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Vulnerable 2




Capítulo 02 - gabruna

conteúdo #2


Não havia ninguém mais acordado quando foram para a cozinha.


Era uma linda cozinha, feita com cores fortes, tal como a casa toda também era, desconfiavam que isso era para manter os ânimos sempre fervendo, sempre interessados em fazer algo acontecer, mas quando perguntassem sobre as funcionalidades da cozinha mais tarde, nenhuma delas saberia dizer em detalhes, porque simplesmente se desconectaram de onde estavam e, se conectaram uma na outra.


Foram abrindo armários, buscando o que tinha disponível, acharam uma frigideira para ovos, uma forma para esquentar os pães, Bruna foi fazer café que desse para todo mundo, era boa nisso, já tinha sido tantas coisas na vida: garçonete, barista, recepcionista, serviços gerais. Seu currículo era extenso e se orgulhava bastante dele, sempre tinha trabalhado duro e tal trabalho, tinha dado um jeito de recompensá-la na vida que tinha agora.


Pães, ovos, manteiga, café e uma conversa simples, despretensiosa, nada pessoal, conversa sobre a casa, a decoração, o ao vivo do dia anterior. Gabriela notou que Bruna estava com novas tatuagens, tinha retirado o aplique, seu cabelo estava comprido naturalmente. Bruna percebeu que Gabriela parecia mais relaxada do que o habitual e estava malhada, no seu melhor corpo, provavelmente, as coxas se definiam no jeans curtinho cada vez que ela se movia, tal como o abdômen de Bruna, ela estava bronzeada, mais bronzeada do que o comum. Ela costumava ser quase uma vampira quando não ia à praia, Habren fez piada com isso e a fez rir enquanto coava o café. A música delicadamente posta ao fundo pela edição mal permitia ouvir a piada que ela tinha feito, mesclava a conversa baixa, com Dido cantando Thank You acusticamente de fundo, as cores quentes da cozinha, Bruna de top e calça moletom, all in black, Gabriela de jeans curtinho e agasalho, off-white, os cabelos desgrenhados, os sorrisos abertos, a proximidade, uma intimidade inesperada...


Foi o primeiro edit que foi ao ar no programa da segunda noite.


Uma cena que começou com alguns diálogos desconexos entre Bruna e Gabriela logo na entrada do dia anterior, então, cortada para Bruna encarando o botão de desistência logo pela manhã seguinte, um take de Gabriela acordando, olhando para a cama dela, não a encontrando, então se trocando e indo até a sala, a conversa esquisita, as duas sussurrando trechos da música, o violão acústico surgindo baixinho, então a voz de Dido entrando enquanto as duas foram para a cozinha. A beleza de uma, da outra, os sorrisos abertos, um take dos outros participantes dormindo, os outros instrumentos entrando na canção enquanto as duas conversavam e preparavam o café da manhã. Tomaram café na mesa da cozinha quando a música alcançou o refrão, mais conversa boba, mais sorrisos fáceis, um close nos olhos verdes-Bahamas de Gabriela, outro no sorriso perfeito de Bruna, uma chamada no confessionário, elas receberam celulares e voltaram para o café, mas agora, o transferindo para a cozinha externa, onde encontraram hortelã para fazer um chá, perto da piscina. Mais conversas sobre a casa, sobre o dia lindo de sol, o charme despretensioso de Bruna, a beleza irrevogável de Gabriela. E o edit terminava com Gabriela distraída do outro lado da mesa, olhando o jardim com uma xícara de chá nas mãos e, Bruna abrindo a câmera do celular, a enquadrando, uma foto capturada na seguinte parte da música:


Push the door, I'm home at last, and I'm soaking through and through

Then you handed me a towel and all I see is you...


E Gabriela percebendo que estava sendo fotografada e ao invés de ficar deslocada, nada, ela decidiu encarar a câmera, se ajustou para outra foto, primeiro um sorriso, olhando meio de lado e depois, o olhar ferino, verde superclaro, pela luz natural, ela sabia que era bonita e mais do que isso, sabia o poder de sua beleza, sabia como destruir em uma foto, e Bruna... Apenas sorriu. Postou na rede do programa e sorriu olhando de lado, não deixando claro o que se passava por sua mente e o vídeo terminando na seguinte frase da música:


And even if my house falls down now, I wouldn't have a clue... Because you're near me... E mesmo se a minha casa desabasse agora, eu não faria ideia... Porque você está perto de mim...


Um único edit. E uma onda de repercussão na internet bateu nos perfis oficiais na rede social, onde toda e qualquer fofoca, e universos alternativos acontecem: o Twitter.

 

Em menos de 48 horas completas na casa, em menos de doze horas após o segundo programa, um alvoroço enorme se estabeleceu em tal rede social.


Gabriela Habren e seu emoji de coral. Bruna Ribeiro e seu emoji de boca mordida. Emoji de coral saindo de 37 mil seguidores no Twitter para 100​ mil, emoji de boca mordida de 49 mil para 120 mil e, um emoji novo surgindo no nickname dos seguidores: o emoji de xícara de chá e uma hashtag desbravadora acontecendo entre as trends do dia: #Gabruna.


Foi o suficiente para causar um caos no escritório pessoal de Bruna Ribeiro.


Não tinham dormido, o Twitter virou uma loucura, a DM do Instagram também, Dara andava de um lado a outro no QG de guerra que ficava na sala de jantar da cobertura de Bruna, que era utilizada para reuniões sempre que algo saía do controle. Bruna era um tipo intenso de se trabalhar, já tinha sido cancelada, descancelada, tido intimidades vazadas, falas complicadas, atitudes complicadas, era uma emoção por dia, podia se reclamar de qualquer coisa naquele escritório, menos de tédio. Dara era sua assistente pessoal e melhor amiga, se conheciam desde o colégio, aquele onde Bruna tinha ganhado o apelido de Bem Indecente. O sol estava nascendo pela enorme janela de vidro da cobertura, notebooks estavam abertos sobre a mesa, celulares não paravam de dar sinal, Mauricio, seu amigo pessoal, personal stylist e assistente geral, estava sentado à mesa, se servindo uma xícara de café, e Júlia pensava e pensava em algo.


O olhar focado, os braços cruzados, Julia Bittencourt era diretora de operações da Fierce e chefe oficial do comitê de crise, era publicitária e formada em Direito também, uma mulher bonita, interessante, um tipo que emana poder. Sempre acharam que ela tinha mais poder do que beleza e, poder sempre irá pesar mais do que beleza, ou poder era a beleza real, era uma teoria de bastidores que nunca chegavam a uma conclusão. Mas voltando a Júlia Bittencourt, ela estava em silêncio tempo suficiente para deixar todo mundo nervoso.


— Aqui, os views continuam subindo e subindo — Mauricio anunciou.

— Vocês já viram isso acontecer? Alguém ganhar um minuto e cinquenta de VT no segundo dia de confinamento? — Dara veio se servir café também.

— Eu não lembro de ter acontecido algo assim, hein, e a comunidade sáfica é foda, viu, elas não vão parar de subir essas visualizações, não! Oh, Bittencourt, isso é visibilidade, eu ainda não entendi o que pode estar dando tão errado.

— O problema não é a visibilidade, nem o público da Bruna, são todas surtadas igualzinho a ela. O problema chama-se Gabriela Habren e o público conservador que ela tem. Não acredito que seja a maioria, mas tem uma parcela já repudiando. E, tem alguma coisa que não fecha nessa história... — Júlia apertava o cenho, pensava e pensava — Dara, você tem certeza de que não existe nenhuma relação entre a Bruna e a Gabriela?

— Eu já disse tudo o que eu sei, Júlia, elas se conheceram há uns anos, antes de as duas serem grandes, se esbarravam por alguns eventos...

— E publicamente se desentenderam umas três vezes, eu já estava aqui na última, a briga na festa da Marcela Richter, que foi por motivo de...? — Júlia tentava montar uma situação que fizesse sentido.

— Eu não sei, Bittencourt, eu já disse que não sei, mulher!

— Você é a melhor amiga dela, se você não sabe, quem vai saber?!

— Mas eu não sei mesmo, que coisa! Mauricio, você sabe de alguma coisa?

— De Gabriela Habren? Só o que a internet sabe, que essas duas são desafetos, e ah! Eu sei também que Gabriela Habren é um nome proibido nesta casa, Bruna surta se alguém falar dela...

— Tá vendo? Tem alguma coisa aí, que a gente não tá sabendo e que pode ser muito prejudicial. A Bruna surtou na festa da Marcela, e aparentemente, foi só com a presença da Gabriela, e agora ela vai ter que morar por três meses com ela. Elas se estranharam no primeiro dia e amanheceram o segundo assim, como... Velhas amigas.

— Mulher, que amigas?! Esse edit tem tudo, menos contornos de amigas... — Era Mauricio.


Bittencourt apertou os olhos através das portas de vidro da sala que davam para a varanda. Mais especificamente, para a varanda de um prédio do outro lado da rua do condomínio.


— Dara, aquele apartamento é da Gabriela!

— Eu sei, mas ela não mora mais aí e quando morava, elas não eram boas vizinhas, elas nem se falavam. Agora ela deixa o apartamento para ser QG da empresa dela, algo assim.

— E a equipe dela está... Bem ali — Uma equipe enorme, dava para ver pelo menos umas quinze pessoas e, Júlia conhecia a pessoa específica com quem trocou um olhar pelas varandas — Dara, manda DM pelo Twitter, pede para falar com a Demerara, convida para tomar café da manhã aqui.

— Com a Flavia Demerara, aquela...?

— A fodona da empresária dela, essa mesma! Chama a mulher aqui, eu tenho certeza de que ela quer tanto entender o que está acontecendo quanto a gente, quiçá mais, o público da Bruna é igualzinho a ela, mas o da Gabriela...

— Os crentes não devem estar entendendo nada. Bittencourt, é para chamar mesmo...?

— Para o café da manhã, é, menina, chama ela aí!

— Vocês também não se gostam, você e a Demerara, esqueceu? — Era Mauricio, calmamente.

— E o que tem? Tem um negócio em comum para resolver agora. Chamou, Dara?

— Chamei. Vou ver se ela responde.


Três segundos. Respondeu.


— Ela vem com a equipe, em uma hora.

— Ela...? — Aquilo pegou Mauricio de surpresa — Ok, então é melhor eu ir providenciar um café da manhã decente para a equipe da “poderosa Habren”, não quero que a fodona saia daqui com impressão de miséria, não, galera old money, eu conheço bem.


Mauricio foi providenciar o café da manhã enquanto Dara e Julia arrumavam a mesa para a reunião.


— Oh, Bittencourt, certeza de que vocês nunca se pegaram? Você e a fodona?

— Por que você tá me perguntando isso, menina?

— É tanto ódio envolvido e vocês já foram amigas antes. A maior prova de que uma amizade não era exatamente uma amizade, é o ódio pós-término... — Disse isso despretensiosamente, sem se dar conta do que havia dito.


Mas Bittencourt notou.


A maior prova de que uma amizade não era exatamente uma amizade é o ódio pós-término. Dara, e se a Bruna namorou a Habren?

— A Habren? Tem cara de que não toca nem na própria maçã, imagina na dos outros, e eu ia saber, é claro que eu ia saber se algo assim tivesse acontecido... — Parou, pensando também — Será? Ah, mas a Bruna ia ser uma filha da puta muito grande, viu?!

— Entendeu? Pode não ser tão absurdo assim.

— Não, ela me diria.

— Bem, vamos descobrir se tem algo a mais em alguns minutos — Virou para a TV, aumentando o volume, estavam assistindo ao pay-per-view e Bruna estava falando, o que, imediatamente, fez sua Golden Retriever surgir escadas abaixo.


Chiara surgiu feliz da vida, foi para frente da TV, apoiando as patas no móvel, ela era apaixonada por Bruna, completamente apaixonada, reconhecia a voz dela em qualquer lugar e estava assim agora, cada vez que a ouvia falar na televisão. Arrumaram uma mesa de café da manhã digna de hotel cinco estrelas e no horário marcado, a equipe de Gabriela chegou.


Bem, não veio necessariamente a equipe, mas Flavia Demerara apareceu, toda de preto, claramente tinha se trocado e se arrumado especialmente para aquela reunião e com ela, veio Rebeca Habren também, assistente pessoal de Gabriela, primas que tinham sido criadas juntas. Rebeca cuidava da agenda de Habren até suas refeições, neste nível de detalhes.


— Eu achei que você fosse trazer toda a sua equipe para a reunião — Júlia falou assim que abriu a porta para elas.

— Não, ainda não, eu tenho que entender algumas coisas antes de discutir estratégias com eles. Vocês realmente... Montaram um café — Disse, dando de frente com a belíssima mesa.

— Nós chamamos vocês para tomar café, a noite foi intensa aqui, imagino que tenha sido intensa para vocês também — Júlia apontou o caminho da mesa — Eu acho que vocês já devem se conhecer, não? Esta é a Dara, assistente pessoal da Bruna, este é o Mauricio, supervisor das nossas redes sociais. Pessoal, esta é Flavia Demerara, empresária da Habren, e a Rebeca é a assistente pessoal. Vamos nos sentar e comer alguma coisa?


Se cumprimentaram e tomaram lugar na mesa, e práticas do jeito que eram, Júlia e Flavia foram direto ao ponto. Flavia explicou suas preocupações, que eram as mesmas de Júlia, a parcela conservadora do público de Habren que não recebeu bem o edit e estavam cobrando algumas respostas que, elas também não tinham.


— Eles querem entender o que está acontecendo, porque elas pareceram tão íntimas no vídeo, é diferente do histórico que a gente tem das duas aqui fora, histórico este que já está em threads e threads do Twitter, os desentendimentos públicos, as fofocas que já surgiram e as teorias que já estão a todo vapor — Flavia explicava.

— Ok, mas o que vocês sabem sobre a Bruna em relação à Gabriela? Beca, você sabe alguma coisa? — Júlia perguntou.

— Bem, eu sei que a Bruna foi a primeira profissional com quem a Gab teve contato. No primeiro trabalho dela como modelo, a Bruna era a maquiadora e elas se conheceram assim. Daí elas começaram a crescer como influencers, se encontravam em alguns eventos, conversavam, se davam bem e daí tem um espaço em branco, entre essa fase e a fase que elas começaram a se desentender.

— Certeza de que não tem nenhum homem envolvido? — Flavia perguntou.

— Não que eu saiba.

— Não, de jeito nenhum! Eu nunca vi a Bruna irritada por causa de homem na vida, nem por mulher, ela não se sujeita, não — Dara explicou.

— E por qual motivo elas podem ter começado a se repelir daquela forma? — Era Júlia.

— Para mim, o ponto mais importante é entender o porquê de elas não estarem se repelindo agora. Olha ali, na piscina, maior papo de novo — Flavia apontou a TV que seguia ligada.

— Não, não, eu acho que vocês duas ainda não se deram conta do problema real que pode acontecer aí: — Mauricio se pronunciou — Eu nunca vi ninguém tirar a Bruna do sério do jeito que a Gabriela tira. A Bruna desestrutura, ela surta, ela agride, e a Gabriela não fica muito atrás não.

— Nada, a Gabriela é super tranquila, Mauricio — Rebeca defendeu.

— Pergunta para Gio como ela estava tranquila a última vez que elas se cruzaram, super tranquila, você tinha que ver... — Ele respondeu, cheio de ironia.

— Gio é...? — Flavia perguntou.

— A namorada da Bruna. E está aqui nessa thread, essa briga que o Mauricio tá falando, na festa da Marcela Richter. Estão dizendo aqui que a confusão foi Habren x Gio, que a Bruna só ficou no meio... — Dara informou.

— Não foi o que saiu na imprensa e nem o que a Gabriela falou — Flavia defendeu.

— Nem o que a Bruna falou — Júlia cruzou os braços, respirando fundo — Mauricio, cadê a Gio?

— Dormindo, lá em cima.

— Ah, mas você vai acordar ela agora, traz a Gio aqui para responder umas coisas. Como ninguém acordou essa menina antes?! — Foi Flavia quem ordenou.


Mauricio cruzou os braços.


— Mulher, tu gosta mesmo de dar uma ordem, né?!

— Mauricio, vai acordar a Giovana, por favor, vamos, eu tinha esquecido completamente que ela está aqui, acorda e a traz aqui para baixo.

— Eu vou, porque sou bom em obedecer, mas não sei se a Gio vai ser tão boa em obedecer quanto eu... — Ele subiu e, Rebeca parecia... Incomodada com alguma coisa.


Dara se aproximou dela.


— Beca, sério que você não sabe de mais nada desse quebra-cabeça?

— Não sei mesmo, estou aqui tentando me lembrar de algo que possa indicar uma solução, mas... Você não sabe como é a Gabriela. Ela se fecha, só conta o que quer contar e essas questões com a Bruna é algo que ela nunca quis contar. Eu não vou dizer que elas eram amigas, mas elas já foram próximas. E como esse caldo entornou...

— Eu vou te falar, viu?! Lésbica ama um enemies to lovers, já estão aqui na maior fanfic da vida só com os trechinhos de ontem... — Júlia seguia olhando o Twitter.

— Elas dariam um belo enemies to lovers, no caso, um lovers to enemies e to lovers depois, sei lá — Rebeca complementou.

— A minha principal preocupação é como a Gabriela encararia isso aqui fora, se esse tipo de associação iria incomodar — Flavia explicou.

— Com o público LGBTQIA+? — Júlia questionou.

— É, nós nunca falamos sobre esse público antes.

— É um público maravilhoso, que abraçou a Bruna de uma maneira incrível, zero julgamentos. Nós já tínhamos um público, que somado ao público LGBT conquistado, foi a fórmula mágica para o boom das plataformas dela.

— A gente viu a força desse público de ontem para hoje, foi incrível o que aconteceu, literalmente, do dia para noite. Eu só realmente não sei como a Habren veria isso — Era nisso que Flavia estava pensando o tempo todo.

— Eu acho que ela não se importaria, sabia? — Rebeca interveio — A Gabriela já ficou muito desconfortável com o assunto, mas eu vejo que a gente trouxe isso de casa, sabe? Da criação rígida, dentro da igreja Batista, tanto que quando nós saímos da igreja, não muito tempo depois, a gente buscou outras igrejas sozinhas, em outro formato, mais cool, menos rígida, mas nós buscamos, porque... Está na gente, entende? Como um órgão do qual você não necessariamente usa, mas quando tiram de você, deixa um vazio. Ela ficava desconfortável quando alguém perguntava sobre isso, mas a vejo cada vez mais relaxada com essa questão. Ela tem fãs LGBT, que, aliás, estão no céu desde ontem com essa aproximação inesperada com a Bruna.

— Alguma chance de ela estar deliberadamente usando esse público? Porque assim, possível casal ganhando VT em menos de 48 horas é porque a emissora já conhece o poder deste viés e está usando — Era Bittencourt.

— Não, eu acho que não. Por mais fria que digam que a Gabriela seja, eu não acho que ela é capaz de algo assim.

— De manipular? — Gio desceu as escadas, de moletom, cara de recém-acordada, cabelos curtos pouco abaixo dos ombros, piercing no nariz, bonita, claro que bonita — Eu já vi a sonsa da Habren manipulando e ontem nem foi a primeira vez!


Rebeca levantou-se imediatamente.


— Que manipulando ontem? Do que você está falando?

— Do quê?! A Bruna na frente do botão de desistência, provavelmente refletindo sobre ficar trancada com a sonsa da Gabriela por três meses inteiros e ela chega lá, com aquela conversa baixinha, íntima, sussurrando uma música que ela sabe que é importante para Bruna, ah, por favor! Ela não me engana com aquele papo barato de coach, não — Chegou na mesa, pegou um pão de queijo e enfiou na boca.

— A Gabriela fala assim com todo mundo, é o jeito dela. Ela fala assim comigo que sou da família!

— Hum, além de tudo, ela manipula a família...

— Gio, calma, ok? Para de atacar, respira, para... — Júlia atalhou para acalmar a conversa — Foi você que discutiu com a Gabriela na festa da Marcela?

— Aquela homofóbica, filha da mãe! Você tinha que ver, os olhares que ela estava jogando em cima de mim e da Bruna, eu fiquei puta com isso, e — Mordeu outro pão de queijo e se serviu uma grande xícara de café — Fui para cima dela determinado momento, porque eu tenho sangue nas veias, então que — Parou pensando um segundo, tomando um gole de café preto — Eu tinha bebido.

— O que não me surpreende, sim, siga... — Flavia a ouvia de braços cruzados.

Eu fiquei com ciúmes. Do jeito que a Bruna estava falando com ela, porque a menina manda maior olhar julgador e a Bruna lá, dialogando baixo, sei lá, olho no olho, sabe? E a Gabriela segurando a Bruna pertinho, pelos punhos — Parou outro instante, como quem tenta recuperar uma memória — Eu fiquei com ciúmes, eu acho. Quem briga segurando a outra pela mão? Eu acabei explodindo.

— Espera, espera: você está dizendo que ficou com ciúmes da Gabriela? — Flavia se aproximou mais dela.

— Fiquei. E fiquei ontem também, mas não é bem ciúmes, é mais... Por que a Bruna escuta ela? Fica puta com ela, mas escuta? Eu não consigo entender isso. Caramba! — Cruzou os braços, em pose de derrota — Vocês têm noção que eu vou acabar sendo traída em rede nacional?

— Ah, mas não vai mesmo, não com a Gabriela — Rebeca refutou a ideia imediatamente.

— Com a homofóbica, claro que não, né?! Eu estou falando daquela fulana ali...


Olharam para a TV, e Bruna estava no maior papo com Monique, na piscina.


— Ela... Ela tem um imã, as mulheres adoram ela — Foi um comentário de Rebeca.

— Isso eu tenho que concordar com você — Gio tomou outro gole de café e respirou muito fundo — Eu não faço ideia do que existe entre a Habren e a Bruna, mas vou dizer uma coisa e vocês podem julgar como quiserem, porque eu mesma me julgo por pensar nisso, mas... Elas brigam feito um casal. Melhor, como um ex-casal. Eu estou em alguma festa ao menos cinco dias por semana, estou nos afters mais exclusivos possíveis, onde não entra nem celular e eu conheço cada sapatão, cada bi de balada dessas influenciadoras, todas as que pegam mulher no sigilo, todas as fofocas sobre isso e ninguém nunca disse uma vírgula da Gabriela. E tá cheio de mulher querendo pegá-la sempre, porque o imã ela tem também, e ela anda por todas elas e nada acontece. Então... Eu não sei. Eu só queria deixar isso registrado. E se aceitam um conselho, não neguem. Não vai dar em lugar nenhum que seja confortável ressaltar a heterossexualidade da Gabriela. Essas coisas não se ressaltam, entendeu?

— Entendi. Entendi sim — Flavia respirou fundo — Gio, ela não é homofóbica.

— Não é, pior que não é, dá atenção para todas as interessadas nela, eu acho que ela pode ser outro tipo de homofóbica, na verdade, o tipo “torturadora”, que sai de casa e pensa assim: “vou ali fazer umas gays sofrerem”. E a gay da vez aparentemente sou eu...


Não, não conseguiram mais nenhuma informação relevante, apenas mais peças de um quebra-cabeça muito complicado de resolver. O dia passou em cima de Júlia e quando percebeu, já estava de noite, já era hora de jantar e, dia da primeira festa da edição. Não notou também que tinha acabado ficando sozinha em casa, Dara e Mauricio estavam liderando equipes diferentes e disseram que Júlia deveria tentar dormir. Ela não tinha dormido nada na última noite e passou o dia todo correndo. Então tomou um banho, vestiu um roupão confortável e foi sentar-se na varanda, onde tinha uma TV enorme que seguia ligada no pay-per-view.


Abriu um vinho, a comida japonesa que tinha pedido, recebeu uma mensagem. Olhou quem era e olhou para a varanda do outro lado, Flavia estava lá. E tinha lhe escrito.


“Eu estou preocupada com essa festa.” Era a mensagem dela. E Júlia decidiu responder: “Eu também estou. Já jantou? Tem sushi aqui.”


Dez minutos depois, Flavia estava de volta ao apartamento de Bruna Ribeiro.


— Tua equipe te deixou também? — Júlia abriu a porta para ela.

— Me mandaram dormir, mas como que dorme? Eu não vou conseguir até começar a entender as coisas, para então pensar numa estratégia, de defesa, ataque, sei lá.

— Eu estou assim também, odeio não ter respostas — Abriu a porta de correr da varanda a convidando para entrar — E mesmo sem respostas, tem uma coisa que eu sei que acontece, que existe, e é a capacidade da Habren de tirar a Bruna do sério.

— A Bruna também tem essa capacidade, acredite em mim. A Habren reage ao nome Bruna Ribeiro — Flavia respondeu, sentando-se na frente da TV com Júlia — Teve um momento em que o nome da Bruna foi cogitado para o reality e ela ficou muito agitada, pensando até em desistir. Eu perguntei a respeito e ela só resumiu dizendo que elas não se gostam.

— Ela é bonita mesmo, né?! Sem exageros — A câmera tinha cortado para Gabriela que estava se arrumando e conversando com Nuna. O áudio entrou com um determinado atraso, mas entrou e assim que a voz de Gabriela ressoou...


Lá veio Chiara, escadas abaixo, correndo e correndo na direção da TV. Invadiu a varanda, foi até o aparelho, colocou as patinhas, abanou o rabo como se...


Flavia apertou a expressão.


— Ela faz isso com todos os participantes...?


Júlia negou.


— Só... Para a Bruna.

— Para quem ela conhece.


Elas duas trocaram um olhar. E viram o amor com o qual Chiara estava olhando para Gabriela.


— Não, troca de câmera, vamos, manda para aquele grupinho ali.


Júlia pegou o controle e trocou de câmera, para o grupinho conversando no jardim. Acabou o interesse, Chiara deu uma volta, cheirou o sushi e foi para a sala. Então, Júlia devolveu para Gabriela conversando no quarto e, bingo.


Chiara voltou imediatamente. E Bittencourt respirou fundo.


— Você conhece Gabriela Habren, Chiara? — Ela abanava o rabo, colocava as patinhas, corria, como que esperando que Gabriela a seguisse — Gabriela Habren que já deve ter vindo aqui, quando só você e a Bruna estão em casa — Ela abanou o rabo, latiu, deu pulinhos. E Júlia olhou para Flavia que, estava rindo — Você está rindo?

— É que... Assim, qual a probabilidade de Bruna Ribeiro enfiar uma mulher aqui dentro e nada acontecer? Aquela mulher é uma devoradora, todo mundo fala isso, não tem quem resista — Seguia rindo, porque era muito absurdo para ser verdade.

— Nem a poderosa Habren?

— Julia, a Chiara conhece a Gabs! O que ela viria fazer aqui dentro, no sigilo, com a Bruna? Eu não entraria aqui no sigilo com Bruna Ribeiro e não faria nada. A mulher é linda de maquiagem, linda sem maquiagem, linda dormindo, acordando, não tem combate.

— Eu sei como é, eu moro com essa criatura, vejo todas essas nuances aí, mas é que... Parece tão absurdo.

— Não para a Chiara, olha para ela, você a conhece melhor do que eu. É assim com todo mundo?

— Ela é uma Golden tímida, não é assim com todo mundo, não. Eu não acredito, eu... Eu não acredito mesmo.


Chiara se balançou de novo, deu uma volta em si mesma, apoiou as patas para ver Gabriela mais de perto.


— Pois acredite. E Chiara é a única que sabe.

 

Notas da Editora: Tessa Reis

Olá de novo, meninas!


Então, como estamos na experiência “Vulnerable” até aqui?


Estava conversando com Ana que estava com saudades de escrever uma personagem sem filtro e aqui estamos, entregando Bruna Ribeiro, que eu espero que esteja entretendo de maneira satisfatória. hahaha.


Vejo vocês nos próximos capítulos? Vulnerable vem aí! Ah, mas vem depois de Aloha, Namastê! hahaha História prevista para ser postada no site no final de fevereiro. 😉


Beijinhos.




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22件のコメント


Que experiencia incrivel esta sendo ler essa "série"! uau!

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Rodrigo Mesquita
Rodrigo Mesquita
2023年11月29日

Achei hilário demais que a única que sabe da verdade, além do não-casal, não sabe falar a língua dos humanos! 😆😆😆


E eu vou te dizer, ter que lidar com essas igrejas evangélicas e os conversadores… não desejaria isso nem pro meu pior inimigo!

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Tatty
Tatty
2023年5月09日

Adorei a doguinha delatora kkkkkkkkkk

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Silvia
Silvia
2023年1月04日

Um enredo bem diferente mas apaixonante como sempre! Adorei!

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Tessa Reis
Tessa Reis
2023年1月05日
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Fico tão feliz que vcs estejam gostando 🥺🥺🥺

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Helena Marques
Helena Marques
2023年1月04日

Aaaaaaaa

Tessa, só você pra com dois capítulos já me deixar órfã de uma estória ao saber que não vou poder ler mais um no dia seguinte.

Realmente, uma abordagem diferenciada. Mas tudo que você escreve eu, no mínimo, passo a gostar.

Acho que se continuar com os momentos de cumplicidade e intimidade que eu amo tanto ler, não tem erro.

Vou aguardar muito ansiosamente pelo próximo.


P.S.: saudade de Terra 47

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Helena Marques
Helena Marques
2023年1月06日
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❤️❤️❤️

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