Angra - Capítulo 2: Abrolhos



Abrolhos, janeiro de 2015.


A perspectiva sempre muda quando a praia é olhada do mar para a areia.


Sofía estava sentada em sua prancha de stand up, dividindo sua atenção entre olhar as ondas no mar azul-cristalino-inacreditável de Abrolhos e observar as formações rochosas que protegiam a faixa de areia. Abrolhos, “abra os olhos”.


“Abra os olhos”. Repetiu mentalmente, “abra os olhos”.


Respirou fundo, conversou um pouco mais com o mar, Sofía havia começado a surfar depois de seu primeiro coração partido. Era uma menina ainda, de quatorze anos, que tinha se apaixonado por uma amiga e terminando assim, magoada, machucada, com o coração danificado. Lembrava de ter ido chorar na praia e de como o mar lhe acolheu, lhe fez companhia, lhe acalmou. Lhe fez lembrar que nenhuma onda era igual a outra, que nasciam, morriam e ressurgiam, mais altas, mais fortes, mexidas ou tubulares, elas sempre ressurgiam e ainda em um mar superglass, como no qual estava naquele momento, elas ainda existiam. Sofía estava superglass, sem ondas, mas não significava que elas não estavam em algum lugar.


Ou que iam levar uma vida para levantarem outra vez.


Remou de volta para a praia, ainda era bem cedinho, tinha acordado de madrugada e saído no primeiro raio de sol. Devolveu a prancha e foi atropelada de apego por um Golden Retriever molhado, que correu em sua direção como se fossem velhos conhecidos. Sofía parou sorrindo para fazer um carinho nele e a dona veio correndo logo em seguida, se desculpando pelo ataque de apego, não fazia mal. Estavam se vendo na praia todo dia naquele horário, talvez o cachorro estivesse trabalhando para puxar assunto entre elas, mas no final das contas, apenas se falaram rapidinho e Sofía voltou para o hotel. A moça era atraente, era simpática, mas sua cabeça não estava... Exatamente trabalhando para isso.


Voltou para o seu quarto, onde colocou uma playlist e entrou num banho demorado. A água gelada beijando sua pele quente de sol, era seu terceiro dia de praia e a cor já estava ardendo pelo seu corpo. Já estava bem morena, com o biquíni marcando, fechou os olhos sob o chuveiro, sentindo aquele bem-estar pós-praia invadindo por dentro, aproveitando cada uma das sensações. Lavou os cabelos castanhos e longos, duas vezes para vencer o sal do mar e em seguida, tirou mais um tempinho para si.


Escolheu um biquíni bonito, preto, justinho, hidratante na pele, secou os cabelos de praia, muito sem pressa, muito tranquilamente, checou-se no espelho, o corpo cheio de curvas, os seios bonitos ressaltados pelo biquíni, as linhas musculares suaves em suas pernas que reafirmavam seu trabalho duro com a yoga e o surfe. Era tudo o que estava precisando, solitude, não solidão, tempo para si, surfe pela manhã, ioga no final da tarde, um flerte despretensioso com uma menina bonita na praia, meditação, autocuidado, era isso. Se vestiu, short curtinho, Kimono boho florido, óculos escuros, pegou seu livro atual e decidiu ir ler um pouco na piscina.


O dia estava lindo, sem sequer uma nuvem no céu, bem ensolarado e a piscina estava do jeito que gostava, vazia. Pegou uma espreguiçadeira, abriu seu livro, pediu um suco de maracujá com gelo raspado, se acomodou, colocou seus fones de ouvido e quando ia começar a ler...


Lá veio ela outra vez.


Devia ter o quê? 1,74, 1,75? Ela era alta e atraente demais.


Não era como se Sofía pudesse não a notar ou qualquer outra pessoa daquela pousada pudesse. Loira, alta, vivia circulando em biquínis minúsculos e com um sorriso lindo aberto o tempo inteiro. Ela passou na frente de Sofía, agarrada em seu livro de sempre, óculos-aviador, a pele delicada dourada pelo sol, num tom lindo, particular e as linhas...


Então, as linhas dela. Tudo combinava com aquela altura, os seios lhe correspondiam, os quadris, o corpo tão harmônico, coxas firmes, abdômen delicado e natural, detalhes que atraíam Sofía instintivamente. Ela era diferente da menina que via na praia, para quem sorria e achava bonitinha, aquela moça ali... Passou e levou em si os olhos de Sofía novamente, talvez pela enésima vez em cinco dias.


Havia a visto ainda no check-in. Tinham chegado ao mesmo tempo, mas enquanto Sofía estava sozinha, a moça estava com nove pessoas, o que atrasou seu próprio check-in e lhe fez checá-la em detalhes por quinze minutos inteiros. Foi automático, a viu e seus olhos se recusaram a abandoná-la, era bonita e tinha uma imposição física atraente demais, nem sabia explicar bem, só sabia que quando a viu de short jeans e numa camiseta branca charmosamente surrada...


Não conseguiu tirar os olhos de cima dela. Menos ainda depois que ela começou a passar de biquíni pela sua frente. Havia a achado interessante logo de cara, mas quando a encontrou no café da manhã, no dia seguinte, e viu o livro que ela estava lendo... Passou de interessante para intrigante em sua mente.


O motivo era bem simples: ali estava, aquela loira que chamava atenção de quem quer que passasse, com um namorado-galã ao lado e lendo um dos romances lésbicos de Frederíca.


Não acreditou quando reconheceu o título! De jeito nenhum acreditou, estava de boa lendo o seu livro numa espreguiçadeira, quando olhou pra frente e a capa de “Santorini” lhe encarou de volta. Primeiro, ficou revoltada, tinha bloqueado Frederíca até dos seus pensamentos, para ela brotar num arquipélago isolado na Bahia e fazer questão de lhe lembrar de sua existência, mas então, percebeu quem estava com o livro, e...


Era sério? Era sério, sua loira presença hétero que roubava olhares, estava lendo um livro lésbico. E lá estava ela, com o livro novamente, cercada de gente, do galã, de um casal mais velho, outros dois mais jovens, garotas que riam alto, uma festa ambulante que parecia ininterrupta. Sofía já tinha notado que aparentemente, eles viviam celebrando, seja lá o que fosse, era um grupo em festa constante. Levantou-se, foi até o bar checar seu suco que não tinha sido servido, esperou alguns minutos e pronto, suco de maracujá gelado para acalmar um pouco aquela onda de calor. Estava muito calor. Muito mesmo. E quando olhou para parte da causa do calor naquele horário na piscina...


De repente, a loira tinha ficado sozinha.


Em uma das espreguiçadeiras, com seus óculos escuros e toda atenção do mundo prestada naquela leitura.


Sofía pensou um pouco, sentou-se em sua espreguiçadeira. Era a primeira vez que a via sozinha em cinco dias.


Ok, por qual raio de motivo ela estava lendo um livro de Frederíca?


Pegou suas coisas e foi sentar-se ao lado dela.


— A história é boa? — Brotou a pergunta absolutamente do nada e a moça...


Ela lhe olhou, por cima dos óculos escuros, deixando Sofía ver pela primeira vez, aqueles olhos degradê numa paleta cor de mel. E, ela lhe sorriu. Lhe olhou e abriu aquele sorriso absurdamente bonito.


— Só li oito vezes, é um dos meus preferidos.

— Oito vezes? Ele é quase um calhamaço!


Ela riu, uma risada densa, gostosa.


— Não chama de calhamaço. É um romance... Perfeito. E o livro nem é sobre romance...

— Não é sobre romance, mas é romance?


E abriu um sorriso imediato, claramente empolgada por falar de seu livro preferido.


— É que tem um romance lindo no meio, mas na verdade, é a história de uma mulher incrível, muito bem sucedida, que vai para Santorini, e... É que lá, em Santorini, ela conhece uma... Uma pessoa, e essa pessoa surpreendentemente tem crianças... E a protagonista, a mulher incrível, acaba descobrindo em si um instinto materno impressionante, e ela... Ela, a pessoa por quem ela se apaixona... — Outro sorriso dela, ela tinha ficado vermelha e Sofía não estava conseguindo parar de sorrir — Olha, eu sei que está parecendo que a história é chata e confusa, mas eu juro que é o romance mais bonito que já li na minha vida, é muito delicado, muito profundo, e...

— É, eu imagino que seja. Eu conheço a autora.


A moça lhe olhou absolutamente surpresa. Ou assustada. Sofía não conseguiu decifrar.


— Você... Conhece? Conhece Frederíca Gonzalez?


Sofía tomou outro gole do seu suco e não segurou o sorriso. A cara da moça estava ótima.


— Conheço. Ela é minha namorada.


E ela começou a rir. A rir alto, gostoso, incontrolável.


— Então, é claro que você sabe que...

— Que o livro é gay, é, eu sei.

— E daí você me viu com o livro e me viu com o...

— O galã, eu vi — Sofía não conseguia parar de sorrir também — Isso... Isso não tem importância. Eu só achei muita coincidência você estar lendo um livro da Frederíca. “Santorini” é um best-seller, mas um best-seller de um... Determinado público. É uma bobagem, né? O livro é ótimo, todo mundo deveria ler, independentemente de qualquer coisa — Esticou a mão pra ela — Sofía Gonzalez, prazer.

— Gonzalez? Então nem é namoro, vocês são casadas!

— Somos, mas o Gonzalez é meu, eu só emprestei pra ela porque soava melhor que “Brito Moreira”.

— Entendi — Ela tinha fechado o livro e se sentado na espreguiçadeira — Você... Você pode...? — Não deu sentido à frase, seguia sorrindo — Eu acho que preciso beber alguma coisa...


Sofía riu mais.


— Eu pego pra você, espera aqui.


Foi até o bar, pediu um suco para ela também, retornou e ela ainda estava rindo sozinha. Entregou o suco, e os dedos se tocaram por um instante. Algo breve, mas que levou os olhos das duas por um segundo. Sofía entregou o suco naquelas mãos, que tinham dedos bem longos, apenas mais um detalhe notado, nada demais.


— Eu ainda não acredito que... Não acredito. Ela vai encontrar você aqui, alguma coisa assim? Você está sozinha, não está? Ainda não te vi com ninguém...


Sofía olhou naqueles olhos de mel. Se ela ainda não tinha lhe visto com ninguém, significava que tinha lhe visto de alguma forma.


— Ela... Ela ficou em Cartagena, onde moramos. Eu estou sozinha mesmo.


A moça lhe olhou. E apertou os lábios. Esticou a mão para Sofía.


— Angra Fernandes — As mãos se tocaram e incorreram em energia.


📚


Angra precisou de um tempo para se recompor. Melhor, um tempo para decidir se tinha ficado mais constrangida por ter sido pega lendo um livro gay ou por ter tentado contar outra história sobre o livro que não fosse gay, era de se estudar a respeito. Pediu alguma coisa para comer, alguns salgados, queijo, Sofía gostava de queijo? Ela sorriu, disse que gostava sim, então, pediu queijos, torradas, alguns canapés e doces, sim, precisava se recompor e preferia fazer isso comendo.


Hors d'oeuvres — Sofía disse ao pegar uns dos canapés.

— Como?

Hors d'oeuvres, são... Essas pequenas porções servidas antes de uma refeição, é uma tradição francesa antiga, que acabou se espalhando pela Europa, como... — Pegou um dos amanteigados — Petit four, outra tradição que acabou se espalhando, popularizando durante a segunda guerra mundial. A farinha era tão escassa que se aproveitava até as sobras de massa dos pães. Esses pedacinhos eram assados, aproveitando o calor final do forno, e... — Olhou para Angra, ela estava sorrindo e lhe olhando engraçado, abriu um sorriso também — Eu sou muito esquisita, né? Tenho muita cultura inútil...

— Não tem nada de inútil — Ela seguia com aquele sorriso sedutor aberto — Eu nunca dividi comida com alguém que soubesse tanto a respeito do que estava sendo servido. Espera, isso tem nos livros da Frederíca!

— Tem, ela adora inserir culinária nas histórias, nós nos divertimos muito viajando e provando coisas, estudando a respeito, inclusive — Pegou o livro que estava lendo: “Cozinha Vegetariana do Mediterrâneo” — Eu adoro o assunto.

— É a parte que eu mais curto nos livros, sabia? Essas informações extras que vão além da história.

— Já leu quantos livros dela?

— Os quatro, umas cinco vezes ao menos cada um — Respondeu sorrindo, provando um dos canapés — Mas o meu preferido é “Santorini”, foi o primeiro que eu li e me tocou tanto que... Eu nem consigo explicar a minha relação com este livro aqui.

— Bem, é o meu preferido também. Ela costuma dizer que nós o escrevemos juntas, eu estava passando por um momento complicado, precisando me curar de algo e trabalhar em “Santorini” acabou se tornando terapêutico, sabe.


Angra lhe olhou.


— Posso saber do que precisava se curar ou estou indo rápido demais?


O capcioso na pergunta fez Sofía sorrir.


— Nós havíamos acabado de nos casar e eu queria um bebê. Mas Frederíca julgava que éramos muito jovens ainda, queríamos conhecer o mundo e que diante disso, minhas ideias não correspondiam aos fatos — Explicou sorrindo — E ela tinha razão, não dava para juntar as duas coisas de modo harmônico, daí nós fomos para Santorini e ela me deu bebês fictícios, nessa história linda.


Angra não conseguia parar de olhar para ela.


— Desculpa, mas você ainda me parece extremamente jovem...


Sofía riu.


— Acabei de fazer vinte e oito, semana passada e quando nos casamos, tinha vinte e cinco. Frederíca é ainda mais nova, eu entendo o ponto dela.

— Três anos de relacionamento, igual a mim e ao Guilherme. Só que eu sou um pouquinho mais velha que você, senti que deveria me casar aos trinta, sabe, um tipo diferente de crise.

— Então você é casada...


Angra abriu outro sorriso.


— Na verdade, eu estou em lua de mel.


E Sofía a olhou muito desacreditada.


— Você...? Mas há uma galera com você!

— Eu sei — Angra estava rindo também — Nós tivemos uns dias a sós em Noronha e depois combinamos de nos encontrar com eles aqui, estamos com a irmã dele e o marido, minha melhor amiga que acabou de se casar também e o marido dela, meu irmão, a namorada, e os meus pais.


Daí, Sofía começou a rir alto!


— É sério?

— É sério — Angra estava rindo também — Como eu te disse, tivemos uns dias a sós e depois, por que não? Está todo mundo de férias...

— Entendi — Tinha entendido, mas ainda estava achando demais.

— É que... A gente namora há um tempo já, o casamento foi só... Um marco maior, sabe?

— Já moravam juntos então.

— Ainda não, vamos morar a partir de agora, compramos um apartamento, e... É isso. Tem uma vida nova nos aguardando e acho que os dois quiseram passar mais um último tempinho com as famílias. Eu queria dirigir um pouco também.

— Veio dirigindo de onde?

— De Recife até Caravelas, vinte e duas horas, fiz em dois dias, eu adoro dirigir. E, fui de Brasília até Recife também.

— Tudo isso naquele fusca branco?

— No novo fusca branco, sim, você já deve ter me visto...

— Dirigindo com a capota aberta, já sim — Era uma exibida aquela moça, Sofía já estava a sacando, e parou olhando para ela mais uma vez.De óculos escuros, pele dourada, uma raiz loiro-avelã se mostrava pelo meio das luzes mais claras. Era uma exibida bonita que passava, tinha um ar de Casanova também, deveria ser seu estilo, quem saberia — Eu vou ser indelicada se perguntar...? — Olhou para o livro — Eu sei que é até preconceito meu, mas é que... É no mínimo interessante, você deve concordar comigo.


Ela seguia sorrindo. Seguia atraente demais.


— Concordo sim. Então, é que... Há umas questões em mim. Que vão e retornam em momentos diferentes meus. Eu nunca tive nenhuma garota, nunca beijei nenhuma menina, mas... Sempre teve alguma coisa. Um interesse, uma atração, um flerte aqui ou ali, com meninas diferentes, nunca nada muito específico. Mas acabou que nada muito significativo aconteceu, eu namorei rapazes sempre, encontrei aquele príncipe com quem eu acabei de me casar. Eu leio esses romancespor que... Realizo uma parte minha assim? Acho que é isso — Abriu outro sorriso lindo, meio envergonhado, mas muito sincero — Eu vou ser indelicada se perguntar por que você está aqui sozinha?


Sofía tomou outro gole do seu suco. Desconfiava que Angra não seria indelicada nem se tentasse muito.


— Eu estava precisando de um tempo pra mim, sabe? Um tempo para arrumar a minha cabeça, fazer as coisas que eu gosto, pegar uma praia, no meu país, falar o meu idioma, ler meus livros, escrever um pouco, essas coisas.

— Tão independente. Eu nunca viajei sozinha na vida, assim, para tão longe. E nem tive... Um momento assim pra mim — Mas por algum motivo, Sofía tinha ficado triste ao lhe dizer aquilo que Angra julgava tão poderoso, uma mulher sozinha viajando por um arquipélago — Posso saber o que você faz?

— Ah, eu sou jornalista, especialista em tecnologia, mas que acabou escrevendo blogs de viagem, veja bem... — Disse, fazendo Angra rir.

— Então, você escreve também. Espera, espera... — Pegou o livro de volta — Os bilhetes do livro — O livro contava com 42 capítulos e todos eles, tinham bilhetes muito pessoais escritos — Você é essa Sofía! Que a Frederíca fala aqui no epílogo, que escreveu os bilhetes...

— Isso, os bilhetes são meus. Foi uma terapia mesmo, sabia? Eu acordava naquela ilha incrível e escrevia um bilhete todos os dias, pra mim mesma, eu só não sabia que ela estava guardando os bilhetes e que iria incorporá-los ao livro. Você... Você tem os bilhetes marcados?


Tinha. O livro estava cheio de flags.


— São as minhas partes preferidas. Esses bilhetes... — Olhou nos olhos dela, da mulher que tinha escrito os bilhetes que Angra trazia consigo há um ano, sempre que se sentia sozinha, sem saída ou sem coragem. Mudou o rumo de seus pensamentos — Pode me dizer qual é a sua cozinha preferida? — Perguntou tão de repente que fez Sofía rir imediatamente.

— Cozinha preferida?

— É, eu sei que estamos com poucas opções de cozinha, mas eu quero saber o que posso pedir pra gente almoçar...


Sofía manteve seus olhos dentro dos dela. Ela estava lhe chamando para almoçar?


Cozinha italiana. Mas aceito feliz da vida qualquer comida baiana, é uma cozinha deliciosa demais.


Outros sorrisos, outros olhares. Angra perguntou se elas podiam almoçar no hotel mesmo, o restaurante era muito bom, podiam, é claro que podiam e o almoço com ela foi extremamente agradável. Conversaram muito, riram demais, tanto que sequer perceberam a hora passando. Sofía descobriu que Angra era administradora, especialista em FP&A, Planejamento e Análise Financeira, tinha uma startup, especializada em intermediar negócios internacionais e Sofía riu dias que a especialista internacional morria de medo de avião.


— Os negócios hoje são digitais, gente, quem precisa voar?


Terminaram o almoço, ir para a praia foi automático, mergulharam, ficaram pela areia e enquanto estavam pegando sol e olhando em direção a Abrolhos, Sofía contou os planos dos próximos dias.


— Eu não acredito que você vai fazer um live on board!

— Eu vou, vou no sábado — Contou sorrindo, sentindo o sol secando sua pele no sal — Ficar três dias no mar, remando, mergulhando, tendo a visão das ilhas todos os dias...

— Escrevendo bilhetes para você mesma?


Sofía cruzou os olhos dela sorrindo. Eram lindos, ficavam clarinhos no sol a ponto de reverter a cor de mel para um verde-oliva.


— Ando precisando fazer isso outra vez.

— Você gosta de ilhas — Ela lhe disse, com um tom diferente na voz.


Sofía gostava de ilhas. Angra tinha nome de ilha.


E o marido sentiu falta de sua ilha.


Ele ligou, perguntando onde Angra estava, tinham voltado ao hotel e ninguém havia a encontrado, era hora de voltar, as duas sabiam.


— Você vai voltar para o hotel, ou...?

— Acho que vou andar um pouco e depois vou para o hotel.

— Você... — Ela estava com o celular na mão — Pode me dar seu número? A gente pode marcar alguma coisa, eu adorei o meu dia.


Sofía também tinha adorado. Anotou seu número para ela, trocaram um abraço e Angra partiu, sentindo os olhos de Sofía em si, até desaparecer do campo de visão dela.


Voltou para o hotel caminhando muito devagar. O livro em suas mãos, seu companheiro inseparável há tanto tempo, o livro com os bilhetes aos quais tanto tinha apego e de repente, assim, do nada, no sul da Bahia aleatoriamente, tinha acabado de passar um tempo com quem havia escrito aqueles bilhetes. Era mais surreal do que se tivesse encontrado Frederíca Gonzalez pessoalmente. Entrou em seu quarto, Guilherme estava assistindo futebol. Deu a volta na cama e o beijou rapidinho.


— Ei, como foi seu dia? — Angra perguntou para ele.

— Foi muito legal! Você devia ter ido, o passeio foi muito bacana — Eles tinham ido até uma cidade vizinha passar o dia — Você melhorou?

— Melhorei sim — Tinha acordado muito cansada, mas dito que estava com dor de cabeça para ver se conseguia ficar algumas horas sozinha.

— E o que fez por aqui?

— Fiquei na piscina, lendo um pouco. Lembra da garota que todo mundo comentou?

— Aquela que até a sua mãe achou bonita?

— Essa mesma — Afirmou sorrindo — Eu a conheci hoje, chama Sofía, é blogueira de viagem, mora na Colômbia.

— Colombiana?

— Carioca, mas os pais são colombianos. Ela é muito interessante, muito bacana de se conversar, está indo fazer o live on board que eu tanto queria...

— A gente já falou sobre isso, Angra, a nossa galera não vai ficar três dias sem internet de jeito nenhum.

— E se fossemos só nós dois? Ainda estamos em lua de mel.

— Eu sei, mas... — Ele sorriu — Eu acho que não fico três dias sem internet também, a mergulhadora aqui é você, eu ficaria fazendo absolutamente nada.


Angra apertou os lábios. O beijou rapidinho outra vez e foi para o banho. Na verdade, foi primeiro para o celular, trancou a porta, sentou-se no chão mesmo e foi fazer algo que nunca tinha feito antes: pesquisar Frederíca Gonzalez no Instagram.


Nem era por nada, é que suas leituras dos livros de Frederíca eram tão especiais que nunca quis saber mais sobre a autora. Podia descobrir coisas que viriam a lhe decepcionar se não correspondessem a imagem que tinha feito dela sozinha. Mas agora que tinha conhecido Sofía...


Encontrou Frederíca e só lhe fez sentido mais tarde, ter ido primeiro atrás de Frederíca para então encontrar Sofía. Deslizou pelas fotos de Frederíca, sabia como ela era fisicamente, estava estampado em todos os livros, era o tipo de imagem que vendia por si só, uma garota talentosa, bonita, tatuada. Não queria detalhes pessoais que pudessem poluir sua fantasia, mas agora que estava ali, vendo as fotos dela... Podia ter ido antes, se tivesse ido antes, já saberia que Sofía existia.


Ela estava em várias fotos ao lado de Frederíca, casal jovem, bonito, viajando por ilhas do mundo, sorrindo em restaurantes diferentes, felizes numa praia qualquer. Elas combinavam e aparentemente, não eram apenas livros que Frederíca vendia, era aquele relacionamento também. Clicou na conta de Sofía, e:


Filha da mãe!


Ela lhe seguiu de volta em segundos. E Angra abriu um sorriso enorme ao perceber que as fotos dela...


Eram fotos diferentes das fotos de Frederíca. Havia fotos de Sofía, algumas apenas, mas muitas fotos do mundo, de pratos diferentes, culturas, livros, meditação, ioga, surfe, flores, tinha tudo isso por lá. Abriu todas as raras fotos em que podia vê-la, uma a uma e quando curtiu uma foto antiga sem querer, descurtiu o mais rápido que conseguia, sem saber que já era tarde. Sofía tinha visto, sabia que ela estava na sua conta, sabia que ela estava lhe vendo.


A única coisa que não sabia bem, era o que Angra podia estar querendo.


Se encontraram no café, na manhã seguinte, e Angra fez questão de lhe apresentar para todo mundo que estava com ela. Ela era simpática demais e tinha a quem puxar, os pais foram super acolhedores e o entendimento de Sofía com Carolina foi imediato. Porém, apesar dos convites para passar o dia com eles, agradeceu e preferiu seguir sozinha. Olhares, muitos olhares. Mel em castanha-do-Pará, Angra tinha lhe dito que seus olhos tinham o mesmo marrom das castanhas paraenses, que brilhavam igual. Acabaram se reencontrando na praia à tarde e puderam conversar mais um pouquinho, rir mais um pouco, e quando Sofía, cruzou com Angra num restaurante à noite, achou que estava sendo seguida.


— Não posso te garantir que não está sendo... — Ela disse, fazendo Sofía rir.


No dia seguinte, se perderam no café, mas se encontraram no almoço, além de terem passado a manhã inteira conversando por WhatsApp. Era como se sempre tivessem assunto, sempre tivessem algo que faltou contar, faltou mostrar, Sofía acabou almoçando com o grupo e passando outro tempinho com Angra na piscina, numa conversa infinita e animada sobre personagens escritas por Frederíca e quando aquele dia acabou, Angra se deu conta de que teria só mais um dia com Sofía por perto no hotel. E foi justamente o dia em que tinha um passeio marcado e acabou passando o dia inteiro fora. O último passeio do dia, fizeram de barco e ao pôr do sol, Angra ficou tão pensativa que até Guilherme notou. E não, ele quase nunca notava as coisas, não era por nada, era apenas por distração mesmo.


— Você quer mergulhar, não quer? — Ele perguntou.

— E você quer ir pra Prado — Respondeu sorrindo.

— Temos um impasse — Ele a guardou nos braços com carinho — E este pôr do sol que você está perdendo.

— Eu ando meio... Não sei, distraída.

— Acho que é ao contrário: está pensativa. Focada em alguma coisa. Eu prometi pra você, só nos casamos, não será uma prisão. Você segue sendo você, eu sigo sendo eu e só vai fazer sentido se seguirmos sendo nós dois, entende?


Angra entendia.


Chamou Sofía para jantar aquela noite, ela partiria de manhã cedinho e queria passar mais um tempo com ela. Jantaram em onze pessoas e ainda assim, parecia que elas estavam jantando sozinhas, porque o assunto seguia entre elas, sempre seguia. Quando Sofía terminou e pediu licença, porque já precisava ir, Angra se ofereceu para acompanhá-la. E a sensação que Sofía teve, quando Angra foi deixá-la em seu quarto, foi muito distinta: primeiro, sentiu de verdade que tinham jantado sozinhas numa mesa com mais nove, segundo, podia estar louca, mas achou que ela não a queria deixar entrar.


Ficaram conversando, num clima muito agradável, na porta do quarto de Sofía e lembrava de ter pensado que se fosse apenas uma amizade, não teria hesitado em convidá-la para entrar. Mas não convidou e isso lhe disse algumas coisas sobre si mesma. Angra era linda, gentil, divertida. E Sofía queria poder passar mais um tempo com ela, qualquer tempo que fosse.


— Tudo pronto para amanhã? Para o live on board? — Angra lhe perguntou, estando muito, mas muito perto de Sofía.

— Eu... Não sei bem. Eu não desisti, mas...

— Não desista — Ela disse, com veemência — Você tem que ir, veio aqui para isso.

— Na verdade, eu vim aqui para uma outra coisa...


Olhos nos olhos. Angra estava perto demais, Sofía conseguia sentir o perfume dela, o calor da pele dourada pós-sol.


— Vai me dizer por que está aqui de verdade?


Sofía sorriu, desviando o olhar. Achava que não deveria dizer.


— A gente faz assim: se por acaso a gente se encontrar pessoalmente de novo, eu te conto.


Ela esticou a mão em sua direção imediatamente.


— Feito.


Se despediram, enfim, já era quase uma da manhã. E então, Sofía decidiu arrumar sua mochila, minimalista, apenas com as coisas que realmente precisaria nos seus dias a bordo. Angra tinha razão, precisava daquele isolamento, daquele tempo privilegiado em alto mar, o mar sempre lhe acolheu, não seria diferente agora.


Acordou antes do sol nascer e quando ele estava subindo de dentro do mar, já estava embarcando no iate que seria sua casa pelos próximos dias. Teria companhia, vinte pessoas, mais a tripulação, e no exato momento em que terminou de escrever uma mensagem de despedida e agradecimento para Angra...


— Você está brincando comigo...


Ela gargalhou. Angra estava ali! De short jeans e camiseta preta, boné sobre os cabelos, sorriso aberto às cinco da manhã, vendo o sol nascer da proa. Ela veio para perto e o abraço foi muito longo, um tanto apegado, tanto que as duas notaram. Mas ninguém soltou. Não deu para soltar.


— Agora vai ter que contar. O motivo de verdade.


📚


Abrolhos, “abra os olhos”. O arquipélago recebera tal nome em virtude dos inúmeros naufrágios acontecidos na região, por conta da rica bancada de corais que estava em todos os lugares e dificultavam a navegação, causando os naufrágios. Abrolhos, “abra os olhos para navegar”, era isso. O mar azul-deslumbrante, brilhando contra a luz do sol, deslumbrante e perigoso, o mar era traiçoeiro por ali, às vezes era rasinho e de repente, ficava profundo, “abra os olhos, abra os olhos”, era exatamente como estar casada com Frederíca Gonzalez.


— O pior, é que sequer é a primeira vez. Eu já passei por isso antes, mas de outras maneiras. Peguei mensagens que não deveria, vi olhares que não deveria, mas eu sempre relevei porque, ela tem visibilidade, trabalha com o público, se você acha que existe uma quantidade significativa de meninas que caem em cima dela, você está certa, e a quantidade que automaticamente não cai, ela faz questão de conquistar. Eu... — Abriu um sorriso, estavam tomando café na parte de trás do iate, afastadas do grupo, sozinhas — Me sinto péssima, você devia ter uma imagem linda dela, não é?


Angra sorriu.


— Na verdade, eu tinha, uma mulher que escreve esses romances deveria... — Outro sorriso — Deveria ser perfeita.

— Então — Abraçou os joelhos contra o abdômen — Não existe pessoa perfeita. Não se a gente...

“Abrir os olhos”. Não tem ninguém perfeito, mas sei que existe alguém perfeito pra cada um sempre, em algum lugar.


Sofía olhou para ela.


— Você achou a sua pessoa perfeita?

— Ah, Sofía... Não é porque eu nunca passei por uma traição, que o Guilherme é perfeito. Nem porque a Frederíca traiu, que ela é completamente imperfeita. Eu só não entendo como... — Angra olhou para frente, os óculos escuros, o boné sobre os cabelos soltos — Ela traiu você. Tipo... Essa mulher que você é.

— Eu sou chata, Angra, muito chata, não gosto de sair, prefiro ficar sozinha em alguns momentos, eu sei que falho como esposa com ela, mas eu tento. Tento agradar, fazer as coisas que ela gosta...

— Ela tenta ficar com você? Nos seus momentos que quer ficar em casa? Ela se esforça igual?


Sofía pensou consigo. Sabia que não. Olhou para Angra outra vez.


— Como você...? Como você está aqui? Em plena lua de mel? Como está aqui sozinha?

— Primeiro, eu não estou sozinha, estou aqui com você, que vai me fazer companhia, e...

— Vou passar um pedaço da sua lua de mel com você, não para de ficar esquisito.


Angra riu.


— Segundo, Guilherme queria ir para Prado, a maioria queria ir também, mas eu queria fazer o live on board. Eu sou mergulhadora...

— Espera, você é mergulhadora?


Outro sorriso.


— Com certificado e tudo. Fiz o meu batismo em Angra dos Reis...

— Não sei por que não me surpreende...

— Eu tinha que ir lá, né? O lugar onde fui feita, que originou meu nome...

— E foi de carro, provavelmente.

— De ônibus, estava com preguiça de dirigir...


Ela lhe fazia rir. Com uma facilidade que Sofía sequer acreditava.


— Você me perdoa? — Angra perguntou, lhe olhando de lado.

— Pelo quê?


Ela delicadamente, pegou sua mão, causando um frisson inesperado por Sofía. A viu pegando sua mão, então seus olhos correram para os olhos dela.


— Por interromper seu momento com você mesma. Mas é que... Eu precisava. De mais um tempinho com você.


Sofía abriu outro sorriso.


— Eu não te trocaria por bilhetes para mim mesma.


Angra desconfiava que não.


E o primeiro passeio já foi simplesmente deslumbrante.


Aquelas águas eram inacreditáveis, cristalinas demais, fizeram o primeiro mergulho de snorkel, porque estava rasinho, ao redor de uma das ilhas do arquipélago, onde os corais e uma quantidade inacreditável de peixes faziam a festa ao redor de si. O biquíni preto de Angra combinando com o branco de Sofía, o cabelo loiro-avelã formando ondas no fundo, o rosto de Sofía lhe sorrindo naquela máscara de mergulho. Angra voltou para o barco aquela tarde, sabendo que sonharia com isso, com Sofía nadando no fundo, sorrindo na máscara de mergulho, com os cabelos longos sereiando em sua direção...


Foi para o banho em sua cabine pensando nisso. E talvez por isso, tenha levado muito mais tempo do que costumava se arrumando antes de ir jantar. Escolheu um short jeans e passou um tempo engraçado decidindo entre uma camisa de botões branca e outra. Adorava suas camisas brancas, sabia que ficava bem nelas e só então, saiu para jantar.


E Sofía lhe alcançou ainda no corredor.


— Eu tenho vinhos...

— A gente pode ter vinhos aqui?

— Eu não tenho certeza... — Ela respondeu sorrindo enquanto conduzia Angra para uma fuga.


Fuga de uma das premissas do live on board, que era o convívio em grupo. Estavam num grupo relativamente grande, mas Sofía tinha vinhos chilenos que ela não pretendia dividir com ninguém, além de Angra. Voltaram para a popa, com o vinho e alguns hors d'oeuvres, que Angra havia dado um jeito de preparar na cozinha. Ela lhe disse que não cozinhava muito, mas que sabia fazer algumas coisas e pelo capricho que os canapés ficaram, Sofía entendeu que aquilo refletia um pedaço interessante da personalidade dela. Ela se importava com a beleza das coisas, por mais simples que fossem, e Sofía estava adorando aquele traço nela.


— É impressão minha ou você tem uma coleção de camisas brancas?


Angra estava sorrindo.


— Metade do meu guarda-roupa é branco, você já deve ter notado que... — Fez um gesto que Sofía traduziu por...

— Fica muito bem de branco, digamos que eu tenha notado. Como é que você se certificou em FP&A?

— Fui pra Flórida. Fiquei lá até formar, nada de ficar indo e voltando. Você sabe que lá, eu conheci uma menina que me chamou atenção. Todos os dias eu ia para a aula pensando que alguma coisa podia acontecer, mas como ela não se moveu e eu não me movi... Deu em nada. Eu costumava ser muito tímida.

— E muita menina já deve ter se interessado por você, sem você perceber. Você é um tipo interessante, que prende a atenção feminina...


Angra olhou bem para ela. Estava uma noite linda, estrelada, o mar glass todo suave.


— Conte-me mais sobre isso, sobre esta parte, sobre eu prender a atenção feminina...


Mais risadas de Sofía, as taças de vinho secando.


— Ah, você é alta, é bonita, tem este estilo todo, as camisas masculinas mescladas com coisas bem femininas, o sorriso bonito, os olhos nessa cor linda, mulheres olham muito para isso, é... Atraente. Para olhos femininos.


Angra apertou os lábios. Estavam muito perto uma da outra, a noite estava linda, aquele vinho era delicioso e não sabia bem o quanto tudo isso tinha influência em... Em como estava sentindo.

Tinha passado um tempo relativo no banho pensando em Sofía, pensando em como... Se sentia perto dela. Em como seu corpo reagia.


— Olha, se eu atraí alguma garota na vida, elas disfarçaram muito bem, porque eu já quis muito uma menina e nunca consegui nenhuma... — Disse, fazendo Sofía rir mais ainda.


A primeira garrafa de vinho secou, a segunda também e Sofía se recusou a abrir mais uma. Disse que era melhor irem dormir, o dia seguinte começava cedinho, iriam mergulhar de cilindro, em alguns dos diversos naufrágios do arquipélago, e Angra fez questão de ir deixá-la em sua cabine.


— Vai que você despenca para o mar, deve ter bebido uma garrafa inteira e mais metade da outra... — Disse, quando chegaram na porta e... Aquele corredor era estreito, muito estreito.


Sofía ficou de costas para sua porta e de frente para Angra, e ela estava tão perto que...


Reagiu entre suas coxas. Aquela imposição física, o quanto ela era cheirosa, o jeito que estava perto, lhe cercando com os braços. Sofía queria tocá-la. Chegava a doer o quanto que queria.


— Você bebeu metade, exatamente metade...

— Você bebeu metade de todas as minhas taças — Ela abriu aquele sorriso lindo e Sofía não tinha certeza se ela de fato, não estava dizendo a verdade...

Eu vi você — Disse, por motivo nenhum — Assim que cheguei no hotel, eu vi você...


E ela abriu outro daquele sorriso lindo demais que tinha.


— Eu também te vi. Estava linda, de Kimono boho florido, falando espanhol ao celular — Angra confessou, com o rosto muito perto do seu, lhe olhando nos olhos com aquele mel fervendo na íris. Ela estava quente, Sofía podia sentir.

— Por que me viu?

— Porque era impossível não ver. Tem um bilhete seu, em “Santorini”, que diz que... Você olhou para aquela ilha e seu coração deu sinal dentro do peito. Diz que vibrou por dentro, em gratidão e beatitude — Angra abriu outro sorriso, chegando ainda mais perto. As pernas se recostaram, inevitavelmente — Eu não conhecia esta palavra, beatitude.


— É um estado de...

— Perfeita satisfação e plenitude, agora eu sei. Mas você também diz que no meio da beatitude, havia um vazio onde você caía sem perceber, por estar andando tão tranquilamente feliz que não o via surgir.

— Angra não é uma ilha — Disse, novamente por motivo nenhum, além do álcool fazendo efeito.


Ela gargalhou.


— Não é. Mas é composta de algumas ilhas. Sofía?

— O quê?


Angra abriu a porta da cabine dela e delicadamente, a segurou pela cintura.


— Eu descobri o que você sentiu olhando para Santorini, quando olhei para você naquele check-in...


E assim, Angra a colocou na cama e foi dormir em sua cabine.


Acordaram com a energia renovada! Tomaram café com o grupo e ver Angra socializando, lembrava e não lembrava Sofía, de Frederíca. Ela socializava diferente, sem flertes, socializava sorrindo, querendo fazer amigos, deixar todos à vontade com a presença dela, era assim. E foi assim, da mesma forma delicada, que durante o café da manhã, Angra perguntou se Sofía lembrava bem da noite passada.


— Você me colocou na cama — Respeitosamente tinha colocado.

— Efeitos da maresia e dos vinhos chilenos... — Ela lhe disse sorrindo, lhe olhando bem de perto e Sofía...


Mordeu a boca discretamente, desviando o olhar. Angra era galanteadora demais, estava ficando cada vez mais claro que era e Sofía nem sabia. Só sabia que andava ficando nervosa cada vez que ela se aproximava daquele jeito.


E ela sabia do nervoso, devia saber da atração. É claro que ela sabia.


Mergulharam de cilindro logo pela manhã, fazendo aquele passeio diferente pelos naufrágios, nadando pertinho uma da outra, com Angra levando aquela moça pela mão, porque havia algo de incomum por aquela surfista-mergulhadora: Sofía Gonzalez não sabia nadar.


Angra não conseguia acreditar naquilo! Mergulharam e depois subiram em Siriba, a única ilha do arquipélago que permite desembarque. Deixaram suas roupas de mergulho no barco e foram andar por aquela ilha.


— Como é que você não sabe nadar? Que história é essa?

— É sério, eu não sei nadar — Ela contou sorrindo — Mas aprendi a surfar, porém, surfo de colete salva-vidas...


Mais risadas de Angra.


— Eu não acredito nisso.

— Eu não aprendi, é verdade — Sofía afirmou sorrindo demais também — E também, tenho medo de mergulhar, dei uma surtadinha, você viu?

— Vi, mas se acalmou e seguiu o mergulho, sem pedir para subir. Me ajuda a entender, por qual raio de motivos você faz tanta coisa na água se não aprendeu a nadar?

— Ah, Angra, eu preciso fazer as coisas que tenho medo, justamente para ver se deixo os medos para trás. Eu surfo porque tenho medo de me afogar, eu mergulho porque tenho medo de parar de respirar. E então, são as mesmas respirações da yoga, já notou? A respiração certa para mergulhar exige a mesma disciplina das respirações da yoga...


Angra olhava para ela.


— Você faz as coisas que tem medo porque exigem coragem. Eu faço exatamente o contrário. Se não tenho coragem, não me movo. Se parece incerto, eu não faço.

— Você pula do teto do iate... — Disse, arrancando aquela gargalhada gostosa dela — Isso exige coragem...

— É diferente.

— Não ter medo também é uma forma de coragem.


Era o tipo de coisa que ela dizia e que fazia Angra pensar.


Terminaram a tarde assistindo ao pôr do sol, dividindo uma prancha de stand up numa proximidade cada vez mais intensa. Quando viu, Sofía estava sentada entre as pernas dela, quando percebeu, estava com os braços de Angra em volta de si e era bom, era gostoso, não podia negar. Nem que havia gostado, nem que havia procrastinado para que durasse mais.


Por isso, decidiu jantar com todo o grupo aquela noite, mas o vinho seguia só sendo delas. Era um grupo bem diferente aquele que estavam, tinha mergulhadores, turistas em busca de paz, outros só em busca da experiência em alto mar ou na experiência sem celulares. Eram obrigados a interagir desta forma, obrigados a conversar mais, a se conhecerem, como pessoas normais fazia há tempos. E foi, quando de repente, tudo evoluiu para uma festa improvisada. Havia dois casais em lua de mel a bordo e quando a primeira música romântica surgiu, o vinho os convidou a dançar.


E o vinho chileno convidou Angra a fazer o mesmo.


Ela bebeu um último gole, atravessou o convés, e tirou Sofía para dançar.


— Angra...


A puxou de qualquer forma, a fazendo girar antes de trazê-la para os seus braços, passando a balançar com ela de um lado a outro... Era mais uma noite estrelada, bonita, de mar ronronando suavemente.


Go play your video game... — Ela sussurrou a letra no seu ouvido, sem se importar com o tom de bronca de Sofía, que relaxou. Passou os braços pelo pescoço dela e simplesmente relaxou, encostando o rosto em seu ombro, esquecendo da vida por um instante — It's you, it's you, it's all for you... Everything I do...

I tell you all the time... — Sussurrou junto com ela, porque adorava aquela música.

Heaven is a place on earth where you... Tell me all the things you want to do... I heard that you like the bad girls honey, is that true? — Cantou aquela parte perguntando, brincando, sorrindo: “Eu ouvi que você gosta de bad girls, querida, isso é verdade?”.

— Será que eu gosto?

— Eu acho que explica algumas coisas... — Angra a manteve em seus braços, confortavelmente, como se tivesse conduzido garotas em danças a vida inteira — A minha proximidade incômoda? Fisicamente?

— Angra, não é um incômodo...

— Mas prefere que eu me afaste?


A sedução. A voz densa era uma sedução, os olhos nos seus também, o tanto que era cheirosa e delicada, Sofía nem sabia. Não queria que ela se afastasse, nem um pouco e Angra entendeu. Voltou a mantê-la muito perto, agarrada em sua camisa enquanto dançava com ela dentro de uma outra realidade, dentro daquele momento no mundo, que permitiu que a tivesse tão perto de si assim.


Foi dormir com cada minuto passado com ela, grudados na sua cabeça e Angra não fazia ideia do que estava acontecendo consigo.


O último dia em alto mar chegou e elas não quiseram fazer muita coisa. Acordaram cedo, instintivamente, como acordaram todos os dias desde quando começaram a se falar. Foi um dado interessante que Sofía notou. Tomaram café juntas, se descobriram mais algumas coisas, além dos carros velozes, Angra era apaixonada por música, adorava tocar como DJ de vez em quando e Sofía era blogueira, era freelancer, costumava viajar pela Colômbia fazendo matérias encomendadas por sites de turismo, e trabalhava em um roseiral!


— Como é que você não me conta uma coisa dessas?!

— É que... Não sei, a gente fala de tanta coisa, faltou isso, eu acho. Eu trabalho num roseiral em Cartagena, foi minha primeira formação técnica, ainda no Rio, em botânica. Não é nada fixo, sou botânica freelancer, por assim dizer, é mais... Pelo tanto que é bonito. Desde a plantação ao tempo certo que os botões abrem, às milhares de combinações possíveis, nos arranjos, nas fotos. Isso... Me acalma. Me faz relaxar, me deixa pensar melhor nas coisas.


Angra a olhava.


— Você é tão sofisticada.

— Você é sofisticada! Não sabe nada simples...

— Pode ser simples, mas tem que ficar bonito, vai — Respondeu sorrindo.

— Eu gosto disso.

— A gente combina nisso também.


E o também fazia muito sentido. Muito sentido mesmo.


Almoçaram com o grupo, mais conversas, mais clima bom, elas adoravam ficar com o grupo, mas nada superava o quanto adoravam ficar juntas sozinhas. Ficaram no mar a tarde inteira, com Angra mergulhando do teto do iate, fazendo o coração de Sofía disparar todas as vezes, mais risadas, mais conversas infinitas e absolutamente aleatórias. Voltaram para o barco e a cor na pele das duas estava incrível, Sofía muito morena, Angra muito dourada, tomaram um banho rápido e quando Angra saiu da sua cabine, Sofía estava na popa do iate. De bermudinha curta, top, camisa xadrez preta e amarela por cima, amarelo era a cor dela, definitivamente era. E, a energia incorria entre elas, era assim e seguia acontecendo o tempo todo.


Angra tocou a cintura dela por trás, quase que por instinto irresistível. Sofía fechou os olhos e apertou os lábios. Estava demais, precisava acalmar.


— Vem pra rede — Angra lhe pediu.


A rede eram duas, vazadas, formavam uma cama que flutuava onde dava para ver o azul perfeito do mar abaixo de onde se deitava. Angra a pegou pela mão, pegou um cobertor, um travesseiro e a levou para a rede, o sol iria se pôr em breve, queria assistir dali com ela. Arrumou tudo, de maneira confortável, o sol já estava amenizando, um vento friozinho existia, deitaram-se perto uma da outra porque era inevitável, a rede não era tão espaçosa assim, mas a verdade, é que tinha algum espaço, a verdade é que enquanto o sol descia no mar, elas foram ficando mais próximas e mais próximas, até que, o peito de Angra pareceu o lugar mais confortável do mundo...


Deitou-se no peito dela e a pele queimou contra a dela, naquela camisa branca que ela estava usando, que acabaria manchada de batom, inevitavelmente. Pegaram no sono assim, Sofía no peito de Angra, com a perna passando por cima da dela, um corpo muito encaixado no outro, os braços de Angra a cobrindo, a protegendo, a mão de Sofía no colo dela, agarrada na sua camisa, adormeceram assim e quando Angra acordou, estavam ainda mais agarradas.


Sofía tinha virado e Angra tinha a seguido, estava dormindo colada nela, com a parte baixa de sua cintura contra os quadris dela, o que lhe causou... Um arrepio. Assim que percebeu. Ela estava sobre o seu braço esquerdo, agarrada em seu outro braço, estava cheirosa, geladinha e Angra não fazia ideia...


Do que estava se passando. Do que estava sentindo. Tanto não fazia ideia que esperou que ela acordasse sozinha, queria que aquele momento durasse mais, que senti-la tão perto durasse mais. Era bom, era gostoso. Senti-la tão perto, a pele macia, o perfume gostoso e aquela vontade que estava consumindo tanto, vibrando tanto, pulsando demais. Angra já havia se sentido atraída assim por outras mulheres antes, mas nada que durasse tanto, nada naquela intensidade, nada que começasse na sua mente para então percorrer o seu corpo...


Ela despertou um tempinho depois, virando-se nos seus braços, fazendo o momento durar um pouco mais e depois pediu que Angra seguisse na rede, iria preparar algo na cozinha e não queria perder aquele espacinho para elas duas. Ela foi e voltou em seguida, tinha conseguido fazer um espaguete ao pesto, para ser acompanhado pela última garrafa de vinho chileno que tinha. Jantaram assim e o momento de entrarem demorou, ficaram lá fora um pouco mais, perto mais um pouco e Angra...


Foi levá-la na porta da cabine mais uma vez e uma vez mais, ficaram perto demais, mais uma vez, Angra a cercou com os seus braços e Sofía...


Sofía não aguentava mais seu corpo reagindo daquele jeito. Fazia muito tempo que não acontecia, aliás, nem tinha certeza se... Já tinha se sentido assim. Este tipo de atração, que ia além do físico, que ia... Para dentro da mente. Era isso, Angra estava mexendo com a sua mente.


— Eu quero dormir com você...

— Angra, não diz isso...

— Eu quero, você sabe que eu quero. Sofía, você pode ter outras intenções comigo e deve estar me achando maluca por estar dizendo isto para você, mas...

— Angra, não diz mais nada — Colocou os dedos suavemente na boca dela — Não diz mais nada sobre isso. Eu tenho que cuidar de você, entendeu? Você não vai se perdoar se... Não vai.


Angra apertou os lábios olhando para ela. Sabia que ela tinha razão, mas ao mesmo tempo... Ao mesmo, abriu a porta da cabine dela e ao mesmo tempo, Sofía avançou, e a encostou contra a parede.


Um metro para trás e encostou Angra contra a outra parede do corredor, fazendo os pensamentos dela darem uma travada, uma confundida e subitamente, toda a sua atitude confiante de antes, desapareceu quando percebeu a boca de Sofía encostando em seu pescoço... Os lábios suaves lhe tocando a pele, causando arrepios, sentiu seus seios enrijecendo imediatamente e pulsações disparando pelo seu corpo inteiro... Os lábios tocando, deslizando, a língua suavemente lhe tocando, e Angra a agarrou pela cintura, a mantendo perto, porque seu corpo pedia, seu tesão pedia e então, sua respiração simplesmente parou quando percebeu os dedos de Sofía delicadamente, abrindo os botões de sua camisa branca...


— Sofía... — Sussurrou, com o coração atordoado e disparado demais. Devia estar vermelha e trêmula, sentia seus músculos todos tremulando sem controle.


E Sofía... Sofía estava calma, tranquila, as mãos agarradas em sua camisa e a boca ainda provando seu pescoço.


— A gente vai desembarcar de manhã, você vai para Prado, eu vou para Porto Seguro, e então, vou pra casa... — Foi deslizando a camisa pelos braços de Angra, a deixando apenas de top Tommy Hilfiger, arrepiando em pele contra a pele dela...

— Vai voltar para o seu casamento?

Nós vamos — Tirou a camisa do corpo dela, e se afastou, um passo para trás, sentindo o perfume gostoso que estava na camisa e o tesão de Angra disparado em manchas vermelhas pela pele dela. A queria. Seu coração e sua calcinha podiam contar igual o quanto a queria, mas não podia — Eu fico com isso. Com tudo isso — Se referiu a elas duas.

— Sofía...


Sofía a puxou pela nuca e lhe beijou no pescoço outra vez, e então no rosto, no canto da boca dela, apegado e longamente... Tão perto, que Angra dormiria aquela noite, com o gosto do beijo dela exigindo existir na sua mente.


— Vai dormir, Angra. Por favor. Vai dormir.


E assim, Sofía a protegeu de si mesma.


Se despediram no dia seguinte, num café da manhã de volta a Caravelas. Outro assunto longo, outra vontade de não separar, mas era inevitável e as duas sabiam disso. Antes do meio-dia, partiram de ônibus e em direções diferentes, Sofía vestida na camisa branca de Angra, Angra com a camisa amarelo-xadrez de Sofía, amarrada em sua cintura.


Chegou assim na pousada, onde estavam as suas pessoas e agradeceu muito quando a única presente na sua chegada, tinha sido Carolina.


Angra estava tão agitada que Carolina fez questão de tirá-la do hotel, de irem para outro lugar, tomar um café, voltar a si, entender o que tinha acontecido.


— Angra, vocês...?

— Não, claro que não, quero dizer, não tão claro assim, já que...

— Você queria alguma coisa.

Angra lhe olhou nos olhos:

— Algo que eu nem sei o que é direito. Só sei que... Talvez eu quisesse. Essa alguma coisa que... Eu não sei, Carol.

— Eu sei, Angra. Ela abalou você.

Abrolhos, abra os olhos.

— O quê?

— Não sei. Eu acho que abri os olhos.


E Sofía voltou para a Colômbia com a sensação de que havia aberto os olhos e que talvez, nunca mais pudesse fechá-los novamente.



Notas da Autora:


Olá, meninas!


Espero encontrá-las todas bem e ansiosas para o nosso segundo capítulo! Depois do capítulo de abertura, temos aqui o nosso primeiro capítulo em flashback, algo que será uma constante durante esta história. Tendo encontrado Angra e Sofía em 2020, se fez necessário entender onde exatamente essas duas almas se encontraram e qual o impacto carregado daquele primeiro encontro até o último: o encontro na casa de Búzios.


O que acharam? Estou ansiosa para saber a opinião de vocês!


Meninas, um aviso importante: nosso site atualizou para uma nova versão e assim, estamos tendo alguns problemas com e-mails sendo disparados. Se você está recebendo e-mail cada vez que alguém comenta aqui na história, por favor, rolar a página até o final de tal e-mail e clicar em “atualize suas preferências de e-mail”. Abrirá a página do seu perfil, onde em “configurações”, você pode escolher que e-mails quer receber 😉.


Ademais, seguimos com a nossa meta! 50 comentários até às 23:59 da quinta-feira, para termos capítulo novinho e inédito liberado na sexta! Conto com vocês!

Abraços!

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