Capítulo 29 - A Estrada Real





Catarina mal estacionou e foi fechada por um Alfa Romeo italiano.


Sério? Sério. Angra desceu do carro, de jeans, camiseta preta, boné, óculos escuros. Pegou Estela ainda de pijama na cadeirinha no banco de trás e uma mochila de couro que sequer havia sido desfeita da viagem.


— Por que você está disfarçada? — Foi a primeira coisa que Catarina perguntou ao descer do seu carro muito mais modesto. Calça preta, camiseta, um casaco mais longo por cima, boné para trás.

— O quê?

— De boné, óculos escuros, parece um policial à paisana...

— Eu mereço você fazendo graça comigo de manhã cedo...? Fui na sua casa, mas você estava saindo...

— Então, além de estar à paisana, estava me seguindo...?

— E você não viu um carro azul metálico no seu encalço?


Catarina olhou bem para ela.


— Eu preciso de um café — Angra lhe disse.


E isso era uma espécie de código para: “Eu preciso conversar com você”.


— Tudo bem, me dá esse bebê aqui e vamos pegar uma mesa...


Entraram na cafeteria, Catarina pediu um café da manhã especial para elas enquanto Estela começou a acordar devagar. Pegou seus brinquedos e começou a brincar, mas não antes de perguntar do pai, e então, perguntar de Sofía.


— Nós conversamos bastante antes de ela ir embora — Catarina lhe explicou, enquanto adoçava seu café — Ela estava nervosa de ter que dirigir sozinha, mas estava empolgada também e o tom dela... Angra, ela está conformada. Conformada com a solitude dela, com o seu casamento, com o fim de vocês duas.

— Nós não terminamos, Catarina.

— Eu disse a ela que você não tinha entendido assim.


Angra respirou fundo, fechando os olhos por um instante. Ela parecia a ponto de romper a represa dos sentimentos a qualquer momento.


— Eu entendi o que ela quis dizer, eu só não acredito que ela realmente está agindo dentro do que me disse! — Angra estava exausta, mal tinha dormido, sua cabeça estava doendo e a segunda coisa que Catarina havia lhe dito foi sobre a atitude de Sofía, de afastamento, desistência, conformismo e a tranquilidade que ela andava lhe passando aqueles dias... Sofía parecia muito bem sem Angra. Respirou fundo, tomou um gole longo do seu café — Não é arrogância, mas ela não me deixa fácil assim não, Catarina. Eu sei o que a gente sente — Disse, e uma lágrima lhe escapou.

— Eu também sei o que vocês duas sentem. Eu me coloquei à disposição dela se precisasse conversar nesses dias de estrada e nós temos falado todos os dias, ao menos por uma meia horinha, não como psicóloga e paciente, mas como amiga. Mas veja bem, Angra, eu estou te olhando aqui agora e, também não estou acreditando que você realmente se separou.

— Bem, eu estou tentando ao menos. A conversa foi muito difícil.

— É claro que foi, eu sempre te disse que essa ideia nem passava pela cabeça do Guilherme.

— Ele não está feliz comigo, não tem como ele estar feliz nessa situação em que nós estamos.

— Totalmente feliz não, mas feliz médio... Felicidade média é melhor do que nenhuma. Você também não está infeliz.

— Não estou, mas se eu perder a Sofía... — Outra lágrima — Eu sei como é isso, eu já fiquei sem ela antes, eu não funciono, o meu trabalho para, a minha vida para, eu não consigo ver graça em nada, não consigo relaxar, seguir com as coisas. A minha média felicidade vira mínima. Eu não posso perder a Sofía, não posso. Por mais bagunça que isso faça.

— Te falar, ela é doida por você, viu? — Ela disse, repleta de sotaque que de vez em quando emergia — Nós falamos muito sobre você esses dias, sobre a Estela, essa história bonita que vocês escreveram apesar de todos os pesares. Ela é louca por você, por cada coisa que você é, tem orgulho do seu trabalho, orgulho da mãe que você se tornou, da pessoa que você é. Mas ela me parece muito decidida e você me parece ainda muito balançada com tudo. Vai dar conta de fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Terminar um casamento e não deixar que ela se afaste?

— Ela já se afastou, Catarina. Eu já estou vários quilômetros atrás dela outra vez, e...


E o carro de Luria parou na frente da cafeteria. E ela não estava sozinha.


Frederíca estava dirigindo.


Frederíca Gonzalez, bem ali, na entrada do prédio em que Angra trabalhava. Estacionou, falou alguma coisa com Luria, trocaram um sorriso, se despediram com um beijo longo, e então, Luria desceu, super arrumada, bonita de brilhar e, sem Bernardo.


— Ela...? — Angra nem precisou terminar de verbalizar a pergunta. Luria sentou-se à mesa com elas.

— Veio comigo. Disse que não estava pronta para voltar para Cartagena sozinha, e... Está comigo. Lá no apartamento. E agora está indo levar o Bernardo para jogar bola no parque.

Ela não sabe ficar sozinha — Angra disse, mais para si mesma do que para elas.

— Como...?

— Frederíca, ela não sabe ficar sozinha. E se eu não sei também, vou ter que aprender.

— É o que ela está fazendo — Catarina deu outro gole em seu café.

— Quem?

Sofía. Está aprendendo a ficar sozinha, para então, ficar inteira onde precisar estar. Vocês se acostumaram a ser apenas metades.

— Angra, você...? — Luria estava tentando entender.

— Estou resolvendo as coisas, mas agora...


Luria pegou a mão dela sobre a mesa.


— Agora você só resolve o agora. Quando o agora do depois chegar, você trabalha nele. Vamos tomar café decentemente? Você não tocou em nada do seu prato...


Não tinha tocado e foi complicado comer. Seu estômago estava embrulhado, estava doendo, mas se esforçou, sabia que não só tinha um dia duro pela frente, como os próximos dias seriam tão duros quanto. Então tomou café, subiu com Estela, ela já tinha companhia na creche, a deixou lá e subiu para sua sala. Entrou, abriu as janelas, respirou na luz, tentando acalmar a sua mente e seguir com o que precisava.


Ligou seu MacBook e quando estava se recompondo mentalmente, Marcela entrou em sua sala. Veio com um documento na mão, falando de algo e notou a mochila intacta encostada num canto da sala. Parou o que estava dizendo.


— Você... Está andando com essa mochila por algum motivo especial?


Angra respirou muito fundo.


— Eu saí de casa.


E Marcela sentou-se à sua frente imediatamente.


— Como assim saiu de casa?

— Marcela, você sabe que eu estava com problemas...

— Sei, todo casamento tem problemas, a gente não sai de casa no primeiro que aparece! Angra, o que está acontecendo? Fala comigo. Você passou o tempo em Búzios muito esquisita, nem parecia a Angra que eu conheço...

— Talvez você não me conheça tão bem quanto acha.

— É claro que eu conheço! Que sei quem você é, sei quem eu conheci na faculdade, bonita, brilhante e apaixonada pela ideia de se casar, de constituir família, essa é você!

— E segue sendo eu, eu sigo querendo a mesma coisa, mas... Eu me apaixonei. Fora do casamento. Foi isso que aconteceu.

— Está apaixonada pela Sofía? É isso que você está tentando me contar?

— Há anos que eu tento contar, mas ninguém quer ouvir. Eu não consigo viver mais deste jeito, Marcela, não consigo ficar omitindo partes minhas, ou viver com medo da reação das pessoas. E não estou falando de qualquer pessoa, sim, daqueles que são importantes para mim, que estão do meu lado todos os dias, como você. Acha que eu nunca quis te contar a respeito?

— Deveria ter contado! Com toda certeza não estaria com essa ideia de se separar agora. Angra, você tem uma filha pequena, que é louca pelo pai. Eu queria que o Eduardo fosse metade do pai que o Guilherme é...


Angra fechou os olhos e respirou muito longamente outra vez.


— Pelo amor, eu estou aqui falando de mim, Marcela, de mim! Não da nota que o Guilherme merece como pai, ou como marido. Isso não tem nada a ver com ele, é comigo a situação, sou eu que não encaixo nesse casamento...

— E você não quer encaixar? Angra, é que... Encaixar num relacionamento homo me parece muito mais complexo do que consertar o seu bom casamento — Ela disse isso e Angra sentiu como se tivesse enfiado a mão no seu peito e apertado seu coração.


Pediu para ficar sozinha. Tentou trabalhar depois disso, pediu para Marcela focar no trabalho, tinham muito a resolver, era melhor do que focar naquele assunto que ainda estava revirando o estômago de Angra. Pegou o celular para ligar para Sofía, porém, encontrou uma foto dela lhe esperando na janela que sempre conversavam.


Sofía estava linda, tranquila, tomando café em Tiradentes, na sacada de uma pousadinha que dava para uma rua de paralelepípedos. Angra queria chorar no ombro dela, mas se sentiu egoísta em interromper um momento tão bom, ainda mais, tratando de assuntos de seu casamento. Angra estava em sofrimento e isso apenas piorou quando pegou Estela para sair para almoçar e, Guilherme estava lhe esperando.


— Guilherme...

— Você vai almoçar comigo. Eu fiz o almoço. Em casa. A gente precisa terminar de conversar, Angra.

— A gente já terminou a conversa, Guilherme...

— Claro que não. Você saiu de casa com a minha filha, que aliás, ainda está de pijama, você não fez as coisas dela direito...


Angra apenas olhou para ele.


— Angra, desculpa. Não era para soar com tom de crítica...

— Claro que não era.

— Por favor. Pela nossa filha. Vamos conversar.


Aceitou conversar. Mas em um restaurante, fora de casa e foi muito desconfortável. Guilherme começou a chorar assim que começou a conversa, Estela estava confusa, não entendia bem o que estava acontecendo e ele não parava de falar, que não acreditava na situação, que Angra estava sendo egoísta, que não estava pensando nele, e dizia isso tudo com tanta veemência que Angra começou a se perguntar se estava tão errada assim mesmo.


— Eu sei que as coisas estão complicadas, que eu estou tendo um momento difícil no trabalho...

— Guilherme, por favor. Isso não tem a ver com você, tem a ver comigo, quantas vezes eu vou ter que repetir a mesma coisa?


Ele ficou quieto por um instante.


— Eu te dou o tempo que você precisar. Te dou um espaço. Só volta pra casa. Onde você foi com a Estela? A que horas saiu?

— Assim que você dormiu. Estamos num hotel.

— Não faz sentido você estar em um hotel. Volta pra casa, a gente fica em quartos separados, tudo bem. A Estela não tem nada a ver com isso, com essa confusão toda.

— Guilherme, não é assim que a gente vai resolver as coisas.


Ele ficou calado novamente, olhando para a aliança que girava no dedo em nervosismo.


— Eu não consigo ficar sem a Estela.

— Você não vai ficar.

— Eu não quero ser pai de fim de semana. Quero poder estar com ela todos os dias.


Angra o olhou.


— Vai fazer este tipo de cena mesmo?


Ele lagrimou outra vez.


— Só volta pra casa. Vamos conversar. As coisas não podem ser feitas de qualquer maneira. Eu só preciso... Dormir em paz hoje. Perto da minha filha.


Angra também precisava dormir em paz.


📚


Nada foi tão difícil quanto se convencer a sair daquele estacionamento.


Não é que Sofía não soubesse dirigir, ela sabia, havia tirado habilitação há muito tempo, mas a questão é que sempre acabou dirigindo pouco. Dirigia em estradas quando estava com Angra, aliás, foi assim que aprendera a dirigir, no caminho do Giulia de Porto Velho a Brasília, mas ainda assim... Nunca havia entrado num carro para pegar uma estrada sozinha.

Apesar de sempre ter morrido de vontade de tentar.


Então que não era apenas sair da garagem. É que nunca havia sequer chegado de verdade na porta, nunca havia descido as escadas e entrado num carro para sair e não era sair de casa, era sair do seu casamento.


A verdade é que era tudo muito difícil. Não tinha a ver mais com o que sentia por Frederíca, isso estava muito bem definido, mas tinha a ver com o tal gosto de derrota que quis tirar da cabeça dela, como se ele não existisse. Mas a verdade é que existia. A verdade é que desistir da ideia do casamento era algo para o qual não havia se preparado. E teve tempo, teve cinco anos com Angra para se preparar para isso. E talvez, este fosse o maior dos problemas. Não podia ir de um sonho para outro. Não podia aceitar que fracassou com Frederíca e com Angra ao mesmo tempo. Havia passado anos entre uma linha e outra para agora simplesmente, não ter lugar para ir.


E isso era literal. Sem lugar, sem casa, sem um destino real. Quando não se sabe para onde ir, qualquer destino serve, mas Sofía não era esta pessoa, que se arriscava a andar sem nenhum destino pela frente. Bem, mas agora precisava ser. Ainda que fosse apenas provisoriamente. Respirou fundo, havia se separado, separado de verdade, cortado o fio que lhe ligava a Frederíca e o fio com Angra estava onde sempre havia estado: flutuando no ar. Certo e incerto. Perto e distante. Se virou no banco, pegou sua bolsa de couro no banco de trás e um dos livros que havia trazido escapou para fora: “Ariadne”.


Era mitológico, era grego, havia sido colocado ali por Kalinka. E era simbólico: o fio vermelho de Ariadne guiou Teseu à saída do labirinto e em sua direção. A lenda diz que não importa o quão longe os predestinados estejam um do outro, o fio poderá esticar, enrolar, mas nunca se partir.


Em algum lugar, nornas e moiras um dia, trabalharam para lhe colocar no caminho de Angra. E isso tinha algum significado.


Sofía respirou fundo e, ligou o carro. E achou que fosse chorar assim que saiu do estacionamento que não era apenas um estacionamento, era o último lugar conhecido que estava deixando, viu Catarina lhe acenando quando pegou a avenida e foi quase como se... Rompesse de vez. Agora tinha que ir em frente e não tinha mesmo como voltar.


Aquele foi o dia em que mais dirigiu. Dirigiu por dez horas inteiras, com uma playlist infinita tocando enquanto cantava alto suas músicas e lembrava de coisas aleatórias demais. Relaxou a partir da segunda hora, sabia sim o que estava fazendo, era boa motorista e na terceira hora dirigindo, abriu a capota e deixou o sol fazer sua parte.


Lhe energizando totalmente, brilhando em seus óculos escuros enquanto o vento lhe beijava os cabelos e os pensamentos lhe faziam sorrir. O momento em que Frederíca havia entendido que era sério, que Sofía estava mesmo indo embora lhe pareceu extremamente dramático, mas agora, ao relembrar, lhe pareceu a coisa mais Frederíca que poderia existir. Frederíca era formada em intensidade, tudo nela era intenso, era irrevogável, Sofía já a conhecia tão bem, podia reclamar de muita coisa, mas não de não saber exatamente quem aquela moça era.


Ligou para ela na parada para o seu almoço, Frederíca estava bem mexida, Sofía sabia que ela estava mexida, mas o carinho veio na primeira frase dita por ela. Doía, mas ela entendia que era o melhor. Não que agora já estivesse plenamente acreditando na coragem de Sofía de ir, porém, menos ainda estava dando para acreditar que ela realmente estava dirigindo sozinha por uma estrada.


— Onde você vai dormir, meu amor?


Sofía abriu um sorriso.


— Vai seguir me chamando de seu amor?

— Angra que lute para manter você o amor dela. Foi primeiro meu. Onde você vai dormir? — Ela respondeu, fazendo Sofía rir um pouco mais.

— Não sei ainda, Fer. Sei que quero dirigir até meu medo passar.

— Ainda está com medo?

— Tremendo um pouquinho cada vez que vejo um caminhão, mas acho que estou indo bem.

— Está indo muito bem. Você sempre vai bem em tudo o que faz, me apaixonei por você assim.


E sabia que ela estava apenas sendo sincera, não estava tentando lhe seduzir de volta, nem nada.


Sofía voltou para a estrada e na sexta hora dirigindo estava relaxada a ponto de ultrapassar um caminhão sozinha! Lembrou de tudo o que Angra havia ensinado tão pacientemente, e quando conseguiu, ficou tão feliz que só desejou que ela estivesse do seu lado, para vibrar com sua pequena proeza automobilística, mas que era um enorme passo para si. Ainda era difícil fazer sua mente entender as diferenças entre o que queria de Angra e o que tinha recebido dela. Não a culpava de nada, de jeito nenhum a culpava, sua dificuldade em sair de um casamento com tantos detalhes negativos era a melhor justificativa possível, para que Angra não quisesse sair de seu bom casamento com Guilherme. E não era questão de ela não poder; Angra era o tipo de mulher que conseguia tudo o que queria, ela era uma realizadora de sonhos nata, sabia os caminhos, como planejar, ela realizava o que queria realizar e este traço dela era justamente uma das coisas que Sofía mais admirava nela. Ela podia sair. Quando bem entendesse, podia. Mas aqueles cinco anos lhe provaram que ela não queria sair. E agora cabia a Sofía respeitar a decisão dela e se habituar com isso.


Não estava pronta para conhecer ninguém e nem queria fazer isso por um bom tempo. Isso seria bom para Frederíca e bom para Angra também, ela era ciumenta e sofria muito com isso, Sofía tinha consciência e não queria fazê-la sofrer. Nem fazer outra pessoa sofrer ao se envolver com alguém ainda tão apaixonada. Freou o carro quando viu algo em seu horizonte. Já havia anoitecido e seus olhos pegaram algo no final de uma avenida. Estava dentro de uma cidadezinha, sabia e foi simplesmente atraída por aquela lagoa no horizonte.

Entendeu assim que chegou até ela. Era uma lagoa, grande, bonita e que de certa forma, lhe lembrava o Lago Paranoá. Parou o carro ali, apenas por alguns minutos, sentindo algumas coisas borbulhando por dentro.


O problema é que a amava Angra. E amava diferente do que amava Frederíca agora.


Respirou muito fundo, já estava sem medo, olhou para o lado e, tinha um hotel bem ali.


Deu a volta e estacionou no hotel. Era um SPA também, poderia relaxar no dia seguinte se acordasse muito dolorida, pegou suas coisas e foi direto para o check-in. Pediu um quarto individual, seus pés estavam ardendo dentro do tênis, a salopete jeans curtinha estava lhe pegando a pele e o cropped preto também estava pedindo para sair do seu corpo.


— Desculpa, mas que cidade é essa?


A moça do check-in sorriu.


— Lagoa Santa, em Minas Gerais.

— Perto de Ouro Preto?


Outro sorriso.


— Perto de Belo Horizonte. Daí você vai estar perto de Ouro Preto.

— Entendi — Sofía abriu um sorriso, veio seguindo o GPS, mas aparentemente seu cérebro estava em outra conexão — Tem restaurante, não é?

— Temos sim e, já está aberto. Atendemos aqui embaixo e nos quartos também se você preferir.

— Acho que... Vou preferir descer mesmo. Tem vista para a lagoa?

— Temos, vou reservar o lugar certo para você.


Então virou-se para caminhar para o elevador e só então percebeu que não estava sozinha no check-in. Havia uma moça, com um uniforme branco, marinha, aeronáutica? Nunca havia prestado atenção suficiente para identificar. Bonita? Sim, de um tipo de mulher bonita que lhe atraía, ou seja, provavelmente Casanova. E hétero. Tinha uma energia hétero exalando dela, apesar de que... Sofía parou sua mente, deveria estar muito cansada mesmo.


Então subiu, admirou seu quarto, bonito, confortável, tomou um banho rápido e sentiu uma imensa vontade de correr para Angra. Agarrar nela um pouquinho, contar do seu dia, mas ela estava em Búzios ainda, curtindo a casa, curtindo seus amigos e estava no finalzinho, era melhor deixá-la mais livre. Se era para agarrar nela, deveria ter ficado. Por isso, preferiu jantar no restaurante. Imaginou que sentiria essa falta assim que entrasse num quarto de hotel.


Tomou um bom e relaxante banho, ouvindo algo na TV só para não se sentir muito sozinha. Colocou um vestidinho rápido, não se maquiou, calçou seus chinelos e desceu para o restaurante. Sua mesa estava reservada, com vista para a lagoa como havia pedido, a noite estava cálida, agradável e o menu parecia delicioso. Pediu uma massa, um doce e meia garrafa de vinho. Conversou um pouco com Angra, por mensagem, ela havia mandado, estava preocupada e quando seu prato chegou, mandou uma foto para ela. Com o prato, uma taça de vinho, o pedaço de pudim.


“Você não deveria estar comendo sozinha jamais”, foi a resposta dela.


— Você se importaria? — Uma voz perguntou vinda de algum lugar.


Sofía ergueu os olhos, descobrindo de onde vinha, era da mesa em frente à sua. Uma moça, de jeans, camiseta, cabelos soltos, bonita com zero maquiagem e, chinelo de dedos. Achou interessante este detalhe. Não sabia explicar o porquê. Talvez por ser inesperado em um hotel como aquele no qual estava.


— Como...?

— É que só há nós duas aqui, você se importaria de dividir a mesa e... Jantar comigo?


Sofía manteve os olhos nela um pouco mais. Não, não se importou. Ela veio, trouxe seu prato, sua taça de vinho vazia, sua conversa simples, agradável e Sofía deve ter levado uns quinze minutos inteiros para entender que era a moça de uniforme militar que tinha visto no saguão e outros quinze para perceber que ela estava dando em cima.


E isso fez Sofía rir demais.


— Mas o que foi? Não me diga que é tão surpreendente assim eu estar interessada quando pedi para dividir a mesa com você? — Ela tinha um sorriso fácil, bonito e parecia muito diferente agora, de cabelos soltos, mais descontraída do que quando estava de uniforme.

— Não é, me sinto lisonjeada, está bem? Mas é que... Acho que estou destreinada dessas coisas.

— Recém-separada? — Ela perguntou, fitando a pulseira que Sofía não parava de tocar.


A pergunta foi complexa, mas a conversa seguiu fácil demais. Chamava-se Milena a moça, era da aeronáutica, e estava ali para dar um treinamento na base aérea da cidade. Era piloto e, aquele não era o único motivo de ela estar naquele hotel especificamente.


— Tem uma moça que eu estou conhecendo e ela é daqui. Amanhã vamos encontrar pela primeira vez, eu meio que me ofereci para dar este treinamento aqui porque... Bem, estamos conversando há seis meses já. Pareceu muita... Coincidência ela morar justamente aqui. Aonde eu geralmente venho por causa do trabalho. Acho que foi até por isso que decidi aprofundar a conversa. Mas as coisas a distância quando vêm para a realidade nem sempre... Não sei se me entende.

— Entendo. Entendo sim. Pode ser nada e pode ser que você comece a vir para esta cidadezinha por muito tempo, a trabalho e em muitas folgas.

— Que você esteja certa — Ela ergueu a taça num brinde, mas antes de brindar: — Ou que esteja errada, eu tenho um medo de me apaixonar seriamente que você nem faz ideia...


E aquele deve ter sido o motivo primordial de Sofía ter capitado a atenção dela. Terminaram o jantar, ela gentilmente fez questão de pagar a conta e de acompanhar Sofía pelas escadas. Parou na porta do quarto, chegando um pouco mais perto, o calor do corpo, um perfume gostoso, uma mão na sua cintura e uma boca sussurrando muito perto do seu ouvido...


— Nem uma coisa acontece sem motivo. Nós estamos aqui agora...


Estavam.


📚


Sofía ligou por voz para Angra perto de uma da manhã.


Ela atendeu de imediato, estava na cama, Estela tinha acabado de dormir e para Angra lhe atender com tanta prontidão, Guilherme ainda deveria estar em qualquer lugar. Como sempre havia estado, naqueles cinco anos que dividiam juntas. Sofía contou que não tinha jantado sozinha, um, porque Angra parecia ter um radar instalado em si e simplesmente sentia as coisas quando por algum motivo, Sofía não contava, e dois, bem, o dois estava incluso na pergunta que Angra lhe fez de volta quando Sofía disse que tinha sido perguntada sobre estar solteira ou não:


— Bem, só me interessa a resposta. O que você disse?

— Que... Eu estou comprometida. Eu me sinto comprometida ainda...

— E vai seguir sentindo, porque você está, linda. Eu não me descomprometi de você.


Sofía ficou quieta por um instante.


— Parece que você está aqui neste quarto comigo.

— E eu estou. Você precisa entender que eu estou.


E pode ter sido o jantar, o bom vinho, ou o dia inteiro de estrada, mas Sofía dormiu bem como em muito tempo não dormia. E sim, Milena tinha ficado na porta, sequer pisado dentro de seu quarto. E quando despertou, Sofía descartou Milena, o jantar, o vinho e a estrada, porque o motivo de ter dormido tão bem estava mais do que claro: era Angra, a conversa com ela e não precisava se enganar sobre isso.


Tudo bem sentir bem com ela, não era pecado, crime, era apenas um sentimento bom que se permitiu sentir.


Tomou um ótimo café da manhã, fez uma massagem e subiu para um banho longo, ritualístico, ouvindo suas músicas e seu podcast preferido, em italiano, estava aprendendo. Dedicou mais alguns minutos da sua manhã estudando um pouco de grego, coisa que tinha parado de fazer e suas morning pages ao invés de três, tornaram-se nove aquele dia. Estava muito cheia ainda, repleta de dúvidas e sentimentos, renderia por mais alguns dias. Desceu, fez checkout e em sua saída, viu Milena encontrando a tal moça por quem não queria estar apaixonada. Mas em seu ver, ela já estava e o sorriso dela confirmou tudo. Pegou estrada novamente, mais uma vez capota aberta, mais uma vez suas músicas e uma tranquilidade que sequer sabia explicar ao dirigir.


Almoçou em Belo Horizonte e fez diversas notas sobre sua rápida passagem pela cidade. Curtiu o clima, era cidade grande, mas parecia interiorana também, almoçou em um restaurante típico e adorou a comida, e não estava tão longe de Brasília, pensamento aleatório, de quem pretendia visitar Estela de vez em quando. Apenas Estela. Outra nota mental, como se tivesse que se convencer de tal dado. Deu mais algumas voltas, visitou o mercado central, comprou algumas coisas e entrou na internet, buscando um lugar para ficar em Ouro Preto.


Chegou perto do final da tarde, comprou um chá gelado para aliviar o calor e parou o carro perto de uma igreja que parecia ter flutuado até o alto daquele morro e aterrissado ali, feito uma nave alienígena. Ficou admirando a cidadezinha centenária enquanto observava o sol se pôr e, falava com Catarina.


— Mas você não sentiu nada? Nenhuma vontadezinha, nenhuma atração?

— Ah, atração sim, uma mulher bonita dando atenção sempre vai despertar alguma coisa. Mas nada... Profundo. No final, apenas foi muito divertido e muito bom não jantar sozinha.

— Sofía, a sua atração pela Angra... Descreve pra mim.


Sofía abriu um sorriso, olhando a cidade reluzindo.


— Eu só não consigo imaginar algum dia ela chegando perto de mim sem que eu não queira desesperadamente estar na cama dela, é de resumir assim... — Disse, fazendo Catarina morrer de rir.

— Sério assim?

— Muito sério! Você não tem como entender, e nem eu sequer tenho como explicar, mas a minha sexualidade se redefiniu depois dela. A sexualidade, o conceito de atração, de romance, tudo isso foi redefinido depois da Angra. Nós tínhamos algumas inseguranças, ela sempre se perguntava se o que eu causava na Frederíca na cama era semelhante ao que ela sentia e, nunca seria. Não há como ser. O que acontece entre a Angra e eu, sinto que não tem como acontecer com outras pessoas da nossa vida, isso é impossível. Você leu “Mauí”?

— Li sim.

— Sabe quando uma das personagens diz para a outra que se sente amaldiçoada? Porque depois dela, todas as outras mulheres perderam o gosto? Eu sinto assim. Que depois da Angra, todas as outras mulheres do mundo parecerão sem graça para mim.

— Deixa eu te perguntar, caso vocês ficassem juntas, como acha que seria isso? Acha que essa atração seguiria igual? Coisa de todo dia?

— Olha, coisa de todo dia não tem como ser, ou ninguém trabalha ou dá conta da Estela... — Mais risos. Sofía estava leve, Catarina podia sentir — Mas ainda que seja coisa de todo mês, como geralmente era entre a gente, ainda seríamos muito mais felizes que noventa por cento dos casais. Catarina, o que a gente goza em um dia, tem casal por aí que não goza em um mês...


Ela estava leve sim. E amanheceu se sentindo ainda mais leve no dia seguinte.


Acordou cedo, tão cedo que ainda viu o sol nascendo. Vestiu um body preto, uma saia jeans, tênis nos pés e, amarrou uma camisa de Angra na cintura. Claramente dela, um tamanho maior do que o de Sofía, cor clara, queria andar com ela mais agarrada em si aquele dia e, oficialmente, começou sua rota pela estrada real.


E aqueles dias foram deliciosos.


As coisas foram se acalmando aos poucos por dentro de Sofía. Chegar no começo da Estrada Real lhe deu um norte e seu dia em Ouro Preto foi de um enorme relaxamento. Tirou fotos, provou da culinária preciosa do interior de Minas Gerais, visitou igrejas que muito lhe lembraram as igrejas de Porto e fez anotações e mais anotações, sobre história, sobre arquitetura, sobre si mesma. Saiu no dia seguinte bem cedinho e dali pra frente, foi fazendo paradas aleatórias e espetaculares pelo Caminho Velho da Rota do Ouro. Passou por muitos caminhos surpreendentes, se hospedou em lugares inesperados e aconchegantes, tomou banho de cachoeira, mergulhou em lagos, em rios e se deu conta de que só podia estar ali naqueles caminhos, naquelas experiências, se Angra tivesse surgido em sua vida.


Para lhe empurrar para aprender a dirigir, para aprender a nadar, ela lhe encorajava a ir mais, a conquistar mais, Angra foi seu primeiro passo de independência e não é que achasse que nunca seria independente sem ela: mas Angra acelerou este processo. Refletiu sobre isso do alto de uma cachoeira entre Pequeri e Lagoa Dourada, no seu quinto dia de estrada onde já tinha várias e várias páginas de conteúdo escritas, muitas fotos e, muitas coisas novas a contar sobre si mesma. Estar em silêncio pela maior parte do tempo ensinava muitas coisas, depender de si mesma para tudo também. A conversa com Catarina aquela noite foi durante o seu jantar, num restaurante típico.


— Deve ser algum tipo de negacionismo. Porque quando perdi minha família, a coisa que mais me assustou na vida era estar sozinha, era depender de mim para tudo. Por isso o casamento tão rápido e a vontade de engravidar? Faz sentido? — Sofía perguntou.

— Faz todo sentido. E olha, você se analisa muito bem sozinha, viu...


Risos e o aceite daquela verdade. Era boa de autoanálise, mas também era medrosa com os resultados das análises.


Chegou em Tiradentes no dia seguinte e se encantou pela cidade. Andou o dia inteiro, visitou cada pedacinho daquele lugar, teve outro almoço maravilhoso e nisso andava se sentindo meio em “Comer, rezar, amar”, o interior de Minas era sua Itália, estava comendo sem medo, sem pensar em nada além do que seu próprio prazer. E estava em um desses momentos de prazer aquela tarde, sentada em uma cafeteria, degustando um café coado na hora, em sua própria mesa e uma cesta de guloseimas mineiras, pão de queijo, biscoitos, doces, quando começou a ter sua mente fervilhando de ideias. Fez algumas anotações ali mesmo, vendo o movimento da rua, o vai e vem dos turistas, não achava que podia escrever um livro, mas um conto? Porque estava com um conto querendo nascer em sua cabeça...


Levou tanto tempo que quando foi para o hotel, já estava noite. Tomou um banho rápido, saiu para jantar porque, andava se obrigando a sair para sentir as cidades em todos os seus momentos e quando retornou para o quarto, sentiu algo esquisito por dentro.


Angra. Sentiu que precisava ligar para ela.


Ligou, por vídeo, queria vê-la se tivesse a oportunidade e, ela atendeu imediatamente. Sofía reconheceu onde ela estava, era o quarto de Estela, que já estava dormindo enquanto Angra tentava fazer o mesmo sem muito sucesso. Ela lhe atendeu tranquila, mas então começou a desviar o olhar e a querer desligar rápido.


— Angra, você não vai desligar até me contar o que aconteceu.


E entendeu o porquê ela não queria contar. Ela tinha pedido o divórcio em Búzios, mas em seu retorno, já estava de volta ao seu apartamento, estava triste, envergonhada, se sentindo fracassada na missão.


— Angra...

— Eu sei que você acha que eu não quero sair, que é por isso que eu aceitei passar a noite aqui, mas não é isso, eu só não quero sair o machucando...

— Ele vai se machucar, é impossível isso que você quer. A Frederíca ficou machucada, eu também não queria isso.

— Machucada, mas bem, você deve saber...

— Sei, e isso não faz eu me sentir melhor em nada. Ela é tão querida pra mim quanto o Guilherme é para você, mas você tem uma ilusão com ele que...

— Eu não tenho ilusão nenhuma, para de me tratar assim, como se eu achasse o Guilherme sem defeitos...

— Você acha que ele é assim. Que é melhor ser humano que a Frederíca. Que merece mais de você do que ela de mim e tudo bem achar assim. Não entra em julgamento, nem isso e nem a sua atitude. Não seja tão dura com você.


Ela lhe olhou muito cansada, muito abalada, de apertar o coração de Sofía.


— Não me deixa confortável, por favor, não me deixa.

— Nem você me deixa confortável. Chega de conforto, Angra.

— Sofía, eu não vou aguentar se... Você com outra pessoa. Como quase aconteceu aquela noite.

— Não te deixar confortável. Você acabou de pedir.


E este foi o motivo de Angra ter ido atrás de Catarina tão cedo aquele dia.


Basta. E bastava de conforto também.


Notas:


Olá, meninas!


E vamos de #SofíaGoSolo hahahahaha Por pouco, hein!? Mas o amor dessas duas transcende e daqui pra frente vamos ver uma Angra tentando dar passos largos para a liberdade e para o único amor que a faz totalmente completa. Enfim, mas como tentar não é suficiente, teremos uma Angra ainda lutando, mas torcer para vencer o mais rápido possível.


Então, todas prontas?


Não esqueçam da meta de comentários! Divirtam-se com os selos novos e com a pequena rede social do Tessaverso que terá novidades maravilhosas pela frente. Aguardem!


Aliás, para aquelas que ainda não conhecem a nossa nova área de assinantes do site, deixarei aqui o link para que vocês possam dar uma olhada:


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Abraços!


E vamos de alguns lembretes:


- 50 comentários, sempre até às 23 horas do dia anterior ao capítulo inédito;

- Grupo de Whats’App para quem quiser bater um papo sobre as histórias: https://bityli.com/LetqE;

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Beijos! Se cuidem!


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