• Ana Reis

Angra - Capítulo 8: Morning Pages





“Acordo. Outra noite sem sonhos e de um sono muito tranquilo, linear, sem interrupções. Abro os olhos e Angra está dormindo, daquela maneira doce, encolhida em si, os cabelos claros, a respiração calma e aquela sensação de irreal que… Abro um sorriso. Não, tudo é real sim.


Checo o horário, são 7 da manhã. Levanto devagar, vou até o banheiro, está frio, cuido de mim, me checo no espelho, pulseira, mais um sorriso, volto para o quarto.


Ela segue quietinha. A coisa mais bonita que pode existir na vida numa manhã gelada como aquela. Respiro fundo, toco a pulseira no meu punho. O que estamos fazendo?


Não faço ideia, mas deixo para pensar depois. Afinal, minha morning pages recorrente está dormindo na minha cama, bem ao alcance das minhas mãos...


Volto pra cama e escorrego para pertinho dela, a agarro um pouquinho por trás, beijo a nuca, cheiro aqueles cabelos, peço os braços dela e ela desperta sorrindo. Me dá os braços, me dá o peito para deitar, me dá aquele sorriso lindo, me cheira, me beija, a agarro mais um pouquinho, ela está quentinha, uma delícia, afundo a boca e o nariz pelo pescoço dela, já é meu cheiro preferido da vida... E somente isso já basta para Angra acordar de vez. Ela me puxa, contra ela, para ela, mordisco a boca dela e vira beijo, ela me puxa para baixo das cobertas e tudo esquenta. Esquenta a pele, esquenta o beijo, esquenta o amor.


Ela tira o blusão que estou usando para dormir, que é dela e agora tem o nosso cheiro, a boca busca meus seios, minhas mãos buscam a camiseta dela, eu tiro, as mãos dela percorrem a minha cintura e censuram a minha calcinha, gostoso, a boca dela deslizando pelo meu pescoço, terna, delicada, quente, ah, sim, tudo esquenta mesmo.


A viro na cama, de bruços, pego a orelha dela devagar, com mordidas delicadas, suaves, subo em seus quadris, a sinto arrepiando em mim, contra a minha pele, subo os cabelos dela e a minha boca surfa por aquela cervical, mordiscando a nuca, descendo um pouco mais, ouço as reações, um gemido, um "ai, linda" que me desestrutura. Desço a boca por ela, testando aquele novo ângulo delicioso, mordisco a calcinha e retiro, bem devagar, deslizando o tecido por aquelas pernas lindas, e nem preciso tocar, é visual o quanto ela já está molhada...


Vamos fazer amor pela manhã outra vez...”


Fizeram amor. Denso, profundo, quente demais, fizeram sobre as cobertas e já não estava mais frio, estava cálido, uma coisa, reações na pele, nos gemidos, não achavam que podiam ser ouvidas, afinal, era cedo e a maioria deveria ainda estar dormindo, mas Sofía sabia que andava muito mais alto do que o habitual. E o motivo deveria vir de uma equação distinta: paixão, atração insana, conexões diversas, multiplicadas pelo tempo de tesão acumulado, elevado pelo tanto de apego que estavam sentindo uma pela outra...


Viajaram juntas, Sofía estimulando Angra, tocando diretamente seu ponto de prazer e Angra... Aff, como ela conseguia? Ela estimulava Sofía de uma maneira muito particular, com Sofía sobre o corpo dela, de frente para ela e ela lhe penetrava passando a mão por trás de sua coxa, lhe achando naquela posição, cruzando seus quadris e lhe pegando assim, num alcance que apenas aqueles braços longos podiam chegar...


E foram juntas assim, se tocando, se sentindo, se estimulando, um corpo queimando no outro, os dedos tateando, encontrando, penetrando, a umidade, as pulsações, vindo devagar, vindo lentamente, aumentando um pouco de cada vez até que...


Sofía...! — Ela gemeu na mordida final daquele orgasmo, segurando Sofía contra o seu corpo, arfando, perdendo o ar, sentindo sua pele inteira fagulhando demais. Tinham gozado juntinhas, sabia, simplesmente sabia.


Sofía a beijou, querendo comê-la naquele beijo, pegando boca, língua, a apertando muito, querendo fundir no corpo dela do tanto que seu tesão exigia existir por Angra.


— Gostoso pra caramba, como pode? — Perguntou Sofía, pondo a boca por ela outra vez, porque precisava, não tinha controle da vontade pelo seu corpo.

— Você é a coisa mais gostosa, esses seus dedos e essa boca linda... — Angra a beijou novamente, a deitando para trás e deitando-se sobre Sofía, mordendo aquela boca gostosa que não conseguia parar de beijar, fazendo pressão contra o corpo dela e imediatamente sentindo que... — Linda, eu acho que... Eu estou em compulsão... — Disse, ouvindo aquela sua menina rindo demais.

— Ah, compulsão? Eu entendo... — Agarrou o bumbum de Angra, mordiscando o pescoço dela, a sentindo estremecer fisicamente em vontade outra vez...

— Sofía...


Outro beijo, outra mordida no tesão uma da outra.


— Acalma, amor, aqui, assim — Tocou o rosto dela com carinho, respirando mais fundo, muito pertinho dela — Angra, eu quero confessar uma coisa... — Pediu, enquanto ela espalhava a boca pelo seu pescoço, pelo seu colo, seus seios, sim, ela adorava.

— Confessa, amor... — Seguia a mordiscando, a pondo na boca, a sentindo em sua língua, coração ainda disparado, correndo o corpo inteiro.

— Eu nunca... Nunca fiz amor de manhã assim, com ninguém.


E então, Angra parou um instante e, aqueles olhos bonitos olharam diferente para Sofía. Nem era com curiosidade, era mais com... Satisfação.


— Eu também não, nunca fiz antes, com ninguém.

— Você... — Sorriso — Sério?

Uhum — Ela lhe beijou a entrada dos seios e lhe olhou nos olhos em seguida — Você sabe que eu tenho algumas implicâncias, eu nunca fiz amor com ninguém depois de acordar, nunca beijei ninguém antes de escovar os dentes, mas você, minha linda... Você é tão cheirosa o tempo inteiro, é tão gostosinha, sua pele é uma delícia, seu cheiro, o nível de higiene que você mantém em cada coisa, que se cuida. Eu fico aqui te olhando depois do banho, com os seus cremes, os perfumes, o jeito que cuida das suas roupas, do cabelo, de cada coisa. E tem mais do que isso, tem o tesão mesmo, este que não para, não ameniza e o apego que... — Cheirou Sofía outra vez — É só uma delícia, linda. Eu não consigo pensar em outra coisa que não seja aproveitar cada segundo que você está grudadinha em mim assim...


E foi assim que fizeram amor uma segunda vez, antes mesmo do café da manhã.


Foram para o banho juntas e o box apertado não incomodava de jeito nenhum, não precisavam de espaço, não se davam espaço, ainda não pareciam capazes disso. Se aprontaram para o café e o jeito que Sofía se arrumava era uma coisa que Angra não cansava de apreciar mesmo. O cuidado com a lingerie, em sempre vestir algo bonito, o creme pelo corpo e em especial, pela entrada das coxas, pelo alto dos seios, na nuca, todos os lugares por onde o nariz de Angra passava com recorrência, era uma coisa linda aquela sua menina, e já estava doendo pensar que teria que levá-la para um aeroporto em breve. Já era domingo, Sofía precisava ir embora na terça-feira e só de pensar nisso... Doía. Doía sim. Precisava falar sobre isso com ela.


Não sobre a dor, mas sim, sobre como resolver. Angra queria Sofía, ponto. Elas precisavam se darem uma chance, outro pronto. O pensamento de que precisava se separar não saía da sua cabeça nem por um segundo, só não sabia como Sofía reagiria a esta ideia. Sabia do pouco tempo, do seu casamento recente e do casamento já longo de Sofía, porém, o que estava sentindo, não lhe permitia contemplar outra ideia. Podia parecer temerário, sabia que sua Gonzalez gostava das coisas bem planejadas, porém...


Apertou os lábios olhando para ela. Linda, de vestido étnico curtinho, uma bata manga longa amarronzada, bonita demais.


— Linda, as suas morning pages...?


Ela abriu um sorriso pegando a bolsa de couro crossbody de quem não se separava. Lá dentro estavam as páginas avulsas de papel reciclado, junto ao seu Moleskine, sua câmera fotográfica, seu livro em leitura atual e seu Ipad inseparável. As morning pages eram páginas e páginas escritas com uma letra ansiosa, viva, cheia de sentimentos. A grafia de Sofía mudava de acordo com o que estava sentindo, era algo que Angra já conhecia.


— Aqui, as provas do quanto você me perturbou esses meses também. Eu só não queria...

— Ceder a nós duas — Angra pegou as páginas — Vai ler comigo ou...?

— Não, não funciona assim este exercício. Vem para o café, linda, eu te explico lá...


Foram para o café, se serviram muito bem porque andavam esfomeadas demais. Tinham combinado de não perder o almoço no dia anterior, mas perderam e quando as sopas chegaram à noite, Angra já estava tremendo inteira. Era fome, Sofía sabia, uma mulher de 1,74 precisa comer bem e gastando a energia que estavam gastando... Nem precisava justificar mais. Foram sentar-se no sol outra vez, curtindo o calor e naquele clima gostoso, Sofía lhe explicou melhor como funcionava as tais morning pages.


— Quem escreve, não pode ler novamente.

— Como assim?

— É um exercício de... Despressurização. Sabe quando você acorda com a cabeça cheia de coisas e o dia já parece pesado na primeira hora? Então, este é um exercício de liberação, três páginas de papel em escrita livre, sem pensar em muita coisa, apenas... Deixando vir. Tem dias que parece não ter nada, eu começo escrevendo isso mesmo, “não tenho nada a escrever aqui hoje” e de repente, as coisas simplesmente começam a brotar. É um exercício poderoso, Angra, que busca dentro da gente coisas que estão escondidas, por isso não é legal reler, porque a releitura faz a gente julgar e julgamentos não são a melhor maneira de lidar com os próprios sentimentos. Eu sempre fiz este exercício em dias mais complexos, mas então que, você começou a aparecer nestas páginas todos os dias. E eu não li para não julgar, porque se eu julgasse...

— Não teríamos uma chance — Angra completou, tocando a mão de Sofía sobre a mesa — Linda, se a gente for racionalizar ou julgar...

— A gente não faz nada. Só lamenta. Não estar na relação com a pessoa pela qual estamos apaixonadas — E o sorriso de Angra lhe contava o quanto ela adorava ouvir Sofía dizendo aquele adjetivo. Estavam apaixonadas, não tinha como negar mais. Fez um carinho na mão dela, sabendo da mudança desconfortável, mas necessária, de assunto que faria — Me fala da sua relação.


Angra tomou um gole mais longo do seu café. Era desconfortável mesmo.


— Ah, Sofía, é uma relação tranquila. Eu gosto do Guilherme, nós nos entendemos bem, era um relacionamento tranquilo e sem grandes emoções até a gente se casar. Agora sim, andamos tendo desentendimentos, ele é muito diferente de mim, não cuida de coisas que eu aprecio, mas de modo geral, ele pouco está em casa, então...

— Eu falo com você às 10 da noite no Brasil e você está sozinha. Frederíca está trabalhando neste horário, são 8 da noite em Cartagena, ela gosta de trabalhar até mais tarde, e então...

Quer a esposa — Angra sabia desta parte muito bem — Quer cozinhar com você, comer junto, ver série. Eu não tenho isso, Sofía. O Guilherme sai do trabalho às 6, mas nunca vem direto pra casa. Ele sempre tem algo para fazer, amigos para ver, futebol, um jogo para assistir na hamburgueria do Felipe. Não estava assim no começo, mas então, começamos a brigar muito e ele começou a não voltar pra casa no horário mais.

— E você? Como se sente com isso?

— Eu... Eu só... Fico bem. Eu sei que é terrível dizer isso, eu adoro o Guilherme, mas as brigas estavam me desgastando demais. Eu prefiro ter tempo, Sofía. Pra fazer minhas coisas, pra ficar com você com mais tranquilidade. Não está certo, eu sei.

— Não está. Angra... — Sofía suspirou longamente, cortando as frutas em seu prato — A Frederíca é uma das minhas melhores amigas. A gente realmente se diverte muito juntas, a gente sai bastante, viaja muito, em linhas gerais, nos entendemos muito bem, apesar das grandes diferenças. Ela não entende tudo o que eu assisto, nem se interessa por tudo o que eu leio, ou pelo o que faço. Essa tranquilidade que você sente quando o Guilherme não chega, ela sente quando eu saio para fazer alguma viagem sozinha. Daí ela pode ouvir música alta, pode chamar quem ela quiser pra casa, pode ir aos lugares que eu não curto ir. Você notou quantas vezes ela me ligou nestes dias aqui?

— Eu... Não vi nenhuma vez.

— Ela não ligou mesmo. Vi que Guilherme te liga todos os dias, mas ela... Ela está solta no Rio. Está livre, está feliz. Sei que ela vai voltar pra casa feliz para me ver, louca para fazer o jantar comigo, pra gente achar uma série nova para assistir ou um filme qualquer para curtir. Ela gosta disso. Gosta da minha companhia, da minha conversa. Mas ao mesmo tempo... Tem um lado dela que eu não atendo, entende? Um pedaço da vida dela que não cabe na minha e vice e versa.

— Entendo sim.

— Você já leu Comer, rezar, amar?


Outro sorriso, tinham tanto em comum, não parecia esgotar nunca.


— É um dos meus livros preferidos.

— É um dos meus preferidos também — Sorriso de Sofía — Sabe quando a autora fala a respeito da sociedade patriarcal? Que antigamente, eram os pais que escolhiam o casamento das filhas e tal?

— E para autorizarem um casamento, faziam diversas perguntas aos pretendentes, do tipo: quanto você ganha, que dívidas possuí, que tipo de ambições você tem. E hoje, não fazemos nenhuma dessas perguntas antes de casar, a gente só... Casa. Acha que ter um sentimento bom é suficiente.

— Exatamente. O livro fala que não é a respeito de querer essa época de volta, mas sim, de nós mulheres nos tornamos nossos próprios pais, nossos próprios maridos, de aprendermos a fazer essas perguntas básicas antes de tomar grandes decisões. Eu não perguntei para a Frederíca o que ela pretendia. Não perguntei que metas ela tinha para os próximos anos, sequer perguntei se ela realmente sonhava em ter um filho. Eu descobri tudo isso depois.

— O que mais te incomoda?

— Acho que o fato dela não querer um lugar, sabe? Não querer uma casa própria, um apartamento próprio, ela não pensa nessas coisas. Ela planeja a próxima viagem, planeja onde vai querer estar em três meses, que carro vai manter alugado no mês seguinte. Mas não temos nada... Realmente nosso. O apartamento é alugado, o carro também, eu nasci em Santa Teresa porque foi onde os meus pais conseguiram comprar uma casa. Era pequena, mas era nossa, meu pai e minha mãe trabalharam muito para isso e só permitiram que eu viesse ao mundo, quando a casa própria fosse real.

— Você mantém essa casa.

— E sempre vou manter. Enquanto eu não souber exatamente como... Honrar essa herança. Hoje eu alugo, mas é só até eu saber o que fazer com o dinheiro da venda, daí eu vendo. Era o que a minha mãe queria, mas queria que eu tivesse certeza antes sobre... O que fazer. Eu não vou honrar viajando, vou honrar dando a entrada no meu próprio apartamento, que eu ainda não faço ideia de onde será, ideia de... — Olhou Angra nos olhos — Com quem será.

— Ainda preciso te convencer direito, não é?

— Temos muitas coisas a arrumar por aqui antes de vender a casinha azul lá em Santa Teresa, Angra Fernandes.


E Angra aproximou seu olhar do dela, se debruçando sobre a mesa.


— Te falar uma coisa, colombiana, na verdade, duas: coisa um, aquela casinha está num lugar privilegiado, com uma vista muito privilegiada, se a gente transformar aquela casa num loft escandinavo... Você dobra o valor do aluguel. Coisa dois: a gente vai resolver o que precisa e você vai se casar comigo...

— Angra...

— Você conheceu a esposa certa naquele dia em Abrolhos e eu conheci a minha. Eu vou convencer você — Ela lhe disse, lhe olhando nos olhos e pegando sua mão sobre a mesa. E então, Angra relaxou, abrindo aquele sorriso lindo que ela tinha e que ficava ainda mais lindo ao sol — Você não consegue não sorrir pra essa ideia...


Sofía estava sorrindo mesmo.


— Não, não consigo mesmo.

— Mas não pensa nisso agora, linda, eu sei que temos muito trabalho e por agora... — Agarrou as mãos dela novamente — Eu só quero curtir você. Você me disse que quer sair um pouco.

— Angra, nós estamos trancadas naquele quarto há 72 horas, eu preciso ao menos ir a uma farmácia...


Angra beijou a mão dela rindo demais, sabia que precisava.


— Vamos terminar nosso café e dar uma volta, meu amor. Quero te mostrar alguns lugares onde li seus bilhetes e te levar para almoçar fora.


E foram direto do café mesmo, porque Sofía não confiava que podiam entrar naquele quarto e saírem novamente, não parecia algo que era possível. Deixou Angra subir sozinha para buscar as chaves do carro e quando ela estava lá em cima, Sofía lembrou que precisava de sua bolsa, ligou para ela e ela lhe atendeu assim:


— Oi, meu amor... — Desta forma, com uma saudade na voz que não correspondia aos cinco minutos que estavam separadas.

— Pega a minha bolsa? E, desce logo... — Porque não correspondia aos 5 minutos de separação, mas Sofía já a queria de volta.


Como seria separar dela? Não queria pensar nisso, mas já estava lhe doendo...


Ela desceu logo, com as chaves do Novo Fusca e com a bolsa de Sofía, vindo buscá-la pela mão, já esquecidas de que deveriam manter a distância. Lá estava o Novo Fusca, que não tinha se movido da vaga desde a sua chegada. Entraram nele e antes de abrir o teto solar, se beijaram, longamente, se agarrando um pouquinho, se cheirando, se sentindo, era tão bom. Tinha explicação? Aquela sensação era tão nova para Sofía...


Linda, as pessoas passam por isso geralmente na adolescência, a gente não passou, é normal... — Angra lhe disse enquanto dirigia de capota aberta pelas ruazinhas de Alto Paraíso. Os cabelos soltos, os óculos escuros, o sorriso lindo aberto ao sol.

— Somos duas adolescentes num carrão assim, Angra...

— Num carrinho, vai, eu adoro meu fusca, mas quero um carrão, lembra? E quando eu penso nisso, já me dá uma coisa.

— Por quê?

— Guilherme não me perdoa até hoje pela compra deste carro aqui. Nós conseguimos pagar o apartamento em um ano, eu separei um valor para cuidar do interior e comprei este carro aqui, consegui dar uma entrada significativa e dividi em 18 parcelas, usando um dos contratos lá da empresa. Ele comprou um carro popular, ficou irritado por eu ter comprado um carro mais refinado.

— Vocês ganham equivalente?

— Eu já estou ganhando um pouco mais do que ele e sei que isso incomoda, inclusive... — Deu uma olhadinha para Sofía — Ele não sabe exatamente quanto eu estou ganhando e não é por nada, é porque ele não quer saber. Chato, não é?

— Eu não gosto de desconfortos causados por questões financeiras, mas sei melhor do que ninguém que eles acontecem. Frederíca detesta pagar contas e eu também não sei exatamente quanto ela ganha por mês. Nós temos uma conta conjunta, em que ela deposita um valor todos os meses para as contas da casa, mas sei que não é o que ela ganha, ou não conseguiríamos viajar do jeito que viajamos. Ela deposita os valores, eu deposito a minha parte e pago as contas domésticas, é assim.


— Mas você já quis saber quanto ela ganha exatamente?

— Já, mas ela acha que se me disser, quanto ganha e quanto gasta, eu não vou mais querer viajar...

— E o que você acha disso?


Sorriso de Sofía.


— Talvez seja verdade, mas só porque não consigo contribuir de igual maneira, sabe? O ser humano é complicado, viu...


Era complicado, sabiam bem.


Seguiram dirigindo porque, Angra queria mostrar um lugar incrível onde havia meditado da outra vez! Ela vivia falando deste lugar, do quanto era diferente, da energia, porém, enquanto Sofía dizia que podiam usar o GPS, Angra insistia que podia encontrar o lugar sozinha.


— Angra...

— Eu sei, meu amor, eu vou achar, não se preocupa... — Ela respondia sorrindo, virando o volante daquele carro com uma enorme facilidade, sorrindo, curtindo o que estava fazendo. Ela parecia com Kalinka nisso, na paixão por dirigir, e não era a única coisa que tinham em comum. Sofía via muito de Kalinka em Angra, e as duas ficavam sexy demais dirigindo, um pensamento aleatório — Ali! Não disse pra você? Ali é A Gota e bem ali tem uma farmácia, bem como eu lembrava...


Ela era muito cheia de si e com motivos. E nisso, ela lhe lembrava Frederíca, de uma maneira boa. Adorava que Frederíca fosse assim, adorava o mesmo em Angra, era sedutor, gostoso demais.


Ela parou em frente A Gota, que realmente era uma gota, uma arquitetura única, diferente, ficava numa área que inspirava paz, cercada de verde e de uma energia...


— Angra, a energia desse lugar...

— Eu sei, eu senti tudo quando vim aqui a primeira vez. Eu parava o carro e lia em qualquer lugar, Sofía, lia qualquer parte do livro e me sentia em paz, sentia que... Estava achando um caminho. Fiz trilhas longas sozinha, sozinha mesmo, sem nenhum ruído por perto, seis, sete horas em silêncio para ver se... Me ouvia. O que estava por dentro e eu calava.

— Funcionou?


Angra olhou bem para ela. Estavam recostadas no carro, lado a lado.


— Ainda era o mesmo pedido, eu queria uma namorada. Sofía, você não vai embora antes de a gente falar disso...


Sofía abriu um sorriso.


— Acha que eu passei 72 horas trancada num quarto com você para ir embora sem nenhum compromisso seu? Isso não vai acontecer, não, Angra Fernandes...

— Eu quero namorar você.


E lá vinha Angra com um compromisso impossível, Sofía nem se surpreendia.


— Angra, a gente não pode.

— Por que não? Eu quero me separar...

— É mais complexo do que você pensa, não vai ser simples assim, temos que ir devagar...


Angra lhe olhou nos olhos.


— Vai aceitar namorar comigo...

— Angra...


E ela lhe beijou, de surpresa, romanticamente, pegando Sofía pela cintura, a roubando um beijo e um sorriso junto. Angra era louca mesmo, estava decretado, Sofía nem sabia.


— Vai namorar comigo. Você não entra naquele avião sem um compromisso.

— Namoro clandestino?

— O nome que você quiser dar. Mas eu quero uma namorada tem mais de quinze anos, Sofía... — Disse, fazendo Sofía rir, ainda agarrada no pescoço dela e foi quando de repente, Angra ficou tonta.


Tão tonta que Sofía teve que segurá-la. A segurou firme, a prendendo em seus braços.


— Ei, meu amor, ei... Olha aqui pra mim, o que foi?

— Eu não sei, eu só... Acho que fiquei zonza.

— Vem aqui — Sofía a levou de volta, abrindo a porta do carro e a colocando sentada. Abaixou-se à frente dela, segurando suas mãos que estavam geladas — Quer uma água? Você deve estar com fome outra vez, a gente não tem se dado tempo para isso... — Disse, fazendo Angra rir no meio da sua tontura.

— Eu não tenho direito a banho, a almoços, a dormir, a nada disso...


Sofía a beijou novamente, rapidinho, sorrindo, protegidas pelo carro.


— Você precisa de coisas demais, Angra Fernandes. Fica aqui, vou comprar o que eu preciso na farmácia e trago água e um chocolate para você. Vamos almoçar em seguida, está bem?


Estava bem. Sério que tinha uma namorada que lhe cuidava assim? Era sério, Sofía voltou em seguida com a sua água, um chocolate para enganar a fome e ela lhe perguntando se Angra estava melhor, se podia dirigir. Podia sim, é claro que podia. Até mesmo porque queria levar Sofía para um restaurante especial.


— Jantei com você aqui, sabia? Eu e meu livro... — Contou, fazendo Sofía rir demais enquanto Angra pedia uma mesa para elas duas. O restaurante era uma graça, rústico e servia uma das coisas que Angra mais amava na vida: risoto.


Foram conduzidas para uma mesa enquanto Sofía se preocupava um pouquinho. O mal súbito havia passado, mas não era a única coisa a se preocuparem.


— Angra, e se você cruzar com alguém conhecido?

Linda, a possibilidade de isso acontecer é minúscula...

— É capaz de você me apresentar me chamando de linda...


Angra riu, porque era muito capaz mesmo. Escolheram os pratos e a conversa só vinha, estava gostoso, o dia cálido apesar da chuvinha fina, pediram um vinho, uma bela entrada e Sofía não sabia bem como poderiam ser vistas por alguém sem aparentar o que se passava entre elas. Jamais passariam por duas amigas, era impossível, estava no jeito que Angra lhe olhava, que lhe cuidava, na postura que não deixava dúvidas, era dela, da natureza dela. Instinto é uma inteligência de grau primitivo e não fazia ideia de como aquela mulher ali na sua frente, de camisa de botões azul escuro, aberta até o colo, óculos escuros e aquele sorriso lindo, tinha passado ilesa, sem ter uma garota que fosse nem para flertar. E então que, Sofía realmente estava certa. Quando estavam terminando seus pratos de risoto com linguiça da roça, foram interrompidas por alguém que as reconheceu.


Bem, reconheceu Sofía.


— Você é Sofía Gonzalez, não é? A blogueira? Desculpa a interrupção do almoço de vocês, mas é que eu estou achando uma imensa coincidência achar você aqui do nada!


Ele se apresentou melhor, trabalhava na secretaria de turismo do Estado de Goiás e de alguma maneira, acompanhava o blog de Sofía. Perguntou se poderia falar com ela rapidinho depois do almoço e ela disse que sim, sem problemas, podiam conversar, ele deixou claro que não era um stalker, nem nada disso, mas tinha uma proposta na qual estava trabalhando e que encontrar Sofía do nada, podia vir a calhar.


Ele de fato, foi rápido e sucinto, explicou o projeto no qual estava trabalhando e que alguém como ela, seria ideal para uma das linhas daquele projeto. Trocaram contatos, ele disse que ligaria em breve e quando elas ficaram sozinhas na mesa novamente...


— Você já pensou? Se ele te contrata mesmo?

— Angra, isso será... Muito específico — Sofía estava achando demais o que havia acabado de acontecer! — Kalinka me falou sobre isso, sobre o tanto de coisas específicas que acontecem entre nós duas.

— Chama “destino”, você gostando da ideia ou não, isso chama destino. Ele vai te contratar, Sofía...

— Ou só queria meu telefone.

— Coisa que eu também não vou culpá-lo. Uma mulher linda como você não cruza a vida da gente todo dia.


Ela era charmosa demais. Sofía nem sabia.


— Me leva pro nosso hotel?

— Agora, meu amor.


Voltaram para o hotel, com Angra fazendo seu fusca rosnar por um pedaço de estrada e outro, estavam a uns 45 minutos do hotel e fizeram em bem menos, conversando, ouvindo música, namorando assim que o carro parou...


Elas não pararam mais. Passaram correndo pela recepção, beijos no elevador foram inevitáveis e quando abriram a porta do quarto, Angra já estava tirando Sofía do chão e a levando sedutoramente para a cama...


Não tinha nada melhor do que fazer amor assim, nada, nem uma coisa. Quando pararam, já estava anoitecendo e a banheira com vinho e hors d'oeuvres pareceu a coisa mais convidativa da vida. Entraram juntas, agarradas, o colo de Angra era algo que Sofía não queria abandonar, não queria soltar, como podia? Aquele apego, aquela vontade de ficar junto que simplesmente não passava. Saíram da banheira já noite alta e Angra disse que deveriam ir para a rede lá fora, tinha pedido algo especial para o jantar.


— Mas como que você conseguiu? — Sofía perguntou já deitada no peito dela, agarradas demais na rede que ficava na varanda. Estava vestida em roupas de Angra, confortáveis, quentinhas e com o cheiro dela. Como adorava o cheiro dela, como adorava.

— Ah, linda, eu consegui. Quando subi, falei com a moça que estava arrumando o quarto e ela me disse onde encontrar. Você adora fondue.

— Adoro — Virou-se no peito dela, para olhá-la nos olhos — E adoro... Você. Angra, tem uma coisa acontecendo...


Angra a beijou, lhe apertando muito nos braços, a enroscando em suas pernas, naquele ponto de querer fundir uma na outra que já era muito delas. Angra lhe apertava entre as coxas e apertava seu coração, e apertavam-se os dedos de Sofía pelo suéter dela, agarrando o tecido, sentindo o beijo quente, mais do que gostoso. Tudo ficou quente, ficou denso, apegado, elas se pegaram, se tocando, impregnando uma na outra, a pele reagindo, o corpo vibrando e Angra a segurando contra si, lhe beijando o pescoço, lhe sussurrando num apego só:


— Tem uma coisa acontecendo comigo e não foge de mim, linda, não foge, mas é que eu acho que já sinto amor por você...


A frase submergiu na mente de Sofía, no friozinho, na noite estrelada, no vinho, nos seus sentimentos, com Angra tão apegada em si, lhe abraçando tão forte que podiam sentir o coração uma da outra e o de Sofía estava mais do que disparado contra o dela... Se debatendo contra o dela, contra o coração, a razão, contra o sentimento que lhe arrepiava inteira, que lhe estremecia, lhe deixava completamente zonza. Era o que queria confessar. Era essa coisa que não sabia descrever.


— Eu acho que já sinto amor por você… — Sofía repetiu, sabendo que o "acho" já era desnecessário.


“Já é amor. Deve ter sido desde o momento que abri a porta e a gente se encontrou. Amor instantâneo, direto, sem curvas, amor em substantivo apenas porque o verbo vem mais pesado. Amour, amour, amour, três vezes em francês queimando no meu pulso, ich lieben dich em ótimo alemão, meine liebe, o meu amor, que eu quis uma vida inteira e agora está aqui, me abraçando na alma, jurando amor na minha mente, num quarto-romance tão nosso, meia-luz, ouvindo a nossa playlist, com taças de vinho pela metade e um sentimento por inteiro, ainda que por frasi à meta, em bom italiano, ainda assim, inteiro...”.


O jantar chegou, fondue que improvisaram na varanda, regado a mais vinho, a mais conversas infinitas, a mais apego. Tinham aquela noite e a próxima apenas e talvez por isso, tivessem relutado tanto a dormir. Não queriam que acabasse, não queriam separar, e não queria falar daquilo, não podia atrapalhar. Mas por outro lado, tudo estava tão forte que até um “ich lieben dich” informal, durante uma conversa sobre idiomas, a frase em alemão que todo mundo aprende, escapou dos lábios das duas e pareceu pesar uma vida. Adormeceram tarde, agarradas demais, acordaram cedo também, fazendo amor, com Angra tão apegada, tão densa, querendo tanto, mas tantas coisas...


— Sofía...

Linda, é uma condição física...

— Mas é que eu vim aqui para isso... — Ela lhe disse, toda agarrada, suadas demais, grudadas uma na outra, fazendo Sofía gargalhar. Angra não existia não.

— E você acha que eu não quero? Eu te vi naquela fila de check-in e quando cheguei no meu quarto, já estava me tocando imaginando você, coisa linda, fazendo um oral...


Angra a agarrou e a beijou mais, toda enroscada, toda apegada, sorrindo sem conseguir parar.


— Calma, está bem? Tem que ter calma, Angra...

— Você disse que ia parar logo com o remédio.

— Mas não agiu como eu estava esperando.

— Promete que eu vou te ver de novo.


Sofía olhou naqueles olhos bonitos. A luz do sol entrando pela janela, deixando a cor mais clarinha, aquelas sobrancelhas delicadas, que ela não tinha escurecido mais porque Sofía gostava assim. Sem maquiagem, sem nada, apenas a sua Angra.


— É claro que vai. Eu preciso ver você de novo.

— E a gente vai fazer amor...?

— Do jeito que você quiser.


Aquele dia passou diferente e ainda assim, parecido com os outros. O café estava mais tranquilo de pessoas e mais uma vez, perderam a hora ali conversando sobre diversos assuntos. Angra também era um tipo de morning pages, ia tirando coisas de Sofía naquelas conversas pela manhã, que ela sequer sabia que estavam em algum lugar, como a vontade de escrever um livro, que tinha desde pequena. Não sabia bem por que não tinha levado em frente, mas achava que tinha a ver com não querer concorrer com Frederíca de alguma forma. Falaram disso, falaram das viagens que já haviam feito e novamente, foram informadas que o café seria encerrado em breve e quando subiram aquela manhã, Angra quis mostrar os contratos em andamentos na filial europeia de sua startup.


— São empresas querendo atuar no Brasil, mas como você já deve saber, nossas leis são confusas, o que causa uma insegurança em investidores internacionais. Estamos atuando nessa oportunidade, eu voltei a estudar inglês, para escrever neste nível aí no qual você escreve com tanta facilidade. E são apenas 3 meses, Sofía, e a resposta já foi essa aqui...


Ela trabalhava muito, trabalhava duro e não tinha medo. Sofía gostava, se encantava, sempre e pouquinho mais. Angra teve que trabalhar aquela manhã, alguns e-mails, alguns contratos a analisar e fez tudo isso com Sofía em seu colo, não a queria longe, nem um pouquinho que fosse. Não saíram do quarto o dia inteiro. Ficaram por lá mesmo, pela cama, pela banheira, namorando na rede, voltando para a cama, Angra providenciou outro jantar romântico e Sofía ainda não fazia ideia de como seria... Ir embora.


Tanto não fazia que terminou chorando, após o amor que fizeram depois do jantar.


Angra a consolou, a colocou no colo, Sofía era muito dura em demonstrar alguns sentimentos, já sabia, então, quando ela se derretia assim...


A levou para a banheira no colo. Meia-noite e estavam agarradas no banho, olhando as estrelas, sentindo aquele silêncio cortante e inebriante do cerrado. Levaram ainda mais tempo para dormir, estavam ainda mais relutantes e quando o último dia amanheceu, decidiram pedir café na cama. Tomaram café na varanda de madeira, tendo as montanhas como vista, ainda enroladas em mantas e em roupas uma da outra, tinham misturado tudo e era melhor assim.


Foi difícil fazer as malas, difícil sair daquele quarto, pegaram a estrada pouco antes do meio-dia e deixaram para almoçar em algum restaurante no caminho, e aquelas 3 horas e pouco até o aeroporto, foram uma verdadeira delícia também.


Estava sol, foram ouvindo músicas que já eram delas, cantando ao vento, rindo demais, namorando uma hora e outra, agarradas o tempo inteiro. Uma mão na outra, não se soltavam.


— Deveríamos tatuar as nossas palavras da próxima vez... As suas são “talento e guerra” — Angra lhe disse enquanto dirigia, fazendo aquele fusca voar pela estrada.

— “Beleza e obstinação”, são as suas, temos que tatuar...


Começaram a ir mais devagar quanto mais se aproximavam. Mas a procrastinação as levou até o aeroporto de qualquer maneira e foi muito difícil Sofía descer daquele carro. Se beijaram mais, tiraram mais algumas fotos juntas, Sofía levava muitas em sua galeria, Angra também. Angra desceu, a ajudou com sua mala de mão e o abraço foi mais do que longo, tão apertado que jurou determinado momento, que Sofía iria lhe beijar.


E o que faria se beijasse? Ela lhe perguntou sorrindo.


— Ah, eu não sei, linda, estamos na minha cidade, mas você está me pedindo um beijo...


Sofía lhe agarrou e lhe beijou no rosto novamente.


— Você é louca.

— Me dá meu compromisso.


Ela lhe olhou nos olhos.


Namorada. Ainda que clandestina. Namorada — Ela lhe disse, enquanto soltava sua mão e, caminhou para dentro do aeroporto.


Angra a observou caminhando, já de dentro do carro foi a seguindo com os olhos, uma coisa ardia em seu corpo, outra doía em seu coração e quando Sofía olhou para trás lhe procurando, Angra lagrimou, sabendo que ela estava sofrendo também.


Não fazia ideia de como aquilo seria. Mas tinha certeza de que seriam. Elas duas. Seriam algo sim.

Angra dirigiu pra casa. Mas pouco antes de chegar, teve que parar.


Parou o carro, abriu a porta, e vomitou o que não tinha no estômago antes de sequer se dar conta do que estava se passando.


📚


Não foi nada tranquilo para Sofía. Achou que tinha chorado do passar da entrada até o portão de embarque, estava com o coração cheio, o corpo ainda vibrando, mas conseguiu se acalmar na fila. Apesar das lágrimas seguirem querendo surgir. Sentia como se estivesse indo embora sem uma parte sua. Mas precisava se recompor e foi isso que fez. Se acalmou e mentalizando cada uma das lembranças daqueles dias, começou a respirar melhor, a frear as lágrimas e quando embarcou, já estava muito mais tranquila.


Trocou uma mensagem com Angra, ela já estava em casa, Guilherme só chegaria no dia seguinte, havia tido algum problema, não entendeu bem. Ela contou que tinha passado mal no caminho, que enjoou de repente e um anúncio de cabine interrompeu seus pensamentos.


— Por favor, senhora Sofía Angie Gonzalez, se estiver abordo, favor se identificar pela chamada de comissário.


Se identificou, era uma conferência simples, colocou o celular em modo avião e sequer notou a decolagem. Estava cansada demais, haviam dormido pouco e o sono apenas veio. E estava tão sonolenta que talvez por isso, tenha demorado a entender que não estava sonhando.


— Sofía, o que você está fazendo neste voo? — De repente, Frederíca estava abaixada ao seu lado sorrindo. Simplesmente... Estava ali, Frederíca, ela...? Como era possível?

— Eu... — Sofía apertou os olhos, tentando se recompor, ela estava mesmo ali, não era um sonho — O que você está fazendo aqui?

— Espera um pouquinho.


Esperou um pouquinho e Frederíca negociou simpaticamente a poltrona ao seu lado, trocou de lugar com a moça e Sofía ainda estava se recompondo mentalmente. Não checou nada, se tinha alguma marca aparecendo, seu celular estava cheio de fotos comprometedoras de sua lua de mel com Angra e sua mente uma bagunça total. Frederíca. Ela estava ali.


— Sofía? — Ela sentou-se ao seu lado e abriu um sorriso, porque Sofía realmente deveria estar engraçada em seu susto e sua bagunça.

— Eu vim para uma oportunidade de emprego. Tem uma secretaria de turismo querendo me contratar para uma série de postagens do interior de Goiás. Você... Só ia voltar semana que vem.

— Eu sei, mas... — Ela respirou fundo, meio esquisita — Sofía, aconteceu um negócio no Rio...

— Que negócio?

— Eu acho que tive... Um ataque de ansiedade. Ou de pânico. Eu não sei. Aconteceu uma coisa enquanto eu dormia...

— Você anda dormindo mal.

— Eu ando. Mas agora ando... Perdendo o sentido. Eu sei que estou acordada, mas meu cérebro não parece... Estar gravando as coisas, entendendo, pensando. Daí aconteceu isso uma terceira vez e eu tive uma crise nervosa, e... — Aqueles olhos marejaram e os dedos dela estavam se movendo de uma maneira esquisita, irregular. Sofía pegou a mão dela — Não teve nada melhor do que ter ouvido o seu nome sendo chamado, eu não te vi na fila...


Ela estava muito nervosa e Sofía não fazia ideia. A abraçou, a acalmou, quis entender melhor o que estava acontecendo.


— Eu só quero ir pra nossa casa. Quero fazer jantar, ver um filme, e... Ver se consigo escrever. Eu estou preocupada de... — Os dedos apertaram a mão de Sofía de maneira quase involuntária — Estar com algum problema. Na cabeça.


Então era este o medo todo.


— É claro que não, Fer, de jeito nenhum. Você só está exausta. Falamos disso, era pra gente ter terminado a viagem e ter tirado férias de verdade, ficado em casa, descansando. Você tem que descansar antes de começar uma nova jornada.

— É que eu não estou conseguindo... Criar. Isso nunca me aconteceu, Sofía...

— Você está uma bolha de estresse, está bem? Vamos chegar e ver tudo isso, vamos ao médico, tirar uns dias em casa, está tudo bem.

— Você está aqui. Está tudo bem sim...


Sofía apertou os lábios, sentindo uma faca de culpa enterrando em seu coração.


Nos dias seguintes, entendeu o que estava se passando com Frederíca. O quadro de depressão foi o tipo de surpresa que Sofía não pensou que teria.


Nos dias que se passaram, depois de dias de enjoo, Angra finalmente havia tido coragem de fazer o exame.


E aquele exame de farmácia, feito quase escondido dentro do banheiro de seu escritório, lhe contou um segredo que lhe gelou todos os ossos, que na verdade, só estava grávida.

Notas da Autora:


Olá, menin@s!


Meninas, em homenagem ao grupo tão querido no Whats’App e ao grupo criado, CSI Angra, estamos postando o capítulo um pouco antes do previsto. hahaha

Vocês estavam ansiosas para desvendarem a gravidez de Angra, pois bem, descobriram a data certa, e agora, qual o próximo passo?

Esperavam por este final? Frederíca depressiva e Angra grávida? Será que começamos a desvendar os segredos que envolvem esta relação?


Beijos e até a próxima sexta, mas claro, antes necessitamos de 50 comentários, hein?! ˆˆ


E pessoas, temos um grupo muito amorzinho no Whats’App, para quem quiser conversar sobre as histórias assinadas por Tessa Reis, quem tiver interesse, basta clicar aqui:


Grupo Whats'App: https://bityli.com/LetqE


Abraços!



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