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Acróstico 13

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


Levantar Vem Antes de Ficar de Pé


Elas voltaram para a areia com duas pranchas e passaram por Kaori e Aliana, rindo demais de qualquer coisa que fosse. Presley, com os olhos fechados de tão grande que era o sorriso, e Hanni parecendo frustrada com alguma coisa, mas sem parar de sorrir. Que bagunça elas eram e, ao mesmo tempo, o quão alinhadas também eram. Pareciam melhores amigas, pareciam um casal; estavam frustradas com algo, mas hypadas ao mesmo tempo.


Mas era de se esperar quando um terremoto humano cruza com uma garota-tsunami.


Pararam mais adiante, colocaram as pranchas na areia e, aparentemente, Hanni iniciou sua masterclass de Brazilian Storm, como era chamada a onda de incríveis surfistas brasileiros nos últimos anos.


— Mas como...? — Aliana observava as duas, cheias de sorrisos, risadas e desordem, uma enorme desordem — Esse tipo de interação...?

— Desde o dia 1, sim. Parece que elas se conhecem há anos.

— E isso acontece sempre?

— Esse tanto de coisas. Elas estão sempre fazendo muitas coisas juntas e em equilíbrio absoluto: quando a Hanni está empolgada, a Presley está mais contida, quando a Presley está tímida, a Hanni parte para o ataque. Daí elas invertem, e quando sua amiga ataca, a minha parece ter zero XP de defesa. Chega a ser engraçado.

— Eu disse para a Presley que ela deve estar interessada.

— A Presley acha que ela não está?

— O julgamento da minha amiga pode estar comprometido pelos anos de casamento, dá um desconto para ela.

— Dou todo o desconto. Minha amiga nem tem esse tipo de comprometimento e não está decifrando os sinais que está recebendo. Posso compartilhar uma coisa um pouco íntima?

— Pode, claro que pode.

— É uma percepção minha, pessoal. Ela não me disse nada, mas acho que a Manu está assustada.

— Com o quê?


Kaori olhou para Aliana.


— Com o que ela está sentindo. O caos faz a musa, mas essa menina tem medo do caos, por motivos desconhecidos.


Caos e musas à parte, com incríveis dez minutos de treinamento na areia, Hanni arrastou Presley para o mar. Correram, correram e se deitaram na prancha, cortando a onda, Presley imitando cada movimento de Hanni, fazendo igualzinho a ela, o máximo que conseguia. Remaram, remaram e no segundo minuto, Presley já estava cansada, já estava reclamando, mas Hanni não a deixou desistir. Foram indo aos trancos e risadas, o mar estava calmo naquela praia, mas tinha ondas. Era uma praia ótima para iniciantes, mas quando Presley viu a praia daquela perspectiva...


Parecia assustador.


— Pres, o garotinho entrou aqui sozinho e surfou! — Hanni estava morrendo de rir.

— Você não está me ajudando como ajudou ele!

— Claro que estou! Como não estou? — Hanni remou para perto dela, segurou a prancha pela cauda — Olha aquela ondinha ali, ela é sua, é o seu momento, eu vou te empurrar, tá?

— Como assim, empurrar?

— Vou empurrar, e quando você sentir estabilidade na velocidade, você se levanta, do jeito que te ensinei.


A onda estava vindo.


— Hanni, Hanni, e se eu cair?

— Você vai cair, Pres.

— E você diz isso assim?!


Hanni riu alto, a ponto de poder ser ouvida da areia.


— Você vai cair, todo mundo cai, eu caio, o Ítalo Ferreira cai, mas eu vou buscar você.

— Mesmo?

Anytime, babe. Pronta?

— Não!

— Ok!


Hanni a empurrou na onda, e claro, Presley caiu. Uma, duas, três, seis, nove vezes. E sim, a cada queda, de alguma maneira, Hanni a pegava no fundo e trazia de volta, a puxava de volta. Remava com ela para a entrada da onda, esperava pela próxima, a empurrava, ia atrás dela, resgatava, começava tudo de novo. Nem saberiam dizer quanto tempo ficaram ali, mas uma coisa era certa: fizeram o mesmo até Presley conseguir levantar e ficar de pé.


E sim, Hanni tinha razão, o problema não era ficar de pé. De fato, o problema era levantar, e depois que estava de pé, tudo apenas encontrava a velocidade correta, tudo apenas se equilibrava, tudo apenas... encontrava sentido. Era como o fluxo natural de todas as coisas. E mesmo ficando de pé durante uma onda inteira, quando caiu, quando mergulhou, encontrou os braços de Hanni a segurando, a trazendo de volta. Precisava disso, porque Presley havia conseguido sua onda, mas estava absurdamente drenada agora. Estava se sentindo com zero estamina, igual quando ficou depois de sua primeira aula de jiu-jitsu, depois dos três rolas aos quais Hanni a submeteu. Subiu na prancha de peito para cima, totalmente imóvel, e Hanni a foi empurrando para onde estava calmo. Então, subiu na sua prancha também e ficou como Presley, de peito para cima; estava ofegante também, as duas não conseguiam parar de sorrir.


— Me dá a sua mão, pra gente não se afastar — Hanni pediu a mão dela, e Presley deu, entrelaçou seus dedos nos dela.

— Igual às lontrinhas que dão as mãos para não se afastarem enquanto estão dormindo — Presley estava ofegante demais.

— Isso acontece mesmo? — Ela perguntou, com o mesmo olharzinho curioso de Aika quando descobria algo novo.

— Acontece, de verdade. A Aika me mostrou um vídeo, pede para ela te mostrar depois.

— E como peço para ver o vídeo das lontrinhas dando as mãos?


Presley riu, Hanni não existia.


— Quero — sinalizou — Vídeo — Outro sinal — Lontrinhas.

— Que fofo como é lontrinhas!

— Muito fofo, não é? Hanni, eu estou morrendo de fome agora, eu não almocei.

— Você não me disse que não havia almoçado!

— Estou movida nos seis cafés que já tomei hoje.

— Vamos lá, para casa, eu vou te dar de comer — Olhou de lado para ela por sentir o olhar que ela lhe deu — Presley! — Hanni enterrou a cara na prancha, Presley nem tinha vergonha.

— O quê? — Ela estava morrendo de rir.

— Nada! Nadinha.


Remaram até a areia, passaram pelas meninas, informaram que estavam indo para casa. Recolheram tudo, e Aliana também estava com fome. Caminharam para os carros, então notou que havia sido desconvidada do carro de Presley. Espera, de Hanni. Presley entrou do lado do motorista, e Hanni entrou do seu lado.


— A sua sorte é que meu carro está bem aqui, pronto para te apoiar, ou você ficaria de vela naquele carro ali — Kaori abriu a porta para ela, rindo demais.

— Menina, ela nem se lembrou de mim.

— Estão no mundo Presnni das duas. Eu também já fui esquecida por causa da Presley. Ok, vamos lá!


Dirigiram para a casa de Hanni, que realmente não ficava distante da praia. A casa estava arrumada, mas com aquela atmosfera de festa ainda pairando por ela. Presley tinha uma teoria: até casas ficam de ressaca depois de uma festa, era um fenômeno real.


— Vou fazer alguma coisa para vocês almoçarem. Quer subir para o banho? — Hanni perguntou, já indo para a cozinha, checar o que tinha na sua geladeira.

— Quero, mas não fica molhada também — Presley tirou o casaco que usava e colocou nela. Foi essa cena que Kaori e Aliana viram quando chegaram — É para usar o banheiro...?

— Do meu quarto, você já se troca também. Você acha que come estrogonofe?

Estrasgs...?

— Você vai gostar, juro! — Ela respondeu, sorrindo.

— Ok, vou subir então. Lia, você...?

— Vou com você.


E assim, as duas subiram, e Hanni ficou com Kaori na cozinha. Elas trocaram um olhar e falaram baixinho:


— Gostou dela? — Hanni perguntou.

— Ah! Não tem o que não gostar nessa mulher, juro pra você. Você imagina essas duas como dupla na faculdade? O estrago?


Hanni riu, havia imaginado sim. Então, cuidou do almoço, do tal estrogonofe. Com Kaori ajudando, conseguiriam fazer rapidinho. Ela já sabia fazer, tinha aprendido com Hanni, tanto que a deixou olhando tudo porque precisou subir atrás do carregador do seu celular. Estava quase ficando sem bateria.


Então subiu rapidinho, a porta do quarto estava aberta, seu carregador estava ao lado da cama e assim que entrou...


Presley saiu do banheiro. Os cabelos molhados, o corpo molhado, numa corzinha pós-praia deliciosa e enrolada apenas numa toalha curtíssima.


— Eu só... — Não conseguiu formular a frase, só mostrou o carregador e os olhos desceram, rosto, decote, entrada das coxas, Presley sorriu.

— Meus olhos estão aqui em cima, Park Manu.


E antes que Hanni pudesse reagir, Aliana saiu do banho.


Também molhada inteira, também de toalha curtinha. Queria dizer que...?


Hanni apertou os olhos.


Uh, vocês...? — Estavam tomando banho juntas, era isso mesmo? Hanni apertou os olhos, seu coração todo disparado, todo irregular ainda. O que havia acabado de ver? — Ok, o almoço está quase pronto, vou deixar vocês se trocarem — E saiu, fechando a porta do quarto, sem dar chances de Presley dizer coisa alguma.

— Isso... isso foi esquisito — Presley disse para Aliana.

— Esquisito? Ela não gostou de ver a gente saindo do banho juntas, Presley! Eu te disse para tomarmos banho separadas — Aliana disse, morrendo de rir.

— Ela... Não, nós somos amigas, você e eu, o que isso tem a ver?

— Você pergunta pra mim? Quem não gostou foi ela, você tem que perguntar isso para ela.


Será que...? Presley se trocou rapidinho, em roupas de Hanni, short curto, moletom preto por cima, deu uma enxugada nos cabelos e desceu atrás dela. Kaori estava na cozinha, olhando algo que cheirava muito bem.


— Cadê a Hanni, Kaori?

— Ela... Não sei, na verdade, ela desceu e foi lá para fora, sem falar nada.


Presley calçou um chinelo e saiu pela cozinha. Deu uma olhadinha pelo quintal, nada. Deu a volta e o carro estava aberto, Hanni estava lá dentro, mexendo no celular. Presley entrou do lado do passageiro, a surpreendendo.


— Pres...?

— O que você está fazendo aqui?

— Ah, eu... ia comprar um suco no mercadinho.

— Eu vou com você.

— Não precisa, é aqui pertinho, eu vou e volto logo.

Para este lado.

— O quê?

— Passa você para este lado, vamos, eu dirijo.


Hanni sequer a olhou, mas trocou de lugar com ela.


— É aquele na rua de baixo?

— Aquele, isso.


Presley ligou o carro e dirigiu para lá.


— Hanni...

— O quê? — Seguia com os olhos no celular.

— Você ficou chateada?

— Com o quê?


Presley a olhou de lado. Quis rir, mas não era o momento, sabia que não era.


— Você não está nem olhando pra mim!

— Quê? Eu estou sim, estou normal — Olhos no celular, e Presley tirou da mão dela — Presley!

— Olhos em mim, vamos conversar. Aliana é minha melhor amiga, nós tomamos banho juntas de vez em quando porque fazíamos isso quando éramos mais novas. A gente ia para as festas juntas, chegava, tomava banho junto, dormia, só isso. Você não faz nada parecido com as suas amigas, não?


Hanni a olhou de lado.


— O máximo que a Kaori tem de mim é uma conchinha quando estou com medo de ter pesadelos.


E o olhar de Presley endureceu imediatamente.


— Como assim?

— Não me dá esse olhar que fico com medo. Tenho pesadelos, ela dorme comigo de vez em quando.

— E nunca aconteceu nada?

— Ela é minha amiga, a gente nunca ficou.


Presley olhou de lado.


— Nunca, Hanni? Nunca, nunca?

— Nunca, somos apenas amigas. Eu só estranhei você e a Aliana tomando banho juntas, é bem... íntimo.

— Hanni?

— Quê? — Agora ela olhava pela janela.

— Você ficou com ciúmes?

— Quê?! Claro que não! Eu nem tenho isso.

— Ah, você não é ciumenta?

— Não sou, nunca fui, eu não fiquei com ciúmes.

— E por que segue sequer me olhando?

— Eu não sei, Presley, só... Para aqui, é aqui.


Ela estacionou. E Hanni desceu, passou uma eternidade no mercadinho para escolher duas garrafas de suco, o rosto fechado, nem um sorriso, nem para a atendente que não tinha nada com aquilo. Voltou para o carro, fechou a porta, fechou a cara. Presley olhava para ela.


— Hanni... por que está irritada comigo?

— Eu não tenho essa resposta.


Não podia rir.


— Ok. O que posso fazer para você deixar de estar irritada comigo?

— Eu não estou irritada, é só... — Hanni respirou fundo e finalmente olhou para Presley — Você me traz sentimentos novos, que eu não conheço.


Presley tocou a mão dela.


— Você também faz isso comigo. Vamos só... não ficar irritadas uma com a outra enquanto entendemos as coisas, tudo bem?


Silêncio. Mas Hanni não soltou a mão dela.


— Ela... te conhece inteira.


Daí, Presley riu um pouco, não conseguiu segurar mais.


— Eu não faço mais.

— Não precisa disso também.

— Mesmo?

— Presley... — Saiu quase um pedido de ajuda, Hanni enterrou a testa no porta-luvas.


Presley riu e beijou os cabelos dela.


— Fofo te ver com ciúmes.

— Não é ciúmes, eu acho que... — Ela ergueu o rosto, respirando fundo — Posse, porque ciúmes eu não posso ter.

— Por que não? Você é minha amiga, Aliana também tem ciúmes de você.

— Ela tem?

— Ela tem — Presley ligou o carro — Pensa que você já fez coisas comigo que ela nunca fez.


Até o final daquele dia, Hanni viraria um pimentão-humano.


Voltaram para casa, num clima que elas já conheciam, e Aliana e Kaori estavam colocando a mesa lá fora. Aliana passou por Presley, sussurrou para ela:


— Acalmou a gata?

— Um pouquinho só. Fica longe de mim — Disse, e Aliana caiu no riso.

— A que ponto chegamos.


O almoço foi maravilhoso, porque seja lá exatamente o que estrogonofe fosse, era um prato simplesmente delicioso. Presley adorou, Aliana também, e o assunto fluiu entre elas, de forma fácil e agradável. A tarde caiu e deu uma esfriadinha; elas acenderam o fireplace no meio do quintal. Presley deu um tempo para ligar para sua filha e verificar se tudo estava bem. E estava. Aika parecia estar se divertindo com o pai. Eles haviam saído e estavam em um parquinho, o que aqueceu o seu coração. Leo tinha seus defeitos, mas era um bom pai, em quem ela confiava. Talvez o casamento estivesse resistindo tanto por causa disso; ele via em Presley uma ótima mãe, e ela via nele um ótimo pai. Era doloroso separar e afastar Aika de um ou de outro. Ela conversou com eles por um tempo e depois voltou para a mesa, ainda na ligação.


— O bebê quer falar com você — Presley entregou o celular para Hanni, que derreteu sorrindo imediatamente. Pegou o celular e se afastou para falar com Aika, o que pegou Aliana de surpresa.

— Ela fala com a Aika sozinha?

— De alguma maneira, ela fala. Por que você pegou a sua mochila...?

— Kaori vai me deixar em casa.

Uh, você está me deixando assim?

— Ela já está indo embora, disse que passa perto da minha casa e eu pensei: por que não deixo a Presley aqui um pouco mais? É o seu day off.


Presley olhou nos olhos de Aliana:


— Tão altruísta, como se eu não te conhecesse, Aliana Harris.


E rindo, Aliana pousou dois dedos nos lábios de Presley, a calando.


— Quero provar de alguém que não vai me esquecer, sabe?!

— Mas de onde veio essa autoconfiança toda? Você estava derrotada hoje de manhã.

— Taylor está me fazendo sentir confiante. Eu não estava reclamando que nada acontecia? Então, algo aconteceu, e se você teve coragem para agarrar quando algo assim te apareceu, eu preciso ter também.

— Só não... pule nela de uma vez.

— Claro que não! Até parece que você não me conhece, Presley.


Conhecia, por isso estava temendo, mas enfim.


— Vai lá e não tenha tanto juízo.


Ela riu.


— Diz que deixei um beijo pra Hanni.


Assim, Kaori e Aliana partiram no Kicks laranja e quando Hanni voltou, já encontrou Presley sozinha.


— Elas saíram?

— Aliana disse que ia pegar uma carona com a Kaori, que era caminho dela.

— Caminho dela? Onde a Aliana mora?

— Em Auckland, em Taupaki.


E Hanni começou a rir.


— Quê?

— A Kaori mora aqui do lado, Presley! Taupaki fica a meia hora daqui.

— Ela...? — Presley começou a rir — Ok.

— Ela tem alguma chance?

— Minha preocupação é Aliana estar com tanta fome que vai acabar devorando a menina. Ela é mais nova, não é? A Kaori?

— Tem vinte e quatro, é um pouquinho mais nova que a gente — Hanni ficou a olhando um pouco, e Presley respirou fundo.

— Acho que... preciso ir também.

— Precisa mesmo ou só não quer ficar sozinha comigo?

— Não é isso, Hanni, é que... — Respirou fundo novamente.

— Vamos para dentro, vou fazer um mate com limão pra gente. Tenho certeza de que somos capazes de ficar sozinhas juntas e conversar como as amigas que somos.


A fé que ela tinha em Presley chegava a emocionar.


Foram para dentro, Hanni preparou mate gelado para as duas, colocaram algum filme na TV e se acomodaram no sofá.


— Eu... falei com o Leo — Hanni disse, de repente.

— Mesmo?

— Aham. Conversei com a Aika e depois conversei com ele um pouco. Ele me convidou para jantar com vocês esta semana.


Presley apertou os lábios por um instante.


— Você aceitou?

— Sim, mas só se você estiver bem com isso. Posso arrumar uma desculpa e desmarcar se preferir.

— Não, não precisa, podemos sair do jiu-jitsu e ir qualquer noite.

— Devo levar a Alexia comigo...?


Outra profunda respirada de Presley.


— Pode, quem você quiser levar. Mas por que a Alexia, se ela não é sua namorada?

— Ela é minha date para esse tipo de coisa.

— Por isso ela insistiu tanto para você ir com ela no evento ontem?

— É, mas acabou que... a gente só se desentendeu a noite toda.

— Vocês meio que... vivem em relações diferentes, não?

— Acho que pode ser um pouco assim, do jeito que você está dizendo. Eu sempre deixei claro que não namoro, que não estou em momento para namorar, mas... a Alexia meio que foi ficando mais tempo do que o habitual. Temos coisas em comum, agendas em comum, então meio que, enfim.

— Se ela chegar aqui agora, você vai ter um problemão.

— Ela não tem como chegar aqui do nada, tem o controle na portaria — Respondeu sorrindo.

— Ela não pode só...?

— Entrar? Não, tem um controle, eu sempre sou avisada.

— Mas eu posso?


Hanni apertou os lábios.


— Eu não quero que você fique parada lá fora com a Aika, esperando autorização. Você pode entrar, nós temos... uma relação diferente.


Silêncio.


— Presley?

Oi... — Em português, o que fez Hanni sorrir um pouco.

— Como vai o seu casamento?

— Sinceramente? Parece que nos enfiamos num buraco enorme por nós mesmos, o qual é incrivelmente difícil de sair. Leo é o tipo de cara que... segue instruções. Quando engravidei sem nenhum planejamento, ele encontrou um caminho, o que temos que fazer? Como resolver? Vamos casar. Vamos comprar uma casa. Vamos morar juntos, ter o bebê, é isso. E dentro do casamento, ele continua seguindo instruções. O que um pai faz, o que um marido faz. Às vezes acho que ele entra no Google e pesquisa coisas do tipo: como fazer as pazes com a minha esposa. Ele é cheio de respostas prontas e acho que eu sou...

— Uma garota espontânea. Você segue a sua bússola.


Presley sorriu.


— Acho que é bem assim. Mas isso foi comprometido pelo tempo que passei tomando conta da Aika, a colocando em primeiro lugar. Não que tenha parado de fazer isso agora, mas com ela estando bem e saudável, pude começar a olhar para mim novamente. Não existe quem possa ser feliz assim, do jeito que as coisas estão para mim. Eu acordo, faço o café da manhã, lavo a louça, passo aspirador na casa, cuido da criança, coloco as roupas para lavar. Agora, ao menos, tenho o meu trabalho, tem me feito muito bem. Mas até um mês atrás, levava a Aika na escola e voltava para casa, ficava no sofá vendo série até a hora de ela sair da escola. Daí, ia buscar, cuidava dela, fazia o jantar, esperava o Leo voltar do trabalho, dormia, acordava, tudo de novo. Nada falta tecnicamente? Nada falta e, ao mesmo tempo, tudo falta. Me sinto mal por tecnicamente ter tudo, mas ainda assim, querer mais.


Hanni ouviu tudo, processou, e colocou seu copo seco de mate sobre a mesinha de centro.


— Você não deve sentir culpa por querer mais. Existem outros tipos de casamentos, outros tipos de relacionamentos. A vida adulta é chata mesmo, tem casa para cuidar, obrigações todos os dias, contas para pagar. Mas tem que ser mais do que isso. Essas obrigações, essas tarefas obrigatórias, não podem ser tudo.


Presley colocou seu copo vazio sobre a mesinha de centro também.


— Hanni, e se tudo der muito errado? E se eu não der conta dessa vida nova que tanto quero?

— Pres, lembra do surfe? Primeiro levanta, depois fica de pé, uma coisa de cada vez. Eu sei que você sente que está num buraco, eu também estava em um, há cinco anos. Era muito mais nova que você, tinha 23 anos, cicatrizes, muita culpa. E eu saí. Sei que você não está onde gostaria, mas vejo que, ao menos, o Leo é bom para você.


Presley a olhou nos olhos.


— Hanni, alguém...?


O celular de Manu tocou. Providencial.


— Desculpa, me dá só um segundo.


Ela escapou para atender. Ouviu que era Alexia; Hanni saiu para falar lá fora, e Presley ficou pensando no que ela havia dito. Sobre Leo ser bom. Sobre primeiro levantar, depois ficar de pé.


Primeiro levantar, depois ficar de pé; o que você quer está do outro lado da fronteira do medo.

Kaori levou Aliana para casa.


Conversando muito o caminho todo, rindo de qualquer coisa, elas tinham muita coisa em comum. Mesmo sem falar sobre o que realmente estava interessando as duas, as regras do jogo pareciam claras. Ao menos, Kaori esperava estar lendo aquele jogo corretamente. Aliana era bonita, engraçada, inteligente, designer editorial, trabalhava em uma revista. Kaori ainda estava na faculdade, se formaria no final do ano, mas trabalhava meio período como instrutora de bungee-jump na Sky Tower. Elas eram interessantes, se interessaram uma pela outra, e quando Kaori parou o carro no prédio, Aliana perguntou se ela não queria subir para tomar um café.


Queria o café. Estacionaram, subiram conversando muito e entraram no apartamento.


— Por que você não senta um pouco? — Aliana acendeu a luz, apontou o sofá para Kaori, ela sentou.


Então foi até a cozinha, pegou uma garrafinha de água, bebeu, voltou para a sala, parou bem diante de Kaori. E só ficou assim, parada na sua frente. Kaori abriu um sorriso.


— Você não vai sentar?


Aliana sorriu para ela. Que sorriso lindo ela tinha.


— Vou. Em você.


Aliana a pegou pela nuca, subindo no colo dela, de frente para ela, uma testa tocando na outra, os olhos absurdamente conectados. As mãos de Kaori encontraram lugar pela cintura dela imediatamente, após seu coração ter batido forte contra as paredes de suas costelas.


— Eu devo parar? — Aliana perguntou, a centímetros da boca dela.


O coração de Kaori batendo tão forte que ela podia, literalmente, ouvir, sentir a pressão nos seus ouvidos. Kaori a segurou pela garganta, a olhando reto nos olhos também.


— Eu te digo quando.


Aliana a beijou.

Em Takapuna, Presley estava pronta para ir embora.


Deixou as roupas limpas de Hanni, mas ia embora em outras roupas dela, estava deixando as suas roupas molhadas, levando outro quimono para poder treinar no dia seguinte. Hanni foi deixá-la no carro, trocaram um beijo no rosto, ficaram conversando um pouco mais. Presley já no carro, Hanni na janela, havia pegado sua aliança de volta com Taylor mais cedo, a sentia no bolso do short que usava. Hanni pediu que ela dirigisse com cuidado, ficou de pegar o carro de Presley na embaixada de manhã; destrocariam os carros depois. Era difícil ir embora. E era difícil voltar para casa. A única coisa que fazia Presley querer voltar era Aika, de fato. Pensou sobre estes fatos. Se despediram enfim, Presley ligou o carro, mas antes de sair, Hanni a chamou de volta.


— Presley?

— Oi...


Ela não disse nada. Hanni estava no meio do caminho, entre a sua porta e o carro parado. Então, os dedos desceram, chegaram até o botão de sua bermuda jeans. Ela não havia trocado de roupa, ainda estava de bermuda e biquíni, botão aberto, zíper abaixado, bermuda descendo pelo corpo. Olhos nos olhos. Presley mordeu a boca, e Hanni apenas virou de costas, andando para a porta da frente, o corpo naquele biquíni mínimo...


Presley respirou fundo, as mãos suando no volante.


— Quem esculpiu você?


Hanni olhou para ela, abrindo um sorriso, aquele sorriso lindo, as linhas verticais do abdômen, as coxas firmes, os quadris, uma coisa!


— Eu sempre mantenho as minhas promessas. Agora, você pode ir.


Não pule em cima dela. Você não pode pular em cima dela.


Não podia.


E isso tinha que mudar.


Dirigiu com os seus batimentos ensurdecendo a sua mente e o tesão corroendo a sua pele.


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8 comentários


Gabriela Rafael
Gabriela Rafael
17 de mar. de 2025

Só na cabecinha confusa da Presley que o Leo é um bom pai, o cara não se esforça nem pra se comunicar com a própria filha cumpre só com as obrigações de provedor e quando faz o mínimo do mínimo espera se reconhecido kkkkkk aiai a Presley sabe provocar porém a Hanni sabe mais ainda 🔥

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Jane Silva
Jane Silva
03 de jan. de 2024

Isso tem que mudar, kkk ela tem que poder pular em cima da menina.😅

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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
20 de nov. de 2023

"Quem esculpiu vc?" Kkkkkk a baba descendo da boca kkkkk

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sylber1011
sylber1011
16 de nov. de 2023

A vida não pode ser so isso…

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Samara Borges
Samara Borges
15 de nov. de 2023

Cara, eu entendo a Presley. Às vezes, quando vc está em uma relação ruim, vc não consegue perceber o quão ruim ela é e o quanto te faz mal, até vc se livrar dela. Ela se apega a um ou outro bom momento que ele teve pra avaliá-lo como bom pai. Quando ela finalmente chutar o engomadinho, vai perceber que estava muito mal parada, aceitando migalhas de um cara que não valoriza a família.


Editado
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