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Relicário 2




Giulia


Foi uma noite tranquila. Mas, apesar disso, Theodora não foi trabalhar. Mesmo tendo dormido bem, assim que abriu os olhos, uma enorme dor de cabeça começou a latejar em sua mente e ela não teve condições. Então ficou em casa, cuidando dos machucados. O corte pertinho do couro cabeludo e o roxo em seu olho faziam parecer que tinha brigado com alguém. E perdido.


Não sabia ainda se não havia brigado e perdido.


Se colocou de pé, se alongou um pouco, passou um café, comeu bolo do dia anterior. Deu uma olhada em sua “beleza aristocrática” no espelho. Camila gostava de defini-la assim, e Theodora costumava morrer de rir dessa colocação. Se achava tão comum. Uma brasileira miscigenada, descendente de duas classes exploradas e sem indenização de coisa alguma. Seu bisavô era italiano, havia vindo em uma das primeiras safras da exploração italiana no Brasil e se apaixonado por uma preta linda, a primeira geração de uma família pós-escravidão. Os escravos foram libertados pela Lei Áurea e então colocados para fora das fazendas, sem terras, direitos ou qualquer tipo de compensação. A dívida da compensação histórica com os escravos havia sido a tese de TCC de Theodora e os motivos pelos quais tinha tanto orgulho de Camila passavam por tudo isso.


Seus bisavós haviam conseguido vencer em alguma coisa, e a mistura do DNA dos dois prosseguiu com seus pais e o resultado... Gostava do resultado. Gostava dos cabelos castanhos, agora cortados pouco abaixo dos ombros, e achava que a tal aristocracia que Camila adorava ressaltar devia vir da linha de sua clavícula. Era o que mais gostava em si, mais do que a boca delicadamente linear ou as linhas da mandíbula. Abriu um sorriso ao lembrar disso. Alguém uma vez havia elogiado sua mandíbula. Um pensamento à toa que lhe veio à mente. Andou um pouquinho, cuidou dos machucados e uma das coisas que mais lhe incomodava era o silêncio naquele apartamento.


Camila era tudo, menos silenciosa, e as brigas mais recorrentes eram por causa disso. Theodora era jornalista e precisava de paz para escrever, e Camila nunca lhe dava isso. Ela entrava em casa e já ligava alguma coisa: a TV, o som, música no celular, qualquer coisa ou todas essas coisas ao mesmo tempo. Theodora ficava louca. E agora sentia falta extrema dessas coisas. Agora mesmo, a TV estava ligada na sala sem ninguém assistindo. Era apenas para fingir que não estava sozinha, que Camila ainda estava por ali em algum lugar, estudando na sala ou fazendo o jantar na cozinha.


Mas ela não estava. E o alívio em ouvir que era OK continuar amando-a do jeito que amava agora brigava em seu peito com a esperança que ouvir que ela também sentia sua falta havia acendido. Não era agora para ela simplesmente ir embora, dado aquele cenário? Não era para Camila sair elegantemente dos seus pensamentos agora que Theodora havia deixado que ela voltasse para a sua vida?


Era. Mas, como a maioria das coisas envolvendo Camila, aquela também não parecia simples de decifrar.


Foi dormir com dor de cabeça e com a TV ligada. Abriu a janela. Morava em Ipanema e gostava da vista. Não tinha vista para o mar, mas gostava de ver as luzes acesas dos prédios e do céu, especialmente numa noite bonita como aquela. Era outra coisa que Camila fazia: a arrastava para as janelas sempre que o céu estava bonito, mostrava o azul sem nuvens e as nuvens branquinhas, e também as obscuras, não eram bonitas também? E lhe fazia reparar nas estrelas e na lua, na chuva e nos dias de sol. Theodora considerava uma perda total de tempo, e lembrar dessas coisas a cada dia só lhe mostrava ainda mais que não merecia Camila, era um fato. Ainda que estivesse melhor agora, que o rompimento a tivesse transformado, havia como anular anos de descuido? Não tinha certeza se dava, e pensar nisso trouxe um esquisito alívio que lhe permitiu dormir.


Acordou cedo e era sábado. Pensou sobre o que fazer e era engraçado, não se sentia mais próxima dos amigos. Eram amigos seus e de Camila, que majoritariamente tomaram o lado dela e, na mente deles, isso devia significar se afastar de Theodora. Era outra coisa que doía bastante. Ok, não precisava deles.


Vestiu um biquíni preto, fez um coque samurai, pegou uma mochila com roupas para trocar caso o tempo virasse, parecia que ia virar, catou o patinete empoeirado no quarto da bagunça, short jeans, um agasalho, se deu outra olhada. O machucado na testa estava seco, não parecia que seria um problema. Escolheu uma playlist no celular e desceu ouvindo música. Morava a apenas três quarteirões da praia e foi pra lá de patinete, testando o equilíbrio do próprio corpo. Fazia tanto tempo assim que não andava nele? Fazia. A última vez devia ter sido ainda no ano anterior. Então se ajustou: o corpo, a mente, o equilíbrio, a aderência da prancha aos tênis brancos. Fez uma nota mental sobre lavar aqueles tênis, há quanto tempo não cuidava deles? Parecia mesmo que tudo fazia tempo demais. O dia estava bonito, mas estava esquisito. Claro, tinha nuvens. O sol tocava, mas estava gelado, e era o seu mesmo estado de espírito. Se perguntou se estava com poderes de manobrar o tempo, parecia real. Alcançou a praia em alguns minutos e então não soube mais o que fazer. O que havia ido fazer ali?


Não sabia bem. Mas, na falta do que fazer, decidiu tirar a roupa e entrar no mar.


Fez tudo muito devagar. Estava dolorida do acidente e novos roxos foram aparecendo conforme se analisava no espelho mais cedo. Um no braço, outro no abdômen, como podia? O cinto de segurança havia sido mesmo providencial. Tirou a roupa, os fones de ouvido e então que... que... Bem, apenas sentou-se de volta na areia, perdendo os olhos pelo mar azul-escuro.


O primeiro beijo delas havia sido no mar.


Eram meninas ainda. Theodora era um pouquinho mais velha, meses de diferença. A família alugou uma casa de praia em Arraial do Cabo e elas, com quatorze e quinze anos, só queriam avançar limites, mas era impossível com tanta gente por perto. Então, Camila a havia arrastado para o mar com uma prancha, apenas elas duas, e quando estavam longe o suficiente, começaram a ficar mais perto e mais perto até que, de repente, o beijo aconteceu. Pensava nisso e não tinha remédio que lhe fizesse não sentir saudade. De cada coisa pequena. De cada coisa que não podia ter mais.


Apertou as mãos em ansiedade sem sequer perceber. Estava arrepiando na própria pele, arranhando os próprios sentimentos. Quando ela iria embora? Quando Theodora seria livre para simplesmente ir em frente?


— Theodora? Ei, Theodora?!


Ela não ouviu. Aquilo sequer surpreendeu a moça que a chamava, só lhe deu ainda mais certeza de que, de fato, era Theodora mesmo. Então se aproximou e, abaixando-se junto dela, tão suave quanto conseguia...


— Theodora? — A chamou perto do ouvido e Theodora quase teve um troço.

— Mas que...?! Meu Deus, caramba, meu Deus! Eu estava muito longe daqui, muito longe — Estava. E deve ter dado pano para a maior resenha do mundo, dado o quanto a moça estava rindo. Devia ter sido extremamente engraçado.

— Calma, ei! Oi, está tudo bem com você?


Theodora respirou fundo, colocando a mão no peito, olhando para ela. Havia sido arrancada de seus pensamentos e estava tão distante que seu coração acelerou quando foi puxada de volta. Acelerou mesmo, e ainda não havia se acalmado quando percebeu quem era a pessoa que tinha lhe chamado de volta. De volta... de Camila. Estava longe com Camila e agora...


Era ela mesmo?


— Lia?

— Ao menos você lembra o meu nome — Ela respondeu sorrindo, abaixada na areia para lhe olhar nos olhos. Morena, cabelos longos, castanhos, o sorriso mais franco e bonito da vida. Era assim na faculdade, ela distribuía sorrisos gratuitos por onde quer que passasse. Tinha uma corzinha de chocolate europeu. Theodora adorava comparar suas meninas com chocolate e aquela ali, parada à sua frente, era uma de suas meninas — Ei, faz muito tempo! Eu não ganho nenhum abraço, não? Um apego, um chamego, nada?


Ganhava. Theodora abriu um sorriso e a abraçou, muito apertado, bem demorado. Eram os abraços de Giulia, apertados e demorados, carinhosos e apegados. Ela a abraçou e caiu na areia ao seu lado, sorrindo demais e apertando os roxos de Theodora sem querer.


— Lia! Espera, é que ontem...

— Fez uma sessão sado com a namoradinha, foi? Você está toda roxa! — Ela seguia sorrindo, agora vendo seus machucados.

— Que sessão sado, menina, eu bati o carro.

— Imagina isso, se Theodora Esposito ia estar em uma sessão sadomasoquista, jamais!

— Você segue dizendo esse sobrenome como se ele fosse o máximo, né? — E ela seguia lhe fazendo sorrir. Era um dos poderes de Giulia.

— Lembro de você contando que Esposito era o nome dado aos órfãos italianos abandonados na roda dos expostos — Giulia disse, toda faceira.

— Expostos para proteção da Madonna! — Disseram juntas, porque adoravam aquela história. E Giulia... Giulia era alguém por quem Theodora tinha muito apego — Faz tempo pra caramba mesmo, Lia. Tempo sem você por perto. A última informação sua que eu tinha é que você foi embora, sem pretensões de voltar a morar aqui.

— A gente diz cada coisa, né? — Ela abriu outro sorriso lindo — Dois anos na Irlanda e deu, estou aqui de volta — Arrumou-se direitinho ao seu lado e...


Ela era bonita. Era um pensamento recorrente que roubava a atenção de Theodora durante as aulas: o quanto Giulia era bonita. Bonita, atraente, interessante demais, alta, com definições musculares diferentes, a pele super bronzeada sempre. Ela adorava praia, adorava sol. Era uma figura vinda lá do Sertão do Cariri, pernambucana, de sotaque gostoso, uma sedutora. Theodora sabia, Camila sabia. Giulia lhe tirava a atenção na faculdade e essas desatenções geralmente causavam discussões em casa, porque não sabia bem como Camila fazia, afinal, estudavam em cursos diferentes, mas ela sabia de tudo. Ah, sim, o poder de ler os seus pensamentos, ela tinha.


— Eu não sabia que você tinha voltado.

— A gente perdeu contato pelo caminho, né? Coisas de faculdade. A gente jura que não vai deixar de estar na vida das pessoas, mas o afastamento acontece, é muito natural.

Theodora olhou para ela um pouco mais. Ainda não havia conseguido tirar os olhos de cima dela.

— Ainda mais quando a namoradinha muda para Dublin.

— É, ainda mais nesses casos — Ela respondeu, sorrindo — Mas voltei faz pouco tempo. Vai fazer duas semanas ainda. Eu estava em dúvida se não queria voltar para Pernambuco ou se vinha para o erre jota...

— Sério que estava pensando em voltar pra casa, Lia?

— Entenda o caminho, a criatura sai do Sertão do Cariri para o Rio de Janeiro, daí pega um expresso para a Europa, passa um frio da moléstia, quase que volto correndo pra Exu, pro meu sol na moleira, pra Luiz Gonzaga, pro bode assado, voltava mesmo — Ela disse, lhe fazendo rir demais outra vez, e Theodora sorrindo... Giulia sempre havia adorado ver o sorriso dela — Perguntei sobre você para o pessoal da faculdade.

— Perguntou de mim?

— Você sabe da nossa relação diferente, não é? Eu não esqueço você, Theo. Inclusive, não acreditei muito quando te vi dali, se era mesmo você, porque... a gente sempre foi tão... próximas — Não encontrou palavra melhor. Proximidade era algo que sempre havia sido das duas — Passamos quatro anos da faculdade fazendo tudo juntas, Theo.


Era verdade. Giulia era sua parceira de trabalho preferida, eram uma dupla o tempo todo, para qualquer coisa.


— Como você está? Como foi na Irlanda?

— Ah, foi tudo bem. Você sabe por que fui pra lá, né?

— Breena, a irlandesa, eu me lembro — Era um namoro virtual em que Giulia vivia grudada o tempo inteiro — Deu certo?

— Deu o que tinha que dar, eu cheguei à conclusão. Ela é linda, é uma pessoa maravilhosa, a gente se divertiu demais nesses dois anos e fomos muito felizes. Mas, de repente, acordei um dia e... Não sei, não fazia mais sentido. Eu estava com saudades de casa, desse calçadão, dessa praia maravilhosa, saudade do Cariri, de falar português, de ouvir o nosso sotaque e OK, nós duas estávamos muito bem, mas... faltava. Eu não sei, só sei que estar bem com ela não era mais suficiente. Aquela paixão toda do namoro virtual, que toma forma na vida real, esfriou, entramos na fase da amizade colorida e o sexo estava meio sem graça. É muita coisa para se abrir mão só para manter um relacionamento bom, mas que já é mais amizade do que paixão. Estou fazendo sentido ou só parecendo uma desalmada sem coração?


Theodora riu alto. Há quanto tempo não ria assim? Só Giulia mesmo.


— Está fazendo sentido. E também parece que seu coração é bem controlado, mas não parece desalmada. Pelo contrário, tem que ter muita alma e respeitá-la para decidir algo assim, baseado nos fatos que você me expôs.

— Então... Mas ela não entendeu assim. Ficou extremamente magoada, disse que sabia que as coisas tinham mudado, mas que aquela nossa relação também era amorosa, que eu ia fazer falta. Ela me faz falta, mas há outras coisas que me fazem falta também e, quando pesei todas essas coisas, o resultado foi egoísta e eu decidi voltar. Não tem fórmula mágica para relacionamentos, não é, fada?


Theodora sorriu. Ela a chamava de fada, o que era bem engraçado, porque Theo se via sempre tão brusca com as coisas que o último substantivo em que pensaria para si mesma era algo tão delicado quanto fada.


— É tudo bem complicado mesmo.

— O que mais doeu, na verdade, foi ela me vilanizando, sabe? Não só ela, todo mundo que nos conhecia, todos os nossos amigos. Eu me tornei a vilã simplesmente porque quis me separar. Isso já é suficiente para se posicionar contra alguém, e isso me chateou bastante. E sabe o que é pior? Se sigo na relação, mas acabo traindo porque as coisas estavam desinteressantes, ela seria a primeira a dizer: “Ah, mas por que você não separou antes?” Sendo que passei quase dois meses lá tentando separar direitinho, sendo sincera, abrindo o meu coração — Giulia ia desabafando e pegando Theodora em uns detalhes em que ela ainda não havia pensado por aquele lado — Relacionamentos são complicados, viu? — Respirou fundo, olhando o mar. E então mudou o tom da conversa, não queria ficar triste por causa de Breena outra vez — Mas não para você. Como está a Camila? Vamos, me conta, já se casaram? Vocês estavam quase se casando quando viajei, não estavam?


Theodora respirou fundo.


— A gente estava — Havia planejado pedir Camila em casamento no Peru, no Vale Sagrado dos Incas, com toda a energia alienígena ao redor — Mas algumas coisas saíram do esperado.


Giulia a olhou com atenção.


— Vocês...?

— Terminamos. Há uns meses já.


E aquilo a pegou absolutamente de surpresa. Ficou pelo rosto dela, pelos olhos. Theodora já estava acostumada com essa reação quando contava do término com Camila. Elas eram como o meteoro que havia atingido os dinossauros. Não se esperava que algo assim simplesmente acontecesse ou perdesse força, mas a questão é que, na verdade, não havia sido um “simplesmente”. As coisas já não iam muito bem, certas coisas andavam desencaixadas, desencontradas, mas estavam juntas havia tanto tempo, será que não conseguiam consertar? Era o que sempre se perguntavam.


Conversaram um pouco sobre isso. Theodora preferia não falar, mas, ao mesmo tempo, precisava falar um pouco mais do que havia acontecido, e que fosse com Giulia, que também estava atravessando um término e entendia de... Bem, ex-namoradas que não aceitam um fim muito bem.


Giulia sempre havia sido uma amiga muito próxima das duas. Frequentava o apartamento delas, iam aos mesmos churrascos, às mesmas baladas. Era um espírito livre, sempre acompanhada de alguma menina bonita, mas que só jurava amor à sua irlandesa. Breena, a tal irlandesa, veio ao Brasil uma única vez para elas se conhecerem pessoalmente e, no passo seguinte, Giulia se mudou para a Irlanda. Era o tipo de coisa que ela fazia: impulsiva, não planejada, sem amarras. Era um ser humano livre e totalmente sem amarras. Estavam conversando sobre os relacionamentos das duas, que haviam dado errado, e, de repente:


— Você ainda joga League of Legends? — Era Giulia, é claro, mudando de assunto muito de repente.

— O quê? — Theodora perguntou, sem entender muito.

— Você ainda joga? É que está passando o mundial ao vivo naquele quiosque ali da esquina. Saí do hotel para assistir, mas não quero deixar a nossa conversa também.


Theo riu alto outra vez, ela não havia mudado nada.


— A gente pode ir lá assistir, Lia. Eu não sabia que estava tendo mundial.

— E ao vivo! Vem, vamos lá rapidinho, eu te pago um suco de morango e te tiro deste frio! Não ficou frio de repente?


Havia ficado. E suco de morango era o preferido de Theodora, bem mais do que o suco verde que sempre bebia com Camila. Se vestiu e foi com ela até o tal quiosque, pegaram um lanche e, enquanto assistiam ao mundial no telão, se perderam falando de milhares de coisas diferentes. Giulia não existia. Ela conseguia assistir ao mundial, vibrar, ouvir Theodora, dar toda a atenção possível e ainda conseguia se aproximar. Quando havia chegado tão perto? Theodora nunca sabia. Ela vivia chegando perto demais, mesmo com o seu relacionamento tão sério com Camila. Daí percebia, se afastava, mas não se desculpava, não era preciso. Theodora não a via de qualquer maneira, que mal poderia fazer?


Bem, desta vez viu. Ela chegando muito perto, a ponto de Theodora rir, dela dizendo que havia acabado de respirar pó de fada.


— Olha, e se faz mal?

— Pó de fada? Nada, eu vim da Irlanda, estou vacinada contra seres místicos.


O campeonato entrou pela tarde e elas seguiram naquele quiosque, pediram algo para almoçar, viram as fotos de Giulia na Irlanda e do mochilão que ela havia feito pela Europa antes de voltar. Reconectaram todos os vínculos que haviam perdido, se seguiram nas redes sociais, trocaram telefones e, quando o campeonato terminou, já era final de tarde.


— Posso te levar pra casa? Lembro que é aqui perto.


Theodora olhou bem para ela. Tinha rido tanto que estava cansada.


— Eu te dou uma carona e você me leva em casa, o que acha?


Giulia gargalhou, sabia qual era a carona.


— Parece justo.


Pagaram a conta e seguiram para o apartamento de Theodora, de patinete.


Coisa que ninguém mais topava fazer com Theodora na vida: andar de carona de patinete elétrico. Mas Giulia sempre ia, determinada, louca por qualquer aventura. Subiu na frente do patinete enquanto Theo ficou atrás, mantendo a direção e a mantendo entre os braços, alcançando velocidade máxima porque as duas eram dessas: velocidade, risadas e um sentimento bom que... caramba! Como estava com saudades de Giulia. Aquela Giulia que subia em seu patinete, morrendo de rir e morrendo de medo, que sempre achava que iam cair e se esfolar inteiras, mas ia de qualquer forma e queria sempre a maior velocidade possível. E nunca caíram. Nem do patinete e nem... nem daquela atração silenciosa e eloquente.


Pronto, chegaram ao seu portão e o sol estava se pondo lindamente no final da rua, dentro do mar.


— Então, está entregue.

— E estou inteira, deu tudo certo — Ela respondeu sorrindo e então chegou muito perto de Theodora. Muito perto mesmo — Abre o portão, fada.

— O portão?

— Aham, entra um pouco.

— É o meu prédio e você está me convidando para entrar? — Theo perguntou, sorrindo e abrindo o portão, colocando o patinete para dentro.

— Você sabe como sou intrometida.


E Theodora mal colocou o patinete para dentro e Giulia a colocou contra a parede. Literalmente, uma mão em sua cintura, um braço passando pela linha de sua clavícula e...


— Foi você quem elogiou a minha mandíbula — Lembrou de repente, fazendo Giulia rir.

— Quando nos falamos pela primeira vez, eu lembro — Agora as mãos dela estavam densamente em sua cintura — Camila depois me disse que você tinha uma beleza aristocrática, e é toda verdade, você tem mesmo.

— Giulia... — Deslizou a mão pelo abdômen dela, que era e estava uma coisa, a pele bem bronzeada. O Rio de Janeiro já havia consertado a falta de cor do inverno europeu.


Ela a olhou reto nos olhos.


— Você sabe o que vou fazer. Há anos quero fazer isso.


Theodora a puxou pela cintura, mais para perto ainda.


— Faz agora.

— E se você voar? — Ela disse, séria.

— Você não deixa.


Giulia recostou o corpo inteiro no dela e a beijou.


Pegando a sua boca muito gostoso, deslizando os lábios, pegando a língua, as mãos deslizando agora deliciosamente pelos quadris, só um pouquinho, só para deixar com vontade. As mãos de Theodora, antes paradas no ar, agora encontraram lugar pela cintura, por pele gostosa e...


Virou Giulia de costas para si, grudando a parte baixa de sua cintura contra os quadris dela. O coração disparado, o tesão disparado de uma maneira...


— Lia...

— Escuta, vamos para uma festa — Ela disse, absolutamente do nada, apertando as mãos de Theodora no próprio corpo e com um sorriso...


Era lindo demais. Tanto quanto ela beijava gostoso, Theodora ainda estava zonza e perdida.


— Que festa, Lia?

— Qualquer festa, eu acho uma — Ela se virou de frente, olhando em seus olhos outra vez, a pressionando com o corpo, mas sutilmente — Eu não quero me separar de você agora, Theo. E você não vai me deixar subir, eu sei.


Theodora riu, abraçando-a, beijando o pescoço dela.


— Vamos para uma festa, mas tenho que subir para trocar de roupa.

— A gente sobe.


Theodora a beijou novamente, apertando a mão na cintura que triscava em seus quadris.


— Lia...

— O tesão, meu amor, eu sei bem.


Subiram e, com todo o cuidado possível no mundo, trataram de acalmar o tesão das duas sem apertar os machucados de Theodora ou ultrapassar qualquer limite. Ainda estavam zonzas, imersas uma na outra, e o jeito foi Giulia ir para o sofá e puxá-la para o colo, de frente para si, aquelas mãos pela sua cintura, a boca pelos seus seios, os apertões em seu bumbum e o jeito que ela conduziu Theodora até aquele orgasmo por cima das roupas...


Theodora se agarrou ao pescoço dela, sentindo-a lhe apertar inteira contra o corpo, ainda pulsando de prazer, as duas estavam. A mão dela entre as coxas de Giulia contava todas as coisas, e a pele dela, o cheiro...


Giulia mordiscou sua mandíbula, a fazendo rir demais.


— Essa mandíbula aristocrática é a perdição dessa nordestina aqui!

— Nordestina albanesa, meio Dua Lipa, meio Lais Ribeiro — Theodora respirou fundo, ainda agarrada inteira nela, sentindo o corpo todo sensível — Lia...

Easy, babe, easy — Ela beijou sua mandíbula outra vez, sua testa em seguida — Fica soft, tá? A gente faz uma jantinha e vai para a nossa balada, você precisa relaxar. Sobre tudo. Estava fisicamente toda tensa e provavelmente...

— Não gozava há oito meses — Mordiscou o ombro dela, ouvindo-a gargalhar.

— Eu não acredito nisso, Theo!

— Acredita, claro que você acredita. Vivia me dizendo que...

— Você é mulher de uma mulher só.

— Eu sou, e você...


Giulia a beijou, delicada e longamente.


— Vai para o banho, fada. Vou fazer uma jantinha pra gente.

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