Capítulo 28 - Angría, Luríca, Carolinka





— Ah, pronto, agora todo dia alguém sai desta casa! Está pior do que eliminação de BBB... — Foi o que Marcela expressou assim que percebeu que Angra também havia ido embora.


A grande verdade é que ninguém esperava que Angra fosse sair assim, e isso incluía a própria Angra.


Estava pensando em tudo isso enquanto dirigia pelo Rio de Janeiro, em direção à fronteira com Minas Gerais. Queria chegar em Minas naquele dia, Estela era o tipo de bebê que adorava andar de carro, a tendo bem alimentada e distraída, ela suportava bem algumas horas retas de estrada. A ideia era dirigir quatro horas, parar para almoçar, para distrair a sua menina e então, mais quatro horas. Se havia necessidade de dirigir tanto assim no primeiro dia? Não. Mas Angra queria. Ir mais longe, se afastar o máximo possível, de Búzios, dos problemas, do seu casamento.


Por um tempo achou que Guilherme lhe seguiria. Mesmo sabendo que não era o perfil dele, achou que ele viria, ou Carolina viria, era quase um sentimento de fuga, que se tornou um choro intenso quando cerca de uma hora depois de dirigindo, se deu conta de que realmente, REALMENTE havia feito aquilo. Teve que parar num quiosque qualquer, parar para se acalmar, para acalmar Estela, ela não estava entendendo nada, mas detestava ver a mãe chorar. Ficou de pé na cadeira, abraçou o pescoço de Angra.


— Mamãe, nós vamos juntas, nós vamos juntas...


Angra a pegou no colo e a abraçou muito forte. Sua coalinha estava apenas dizendo que iriam elas duas no carro e estava tudo bem, mas para Angra significava muito mais.


— Quer pãozinho de queijo, meu amor?

Pãozinho um queijo! Eu quero...


Comprou para ela e pegou um café para si mesma, uma tapioca, o celular na mão pela centésima vez só naquele momento que tinham parado. Queria falar com Sofía e não queria. Queria dizer o que tinha feito e também não queria, porque sair tinha sido o mínimo, não estava com nada resolvido, estava voltando pra casa e o plano ia apenas até aí. Ainda não sabia o depois, como seria quando Guilherme retornasse, como seria quando... Como seria?


Havia acontecido no final da tarde anterior.


Angra havia decidido adiantar as malas para a partida. Abriu o armário, colocou as malas sobre a cama e aquele movimento, por alguma razão, lhe levou direto para o começo da viagem, aquele momento em casa, em que arrumava as coisas e seu coração não conseguia parar quieto no peito só de pensar que veria Sofía novamente. Não culpava Sofía por ter ido embora. Nem naquele momento e nem há seis meses. Mas a culpava por ter ido embora sem lhe dizer nada, abrir aquela porta e entender que ela não estava mais ali, havia sido uma das coisas que mais doeu em Angra em toda a sua vida. Estava tentando resolver, tentando sair do casamento da melhor maneira possível e ter Sofía por perto estava sendo... A melhor coisa que poderia pedir.


Corria para ela a cada segundo livre que tinha. Estavam conseguindo fazer coisas normais, como pegar um cinema, ou ver um filme no sofá numa terça-feira qualquer e aquele bem-estar, aquela tranquilidade... Fez Angra relaxar. Sabia que tinha sido isso que havia acontecido. Relaxou tanto que não percebeu, não se deu conta de que Sofía não estava bem, não estava feliz e quando ela cansou de não ser ouvida, simplesmente foi embora e daquela vez, doeu mais do que quando se separaram na gravidez.


Achou que ela não fosse voltar nunca mais. Mas ela tinha voltado e agora...


Sentiu uma lágrima brotando no seu olho. Mas segurou forte e voltou para o momento presente. Estela estava terminando seu pãozinho um queijo enquanto via um vídeo qualquer no celular.


— Filha?

— Oi, mamãe.

— Seremos só nós duas estes dias, tudo bem?


Ela não tirou os olhos do desenho, mas abriu um sorriso lindo.


— Eu amo quando é só nós duas, mamãe...


Sabia que ela amava. Angra amava também. Não sabia como seria, mas sabia que daria conta.


Ligou o motor, a sinfonia mecânica invadiu seus ouvidos e a eletricidade que lhe percorreu o corpo... Era isso. Teria que fazer. E que fizesse com eletricidade.


📚


Fazer as malas também não foi fácil para Frederíca.


Havia sido um dia esquisito depois da saída de Angra. Os homens decidiram sair sozinhos, ninguém fez questão de saber para onde iriam, ao seu ver, Guilherme estava apenas fugindo de qualquer pergunta constrangedora, o que esperar de um homem mimado? Nada menos do que isso. As crianças pareciam ter combinado, estavam os três meios gripados e enjoadinhos, sendo assim, ninguém mais saiu e Carolina se preocupou com Angra.


— Se a Estela estiver gripada também...


Frederíca abriu um sorriso.


— Ela não é muito boa sozinha com a Estela, não é?

— Ela nunca esteve assim, sozinha com a Estela. Não é por nada, é porque nenhuma mãe deve estar sozinha com o seu filho, ela me tem, tem o Guilherme...

— Grande ajuda...

— Não fala assim, Fer — Reprendeu, mas não de verdade — Ele... Ajuda, do jeito dele. Às vezes, é só questão de não estar sozinha mesmo.

— Não, Carolina... — Luria interferiu — A gente que normaliza isso. Legal ter alguém ali do lado quando seu filho tem febre? Legal, porém, mais legal ainda é ter alguém agindo, cuidando, pensando junto com você.

— Eu não pretendia defender ele, não, mas veja bem: é quase automático. Mas estou atenta, contra o meu próprio machismo — Os olhos correram para Kalinka, cozinhando de biquíni lá fora. Luria acompanhou aquele olhar.

— Está comprovado. Se você enche uma casa de mulher gostosa, que sabe cuidar de mulher, não sobra UMA para macho mediano, não...

— Luria! — Carolina tinha caído no riso.

— Nega, Carolina, nega, vamos...


Não ia negar nada. Não tinha a mínima condição de negar. O dia passou agradável, o almoço gostoso, um ritmo mais lento e tal como o ritmo do dia, a tristeza escorregou para dentro de Frederíca, um pouquinho de cada vez. Subiu para o quarto no finalzinho da tarde, também para arrumar as suas coisas, e quando se deu conta de que não sabia nem por onde começar sem Sofía...


Ficou quieta, de braços cruzados, encarando a mala sobre a cama, o armário aberto, ainda com coisas dela. Ela tinha saído com metade das coisas com as quais tinha chegado, havia dito que precisava de menos, que estava deixando o excesso e Frederíca estava se sentindo exatamente assim, um excesso, algo que Sofía havia trazido achando que precisava e agora...


Fechou os olhos, abraçando os próprios braços, tentando usar aqueles segundos para se acalmar.


— Fer?


Tentou se reajustar rapidamente, porque era a voz de Luria. Frederíca olhou para trás e ali estava ela, parada na porta, lhe olhando.


— Eu... É que...


Ela entrou, encostando a porta atrás de si.


— Eu sei que você está sofrendo por causa da Sofía e tudo bem, ok? Está tudo bem. Ela é uma mulher incrível, ninguém quer perdê-la, eu já entendi esta parte e está tudo bem mesmo, não precisa esconder nada de mim.

— É que eu não quero que...

— Eu fique desconfortável, eu sei — Luria a segurou pela cintura delicadamente — Fer, tudo bem. Eu fiquei mal e meu marido era terrível a maior parte do tempo, um casamento é um casamento. Quer que eu te ajude? O Bernardo está brincando lá embaixo, eu posso te ajudar se quiser.


Frederíca olhou bem para ela. E a beijou, se agarrando no pescoço dela, sentindo aqueles braços lhe apertando a cintura com tanto apego, tanto carinho. Ela beijou sua boca, então seu pescoço, seu ombro, afundando o nariz no pescoço de Frederíca, lhe roubando o cheiro.


— E as suas malas?

— Eu já terminei — Ela respondeu sorrindo — Vamos, tem muita coisa aqui pra gente resolver...


Ela lhe ajudou a colocar tudo no lugar e a fazer uma mala da qual Sofía ficaria orgulhosa. E enquanto lhe ajudou a fazer tudo, Luria também lhe permitiu falar, explicar algumas coisas, pôr para fora outras.


— Eu não queria voltar para Cartagena agora, eu não sei como vai ser... Entrar em casa. Sabendo que a Sofía não vai estar lá. Nem vai chegar. Então, eu não queria voltar.

— Então não volta — Luria disse, tranquilamente.

— Como...?

Não volta. Segura a sua passagem, pega uma para Brasília, vem comigo, passa um tempo lá no meu quadradinho... — Disse, de maneira tão delicada e leve que Frederíca nem sabia. Não sabia que ia gostar tanto de ouvir aquilo até ouvir tal proposta.

— E depois?

— Depois a gente vê. É isso apenas por enquanto. O que você acha? Meu sofá é tão confortável... — Ela disse, fazendo graça, arrancando um sorriso de Frederíca e, um beijo mais longo.


A beijou mais longamente, tocando o rosto dela, a mantendo muito perto de si.


— Você jamais vai me deixar dormir no sofá.

— Pior que é jamais mesmo. Eu estava surtando um pouquinho em pensar que a gente ia ter que separar, sabia?


Frederíca encontrou os olhos dela com os seus.


— Eu também estava. Não aguento outra separação agora. Eu sei que é pouco tempo, sei que não sabemos nada de como serão as coisas depois, mas Luria... Eu só... Gosto de você. Gostei quando vi. Senti uma coisa diferente por dentro e...


Luria lhe beijou a testa.


— Eu sei. Sei da coisa diferente. E do não saber nada depois. Mas como te disse, é isso apenas por agora, então... Você quer vir comigo?


Frederíca lagrimou.


— Eu quero. Quero muito.


E queria, muito dentro do seu peito aflito e confuso, que de alguma maneira, pudessem ter mais. Não mais tempo apenas, mas também, mais de Luria.


📚


O sol estava terminando de se pôr quando Carolina se aproximou de Kalinka na garagem. Ela estava com o capô do carro aberto, mexendo em alguma coisa no motor.


— Então ajusta o carro você mesma? — Perguntou, se aproximando dela sorrateiramente.

— Eu curto experiências completas — Ela respondeu sorrindo — Já fiz muita viagem de carro, é bom saber ao menos o mínimo para momentos inesperados.


Carolina olhava para ela. Não conseguia não olhar para ela.


— Já tem planos para depois daqui?

— Na verdade, acho que por hora, é voltar pra Colômbia e descansar em casa uma semana, é quando minhas férias acabam. Daí volto a trabalhar, a escrever algumas matérias, a gravar, essas coisas.

— Você não tem ninguém na Colômbia mesmo? Nenhum namorado, namorada?

— Agora nem a Sofía — Outro sorriso, enquanto fechou o capô do carro — Mas confesso que é meio assustador, me ver solteira não é uma coisa que aconteceu muitas vezes na minha vida.

— Bem, ao menos você está solteira.


Kalinka olhou bem para ela.


— Já sabe os seus planos daqui pra frente?


Carolina respirou fundo.


— Na verdade, não sei exatamente. Eu quero me separar, mas ao mesmo tempo tenho medo de muitas coisas.

— Se permita ter medo. Eu sei como é, entendo muito bem.

— Mas ainda ao mesmo tempo eu queria... — Mordeu a boca, porque estavam bem perto uma da outra — Você sabe o que eu queria, Kali.

— Sei, eu também queria — Olhos nos olhos. Os olhos de Carolina brilhando tão, mas tão perto dos seus, o cheiro dela, a eletricidade pelo corpo só por estarem próximas e... Ela era bonita pra caramba.


Kalinka a puxou pela nuca e deu um selinho nela, a abraçando em seguida muito rápido, convertendo o tal selinho num abraço muito apertado, muito caloroso, muito... Apegado. Como queria estar apegada nela daquela forma mais tempo, mais vezes, como queria.


— Obrigada por esses dias — Sussurrou no ouvido dela, a mão na nuca de Carolina, os dedos dela pela camiseta de Kalinka.

— Eu que agradeço. Não some de mim, está bem? Eu só não sei agora, mas depois...

— O depois é um grande segredo — Kalinka afastou o corpo para olhar nos olhos dela — Você é uma preta linda pra caramba, sabia?


Carolina sorriu, derretendo por ela como já era habitual.


— Promete que não vai sumir de mim?

— Não vou.

— E eu vou te ver outra vez?


Kalinka a abraçou novamente, a tocando pela nuca.


— Eu sei que vou.


📚


Foi um desafio enorme, mas Angra conseguiu dirigir até Juiz de Fora.


Queria ter ido mais longe, ao menos até Barbacena, mas depois do almoço, Estela começou a não se comportar muito bem. Primeiro, disse que estava chato, que queria outra coisa para fazer, depois chorou porque perdeu algum brinquedo pelo carro, em algum momento chorou sem motivo e apesar de Angra se esforçar para consolá-la, nada parecia estar funcionando. Perto das cinco da tarde, ela dormiu e quando acordou, já acordou vomitando.

E foi tão complexo quanto se pode imaginar. Um carro vomitado, uma criança chorando, Angra sozinha para descobrir que na verdade, sua filha estava com febre.


— Mamãe, mamãe, a minha cama, mamãe.


Teve que se virar como podia. Acalmou Estela, buscou um antitérmico na bolsa, limpou o carro minimamente, da maneira que conseguiu com papel higiênico e lenços umedecidos. Encontrou um hotel, o primeiro que viu pela frente, precisava que o carro fosse lavado, mas como? Com Estela agarrada em seu pescoço e pedindo uma cama?


— Vocês não têm nenhum serviço que... — Estela seguia chorando, agarrada em seu pescoço e agora estava pedindo... Sofía. Claro. Angra respirou fundo — Nenhum serviço que possa me ajudar de alguma forma? Eu preciso sair de manhã cedo e...


A atendente se compadeceu.


— Não temos, mas se você deixar a chave, eu posso ver alguém para aspirar e limpar o carro para você.


Foi assim que deixou a chave de seu Giulia nas mãos de uma desconhecida que prometeu lhe ajudar. Subiu, deu banho em Estela, mesmo contra a vontade dela, mas ela estava suja e a febre ainda não havia cedido. Entrou com ela no chuveiro, agarrada em seu pescoço, Estela chorou o banho inteiro e Angra chorou junto, é claro que chorou, sua cabeça estava estourando, estava muito cansada e sua menina estava sentindo dor, estava sensível e nem sabia direito como teria sido depois, se Estela não tivesse se colocado de pé.


Ela se acalmou depois do banho, depois de Angra aquecê-la e então vesti-la no pijaminha de Stitch que ela tanto adorava. Presente de Sofía, claro. Se acalmou apenas como uma filha de Sofía poderia se acalmar. Reteve o choro, pediu para ver um desenho, pediu jantar, que Angra escolheu criteriosamente para ela. Ela dormiu depois do jantar, estava cansadinha, o banho tinha quebrado a febre e finalmente, Angra se permitiu ligar para Sofía uns minutinhos. Ela estava feliz, tinha conseguido cumprir a primeira parte do itinerário e estava cheia de planos, um curso de fotografia diferente, uma ideia de crônica, outra de livro brotando, quem sabe agora? Talvez se arriscasse num livro, podia ser uma ideia. Ela estava bem, estava calma, empolgada, relaxada. E Angra estava uma pilha. Nem sabia dizer direito como conseguiu dormir, mas de alguma maneira, conseguiu. Ainda tinha aquilo tudo de estrada pela frente, havia saído com vontade de chegar logo, mas agora, tinha acordado com medo.


Talvez precisasse de mais tempo. Para se preparar, para ficar mais firme, estava um pouco arrependida de não ter pedido para Carolina vir junto, mas ao mesmo tempo, precisava fazer aquilo sozinha. E nem sozinha estava, afinal, Estela estava consigo.


E ela acordou bem, feliz, aparentemente, a febre tinha sido passageira e o enjoo no carro tinha vindo de maneira natural. Reviu a cadeirinha dela, não estava tão firme, podia ter sido isso também e só de ver seu carro limpo novamente...


Agradeceu na recepção, fez questão de pagar pelo serviço, tomaram café e apesar do medo latente que estava sentindo por dentro, Angra foi em frente. Colocou sua menina no carro, animada, pedindo para ouvir suas músicas e checou Sofía rapidinho. Não havia dito nada a ela que estava na estrada sozinha com Estela. A viagem de Sofía ia muito bem, ela estava adorando dirigir, adorando o tempo para pensar, para refletir, fazer as fotos que queria, escrever os textos que precisava e, nem por um momento, tocou no assunto relacionamento. Isso deixava Angra ansiosa, tão ansiosa quanto a conversa que sabia que precisaria ter. Mal falou com Guilherme durante o tempo fora e na última noite em hotel (porque acabou passando mais um dia na estrada por vontade própria), chorou tanto que Carolina ficou sem saber o que fazer do outro lado da linha.


— Eu sei o que quero, mas isso é tão difícil... E se ela realmente não quiser mais ficar comigo?

— Angra...

— As coisas são difíceis com a Estela, você sabe, eu não consigo fazer tudo sozinha...

— E eu não estou aqui? Se tudo der errado, eu vou sempre estar aqui.


Angra respirou fundo, tentando achar a calma dentro de si.


— Eu preciso fazer isso. Não só pela Sofía, mas porque é o correto a fazer. Correto com ela, correto com o Guilherme.

— Está mais calma agora? Consegue dormir?


Estava mais calma. Mas não conseguiu dormir quase nada. Angra tinha medo de estar sendo ingrata. De ter feito a imagem que tanto queria e agora que a tinha, não querê-la mais. O casamento com Guilherme era bem do jeito que tinha imaginado que um bom casamento deveria ser, tranquilo, sem grandes dores de cabeça, confortável, nunca havia imaginado que paixão e romance constante fariam parte deste pacote, não tinha essa ilusão de que seria assim, porém, a ingratidão também lhe assustava no que envolvia Sofía, porque ela era exatamente como havia imaginado também, a namorada com a qual sonhava e neste sonho, sim, o romance e a paixão estavam envolvidos e sendo assim, Angra apenas temia. Receber represálias do universo fosse por uma ação, ou pela outra. Sabia que a lei não deveria ser exatamente esta, mas o irracional lhe fazia de refém, lhe dava medo. Mas sabia que só precisava fazer.


Pegou o último dia de estrada muito bem decidida a isto e quando finalmente chegou em casa, Guilherme já havia chegado.


— Você... Veio antes?

— Eu vim de avião — Ele respondeu sorridente da cozinha — Tudo bem na sua estrada?

— Tudo bem, só a Estela que... — Estela estava derrubada em seu ombro e Angra ainda estava meio perdida, achou que Guilherme só chegaria no dia seguinte — Bem, é a Estela.

— Dormiu na estrada, né? Eu imaginei que ela fosse chegar assim aqui. Por que você não a coloca na cama e entra no banho enquanto eu faço o jantar?


Pareceu uma boa ideia, Angra precisava de um tempo para se recuperar do susto. Foi para o quarto de hóspedes, atual quarto de Estela, a colocou na cama dormindo e entrou num banho longo, necessário, que lhe fez bem. Se acalmou, acalmou seus batimentos, tinha que ter aquela conversa e não podia passar daquela noite. Recebeu uma foto de Sofía, ela estava linda, tirando uma selfie com a capota do fusca aberta, enquanto tomava um chá gelado num final de tarde, em alguma cidadezinha histórica que Angra falhou em identificar. Falou com ela rapidinho e então foi se trocar.


Colocou uma calça moletom, uma camiseta branca, deixou os cabelos secarem naturalmente e quando saiu do quarto...


Havia um jantar romântico montado a sua espera.


O apartamento com as luzes reduzidas, a mesa muito bem posta, um prato que ela adorava cheirando na cozinha e, Angra congelou. Sem saber direito o que fazer ou o que estava acontecendo.


Guilherme veio até ela e a beijou, um selinho rápido, ao qual estavam tão acostumados.


— Guilherme, o que exatamente...?

— É que a gente não comemorou cinco anos de casamento. O dia foi corrido, era aniversário da Sofía também e como não fizemos nada, eu decidi fazer um jantarzinho pra gente comemorar. Vem, eu fiz aquele macarrão que você gosta...


Tinha feito, o macarrão que Angra gostava, pegado um vinho que ela também amava, ele lhe entregou chocolates de presente e Angra só quis chorar. Já era difícil o suficiente apenas a conversa, com aquele jantar então...


E sequer deve ter conseguido disfarçar. Guilherme colocou uma música, puxou vários assuntos, mas nada estava engrenando direito e deveria ser porque a cabeça de Angra não estava ali, de jeito nenhum estava. Não acreditava que ele tinha feito aquilo. Não depois de toda a conversa que haviam tido. Era como se ele não lhe ouvisse, ou não quisesse ouvir, Angra não queria jantar, não queria comer, não queria... Magoar Guilherme. Por mais negacionismo que ele tivesse, não queria magoá-lo e deve ter sido assim que quando se deu conta, tinha se sentado para jantar.


Sentou-se, mas não estava ali. Passou o tempo todo se movendo na cadeira, como se o estofado estivesse desconfortável ou algo assim, mexeu no cabelo a todo momento, a taça de vinho secava o tempo todo e a sua boca não umidificava: estava seca, tal como sua garganta, seu peito, sua coragem. Estava a todo momento esperando o momento certo de entrar no assunto, de retomar a conversa começada em Búzios, porém...


Porém.


— Eu sei que nós tivemos alguns momentos complicados, mas sabe? Nós dois seguimos aqui, juntos, dando exemplo para esses outros casais que não aguentam uma tempestade. Eu tenho orgulho disso, Angra, das tempestades atravessadas e acho que a melhor maneira de te mostrar o quanto isso significa pra mim é... — Ele colocou uma caixinha sobre a mesa e a abriu diante dos olhos de Angra. Era uma aliança — Renovando os nossos votos. Eu já marquei tudo, vamos fazer uma festa particular, só com os nossos amigos, para celebrar a renovação dos nossos votos, e...


E o coração de Angra parou. Sua respiração travou, suas mãos começaram a tremer sem parar e antes que ele dissesse mais alguma coisa...


— Angra?

— Só... Só para — Disse, finalmente, conseguindo colocar o ar para fora — Para, por favor.

— Parar? Para com o quê?

— Parar de não me ouvir — Fechou a caixinha com a aliança — Guilherme, o que nós dois estamos fazendo aqui? Você sabe que não estamos bem, sabe a conversa que começamos em Búzios...

— Sei. E isso tudo é para que a gente fique bem, eu sei que você gosta dessas coisas, achei que pudesse me aproximar de você assim, renovando nossos votos, tendo uma outra festa de casamento, menor, mais intimista...

— Não é isso que vai resolver os nossos problemas...

— E como nós vamos resolver? Temos que resolver tentando nos reconectar um com o outro, como sempre resolvemos tudo.

— Guilherme... — Seu coração estava batendo na garganta — A única solução é a separação, você sabe disso, nós já começamos essa conversa, por favor.


Ele não disse nada. Apenas ficou a olhando por um tempo, respirando fundo, tenso pelo que estava ouvindo. Então levantou, parou a playlist romântica que tocava, ele estava de pijama, short, camisa branca, idêntico a como Angra estava vestida e, estava inquieto. Voltou para o seu lugar na mesa.


— Novamente?

— Guilherme...

— Angra, as coisas não podem apertar um pouco que você já pensa em separação, não é assim que as coisas funcionam! Casamento é o contrário disso, você mesma me disse no nosso começo...

— Eu sei o que disse, e acredito que realmente casamento também é isso, mas Guilherme, nós temos problemas, que vão além do que conseguimos resolver...

— Tudo bem, tudo bem: qual é o problema principal de agora? Me conta, eu quero te ajudar a melhorar, eu sou seu marido, estou aqui para isso. Me fala o que eu preciso fazer para ajudar a gente a passar por mais essa crise.

— Não há o que você possa fazer porque o problema não está com você, está comigo, é uma questão minha, você sabe do que eu estou falando...


Ele sabia. E começou a chorar, ficando muito nervoso, ele sabia a resposta, mas insistia, queria ouvir de Angra, se era aquilo mesmo, se não podiam contornar. Ele tinha certeza de que podiam, que aquele sentimento esquisito ia passar logo, eles tinham Estela, tinham uma vida, Angra não poderia estar desistindo de tudo assim.


— Guilherme, não faz isso! Por favor, não faz isso, não age assim...

— Você está jogando tudo fora por nada! Como pode querer fazer isso com o nosso casamento?! Eu não queria me casar! Você lembra que eu não queria? Mas você me convenceu, você quis! Quis o apartamento, a vida conjunta, quis a Estela! E quis pra quê? Só para jogar tudo fora na nossa primeira crise?!

— Guilherme, isso não é uma crise! É um estado meu, permanente, eu não consigo consertar! Ou melhor, achar que precisa de conserto, sou eu, o que eu sou, eu não posso achar que preciso consertar o que sinto, o que quero!

— Você é uma irresponsável sentimental! Está sendo irresponsável comigo, com a Estela, será que você não vê isso?!

— Eu serei se simplesmente continuar aqui sabendo que não posso fazer você feliz da maneira que merece! Você merece uma mulher louca por você. Você é inteligente, atraente, bonito o suficiente para ter várias mulheres loucas por você.

— Mas você nunca foi uma delas — Ele disse, seguindo chorando sem parar — O que mais você precisa de mim? Eu já entendi as suas questões sexuais e demos um jeito em contornar, o que mais você precisa que...

— Eu preciso que você pare com tudo isso! Pare de insistir, por favor...

— Me diz o motivo! Se você quer mesmo se separar, não seja covarde e me diz o motivo, diz olhando pra mim, vamos. Diz me olhando, diz a verdade — Ele parou na sua frente quase que a desafiando.


E era um desafio. Ele queria que ela dissesse e o não dizer, carimbaria aquela conversa como uma verdade com a qual Angra não sabia lidar. E havia prometido a mulher que amava, que nunca mais seria chamada de covarde por ninguém.


— Você não consegue! Não consegue porque sente vergonha dessa verdade aí que você acha que é sua!

— Guilherme, para!

— Diz o motivo, olhando pra mim, vai, diz!

— Eu estou apaixonada por outra pessoa — Disse, só de uma vez — Eu sou apaixonada por outra pessoa, é este o motivo, era o que você tanto queria ouvir? Está satisfeito agora?!


Ele parou a olhando, arrasado.


E caiu num choro maior ainda. Tão grande que Angra teve que acalmá-lo, dar um jeito naquela situação, fez um chá rapidamente, trouxe água para ele, ele não podia ficar nervoso daquele jeito, não era assim que tinha idealizado aquela conversa, jamais pensou que o veria numa situação como aquela. Então cuidou, que ele se acalmasse, que respirasse fundo, não podiam continuar aquela conversa enquanto ele não parasse de chorar.


Ele parou, perto da meia-noite, sentou-se no sofá desolado, mas com o choro estancado.


— Ela... Não quer ficar com você.

— Guilherme...

— Ela foi embora, Angra. Cansou de te esperar. Eu sei que deve ter sido terrível ter que esconder este sentimento aqui dentro de casa por tanto tempo, mas agora que eu sei... Eu sei. Nós ainda podemos contornar essa situação juntos.

— Eu não acredito que você está me dizendo isso... Vai além de uma questão sexual, se você ainda não compreendeu.

— Um casamento vai além de questões sexuais, foi o que você me disse quando a Estela nasceu e você se recusava a ir pra cama comigo. Eu aguentei isso. Dei jeito de me resolver. Eu suportei, porque achei que o casamento era mais importante.

— Não precisava ter suportado.

— Mas eu suportei. E agora você ainda quer ir embora. E ela já foi. Vamos resolver. Você e eu. Você nunca soube ficar sozinha. Você não vai saber como. Vamos dormir?


Angra sabia que aquela batalha estava perdida. Mas seus dias de cativeiro realmente haviam terminado.


— Onde você está indo?

— Dormir no quarto da Estela. E se você decidir não sair de casa, amanhã cedo eu saio.

— Angra, ela não quer mais saber de você!

— Pois eu quero saber de mim. Isso não é uma ideia, eu não vou mudar de decisão amanhã. Ou saio eu, ou sai você.


Notas:


Olá, meninas!


Espero encontrá-las bem!


Estamos na reta final de Angra e a contagem para os últimos capítulos já começou. A fase BBBúzios chegou ao final! E com a nossa casa esvaziada, fiquei pensando numa perguntinha aqui: se vocês tivessem que escolher uma vencedora neste reality (vencedora sim, porque Angra é nosso e a gente jamais escolheria um homem para vencer 😌😌😌), quem seria? Vou manter meu voto secreto sobre quem seria a minha vencedora até o próximo capítulo!


Capítulo de hoje focado em desfechos, de um casal já consolidado (Angría), um casal formado pelo confinamento em Búzios (Luríca) e um casal que ainda não é casal, mas está num apego só (Carolinka). Deste ponto da história em diante, temos apenas o presente, chegamos até aqui, num ponto importante de desfechos, mas não são os desfechos que finalizam uma história e sim, as suas resoluções.


Então, todas prontas?


Próximo capítulo, “A Estrada Real”, vamos embarcar na jornada de Sofía em busca de si mesma e quem mais vocês apostam que entrará na mesma estrada?


Não esqueçam da meta de comentários! Divirtam-se com os selos novos e com a pequena rede social do Tessaverso!


Aliás, acabamos de acrescentar no Clube TessaVerso a página de pôsteres. Por enquanto, temos pôsteres de Havana, mas logo teremos tantas frases lindas, como "Seja o herói que ela precisa." Animada! rsrs


Aliás, para aquelas que ainda não conhecem a nossa nova área de assinantes do site, deixarei aqui o link para que vocês possam dar uma olhada:


https://www.tessareis.com.br/beneficiosdoplano


Abraços!


E vamos de alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;

- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;

- Lançamos 6am: A hora mais curta! Está disponível na Amazon! Quem já estava com saudade das nossas garotas? Ou quem está louca para conhecê-las? Corre aqui! encurtador.com.br/frBO4.


Beijos! Se cuidem!


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