ANGRA: Capítulo 31 - A Ilha Invernal




Angra a levou para o quarto, com aquelas mãos rápidas abrindo sua calça, buscando sua calcinha, os dedos de Sofía habilidosamente abrindo os botões daquela camisa e quando Angra a deitou na cama e colocou o corpo entre as suas coxas... Sofía não conseguia, já estava louca de falta, de saudade, de tesão. Tirou a camisa do corpo dela e a agarrou, nas costas, nos braços, sentindo aquele perfume gostoso, aquela pele quente, a boca dela era a coisa mais gostosa, enlouquecia Sofía, lhe tirava de si e quando tirou o jeans do corpo dela...


Aquele corpaço. As curvas, as linhas e, os olhos da mulher que amava. Estavam claros, estavam quentes e ela estava sorrindo. Beijando sua mão, seu pescoço e sorrindo:


— Eu amo você. Eu sei que você duvida disso, que não acredita, mas eu amo você demais, Sofía...

— Eu estou aqui — Beijou o queixo dela, a lateral do seu rosto, fazendo Angra fechar os olhos e estremecer — Como que eu não acredito que você me ama, linda? — Perguntou, esfregando a sua... Pelo corpo dela, pela coxa e Angra ficava...


A apertou demais, sentindo aquela excitação, sentindo seu corpo inteiro se arrepiando, reagindo, sua calcinha já estava mais do que molhada e Angra não fazia ideia...


— Vai terminar comigo depois que a gente fizer amor?

— A gente já terminou e eu estou aqui. Tudo invertido, não acha? — Perguntou sorrindo, sentindo seu tesão apertando tanto, era sério? Nunca que ia melhorar? Era encostar em Angra e seu corpo inteiro reagia.

— Você nunca vai terminar comigo, nunca, menina. Você e eu somos para sempre, linda, entendeu? Nós somos para sempre...


Acreditava nela. O mais grave de toda situação, é que Sofía acreditava nela e não acreditava no estrago que estava sua calcinha, quando Angra a tirou por suas pernas...


Descobriram que já era quase final da tarde quando pararam, aos risos porque Sofía não sabia quando parar! Era insaciável, Angra vivia dizendo que ela era, só parava quando as pernas de Angra tremiam, quando seu corpo parecia no limite da energia e ela parecia se divertir demais com isso.


— Foram muitos dias sem...

— Sem a sua mulher, pode completar essa frase aí — Angra a beijou sorrindo demais, vendo aqueles olhos brilhando, na cama que já havia sido delas, no flat que era delas, estava achando que teria uma tarde difícil, chorosa, mas a grande verdade era que...

— O que foi, meu amor? — Angra havia parado lhe olhando de uma forma... Tocou o rosto dela, ela lhe beijou o punho, o pescoço, se agasalhou no peito de Sofía e pediu para ser apertada. Sofía apertou, beijou os cabelos dela, a manteve muito no seu corpo, no seu carinho, no seu amor.

— Eu estava com medo de você me rejeitar.


Sofía sorriu, a apertando um pouco mais.


— E eu estava com medo de você me rejeitar, a gente segue sofrendo pelas mesmas coisas, Angra, eu não entendo a gente...


Angra também não entendia e elas ficaram mais um tempinho assim, agarradas e em silêncio, enquanto o sol começava a descer lá fora. As duas tinham perguntas e as duas estavam com medo dessas respostas. Os olhos de Sofía no closet, querendo e não querendo saber se as roupas de Angra estariam ali, o pensamento de Angra na mente de Sofía, ela seguia querendo ir embora? Passar um mês fora?


Tinha medo daquele plano. Um mês fora era tempo suficiente para Sofía descobrir se poderia ser feliz sem Angra e se ela pudesse....


Quase chorou só de pensar nisso. Beijou Sofía, uma e outra vez.


— Fica aqui um pouquinho, descansa, eu vou fazer um café da tarde para nós duas.


Angra foi fazer o café, saiu em pele da sua cama e Sofía só queria saber quando aconteceria de vê-la nua daquele jeito e não querer agarrar nela um pouco mais. Ela colocou uma lingerie, Sofía fez o mesmo e agarrou nela, pelas costas, recebendo beijos em suas mãos, em seus braços, sorrisos daquela mulher que... Tinha seu coração.


— Não quis ficar na cama, meu amor?

— Eu estou com falta sua...


Era o tipo de coisa que derretia Angra inteirinha. A puxou para a sua frente, a beijando, a cheirando, a tirando do chão e nesse namoro todo, elas foram para a cozinha, preparar um café da tarde, Angra tinha feito mercado, tinham pão de queijo, biscoitos, os waffles que Sofía adorava, café fresco, suco de laranja também, e assim, de lingerie e apego, elas foram tomar café agarradas no balcão.


— Fala pra mim, como foram esses dias? — Angra perguntou.

— Menos assustadores do que eu imaginava. A estrada foi melhor do que eu achava, os dias sozinha também, eu saí de Búzios com muito medo, Angra.

— Você me deixou em Búzios com muito medo. Eu não sabia o que pensar. Eu não sei bem o que pensar ainda.


Elas se olharam. Tinham tantas perguntas e tanto medo de fazê-las...


— O Guilherme está bem?

— Mais ou menos. O momento está bem... Conturbado. Você sabe que a Frederíca...

— Está morando aqui, ela me contou — Sofía mordeu o pão de queijo, estava delicioso.

— E como você está com isso? Não só com isso, mas com a separação em si.

— Ah, Angra, sobre isso, está tudo bem. A minha preocupação com a Frederíca era justamente ela ficar sozinha, eu nem sei se ela já ficou sozinha na vida dela antes, eu queria que ela ficasse bem.

— A Luria está... Muito envolvida.

— Eu sei. A Frederíca também está e, eu estou feliz que as coisas estejam assim.


Angra olhou para ela. Pegou a sua mão, beijou com carinho.


— A gente tem que ir buscar a Estela. Ela sai em meia hora.


E aquela frase tinha um poder positivo enorme sobre Sofía...


Terminaram o café, banho rápido e saíram, para ir buscar Estela na escolinha, no carro italiano do qual Sofía já estava sentindo falta também e quando foi ela quem apareceu no pátio para pegar Estela...


Angra não se cansava. De ver aquele amor, aquele apego entre elas duas, Estela correu para Sofía e Sofía a pegou no colo e a encheu de beijos, a cheirando, a apertando, perguntando como tinha sido seu dia.


A felicidade pode ser uma coisa bem simples.


Simples como levar Estela pra casa, planejar um jantar que ela gostava, enquanto Angra e Sofía dividiram a cozinha fazendo o jantar e se revezando na tarefa de dançar videoclipes do grupo Little Mix, por quem Estela era apaixonada. Amava Little Mix e os super-heróis, e também amava as princesas da Disney, Toy Story e Carros, porque era filha de Angra e o DNA gritava. O apartamento estava vazio. Bem diferente de quando o alugaram pela primeira vez, tinha sido desmobiliado e o que tinham naquele momento era uma elétrica, um micro-ondas, a TV na sala, uma cama no quarto. Mas isso não importava. De forma nenhuma.


Sofía colocou Estela no banho pouco antes do jantar e quando chegou à mesa, Angra abriu um sorriso, porque Estela estava a coisa mais cheirosa e empolgada possível. Jantaram juntas, falando em dois idiomas, coisa que Estela adorava fazer. Ela estava numa fase particular na escola, andavam descobrindo algumas coisas sobre ela, havia um déficit de atenção que a impedia de evoluir em algumas atividades, mas seu cérebro entendia em dois idiomas e ela já começava a ir muito bem em inglês também, não fazia mal se ela patinava em algumas tarefas, ela teria apoio sempre para cumprir o que precisava.


Angra disse que cuidava das coisas, Sofía podia levar Estela para dormir.


Fizeram assim, Sofía levou Estela pra cama, conversou com ela um pouco, riram, viram alguns vídeos juntas, e então, leu um conto rápido para ela dormir, um trecho extraído de “Longe é um lugar que não existe”, que relata uma jornada, até uma festa de aniversário, porque “a pequena Rae está crescendo”. Uma parábola sobre o tempo, o real, e os tempos verbais que talvez tenham feito mais sentido para Sofía do que para Estela. Sua Estela estava crescendo, o tempo estava passando e esse tanto de gerúndios lhe fez refletir um pouco mais depois que ela pegou no sono.


E então, a cobriu, deixou um beijo naqueles cabelos e, abriu um sorriso assim que saiu do quarto.


A sala estava em meia-luz, um aparelho de fondue estava perfumando a sala toda de chocolate e tinham frutas já devidamente cortadas esperando ao lado do vinho preferido delas duas. E, um filme de Amy Adams pausadinho no começo, apenas esperando por Sofía.


— Angra...

— Vem aqui, vem. Temos morangos, banana, tangerina porque você é esquisita e acha que fica bom com chocolate...


Sofía a beijou escorregando pelo sofá, indo parar nos braços dela.


— Fica bom, amor. Lembrando que você foi a pessoa que me fez tomar vinho com Cheetos...

— Mas fica bom!

— Igual a tangerina na fondue de chocolate — Espetou o primeiro gomo para experimentar — Colocou um filme pra gente?

— Um filme romântico, mas tem a Amy Adams...

Casa comigo — Era o nome do filme e Angra sentiu um leve arrepio. Tinha escolhido, mas nem tinha se dado conta do nome.

— É esse. Pega vinho para nós duas, amor.


O tempo seguia voando com elas duas, as garrafas de vinho seguiam secando com uma enorme facilidade, a fondue de frutas estava maravilhosa, o queijo que Angra separou também e quando perto do final do filme, Sofía levantou para pegar uma água com gás para elas duas...


Ela estava em uma das camisas brancas de Angra, as que serviu muito bem para usar quase nada por baixo.


— Vem aqui, minha linda.


Era para o colo.


Sofía veio e sentou-se de frente para ela, se encaixando em seu colo, a beijando bem devagar, enquanto deslizava as mãos pelo rosto dela, a sentindo tão delicada, tão carinhosa como Angra sempre era. Os dedos suaves abrindo os botões daquela camisa branca, a lingerie sendo descoberta, os olhos dela dentro dos seus, “girl with eyes like desert”, era sua Angra, eram aqueles olhos que eram deserto e eram um doce amanhecer também, não havia nada melhor do que fazer amor com ela, nada, e olha, a lista de coisas que amavam fazer juntas era imensa, mas fazer amor e ficar de namoro...


Não, esta deveria ser a coisa que mais adorava fazer com ela.


Fizeram amor, e ficaram de namoro no sofá, meio de lingerie, meio sem, nem sabiam direito, Sofía só sabia que quando caminhou até a cozinha para mais um copo de água, a sensação que tinha por dentro era de plena felicidade. Era uma sensação quentinha, uma vontade de que apenas pudesse durar mais, não acabar rápido, Sofía sentia-se bonita, calma, saudável. Era um adjetivo inesperado, mas era como sentia, como se tudo fosse fresco e bom, tal como se toma um sorvete durante uma tarde quente de verão.


Hygge. Ela era seu hygge, era seu melhor lugar no mundo.


Voltou para a sala. E Angra estava de pé, olhando pela grande janela de vidro. Ela era fã de janelas assim, eram as suas preferidas. Estava apenas de lingerie e Sofía sequer sabia. Se abraçou a ela, pelas costas, beijando perto de sua nuca. Não se disseram nada, apenas ficaram assim por um tempinho e quando Sofía fixou os olhos alguns segundos depois, viu um anel brilhando entre os dedos de Angra.


— Angra...?


Ela se virou de frente devagar e, claramente, lhe mostrou o anel.


— Eu te disse que da próxima vez que eu fosse pedir alguma coisa a você... — Pegou a mão dela na sua, lhe olhando nos olhos, com um sorriso lindo no rosto — Seria você em casamento. Lembra disso?


Sofía lembrava. E isso lhe apertou o coração da maneira errada. Apertou os lábios um no outro, as mãos começaram a tremer e Angra não precisava de metade desses sintomas para saber que algo não estava muito bem.


— Sofía?

— Angra, você não vai...?

— Pedir você em casamento? — Angra se ajoelhou diante dela — É claro que eu vou.

— Angra, Angra, espera: — Sofía se abaixou junto dela, ainda segurando em suas mãos — Vamos devagar com isso...

— Espera, você está realmente interrompendo o meu pedido?

— Estou, porque... — Respirou fundo e sentou-se sobre os joelhos, ainda mantendo Angra muito perto, cobrindo o lindo anel que ela segurava com sua mão — É que eu abri o armário do quarto...

— E o que isso tem a ver, meu amor?

— Tem a ver que as suas coisas não estão lá e isso deve querer dizer que você segue morando com o Guilherme.

— Sofía, eu estou resolvendo as coisas com ele, já estou em processo de separação e não estou mais em casa, estou num hotel, mas eu ainda acredito que ele vai acabar cedendo, deixando o apartamento pra mim...

— Angra, se tem uma coisa que eu aprendi na minha história com a Frederíca, é que não existe processo de separação, não existe separar aos poucos. Ou a gente separa, ou não separa e tudo bem, eu já entendi qual é a situação, já conversamos sobre isso.

— Eu não acredito que você está recusando o meu pedido...

— Eu não deixei você me pedir, não é uma recusa, é só que... Por que isso agora?

— Eu não sei se você segue com aquela ideia de viajar para a Europa, de passar meses fora daqui...

— Eu sigo e não são meses. É apenas um mês, para que eu possa organizar a minha vida, decidir exatamente o que eu vou fazer, onde vou morar, escrever as minhas crônicas, estudar meus idiomas, nós já falamos disso, linda — Disse isso e a viu abaixando a cabeça, fechando os olhos e respirando muito fundo, ela estava magoada, é claro que estava — Angra, eu só não quero... Assumir uma outra ilusão. Eu sinto que a gente se acostumou com isso, ficávamos indo de ilusão em ilusão, levando nossa relação com coisas que não vão acontecer. Eu quero continuar com você, mas quero que seja cru desta vez, somente a verdade, apenas a nossa realidade, sabe? O que a gente tem, já é muito mais do que muitos casais por aí, eu não consigo ficar longe de você, eu quero que possamos estar juntas, mas... Só vivendo o que temos. Sem planos futuros. Entende o que eu estou querendo te dizer?

— Eu estou me movendo. Talvez não na velocidade certa, mas eu estou.

— Eu não estou te cobrando nada, meu amor. Nada. Mas é que... El que no arriesga nada, no va al infierno, ni va a los altares.Eu sei que posso perder você com essa direção nova que estou propondo, perder a chance que poderíamos ter, mas eu preciso me mover. Não preciso mais que você se mova, mas eu preciso me mover. Na verdade, eu já saí do lugar e eu preciso achar outro lugar para ancorar novamente...

— Está falando de conhecer outra pessoa...?

— Não, estou falando de me ancorar, eu mesma, sozinha, me ancorar em mim. Mas é claro que eu quero um futuro, construir alguma coisa, eu sei que vou ficar mais perto de você, quero ficar no Brasil e se por acaso eu conhecer alguém que possa despontar alguma coisa, a gente vê, eu e você, com o tanto de coisa que nós duas dividimos, eu realmente não vejo algo na minha vida que eu não queira discutir com você antes de decidir. Isso não tem volta. Linda, sabe a cena inicial de “A Chegada”? Talvez eu termine numa cena como aquela, numa casa confortável, perto de um lago — Disse e esboçou um sorriso com os olhos querendo encher.

— Sozinha?

— Solitária, não sozinha. Eu sei que você e a Estela estarão por perto sempre, é a certeza que eu tenho. Eu sempre achei que fosse me casar uma vez e, ponto final. Já não foi bem assim, então, talvez seja para ser outra coisa. Eu quero poder viajar, ter um negócio pelo qual eu tenha paixão, ver a Estela crescer, acabou minha lista de quereres. Lembra de como ela era enorme?


Angra deixou uma lágrima cair, lembrava.


— Quando você vai?

— Meu voo é amanhã à tarde.

— Amanhã? Já?

— Eu achei melhor já vir pra cá com a passagem comprada. Eu vou voar para Paris, passar três dias lá e depois vou direto para Hvar.

— Para Paris... — Outra lágrima, outro sorriso meio desacreditado.

— Eu... Estou com falta de Paris. Decidi passar lá antes.

— Bom pra mim.

— Para você?

— Sinais de que não nos odeia — Beijou a mão dela que guardava o anel — Você pode guardar ele com você?

— O anel?

— Eu comprei pra você, se você puder ficar com ele. Não como um pedido, só... Como um presente.


Sofía olhou bem nos olhos dela.


— É claro que eu fico com ele se você quer assim. Ele é lindo!

— Eu sei, ouro rosé, imaginei que você fosse gostar. Bem, então vamos dormir, você tem um voo de muitas horas amanhã — Deixou o anel na mão dela e se pôs de pé, passando a recolher o aparelho de fondue ainda na mesa de centro.

— Angra, tudo bem?

— Tudo sim.

— Sobre o meu voo de amanhã?

— Tudo certo. Você pode ir.

— Eu devo dormir com a Estela...?

— Deve dormir comigo. Quer passar a manhã lá no escritório? Você me disse que tem um texto para terminar.

— Eu... Eu tenho.

— Então vamos dormir. Está quase dando uma da manhã.


Foram dormir. Deram uma olhadinha em Estela, ela seguia dormindo muito tranquilamente e não houve nada de extraordinário, Angra veio dormir, quis dormir nos seus braços, no seu peito e Sofía estava... Nem havia conseguido dormir direito. Acordou às 6 da manhã e assim que Angra se moveu, perguntou a ela se estava mesmo tudo bem, se ela não estava chateada, magoada e ela foi a coisa mais doce possível. Lhe beijou, lhe encheu de carinhos, disse que entendia, que estava tudo bem sim e perguntou se Sofía iria viajar somente com o que tinha na mochila mesmo.


— Então, eu preciso de algumas coisas que estão com você, porque são praias, mas praias invernais nesse período do ano, estarão lá com aquele sol lindo, mas com um vento frio daqueles.

— Ilhas invernais.

— Isso, invernais nessa época do ano.


Sofía era ilha vulcânica, mas também era invernal quando queria. Angra sentia-se assim. Se afastando de uma ilha invernal que não lhe queria aportando. E a culpa era de quem? Apenas sua.


— Então vamos? Vamos fazer o café da manhã, acordar nossa coala e ir no apartamento ver as roupas que você precisa.


Angra sempre mantinha roupas de Sofía em seu guarda-roupa, era funcional e, lhe mantinha mais perto dela de alguma maneira. Tomaram café, Estela acordou sem grandes dificuldades, então discretamente, Angra checou se Guilherme já tinha saído e, foram até lá. Sofía pegou o que precisaria, uma calça jeans, outra de moletom, um casaco, um par de pontas, dois cachecóis e estava pronta.


— Certeza de que não precisa de mais nada?


E Sofía lhe olhou nos olhos, bem de pertinho.


— Tem mais uma coisa que eu precisava, mas não consigo levar agora...


Angra abriu um sorriso.


— Isso vai acabar.

— Eu sei que vai — Sofía se abraçou a ela, encostando a cabeça em seu peito — Ontem a Estela viu um clipe, chamado “Only You”...

— Que tem a sereia apaixonadinha por uma humana. Ela reagiu com muita naturalidade, eu notei. Acho que estamos caminhando bem nessa questão.

— Com naturalidade, é a melhor saída sempre.


Angra a olhou assim, muito de perto, os braços ao redor dela, aqueles olhos ao sol, que entrava pela janela.


— Eu acho que você nunca esteve tão bonita, sabia? — Disse Angra lhe olhando docemente — É a sua melhor fase desde quando a gente se conheceu.


Sofía a beijou rapidinho.


— É que você me ama.

— Amo, mas é também que você realmente está mais bonita. É como o vinho.


Ela seguia galanteadora e Sofía seguia com o coração apertado pela noite anterior. Mas precisava ser feito, sabia que precisava, por mais que seu coração fosse contra, seu cérebro sabia que era necessário fazer. Foram para a empresa, com Estela empolgada, brincando com Sofía no banco de trás, ela já estava pronta para ir para o aeroporto, minimalista, levando apenas o que realmente ia precisar. Angra havia a conhecido diferente, querendo muitas coisas, com planos para quase tudo. Se orgulhava da pessoa que Sofía tinha se tornado e se preocupava também. Nem era por nada, viver com menos é a melhor de todas as opções, porém...


Temia que esses cortes lhe envolvessem.


Trabalharam na cafeteria aquele dia, nem era por nada, era apenas porque Sofía adorava aquele espaço e queria passar tempo com Angra até a hora de ir para o aeroporto. Mas Marcela desceu assim que soube que ela estava lá e, veio se desculpar, pelo comportamento ruim, ela parecia mesmo sentida com aquilo, sua amiga era geniosa, Angra sabia bem, mas detestava passar a imagem de mal-educada, ou indelicada. E claro que Sofía fingiu costume, disse que estava tudo bem, que não tinha notado nada, ela era delicada desta forma e, fez questão de ir falar com Luria, que claramente estava ainda meio sem jeito por sobre como a história tinha tomado de rumo.


— Se há um ranking de motivos que levaram à separação, você está lá no último lugar, tá? Frederíca e eu só demoramos para tomar a decisão, mas tenho plena consciência que o nosso casamento como era, terminou há cinco anos. Nós só seguimos em frente, quase que por teimosia — Disse Sofía a ela, enquanto tomavam um café no corredor, apenas elas duas.

— Você é muito teimosa? — Ela perguntou, de maneira curiosa.


Sofía abriu um sorriso.


— Por que está me perguntando?

— Frederíca me disse que você colocou na cabeça que não mais vai esperar pela Angra e está temerosa com isso.

— Ela disse a você sobre...?

— A Angra me disse sobre. Frederíca só alinhou as preocupações dela.

— Angra te disse...?

— Que é apaixonada por você. E que faz tempo.

— E a Frederíca está...?

— Preocupada. Que a sua teimosia esteja te pedindo para ficar sozinha.

— Ela acha que eu não consigo ficar bem sozinha, que preciso de alguém.

— Sofía, não tem problema nenhum em se precisar de alguém. O problema está em se precisar do alguém errado.


Fazia algum sentido.


Almoçaram e chegou a hora de levar Estela para a escola e, consequentemente, o horário do voo de Sofía também. Angra foi deixá-la no aeroporto e a despedida foi feita de beijos longos, que não queriam se esgotar dentro do carro. Sofía estava usando o anel, aquele de noivado que se converteu em um presente comum.


— Não é comum — Sofía lhe corrigiu.

— Você volta pra onde?

— Pra cá, eu venho ver você antes de qualquer coisa. Como sempre.


Como sempre.


— Eu quero trocar a minha palavra... — Angra disse de repente.

— Como?

— Basta. Basta de ter as coisas como sempre.


📚


Catarina entrou em sua sala tão rápido que Angra achou que ela tinha expulsado seu paciente na velocidade da luz.


Ela surgiu na sua sala assim que mandou mensagem para ela, em sua outra versão, de jeans, camiseta branca, cabelos presos no alto. Angra estava anestesiada. Tinha dirigido daquele aeroporto anestesiada, nada de choro, nenhuma lágrima, estava numa postura física tão rígida, que Catariana achou que tivessem brigado. Ela e Sofía. Mas não havia sido isso. A postura de briga de Angra era com ela mesma.


— Angra, ela... Rejeitou?

— Suave como só ela conseguiria. Ela não me deixou pedir, apenas... Delicadamente me parou. Aceitou ficar com o anel, fez questão de usar, de mostrar o quanto ela adorou, mas o pedido em si... Foi como se ela colocasse de volta no pacote de presente e pedisse para eu devolver para a loja — Contou, com pouca expressão — Catarina, você não entende. O que eu vi no rosto dela desde quando ela entrou no flat novamente... Ela estava com medo. Medo de me perguntar o que eu estava fazendo ali. Se eu tinha mudado mesmo, se tinha resolvido tudo ou só... Ela estava com medo de saber que não. Queria ficar feliz, mas não se permitia. Eu não quero mais ver aquele mix nos olhos dela nunca mais. Ansiedade, esperança, medo, ilusão. Eu quebraria a cara de qualquer um que fizesse isso com ela. Mas sou eu mesma.


Catarina respirou fundo, sem tirar os olhos de Angra. Ela parecia... Diferente.


— A mulher que eu amo acha que eu não a quero.

— Ela te vê de uma maneira linda. Para a Sofía, você é quase uma super-heroína. Ela acha que não há nada que você não seja capaz, que você não consiga resolver. E sendo assim, o único motivo de você não ter resolvido vocês duas ainda, é que você não quer. Ela acha que você quer outra coisa e quer encontrar um jeito de respeitar isso e te manter por perto.

— Eu não quero assim.

— Você decidiu? Muito bem decidido?

— Muito claramente.

— Eu só quero te dizer que: o ser humano tende a achar que é tudo sobre ele. Cuidado com isso.

— Guilherme, eu sei.

— Angra, você... — Uma voz diferente interferiu na conversa.


Angra ergueu os olhos e encontrou Marcela na porta. Marcela era assim, silenciosa demais, um fantasma sem correntes flutuando livremente. Ela começou a dizer algo e então parou. Entrou, fechou a porta atrás de si e, sentou-se na outra cadeira, ao lado de Catarina, olhando para Angra.


— Tá, o que você teme?

— O quê? — Angra não estava entendendo.

— Sobre se separar. O que você teme?

— O principal é a Estela. Tirar o pai dela.

— Isso não é uma preocupação real. Você não tem poderes para isso, a única pessoa que pode tirar o pai da Estela é o Guilherme, se ele decidir ser um idiota da espécie do pai do Bernardo, por exemplo. O que mais teme?

— Perder o que eu tenho.

— Bem, essa empresa também é sua e eu não pretendo me separar de você.

— Mas você pretendia. Me disse isso.

— Bêbada e com a feminilidade frágil, heterossexualidade frágil, chame como você preferir. Eu preferia outras coisas. Que tudo seguisse igual e que ninguém tivesse que lidar com mudanças. Mudanças me assustam e me dão preguiça. Mas se eu tivesse que mudar e estivesse assustada e com preguiça, eu gostaria de contar com você para fazer o necessário. Então, eu só quero que você saiba que eu estou aqui. Que não precisa fazer a Catarina empurrar o paciente pra fora do consultório, porque você precisa falar com alguém. O que mais você teme?


Angra buscou os olhos dela.


— Que o Guilherme queira brigar pela guarda da Estela na justiça.

— E ele faria o que com ela? Pagar uma babá para cuidar dela nas dez, doze horas que ele passa fora de casa? Se ele preferir a filha com uma estranha do que aos cuidados da mãe, vamos concluir que você se casou errado mesmo. Mas eu duvido que ele faça isso. E se fizer, não tem problema, nós vamos pra justiça, não só pela Estela, como por todo o resto.


Angra respirou fundo.


— Chama a advogada aqui?

— Litigioso?

— Sim.

— Então, vamos resolver de vez.


E ela levantou-se e saiu da sala. Catarina respirou fundo.


— Então, aquela administradora resolveu seus temores em dois minutos. Eu desconfiava que não estava fazendo o trabalho certo com você...


Angra sorriu.


— Obrigada. Por tudo o que fez e por ser minha amiga.

— Eu vou te indicar um colega, está bem? Você precisa de terapia de verdade.


📚


Pegou Estela e foi pra casa no final da tarde. Checou o relógio, Carolina já deveria estar em casa, bateu primeiro lá, deu um chocolate quente para Estela brincar na sala e foi conversar com ela rapidamente. Explicou o motivo, foi breve, sucinta, pegou um café na máquina para si mesma. Carolina ficou em silêncio, e então, lhe citou Virginia Wolf.


“I have a deeply hidden and inarticulate desire for something beyond the daily life…”.

Eu tenho um profundo e escondido desejo por ter algo além de uma vida diária.

— Isso… Isso é muito real. Mas me assusta demais ser... Atraída por este desejo e de repente ele virar um vício, sabe? Eu nunca parei para pensar em mulheres como uma possibilidade, você me conhece desde os meus seis anos, sei lá, nunca pensei em nada desse tipo. Mas daí, a gente tira férias, pega uma casa na praia e você coloca nesta casa um casal de mulheres, uma escritora sedutora e aquela grega... — Disse, fazendo Angra abrir um sorriso.

— Você gostou de receber atenção feminina.

— Foi mais do que isso. E eu sinto vontade de descobrir mais, mas como poderia? Eu até tentei, mas ela... — Balançou a cabeça em negativa, mas com um sorriso no rosto.

— Não quis?

— Não quis. Mas eu entendo. E sabe onde ela está agora? Hanói, no Vietnã. Sabe o mais longe que eu já fui? Lua de mel em Buenos Aires. Não é por nada, é porque o Felipe não tem vontade. Prefere ir para o Rio de Janeiro todo ano e quando quer mudar um pouco, vamos para o Nordeste. Eu adoro, você sabe que eu adoro esses lugares também, mas tem essa mulher. Que saiu do Rio de Janeiro e foi para Athenas, e depois para Hanói, trabalhar. E viver. Eu não tenho certeza se... Estou vivendo. Ou só trabalhando. Não sei se estou sendo irresponsável ou egoísta. Ou... Aquele outro adjetivo que você gosta de usar.

— Ingrata.

— Isso, sendo ingrata pelas coisas que tenho, porque tem muita gente que...

— Que gostaria de ter o que você tem. Mas se você fosse uma dessas pessoas, acha que você gostaria?


Ela ficou em silêncio mais uma vez.


— Eu... Não tenho essa resposta. Ainda. Mas você tem a sua. Escuta, vai lá, vai de uma vez, eu dou algo para a Estela jantar e coloquei uma playlist infinita da Dua Lipa e do Little Mix, ela estará distraída o suficiente, vou dançar com ela.


Angra a olhou nos olhos. E apenas a abraçou.


Não adiou mais nada. Nada de alongar a hora, jogar conversa fora, fazer o jantar para conversarem. Angra já havia adiado demais, deixado para depois, depois do nascimento de Estela, depois que ela fizesse um ano, depois que ficasse um pouco mais velha, depois que a empresa ganhasse estabilidade, depois do aniversário de Guilherme, depois que o pai dele melhorasse, depois que voltasse de Búzios, depois do aniversário de casamento, depois do jantar, para a manhã seguinte, depois, depois... Agora não tinha mais depois e nem queria ter. Então, assim que Guilherme chegou do trabalho aquela noite, duas horas depois do que Angra esperava, falou o que precisava. Não fez nenhum drama, nenhuma cena, não mediu as palavras e nem as alongou, apenas disse o que precisava.


No dia seguinte, Guilherme recebeu uma notificação judicial.


No mesmo dia, Angra retirou todas as suas coisas daquele apartamento. Daquele casamento. Da vida que não queria mais.


BASTA. E tinha força suficiente para mantê-lo.


Notas:


Olá, meninas!


Mais um capítulo de desfecho dessa história de amor, que está passando por um momento de re-construção e pelo jeito, Angra acordou. Decidiu dar um basta nesse sofrimento calado de mais de 5 anos. Sofía também está querendo um basta, tadinha, ela não aguenta mais essa indecisão. Torcendo muito para as duas! E também pra Carolina, afinal, perder a Kalinka não é lá muito inteligente rsrsrsrs.


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Beijos! Se cuidem!


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