Vulnerável 4
- Riesa Editora

- 12 de jun.
- 15 min de leitura

Envolver
Na manhã seguinte, Flávia Demerara estava na porta de Júlia Bittencourt mais uma vez.
— Tem café? Hoje eu trouxe a equipe toda.
Havia trazido mesmo. Além de Rebeca, estavam com ela os administradores dos perfis de Gabriela, a equipe de marketing e a de publicidade. Na casa de Bruna, estavam todos os pares correspondentes também, e a mesa de café da manhã/reunião ficou com todos os seus vinte lugares ocupados.
— Chegamos à conclusão de que essa onda é mais positiva do que negativa, e que o que está acontecendo lá dentro é reflexo da relação delas aqui fora. Elas se desentendem e se entendem; é meio o que acontece aqui fora também — Flávia estava dizendo.
— Mas o que todo mundo se pergunta é onde acontecia essa amizade que quase ninguém via. Digo quase ninguém porque tem umas fanfiqueiras que estão levantando dados obscuros por aí — Disse um dos administradores do perfil de Gabriela.
— Elas são próximas, gente. Não tornaram essa proximidade pública por motivos que só elas sabem. Mas a Dara confirma a história que a Habren contou sobre como elas se conheceram; Rebeca também confirma, e isso pode ser contado nas redes sociais. Podem trabalhar com essa informação — Júlia explicou.
— E o ship, todos de acordo que podemos usar? — Perguntou outro administrador das contas de Bruna.
— Isso acho perigoso, até porque a relação lá dentro ainda é frágil. Tivemos o mesmo número de entendimentos e de desentendimentos até aqui. Fora a Gio e o Nathan que estão aqui fora — Flávia ponderou. Nathan era o namorado atual de Gabriela.
— Mas não é ship de amizade, gente? Achei que tínhamos concordado que Gabriela é a hétero fodona e tals.
— Maurício, que veneno, que veneno! — Respondeu um dos administradores de Gabriela, julgando demais com o olhar.
— Não, porque, pelo tom de vocês, a Bruna é a própria diaba tentando Jesus no deserto. No caso, Jesus-Gabriela no deserto — Maurício respondeu no mesmo tom.
— Pessoal, foco! — Júlia pediu — Quando vi que a Gabriela estava mesmo confirmada, achei que esse seria o clima natural entre as nossas equipes, mas as duas decidiram fazer diferente, então temos que ir junto. Foi uma decisão conjunta, minha e da Demerara.
E, enquanto Júlia falava isso, a câmera mudou para Gabriela com Bruna, conversando no banheiro, e lá veio Chiara, em altíssima velocidade, parar na frente da TV da sala.
— Ship de amizade ou de outra coisa, eu só sei que a Chiara é a shipper número um, não tem jeito.
O número de contas ligadas ao ship que estava surgindo era assustador. Contas, fotos, edits, threads, vídeos — tudo inundava as redes de Bruna e Gabriela hora após hora.
E assim foi ao longo dos dias daquela primeira semana.
A divisão, de fato, funcionou: Bruna na Xepa, Gabriela no VIP. As rodas de conversa se tornaram outras e, naquela semana, um afastamento naturalmente aconteceu. O que não significava que a internet havia se acalmado, ou que agora não pegasse o mínimo detalhe, qualquer pequena interação entre elas, os olhares breves ou os momentos em que acabavam se aproximando por qualquer motivo.
O assunto entre elas seguia surgindo, e era natural que falassem uma da outra para terceiros. Nas noites em que Gabriela dormiu no sofá do quarto do líder, Monique e Bruna naturalmente se aproximaram. Havia algo entre elas, uma carência física que supriam com toques e carinhos. E uma nova onda de shippers surgiu, também envolvendo Bruna: brunique, e o emoji de champanhe foi o eleito.
Vinha com bem menos força do que gabruna, mas existia esse outro movimento. Eram duas mulheres bonitas, que visualmente combinavam demais. Monique era mais alta, mulherão por natureza. A vibe das duas combinava, sempre pra cima, sempre aos risos.
O xeque-mate: Bruna a admirava de verdade.
Monique tinha saído de uma cidade minúscula do Piauí e chegado às principais semanas de moda do mundo: Milão, Paris, Nova York, Los Angeles, e até havia feito um desfile icônico no Palácio de Versalhes. Era baixa para os padrões da moda, 1,76 cm, mas isso não foi obstáculo para chegar aonde sonhava. Elas tinham muito em comum, e o mundo da moda era uma das muitas coisas que partilhavam.
— Você desfilou para a Schiaparelli, eu não sei o que pode ser mais legal do que isso — Bruna comentou enquanto conversavam no jardim, deitadas nas almofadas da varanda, muito perto uma da outra, os corpos em contato o tempo todo.
— Foi muito legal mesmo, uma das maiores experiências profissionais que eu já tive. E sabe quem conheci nessa semana de moda em Milão?
— Quem?
— Gabriela Habren — Monique disse, do nada.
— Ahhh, ela fez um ensaio...
— Com uma linha de acessórios. A Habren não gosta de desfilar, mas o que ela faz nos photoshoots... Aquele rosto é uma joia e ela sabe disso. Ela contou outro dia que foi você quem a maquiou para o primeiro ensaio dela e que isso fez toda a diferença.
Bruna sorriu. Estava de costas para Monique, deitada entre os braços dela.
— De Bruna Ribeiro para Schiaparelli.
— Quem estreia grande segue grande, Bruna. Porque, assim, me fala aí, para quem você maquiou uns seis meses depois dela?
Outro sorriso de Bruna.
— Colcci, Cavalera, Glória Coelho, Animale, Juliana Jabour, Reinaldo Lourenço... Olha, foi o ano que mudou tudo.
— Pra você, pra ela e pra mim. Eu estava nessa São Paulo Fashion Week, desfilei pra Animale, pra Juliana Jabour e, de última hora, para Alexandre Herchcovitch, o que mudou todas as coisas pra mim também.
— Isso é muito louco, né? Um país deste tamanho, nós três vindas de cantos diferentes e já nos cruzamos tantas vezes — Bruna estava leve, feliz com aquela conversa.
— Sabe por quê? Acho que as pessoas tendem a fazer sucesso em um mesmo espaço, e esse é todo o problema. Ou você briga para entrar nesses espaços superseletivos, superdisputados, ou você não chega muito longe. A sorte favorece os bravos.
— E aos loucos, precisamos admitir, porque olha o tanto de gente louca que encontramos pelo caminho, os loucos que colocaram aqui dentro.
Riram juntas, porque Bruna tinha toda razão.
Logo, a atenção de todos se voltou para a primeira votação. Bruna não se sentia ameaçada, Gabriela também não, mas tinha uma aliada sob ameaça, e vê-la se movimentar para tirar Nuna da linha de tiro foi digno de VT. Gabriela andou por aquela casa inteira, firmando alianças, virando votos sem que eles sequer percebessem, apenas com uma conversa quase despretensiosa, girando as pessoas na direção que queria. Ela era inteligente, bem mais do que a maioria dos seus oponentes, e Gio tinha alguma razão sobre o poder de manipulação de Gabriela Habren.
— Ela é tão mentalmente superior aos meninos que é embaraçoso assistir isso aí — Lia comentou com Bruna em uma determinada noite, vendo Gabriela conversando com um dos rapazes.
— É uma manipulação limpa — Bruna respondeu — Eles sabem que estão sendo manipulados, mas fazem o que ela quer mesmo assim.
— E por que você acha que ela age dessa forma?
Bruna respirou fundo, sem conseguir tirar os olhos de Gabriela. Os dias foram passando e a Gabriela Habren que só ela costumava ver, estava aparecendo devagar: a que se vestia de forma mais relaxada, que amava moletons e camisetas, ou shorts de Muay Thai. Era o que ela estava usando naquela noite: short de Muay Thai e camiseta. Estava toda de preto, recém-saída de um treino no jardim.
— Porque a taxa de conversão para o que ela quer é alta quando age assim. Talvez porque essa seja a linguagem com a qual ela cresceu aprendendo. Isso aqui é um jogo, e ela é a jogadora mais inteligente da mesa. Por que ela não usaria a melhor arma que tem?
— Você é inteligente também.
— Eu sei, mas temos inteligências diferentes. Essa articulação social que ela tem, eu uso para fazer negócios, não para fazer amigos.
Essa era uma das grandes diferenças entre Bruna Ribeiro e Gabriela Habren.
Gabriela se moveu por três dias e o resultado da primeira votação mostrou que ela conseguiu: Nuna escapou pela diferença de um voto e um paredão neutro foi formado. E foi logo após a primeira eliminação que as coisas começaram a se mostrar de uma forma um pouco mais definida. A euforia da entrada havia passado e os probleminhas de convivência estavam começando a querer dar as caras.
A verdade é que tudo ali parecia meticulosamente bem cuidado para dar errado.
As mulheres eram parecidas e diferentes entre si, tal como os homens também eram, mas com grandes diferenças entre a vibe feminina e a masculina. O elenco feminino era formado majoritariamente por mulheres fortes, estava cheio de histórias de luta e sucesso. E, à parte o fato de serem mulherões por história de vida e conquistas, também eram, em uma fala muito bem-articulada de Bruna, um bando de gostosas quando a festa acontecia, sem medo de serem gostosas, de se divertir.
Era um grupo muito festeiro, muito alto astral, e isso também podia ser dito dos rapazes, que sim, também tinham histórias de conquistas, mas, de modo geral, pareciam meio...
— É como se eles ainda fossem todos adolescentes. Fico impressionada com a falta de maturidade. Tem coisas que já estão me incomodando — Dizia Mel, ou Melanina, seu nome de cantora. Havia três cantoras profissionais na casa, mais Gabriela, que só cantava por hobby. No caso, Melanina era rapper, vinda da favela de Paraisópolis, em São Paulo, cheia de letras autorais violentas de tão boas e que ainda brigava por sua grande chance de sucesso.
— Homem demora pra crescer. Tem vezes que eu realmente me pergunto como posso gostar. Podia gostar de mulher, seria uma paz — Era Lia, se movendo na esteira. Estavam conversando na academia.
— Só nos seus sonhos que gostar de mulher traz paz, tá? — Bruna respondeu aos risos; tinha se trocado para malhar, mas estava sem nenhuma disposição — A depender da mulher, é um inferno na terra.
— Falou a própria diaba, a cara nem treme! — Eduarda estava com elas, rindo demais — Aliás, já que você está de bobeira aí, podia mostrar a coreografia de “Envolver” pra gente. Você disse que ia mostrar e até agora nada.
— Tá falando por causa do vídeo, né? — Bruna tinha entrado em um challenge do TikTok e simplesmente viralizado com a coreografia. Não era que não esperasse, mas ainda se surpreendia sempre que um vídeo bombava mais do que o habitual.
— Tem como não ser? Bruna, você é uma maquiadora incrível, ninguém discute esse mérito, mas poderia trabalhar com dança que se sairia tão bem quanto — Monique estava em outro aparelho, fazendo uma série.
— Eu queria, sabia? Quando era pequena. Minha mãe sempre trabalhou com beleza e acho que ver o quanto ela dava duro sempre me fez querer ser outra coisa, qualquer coisa, menos maquiadora. Mas, como podem perceber, deu errado, ou deu certo, enfim — Contou, sorrindo.
— Mas aqui estamos te dando a chance de ser dançarina. Vamos, faz aí a coreografia pra gente, nos tire deste tédio! — Camila endossou o pedido geral.
— Tá, mas, pra fazer igualzinha à do vídeo, preciso de um gostoso comigo.
As outras se entreolharam. Já estavam tão na mesma sintonia que apenas um olhar bastava.
— Espera, a gente vai chamar o galã da edição pra fazer a coreo com você. Você chama lá, Duda? — Monique perguntou.
— O galã da edição?
— Chama lá, traz aqui!
Elas caíram na risada quando Eduarda entendeu tudo e saiu correndo para o jardim em busca do tal galã da edição.
E ela voltou com Gabriela Habren.
Gabriela também estava com roupa de exercício, calça de moletom, top de academia. Estava fazendo um treino sem aparelhos do outro lado do jardim e foi trazida sem entender coisa alguma. Bruna estava rindo demais, porque havia entendido imediatamente!
— Aqui, olha, trouxe o galã da edição! A mais cavalheira, mais educada, inteligente, charmosa.
Foi a vez de Gabriela cair no riso.
— Que galã? Como assim?
— Você acabou de ser eleita o galã da edição por essas criaturas, Gab, não reclama, só aceita — Bruna explicou para ela, sem saber bem qual seria a reação de Gabriela ao título, mas...
Ela seguia sorrindo, muito relaxada, e havia ficado vermelha de imediato. Mas não de uma maneira constrangida por saber que estava tão bem cotada entre as mulheres; era mais pelo elogio inesperado mesmo, foi algo que Bruna sentiu.
— Habren, você é mais bonita, mais interessante, mais gentil e dá de dez nesses bebezões que colocaram aqui dentro. Tem essa segurança natural que faz a gente querer se jogar nos seus braços e, sendo assim, foi eleita em assembleia geral pelas mulheres da casa: o gostoso dessa edição — Monique endossou o discurso, arrancando uma salva de palmas do elenco feminino.
— Estou honrada, bastante honrada! Só não sabia que a assembleia tinha se reunido pra isso — Gabriela estava levando muito na brincadeira, e aquilo fez bem pra Bruna; ver esse relaxamento nela, não podia negar. Era algo completamente novo.
— Então, a reunião extraordinária aconteceu porque a gente quer que a Bruna reproduza a coreo de “Envolver”, mas ela precisa de um gostoso. Daí a gente foi lá te buscar.
Agora estava entendendo tudo. Gabriela olhou para Bruna, ainda sorrindo.
— Um substituto para o Maurício, entendi — Maurício era o gostoso nos vídeos de dança de Bruna. Ele era bonito mesmo, alto, malhado e gay, mas fazia a pose de gostoso hétero como ninguém.
— Você viu o vídeo? — Bruna perguntou, já chegando mais perto dela.
— Quem não viu o vídeo naquele país chamado TikTok, Bruna?
— Então você sabe a coreografia?
— Daí tem um abismo de diferença — Gabriela respondeu, sorrindo — Mas se você me ensinar...
Ela sempre aprendia.
Gabriela costumava ser a parceira de dança preferida de Bruna.
Foi divertido demais passar aquela coreografia não só com ela, mas com todas as meninas. Bruna começou ensinando Gabriela a parte do gostoso da dança; não era tão difícil ser o gostoso, a maior parte do tempo ele apenas ficava rodeando a estrela. E, na frente do grande espelho da academia, Bruna rebolou coladinha nela, mas respeitosamente, sem encostar naquele corpo que realmente era delicioso.
Então vinham os passos na parede, outra rebolada, Gabriela a virando de frente, e uma gritaria aconteceu quando fizeram o próximo movimento, que era o gostoso pegando a gostosa pela garganta e dando alguns passos pelo espaço. Olho no olho. O sorriso escapando. A paradinha. Bruna, de frente para Gabriela, descendo pelo corpo dela. E, nesse momento, o coração de Gabriela Habren deu uma acelerada substancial, porque era cada situação em que ela mesma se colocava que nem sabia.
— Acha que consegue me pegar no colo? — Bruna perguntou, sorrindo.
— Minha filha... — Gabriela a chamou com as mãos; ela podia vir sem medo.
Bruna foi, saltou no colo dela, que de fato a segurou pelas coxas sem dificuldades. Gabriela sempre havia sido forte, mas andava um absurdo ultimamente. Gritinhos naquela parte da coreografia, Bruna deitando-se para trás, com toda a confiança do mundo de que não seria solta, coisa que só fazia com Maurício e... com Gabriela mesmo.
Suavemente, Bruna foi deitada no chão.
— Agora você lembra? Mostra seu controle de corpo aí.
Gabriela mostrou, apoiando as mãos no chão, as pernas subindo, então descendo, tudo muito controlado.
— E agora, Bru?
— Agora você avança em cima de mim, tira essa perna do meio das minhas — Bruna bateu na perna direita dela — Coloca do lado do meu corpo, isso, assim. Agora você avança, encaixando as mãos, isso, uma, duas, três, e fecha o punho direito. Sabe estaca entrando no peito do vampiro?
— Sei, criatura! — Gabriela reproduziu o movimento contra o peito dela, que reagiu na mesma batida e, em seguida, Bruna se virou de bruços, por baixo dela, fazendo o movimento no chão mais famoso da música.
E, quando os olhos de Gabriela encontraram aquele rostinho angelical de Bruna no espelho, misturado com o olhar mais safado do mundo, ficou nervosa de verdade. Tanto que achou que tinha passado pra fora de sua pele, e Bruna sabia disso, é claro que sabia. Às vezes, Gabriela achava que Bruna era capaz de mensurar seus batimentos só de olhar, de perceber sua mudança de temperatura só de estar um pouquinho perto.
— Você não vale dez centavos, sabia? — Gabriela disse baixinho para ela.
E Bruna caiu no riso, as outras também, e virou um aulão de dança. Tanto de “Envolver” quanto de “Gata”, com bônus para a coreografia de “Pink Venom”, do BLACKPINK, que Bruna havia aprendido pouco antes de entrar na casa. Não era fã de k-pop, mas Gabriela era, e foi algo que pegou dela, mais uma das inúmeras coisas que herdou da convivência com ela.
Todo mundo tem algo de ex, ex... qualquer coisa que houvesse sido.
Passaram a tarde toda em grupo, aprendendo e aprimorando coreografias. Quando se deram conta, o elenco feminino inteiro estava reunido, e o clima estava tão bom que uma música veio do nada e virou festa mesmo.
Uma festa improvisada, que chamou a atenção dos rapazes, que vieram participar da festa que elas haviam conseguido na unha. E sempre haveria algo quando Bruna e Gabriela decidiam dançar BLACKPINK juntas. De repente, veio “Kill This Love” e devia fazer uns três anos que não dançavam aquela música, mas o que era natural simplesmente vinha, e elas fizeram aquela coreografia juntas, impecáveis, como se tivessem dançado só outro dia. E aquela música...
Só levava Bruna direto para Seul, para o apartamento em Itaewon, onde havia sido feliz como nunca antes. E nem depois.
Bem, a festa começou na academia e terminou na piscina, perto do pôr do sol. Era dia de prova do líder e, meio sem perceber como, quando se deram conta, Gabriela e Bruna estavam sentadas no degrau rasinho da piscina, conversando.
— Você deveria fazer uma dancinha ou outra de vez em quando, Gab — Bruna dizia, os longos cabelos ondulados presos num coque samurai, o olhar castanho clareado pelos últimos raios de sol.
— Acho que não tem muito a ver com o perfil. E eu não danço essas coisas.
— Dança sim, sempre dançou super bem, só não usa isso a seu favor. E outra, o seu perfil é você; se tem a ver com você, tem a ver com o perfil. Li outro dia um jornalista dizendo que o seu nicho hoje é você mesma. Você não está nichada na moda, na música, em saúde mental, rotina e, ao mesmo tempo, está, porque seu nicho engloba tudo o que seja genuíno sobre você. E você é tanta coisa.
Gabriela a olhava. Chegava a ser engraçado o jeito como estavam sentadas na borda da piscina, os pés no degrau com água, as duas abraçando os joelhos contra o abdômen, como que garantindo que as mãos estavam ancoradas, ocupadas, os corpos sem se encostarem.
— Prefiro a gente assim.
— Gab, você sabe que eu também prefiro, mas a gente tem um monte de “mas” envolvidos.
Gabriela a olhou nos olhos de novo e, de repente, cantarolou um trecho de “Envolver”:
— ♪ Y no te vaya' a envolver, sé que lo hacemos y tú vas a volver... — E não vá se envolver, sei que vamos ficar e você vai voltar... ♪
— Gabriela, você não vale dez centavos de peso argentino — Bruna disse, sorrindo tímida, porque aquela garota conseguia lhe deixar tímida, sem saber como reagir.
Gabriela continuou, provocando:
— ♪Un perreíto en la pared, yo soy un caso que hay que resolver... — Um momento na parede, eu sou um caso que você vai ter que resolver... ♪
— Ei, Eduarda, a Habren está me cantando! — Bruna gritou para Eduarda na piscina, causando uma risada geral, até em Gabriela. Ela estava mesmo mais relaxada.
— Bruna, a Gab cantando você... pra cima de mim? Não dá pra acreditar, né?! — Eduarda estava rindo.
— Você não faz ideia; quanto mais sonsa, mais onça. Anota aí.
— Bruna... — Gabriela chamou, um arzinho de quem estava se divertindo, e ela realmente estava. Não lembrava a última vez que tinha se sentido tão leve.
Havia sido a dança, a música, Seul...? Talvez tudo isso junto.
— Hum?
— Tem um negocinho aqui no seu rosto, olha pra mim.
Bruna olhou.
— Onde?
— Bem aqui — Gabriela limpou o sujinho invisível no canto da boca dela, os dedos tocando de leve os lábios de Bruna, e Bruna só...
Sorriu, tirando a mão dela.
— Mas você não vale nada!
E Gabriela a agarrou, segurando-a firmemente entre seus braços. Bruna gritou, porque sabia o que ela faria. Gabriela a arrastou para a piscina de uma só vez, impulsionando-se para a área funda e levando Bruna junto.
— Habren! — Bruna emergiu furiosa; não queria molhar os cabelos, mas já era tarde demais.
— Eu te ajudo a lavar... — Ela disse, rindo, voltando pra perto.
— Ajuda com o quê, menina?
— A lavar o cabelo que você está com preguiça — E, por baixo d’água, a câmera pegou os corpos chegando muito perto um do outro.
— Gab... — a voz de Bruna só ia perdendo convicção.
— Eu te ajudo — Gabriela a abraçou por trás, os braços cruzando por cima dos ombros dela e...
Bruna só agarrou aquele braço, como costumava fazer.
— Mwo haseyo? — Perguntou, muito baixinho pra ela.
— Neoege gakkai dagaga — Gabriela respondeu e, do nada, o som estridente da punição assustou as duas, que levaram as mãos à boca imediatamente, com cara de culpadas, e Eduarda caiu no riso.
— O que vocês falaram aí? Não pode falar em outro idioma!
— Onde está escrito isso? — Bruna contestou.
— Na lista de regras que vocês não leram! O que vocês falaram?
— O que você falou, Gabriela? — Bruna saiu dos braços dela, porque seu único gay panic da vida estava perseguindo-a naquela piscina.
— Eu já fui punida mesmo, o povo que vá ao Google Tradutor descobrir o idioma para poder traduzir.
— Sonsa! Falo pra vocês, ela é sonsa e ninguém acredita — Bruna acusou, ainda rindo.
Era. Gabriela se afastou sorrindo e Bruna respirou fundo. Seu coreano era bem meia-boca, mas achava que tinha conseguido perguntar “뭐하세요” e ela havia respondido “너에게 가까이 다가가”.
Ela sempre parecia estar perto. Sempre parecia estar, ao menos, se aproximando. E aquela parte sua que sempre foi, por vontade própria, manipulada por Gabriela, ainda insistia em fazer seu coração bater mais forte sempre que ela se aproximava.
Achava que tudo já havia ficado pra trás. Mas andava descobrindo, dia após dia, que seu coração seguia fazendo o que bem entendia.




Comentários