Angra - Capítulo 9: Maui





“Olho ao meu redor no retorno para o quarto, penso até em esperar por ela fora, afinal, é inegável que estamos romanticamente envolvidas, mas primeiros encontros são complicados. A distância é algo simples de se romantizar, e além da distância, a mulher que eu espero é a minha Angra, uma coisinha linda e determinada que suportou 5 meses de tiros de hielo de mim, tiros de defesa, tiros de medo, de me deixar envolver tanto na minha posição por uma mulher na posição dela. Pode ser que a gente se olhe e sinta tudo diferente. Daí me lembro de quando baixei as defesas contra ela e a gente se envolveu mais, se disse mais algumas coisas antes secretas, se aproximou de verdade e ela me pediu uma chamada por vídeo mais íntima. Lembro de ter pensado: “ótimo, talvez a gente se olhe e veja que não tem muito a ver”. Terminei a chamada de vídeo mais do que apegada nela, numa dificuldade enorme de deixá-la ir, querendo ver mais, sentir mais. Ok, porém, Angra tem alguns históricos de fugas dos próprios sentimentos, então, ainda que eu olhe para ela e sinta tudo igual, ela pode me olhar e sentir diferente.


Daí que preciso cuidá-la. Respeitá-la com todo o apego e carinho com o qual ela me conquistou. Preocupada, protetora, a namorada perfeita, a mulher que eu tanto idealizei e que não deveria existir.


Bem, ainda tem uma chance de ela não existir...”.


Angra abraçou os joelhos contra o estômago, chorando muito no meio da cama, com as Morning Pages de Sofía espalhadas por onde quer que seus olhos alcançassem. Aquelas eram as páginas da manhã do primeiro encontro, duas apenas, que ela escreveu às pressas e que eram tão significativas como todas as outras que Angra não conseguia parar de ler. Era um domingo. Estavam separadas há 12 dias e tanto havia se passado, tantas coisas inesperadas que reviraram os planos feitos pelo avesso, que reviraram seus relacionamentos de ponta-cabeça e agora, sua relação com Sofía parecia simplesmente... Estar lhe escapando pelos dedos.


E isso a desesperava. A tirava de si, não estava conseguindo colocar suas ideias no lugar, não estava conseguindo parar para respirar, nada parava no seu estômago, era impossível dormir e ninguém lhe dava dez minutos de espaço que fosse!


Não aguentava as mensagens de felicitações, nem as diversas festas que se propuseram a fazer em seu apartamento porque Guilherme, aparentemente, só havia ouvido a primeira parte do que dissera, que era da gravidez, a segunda, onde dizia que o momento era péssimo e que achava que precisavam de um tempo, ele ignorou completamente.


Não só ignorou, como buscou os stakeholders do seu relacionamento para lhe apoiar.


E foi buscando um espaço que Angra estava trancada no quarto de hóspedes do seu apartamento desde a sexta à noite. Tirou o chip do seu celular e manteve somente o aplicativo onde conversava com Sofía, não queria mais lidar com ninguém, precisava lidar consigo mesma antes de qualquer coisa. Parou de ler as páginas, respirou fundo, precisava se acalmar, sabia que não podia ficar nervosa daquela forma, não em seu... Estado atual. A cada rara mensagem de Sofía que recebia, a cada chamada por áudio do dia, era o que ela lhe dizia. As mensagens andavam reduzidas, mas Sofía ligava todo dia para saber como Angra estava.


Ela lhe queria calma. Por si mesma, por elas duas.


Então se acalmou, respirou fundo, guardou as Morning Pages e escreveu para Sofía mais uma vez. Não estava suportando aquilo também. As mensagens enviadas que agora tinham voltado a levar horas para serem respondidas. Sabia que ela estava sofrendo, levaria muito tempo para conseguir esquecer o rosto dela quando contou o que tinha descoberto. A gravidez absolutamente inesperada. Primeiro, porque sabia de seus problemas de fertilidade, havia descoberto pouco antes de se casar e segundo, porque havia sido uma única vez. Uma vez em 2 meses inteiros, numa noite de desolação, em que não falava com Sofía há mais de uma semana enquanto ela estava na Ilha de Páscoa e, uma noite de insistência de Guilherme para que dormissem juntos. E lá pela uma da manhã, tinha só decidido ceder, deixar para lá e agora...


Mais lágrimas. Entrou no banho, tentando parar de chorar, tentando limpar sua cabeça, tomou um banho quente, lavou os cabelos, tentou colocar atenção em si mesma. Deu certo por alguns minutos. Ao menos, até sair do chuveiro e se olhar no espelho. Daí chorou tudo de novo, sem conseguir controlar e enquanto tentava ao menos colocar tudo para fora para ver se ajudava, ouviu a porta do quarto sendo destrancada.


E era Carolina.


— Angra?

— Eu não quero falar com ninguém! Como é que você...?

— Entrei aqui? — Fechou a porta — Mandei um chaveiro abrir a porta, você não tem direito de me trancar para fora!

— Carolina...

— Não, Angra, é você quem não pode fazer isso! O que é isso? Trancando o seu marido pra fora como se fosse um cara qualquer! É o pai do seu filho, esse que está aí na sua barriga, está bem?

— E o que ele fez para entrar aqui? Me explica.

— Homens são assim mesmo, eu já disse isso pra você, não deve esperar que...

— Ele dê um jeito de falar comigo por ele mesmo? Sério que eu não devo esperar?

— Você se tranca e quer que ele tente falar com você?!

— Você está aqui dentro — Passou desodorante e foi para o quarto, se trocando enquanto Carolina seguia falando.

— O que você quer, Angra? Me explica, porque está realmente complicado de entender! O que aconteceu nos cinco dias em que você sumiu do mapa? Em que ninguém soube onde você estava?

— Estava me encontrando, me descobrindo, sem toda essa interferência na minha vida aqui!

— Somos sua família! É natural que...

— Decidam a minha vida por mim? — Perguntou, depois de ter se vestido em uma calça moletom e numa camisa branca surrada. Carolina ficou calada e Angra respirou fundo, sentando-se na cama, sentindo os cabelos molhando suas costas.

— Angra... Por que você está reagindo assim? Você sempre quis ser mãe...

— Eu estava prestes a me separar. Você há de convir que não é o melhor momento... — Para se engravidar de quem não estava apaixonada, agora já sabia disso com clareza.

— Como que estava prestes a separar? Eu sei que vocês tiveram um estremecimento, o começo de um casamento é sempre difícil, mas separar, Angra? Você precisa ter um pouco de paciência, homens são...

— Carolina, eu estou falando de gente. Gente é tudo igual, independentemente de ser homem ou mulher, temos todos as mesmas possibilidades. Para de ficar inocentando homens adultos das suas próprias criancices, eles agem assim porque sempre há uma mulher para defender, sejam as mães, as esposas, sempre vai ter uma para tirar o peso, para justificar.


Carolina veio para perto e, sentou-se no chão, sobre os joelhos, de frente para Angra.


— Ele está arrasado lá fora. Sei que tem pouca atitude, menos atitude do que você gostaria, mas ele é assim. Ele disse que não vai aceitar separação nenhuma, que você não pode querer que ele fique longe do próprio filho.

— Guilherme nunca quis ter filhos, Carol, aliás, considerava filhos um atraso de vida.

— Pois então, ele mudou de ideia, não é maravilhoso? Mudou justamente agora que você engravidou. Angra, isso significa alguma coisa, é o sinal de que você precisa ter mais paciência, dar mais uma chance para vocês dois. Ele pode te surpreender, pode ser um ótimo pai e olha, ele é seu marido. O homem que você escolheu para se casar. Eu sei que tudo está difícil, eu também estou passando por momentos complicados com o Felipe, mas sabe? Lembra que não tem nada melhor do que chegar em casa no final do dia, e ter os braços do homem que você ama para dormir.


E isso fez Angra ter outra crise de choro. Intensa, sem controle e Carolina simplesmente não sabia o que fazer. Então, só se deitou com ela na cama, e a segurou nos braços até aquele choro compulsivo parar.


— Eu o ouvi ligando para minha mãe quando acordei. É quase como se ele não soubesse como lidar comigo.

— E ele não sabe mesmo. Mas não vou defender, nem dizer que homem é assim mesmo, eu entendo a sua revolta. E entendo que esteja se sentindo muito vulnerável agora, colocar uma criança no mundo não é fácil, menos ainda quando seu parceiro age como criança também, de vez em quando. Mas Angra, família é importante. Vocês eram um casal e agora vão se tornar uma família. Pensa nisso. O Guilherme vai amadurecer. Você tem que entender que alguns direitos chegam com o casamento, você não pode só excluir ele da sua vida, isso não cabe mais.

— A vida dele não vai parar. Mas a minha...

— Eu vou estar com você — Ela lhe disse, deitando um beijo em sua nuca e Angra...


Angra só conseguia ver que sua mensagem para Sofía seguia sem uma resposta.


📚


A crise de Frederíca veio ainda no aeroporto.


Ela começou a se sentir mal nas últimas horas de voo e era algo que Sofía jamais pensou que veria nos olhos dela: Frederíca Gonzalez estava com medo. Um medo irracional, não direcionado, um medo por nenhuma causa clara que deixou Sofía sem ter ideia do que fazer. Ainda estava aturdida pela situação toda, ainda sentia Angra pelo seu corpo, ainda estava com ela tão vívida em sua mente, as coisas que tinham feito juntas, a conversa sobre o que fazer quando se separassem e de repente, Frederíca em seu mesmo voo, voltando pra casa inesperadamente e, daquela forma. Considerou várias coisas muito rapidamente, de ela ter feito algo de muito errado no Rio, acontecia às vezes, Frederíca se metia em confusões e voltava para Sofía apenas para ter certeza de que não tinha a perdido, então, considerou entorpecentes, podiam causar um estrago maior em quem nunca tinha usado nada, mas no final...


No final, aceitou que Frederíca estava tendo uma crise de pânico.


Não houve muita explicação. Foram parar numa emergência assim que pousaram, mas depois de ouvi-la e examiná-la, o plantonista a encaminhou para um neurologista no dia seguinte, que após uma investigação mais profunda, a encaminhou para um psiquiatra e o terceiro médico chegou a uma conclusão: Frederíca estava com Síndrome de Burnout. Explicava a maioria dos sintomas que ela estava apresentando desde a viagem a Rapa Nui, as alterações inexplicáveis de humor, o isolamento contínuo, o cansaço excessivo, a falta de apetite, as dificuldades de concentração e principalmente, o sentimento derrotista. Tinha colocado na cabeça que seu próximo livro seria um fracasso e colocado na cabeça que...


Fracassaria em todo o resto.


Disse isso ainda no avião, que estava voltando pra casa com isso retumbando em sua cabeça, que iria cair em breve, na vida pessoal, na vida profissional, fracassaria sumariamente em tudo e à parte tudo isso, uma das coisas que mais preocupava, era as dores físicas que ela estava sentindo. Nas costas, nas mãos, tão intensas que estavam a impedindo até de segurar alguns objetos direito. E era esta parte que estava deixando Frederíca assustada de verdade.


— Isso... Pode afetar o meu cérebro? A minha criatividade? — Foi a única pergunta que ela fez ao médico.

— Não se você seguir o tratamento correto. Você pratica algum esporte?


Ela respirou fundo. Frederíca agora parecia simplesmente exausta mesmo.


— Faz algum tempo que não.

— Encontre algo para praticar, crie uma nova rotina, dê um tempo para a sua mente. Isso não pode afetar seu cérebro, mas se não seguir o tratamento, pode te levar para um quadro depressivo grave e isso sim, pode afetar a sua mente. Vou prescrever alguns medicamentos para reduzir as dores musculares e indicar uma terapeuta, porém, mais do que isso, você precisa falar com pessoas em quem confia. Procure aí dentro, você sabe o que está acontecendo.


Sofía a tirou do consultório e a levou até um famoso café da cidade, chamado Cafe del Mar, ainda estavam em tempo de pegar o pôr do sol que dali, era lindíssimo. E pela primeira vez em muito tempo, Sofía viu Frederíca hesitar. E naquela hesitação, teve uma desconfiança leve do que se passava. Era um ótimo café, mas significativamente caro.


Pediram um café da tarde especial, Frederíca não andava conseguindo comer e naquele dia especificamente, tinha comido apenas uma fruta o dia inteiro. Outra que não queria comer. E foi pensar nisso e o coração de Sofía apertou demais... Tanto que deve ter ficado pelo seu rosto.


— Você está sofrendo também — Ela lhe disse, quase irreconhecível do outro lado da mesa, de moletom preto, boné sobre os cabelos, nenhuma maquiagem.

— Você quer saber o que aconteceu de verdade?

— Não. A gente não pode se separar agora. Eu acho que sei o que aconteceu por mim mesma. Eu sou inteligente suficiente.


Um silêncio. Sofía sabia que precisava contar, mas o desinteresse de Frederíca não estava lhe permitindo.


— Bem, eu quero saber o que aconteceu com você. Fala pra mim. Você sabe o que está errado.


Ela respirou fundo. Pegou seu celular, abriu um aplicativo, mostrou para Sofía.


— 3.717,00? — Era um aplicativo bancário.

— É todo o dinheiro que eu tenho agora. Depois da... Passagem de última hora. E dos médicos.

— São dólares...?


A cara dela contou tudo, não, não eram, era um número em Real mesmo e agora Sofía estava entendendo melhor o desespero dela.


— Frederíca... Tudo bem, você não guardou nada?

— Eu usei no Chile o que eu tinha guardado e de repente, as vendas dos livros despencaram muito, eu não estava esperando...


Sofía se recostou na cadeira, aturdida novamente porque tudo aquilo estava acontecendo e Frederíca não havia lhe dito nem uma vírgula.


— Tem quanto tempo que isso aconteceu?

— Uns três meses. Olha, é que assim, eu perdi dois contratos...

— Três meses? Frederíca... — Sofía respirou muito fundo, mas não adiantava explodir com ela, sabia disso muito bem — Quais contratos?


Ela estava com aquele olhar de culpa. O olhar de culpada e de desprotegida que ainda funcionava com Sofía, ela própria não acreditava. Mas funcionava.


— Das vendas de livros físicos no Chile e na Argentina...

— Frederíca... Como assim perdeu? Você tinha uma reunião em Santiago! — Começou a buscar a agenda dela mentalmente.

— Que eu não fui.

— Por quê...?


Ela começou a hiperventilar outra vez. Frederíca estava com pânico de reuniões de trabalho, não estava conseguindo produzir mais e nem atender o tanto de contatos que recebia. Sofía sempre cuidou de parte das negociações, mas quando seu negócio começou a exigir que ficasse mais tempo fora de casa, achou que Frederíca estava indo bem, ela nunca pediu mais atenção. E jamais imaginou que ela não tivesse... Uma poupança para emergências. Aquele valor na conta dela mal pagava o aluguel que iria vencer em alguns dias.


Foi uma conversa muito longa, que durou além do pôr do sol. Sofía disse que assumiria as contas do mês com a poupança feita com o aluguel em Santa Teresa e que poderia ser assim até as coisas voltarem ao normal. Teriam que fazer alguns cortes, evitar determinados excessos, mas iriam sobreviver. Estava ganhando bem e tinha economias, aquelas que Frederíca nunca quis saber.


— Você acha que...?

— Você vai voltar a vender normal? É claro que sim, Frederíca, o Brasil entrou na maior crise econômica desde a recessão dos anos 90 e isso empurra a economia sul-americana para um pé no freio também, é o maior país de um bloco econômico entrando em recessão. Livros ainda são artigos de luxo, principalmente, na América do Sul. Você vai passar por outras crises, mas precisa... Administrar. Precisa ter reservas se essas coisas acontecerem.


Frederíca lhe olhou por baixo da aba do boné.


— Eu não tinha pensado nisso. Nessa explicação... Econômica.

— E nem precisa pensar. Nós já tínhamos começado a falar em manter você focada apenas na sua produção, esse estudo econômico pode ser feito por outra pessoa, a sua distribuição, os seus contratos, os direitos de imagem, nós precisamos de uma equipe para cuidar desta parte.

— Você pode fazer isso, olha tudo o que você acabou de me dizer. Você consegue se ligar em várias coisas ao mesmo tempo.

— Mas você não me deixa fazer.

— Eu não quero que você faça sem receber nada, diretamente, quero dizer.

— Você não quer porque isso vai exigir que a gente faça alguns cortes, Frederíca. Você sabe que se a gente reduzir as viagens, conseguimos pagar alguém para operacionalizar as transações, eu cuido dos números, cuido dos contratos e esta outra pessoa cuida de perto do que anda difícil de a gente olhar. Mas para pagar isso...


— Eu sei.


O olhar de culpa. Sofía respirou fundo.


— Olha, todo negócio precisa de um momento de contenção para chegar à expansão, você pode e vai expandir mais, você é talentosa, tem um público já estabilizado, tem voz com os seus seguidores e leitores. Mas é necessário administrar, é necessária uma contenção, um investimento — Olhou para ela e Frederíca estava mais culpada do que ficou na traição do final de ano. Sofía alcançou a mão dela sobre a mesa — Escuta, eu sei que as viagens não são apenas diversão. Eu sei que você viaja para se inspirar, para aprender, sei que gosta de colocar coisas novas nos livros e segundo estudos, nosso cérebro realmente aprende mais vivenciando do que lendo, ouvindo, enfim. Eu conheci você assim e naquela época, você não tinha problemas em ir sozinha, até porque, um certo isolamento é necessário para que você escreva melhor. Você só ia, fosse para a serra do Rio, ou para um tempo em São Paulo, para dias em Belo Horizonte e você ia sozinha, nunca houve um problema nisso.

— Mas eu me sinto... Culpada. De não levar você comigo.


Olhou nos olhos dela mais uma vez.


Meu amor não é gaiola...

É ninho — Os olhos dela se encheram e os de Sofía também.


Tudo era muito complicado mesmo.


— Está escrito bem aqui — Tocou na parte de dentro do braço dela — Este desenho é meu — Era um desenho de gaiola, ninho, pássaro, algo que Sofía havia lhe dado de presente de dia dos namorados, não sabia bem quantos anos atrás e que Frederíca tinha tatuado há alguns anos como novo presente — Eu nunca quis você presa. E você não me quer presa. Eu tenho viajado mais sozinha, para escrever o meu blog e você só me apoia. Por qual raio de motivo você acha que eu não te apoiaria a viajar sozinha se você me disser que precisa?


Uma lágrima dela. Um desviar de olhar e outro olhar em seus olhos depois de uma longa respirada.


— Eu tenho medo.

— Do quê?

— Do que sempre tive. De perder você sozinha.


Sabia bem o que ela estava querendo dizer. Frederíca nunca temeu que Sofía fizesse algo que pudesse comprometer o relacionamento delas, mas sempre temeu pelas suas próprias atitudes. Que pudessem vir a lhe fazer perder Sofía.


— Sofía, tem outra coisa...


E foi Sofía quem respirou fundo. Ouviu a outra coisa que, no final, era algo bom. Havia aparecido uma nova oportunidade, agora para vender em duas grandes livrarias brasileiras, o que era ótimo, mas a outra parte é que Frederíca deveria ter ficado no Brasil até a semana seguinte, para comparecer nessas reuniões, e bem.


— E...

— Que mais? — Já não estava bom de coisas?

— Eu não consigo pagar pelo nosso café aqui...


Sofía riu, coisas de Frederíca. Foi bom poder sorrir ao final de um dia tão difícil.


Tentou equilibrar todas as coisas pelos próximos dias. Frederíca lhe entregou as senhas de todos os seus bancos e Sofía tentou fechar as contas, entender o tamanho do problema, descobrir com podia resolver. Havia sido tudo muito rápido, das crises de Frederíca a descoberta do diagnóstico que aconteceu na manhã seguinte, em que Angra havia lhe contado... Da gravidez.


Não dormiu a noite inteira depois daquela ligação, Frederíca estava medicada, dormiu por quase doze horas seguidas enquanto Sofía agradeceu, porque assim, podia simplesmente chorar pela casa sem ter que explicar a respeito. Foi como se tivesse que sobreviver aquela noite com o coração esmagado dentro do peito, como quem esmaga um morango e tem que lidar com a pele machucada, com o sulco espalhado por todos os lados, com a sujeira causada por algo bonito, mas que não deixava de ser doloroso, triste e difícil, extremamente difícil.


Parecia clara demais a situação. Achou que no final de contar tudo, Angra se desculparia e deixaria aquela ideia delas duas de lado, mas não foi o que aconteceu, muito pelo contrário. Ela seguia querendo separar e Sofía sabia que ela deveria estar passando o inferno na Terra, dado ao tanto de apoiadores que um casamento tão recente tinha e Sofía não queria... Causar mais problemas. Queria apenas que as coisas se acalmassem para que pudesse ver... Com clareza. Mas nada estava claro e nem ficaria, tinha certeza disso.


Então, tentou fazer o básico, focar em Frederíca, que lhe precisava, mas era como se não fosse mais a mesma sem Angra por perto, principalmente, no estado em que ela estava, que à parte toda a problemática, era um verdadeiro presente. Um bebê sempre será um presente e estava tentando convencê-la disso, mas era complicado, é claro que era complicado. Não era pelo bebê, é claro que não, era apenas... Pela situação toda. Então, que agora doze dias havia se passado e as coisas seguiam... Confusas. Incertas. Complicadas demais.


Frederíca se acalmou quando Sofía assumiu a frente dos problemas. Começou a dormir melhor e a seguir o tratamento. Marcou as sessões de terapia, achou um grupo de garotas que praticava rúgbi e começou a se dedicar, se afastou da escrita, não estava funcionando e começou a engrenar numa rotina mais leve, que envolvia jardinagem, rúgbi com essas amigas e, momentos com Sofía.


Estavam voltando de um desses momentos, tinham ido andar por Cartagena, simplesmente andar, as ruas eram lindas e as colombianas... Foi conhecer o tal grupo de rúgbi, em sua maioria, da espécie de Frederíca e em sua minoria, meninas interessantes que iam pelo exercício e pela paquera, não lhe surpreendeu. Foi uma tarde agradável, no qual Sofía optou por desligar o celular e tentar focar no seu momento. Não pensou para trás e nem para o futuro, pensou apenas no momento atual e, funcionou.


Voltaram pra casa, fizeram juntas um super sanduíche de forno, que ficou delicioso e foram para a frente da TV, assistir a um episódio de Game of Thrones e foi algo simples e... Bom. Sem problemas. Não brigaram, não discutiram, apenas dividiram aquele dia de maneira saudável e Sofía sentiu seu corpo reagindo bem pela primeira vez em dias. Sentiu seus músculos soltando, sua mente soltando e ver Frederíca sorrindo novamente, ajudou bastante. Amava o sorriso dela também. E este também lhe fez chorar copiosamente durante o seu banho.


Também, era o sorriso de Angra, claro. Era aquele sorriso lindo o outro que ela não conseguia esquecer.

Passou mais de uma hora e meia no banho, chorando sem conseguir frear, sentindo seu coração tão apertado, tão dilacerado que...


Que só queria falar com ela. Pegou seu celular, tinha uma centena de mensagens não lidas de Angra, não queria deixá-la ansiosa, era a última coisa que queria, mas sabia que sua presença também causava a mesma ansiedade, e então, que não sabia o que fazer. Falou com ela, por voz, ela estava trancada sozinha no quarto de hóspedes de sua própria casa.


— Eu me sinto uma hóspede aqui.

— Pois você é a dona da casa. Você não pode ficar assim, entendeu? Linda... — Respirou fundo, tudo era muito difícil — Diz pra mim se você vai dormir melhor.

— Você vem me ver aqui?

— Angra, eu...

— Ela precisa de você, eu sei, mas eu também preciso.


Silêncio, coração partido demais.


— Por favor, durma melhor hoje.


Quando saiu do banho, Frederíca estava dormindo no sofá. Sofía desligou a TV, tentou acordá-la, então achou melhor não. Deixou que ela dormisse e deitou-se junto dela no sofá, desesperada para que algo lhe acalmasse, para que qualquer conexão lhe mantivesse e lhe fizesse atravessar a noite dormindo.


Acordaram de madrugada e foi Frederíca que lhe levou para cama, no final das contas. Ela estava dormindo melhor, então apenas retomou seu sono, porém, Sofía não pôde mais dormir. Tantas coisas na mente, tanto, voltando o tempo inteiro e Angra na sua cabeça era como uma experiência em VR, conseguia mais do que ver as coisas, era quase como se fechasse os olhos e... Estivesse com ela novamente. Conseguia sentir as mãos dela, sentir o cheiro, a pele quente sob o seu toque, e o simples vestir do suéter de Angra que Sofía havia trazido consigo...


Estava vestida nele. Já de pé, enquanto fazia uma vitamina para o seu café da manhã. Fechou os olhos, sentindo o tecido resvalando em sua pele e aquilo lhe levava para Alto Paraíso, lhe levava para aquela rede na varanda, para a sensação do tecido em seu rosto, enquanto deitava-se no peito dela no final de uma tarde qualquer... Foi arrancada da lembrança por alguém tocando a campainha.


Abriu a porta de entrada que ficava ao lado de sua cozinha, e era Kalinka. Nem disse nada, apenas a abraçou longamente, sentindo os braços dela lhe apertando, a calma dela sempre lhe faria efeito, sempre. Ela estava fora quando Sofía retornou, era o primeiro contato físico que estavam tendo desde então.


— Cadê a Frederíca?

— Dormindo.

— Eu vim fazer o seu café da manhã. Senta ali um pouquinho, vamos.


Ela tinha vindo. Para Kalinka, os cafés da manhã eram quase um ritual, que refletiam como seria o seu dia, quanto mais caprichado, melhor o dia e ela fez questão de caprichar. Fez panquecas, uma pilha perfeita, mel, ovos turcos, café grego, pronto, levou Sofía para comer na varanda. Sofía vestiu um shortinho, estava apenas de suéter e calcinha, e foi tomar café em sua varanda, sentindo o sol cálido lhe acordando a alma.


— Te falar, você está péssima — Kalinka disse, a fazendo rir.

— Eu sei. É que esses dias foram tão... Ah, Kali, não estava esperando passar por este tipo de crise não. Eu estava esperando... Outro tipo de crise.

— Angra ainda quer se separar. Não de você, do casamento.

— Eu sei que ela quer, mas como eu posso apoiar que ela faça isso? Eu moro em outro país, e não consegui andar com o que queria aqui, eu não posso...

— Deixar a Frederíca agora, a situação complicou de repente. Tudo complicou diferente do que vocês esperavam. Como ela está? Angra. Como ela está?

— Eu só... Queria que ela se acalmasse um pouco. Ela está muito nervosa com tudo, isso tem me preocupado.

— Você acha que consegue se acalmar um pouco?


Sofía olhou para Kalinka.


— Ela quer me ver.

— Você vai para o Brasil em dois dias. Vai ver os contratos da Frederíca, não vai?

— Vou precisar ir.

— E por que não aproveita para encontra-la?


Sofía lagrimou contra a sua própria vontade.


— Você não pode seguir assim, Sofía, vocês precisam conversar.

— Conversar o quê? Não tem o que conversar...

— Claro que tem. Você sabe que tem. Eu li sua Morning Page ali em cima...

— Eu nem consegui começar.

— Na verdade, começou. “Sinais perseguirão aqueles que acreditam”. Qual a chance de você voltar para o Brasil tão rápido assim?


Sofía andava pensando nisso desde quando a oportunidade apareceu. Teria duas reuniões, uma no Rio de Janeiro e outra...


Em Brasília.


— A sua norna particular segue trabalhando nisso com bastante afinco.

— Você... Você pode ficar aqui? Cuidando da Fer?

— É claro que eu fico.


Dois dias depois, Sofía estava em outro voo para o Brasil, um mais longo desta vez, até o Rio de Janeiro. Queria... Relaxar. Viajou no meio da tarde desta vez e tomou um comprimido para dormir. Não estava dormindo bem e precisava estar bem para conseguir os dois contratos, precisaria, se não quisessem mudar de apartamento e começar a fazer muitas contas para cobrir os cartões de crédito, que venceriam nos próximos meses. Tentou se concentrar nos contratos, em ler cada detalhe, Frederíca não era tão popular no Brasil e este era um passo importante que estavam trabalhando havia um tempo. Até ela lhe dizer que queria fazer sozinha e agora estavam naquela situação. Não estava confortável com nada, nem com Frederíca ter escondido a crise financeira, quando Sofía estava em condições de ajudar e menos ainda, estava confortável com Angra.


E isso pouco tinha a ver com a gravidez em si, tinha mais a ver com a distância que de repente, havia se construído entre elas.


Não conseguia explicar o que tinha sido, mas havia acontecido nos dois dias anteriores. Tinha a ver talvez com a melhora de Frederíca, ou com as fotos postadas, ela era uma máquina de postagens e depois de alguns dias de detox digital, que ela tinha respeitado certinho, havia retornado com tudo para as redes sociais. E a última postagem parecia ter congelado Angra. Melhor, congelado os sentimentos dela, que pareciam estar devolvendo para Sofía todo o gelo do mundo, que algum dia já tinha disparado contra ela. E Angra gelada era... Era de doer. E estava doendo demais.


Quase não se falaram durante aquele dia e quando finalmente, Sofía desceu no Rio de Janeiro, enquanto estava a caminho do seu hotel, se deu conta de que algo estava faltando.


Sua mochila havia ficado no avião. E não era qualquer mochila, era sua mochila com os originais que Frederíca havia enviado para as editoras, dedicados por ela, com a letra dela, com a gentileza e o galante de sempre, e que fariam uma enorme diferença no fechamento dos contratos. E não era só isso, todas as suas coisas pessoais estavam naquela mochila, itens de higiene, seu Ipad, seus carregadores, o Moleskine e quando se deu conta de que ele também estava lá dentro...


Chegou querendo chorar em seu hotel. Também não tinha seus cartões e seu passaporte, ah, sim, também havia ficado naquela mochila. Tentou ligar para a companhia aérea, para o aeroporto, mas tudo o que ouviu é que não havia o que pudesse ser resolvido naquele horário, já passavam das dez da noite, ela teria que esperar até a manhã seguinte. Ficou sentada no saguão do hotel, absolutamente desolada.


— Moça? — O atendente a chamou — Está tendo um dia ruim?

— Dias ruins se encaixa melhor.

— Este sotaque aí é carioca. Chega aqui, me conta o que aconteceu...


Contou o que aconteceu para o estranho. A última parte, é claro, do seu dia terrível, ela explicou que não tinha nenhuma identificação e ele lhe disse que a reserva estava paga, que ela podia ir só para o quarto e não se preocupar com esta parte. Sofía agradeceu, de verdade, pela gentileza de um estranho, há dias em que só se precisa de algo assim. Ele entregou a chave e Sofía subiu para o quarto, Angra tinha escrito ainda quando estava tentando resolver as coisas e meio que no automático, tinha respondido que já tinha chegado, mas que havia acontecido um problema no Rio. Esqueceu disso e quando checou, tinha diversas mensagens preocupadas dela. “Um problema no Rio” podia ser algo preocupante e Sofía nem tinha se dado conta disso. Respondeu, explicando o que tinha acontecido de fato e, Angra lhe ligou imediatamente. Por vídeo.


E o carinho que veio dela simplesmente lhe tomou o coração.


Angra estava calma, com um sorriso lindo brilhando, lhe dizendo que tudo estava bem e que ia ficar melhor, que estava investindo pensamentos positivos, porque, pensamentos focados se concretizam no futuro e o futuro seria o dia seguinte, em que cedinho, Sofía estaria com sua mochila outra vez.


— Você está... A coisa mais linda... — Ela lhe disse, pondo a mão no coração de Sofía outra vez, que não estava conseguindo parar de olhá-la. Angra estava de branco, parecia ter acabado de chegar do trabalho e, estava comendo sozinha.

— Angra...

— Você está. E eu já estava morrendo de saudade de te olhar...

— E você acha que eu não estava? A questão não é essa.

— Eu sei qual é a questão. Sabe qual é? Você me escreve dizendo que aconteceu um problema no Rio de Janeiro e meu coração para aqui.


Sofía olhou nos olhos dela.


— Você me liga e meu coração volta a bater... — Disse e então enterrou o rosto na cama, vencida pelos seus sentimentos e aquela reação...


Fez Angra abrir o primeiro sorriso ensolarado de verdade em dias. O último, havia sido de Sofía, ainda em Alto Paraíso.


— A gente precisa uma da outra, Sofía.

— Eu sei que precisamos, mas como...?

— Você é muito melhor do que eu em achar soluções. Terá alguma. Mas a primeira é que você nos prometeu 24 horas.

— E nós teremos, se você ainda quiser.

— Parece que eu não quero?

— Estava seca comigo esses últimos dias...

— Porque eu preciso de você também. Sei que a Frederíca precisa, sei que estamos nesta situação aqui, mas eu preciso de você também.


Olhos nos olhos novamente.


— Onde está o Guilherme?

— Semifinal da Libertadores...


E Sofía riu.


— Você deve ter empurrado ele para ir!

— Eu precisava de um tempo, Sofía, sério. E ele queria ir...

— E você garantiu que não fugiria com o bebê dele enquanto isso.


Outro olhar nos olhos.


— Vem me ver, está bem? E dorme tranquila, eu tenho certeza de que você vai buscar sua mochila amanhã, antes do horário da sua reunião, e eu tenho certeza de que essas pessoas aí vão ficar loucas pelos livros da Frederíca, porque não há histórias mais lindas do que essas que ela escreve não... Aliás, tem uma história...

— Angra...

— Que é tão bonita quanto. Sofía, você lembra o que disse pra mim no meu áudio de aniversário?


É claro que lembrava, não tinha como esquecer. Havia dito que tinha certeza de que estariam juntas em algum momento e que escreveriam uma história linda de alguma maneira. Sofía estava em Rapa Nui e Angra não saía de sua cabeça, tanto que lembrou do aniversário. Havia dito e a verdade é que ainda achava o mesmo.


— Você não pode seguir trabalhando até tão tarde mais — Disse Sofía, olhando para Angra um pouco mais.

— Tinha muita coisa acumulada, mas acho que consegui colocar tudo em ordem. Você já jantou?

— Eu... Não tenho como sair para comer — Sofía não usava aplicativos que lhe seduzissem a gastar, era uma regra pessoal — Nem tinha pensado nisso...


Bem, Angra pensou e fez um pedido via iFood, porque jamais permitiria que Sofía dormisse sem comer. Então, jantou, perto das onze da noite já, e de alguma maneira, só pegou no sono, coisa que achou que não conseguiria. Acordou cedinho e já ligando para o aeroporto e a boa notícia é que sua mochila estava lá, intacta, só lhe esperando buscar.


Tomou um ótimo café da manhã porque queria um ótimo dia pela frente, foi buscar sua mochila e de fato, lá estava ela, inteirinha, apenas lhe esperando. A pegou de volta e de posse dela, terminando de se arrumar no táxi, em direção ao seu encontro de negócios numa grande livraria. Frederíca havia começado a publicar sob um selo próprio e agora tinha uma editora que a representava pela América latina, porém, não tinha uma representação brasileira e a ideia era que, caso as duas livrarias aceitassem vender seus títulos, a editora colombiana aceitaria publicar em português.


Chegou um pouquinho antes, foi até o banheiro, checar a maquiagem feita pelo caminho. Então se checou, respirou fundo, os cabelos longos, muito bem penteados, castanhos-brilhando, o batom vermelho, saltos, jeans e quando foi arrumar a camisa All Denim... Clarinha, aberta no colo, não era de Angra, não era de Frederíca, mas podia ser de qualquer uma das duas. Sentiu a aliança em sua mão esquerda e a pulseira em seu pulso pesava tanto quanto. Mas pesava diferente. Mandou uma mensagem, ela lhe ligou de volta.


— Olha, linda, você representa a melhor escritora do gênero, está bem? Se fosse para eu falar de Frederíca Gonzalez, este contrato estava fechado, essas pessoas precisam entender como “Santorini” é especial...


Ela lhe fazia sorrir. Lhe acalmava a alma e o coração. E signo Terra do jeito que era, Sofía vivia buscando confirmações, havia sido assim em seu relacionamento com Frederíca o tempo inteiro, o próprio casamento tinha sido uma confirmação, como podia mudar de país com um relacionamento em aberto? Ainda incerto? Foi assim que acabou pedida em casamento, mas o que acontecia com Angra...


Era completamente diferente.


As confirmações que buscava nela, o jeito que as recebia, a intensidade de cada coisa, havia ido vê-la achando que seria diferente, que era mais um encantamento, uma sedução a distância, então que toda a mágica havia se repetido pessoalmente e agora que sabia que iria vê-la no dia seguinte... Seu coração já acelerava e se perguntava se... Se seria igual. Se ia ter aquelas mesmas reações de dias atrás porque era tão bom, tão diferente que nem sabia. Dizem que as pessoas viciam, buscando ter novamente a primeira experiência com o objeto de vício, o que nunca mais acontece. Mas conversou com Angra dois minutinhos e entrou naquela livraria num shopping da zona sul muito confiante de que tudo daria certo.


E deu. A conversa foi fluída, a apresentação agradou, as sócias da livraria adoraram os originais enviados por Frederíca, o charme dela fazia vítimas mesmo a distância e Sofía, bem, às vezes achava que sabia falar mais do trabalho de Frederíca do que do seu próprio trabalho.


Contrato um fechado, tinham acabado de sair do Mês do Orgulho e Frederíca era realmente talentosa demais para não ter uma ótima carreira no Brasil também. E a noite foi muito tranquila, recebeu um vídeo de Kalinka que lhe acalmou o coração, Frederíca estava escrevendo outra vez, tinha passado a tarde toda focada num primeiro capítulo e terminou muito empolgada com o resultado. Ligou para ela assim que chegou no hotel.


— Como vai chamar?

Maui. Lembra da nossa viagem para o Havaí? Então, eu fiquei pensando aqui, naquele cenário ensolarado emoldurando uma história meio assombrada, de uma fotógrafa misteriosa, que atropela uma boa moça de família numa daquelas ruazinhas apertadas da ilha...

— Uma história de musa e artista — Abriu um sorriso, já conhecia aquela história, Frederíca andava falando nela tinha um tempo.

— E que se inverte o tempo todo. As duas podem ser artistas, o que você acha? — Perguntou, deitando um pouquinho em seu sofá, suas costas sempre reclamavam quando escrevia demais, fazia parte, com essa dor, Frederíca estava habituada.


Sofía abriu um sorriso olhando para ela. Os olhos brilhando, o sorriso aberto. Tinha um encantamento por Frederíca, sabia bem.


— Eu acho que você está sorrindo. E que você deve seguir escrevendo essa história aí, sobre musas inspiradoras.

— A inspiração é uma mulher muito caprichosa...

— Que escolhe seus amantes sem muito critério. Eu estou muito feliz que esteja escrevendo outra vez.


Frederíca também estava. Sofía foi para o banho e depois, saiu para jantar, sozinha mesmo, na sua cidade. Se tivesse mais tempo, iria até a casa em Santa Teresa, dar uma olhada nela, cogitar a ideia do loft escandinavo, que com toda certeza, atrairia um tipo específico de hóspedes. Não havia artista que não pudesse se inspirar com aquela vista privilegiada com a qual Sofía havia crescido. Conversou muito com Angra enquanto ela também jantava, seu apetite havia voltado e ela parecia muito mais calma. E a calma dela era algo que Sofía andava tendo certeza de que lhe fazia efeito demais...


Dormiu muito bem, saiu cedinho para andar de bicicleta pela orla e então, partiu para o aeroporto, já vestida para sua reunião. Chegaria e iria direto para lá. Chegou no horário e enquanto acelerava pelo aeroporto muito lotado de Brasília, seu celular tocou.


— Eu estou te esperando.

— Mas...?

— Eu só vou te levar no restaurante, preciso voltar correndo para uma reunião também, mas eu vim.


E ela ter ido, fez Sofía sorrir demais.


Não tinha erro, o novo fusca de capota rebaixada, com uma mulher linda sorrindo de óculos escuros feito uma estrela do rock...


Seu coração acelerou demais e quando entrou no carro e a mão dela tocou a sua, Sofía percebeu o quanto aquelas mãos estavam geladas de ansiedade, apesar do sorriso luminoso.


— Ei, tudo bem? — Ela estava nervosa, Sofía também estava, nem sabia explicar bem o motivo.


Foram as duas nervosas, falando sobre qualquer coisa, menos o que importava, o restaurante era perto do aeroporto e Angra estava realmente atrasada.


— Vejo você em quatro horas?


Sofía beijou a mão dela com carinho.


— Vou fazer check-in para duas.


Outra reunião de sucesso. Sofía estava leve, ainda mais fluente no assunto talento de Frederíca, homens também não eram imunes ao charme dela e aquele almoço de duas da tarde se mostrou um verdadeiro sucesso. Mais um contrato assinado, mais três mil cópias garantidas e eles queriam um pôster, Frederíca era comercial demais e daquele almoço, além dos livros, Sofía saiu com alguns convites de eventos on-line. Daria tudo certo. Foi para o seu hotel, com o coração leve, fez check-in, duas pessoas? Sim, duas pessoas, nem sabia o que Angra pretendia, mas tinha a visto no carro, e...


Que vontade de dormir com ela. Só dormir, só ficar nos braços dela ou com ela em seu colo. Era 337, mandou o número do quarto para ela e correu. Para um banho, para o ritual, seus cremes, seu perfume, algo que ela gostava de lhe ver vestindo e quando ouviu alguém batendo na porta...


Abriu um sorriso. Angra havia acabado de quebrar o paradoxo do vício.


Sofía caminhou para a porta com o coração aos saltos e quando abriu a porta e olhou para ela...


Linda, luminosa, sorrindo feito uma estrela do rock.


Nem uma palavra. Angra passou pela porta e a beijou de imediato, a puxando pela cintura, fechando a porta atrás de si, enquanto Sofía a puxou para trás e seu corpo encontrou a parede mais próxima...


Aquela boca na sua, o match, o beijo perfeito.


— Você está nervosa? — Angra lhe perguntou sorrindo no meio do beijo.

— Eu estou tremendo! — Respondeu rindo, sem acreditar que estava tremendo mesmo, tinham se visto há algumas horas, afinal.

— Eu estou tremendo e travada, só de te ver num lugar fechado outra vez... Sofía...


Sofía a olhou, ela estava nervosa mesmo. Subiu na ponta dos pés, beijou a testa dela.


— Vem, a gente precisa se acalmar...

— Eu preciso de você comigo.

Angra...

— Eu preciso. E agora, você pode tentar me acalmar antes que eu tenha um troço...


Acalmava. Sofía jamais conseguiria negar.

Notas da Autora:


Olá, menin@s!


Como estão? Capítulo tenso e denso, eu sei, estávamos tod@s aqui lendo numa nuvem que acabou indo embora no capítulo de agora. Angra e Sofía tiveram que aterrissar os pés no chão, antes mesmo de chegarem de volta a seus lares originais e de repente, tudo ficou diferente em apenas algumas horas.


As teorias da gravidez de Angra, tudo certo? Sei que teve leitor@s que acertaram como ela havia acontecido! Talvez a surpresa maior, de fato, tenha sido o que se passou com Frederíca, os motivos da Angra estavam mais ou menos revelados, mas os de Sofía não estavam tão claros assim. Muitas perguntas ainda?


Aviso que este é o momento de perguntar! A partir da próxima semana, estarei sempre separando algumas perguntas dos comentários para estar respondendo por vídeo ou por voz para vocês, teremos postagens no blog apenas para este tipo de conteúdo. Ou seja, aproveitem a meta de 50 comentários para enviar perguntas, curiosidades, terei o maior prazer em responder!


E pessoas, temos um grupo muito amorzinho no Whats’App, para quem quiser conversar sobre as histórias assinadas por Tessa Reis, quem tiver interesse, basta clicar aqui:


Grupo Whats'App: https://bityli.com/LetqE


Abraços!


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