Capítulo 1: Delirium - Para matar a saudade :)



Nassau, Bahamas.


O calor era visível. Ondas derretidas erguiam-se do asfalto barato na cidade baixa de Nassau, ilha-capital das Bahamas. Era verão alto e aquele um dia especialmente quente, o tempo parecia parado, não havia vento, nem nuvens no céu. E nem esperança. Não parecia um dia bom para se ter esperanças. Deveria ser por isso que mentalmente, Diana se recusava a tê-las.


Diana caminhava por aquelas ruas sujas e perigosas enquanto sentia seu corpo inteiro se desfazendo em suor por baixo de suas roupas. O jeans da calça parecia queimar em sua pele, a camiseta branca também não parecia ajudar, enrolou os longos cabelos castanhos num coque improvisado e discretamente olhou em volta, com total consciência de que era impossível se misturar aos locais. A etnia negra reinava pela população, sem falar da proximidade, todos pareciam se conhecer naquele pedaço de periferia que fazia parte de um lado obscuro das Bahamas que apenas os locais conheciam. Diana via os cumprimentos, as risadas, a fala alta repleta de um sotaque quase cantado, havia uma poluição auditiva, uma mistura de música e vozes além da enorme profusão visual feita de cores brilhantes e descascadas pela pobreza, mas que não deixavam de ser alegres.


São um povo alegre os bahamianos, ela podia ver, tal como também podia ver o lado criminoso da maioria das cidades baixas. Viu crianças pequenas correndo para uma moça que chegava em casa, e então viu a mesma moça cumprimentar sorridentemente um homem na casa vizinha, que veio flertar com ela segurando uma arma de fogo. Por ali, armas eram comuns como as bicicletas que cruzavam o seu caminho o tempo inteiro. Viu um movimento de venda de drogas mais à frente, viu uma garota numa bicicleta antiga respondendo ferozmente aos “elogios” de um grupo que fumava maconha em seu caminho, viu um cachorro de rua revirando o lixo, e viu uma feira-livre mais à frente. Diana havia sido treinada para ver o máximo de coisas possíveis, e havia sido treinada para mais. Para bem mais. Sentiu a arma presa em sua cintura, o colete a prova de balas apertando seu peito. E silenciosamente, pediu que houvesse sido treinada o suficiente para o que estava por vir.


Caminhou para a feira. Um grupo de garotos passou correndo, jogando futebol, descalços, sem camisa e molhados, havia uma praia ali perto, sabia, ao pé do morro que estava subindo. Parou num homem que sorria com poucos dentes para mostrar, ele vendia laranjas geladas numa cuba velha cheia de água, uma vez que o gelo que deveria estar ali já havia derretido. Comprou duas laranjas, tirou um canivete do bolso e arrancou parte da casca da fruta e começou a comê-la sedentamente. O calor a mataria antes de qualquer outra coisa. Encostou-se numa barraca para respirar um pouco e varreu a área com os olhos outra vez. A feira estava cheia, e ela voltou a caminhar, vegetais eram vendidos numa banca, frutas em outra, galinhas brancas cacarejavam numa gaiola. Fez contato visual com um de seus parceiros que jogava sinuca num bar logo ali, Augusto se misturava aos locais muito melhor do que ela, não importava, seguiu andando. Descartou o que havia sobrado da laranja e cortou a outra ao meio, espremendo seu suco direto na boca. E foi quando o viu. O homem com a cicatriz no rosto. Era ele. Era claro que era ele. Diana manteve seus olhos nele e discretamente acionou seu comunicador.


— Suspeito ao meio-dia. Permissão para prosseguir.

— Concedida. Agente Ferraz, mantenha distância segura.


Distância segura. Se realmente quisesse segurança, teria ficado em Brasília, não se abalado até uma perigosa periferia caribenha. O colete a prova de balas grudava em seu corpo, a tensão em sua mente e ela começou a suar ainda mais. Limpou a testa, descartou a laranja e se pôs a seguir o suspeito. Ele usava uma camiseta vermelha barata de malha vazada, mascava tabaco e tinha a mochila preta nas costas. Duzentos mil dólares. Em notas de cem. Havia sido a exigência dos sequestradores. A mochila deveria ser deixada num determinado ponto numa praia desabitada, um agente sozinho deveria levar a mochila, antes do amanhecer. E então deveria ir embora. Nada de agentes disfarçados, nada de rastreadores, nada de surpresas. Ou a garota morria. E o vídeo que haviam enviado da moça sendo espancada deixava claro que não estavam brincando.


Só de pensar na expressão no rosto dela Diana já sentia profundamente. Ela não gritava, não implorava, apenas lagrimava, inerte, em silêncio, como se estivesse com medo até de sofrer. Diana não pode assistir até o final. Uma moça indefesa sendo brutalmente espancada por dois homens enormes, não, era muito para ela. E quando a família decidiu pagar o resgate, Diana temeu que as polícias tentassem alguma coisa que colocasse a refém em mais perigo ainda. A Polícia Federal Brasileira estava trabalhando em conjunto com a Polícia das Bahamas uma vez que a moça em cativeiro possuía dupla nacionalidade: era bahamiana e brasileira.


Havia sido sequestrada no Rio de Janeiro onde residia e sido trazida para as Bahamas, da onde os sequestradores enfim, haviam feito contato. A família estava desesperada e disposta a tudo para ter a moça de volta. Inclusive, aceitou pagar o resgate sem pensar duas vezes. E agora Diana estava ali, seguindo aquele homem, com duzentos mil dólares na mochila. Ele olhou de um lado a outro e dobrou a esquina, sem sequer desconfiar de que estava sendo seguido. A paisagem começava a mudar por ali, mais casas, mais barracos, o asfalto tornava-se raro e dava lugar a terra batida. A vegetação parecia invadir a rua, bananeiras, árvores maiores, mato. As roupas balançavam nos varais dos quintais sem cercas, casas de madeira e concreto misturavam-se numa coesão confusa, o homem cumprimentou dois outros homens rapidamente e dobrou outra vez, agora para um beco estreito e cheio de barracos.


E bem mais deserto.


Diana parou, sentindo seu coração acelerar no peito.


— Agente Ferraz, responda.


Mas Diana não ouvia. Só via. Só o via.


— Agente Ferraz já temos a sua localização, não prossiga, a equipe de terra já está se movimentando.


Nenhuma resposta. Estava quente demais, externamente quente, internamente quente, Diana sentia sua boca secando, sentia o ar tornando-se raro, olhou de um lado a outro e jogou o suor de sua testa, puxando a respiração profundamente, tentando se desafogar. Sentia como se sua mente estivesse inchando dentro de sua cabeça e quando aquela sensação a tomava, apenas uma coisa costumava vir em seguida:


Delirium.


Diana arrancou o comunicador do ouvido e se recusou a ceder. Aos seus superiores, e a sua própria mente. Algo lhe dizia que ela deveria seguir, quando avistasse a equipe de terra deixaria de segui-lo, era isto, continuaria até avistar sua equipe, até ter certeza que eles estavam ali, havia sido treinada para ter instintos e seu instinto agora lhe dizia para seguir. E Diana seguiu. Olhou de um lado a outro e continuou atrás do sujeito, mantendo a distância segura, vez ou outra ele olhava para trás e ela disfarçava, sumia de vista e então permanecia atrás dele. Os passos dele eram lentos, relaxados, ele cuspiu o tabaco que mascava e tirou mais do bolso da bermuda, recebeu um telefonema, que ele atendeu descontraidamente, e quando desligou, ele caminhou um pouco mais e entrou num beco escuro e apertado. Diana esperou que ele se distanciasse um pouco mais e então, entrou atrás dele.


O local era um aglomerado de barracos de madeira, tão perto uns dos outros que a luz do sol mal passava pelos telhados improvisados, parecia uma vila abandonada ou algo do tipo. O homem pegou um corredor coberto pela vegetação entre duas fileiras de casas, a mudança de claridade brincou com os olhos castanhos de Diana e de repente, sua visão turvou, ela perdeu o equilíbrio por um instante e...


Pisou em falso, sobre galhos secos que partiram ao meio, fazendo um estalo que se propagou pelo eco do vazio se transformando num enorme barulho.


— Quem está aí? — Perguntou o homem ameaçadoramente, olhando para trás no mesmo instante. Mas ele não viu nada. Não havia ninguém por ali— Quem está aí? Eu só vou perguntar mais uma vez!

— São os ratos, nigga, a merda deste lugar está cheia de ratos — Respondeu um segundo rapaz tranquilamente ao se aproximar dele. Alto, negro, com uma submetralhadora na mão — Eu não vejo a hora de sair daqui, o magnata pagou a grana?


E o homem com a cicatriz relaxou ao ouvi-lo mencionar o dinheiro.


— Eu não conferi, mas tem tanta grana dentro desta mochila, irmão, que eu acho que eles só podem ter pago tudo!

— É disto que eu estava falando! — Ele vibrou efusivamente ao trocar um abraço com o homem de cicatriz no rosto— Aquela vadia vale uma fortuna, eu disse que valia! Os caras obedeceram, fizeram tudo como foi mandado?

— Tudo, o dinheiro tava lá, a área tava limpa...


E eles seguiram por aquele corredor, falando em gírias próprias que pouco se podia entender, e Diana respirou fundo atrás da coluna onde havia se enfiado, sentindo seu coração bater na garganta. Havia sido por pouco, por muito pouco. Aquela coisa que andava sentindo... Como poderia continuar assim? Havia começado há algumas semanas. Primeiro eram apenas dores de cabeça, que logo evoluíram para tonturas, e então, para algo mais esquisito. Diana delirava. Ouvia vozes que não estavam ali, via coisas que não existiam, sua mente parecia queimar dentro de seu cérebro e então era como se ela entrasse em curto, e era quando apagava. Desmaiava. E quando voltava a si, pouca coisa fazia sentido. Mas, o que andava fazendo sentido em sua vida? Tudo estava acabado, estava obscuro, estava à deriva. Era como sentia-se. À deriva de seus próprios problemas. E agora naquela condição da qual nada sabia.


Enfiou a mão no bolso buscando um frasco de comprimidos, e junto com o frasco, veio uma determinada foto amassada. Por quantas vezes já havia olhado para aquela foto? Não sabia, mas parou olhando para ela mais uma vez. Os olhos dela. Ela tinha lindos olhos verdes claros, que sorriam de maneira preguiçosa, mas sorriam. Rhian Keir Laham. Vinte e sete anos, estudante de medicina, uma das herdeiras da Keir-Vertical, que despontava como uma das maiores empreiteiras do Brasil. Havia sido sequestrada enquanto saia da faculdade e agora estava ali, em algum lugar, em pânico, sendo maltratada, deveria estar machucada, sentindo dor, assustada, e podia estar perto, podia estar muito perto... Diana se acalmou. Segurou sua mente e seu discernimento e tomou dois comprimidos, em seco, olhando para a foto mais uma vez. Rhian. Ela estava ali. E Diana iria encontrá-la.


Guardou a foto no bolso e empunhou sua arma. Deu uma olhada no corredor, ainda podia ver os homens, eles estavam falando e caminhando, gesticulando, rindo, e quando pegaram outro corredor, Diana voltou para o encalço deles, com o dobro de cuidado, agora olhando para frente e para o chão, vendo bem onde pisava. Estava ficando ainda mais quente, as paredes pareciam ainda mais apertadas ali e Diana começou a ouvir um reggae numa voz feminina tocando no último volume em algum lugar.


O vídeo. No vídeo em que a refém era espancada um reggae tocava bem alto. Era o cativeiro. Diana simplesmente soube. Era o cativeiro.

A maldita da música alta.


Rhian já não suportava. Havia se acostumado com a comida de cachorro que lhe serviam, com os tapas que recebia, com as obscenidades que eles lhe diziam, havia até se acostumado a dormir na cadeira em que ficava amarrada a maior parte do tempo, mas não conseguia se acostumar com a maldita da música alta que tocava vinte e quatro horas por dia. Uma rádio de reggae. Costumava gostar de reggae, mas não sabia se conseguiria se curar daquele trauma. Ou de qualquer um dos outros que tinha. A verdade é que Rhian sequer fazia ideia se conseguiria sair dali e depois de tudo o que já havia passado se perguntava se faria diferença. Se o esforço valia. Respirou bem fundo e o ar era quente, era sufocante. O calor era outro carrasco. O cativeiro era uma sala minúscula de 2x2, cuja a única janela havia sido fechada rusticamente com tábuas de madeira. Seria meio-dia ou três da tarde? Uma faixa de sol entrou por uma das frestas entre as tábuas e iluminou a linha de seus olhos, os deixando mais claros ainda. Rhian tinha uma marca roxa no olho direito, tinha um lábio partido e sua pele amendoada brilhava açoitada pelo calor mostrando outras marcas de violência, criando nuances naquele cenário monótono e obtuso.


Respirou fundo mais uma vez. Havia uma garrafa de água a meio metro de seus pés. Como gostaria de um gole de água. Um que fosse. Rhian estava esgotada. Estava amarrada a aquela cadeira haviam horas, e presa naquele lugar faziam dias. Seus longos cabelos que quase alcançavam sua cintura estavam soltos e desgrenhados, sentia o jeans de sua calça aderindo a sua pele e a camiseta preta lhe queimava, como se fosse feita de fogo. Estava com sede. Estava com medo. E com raiva. Estava com muita raiva.


Ouviu a porta se abrindo e pode ver ele entrando de volta. Ele, o líder de seus sequestradores. Eles eram quatro, mas aquele era o que Rhian odiava mais. Javani. Achava que era o nome dele. Um pingente de ouro brilhava no pescoço dele, “Keir”, formavam as letras. Ele sorriu para Rhian. Um sorriso descarado, cínico, teriam pago o resgate? Ah disso ela não tinha dúvidas. O homem com a cicatriz no rosto entrou em seguida. E ela soube que era a hora.

Diana havia visto em qual quarto o homem da cicatriz havia entrado, o outro homem voltou para vigiar e Diana entrou no quarto ao lado, com cuidado para não fazer ruídos. Buscou por uma fresta segura na parede e quando olhou através dela, encontrou a refém. E foi como se alguém agarrasse o coração de Diana e o apertasse entre os dedos.


Ela estava amarrada numa cadeira, de costas para o campo de visão de Diana, os cabelos soltos grudando em sua pele suada, marcas de dedos em seus braços, os dois homens estavam ali, falando, comemorando o resgate pago, enquanto a refém estava presa à cadeira, amarrada. Ou melhor, estava presa à cadeira fingindo estar amarrada.


Diana mudou de fresta na parede, aproximando a visão para ter certeza do que via, Rhian estava com os punhos para trás, com um gargalo de garrafa escondido entre as mãos, já havia cortado a corda que lhe prendia os pulsos, no que ela estava pensando? Estava desesperada, é claro que estava desesperada. Diana buscou sua escuta, a pondo de volta em seu ouvido, os homens a ouviriam se ela falasse? A música estava tão alta. Passou a mão pelos cabelos, respirando profundamente, o calor estava escaldante e a adrenalina pulsava em suas veias de uma forma alucinante, o que podia fazer? Ouviu em seu transmissor, havia uma equipe se aproximando, o resgate estava pago, e aquilo não parecia combinar. Resgates pagos costumam terminar tão mal quanto os não pagos. E era isso o que Diana mais temia.


O final ruim.


— O dinheiro está aqui, irmão, o que acontece agora? — Perguntou o homem da cicatriz no rosto.

— Agora é só seguir a ordem— Respondeu Javani tranquilamente.

— E qual é a ordem?


E o líder empunhou uma submetralhadora e olhou para Rhian.


— Matar a vadia.


E o coração de Diana congelou ainda que houvesse se acendido um incêndio em seu peito. E em sua mente.

Diana enfiou o pé na porta do quarto onde se escondia e disparou dois tiros em direção ao corredor, ao mesmo que escondeu-se em outra parede e acionou seu comunicador.


— Refém sob fogo, repito, refém sob fogo!


E os homens olharam para fora, tendo sua atenção capturada pelos tiros enquanto uma ordem inesperada estourou no ouvido de Diana.


— Agente Ferraz, se afaste da refém, se afaste da refém!


E antes que Diana pudesse pergunta por quê, tudo aconteceu.


Rhian se libertou da cadeira e agarrou o punho do homem que lhe apontava a arma com um golpe seco invertendo o braço dele e rapidamente enfiou o gargalo de garrafa em seu rosto. O homem berrou de dor, desorientado e ela o acertou com uma cabeçada, enroscando a mão pela alça da arma, tirando a arma do domínio dele e trazendo para si e foi quando o homem da cicatriz reagiu e no mesmo movimento, ela acertou o nariz dele com o cabo da submetralhadora e o acertou entre as pernas. Ele sentiu os golpes mas resistiu, era um homem enorme e forte, ele agarrou o punho dela que segurava a arma e ela enfiou as unhas no rosto dele, profundamente, lhe arranhando os olhos, a maxilar, o fazendo gritar de dor e foi quando a submetralhadora disparou erraticamente, Diana abaixou-se no chão para se proteger, e o homem empurrou o rosto de Rhian, tentando engasga-la, desarma-la, ela lutou, lutou e mordeu a mão dele, ferozmente, até ele perder a força.


Ele a soltou, em pura dor e ela girou o corpo, o acertando nas costelas, passou por baixo dos braços dele, pegou a cadeira e o atingiu em cheio na cabeça. O homem da cicatriz caiu no chão, mas Rhian foi agarrada pelas costas, por Javani cujo rosto sangrava abundantemente. O gargalo havia entrado em sua testa, em seu olho, mas ele se recuperou e uma intensa luta física aconteceu. A arma disparou novamente, e o homem conseguiu dominar Rhian ao empurra-la violentamente contra a parede. Javani arrancou-a do chão, segurando-a pela garganta, os pés da refém saíram do piso e ela viu o ódio naquele rosto que ela mesma havia cortado. Rhian debatia-se, tentando sair, sentia os músculos dele pulsando de raiva e dedos dele afundando e afundando em sua garganta e foi quando...


Um tiro. Um tiro acertou Javani certeiramente.


O homem soltou um gemido seco e os pés de Rhian voltaram para o chão. Ele ainda tentou dizer alguma coisa, mas não conseguiu, apenas inclinou-se para frente e em câmera lenta, foi desabando sobre ela. O mundo voltou a girar rapidamente e aquele homem enorme caiu sobre ela e quando ela se percebeu presa sob ele, empurrou-se para trás, de imediato, ele estava morto? Afastou-se mais, soltando a arma, encostando-se na outra parede com o coração disparado e a respiração trêmula e ofegante. Havia o matado, será que...? E ela era tão bonita que o delírio de Diana parecia ter mudado de cores... Olhou-a um pouco mais. Ela parecia assustada, mas, aliviada.


Porém, não deve ter levado um segundo.


E o medo partiu daqueles olhos que tanto encantavam Diana.

Diana já estava pronta para avisar que o cativeiro estava sob controle quando a refém se pôs de pé, calmamente. Pegou a garrafa de água, ainda intacta no chão, e a bebeu, olhando para o estrago que estava feito. Dois homens ao chão enquanto o reggae seguia tocando. Chegava a ser poético para ela. Bebeu a água até o final e deixou a garrafa de lado, caminhando até o homem da cicatriz desmaiado num canto. Custosamente, num esforço enorme, virou o corpo dele e pegou a mochila que ele ainda tinha nas costas. Abriu a mochila, e encontrou todo o dinheiro, então era aquilo que valia? Nem perto, nem perto do que realmente valia.


Retirou uma quantia de dinheiro de lá e rapidamente, empurrou por entre as tábuas da janela. E Diana tirou a mão do botão do comunicador, olhando-a, tentando entender. A refém fechou a mochila, a colocou nas costas, e então se dirigiu ao segundo homem, buscando algo na cintura dele, encontrou, um revólver menor, o qual pegou e já testou a empunhadura. Serviria. E por fim, arrancou a corrente do pescoço dele, o chutando com ódio e desdém em seguida. E então ela respirou fundo outra vez, jogou os longos cabelos para trás, os olhos de Diana seguiam a acompanhando pelas frestas na parede, a refém checou se a arma estava carregada, e rapidamente, saiu pela porta. Saiu, e voltou de imediato.


— Parada, parada ai! Policia Federal Brasileira, mantenha-se parada! — Gritou um agente que fechava uma das saídas dos corredores com um revólver empunhado — Saia com as mãos onde eu possa ver!


Mas o que estava acontecendo? Também não houve tempo de Diana fazer ideia. A moça tomou uma longa respiração. E tomou uma decisão.


A refém surgiu no corredor com a arma empunhada e enquanto o agente ordenou novamente que ela ficasse parada, ela atirou.


Certeiramente, direto no ombro dominante do agente, que cambaleou para trás, deixando a arma escorregar de sua mão, e então, Rhian disparou correndo, não para longe, mas sim, na direção dele.


— Mas o quê, o quê...?


Rhian bateu de ombro contra ele, como quem arromba uma porta, o agente voou para trás impetuosamente, quebrando as tábuas podres que fechavam outra janela e os dois foram atirados para fora, caindo violentamente do lado de fora. Diana saiu no corredor, ainda não acreditando no que estava vendo e menos ainda entendendo. E o comunicador estourou em seu ouvido mais uma vez.


— Homem ao chão! Homem ao chão, o alvo está escapando!

— Mas... Ela é a refém! — Diana enfim respondeu, saindo de seu estado de perplexidade, correndo para a janela quebrada.

— Ela é o alvo, Agente Ferraz, repito, ela é o alvo!

O alvo? Mas como ela podia ser...?

— Atrás dela Diana, vai atrás dela! — Gritou o agente baleado no chão.


Diana saltou pela janela e disparou atrás dela sem pensar em mais nada. Havia uma enorme mata por ali, a moça desfechou correndo para o sul, com o revolver em mãos, saltou por cima de uma cerca caída e embrenhou-se, correndo rapidamente, velozmente, cortando caminhos, desviando de galhos, quebrando vegetação morta ao chão e Diana pegou a trilha dela, correndo o mais rápido que podia, sentia o revólver deslizando por suas mãos suadas e sua mente começou a apertar outra vez. Relâmpagos brilhavam, apagavam e Diana lutava para se trazer de volta, para manter sua visão, sua audição, pronto, perdeu-a, para onde ela havia ido? Se recuperou, olhando de um lado a outro e galhos mexeram-se contando para onde a refém estava ido.


Disparou em direção a ela novamente e então refreou-se, se deparando com um enorme declive de solo por onde a fugitiva já escorregava habilidosamente, vencendo a descida íngreme, era um morro, ela estava descendo. Diana escorregou atrás dela que já desfechava correndo outra vez, tão imersa em si que sequer notava que estava sendo seguida, o comunicador escapou do ouvido de Diana, mas ela podia ouvir os outros por perto, a equipe já estava na mata espessa, e foi quando a dor aguda irrompeu em sua cabeça e Diana só pediu que não acontecesse agora, que não acontecesse naquele momento...


— Ela sumiu! Ela sumiu! — Berrou o detetive furioso — Nós a perdemos de vista! Quem a tem? Quem a tem?!


Bem, Diana a tinha.


— Pare onde está! — Ordenou, com sua arma apontada para ela.


E ela parou. Ao seu comando, ela parou. Foi inesperado, na verdade Diana não esperava que ela parasse. Mas ela parou. Parou e ergueu a mão esquerda, mostrando a arma que tinha. Diana respirou ofegantemente, suas terminações nervosas fagulhavam e ela não tinha certeza do que tinha que fazer em seguida. Talvez por isso, a fugitiva tenha feito. Soltou a arma, deixando-a cair ao chão e, falou com Diana.


— Eu vou me virar.

— Não, fique onde está!

— Eu vou me virar — Ela insistiu e já bem lentamente, foi virando-se de frente. E os olhos de Diana encontraram aqueles lindos e preguiçosos olhos verdes... E seu coração disparou de uma forma que temeu que a refém pudesse perceber. Como Diana podia fazer aquilo? Havia algo de errado. Diana podia sentir que havia. E o problema é que sentia tantas coisas mais... — Vai atirar em mim? — Ela perguntou, sem tirar os olhos de dentro dos olhos castanhos de Diana. Ela não quebrava o contato visual.

— Não se ficar parada— A mantinha sob a sua mira, em empunhadura isósceles, ainda que suas mãos tremulassem. Usou sua visão periférica para se localizar, podia ouvi-los, sua equipe estava se aproximando.

— É a sua equipe ou a polícia daqui?

— Os dois.

— Eles irão me prender, não posso ficar aqui.

— Por que eles iriam querer prender você?

— Por que está apontando uma arma para mim? — Ela rebateu a pergunta a olhando de um jeito... Por que ela estava lhe olhando daquele jeito? Deveria ser porque Diana era uma agente federal prendendo uma vítima de sequestro sem sequer saber o porquê. Os passos se aproximaram, as vozes também e Diana precisava tomar uma decisão.


Tomou.


Instintos.


— Sai daqui, rápido, eles estão chegando.


E sem tirar os olhos de dentro dos de Diana, ela negou com a cabeça.


— Não. Atira em mim.


Diana apertou os olhos sem entender nada.


— O quê? Vai, eu estou dizendo para ir!

— Se quisesse mesmo que eu escapasse não teria me parado. Atira em mim, ou desconfiarão de você.

— Mas...? — Diana ficou nervosa — Vai de uma vez!

— Não, atira em mim— Ela insistiu.

— Não! Eu não vou atirar...

— Então, você tem que vir comigo.


O que ela estava dizendo?!


— O quê? Não!

— Então atira de uma vez. Aqui — Apontou para a coxa — Não irá me matar.

— Mas...! — Ouviu os homens se aproximando ainda mais e foi quando Diana definitivamente, parou de pensar. Baixou a arma e correu, pegando a moça pelo braço — Vai, vai, nós temos que ir agora!


E Rhian pegou o punho dela que tocava o seu braço e elas dispararam juntas, embrenhando-se por aquele caminho estreito e apertado, tudo estava muito seco, a poeira erguia-se pelo caminho e Diana não acreditava, não podia acreditar que estava fugindo de sua própria equipe! Mas estava. E de repente só havia a mão dela em seu punho. Só havia a maneira com a qual estava lhe tocando, o jeito que lhe olhava, não, algo estava muito errado por ali sim, mas não era Diana quem estava errando. Esperava que não. Queria que não. Começou a ouvir os ruídos do mar, começou a sentir uma leve salinação, e começou a senti-la. A sentir apenas ela. Ela lhe puxando pelo braço, escorregando a mão até a sua mão, sempre decidindo o caminho, olhando para trás, olhando para... Diana. Para os olhos de Diana.

— Por que estão perseguindo você? O que está acontecendo?! — Perguntou, sentindo seus músculos das pernas queimando de tanto correr.

— Eu juro que te explico muito em breve, já estamos quase lá — Disse ela, sem parar de correr.

— Lá onde? Rhian, você está louca!

— Ouça, no momento — Ela disse, reduzindo o passo ao virar-se de frente para Diana saindo no descampado de um penhasco, e ali ventava, ventava muito — Você é a louca aqui — Falou Rhian, fazendo o maior sentido. Diana refletiu consigo sentindo sua mente à deriva outra vez, mas fazendo sentindo.

— Eu devo estar louca. Você está certa.

E a resposta pareceu surpreender a fugitiva.

— Não — Ela disse em outro tom, suave e quase culpado lhe tocando o punho mais uma vez — Eu estou errada, eu sempre estou errada, ou fazendo alguma coisa errada... — E olhou naqueles doces olhos castanhos, Diana tinha olhos doces, e que estavam muito, mas muito confusos — Ei, olha pra mim, olha pra mim — Rhian segurou o rosto dela, lhe buscando os olhos — Suas pupilas estão dilatadas e a sua temperatura está... Você está com febre?

— Eu não estou... — Disse, lutando para manter seus olhos abertos enquanto aquela coisa a tomava.

— Ei, não, não, abra os olhos, olha pra mim, olha pra mim...

— Parada! Rhian Keir Laham, ordeno que fique parada! — Exigiu o detetive imperativamente as alcançando ao sair da mata com o revólver empunhado. E foi quando a mente de Diana dissipou-se de vez, e ela pouco poderia contar. Sentia que iria desmaiar, o delírio estava tomando-a, porém Rhian Keir fora ainda mais rápida ao toma-la de si.


A fugitiva passou o braço pelo pescoço de Diana, enquanto com a outra mão, se apossou da arma que estava na mão dela, e Diana não conseguiu ouvir o que sua equipe gritava, ou o que a fugitiva dizia, só sentiu o cano de sua própria arma encostado em sua cabeça. Rhian a tomou como refém e tudo ficou em câmera lenta para Diana, o que todos diziam, o que todos faziam, viu a agitação de sua equipe, viu as armas apontadas, as posições de tiro e então sentiu, sentiu a dor aguda em sua cabeça, sentiu o braço da fugitiva lhe puxando para trás e para trás. O que aconteceria? Ela achava que não ficaria acordada para descobrir.


Rhian a sentiu queimando em sua pele, e sentiu o vento frio do penhasco lhe tocando as costas, perifericamente olhou para baixo, seis, sete metros? Deveria estar mais em baixo, deveria estar sozinha, mas não estava. Rhian segurou sua refém pela camiseta, na parte de trás, e iria devolvê-la, iria chegar bem perto da borda do penhasco e iria empurra-la de volta para a sua equipe, e como acabou levando-a consigo ao invés de devolvê-la, Rhian não saberia dizer. Ou sabia? Sabia. Havia uma razão. E esta razão atendia por...


Saudades.


Notas da Autora:

Olá, moças!

Como estamos?


Meus dias por aqui em isolamento social tem me ensinado algumas coisas, viu? Principalmente no que toca aquela parte sobre obrigatoriamente ter que me tornar mais bússola do que mapa. Não saber bem como será o dia seguinte tem me feito dormir mal, não saber exatamente qual o ritmo correto de se trabalhar em casa também, o peso de cada decisão inesperada e o necessidade de acionar meu eu mais criativo o tempo todo em virtude dos problemas nunca imaginados que ando recebendo haha. E desta forma, como já confessei para vocês lá no Instagram, anda sendo muito difícil conseguir me concentrar para escrever os capítulos finais de 6 AM.


E, em busca do perdão de vocês, aqui estou, trazendo de volta uma história que eu sei que vocês estão morrendo de vontade de reler, uma história que eu recebo muita gente que não leu querendo ler também e aqui estamos, com o capítulo 1 de Delirium a disposição para uma sessão básica de saudades :).


6 AM segue em produção e assim que os capítulos forem ficando prontos, vou postando por aqui e, enquanto isso, prometo uma provinha de Delirium e, de Angra também, a história nova na qual estou trabalhando ^^. Então vamos combinar? Seguimos com a nossa regra de comentários, 25 comentários e liberamos conteúdo novo, seja 6 AM, ou Angra, nossas regras não mudam.


Cuidem-se todas! Vamos meditar nesses dias de caos! Namastê!

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