?


Daí foi Sofía quem sorriu com os olhos.


— Você usou o adjetivo... — Não tinham usado até então.

— Usei, é a verdade. Me fala o que acontece, se eu ficar mais apaixonada.


Sofía apertou os lábios a olhando.


— Se nós ficarmos mais apaixonadas, a gente aceita e... Arruma a bagunça.

Notas da Autora:


Olá, povo! ˆˆ


Tudo bem com vocês? Olha eu aqui novamente, Tessa hoje me pediu para escrever as notas e como eu odeio falar, estou eu aqui falando hahahahaha


Como estão as coisas, hein?! Então, espero que este capítulo tenha tocado vocês da mesma forma que me tocou. Sentir e ver como as coisas começaram entre elas depois de Abrolhos, me deu uma visibilidade melhor sobre tudo. E galera, estou apaixonada pela Sofía. Eita, vontade de levar pra casa, definitivamente! haha


Bom, estamos com nosso Projeto Playlist TR'Fórum em ação e a participação de vocês é imprescindível, então, por favor, respondam o formulário sobre quais músicas vocês ouvem e lembram do nosso grupo-família no Whats’App. Vou deixar aqui o link e se puderem responder, serei muito grata. Temos até sexta-feira para finalizar esta enquete, ok?!


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Abraços!



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