ANGRA: Capítulo 30 - Estratovulcão




Os estratovulcões são montanhas tradicionais, daquelas em forma de pirâmide, de cone, como preferir. Têm cume estreito, encostas íngremes e base larga, onde guarda um enorme arsenal de lava endurecida e cinzas. No alto, existe uma cratera; um buraco em forma de tigela. Milhares de pequenas erupções vão formando essas camadas duras e letais durante milhões e milhões de anos. É um processo lento, porém, eficaz.


Há um estratovulcão na Guatemala, chamado “Volcán de Fuego”. É famoso por suas tímidas erupções, que apesar de pequenas, ficam ativas praticamente o ano inteiro, o que o faz ser classificado como um dos vulcões mais ativos do mundo. De Fuego solta fumaça em alerta o tempo todo. Deixando incerto sobre quando sua fumaça vai gerar uma erupção, ou quando está apenas respirando.


Angra estava sentada no sofá da sala de sua mãe, ouvindo Guilherme e seu pai conversando animadamente num pós-almoço, que Guilherme sequer deveria estar. Achou que ele não estaria. E agora ali estava, a surpresa inesperada, as pernas afastadas, os cotovelos sobre as próprias coxas, a postura dizia tudo: o estratovulcão estava fumaçando, podendo entrar em erupção ou não.


Bem, era dia de erupção.


— Eu não acredito que você está fazendo essa cena, Guilherme... — Disse, mexendo nos cabelos, claramente irritada.

— Que cena? — Ele perguntou de volta.


A fumaça não era à toa. Angra levantou-se.


— Essa, de que está tudo bem!

— E não está? — Seu pai perguntou.

— Não, não está! Nós estamos nos separando, mas o Guilherme segue como se nada estivesse acontecendo...

— Você quer falar do que está acontecendo mesmo? Quer que eu verbalize para o seu pai? — Guilherme tinha ficado nervoso muito rapidamente.

— Estou notando seu tom de ameaça. Verbaliza você, não está louco para fazer isso? Meu pai não tem mais como me trancar num quarto de castigo, se é isso que você espera que ele faça!

— Agora um de vocês vai ter que me dizer o que está acontecendo! — Era seu pai.

— Eu quero me separar! Estou apaixonada por outra pessoa — Angra disse só de uma vez.

— Conta quem é a pessoa, vamos, conta aí você! Paulo, me fala aqui, você nunca achou a Angra meio lésbica, não?

— Mas o quê...?!

— Mas nada — Elisa apareceu na sala — Chega dessa conversa. Guilherme, você não tem que ir trabalhar? Porque o Paulo tem e já está atrasado.

— Elisa, peraí! Ele falou um negócio importante aqui...

— Guilherme está surtado, pai — Matias, seu irmão, interferiu — Saiba perder, parceiro, é o essencial de todo mundo.

— Você é muito moleque para entender as coisas, Matias... — Guilherme tinha ficado muito nervoso mesmo.

— Se eu sou moleque, imagina a sua classificação! — Matias completou, sorrindo — Pai, vamos lá, não tem que resolver o chuveiro antes de eu sair?


Paulo foi, ainda que desconfiado e Guilherme foi embora, sem dizer nada.


Mas De Fuego seguia em erupção.


— Mãe, qual o problema? Você não me deixou falar as coisas para o pai!

— O problema é que seu pai é um homem de outro tempo, Angra! Um machista, antigo, acha que ele vai ouvir algo assim tranquilamente?

— E você pretende que eu não diga nunca para ele?!

— Pretendo que diga da maneira certa, quando tiver certeza...

— Meu Deus, tem uma prova para essas coisas, é sério mesmo? É impossível que ele não entenda que a relação que eu tenho com a Sofía não é qualquer uma! Eu estou cansada de ouvir isso, de ter as minhas decisões colocadas em dúvida!

— Angra...


Matias voltou para a sala.


— Deixei o pai lá resolvendo, por que você não me leva na faculdade?


Pareceu a melhor opção. Levou seu irmão para a faculdade, que foi lhe distraindo com uma conversa boba qualquer, mas que sempre lhe fazia sorrir. Estacionou e antes de ele descer:


— Te falar, você sabe que eu amo você?

— Matias... — Angra estava emotiva.

— Você sabe disso? Eu amo você e apesar de mais novo, eu estou aqui para te apoiar e te proteger de qualquer coisa que você precise. Eu sei que você precisa de acolhimento e eu estou aqui, e prefiro a Sofía desde quando a conhecemos naquela pousada... — Disse, arrancando um sorriso de Angra.

— Sempre, não é?

— Sempre. O Guilherme é legal, mas nunca vai te fazer brilhar os olhos como acontece cada vez que você olha para a Sofía. Conta comigo, tá?


Angra o abraçou, muito forte. Têm dias que só um carinho é capaz de acalmar o que está queimando. Foi para o seu escritório. Checou o Instagram, Sofía estava em São João del-Rei, linda demais, de short curto, cropped, um Kimono boho por cima, os óculos escuros, os cabelos presos no alto, e Estela...


— A Sofía, mamãe, a Sofía! — Ela disse, feliz da vida, pedindo o celular para que pudesse ver Sofía de perto — Saudade, mami, saudade — Ela disse para o vídeo, tocando a tela como se pudesse alcançá-la.


Angra sabia bem o que ela estava sentindo.


Foi uma tarde difícil e uma noite mais difícil ainda. Angra tinha saído apenas com a tal mochila de couro e tinha voltado para pegar algumas coisas suas e de Estela. Seguia num hotel, não era confortável, mas pareceu a melhor opção. Teve que ir até lá, mas a ideia foi péssima, Guilherme seguia irritado e sem querer discutir nenhum termo de coisa alguma. Não iria sair do apartamento, não tinha para onde ir, vender de jeito nenhum, ele lhe mostrou o budget da empresa e Angra teve outro ataque de fúria.


— Você sabe com o que eu trabalho? Trabalho para que as empresas não entrem nesse tipo de situação! Por que você não me pediu ajuda? Seria desconfortável demais por acaso?

— Seria, você já quer me deixar sem saber desse fracasso aí, imagina depois!

— Eu não estou te deixando por causa de dinheiro, pelo amor de Deus! Essa parte não está clara ainda?

— Mas me acha de fracassado!

— Ouviu isso da minha boca? Guilherme... Senta aí, vamos ver isso aqui com calma...

— Você não vai voltar pra casa mesmo? É sério isso?!


Angra terminou de pegar as coisas que precisava, já que ele não queria conversar mesmo. Colocou a mochila nas costas.


— Volto. Quando você decidir sair.

— Você não vai colocar outra pessoa aqui dentro no que construímos juntos!


E daí, não houve mais conversa mesmo. Angra saiu, pegou Estela no apartamento de Carolina e foi jantar com ela num fast food qualquer, enquanto Sofía tinha outro jantar solitário, esperando pelo seu prato enquanto lia mais um capítulo de seu livro, “This Is Me Letting You Go” e planejava sua rota no dia seguinte. Enquanto fazia isso, estava passando pela dashboard do seu Instagram quando uma foto lhe chamou atenção:


Discreta, mas significativa. Era um vídeo de Frederíca e Bernardo, numa aula improvisada de Jiu-Jitsu, em um clima muito, mas muito feliz. O que deixou Sofía feliz demais também.


Frederíca estava indo em frente. E indo muito melhor do que se podia imaginar.


Já havia ultrapassado o tempo que achou que passaria com Luria e a verdade é que nenhuma das duas pensavam no final daquele “agora”. Frederíca estava inspirada, andava escrevendo sem parar, Luria seguia trabalhando muito, mas sequer andava sentindo, não com Frederíca cuidando de Bernardo durante o dia, ou com a ajuda dela em todas as coisas que envolviam a casa. Ela cuidava do jantar, Luria do café da manhã, os almoços eram sequestros no meio do dia, que Luria nunca sabia. Frederíca andava descobrindo Brasília com paixão e os finais de semana pelo interior de Goiás, estavam sendo simplesmente deliciosos.


— Acha que isso mudaria? — Luria lhe perguntou naquela sexta, em que assistia um filme agarrada em Frederíca depois do jantar.

— Se a gente ficar junto mais tempo?

— Isso, acha que mudaria?

— Só se a gente permitir que mude.


Luria ergueu o rosto, para olhá-la nos olhos.


— Eu... Estou apaixonada por você.


E essa simples frase, fez Frederíca abrir o sorriso mais luminoso do mundo!


— Graças a Deus! Eu sempre morri de medo de ficar apaixonada sozinha, deve doer de uma maneira... — Disse, fazendo Luria rir demais. Rir, agarrar Frederíca, a beijar. E então, falar com ela.

— Eu acho que preciso contar para a minha família. Quem você é de verdade.

— Acha que vão aceitar tranquilamente?

— Não faço ideia, mas disse para a minha mãe que vou levar quem eu estou namorando para ela conhecer esse final de semana...

— E ia me dizer isso quando?!


Ela riu mais.


— Estou dizendo agora. Ouviu a parte do “estou namorando”?

— Ouvi. Nós estamos. E vamos fazer isso, conhecer sua família, eu gosto desta velocidade de cruzeiro... — Sempre havia gostado.

— Frederíca, eu espero que você saiba o que está aceitando — Disse num tom mais sério.

— Eu sei que a gente se conheceu numa posição desfavorável a você acreditar em mim, mas...

— Não é isso. Você esteve numa posição desfavorável com a Sofía a maior parte do casamento de vocês. Se não for para ser intenso, ou inteiro, não vale a pena. É a minha política de convivência. A partir do momento que você entrar na casa da minha mãe, o peso da relação muda. Você entende o que eu estou dizendo?

— Entendo. E, quero.


Ser namorada dela. Fazer direito. Sim, queria. E dormiu feliz só de pensar que Luria havia acabado de lhe considerar namorada.


Sofía na estrada outra vez, Angra de volta a um lugar que conhecia, o discurso de Carolina contra o seu divórcio.


— Vou adivinhar: você desistiu de se separar — Angra disse a ela naquela manhã enquanto se arrumava para o trabalho. Tinha passado a noite no apartamento de Carolina.

— Não é certo se separar assim, Angra. Eu dei uma deslumbrada lá em Búzios...

— Síndrome de “la isla bonita”.

— Não fala assim, não é o que eu estou querendo dizer...

— Kalinka foi tão perspicaz, viu. Por que ela gostou de você, ia se ferrar se tivesse deixado você a levar por essa síndrome aí...

— Angra, eu não tenho que me separar pensando em outra pessoa! Não é assim que funciona...

— Não é mesmo. Tem que se separar pensando em você mesma, da mesma maneira que eu estou tentando fazer. Você gosta dela?

— Eu não sei bem se...

— Está sentindo saudade? Vontade?


Carolina a olhou.


— As duas coisas. Mas ela não parece disposta...

— A ceder antes do divórcio. Ela não está errada, Carol.

— E eu estou certa?

— Outra coisa que só você pode responder.


Sofía chegou em Cunha aquela tarde. Uma cidade nas montanhas, com vinícolas e campos de flores. Havia ganhado uma estadia num chalé montanhoso, onde lhe receberam com uma taça de vinho e uma vista de tirar o fôlego.


Abriu seu Moleskine, fez uma anotação rápida, se permitiu chorar observando aquele pôr do sol:


“Se eu pudesse fazer um único pedido a ser imediatamente atendido: eu desejaria ela aqui comigo”.


Estava sentindo falta, saudade, o chalé romântico com vinho e lareira, não ajudou em nada. Chorou boa parte de sua noite, morrendo de medo outra vez, medo do seu futuro, medo de ficar sozinha, medo de nunca parar de gostar de Angra da maneira que gostava. Era louca por ela, apaixonada demais, não amenizava, não melhorava e quando começou a cogitar retomar o relacionamento nos termos antigos...


Era hora mesmo de dormir. Tomou um comprimido e em vinte minutos, o sono finalmente lhe abateu.


— As pessoas facilmente se viciam em felicidades instantâneas, sabia? — Catarina lhe disse no final daquela tarde, no qual Sofía tinha percorrido a simpática cidadezinha de Cunha — Elas são melhores que felicidade nenhuma.

— Mas você acha que existe outro tipo de felicidade? Ninguém é feliz todo dia.

— Isso é verdade, ninguém é feliz todo dia. Mas ter motivos para se ser feliz todo dia são essenciais. É preciso ter uma vida satisfatória, e para isso é preciso descobrir quais são os nossos elementos vitais, aquilo que nos dá energia, que vitamina o dia. Aquela coisa que ainda que o dia tenha sido terrível, quando você volta pra casa, dá sentido a tudo mais.


Anotou e anotou: escrever, viajar, segurança financeira, uma casa para voltar, Angra, Estela... As palavras vieram praticamente sozinhas.


Deve ter sido neste dia seguinte que Angra notou burburinhos pelo seu escritório. Conversinhas, cochichos e dois nomes recorrentes: Luria, Angra. Angra percebeu, Luria obviamente percebeu dias antes.


— Tem uma fila de mulheres que querem se casar com o Guilherme, está bem? Só falam disso. E de mim. Há mulheres aqui que não querem um homem, querem um apartamento e um cartão de crédito sem precisar de preocupações. E, ah! Querem também os amigos que vocês têm, aqueles com casas com piscina e que dão churrascos aos sábados. Em resumo, querem a sua vida e falar mal de mim, você não pode se abater por causa disso.


Não queria se abater, mas já estava tão abatida que nem sabia. Naquela tarde, Angra desceu e decidiu trabalhar sozinha numa mesa da cafeteria.


Catarina notou. E se preocupou.


E exatamente no décimo quinto dia, tal como o previsto, Sofía chegou no final da Estrada Real.


Paraty lhe recebeu num belo dia de sol.


E Sofía não quis mais nada, quis apenas colocar seu biquíni e correr para o mar, para um mergulho longo, revigorante, para o abraço do mar do qual já estava sentindo falta. Seguia conversando com Angra todos os dias, numa frequência menor, ela não andava muito bem, sabia, e sendo assim, não sabia se sua presença ajudava ou atrapalhava. Não sabia onde ela estava, se tinha voltado ao apartamento, se seguia em hotéis, tinha medo de perguntar e se Angra não estava lhe dizendo nada, estava negando chamadas de vídeo, estava frágil, podia sentir na voz dela. E queria tanta coisa, queria abraçar, consolar, entender e ao mesmo tempo...


Não sabia. Não sabia de nada.


Foi até o hotel onde ficaria, se trocou, decidiu seguir com seu dia de turista, seu projeto estava quase completo e sabia que daria ótimos textos como resultado final. As fotos tinham ficado lindas, as experiências foram demais e Sofía ainda não acreditava que tinha mesmo feito aquilo sozinha, dirigido por todos aqueles quilômetros. Terminou o dia em outro jantar solitário e falou com Frederíca por alguns minutos.


— Você tem uma história pronta, Sofía, você deve escrever.

— Mas não dá um livro — Estava falando com ela sobre a ideia que tinha surgido durante a sua viagem.

— Isso você só vai saber no final. Mas primeiro, você escreve.

— Não acha que seria esquisito...?

— Você se tornar escritora também? Por favor, é claro que não! Não nos separamos nisso, apenas no casamento. Quero que siga comigo, fazendo o que sempre fez se você quiser assim, e por que não? Escrever seu próprio livro. Você tem todo o meu apoio.

— Bem...

— Custa zero reais tentar.


Ela tinha razão. E independentemente de como estava o casamento de Angra, Sofía simplesmente estava, morrendo de saudades.


Ligou para ela assim que entrou no hotel.


— Eu consigo fazer o caminho de volta em dois dias, está dando umas dezesseis horas, e... Eu quero ver você. Encontrar para um café.

— E você acha que eu não quero, meu amor? Eu estou contando os dias aqui. A gente tem que conversar, a gente tem que resolver isso tudo, Sofía...


Angra estava com o coração partido. Por tudo. Pela posição de Guilherme em não ceder, de não abrir para conversar, de não se entenderem por Estela. Angra não acreditava que ele fosse de fato tentar algo sobre a guarda de Estela, mas aquelas discussões estavam... Lhe tirando toda a paciência. O estratovulcão seguia trabalhando dia após dia, fortalecendo suas camadas lentamente, mas não tinha certeza. Se a velocidade seria suficiente. Naquela tarde, fosse pelas trinta ligações que Guilherme tinha feito ou pela pilha de trabalho que não reduzia, Angra perdeu a hora para ir buscar Estela na escola, as aulas haviam acabado de começar.


E quando lá chegou, descobriu que sua filha tinha se machucado naquele tempo extra que levou após o horário da saída.


Era uma coisa boba, um joelho ralado que toda criança ganha ao menos duas vezes a cada seis meses, mas Angra não conseguia parar de chorar, ou de se sentir culpada por ter se atrasado. Os professores lhe disseram que estava tudo bem, que uma mãe que era enfermeira tinha cuidado do machucado e garantido que estava tudo bem, mas Angra quis ir a um hospital, queria checar, ter certeza, mas foi interceptada por sua própria mãe.


Elisa a parou na entrada da clínica na qual trabalhava.


— Nós vamos resolver isso em casa.


Foram para a casa de seus pais, onde Elisa checou o machucado e não passava mesmo de um joelho ralado. O que estava precisando de cuidados, era o coração de sua filha.


— Você não entende, nessa confusão toda, eu mal tenho prestado atenção nela, nas coisas dela...

— É porque você segue partida em dois mundos diferentes.

— Eu não sei como resolver, como sair dessa situação, eu... — Seguia chorando copiosamente, enquanto Estela já estava rolando com os cachorros de sua mãe.

— O que você quer do Guilherme?

— Eu quero que o Guilherme não me odeie. Quero que ele entenda, que permaneça na minha vida.

— E da Sofía?

— Eu a quero pedir em casamento. É isso — Mais lágrimas — Mas eu tenho medo. Vários medos. Medo de ele acabar me detestando, da Estela me detestar, de não entender os meus motivos, ela é tão pequena ainda.

— Você me odeia? Por ter trabalhado tanto em noventa por cento da sua infância e adolescência?

— É claro que não odeio, mãe.

— Mas age como se odiasse. Como se essa decisão que tomei por mim mesma, tivesse causado traumas irreparáveis. Mães e esposas também são mulheres. E um dia, Estela vai ser tornar uma mulher também e vai ter que enfrentar decisões difíceis. E ainda que ela odeie você por algumas horas, por alguns dias, por uma semana que seja, se você a amar e cuidar dela da maneira que cuida agora, serão apenas, horas, dias e semanas. Ela vai amar você incondicionalmente, da mesma maneira que você me ama hoje, ainda que tenha me odiado sazonalmente. Sofía tomou uma decisão e pegou o caminho dela. Agora você precisa decidir, você precisa apostar, arriscar, essa é a sua estrada real.

— E o que eu faço?

— Isso ninguém pode te dizer. Até mesmo porque, ninguém tem o direito de tirar este mérito de você. Aponte o que você quer e vá atrás disso. Eu não reconheço esta de você que tem tanto medo. Sofía deve reconhecer menos ainda, já parou para pensar nisso? Ela se apaixonou por outra versão sua. Só decida. Com força. Com coragem. É a vida que você quer tentar fazer dar certo? É ela a pessoa que você ama? Que quer acordar do lado todos os dias? Decida. Respire fundo e decida. Decida. Faça. Só respire fundo e decida de vez.

Angra olhou para Estela brincando na sala.


E de repente, se deu conta de que já havia decidido, desde quando aquela menina havia nascido colombiana.


📚


Fora um dia e meio em Paraty e, Sofía sentiu uma urgência enorme de voltar para Brasília.


Tudo bem, como é que faria aquilo? Como é que ia viver no mesmo país que Angra sem sentir aquela necessidade de correr para ela? Porque sentia isso em Cartagena, havia dias que acordava com tanta falta que nem sabia bem como procedia, mas estava longe, a horas de viagem, mas agora...


Agora tinha acordado em um dia assim e simplesmente, entrou no carro e pegou a estrada. E seguiu na estrada, dirigiu mais de doze horas seguidas, sem sentir muito, sem sequer perceber, queria chegar em Uberlândia e chegou, dirigindo mais rápido do que costumava, tinha ganhado confiança na estrada, para andar um pouco mais rápido, para fazer ultrapassagens que agora ainda aceleravam seu coração, mas nem chegavam perto da ansiedade que Sofía sentia antes. Parou umas três vezes, rapidinho, para comer e para se agarrar em Angra. Estava apegada, sabia, estava com saudades e onde ficava a sua história de separar dela, não sabia bem exatamente ainda.


Saiu antes das sete e chegou antes das dezenove um pouquinho, pegou um bom hotel, já levou seu jantar consigo e depois de um banho longo, sentou-se para entregar o que precisava. Terminar os textos da Estrada Real, escolher as fotos, certificar se a linha do tempo estava correta e quando Angra lhe ligou quase às onze da noite, se surpreendeu de ela ainda estar trabalhando.


— Eu quero entregar logo, enviar hoje, ficar mais livre amanhã, sabe.

— Você é uma máquina, viu, Sofía, não sei como consegue essa resistência toda. Olha, eu vou te mandar o endereço de onde vou esperar você amanhã...

— Angra, é que... Eu queria... Queria pegar um hotel... — Disse, quase envergonhada porque Sofía tinha ido embora sozinha para agora querer um lugar mais reservado com Angra. Não era por nada, é que queria ficar um pouquinho com ela, mais perto.

Linda, vem pra casa, tá? O flat que foi nosso por uns meses, vem pra cá.

— Você... Está no flat?

— Eu o peguei para nós duas. Está desmobiliado agora, mas tem uma cama, fogão, uma geladeira. Dirige pra cá, vou te mandar o endereço para você não perder tempo...


Ela mandou o endereço, e nem era como se Sofía pudesse esquecer, o flat onde tinha passado dois meses em Brasília. Adorava aquele lugar. Era em uma cobertura, tinha vista para a cidade, enormes janelas de vidro, uma hidromassagem particular, cozinha e sala modernas, escandinavas, no estilo preferido das duas, dois quartos, dois banheiros, não era um lugar grande, mas era extremamente funcional e confortável. Havia sido a casa delas por um tempo. E Sofía só havia sido tão feliz como foi naquele primeiro mês, nos meses que Estela nasceu.


Depois, veio o drama. Angra seguia muito enrolada com Guilherme para conseguir se separar, coisas inesperadas aconteceram, Sofía tinha consciência, mas por outro lado, tinha um lado seu dizendo que não podia prosseguir daquela maneira. Lembrando que Sofía precisava ir em frente, que o acordo não havia sido aquele e era complicado porque, deixar Angra e Estela era a última coisa que queria sempre, mas por outro lado, se não se movesse, desconfiava que a situação seguiria a mesma por muito tempo. E pensando em situação que não se movia, Sofía ainda precisava decidir onde iria morar. Gostava de Brasília, mas não era uma opção, seria simplesmente voltar para a dinâmica antiga porque não conseguia ficar longe de Angra, quando estavam tão perto. Tinha gostado de Belo Horizonte e considerou tentar uma vida por lá. Podia começar de novo, encontrar um bom lugar, ainda teria alguns meses pela frente até ter dinheiro suficiente para comprar um lugar seu, algo que ela já tinha decidido que faria, se não se adaptasse a cidade, podia recomeçar. Tinha perdido o medo de recomeçar.


Dormiu pensando nisso e no dia seguinte, acordou muito cedo porque queria estar em Brasília, no máximo, até o horário do almoço. Passou um pouquinho, porque parou para comprar queijos para Estela pelo caminho, ela adorava queijos, era uma formiguinha por doces também, não podia deixar Minas Gerais sem levar certas coisas para ela. Então decidiu almoçar quando chegou em Brasília e a sensação... Era de estar em casa. Não conseguia descrever de outra maneira. Brasília já era sua casa, também já era sua cidade, havia pousado e estado naquele lugar tantas vezes que tudo já lhe parecia familiar. O caminho do seu hotel e, o endereço do seu flat. Nem precisou de GPS.


Chegou em seu prédio, pegou sua antiga vaga de estacionamento, encontrou uma das poucas amigas que havia feito, ainda no elevador.


— Eu não acredito que você voltou pra cá! — Ela lhe abraçou, euforicamente — Eu vi a Angra aqui ontem, com a Estela, mas não deu tempo de falar com ela! Vocês voltaram?

— Então... — Sofía abriu um sorriso — Eu ainda não entendi bem por que ela está aqui, na verdade.

— Sofía, o que eu não entendi bem até hoje, como é que vocês podem ter se separado. Seja lá qual for o problema, vocês precisam resolver.


A moça era uma amiga de Angra, colegas de ensino médio, encontrá-la morando naquele prédio, tinha sido uma coincidência muito grande para Angra não se abrir com ela e explicar qual era a situação com Sofía. Uma parte sua, sabia que ela tinha razão. A parte que lhe dizia que não conseguiria ficar longe de Angra e sendo este o problema indissolúvel, precisavam resolver todo o resto, era a única solução. Mas daí pensava que Angra não queria resolver todo o resto e ficava arrasada, querendo chorar, se trancar em algum lugar até aquela dor passar.


Mas como ela podia não querer resolver? Se perguntou enquanto subia no elevador. Como ela podia não querer?


Isso não fazia sentido. Fez menos ainda quando tocou a campainha e assim que Angra abriu a porta...


Ela estava de jeans, de camisa branca, os cabelos soltos e Sofía...


Sofía era louca por ela. Ponto. Era toda a verdade.


Angra a puxou pela cintura e Sofía a beijou, deixando a mochila cair de lado, ouvindo a porta se fechando e sentindo os braços de Angra lhe enlaçando, as mãos apertando em sua cintura e, ela foi lhe tirando o Kimono boho, invadindo sua pele com o seu toque, descendo a mão pelos seus quadris e lhe levando para trás, para o quarto, sem tirar sua boca daquele beijo, daquela falta, daquela vontade toda na qual estavam.


— Angra...

— Depois, meu amor, depois...


Notas:


Olá, meninas!


Já estamos na reta final, e nem por isso as coisas estão se resolvendo de maneira rápida. Sofía está de volta, Frederíca está apaixonada e Carolina definitivamente precisa de ajuda.

Aguardo ansiosa cenas dos próximos capítulos!


E essa semana lançamos no site o capítulo extra de Tiziana e Renata, "Por Favor, Fique!" Assista abaixo o teaser de #Tizinata.



Para ter acesso a este conteúdo inédito, e mais novidades, é necessário ser membro do Clube TessaVerso. Para saber mais, acesse o link: https://www.tessareis.com.br/beneficiosdoplano


E vamos de alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;


- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;


- Lançamos 6am: A hora mais curta! Está disponível na Amazon! Quem já estava com saudade das nossas garotas? Ou quem está louca para conhecê-las? Corre aqui! encurtador.com.br/frBO4.


Beijos! Se cuidem!


640 visualizações58 comentários

Posts recentes

Ver tudo
  • Black Facebook Icon
  • spotify1600
  • Black Instagram Icon
© Todos os direitos reservados