Capítulo 34: Santorini




Como uma coisa tão simples, podia trazer tanta felicidade?


Sofía não fazia ideia, mas o simples entrar de mãos dadas com Angra em um aeroporto, foi algo que lhe fez sorrir o tempo inteiro. Fizeram check-in juntas, a veia FBI de Angra logicamente tinha descoberto o voo certinho de Sofía e sua autoconfiança lhe disse que ela aceitaria. Sua companhia, ir para Santorini junto, temeu muito, mas no fundo, sabia. Estavam estremecidas, a tempestade era intensa, mas ainda estavam ali. Ainda existiam. E existindo, nenhuma das duas nunca se negaria.


— Aqui, linda, nossos passaportes — Angra entregou a ela os documentos e a beijou no rosto longamente, numa tranquilidade que...


Sofía nunca imaginou ver por ela.


— Não está apavorada?

— Com o voo? Sofía, eu acho que estou curada, viu... — Disse, fazendo aquela gargalhada gostosa surgir.

— Curada, curada?

— Depois do que eu fiz vindo pra cá, acho que tudo foi curado. Meu principal problema não era o voo, era como você ia encarar eu aqui, então eu vim muito tranquila com o voo, preocupada, mas com outras coisas.

— Como se eu realmente fosse me tornar apta a recusar você do dia pra noite, não é? — A agarrou pelo pescoço, estavam agarradas assim o tempo todo — E pela primeira vez, voou totalmente sozinha. Sem a coalinha.

— Então... — Angra parou em um dos quiosques do salão de embarque e pediu dois sorvetes, um para si e outro para sua Sofía — Aqui, amor, eu sei que você adora...


E Sofía derretia, derretia, derretia. Beijou sua garota, se agarrando nela inteira enquanto voltavam a caminhar em busca do portão de embarque.


— Você veio sem ela.

— Eu vim, porque não queria que você pensasse que eu estava usando nossa filha para amolecer seu coração.

— Ela é geralmente muito usada, mas meu coração nunca está endurecido, é que vocês gostam de me ver muito derretida mesmo — Mais um sorriso, enquanto tomava seu sorvete — Eu amaria ter a nossa coalinha aqui, estou morrendo de saudades. E, eu amo quando você diz “nossa filha”.


Angra beijou a testa dela carinhosamente, a apertando para muito juntinho.


— Ela é nossa. Inclusive, com tudo o que o Guilherme está magoado e se sentindo traído, foi o que ele disse antes de eu vir. Ela é filha de nós três, não tem litigioso que tire os seus direitos com a Estela, nem os dele.


Sofía se agarrou no pescoço dela ainda mais.


Tudo ali já havia sido um sonho. Tudo.


Aterrissaram na Grécia. Antes das nove da manhã. Tinham pegado um voo cedinho porque queriam aproveitar o dia que teriam em Atenas e, que aterrissagem majestosa!


E Sofía mal podia acreditar que estavam ali, juntinhas, curtindo aquela visão privilegiada de Atenas, passando apenas por um leve nervoso durante o voo. Sequer o perceberam, voaram de mãos dadas e carinhos infinitos, e quando Atenas se mostrou em suas cores tão originais...


Atenas tinha mil tons de areia.


Pegaram um Uber na saída do aeroporto, já com destino certinho, uma vez que, numa coincidência que Sofía não estava acreditando nem um centímetro, Kalinka estava em Atenas. E as esperava para um café de onde poderiam ver a poderosa Acrópole o tempo inteiro. E, lá ia Angra se derretendo, com sua garota falando em grego com o motorista, sendo simpática, tão educada, Angra não precisava entender uma palavra para saber que era isso que ela estava fazendo. Chegaram no café e avistaram Kalinka numa mesa já cheia de opções, aguardando por elas, tomando um café, de óculos escuros, extremamente estilosa, de calça de couro preta, camiseta branca, repuxada nas mangas enquanto lia algo no celular.


— É bonita essa sedutora grega, não é? — Emoldurada pela Acrópole então, parecia cena de cinema, Angra quase sentia pena de Carolina pela confusão que Kalinka sempre causou nela.

— Carolina está balançada, não está?

— E eu nem a culpo.


E foi Kalinka as avistar e aquele sorriso lindo se abriu. Ela veio, abraçou Angra com muito carinho, e então, abraçou Sofía longamente, a apertando nos braços, a sentindo pertinho, olhando para ela, empolgada, feliz, nem sabia explicar! Daí olhou para Angra novamente, a puxando pela camisa, sem acreditar ainda no que estava realmente vendo.


— Angra! A Angra de 2015 voltou para o seu corpo, eu nem acredito nisso! — Disse, fazendo as duas rirem demais.


Foram para a mesa, pediram chá e café grego, claro, e Sofía definitivamente não conseguia acreditar na saudade súbita de sua amiga em visitar Atenas, apenas semanas depois de ela ter estado ali.


— Sofía, eu tinha que te ver! Só pra checar... — Kalinka começou a se entregar.

— Kali, eu não acredito que você veio pra cá só para me interceptar... — Chegava a ser engraçada a situação e o sorriso de culpada de Kalinka era a coisa mais linda.

— Eu vim — Não conseguia parar de sorrir — Eu sei, é bobo, mas eu precisava te ver, entender se estava tudo bem mesmo.

— Daí vocês me dizem, como é que eu não vou ser mimada? Minha melhor amiga sai sei lá de onde só para ter certeza de que eu estou bem, e você... — Sofía olhou para Angra e estava assim, olhava e se derretia sorrindo, derretia no olhar. Beijou Angra, a puxando para pertinho, ela estava linda, de jeans, camiseta azul, os óculos escuros, o cabelo jogado de lado e aquele sorriso... Como amava aquele sorriso. Era o seu amor todinho — Você é louca, é linda, mas louca...

— Cinco anos de pura sanidade, chega, já estava na hora, vai... — Angra chamou o garçom, pediu um doce para sua Sofía, o café estava forte demais para ela, Angra já a conhecia bem neste nível e, Kalinka ficou olhando para todo aquele gesto. O braço de Angra pelo recosto da cadeira de Sofía, o cuidado com cada coisa, Sofía com a mão na coxa dela, linda de morrer, de jeans, estilosa numa blusa preta com detalhes em crochê, deixando ver pele aqui e ali, um lenço amarrado em faixa, passando testa e amarrado atrás da cabeça, boho chic, de pele brilhando, olhos brilhando, as duas estavam simplesmente brilhando luz o tempo todo.

— Vocês... Que casal poderoso. É a vibe que vocês passam juntas, foi assim desde o começo. Duas mulheres fortes, bonitas, realizadoras. Que casal poderoso, viu. E há um fenômeno interessante, porque sozinhas vocês são duas forças já muito significantes, mas juntas... Vocês são muito mais poderosas uma com a outra.

— Sabe que, eu estou indo em outra terapeuta e ela falou sobre algo interessante antes de eu vir pra cá. Ela pediu para que eu separasse a palavra “confiança”. Com fiança. A gente precisa de fiança quando...?

— Precisamos libertar de alguma coisa — Sofía respondeu.

— Isso mesmo. A gente não deve depositar a nossa fiança a outra pessoa, mas... — Angra comeu outro pedacinho de pão — Existem pessoas que nos dão “autoconfiança”. E essa é a única fiança que realmente importa — Pegou a mão de Sofía sobre a mesa, aquela com o anel — Quando a gente recebe essa fiança de alguém, de maneira verdadeira, tranquila e gratuita, isso deixa qualquer um poderoso — Beijou a mão de sua garota sorrindo.


Sofía se agarrou em Angra ficando ainda mais pertinho.


— Foi o que eu falei pra Kali quando voltei de Alto Paraíso. Que estava me sentindo poderosa, viva, que alguma coisa tinha mudado — Cheirou sua garota, sempre tão cheirosa, tão gostosa, Sofía não aguentava, não — Mas me fala, Kali, você e a Carol, como estão?

— Então... — Kalinka abriu um sorriso — Nós seguimos conversando bastante, tem sido divertido, temos bastante coisas em comum, e... — Abriu um sorriso luminoso — Vamos ligar pra ela?

— Mas não é muito cedo no Brasil?

— Ela está saindo do plantão agora — E saber a que horas Carolina saía do plantão, já dizia bastante de como deveriam estar andando as conversas. Kalinka ligou, por vídeo e o tom de voz quando ela atendeu...

— Eu não aguento você me ligando com esses cenários inacreditáveis atrás de você, Kali... — Ela respondeu, com um tom gostoso e leve na voz.

— Acrópole de Atenas para te recepcionar hoje! Como foi sua noite? Segue tenso?

— Os plantões estão esquisitos ainda, mas enfim, deve ser o momento. Me fala, sinais de Angra Fernandes?


E Kalinka virou a câmera para o casal que emanava poder.


— Eu não acredito que você chegou na Grécia, Angra! Espera, vou reformular, que você chegou na Grécia e, com a Sofía, porque eu achei mesmo que tinha uma chance enorme de ela...

— Recusar? Mas Carol... — Sofía estava rindo demais.

— Eu achei mesmo! Que ia devolver a Angra para o Brasil de coração partido, já tinha aqui um plano de ação e tudo.

— Eu sou incapaz de recusa quando a questão envolve a Angra, Carol.


E aquela simples frase, fez Angra sorrir demais. Falaram um pouco mais e tudo o que Carol conseguia notar era o quanto sua amiga estava luminosa ao lado de Sofía. Era o lugar dela, ninguém tinha que explicar a respeito, algumas pessoas são feitas para estarem ao lado uma da outra e era o caso ali. Angra era de Sofía, Sofia era de Angra, ponto. E queria muito, mas muito que Angra conseguisse o que tinha ido fazer: ela só queria Sofía perto. Uma última chance. Era apenas o que queria. Falaram disso quando desligaram. Quando Kali perguntou sobre futuro.


— A minha missão agora é só ganhar tranquilidade para nós duas, Kali. Vai ser... — Olhou para Sofía, encontrando o olhar dela — O que a Sofía quiser que seja, eu estou muito orgulhosa de onde ela chegou, dos desafios que ela venceu, das decisões tomadas. Então o futuro agora, é garantir tranquilidade.


E Sofía sabia bem o que ela estava querendo dizer.


Almoçaram juntas e tiraram a tarde para passear por Atenas. Primeiro, a Acrópole que estava seduzindo os olhos de Sofía o tempo inteiro, e ali era um lugar que não dava para descrever! Era vivo, era ancestral, histórico, intenso, o tipo de coisa que atraía tanto Sofía como Angra, sempre tão apaixonada por arquitetura, por história, por beleza. A beleza da Acrópole, a beleza de Sofía. Kalinka a flagrou fotografando Sofía enquanto ela andava distraída, seduzida pelas histórias que deveriam guardar aquelas ruínas. Ela era muito apaixonada, paixão nunca havia sido uma questão e Kalinka só conseguia torcer, para que agora, as coisas se ajustassem de alguma maneira.


Mensagem apegada de Carolina e a sensação que não deixava Kalinka em paz: quanto tempo? Se perguntava isso todas as noites e sabia que por muito tempo, Sofía também se fez aquela mesma pergunta. Mas agora estava ali, curtindo um dia de passeio nos braços da mulher que amava, as duas livres, se divertindo, sem culpa, um casal bonito, que vibrava coisas boas, que chamava atenção, pela beleza e pelo amor. Elas pareciam apaixonadas igualzinho a como estavam em Cartagena, no nascimento de Estela. Como podia? Como podia um sentimento assim perdurar, apesar de todos os pesares?


Queria um amor assim. Ponto. Kalinka queria.


O passeio continuou, passaram por alguns templos e museus, onde muito agarradas uma na outra, Angra e Sofía viram uma peça cuja outra parte, haviam visto juntas, no Louvre, em Paris. Angra a abraçando por trás, Sofía agarrada nos braços dela, conversando e conversando, se curtindo em cada segundo. Jantaram em um restaurante maravilhoso, com aquela conversa fácil de sempre, elas seguiam agarradas, juntinhas, felizes demais. Dormiram no apartamento de Kalinka, o amor foi ouvido suave, a empolgação para o dia que viria também e durante a manhã seguinte, Sofía acordou antes, praticamente flutuando de tão leve...


Encontrou Kalinka já de pé, fazendo o café da manhã.


Kaliméra, Kali! — E abraçou sua amiga por trás, a fazendo abrir um sorriso enorme.

Kaliméra, minha coisa que amo — Beijou a mão dela com carinho — Sofía, fala pra mim, você está muito feliz, não está?

— Eu nem... Nem sei ainda. Não consigo explicar. Ela está aqui, eu estou livre, ela está livre e... Eu não sei.

— Eu sei e você também sabe, Sofía — Kalinka se virou para ela, a olhando nos olhos — Escuta, eu não queria deixar você embarcar para Santorini sem te dizer isso. Angra está aqui, está finalmente aqui, são poucos os amores que têm segundas chances. E vocês estão tendo, sei lá, a quinta chance? Você sabe que é ela. Que sempre foi ela. Sabe que...

Sempre houve algo sobre ela — Abriu um sorriso solar. É claro que sabia.


Acordou sua Angra com café da manhã na cama.


Café na cama, amor matinal, antes de qualquer coisa. Kalinka as deixou no porto, entraram no ferry, menos de uma hora até Santorini e o Mar Egeu sob o sol brilhante era simplesmente...


Santorini invadiu os olhos das duas ao primeiro aceno.


As montanhas, as casinhas brancas, empoleiradas, os detalhes azuis e Angra... Angra estava agarrada na sua própria ilha. Seus olhos se encheram e Sofía se agarrou nela, a acarinhando, a mantendo pertinho.


— O que foi, minha linda?

— É que... Foi aqui que você começou a me encontrar.

— E eu sei que só escrevi aqueles bilhetes para achar você. Eu sei.

Tudo ali já havia sido um sonho. E ele tinha começado naquela ilha mágica.


📚


“Santorini. Thira, em grego, Thera na história antiga. Ilha vulcânica em formato de meia-lua, lá no finalzinho do Mar Egeu, erguida sob um terreno irregular, altamente acidentado, com casinhas azuis e brancas a se espalhar pela sua espinha dorsal única, enveredada, distinta. Santorini é, em sua essência, o que restou de uma das maiores erupções vulcânicas já registradas na história: a erupção de Thera, que entre outras coisas, deixou uma cratera gigantesca cheia de cinzas e pode ter causado um tsunami que varreu a civilização de Creta no mesmo período. Como uma ilha tão deslumbrante pode ter nascido de tantas adversidades?


É como nascem a maioria das coisas bonitas. De grandes erupções, de densas adversidades...”.


Sofía respirou fundo, fechando seu Moleskine, enquanto via sua Angra mergulhando no Egeu gelado antes de qualquer coisa. Tinham parado num café e Angra dito que queria mergulhar, a praia ficava logo ali e ver a empolgação com a qual ela correu para o mar, era...


O sorriso, a intensidade por estar naquela ilha paradisíaca e que tanto significava a elas duas... Teria sido especial em qualquer lugar. Ainda que Angra tivesse simplesmente aparecido de surpresa no aeroporto de Brasília, teria sido especial, mas a grande questão, tal como todas as outras coisas que envolviam Angra Fernandes, era que, ela sempre esteve além do especial. Além dos clichês apaixonados que todo mundo adora, além da história enrolada em destino, além do romance lindo, além do esperado como único. Então, ela não apareceria de surpresa em um aeroporto e ponto, ela faria além, ela surgiria numa ilha croata sem nenhum aviso, e sim, ela traria Sofía para a ilha onde mentalmente, a ponte que trouxe uma para a outra, começou a ser construída.


Sofía não tinha como sonhar com um momento assim. Não havia como sonhar com elas duas em Santorini, livres em Santorini, sem se preocupar com desculpas, ou justificativas, sonhar com... Angra saindo de um mar gelado, com aquele sorriso lindo aberto, enquanto Sofía tomava um chá, em um café pertinho da praia, e em Santorini, a beleza surgida após uma enorme erupção.


Sofía sabia como era ser uma ilha vulcânica de erupções que apenas escorrem. E sabia como era ser um estratovulcão de erupções que primeiro fervem por muito tempo, até explodir de verdade. Seu estratovulcão estava saído do mar gelado da Grécia, com aquele sorriso de estrela do rock no rosto, se secando rapidamente, pondo a roupa novamente e veio direto para Sofía, correndo pelas escadas de pedra, a beijando antes de puxar a cadeira e se sentar bem do seu lado, pedindo para ser aquecida, e...


Sonho. O parecer de sonho. A realidade que já havia sido sonho, era isso. Sofía queria saber quando esta sensação iria passar.


— Me aquece que esta água está mais gelada que o Adriático!


Sofía a beijou de novo, a mantendo pertinho e colocando chá para ela.


— Eu pedi a chaleira porque tinha certeza de que você ia sair congelada desse mar! As temperaturas tendem a melhorar na semana, linda, eu te disse... — Falou, já pondo o chá para sua garota.


Angra buscou os olhos dela, docemente.


— Eu não quero esperar por mais nada que não seja você. Todo o resto, daqui pra frente, eu quero agora, imediato, sem deixar para amanhã. Eu já deixei muita coisa pra depois, isso acabou, eu aprendi tudo.


O coração de Sofía vibrava e apertava na mesma proporção.


— Angra, sobre o pedido... Eu sei que te magoou muito.


Angra beijou o anel no dedo dela.


— Não magoou. Foi necessário. Não pensa mais nisso, tá? Eu não estou pensando mais. O problema na verdade foi o antes. A ansiedade nos seus olhos. Eu te disse, eu não quero causar isso nunca mais, está bem?


E nem Sofía queria causar. Esquentou sua garota, porque ela sempre seria a sua garota e enquanto ela bebia o chá, sussurrou para ela que Angra não iria acreditar no Airbnb que Sofía tinha pegado...


Artia Mansion.


— Sofía, eu não acredito que... Eu não acredito!

— Esculpida numa caverna do Egeu e se eu te disser o quanto custou, você não acredita...

Era uma caverna branca, absurdamente trabalhada, o tipo de coisa que só se vê nas ilhas gregas, mais especificamente, em Santorini. A sala era deslumbrante, a cozinha cinematográfica, o quarto, nem se fala, o Egeu acenava pela janela, uma pequena mansão esculpida no meio de uma montanha vulcânica, havia um espacinho antes das portas do quarto, com duas poltronas, onde Angra totalmente visualizou elas duas com seus vinhos nas noites que estavam por vir, aquelas que tinha certeza, seriam delas demais.


Linda, você já viu aqui fora?


Angra correu para a varanda e era...


Era simplesmente deslumbrante.


O Mar Egeu azul-brilhante, azul-escuro, para Sofía, ele era tão, mas tão diferente de todos os outros mares. E a varanda tinha uma jacuzzi, tinha cadeiras de sol, uma mesinha para tomar café da manhã, almoçar, jantar, o que quer que a vontade das duas pedisse.


— Sofía, isso... — Angra a abraçou pelas costas, olhando para o azul-egeu que preenchia a visão onde quer que os olhos conseguissem chegar — “O Egeu parece que me preenche. Desagua dentro, infiltra, circula interna, move: sentimentos, órgãos, veias, vontades. Não há mar como este. Não há ilha como Santorini. E nem inundação tão vazia quanto a minha...”.


Sofía sorriu, apertando os braços dela em si.


— Você lembra de cada bilhete.

— Cada um deles. Fala pra mim, você está aqui, de volta, oito anos depois. Ainda te inunda?

— Inunda. E não é mais vazio.


Antes de qualquer coisa, foram ao mercado juntas. Era o tipo de experiência que adoravam, amavam os cafés da manhã de hotéis, mas nem se comparava ao quanto amavam o café que elas mesmas preparavam. Para um casal que não dorme junto todas as noites, era o tipo de coisa que se tornava um presente. Adoravam cozinhar uma pra outra, adoravam se mimarem desta forma, então café da manhã seria em sua caverna no Egeu, os almoços, pelos restaurantes recheados da deliciosa cozinha grega, e a noite...


A noite seria delas. Como sempre era.


Fizeram mercado, compraram temperos gregos, especiarias, cafés, os vinhos que adoravam e, Angra comprou flores, lindas, em um rosa deslumbrante, porque Sofía merecia. E quando que o simples mercado delas não pareceria um romance? era uma pergunta de resposta desconhecida. Voltaram para a casa delas em Santorini e saíram para o dia de passeio.


Nada melhor do que começar por Fira, a capital da ilha, que era onde ficavam as icônicas casinhas brancas construídas à borda de um... Penhasco. De 400 metros. Sofía sempre quis saber de quem havia sido tal ideia, mas ilha vulcânica feroz, decisões grandiosas. Foram em um mercado de rua, coisa que as duas adoravam, as mãos sempre dadas, o sorriso das duas aberto, brilhando mais que o sol majestoso num céu sem nuvens daquela manhã. Compraram algumas cerâmicas, se perderam por dois maravilhosos museus, o arqueológico e o pré-histórico, e o almoço foi... Deslumbrante. Num restaurante, em um mirador de tirar o fôlego, de onde se podia ver de Akrotiri no Sul, até Ag, o cabo que ficava ao norte.


— Você escreveu seus bilhetes daqui quantas vezes?

— Ah, Angra, eu nem sei. Acho que foi o lugar onde eu mais fiquei, eu vinha pra cá, trazia meu Moleskine, anotava e anotava. Nós ficamos logo ali, Fer e eu. Então eu acordava e só vinha pra cá.

— Passou muito tempo sozinha nessa viagem, não passou?

— Muito. Sozinha, ou em silêncio. Eu sentia que precisava mudar alguma coisa, mas não sabia nem por onde começar. Levou um tempo até eu saber por onde e outro tempo até... Andar de fato. Você sabe, conhece a minha jornada como ninguém — E abriu um sorriso, tomando outro gole do seu chá gelado pós almoço e admirando a vista. Foi um olhar diferente, um sorriso diferente, Angra notou.

— O que foi? — Angra sorriu também.

— Eu ainda não acredito que estamos aqui, tomando um chá depois do almoço, sem precisar ter... Tecido uma história enorme, sem precisar dar explicações, sem... Peso. Culpa. Eu ainda não acredito.

— Eu que não acredito! Nem que fizemos tudo isso e nem que... Resistimos — Outro sorriso — A passar por tudo. A gente pensou nisso tantas vezes, quisemos tantas vezes e agora... — Angra admirou a vista também e, admirou Sofía — Eu só não canso. De ter certeza. Que este momento aqui, realmente existe.


Não havia bem como explicar o que estavam sentindo.


Viajar juntas era outra coisa que sempre quiseram, e naquele final de tarde, enquanto subiam a Roca Skaros, Sofía tentou condensar aquele sentimento, enquanto agarrada na mão de sua Angra, vencia o desafio de subir até o topo daquele castelo natural formado por erupções e tsunamis.


— Eu adorava viajar com a Frederíca, você sabe que eu adorava, mas havia algumas coisas que... Ela nunca viu que desentendimentos e normalidade não andam juntos. A gente se desentendia, por discordâncias gerais durante as viagens e ela só seguia em frente, como se nada houvesse acontecido. E queria tirar foto, curtir os lugares, ter jantares românticos e eu por dentro estava só... Magoada. Só queria... Outra coisa. E não é por nada, ela é de uma maneira e eu sou de outra, o que me magoa, nunca a magoou e a gente nunca conseguiu... Chegar ao fundo uma da outra. Interessante, né? Principalmente porque a gente sempre se vangloriou de ser um casal que conversava.

— Vocês conversavam muito, mas não sobre o que importava. Eu sei por que eu era assim com o Guilherme também. Cuidado aqui, linda, espera — Angra subiu primeiro, e lhe estendeu a mão, ajudando Sofía a subir mais, estavam as duas de sneakers brancos, Angra de Nike, Sofía de All Star, Angra de jeans, Sofía de jardineira-saia, óculos escuros, mais combinando impossível.

— Gentil sempre, né? — Sofía se agarrou nos braços dela um pouquinho mais depois de subir.

— Ah, linda, isso é só com você, viu... — Disse, fazendo Sofía rir demais, agarradinha nela ainda.

— Eu sei, eu tenho essa “culpa” também, tá? Eu sou diferente com você. Mas acho que é porque você é diferente comigo e isso gera este ciclo bom de coisas. Então... — Pegou a mão dela e continuaram subindo — Com você, só era bom. Segue só sendo bom. E a felicidade e o bem-estar que eu sinto é apenas genuíno. Isso deveria ser pré-requisito, não é?

— Para qualquer relação. Agora eu sei disso muito bem.


Chegaram ao topo da Roca Skaros, admirando a vista, conversando mais, tirando fotos que sempre quiseram e que... Estampavam uma felicidade real. Estavam realmente felizes, plenamente felizes. Desceram e pegaram uma praia escondidinha, a Praia do Pori, a preferida dos locais. Desértica, desolada, um caminho de pedras vazio naquele final de tarde. Terminaram ali, assistindo ao pôr do sol, tomando um vinho e degustando queijos e chocolates que compraram mais cedo pelos mercados.


Sofía suspirou, estando nos braços dela, sentindo aquele perfume, vendo aquele pôr do sol deslumbrante nos braços da mulher que amava.


A sensação do irreal persistiu na caverna delas, enquanto cozinhavam o jantar juntinhas aquela noite, o Egeu logo ali, as luzes que acendiam suaves na varanda, a playlist delas tocando, as fotos tiradas no dia passando no notebook. Uma taça de vinho sempre pela metade, e Sofía... Como Angra podia explicar Sofía? Ela de calça de ioga e uma lingerie sexy demais, zanzando de um lado a outro de sutiã rendado, cabelos presos no alto e sendo assim, é claro que teve amor naquela cozinha, rapidinho e intenso, enquanto a lagosta estava no forno. Sofía contra a parede, a boca na boca de Angra deliciosa, a mão dela por dentro da sua calça, lhe tocando, lhe estimulando e, achando, Angra sempre achava, sempre fazia gostoso, a boca no pescoço de Sofía, o seio dela descoberto, com marca da sua boca que já havia passado por lá, o mamilo endurecido, a pele arrepiada e gozar com Angra era...


O braço dela contaria como era, a marquinha no canto da cintura de quando Sofía desceu e a colocou contra o balcão americano também.


— Você vai gozar em dois minutos.


Angra nem sabia como não tinha gozado no primeiro minuto, com Sofía baixando seu short jeans, pondo sua calcinha de lado e, anf, o tesão fazendo uma ponte no ar, o quanto que estava molhada e a língua de Sofía simplesmente... Ela sabia onde ir. Sabia onde pegar. Onde apertar e quando ela só chupou mais forte...


As pernas de Angra estremeceram, gostoso demais, o tipo de prazer que ficaria flutuando pela sua mente. Gozou na boca dela e a viu sorrindo demais enquanto passava a língua pelos lábios, sexy pra caramba, Angra nem sabia.


A puxou para cima, a pegando mais firme e ela estava sorrindo, é claro que estava.


— Como que faz gostoso desse jeito o tempo todo?

— Você sempre vai abrir meu apetite — Sofía se agarrou nela, beijando longamente, pegando Angra inteira e as duas ficavam... Como podia? Aquele tanto de tesão o tempo todo? — Gostosa pra caramba, eu não resisto a você, não vou resistir nunca, eu sei.


Angra a beijou novamente, e então, sedutoramente, girou com ela, a colocando sobre o balcão da cozinha.


— A gente janta lá fora e eu te levo pra cama.


Era por isso que não resistia.


Jantaram lá fora, e é claro que Angra lhe levou pra cama, sedutora, com a pegada suave e um entendimento mental que... Elas só sabiam. Quando as duas queriam amor, quando as duas só queriam dormir, quando queriam outra coisa e era bom, era simples. Dormiram de conchinha e quando acordou, Sofía estava simplesmente, emitindo luz.


Deixou sua mulher dormir, porque sabia que sono era uma das coisas mais preciosas para uma mãe, Angra não tinha direito de dormir mais tarde quando Sofía estava longe, e já havia colocado na cabeça que iria mimá-la do simples todos aqueles dias. Fez isso aquela manhã, preparando um café com frutas, panquecas, mel e café preto, do jeito que Angra adorava. Abriu as janelas, o sol brilhando lindo demais, o Egeu também e suas morning pages daquele dia...


“Cwtch. É uma palavra galesa, que quer dizer ‘algo que é mais que um abraço, mais que um afago, uma conchinha que seja’. Quando se dá a alguém um cwtch, você figuradamente está dando a alguém mais que um carinho, você está ofertando a esta pessoa um lugar seguro. Que Angra era o meu hygge, eu já sabia, mas desta vez, eu sinto além. É meu hygge, mas não é apenas um momento, é o meu hygge, e meu lugar seguro, o que já era antes, mas desta vez, sinto que a expressão está saindo do sentido figurado. Angra está aqui, comigo. Eu comecei a sonhar com ela aqui nesta ilha...”.


Tinha começado. Levou o café para ela, na cama, para ver aquele sorriso solar se abrir e a mulher mais linda do mundo acordando em plena felicidade... Seu hygge, seu cwtch e sendo seu cwtch...


Sofía precisava agir. Foram para Oia aquele dia, outra cidadezinha construída nos penhascos, com casinhas brancas com detalhes azuis e seus telhados abobadados, seus restaurantes pitorescos, as flores cor de rosas que pareciam cair em cachos de qualquer lugar. Oia era para onde se ia quando se desejava ter um ensaio instagramável e achava que tinham se perdido quando Angra se distraiu olhando para uma noiva fazendo fotos. E quando despertou, onde estava Sofía? As escadarias lotadas, um tanto de gente por todos os lados, e sério? Tinha perdido Sofía? Tinha. Perdido sua garota no meio de uma imensa galeria de lojinhas.


Linda, como que eu vou te achar de novo? Eu não faço ideia de onde...

Sofía riu do outro lado da linha.

— Eu te acho, amor, te acho em... Vinte minutinhos. Vou te mandar um lugar, a gente se encontra pra almoçar já, já.


Ela mandou, um restaurante pequeno e lindo demais, branco, de portas e janelas azuis e mesas ao sol. E nos vinte minutos prometidos, pronto, sua Sofía de volta, a coisa mais linda como sempre, tiveram um almoço maravilhoso e o pôr do sol naquele lugar... Não, não iriam esquecer nunca, de nenhum segundinho mágico que tiveram ali. Outra noite gostosa, de jantar inesquecível, amorzinho apegado demais e no dia seguinte, foi Angra quem acordou antes, foi ela quem preparou sanduíche de forno, com bacon, ovos e salsinha, café na cama, amor na cama e o dia foi...


Antiga Thera e Angra linda demais, de calça preta, camisa branca, aquele sorriso que deixava Sofía...


Não conseguia parar de olhá-la. Naquela tarde em Acrotíri, um vilarejo de estilo veneziano, remanescente da época que Santorini pertencia a Veneza. Angra estava gentilmente tirando fotos de um casal que pediu a ela, e a simpatia, a gentileza, a beleza... Quando voltou para perto, Sofía estava com um olhar diferente nos olhos.


— O que foi, linda? Tudo bem?


Sofía a beijou. Mão no rosto, beijo delicado, suave, tão dócil.


— É que eu amo você demais.


Angra abriu um sorriso, com sua testa ainda juntinho da dela.


— Como eu amo você demais também.

— Eu sei. E essa é a melhor parte de tudo.


Jantaram fora aquela noite, num restaurante delicioso e quando voltaram pra casa, estavam navegando em vinho italiano e terminaram na jacuzzi, do lado de fora, estava uma noite quente, gostosa demais, e as risadas... Esperavam que ninguém pudesse ouvir, porque o tanto que riram, o tanto que se curtiram, o tanto que fizeram amor... Ah, que ninguém pudesse ouvir e quem ouvisse, que entendesse que era muito amor transbordando, amor na pele, sentido, consumido, inebriante demais.


Dormiram nuas em pele e muito agarradas uma na outra. E a noite havia sido tão intensa que Angra dormiu muito profundamente, depois de terem feito amor tantas vezes, rido tanto, falado bobagens e declarações. Sofía acordou sorrindo, se colocou de pé sorrindo, cabelos amassados da cama, lingerie branca, um Kimono boho étnico, peruano, estava no apartamento de Angra há tanto tempo que tinha até esquecido dele. Mas era uma peça importante porque, Angra dormia nela sempre que sentia muita falta de Sofía. Sofía sabia disso e achava a coisa mais doce. Sorriu só de lembrar disso, estava sorrindo sem precisar de nenhum motivo extra.


Fez o café da manhã, recebeu o que havia pedido pelo celular, preparou uma bandejinha, morangos, amoras, uma torre de panquecas, café preto, suco de bergamota, uma laranja cortada ao meio. Levou para o quarto e lá estava, sua Angra ainda dormindo, de bruços, apoiando a cabeça nas mãos, os cabelos longos, mais claros, as costas nuas sobressaindo nos lençóis brancos. Outro sorriso. Colocou a bandeja na mesinha do quarto, onde os olhos dela poderiam ver e, foi ao que interessava.


Um buquê de rosas vermelhas, suas morning pages da primeira manhã, arrumou tudo ao lado dela na cama. Rosas vermelhas, as páginas e sobre elas, um par de alianças em ouro branco.


— Acorda, meu amor, acorda... — Sofía beijou a testa dela — Acorda que eu já estou morrendo de saudades e nunca mais eu quero sentir mais do que algumas horas de sono de saudade de você... — Sussurrou para ela, e Angra...


Angra acordou sorrindo, acordou beijando e quando se virou na cama, percebeu.


Estava acordando em Santorini, com o amor da sua vida, e... Um pedido de casamento bem ao seu lado.


— Sofía... — E seus olhos se encheram imediatamente.

— Nunca mais, mais que algumas horas de saudade — Ela lhe disse, abaixada ao seu lado na cama — I agápi eínai éna synaísthima, óchi mia apófasi. O amor é um sentimento, não uma decisão. E esse amor aqui, não pede perdão — Sofía pegou as alianças e olhando no fundo daqueles olhos derretidos em mel degradê, pediu: — Casa comigo, meu amor?


Angra se agarrou a ela e tudo o que Sofía ouviu, foi a mulher da sua vida lhe dizendo que sim, descontroladamente, enquanto beijava a sua boca e chorava em seus braços.



Notas:


Olá, meninas!


Adivinhe o que chegou? Angra, capítulos finais!


Já iniciamos nossa contagem regressiva para os últimos capítulos e a curva da felicidade está finalmente chegando para as nossas garotas. Angría sobreviveu! E acho que esse finalzinho deve ter dado uma aquecida no coração de vocês, não?


Tivemos Kalinka de volta e notícias de Karolinka e, tivemos Angra e Sofía de volta, vestindo finalmente a própria pele, se permitindo a felicidade, apostando alto uma na outra e, na Grécia, onde a caminhada de Sofía em busca de um novo amor começou. Achei simbólico resgatar “Santorini”, os bilhetes e o comecinho de elas duas. “Santorini” foi a faísca do destino que Angra seguiu, até encontrar Sofía.


Próximo capítulo, “Mar Tirreno”, prontas para o último capítulo antes da volta Angría para o Brasil? Não esqueçam de comentar!


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Beijos! Se cuidem!



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