ANGRA: Capítulo 32 - O Adriático




Até havia entrado para comprar a passagem direto para Hvar, mas quando se deu conta, Sofía tinha acabado de finalizar a compra com um bilhete para Paris.


Não precisou se explicar nada, só precisava de um tempo, em algum lugar que amava, que guardasse seus momentos preferidos. Depois do nascimento de Estela em Cartagena, sua semana com Angra em Paris era seu momento preferido na vida.


Já amava Paris antes daquele encontro. Depois dele, aquela cidade havia se transformado e apesar de estar com um financeiro bastante reduzido para o que pretendia fazer, não resistiu. Foi para Paris, pegou um Chambres de Bonne numa vila antiga, os minúsculos quartos de empregada, pertinho da Gare du Nord, que era o que conseguia pagar. Estando perto do metrô, não importava muito onde estivesse, podia ir a qualquer lugar.


Não tinha um roteiro, aliás, para nenhuma das outras três cidades em que pretendia estar. Nenhum roteiro, nenhum planejamento e estar nesse modelo em uma cidade que já conhecia primeiro, lhe ajudou a entender como faria aquilo. Não estava em viagens turísticas e sim, em viagens a trabalho. Queria escrever crônicas e quem sabe, algo mais. Queria reformular seu site, aumentar seu alcance e sua renda, sair do casamento com Frederíca significava também uma perda financeira considerável. Precisaria se reinventar, pensar no que mais podia fazer, e foi assim que passou a sua primeira manhã em Paris. Sentada em um agradável café, com seu casaco de frio, tomando um latte e comendo pain au chocolat, enquanto anotava as coisas que sabia que podia fazer.


Era jornalista afinal, podia escrever outros tipos de artigos além dos de viagem, podia dar aulas também, de redação e de línguas, podia dar aulas de espanhol, de inglês, até de francês? Achava que já conseguia também. Podia trabalhar com traduções e voltar com a jardinagem, podia fazer um curso de paisagismo, era algo que adorava e já tinha meio caminho, e quem sabe, podia voltar para uma faculdade? Design de interiores, a sua paixão antiga. O tempo passou que sequer notou e quando percebeu, já era quase meio-dia e tinha meia folha escrita de coisas que podia fazer.


Inclusive, escrever um livro.


Essa ideia andava circulando a sua mente, se escondendo num cantinho da sua cabeça e dando as caras sempre que a euforia ganhava do medo do que estava por vir. Podia escrever um livro. Um romance? Não sabia se seria capaz de escrever um romance. Daí olhou para os canais centenários do Rio Sena, da Belle Époque de Paris, um romance gótico, talvez? Talvez se saísse melhor num romance gótico, anotou aquela ideia também e decidiu ir almoçar num determinado restaurante na Champs Élysées.


Mandou a localização para Angra, que estava tirando algumas coisas de caixas de papelão. Uma enorme janela de vidro deixava o sol entrar numa imensa sala vazia.


— Você... Eu não acredito que foi mesmo para Paris! — E tinha um motivo bem interessante para não acreditar.

— Eu vim. Quis primeiro passar aqui porque... Você sabe bem o porquê, eu já te contei — Abriu um sorriso — Me fala, está tudo bem aí? Tudo bem com você?

— Tudo bem, tive uma noite meio complicada, mas tudo bem.

— Aconteceu alguma coisa?

— A gente vai ter tempo de conversar sobre tudo o que aconteceu.


Havia algo na voz dela.


— Está pertinho de alguma janela? — Sofía perguntou.

— Uma janela linda, por sinal.

— E o sol segue lá fora, não segue?


Angra sorriu.


— Segue sim. O sol nasceu por aí também?

— Nasceu. Invernoso, mas nasceu — Abriu um sorriso.


Passeou para Champs Élysées, pegou um café numa Starbucks, comprou um livro em francês, para ver se realmente estava indo bem no idioma e antes de voltar à sua vila antiga, pediu um Crepe Suzette na esquina da Torre Eiffel. Ela também seguia ali. Cada coisa seguia em seu lugar, apesar do medo que assaltava seu coração uma vez e outra. Voltou para seu quarto apertadinho, abriu um vinho que tinha comprado e guardou outro na mala, Angra iria adorar, tal como Sofía sabia que ela adoraria estar ali, em seu Chambres de Bonne, olhando Paris pela janela enquanto tomava aquele vinho francês com croissants. A Cidade Luz brilhava. E Sofía já morria de saudades.


Queria fazer uma chamada de vídeo com ela, mostrar a noite, mas já era tarde e não podia simplesmente ligar. Então leu um capítulo do seu livro, tomou um banho longo, separou um vestido bonito, meia-calça, botas e um casaco quentinho, pensou em Angra, pegou no sono.


Acordou numa Paris chuvosa, que de alguma maneira, ficava também bonita em dias de chuva. Saiu com seu livro, meia garrafa de vinho, comprou pães, doces e frutas, e pegou o metrô. Para o Museu do Louvre, onde passou uma manhã inteira vendo suas obras preferidas e lembrando como havia sido estar ali com Angra. Tudo lhe lembrava ela, e essa lembrança lhe deixava confusa sobre o seu futuro. Queria estar com ela, mas também sabia que precisaria de alguém para estar consigo e não sabia como essa equação podia dar certo. Queria começar uma vida nova, mas era complexo. E o medo de ficar sozinha lhe levava sempre à cena inicial de “A Chegada”, a casa em frente ao lago, a solidão.


“Você podia pensar mais em “Casa comigo” do que na “A Chegada”, não entendo essa insistência...”, Angra lhe respondeu aquela manhã enquanto Sofía almoçava sozinha nos Jardins de Luxemburgo. Era uma privilegiada, sabia, deveria parar de se lamentar tanto. Tirou algumas fotos, leu seu livro e no terceiro dia, decidiu subir a Torre Eiffel e lá de cima, numa ventania danada e fria, viu as várias pontes de Paris sobre o Rio Sena e elas eram bem simbólicas. Então lembrou de “Comer, rezar, amar” e da protagonista encontrando a sua palavra:


“Attraversiamo”, era a palavra em italiano, “atravessamos” em português. Estava mais distante de Angra naqueles dias, mas sabia que era necessário, para ela, e para Sofía atravessar. Sabia que tinha se movido, que tinha saído daquele lado do rio e agora estava no meio da ponte, mas ainda precisava “atravessar”. A questão era para onde. Que lugar era aquele depois da sua travessia. Tinha Belo Horizonte como grande candidata, queria estar perto e ao mesmo tempo, temia ficar muito perto, talvez devesse realmente começar a considerar de fato e acreditar que estar num lugar que muito gostava, era um passo importante para todas as coisas.


Estava atravessando de uma companhia para acampar em algum lugar sozinha. E seu medo talvez estivesse vindo todo daí.


Aquela tarde assistiu o anoitecer na Champs Élysées, tomando um café que era o que o seu orçamento permitia e tocando o anel que Angra a havia presenteado. Reconsiderou. Seu medo não era atravessar e acampar sozinha, era atravessar e ficar longe dela.


Era anoitecer em Paris e quase onze da noite no Brasil, e Estela havia tido uma crise para a qual Angra não estava preparada. A sala seguia vazia, o apartamento seguia todo meio vazio, a escola pode ser um território hostil mesmo para crianças muito pequenas. Havia recebido uma ligação da escola de Estela quase no final da aula e quando chegou lá, sua filha estava inconsolável, chorando de soluçar e sem lhe explicar coisa alguma. Os professores também não conseguiram explicar, então decidiu descobrir sozinha o que se passou, a colocou no carro, tentou acalmá-la, entregou um brinquedo que havia prometido comprar para ela mais cedo e de alguma maneira, isso piorou a crise.


Não era aquele, não era de jeito nenhum, Angra sabia que não era, tinha perdido um livro de Estela, El Principito, uma versão em espanhol de O Pequeno Príncipe, que Sofía tinha comprado em Barcelona. Claro que não tinha conseguido o mesmo exemplar, mas comprou um em português, com ilustrações lindas, mas isso enfureceu Estela. Que se enfureceu mais ainda quando notou que não estava indo pra casa, que era para aquele outro lugar, o lugar onde não tinha como fazer chocolate quente e panquecas, porque seu pai não estava lá.


Foi muito difícil. O choro, a fúria, a crise nervosa. Estela já havia tido outras crises, mas como aquela... Não, Angra não lembrava. A pegou no colo, contra a vontade dela, que se debateu, não queria e quando ela escapou dos seus braços chorando no elevador, Angra apenas virou de costas e chorou do outro lado. E foi constrangedor. Outras pessoas entraram no elevador e viram Estela chorando, agora pedindo pela mãe, que não tinha condições de...


Não tinha. Estava despedaçada pelos últimos dias, exausta de todas as coisas, das conversas, das discussões, da mudança de opinião de Guilherme, que era quase constante, das coisas que estava tendo que abrir mão, dos julgamentos que já estava ouvindo, do desconforto do lugar onde estava. Estava exausta, exausta, exausta.


Foi uma vida para tirar Estela do elevador. Angra se descontrolou, falou mais alto, ameaçou, se arrependeu, subiu e desceu tantas vezes que nem sabia, até que finalmente, aquela menina de quatro anos, aceitou sair do elevador.


Então, Angra se deu conta das horas. Era quase nove da noite, não acreditou que havia durado tanto. E do ataque de fúria, agora Estela estava agarrada em seu pescoço, a ponto de Angra ter que entrar no chuveiro com ela. Estela se acalmou e Angra voltou a chorar, preocupando sua menina, o que só lhe fez chorar mais ainda, e então, Estela lhe acalmou, pedindo para que a mamãe parasse de chorar, que estava tudo bem, podiam pedir o jantar no celular, e nesta parte, Angra riu. Ela estava lhe consolando.


Saíram do banho, fizeram algo para comer juntas, no piso da sala, com a televisão ligada, mas ainda no chão, sem ser instalada. Estela comeu e Angra colocou os clipes que ela gostava na tevê, para ver se a filha finalmente relaxava. Entendeu o problema na escola. Ela estava simplesmente com saudades, mas era nova demais para conseguir processar este sentimento. E tinha ficado triste por não entender a atividade da aula. Contou e então houve uma calma, uma tranquilidade. Estela deitou-se no seu colo cansadinha de tanto chorar. Angra também estava cansada.


Ainda tinha um relatório financeiro para fechar da empresa, para uma reunião que aconteceria na primeira hora da manhã do dia seguinte, que seria particularmente longo e nervoso. E só queria dormir. Só queria ficar quieta, colocar alguma série no notebook e ouvir até dormir. Mas não podia. Não era possível. Queria tirar a dorzinha de Estela e sentir tudo sozinha, suas decisões, o sofrimento deveria ser todo seu. Tudo estava difícil... Muito difícil. Também estava no meio da ponte e não sabia bem o que ia encontrar quando terminasse de atravessar.


Olhou para a tevê, estava passando o clipe de “Only You”. Aquele da adolescente deslocada e uma sereia perdida em uma festa. Estela adorava sereias.


— Mamãe?

— Oi, meu amor.

— A Sofía é a sua sereia.


E aquilo pegou Angra completamente de surpresa.


— Como, filha?

— A moça, com o cabelo da Ariel, ela tem uma sereia.


Angra lagrimou, pele enésima vez possivelmente apenas naquele dia. Mas desta vez, tinha um sorriso na lágrima também. Não fazia ideia do que exatamente sua menina estava querendo dizer, mas vê-la reagir com tanta naturalidade... Bem, estavam agindo com naturalidade com ela desde o começo, Sofía havia dito que só deveriam agir assim, se Estela tinha idade para assistir um beijo entre dois adultos héteros (e esses beijos estão em todos os lugares, porque são naturais), também tinha para assistir um beijo entre dois adultos gays. Ou, entre uma humana adulta e uma sereia gay, como no clipe, que fosse.


— Mas por que ela leva a sereia para o mar? Acha que ela nadou pra muito longe? — Mais perguntas naturais, enquanto ela brincava com o copinho improvisado de chocolate quente — Mamãe, você acha?

— Eu acho que... — Respirou fundo, deitando um beijo nos cabelos de sua menina — A sereia volta, filha. A sereia só... Foi nadar um pouco no Adriático.


Foi nadar lá. Mas ia voltar sim. “Se eu tiver que voltar para alguma coisa na minha vida, vai ser para você. Eu sempre vou voltar para você”, lembrou, de um bilhete escrito por Sofía há uns 3 anos. “Você nunca vai me deixar”, Angra tinha escrito de volta “não tem como voltar para algo que você nunca vai deixar...”.


— Mamãe, os barcos chegam num europorto?

— O quê? — Mais sorrisos.

— Os barcos. É num europorto que chega?

— Barcos chegam num porto, filhote. Aeroporto, aero vem de “ar”, os aviões voam no ar e chegam em aeroportos.


E Estela abriu um sorriso muito travesso.


— Então águaporto para os barcos...

— “Águaporto”, parece justo, tudo bem — Caiu no riso.

— A Sofía vai chegar num águaporto amanhã, mamãe...


Em Hvar. Depois de pegar um voo de Paris até Zagreb, ela pegaria um barco até a ilha de Hvar. Aqueles dias estavam difíceis, mas aquela simples conversa com Estela, lhe deu ânimo para fazer tudo o que ainda precisava. Estela estava crescendo, agora dançava, inventava palavras e conversava. Ela era o sol nascendo na janela todos os dias, por mais complexo e desesperador que qualquer dia pudesse ser.


Mais um dia. E Angra tinha vencido.


O sol nasceu para Sofía também, mais uma vez. Abriu os olhos em Paris e viu que tinha recebido uma foto de Estela dormindo, durante a sua madrugada. Já estava morrendo de saudades. Fez a mochila com calma, se vestiu, ficou bonita, enviou uma foto para Angra enquanto tomava café com seu último pain au chocolat. Tocou o anel em seu dedo e caminhou até Gare du Nord, para pegar o trem para o aeroporto. Estava ansiosa por Zagreb e com uma sensação quentinha por dentro: a sensação de que estava fazendo tudo sozinha e ainda não tinha gritado ajuda, para nenhuma das três mulheres da sua vida.


Tinha decidido passar um dia em Zagreb de última hora, para conhecer um pouco daquela capital pitoresca, fazer umas fotos, ouvir aquele idioma complexo. Adorava este tipo de imersão, em cidades, em culturas, adorou poder andar pelas ruas de pedra, entrar num museu espontaneamente, almoçar num restaurante que lhe agradou o cheiro. Nada planejado, apenas sentido, mais bússola do que mapa, andando por ruas que não conhecia, guiada apenas pelo seu GPS biológico, pela sua vontade e fez tudo isso com um vestidinho de verão e uma jaqueta de inverno, botas nos pés e sua mochila nas costas. Seguia tendo tudo o que precisava numa mochila que não lhe maltratava as costas, tudo o que precisava era apenas aquilo que podia carregar sem esforço e estava particularmente apaixonada por esta ideia.


Chegou em seu hostel apenas para dormir e nunca tinha dormido num hostel antes na vida. Foi uma experiência e tanto. Dividiu o quarto com uma alemã, uma australiana e uma belga, e o assunto veio tão fácil que acabou dormindo tarde.


— Gostou de Zagreb? — A belga lhe perguntou quando as outras duas dormiram.

— É uma cidade assombrada, não é?

— Gótica!


Sofía abriu um sorriso.


— Engraçado você usar essa palavra...

— Por quê?


Cada vez mais, sentia vontade de escrever. Um romance gótico, por que não? E partindo desta ideia, pensou que podia talvez passar um mês em Santiago, no Chile. Era um dos países mais assombrados que conhecia, com sua mitologia forte, as almanitas pelas ruas. Se fosse para o Chile, poderia ter mais umas semanas para decidir onde morar?


— Não é um plano, é um adiamento — A belga lhe disse, ainda quando tentavam dormir e Sofía tentava resumir sua história para ela. Notou que era uma história bem complicada de ser resumida.

— Como?

— Adiamento é uma forma delicada de eu dizer que na verdade, você está só fingindo um plano.

— Você é psicóloga!


Ela riu.


— Sou coach de comportamento, muito pior.


Era verdade, muito pior, porém, ela tinha alguma razão. Precisava se organizar, precisava decidir, sabia de tudo isso. Acordou cedo, e a primeira coisa que determinou foi que estava ótimo de experiência com hostel, uma vez era suficiente, não tinha tanto mental para coisas compartilhadas, apesar de a experiência ter sido muito boa. Pegou um trem até o porto, ou o águaporto como Estela lhe disse e sua amiga belga fez questão de lhe levar até o barco.


— Sofía?

— Oi.

— Você já sabe quem você é, não é isso que você está em busca. O que você busca na verdade, é construir uma vida nova, mas com a Angra do seu lado. É por isso que não está fazendo planos ainda. Não encontrou um plano em que possa inclui-la.


A mente de cada um é um lugar ardiloso para os seus donos.


Embarcou para Hvar, pensando naquela possibilidade de estar sabotando sua vida sozinha, por não querer uma vida sem Angra. Era uma boa teoria. Girou o anel em seu dedo e decidiu admirar o mar Adriático que estava particularmente deslumbrante aquela manhã. Talvez a belga realmente tivesse razão e talvez o afastamento no qual estava de Angra nos últimos dias, estivesse contribuindo para aquele seu estado de espírito. Precisava focar em si, havia viajado para tão longe para focar em si mesma e ainda bem, a noite em Zagreb havia lhe lembrado dos seus objetivos.


Precisava focar, precisava se organizar, este eram os trilhos em que precisava ficar.


Chegou na deslumbrante Hvar para o almoço e apesar de estar mais quente do que estava no continente, ainda não era exatamente quente para um banho de mar, mas achou que precisava disso antes de qualquer coisa. Então trocou de roupa num banheiro de um restaurante e sem pensar em muita coisa, mergulhou no Mar Adriático, sentindo a água gelada lhe eletrificando o corpo, lhe enchendo de sentimentos, renovando todas as energias. O mar gelado só doía nos primeiros segundos e assumiu que grandes mudanças também deveriam ser assim. Doía no começo, mas depois o corpo se adaptava, a mente se adaptava e tudo ficava bem. Ficou na água por um tempo, olhando a ilha, a imensidão do mar, arrumando suas ideias, fazendo planos de verdade, não planos-desculpas, apenas planos. Iria escrever seu projeto, colocar datas, valores que precisaria, definir o que faria, não deixaria Hvar antes que as primícias da sua vida nova estivessem definidas.


Era outra quando saiu do mar. Se tornou outra naqueles três primeiros dias em Hvar.


Não dava para acreditar naquela ilha! Era uma ilha medieval, com praias de pedra e restaurantes inacreditáveis. A confusão de idiomas devia ser uma das coisas que Sofía mais adorava observar na vida, e então, sentar-se em algum lugar e pegar um suco, um café e apenas observar, lhe fazia um bem que não conseguia descrever. Mas se esforçou, para anotar mais coisas, mais sentimentos e desta maneira, decidiu seu primeiro projeto:


Um pequeno livro de crônicas, “Crônicas dos Mares”, o título surgiu fácil, agradável, escreveria bilhetes enquanto se encontrava na vida pela segunda vez. A primeira havia sido em Santorini, e Santorini lhe ajudaria nisso mais uma vez. Definiu também que moraria em Belo Horizonte por seis meses e que não precisava de um apartamento cujo primeiro problema era ter que pensar em como pagaria. Encontrou um loft confortável, pequeno e barato, com cama, sofá, mesa, banheiro, cozinha e de brinde, uma varandinha que poderia fazer de escritório, conseguia pagá-lo sem lançar mão da renda extra que ainda estava incerta.


Decidiu escrever sobre o mar e a culinária que dele vinha, porque os restaurantes de Hvar... Eram simplesmente extraordinários. A comida era deliciosa, diferente, levou pouco tempo para adaptar o seu paladar, porém, quanto mais provava, mais se apaixonava. Tudo estava um pouco diferente desde quando decidiu focar em si de verdade, Angra estava fazendo o mesmo, focada no que precisava, nas suas coisas, nas suas questões e isso causava uma insegurança em Sofía e ilustrava bem a sua situação. Queria focar em si e que Angra focasse em si mesma, mas se não estavam focando em elas duas, ainda tinham uma relação? Ela sobreviveria?


Não podia fazer planos ao redor daquele relacionamento, mas não queria que ele se perdesse.


— Mas isso já aconteceu antes, na gravidez da Estela, lembra? Você decidiu focar em si para que a Angra pudesse fazer o mesmo, e ela resultou na sua porta, grávida de oito meses... — Kalinka lhe disse aquela manhã em que Sofía passeava pelo centro da ilha. A resposta dela lhe causou um sorriso.

— Éramos tão recentes. As coisas são diferentes agora...

— São mais fortes agora do que já eram naquele momento. Não acha que perdeu a Angra porque isso nem é possível, Sofía, ela nunca permitiria...


Sorriu novamente, achava que ela tinha alguma razão também naquilo. Caminhou, fez algumas fotos, a cidade era linda demais, feita de pedras antigas e de flores que surgiam absolutamente do nada. Era seu quarto dia na ilha e havia decidido escrever um artigo sobre o que fazer em um dia em Hvar. Então estava andando, cronometrando o tempo e a distância entre os lugares, fazendo anotações importantes e queria citar algum restaurante charmoso. Ligou para Frederíca, ela já havia estado em Hvar antes, aliás, ela esteve em tantas ilhas europeias durante os seis primeiros meses de Estela, que nunca pararia de agradecer aquela criança das cavernas por tal presente. Ela lhe disse isso durante a conversa, fazendo Sofía rir demais. Tinha amanhecido um dia de quase verão! Mais quente do que os outros, Sofía pôde sair de saia jeans, de blusinha sem alças, amarrou um casaco mais pesado na cintura, um azul-escuro, apenas por precaução e saiu para curtir seu dia de beatitude.


Hygge. Aos trancos e barrancos aqueles dias sozinha, lhe entregavam um sentimento hygge e outro.


— Você sabe alguma coisa do meu bebê?

— Sei, claro que sei, inclusive, a levei pra escola hoje.

— Sério? Mas como...?

— O Bernardo foi para a mesma escola. Angra deve conversar com você a respeito, mas Estela começou a ter problemas na escola, com socialização...

— Problemas de socialização e ela não me diz nada?!

— Ela não quer perturbar os seus dias, você reivindicou esses dias para você, reivindicou isso de nós três.

— Mas não da Estela, eu vou desligar e ligar para ela imediatamente...


Frederíca começou a rir.


— Você quer parar? O Bernardo resolveu a situação, exigiu ir pra mesma escola da Estela ou que ela viesse para a escola dele, resolvemos, ela está bem agora.

— Eles são bons de resolver problemas, não é?

— As crianças? Muito melhores que a gente na tarefa.


Mais sorrisos de Sofía e seus olhos bateram numa placa de madeira muito bonita e que por algum motivo, lhe chamou a atenção. Era apenas a placa e uma frase entalhada na madeira, escrita em croata.


— Então você vai no restaurante? Fica bem no meio da escadaria. As mesas ficam nos degraus, tem flores...

— Caindo pela muralha, estou vendo já — Pagou pelo quadro de madeira — Hvala vam.

— Já está agradecendo em croata, veja bem. Sofía Gonzalez, você é imparável!

— Me deixa ir checar o restaurante onde eu vou jantar, vai. Vou pedir um café da tarde agora.

— Pede um expresso italiano e peça uma generosa fatia de Rigó Jancsi, por favor, coma por mim. O pôr do sol de lá é lindo, aliás, e o livro?

— De crônicas?

— O de romance. Eu sei que você já está escrevendo, quando vai me deixar ler?


Abriu um sorriso.


Vidimo se kasnije, Frederíca — Significava até mais.


Desligou e foi até o restaurante que ela indicou. O dia seguia lindo, com uma brisa agradável difícil de se encontrar naquela época do ano. Pediu o expresso italiano, a fatia generosa de Rigó Jancsi, deixou seus óculos escuros sobre a mesa e abriu o MacBook. Frederíca estava certa, estava quase no final do primeiro capítulo de seu romance, havia passado a noite inteira escrevendo praticamente, um surto criativo regado a um bom vinho e a experiência tinha sido tão boa que sequer acordou com sono pela manhã, muito pelo contrário. Acordou se sentindo ótima, bem disposta, cheia de vontade de fazer seu roteiro. Mandou muitas fotos para Angra logo pela manhã, já estava bom de ela estar longe, estava com saudade, queria saber das coisas, estava sentindo algo e deveria ser o problema que Estela andava tendo.


Vieram trazer seu café, sua fatia de torta, agradeceu em croata e apontou a câmera do seu celular para o quadro de madeira que tinha comprado:


“Sve ovdje već je bio san”, dizia a placa. “Tudo aqui já foi um sonho”, lhe disse a tradução. Abriu um sorriso, iria levar para sua casa nova. Seu celular vibrou na sua mão, lhe dando um leve susto, e então, abriu um sorriso. Era Angra.


“Location, babe. Não gosto da ideia de você perdida numa ilha adriática, linda deste jeitinho que você acordou hoje...”.


Ela sempre lhe faria sorrir, sempre. Enviou a localização para ela e uma foto de sua torta que parecia deliciosa mesmo e, “precisamos conversar sobre o que você não me contou da Estela”. Angra disse que falariam sobre isso mais tarde e Sofía acabou seduzida pelo seu primeiro capítulo. Ainda era uma proposta muito simples, um romance gótico passado numa ilha medieval, que mesclava as personagens no presente com flashes de uma vida anterior àquela. Mexeu nele enquanto degustava seu delicioso café da tarde e seguia tão imersa que sequer viu o tempo passar. Romances góticos giram em torno de algo sobrenatural, geralmente algum tipo de assombração, mistério, coisas neste sentido, que sempre fascinaram Sofía desde pequena.


“Na teoria do tempo circular, os piores fantasmas esquecem quem são, a que tempo pertencem. Se movem aleatoriamente e gotejam no presente, embaçando o único momento em que tudo é mutável, capaz de evoluir. Nada assombra mais do que nós mesmos em nossa própria visita, quem éramos no passado surgindo no presente, quem nos tornaremos no futuro aparecendo no passado. O futuro sempre assombra mais do que o passado...”, estava terminando de escrever aquele parágrafo, quando de repente, alguém se sentou à sua frente.


Óculos escuros, cabelos mágicos, sorriso de estrela do rock.


Era Angra Fernandes.


Notas:


Olá, meninas!


Como estamos? Voltamos à estaca zero na pandemia no nossos país, e agora as coisas estão piores que antes, então por favor, "FIQUEM EM CASA!" Vamos nos cuidar, nos proteger e principalmente, cuidar de quem amamos.


Agora, sobre a história: O momento de romance é o próximo capítulo"Ebaaaaa! rsrs

Sofía realmente tentou, mas ela não vive sem sua rockstar! rsrsrs


Torcendo muito por elas *-*


Essa semana lançamos o primeiro episódio do nosso VLOG, e ficou muito fofo, hein. Espero que tenham curtido. Além do capítulo extra de Delirium: A Refém. Já um aquecimento para o mês de abril, que será todo especial a essa história maravilhosa. Abaixo deixo um trechinho do VLOG especial 6.am.





Para ter acesso a este conteúdo inédito, e mais novidades, é necessário ser membro do Clube TessaVerso. Para saber mais, acesse o link: https://www.tessareis.com.br/beneficiosdoplano


E vamos de alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;


- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;


- Lançamos 6am: A hora mais curta! Está disponível na Amazon! Quem já estava com saudade das nossas garotas? Ou quem está louca para conhecê-las? Corre aqui! encurtador.com.br/frBO4.


Beijos! Se cuidem!


658 visualizações54 comentários

Posts recentes

Ver tudo
  • Black Facebook Icon
  • spotify1600
  • Black Instagram Icon
© Todos os direitos reservados