Acróstico 14
- Riesa Editora

- 19 de nov. de 2023
- 20 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2025

Você Pode Ouvir no Silêncio
Presley dirigiu para a saída, com sua mente enrolada em mil pensamentos ao mesmo tempo, seu corpo inteiro ativo, arrepiado, pulsando. Sabia que estava com manchas vermelhas na pele de tanto sangue correndo e, ao mesmo tempo, acumulando, faltando em determinadas partes e ela só...
Parou na saída, pouco antes da cancela porque, de repente, um carro havia entrado na sua frente, vindo na contramão, já que o portão de entrada era o outro. Tentou recuar, achando que tinha entrado no portão errado, porém, um carro parou bem atrás dela, bloqueando qualquer chance de sair. Luzes altas no seu rosto, e ela desceu do carro.
Não Presley, Alexia.
— Ah, não!
— Presley, eu quero falar com você — Ela disse, parando do outro lado da cancela — Andrey, me deixa entrar! — Alexia falou com o porteiro.
— Senhorita, eu tenho que... — Ele olhou para o carro atrás de Presley; era um pedido de ajuda — Solicitar para a senhorita Park antes.
— Então, solicita! Presley, eu sei que é você no carro da Hanni. Achei que era ela, mas já vi que é você!
O dono do carro de trás fez uma ligação.
— Manu, elas se encontraram no portão.
— Elas quem, Sasha?
— A Alexia e a garota que gosta de público.
— Elas...? Sasha, mantenha uma dentro e a outra fora!
— E como você sugere que eu faça isso? Olha, você é uma péssima vizinha, só me dá trabalho! Oh, ela desceu!
— Quem desceu, pelo amor de Deus...?
— Alexia já tinha descido; agora a outra desceu. Ela é corajosa, né? Espera, eu vou descer. O que eu não faço por você, Manu?!
— Ah! As coisas que eu já fiz por você também! Pede pra ela voltar pra cá.
— A exibida?
— Sim, pede pra ela voltar.
Ele desceu.
— Alexia, eu preciso sair.
— Você já vai sair, Sasha, não me irrita você também! Presley, eu quero conversar com você, pode ser? Dez minutinhos só — E o celular de Alexia começou a tocar; ela olhou e viu quem era — Sasha, você é um belo de um fofoqueiro, sabia?!
— Eu não fiz nada, garota, do que você está falando? Você vai fazer eu perder o meu jogo!
— Fica quieto! — Alexia se virou de costas para atender; era Hanni.
E Sasha se voltou para Presley. Ele era um cara grande, alto, bonitão.
— Oi, você não me conhece, meu nome é Sasha, eu sou vizinho da Manu.
Vizinho. Um vizinho que conhecia Presley, sabia muito bem o que ele havia visto, que situação!
— Eu sou a Presley. Tudo bem? — Tocou a mão dele, oferecendo um sorriso.
— Tudo bem, sim. Escuta, Manu pediu para você voltar para dentro.
— Ah, não, eu vou falar com a Alexia.
— Mesmo? Ela pode ficar meio maluca com uma grande facilidade.
Presley sorriu, bem adorável.
— Eu também posso — Piscou para ele e andou até a cancela — Alexia, eu tenho uns quinze minutos só. Se você quiser conversar, tem que ser agora.
Alexia desligou.
— Tem um mercadinho no final da rua, com uma padaria dentro. Você me segue até lá?
— Sigo.
Elas voltaram cada uma para seu respectivo carro, e o celular de Presley estava tocando. Claro que era Hanni.
— Manu, ela só quer conversar, está tudo bem.
— Você não precisa ir conversar com ela, Presley. Eu não sei o que está acontecendo com a Alexia, sinceramente.
— Não é um problema, está bem? Agora vai para o banho, se troca, para de andar de biquíni pela vizinhança — Disse, sabendo que ela ia rir; só queria que ela se acalmasse.
— Tudo bem.
— Isso, tudo está bem. Pega o meu carro de manhã, tá? Ficar sem carro nesse condomínio enorme é uma dor de cabeça também.
Desligaram, e Presley seguiu Alexia até o mercadinho onde tinha estado mais cedo. Bem, agora estava entrando com outra moça irritada; a atendente lhe deu um olhar engraçado. Foram até a área da padaria, pediram um café cada uma, sentaram-se, e Presley esperou que Alexia começasse a falar. Ela demorou para começar.
— Agora que te trouxe aqui, estou me sentindo ridícula.
— Não precisa disso, só me diz o que você está pensando.
Silêncio.
— Você usa Miss Dior como perfume — Não foi uma pergunta.
— É um perfume que fica fácil, Alexia.
— Deve ficar mesmo. Por que está com o carro dela?
— Porque ela me fez uma gentileza, estou sem carro, é só por isso.
Mais silêncio.
— Presley, que tipo de casamento você tem?
Presley respirou fundo. Sentia-se mal. Ainda estava com tesão pela cena que havia visto. Não parava de se tornar uma pessoa de caráter questionável, algo que nunca imaginou.
— Casamento falido, como a maioria por aí.
— Ah, não foi bem isso que perguntei. Imaginei se teria um casamento aberto. Dei uma olhada no seu Instagram, seu marido é um gato.
Presley olhou, surpresa.
— Obrigada, eu acho. "Sua namorada é uma delícia" - um pensamento intrusivo apenas.
— Vocês formam um casal muito bonito.
— Bem, você e a Hanni também.
— Tirando que nós duas não somos um casal — Disse, com pesar na voz — Eu não sei mais o que fazer, Presley. Queria que ela ficasse comigo, queria que a gente avançasse, mas parece que a cada passo que dou para ela, Manu dá dois para longe de mim. Não quero desistir, mas estou ficando sem jeito de insistir, não sei mesmo o que fazer, só... A gente nem conversa mais. Ontem tentei, mas não sei como fazer isso direito, como conversar sem parecer que estou incomodando. É um absurdo, porque Manu e eu sempre nos comunicamos muito bem, não sei se entende o que estou dizendo.
Outra respiração profunda de Presley.
— Entendo sim. Acho que, de alguma maneira, quando relacionamentos estão chegando ao fim, o silêncio toma conta. Se não me levanto para brigar, Leo e eu conseguimos passar dias sem dizer uma palavra um para o outro, simplesmente porque não sabemos o que dizer, não temos mais o que dizer.
Alexia estava de cabeça baixa, os olhos no menu sobre o balcão, desinteressados. E de repente, começou a cantarolar.
— Don't speak, I know just what you're saying', so please stop explaining', don't tell me 'cause it hurts… — Não fale, eu já sei o que você está dizendo, então, por favor, pare de explicar, não me diga por que machuca — Você conhece essa música?
— Don't speak, I know what you're thinking', I don't need your reasons, don't tell me 'cause it hurts… — Não fale, eu sei o que você está pensando, eu não preciso das suas razões, não me diga por que machuca — No Doubt, eu conheço sim. Acho que é isso, todo silêncio é assustador. Ele não quer que eu fale, porque posso dizer algo que ele não quer ouvir; eu não quero que ele fale pelo mesmo motivo. Vocês e a Hanni estão assim?
— Na verdade, eu nem a deixo falar, porque sei que vai dizer algo que não quero ouvir. Não sei quem machucou a Manu, Presley, quem a fez se trancar dentro do Fort Knox de tão inacessível que está hoje, mas sei que não fui eu.
Fort Knox é o cofre que guarda as reservas de ouro dos Estados Unidos, um dos cofres mais seguros do mundo, e Alexia era a segunda pessoa que falava sobre a inacessibilidade de Hanni, algo que, particularmente, Presley havia visto pouco ainda. Sabia que ela tinha fugido de um assunto mais cedo, mas fora isso, não sentia Hanni tão fora de mão assim.
— Olha, sei que, para ter me trazido aqui, deve estar me vendo como uma ameaça, mas queria deixar claro que...
— Vocês não estão fazendo nada, mas até sem aliança você está, Presley.
Mulheres realmente prestam atenção em tudo.
— Tirei para treinar.
— Não precisa explicar, Manu e eu não temos nada, e pelo tamanho do silêncio, é provável que nossa relação termine antes da sua — Outra longa respiração, um novo silêncio breve — Como você... passou as barreiras dela?
— Eu não sei, ela passou as minhas antes. É como se... ela tivesse corrido no tempo, ido para trás. A Hanni conheceu uma versão de mim que eu mesma já tinha esquecido. E então, ela me apresentou essa versão minha novamente. Ela já fez muito por mim, mas eu fiz muito pouco por ela.
— Presley, você não faz ideia do que está falando.
A conversa terminou assim. Pagaram os cafés, tomaram direções diferentes. Alexia voltou para o condomínio, Presley dirigiu para casa e, novamente, falou com Hanni para tranquilizá-la. Ao chegar em casa, parou na garagem e alterou o contato dela em seu celular para:
Hanni 🍓.
Entrou, sentindo a aliança no bolso, mas não a devolveu ao seu dedo. Não conseguiu. Leo já estava em casa, dando janta para Aika no sofá enquanto um desenho passava na TV e ele acompanhava um jogo de basquete no celular. Mal se falaram. Conversinha comum, Presley se divertiu? Ele contou que chamou Hanni para jantar, ela disse que foi ao salão e depois à praia. Ele não mencionou o cabelo dela; ela não reclamou das louças empilhadas na pia da cozinha. Amanhã. Deixou tudo para amanhã.
Aika na cama, dormiram lado a lado. Em um silêncio gritante.
Hanni esperou Alexia voltar, mas ela não retornou. A única que voltou foi Kaori, já perto da meia-noite.
— Hum, achei que fosse dormir na Aliana — Manu ainda estava no sofá, mexendo no celular.
— Eu nem cheguei no quarto dela, a gente ficou no sofá mesmo — Ela respondeu, sorrindo — Eu não acho que ela durma junto, sabe? Que seja esse tipo.
— E como foi tudo?
— Uma delícia. Mas, muito claramente, eu sou a primeira garota dela, então foi mais especial para ela do que para mim, o que não diminui o quanto ela é incrível e o quanto adorei ficar com ela — Kaori se sentou ao lado de Hanni.
— Tão fácil.
— O quê?
— Vocês se conheceram na praia, se gostaram, saíram juntas, ficaram. Agora você está aqui, ela lá, o mundo das duas deu uma alterada, mas nada que cause caos.
— É porque nós somos... — Olhou para Hanni — SOLTEIRAS. É assim que acontece no mundo dos solteiros. Sasha me falou que a Alexia e a Presley se cruzaram.
— Mas como ele é fofoqueiro, meu! — “Meu” saiu em português, com sotaque paulista e tudo.
— Ele se diverte tendo você como vizinha! Ficou tudo bem?
— Elas saíram para conversar. Presley me disse que foi tudo bem, que ela só queria falar mesmo. Mas a Alexia não voltou aqui, não me atendeu, ignorou minhas mensagens.
— Ela não quer ouvir.
— Ouvir o quê?
— O que nós duas sabemos que você tem a dizer.
— Eu preciso fazer alguma coisa, Tay, por mim mesma. Eu não gosto de me sentir devendo algo a ninguém. Principalmente quando este algo é algum tipo de sentimento.
Isso se chama responsabilidade afetiva.
Afastaram-se naturalmente na segunda-feira.
Presley acordou cedo para lavar a louça, fazer o café e limpar a casa, que estava uma bagunça. Leo a beijou no rosto antes de sair.
— Não recuperou a sua aliança?
— Ah, sim, recuperei, só não coloquei de volta ainda. Leo, nós precisamos conversar.
— Quando eu voltar.
— Não pode passar de hoje.
— Ok.
E mais ou menos no mesmo horário, Hanni estava entrando na embaixada sul-coreana outra vez.
De jeans, moletom Dior, cabelos soltos e óculos escuros, Hanni chegou até a recepção, onde Seven a recebeu com um sorriso.
— Oi, como você está? — Hanni retribuiu o sorriso.
— Tudo bem, e você? Veio ver a Presley? Ela só trabalha à tarde.
— Sim, sim, eu sei. Mas, na verdade, eu vim buscar o carro. Você pode liberar para mim? — Entregou o ticket do estacionamento.
— Claro que sim, só um minutinho.
Ela ligou para o estacionamento, provavelmente, e foi engraçado. Hanni ficou recostada no balcão enquanto a outra pessoa parecia observar suas mãos. O que ela...? Sorriu, colocando uma mecha do cabelo atrás da orelha, revelando três piercings delicados, algo que Presley gostava de tocar, apenas um pensamento.
— Tudo... bem?
— Ah, sim! Só um minutinho, eles trarão o carro aqui pra você. Você não usa aliança.
— Aliança? Não, não, eu não sou casada.
— Hum...
Hanni sorriu.
— Por quê?
— É que a Presley é casada, mas a gente não sabe muita coisa dela aqui. O Instagram estava trancado até uns dias atrás. Ela usa aliança, mas a única pessoa que apareceu aqui atrás dela até então, é você. Daí eu pensei, vai que ela é casada com você, mas acha que precisa esconder.
— Ah, não. Ela não ousaria me esconder se fosse casada comigo. Eu faria escândalos.
— Mesmo?
— Mesmo. Casa e não me assume? Escândalo! — Disse, sorrindo.
— Vocês duas parecem um casal.
— Ouvimos isso demais. E nem faz um mês — Disse, mais para si mesma do que para Seven.
Não fazia um mês.
We never had to force love. We were drowning it the moment that we meet.
Hanni pegou o Volvo e pediu a Deus que não batesse aquele carro. Era bem maior que o seu, parecia uma nave espacial, mas se encheu de confiança e dirigiu para o seu primeiro compromisso do dia. Tinha um ensaio pela manhã para a Billabong, na praia, de biquíni, nenhum biquíni brasileiro. Apenas Hanni, algumas fotos na areia, outras no mar, uns vídeos surfando. Era o tipo de coisa que fazia muito rapidinho, sem grandes dificuldades. Queria falar com Presley, mas não falou. Presley quis falar com ela, mas também não falou e, assim, passaram o dia em um silêncio esquisito, mas compreensível. Presley arrumou a casa, cuidou de Aika, foi trabalhar e, ao sair do trabalho, foi para o jiu-jitsu. Não pensou em não ir, não tinha que ser assim também, e Aika precisava estar acima das suas questões pessoais com Hanni.
E suas questões pessoais com Hanni agora envolviam resolver sua vida com Leo. Presley precisava resolver isso antes de... bem, antes de qualquer outra coisa.
Então, foi treinar. Aika ficou feliz demais ao ver Hanni, correu para ela imediatamente, e o olhar que Hanni e Presley trocaram...
Foi eloquente, mesmo no silêncio. Trocaram um beijo no rosto.
— Que bom que você veio — Hanni sussurrou para ela.
— Você está bem? Está tudo bem?
— Está sim.
Se trocaram, fizeram a aula e Presley notou que o jiu-jitsu havia ajudado a acalmar sua mente. Estava nervosa, mas quando focou na aula, esse nervosismo começou a dissipar. Kaori chegou atrasada e chegou com Aliana, o que surpreendeu Presley. O que havia acontecido? Ah, sim, Presley havia lutado tanto para não falar com Hanni o dia todo que praticamente se isolou do celular. Mas foi bom vê-la ali. Agora, era Presley que estava com medo de falar com Hanni e ouvir o que não queria. Treinou, a aula foi ótima, não rolou com Hanni, mas sim com Kaori naquela noite, com uma das adolescentes e outra aluna faixa branca, adulta como ela. E quando tudo terminou, acabaram se cruzando no vestiário enquanto terminavam de se trocar.
— Posso ficar com o seu carro hoje novamente? — Presley perguntou, fazendo Hanni sorrir com a pergunta.
— Pode, se você confia de deixar o seu carrão comigo.
— Se você bater, você paga, eu conheço as suas posses. Como está o seu dia amanhã?
— Amanhã? — Ela respirou fundo, tentando lembrar — Tenho um ensaio à tarde e treino à noite, nada de mais.
— Quer ter o seu dia com a Aika? Eu vou ter que trabalhar de manhã, mas é só se você estiver livre mesmo.
Hanni abriu um sorriso enorme.
— Eu fico com ela!
— Não vai te incomodar, de verdade?
— Não vai me incomodar em nada, eu vou adorar! Eu pego a criança com você ou você a leva pra mim...?
— Deixo a criança com você antes de ir para o trabalho.
— Ótimo, vou ficar esperando! Presley?
— Oi...
— Se a gente se casar, você tem que me assumir.
E Presley começou a rir.
— Mas de onde veio isso?
Hanni cruzou os braços, meio chateada.
— Seven achou que a gente era casada e você não me assumia.
— Pelo amor de Deus!
— Promete.
— Prometer o quê?
— Que você nunca vai me esconder.
Presley chegou bem pertinho dela, Hanni estava uma graça irritada.
— Você já ouviu falar de alguém no mundo que compra um Rolex Perpetual e esconde?
Hanni sorriu, as bochechas ficaram levemente vermelhas, como dois morangos. Era o motivo do emoji. Presley beijou o rosto dela.
— Te vejo cedinho, tá?
Elas desceram separadas. Presley foi para a cafeteria com Aliana e Kaori, e Hanni desceu em seguida. Falou rapidinho com elas e seguiu com Pipe no colo. Alexia a esperava no estacionamento. Elas partiram juntas.
— Vocês ainda não trocaram os carros?
— Ainda não.
— Por quê?
Não queria se sentir longe dela, mesmo precisando estar.
Presley foi para casa, fez o jantar, cuidou de Aika e esperou Leo chegar. Porém, ele chegou quase meia-noite e não tinham como conversar naquele horário. A conversa ficou para o dia seguinte, que começou corrido, ambos atrasados, mas conseguiram sair no horário. Presley carregava uma bolsa para Aika, a mochila dela e as coisas da escola. Teve que voltar para dentro, porque havia esquecido a Senhorita Bulbassauro. Chegou no horário, passou reto pela portaria, recebendo um bom dia do porteiro. O que ele deveria pensar? Talvez mais uma das garotas de Hanni, devia ser isso que ele imaginava. Cruzou com Sasha correndo nas ruas do condomínio e falou com ele, apresentando Aika, ainda dormindo em sua cadeirinha. E o que ele deveria pensar também? Com Sasha, era melhor nem conjecturar.
Dirigiu para a casa de Hanni, será que Alexia estaria em casa? Não estava; o único carro na garagem era o seu. Parou, pegou as mochilas e foi buscar sua menina na cadeirinha, que ainda estava dormindo. Hanni viu a cena logo cedo: Presley vestida toda de preto, blusa e calça, mocassim feminino nos pés, terninho creme por cima, cabelos soltos, óculos escuros, carregando as bolsas e o bebê no colo.
Foi até ela de shortinho e moletom, pegou Aika no colo e deixou um beijo no rosto de Presley.
— Você está linda.
Presley sorriu. Sentia uma vontade imensa de beijá-la, a ponto de doer.
— Você que já acorda linda assim, eu não entendo. Escuta, eu compartilhei uma nota com você, com os horários da escola, o nome da professora, a turma dela, e deixei seu nome na escola. Você pode ir buscá-la sem ninguém precisar me ligar. Qualquer coisa que você precise, me liga, está bem?
— Pode deixar. Eu vou cuidar muito bem dela, você vai ver.
Presley sabia que ela iria.
— Aqui, a bolsa com as coisas dela, a mochila e a Senhorita Bubu. Hanni?
— Oi...
Presley olhava para ela. A pegou pela nuca e beijou o pescoço dela.
— Morning, babe — E foi para o carro, sem dar tempo de Hanni verbalizar nada.
Não que ela conseguiria. Se arrepiou inteira, o coração a ponto de escapar do peito.
A manhã passou rápida e o nível de confiança de Presley em Hanni era tão alto que não sentiu necessidade de ligar para ela em momento algum, confiando plenamente que sua filha estava sendo bem cuidada. No entanto, quando parou para almoçar, abriu os stories de Hanni e se derreteu sorrindo. Elas haviam saído juntas: foram tomar café fora e visitaram uma loja de surfe. O próximo story mostrava sua Aika na praia, vestindo um long john! Estava toda paramentada como uma surfista, com roupa preta, semelhante ao traje que Hanni havia fotografado outro dia. Presley ligou para ela.
— Hanni, isso deve ter sido caríssimo!
— Não para uma embaixadora, eles amaram ver uma mini me vestida como eu — Ela contou e Presley podia sentir o sorriso — Surfamos, ela foi muito melhor que você!
— Como assim surfaram?!
— Não deu para filmar, estávamos só nós duas, mas ela surfou comigo na prancha, você tinha que ver, Pres.
Sorrisos. Precisava ver.
— O que você está fazendo agora?
— O almoço está pronto, já dei banho nela. Ela está vendo desenho na sala. Vamos comer Bife à Parmegiana — Disse em português.
— Não faço ideia do que seja. Mostra pra mim depois de pronto.
Ela mostrou; parecia delicioso, e Aika estava radiante com Hanni. Literalmente, dava para sentir a felicidade dela, o sorriso genuíno de um bebê todo apegado, com tanta luz escapando dos olhos. Aika havia acordado com Hanni, ficado confusa por um momento, mas logo ficou feliz por estar com ela. Hanni pediu para ver o vídeo das lontrinhas; ela mostrou em seu tablet. Realmente, as lontrinhas dormem segurando as mãos umas das outras para não se afastarem na água. Então cuidou dela, foram para a praia, surfaram juntas e Aika adorou estar na água, amou estar numa prancha, e Hanni simplesmente amou poder estar com ela. Sua criança lhe contou algo na areia, então se esforçou para entender. Ela começou a sinalizar as palavras e, quando Hanni não conseguiu entender tudo, foi soletrando para ela.
— Você via... Você viu — Falava com ela em coreano, tentando juntar as letras das palavras que Aika soletrava, sinalizando em inglês — Você viu a prancha, essa prancha — Mais sinais, mais letras — Você viu essa prancha no meu carro, no hospital — Ela ficou muito animada; Hanni estava entendendo! — Você sabia que era para usar... no mar — Então, Hanni sinalizou — Você gostou de surfar?
“Eu gostei.”
"Você gosta de estar comigo?" Sinalizou para ela.
Ela não sinalizou; apenas sorriu e abraçou Hanni muito, muito forte.
Hanni a levou para a escola e foi buscá-la também, levando-a para Presley antes de ir para o seu treino. Se encontraram na recepção da embaixada e sentiram os olhos de Seven nelas duas o tempo inteiro. Hanni saía de outro ensaio fotográfico, ainda maquiada, os cabelos presos, usando salto. Presley adorava vê-la de saltos. Não trocaram muitas palavras, se separaram logo em seguida. Mais uma noite e Presley tentou conversar, mas Leo escapou, disse que não estava se sentindo bem. Era hora de contar a verdade, contar que havia traído, que não tinham mais como dar certo.
Mal dormiu aquela noite e levantou exausta, cansada, sufocada. Um vazio imenso, um silêncio do tamanho do vazio, nem o fim parecia poder ser verbalizado. Mais tarde, a situação piorou quando Hanni mandou uma mensagem. Não era para Presley; elas haviam passado o dia em silêncio novamente. A mensagem foi para o grupo da turma de jiu-jitsu, informando que não teriam aula naquela noite, ela não poderia comparecer. Presley enviou uma mensagem privada, perguntando se tudo estava bem.
Hanni disse que não estava bem. E não disse mais nada.
Quinta-feira tenebrosa, fria e chuvosa. O silêncio começava a gerar partículas de gritos. Presley passou o dia inteiro sufocada, irritada, de péssimo humor. Não trocou palavras com Hanni; ela também não escreveu. Kaori e Aliana estavam desaparecidas juntas, e Presley não tinha com quem falar. Silêncio amargo, do tipo que dói. Esperou Leo voltar para casa no horário, mas ele novamente não chegou cedo, e eles começaram a brigar ainda pelo celular. Quando ele finalmente chegou, Presley estava tão estressada, tão irritada, que teve uma crise de choro longa, onde nem ela, nem ele sabiam o motivo. Só sentia que precisava chorar; não falar com Hanni a sufocava, a apertava, machucava. E se estivesse se afastando? Se não soubesse como lidar e estivesse se distanciando aos poucos? Então, chorou de culpa, porque deveria estar focada em Leo, no que precisavam fazer, mas não conseguia. Simplesmente não conseguia.
Dormiu no colo dele, exausta de tanto chorar.
Acordou no dia seguinte com vídeos de Hanni em um palco.
Era um palco pequeno, em alguma casa de shows, usando tênis, calça jeans rasgada, uma camiseta de alguma banda de rock e vestindo uma jaqueta de Presley. Estava em um bar brasileiro, repleto de brasileiros, cantando em português o tempo todo. Seus cabelos soltos, um sorriso constante no rosto, mas algo parecia fora do lugar. Hanni não aparentava felicidade genuína; algo estava acontecendo, ou talvez Presley apenas desejasse que ela não estivesse tão bem.
Presley ficou doente de verdade, com febre e dor de cabeça tão intensas que não conseguiu preparar o almoço. Tentou ligar para Leo, mas ele não pôde ajudar, e Aliana também não estava disponível. Por impulso, quis ligar para Hanni, mas se conteve, consciente de que não devia. Ligou para Kaori, que veio imediatamente.
Sem fazer perguntas, simplesmente veio. Cuidou de Presley, que realmente estava com febre, chorando sem motivo aparente (ou com todos os motivos possíveis), providenciou o almoço para elas e cuidou de Aika.
— Kaori, você não precisa.
— Não liga para isso. Eu levo a Aika na escola, você precisa descansar, Presley. Já avisou que está indisposta no trabalho?
— Eu não estou doente, só estou... triste, eu acho.
— Já falou com a Hanni?
Presley negou.
— Pres, fala com ela.
— Não, eu não quero ouvir.
— O que você não quer ouvir? Vocês não estão se falando, desde terça praticamente, eu não entendi até agora. Ela não fala, você não fala.
Presley parou de falar completamente.
Kaori levou Aika para a escola enquanto Presley entrou em contato com sua chefe e acabou dormindo a tarde toda. Só acordou para buscar Aika. Embora tenha ido buscá-la, não voltou direto para casa; fez uma parada na praia antes. Durante o trajeto, sua filha não parava de falar sobre Hanni, mencionando o dia na praia repetidamente e o quão bom havia sido.
“Quando vejo a Hanni de novo?”
Presley não tinha a resposta para aquela pergunta.
Ao retornar para casa, trouxe uma pizza para o jantar, embora não tenha comido; não tinha fome, seu estômago estava estranho. Cuidou de Aika, que estava cansada, jantou e acabou dormindo rapidamente, algo surpreendente. Leo chegou mais cedo do que o habitual, mas estava irritado com alguma coisa, e essa irritação foi se estendendo para outras situações.
Presley estava deitada no sofá, a casa revirada, a pia cheia de louças, brinquedos espalhados por todos os lados. Não havia jantar, apenas a pizza. Leo começou a reclamar de tudo isso, de cada detalhe. A cabeça de Presley a ponto de explodir de tão cheia. Foi deixando seu marido falar, esbravejar, reclamar que ela não era mais a mesma, que ele havia tido um dia longo e, ao chegar, encontrou a casa naquele estado, que estava com fome e não queria pizza. Presley colocou a TV no mudo e o ouviu desabafar, ouviu e ouviu, fechou os olhos. Ela estava vestindo uma minissaia e um top esportivo mais longo, coberto por um casaco que havia usado para buscar Aika. Mas, dentro de casa agora, sentia frio, pensava que poderia estar com febre novamente. Seu estômago estava revirado o dia todo, mal conseguia comer.
— Isso não está funcionando, Presley, não dá para continuar assim. A gente tinha uma vida boa antes de tudo isso!
— Antes de...?
— Antes de você começar a trabalhar!
— Eu nem fui trabalhar hoje.
— Como...?
— Estou doente, não fui trabalhar, eu te disse quando te liguei.
— Disse que não estava se sentindo bem, mas...
— Eu disse que estava doente, com febre, sentindo dor de estômago. Leo, acabou — Disse, mantendo a voz calma, baixa, com a cabeça entre as mãos.
— O que... o que acabou?
— Você e eu. Esse casamento. Acabou.
— Presley, eu não vou aceitar isso!
— Você precisa. Levei um tempo para aceitar também, mas a realidade é uma só. Estamos acabados aqui. Já faz anos. Estou cansada. Tudo acabou. A atração física, a admiração e o respeito também estão acabando. Eu não quero que isso aconteça, mas se a gente continuar assim, se odiando, vai acabar também.
— Presley, não se termina um casamento assim!
— Não há outra maneira de se terminar um casamento, na verdade. Eu não quero que a Aika cresça vendo a gente brigar, se odiar.
— Eu não te odeio, por favor!
— Você SÓ me odeia. Odeia quem sou, o que faço, as soluções que encontro. Nem atração física você tem mais por mim.
— Claro que tenho! De onde você tirou isso? Você é linda, Presley, é a garota mais linda que já vi na vida!
— Se sou tão bonita assim, me diz, por quê? Por que a desatenção, por que a displicência? Você se casou com uma garota bonita que passou a se sentir feia depois do casamento. A beleza sempre importou pra mim, não apenas a física, a beleza de cada coisa, e esse casamento ficou feio. Ficou triste, vazio.
— Pres, espera, calma, eu posso consertar tudo isso, eu sei que posso.
— Você não pode. E eu também não posso mais — Ela se levantou, pegou o casaco e as chaves do carro — Leo, eu fui infiel com você.
— Você...? — Ele se sentou, o sangue sumindo do rosto.
— Sinto muito, mas isso aconteceu.
— Você me disse que não tinha outro cara!
— E eu não tenho, não há outro cara. Foi apenas uma vez, foram só alguns beijos, mas... Aconteceu. E isso selou o buraco onde nós dois já estávamos. Precisamos nos separar. Pensa nisso hoje à noite, se você vai sair de casa, ou se quer que eu saia.
Ele baixou a cabeça, absolutamente em negação.
— E para onde você iria, por acaso?
— Eu não sei, ir para a casa dos meus pais até conseguir um lugar para mim e para a Aika.
— Com o salário que você ganha?
— É o que tenho agora. Sinto muito, muito mesmo — Disse, lacrimejando — Eu nunca quis nada disso, eu não imaginei que pudéssemos terminar assim.
— Onde você vai? — Ele perguntou, de cabeça baixa, parecia... estar processando as coisas ainda.
— Vou ficar com a Aliana hoje. Volto amanhã cedo. Acho que precisamos desse espaço — Caminhou para a porta e, ao colocar a mão na maçaneta:
— É ela? — Ele perguntou.
— Quem?
— Aliana.
— Leo, por favor!
— Você sempre foi grudada nela, eu sei do que aconteceu antes!
— Como...?
— Eu estava naquela festa, eu vi vocês duas.
Pronto, todo mundo sabia o que havia acontecido, menos Presley. Nunca mais iria beber na sua vida.
— Não tem nada a ver com a Aliana, ok? Eu jamais faria isso com você.
— Você me traiu de qualquer forma.
— E eu sinto muito por isso, nunca foi a minha intenção, eu juro pela nossa filha.
Silêncio. O último silêncio de todos.
— Saia daqui.
Ela não contestou. Apenas saiu.


Vixi
"E a gente chora em segredo
Mais por prazer que pela dor
E a gente grita porque às vezes
O silêncio é mais ensurdecedor"
Lembrei dessa música, porque aqui esse silêncio foi ensurdecedor.
Intenso demais! Difícil terminar e parece que tá difícil iniciar tbm... emocionante e angustiante... coração apertado pela Presley...
Eu vou surtar até o próximo capítulo, sério? Como que me acaba assim?
E olha, até que gostei um pouquinhoooo bem pequeno da Alexia nesse capítulo
Meu Deus do céu, QUE CAPÍTULO! Talvez tenha sido o mais movimentado de todos os catorze lançados até agora, tanto é que essa minha análise deve sofrer algumas (muitas) edições de tanta coisa que tenho pra comentar… Vamos lá:
- Pressni: um passo pra frente, dois passos pra trás. Se em outro capítulo, eu tive essa sensação, agora eu tenho certeza! Caramba, Hanni, você vai, fica com sua filha, depois cria todo esse clima de que as coisas estão avançando com a Pres, diz a ela que se casar tem que assumir… e depois some do mapa de novo?!? Sério, isso tem a ver com o passado dela? Coitada da Pres, não foi à toa que ela acabou doente, se…