Acróstico 24
- Riesa Editora

- 8 de jan. de 2024
- 21 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2025

Eu Queria Que Você Estivesse Aqui
Aliana deixou Aika consolando a mãe de algo que ela não compreendia e entrou para o banho, em outro banheiro, porque Presley estava sofrendo, mas não estava apagada a ponto de não lembrar do que havia prometido para Hanni e isso dizia muitas coisas para Lia. Sua amiga estava novamente em uma encrenca muito grande, a gravidez de Aika não tinha sido planejada e as coisas altamente se assemelhavam agora. Novamente, um possível bebê num momento em que Presley estava pensando nela mesma, trabalhando nela, buscando algo que tanto queria. Ela ficou fazendo testes, os três que Aliana havia comprado. Podia ser outra coisa? Será que desta vez podia mesmo ser a gastrite nervosa atacando? Desejou que pudesse ser isso. Mas enjoar Aliana era um ponto muito específico para ser negado.
Tinha sido assim da outra vez. Geralmente, mulheres grávidas enjoam o cheiro dos parceiros, mas Presley era original a ponto de enjoar a cunhada. Não bastava para Aliana ter que encarar que ela ficaria com Leo mais tempo, houve esse requinte extra de humilhação. Tomou um banho completo, lavou até os cabelos, trocou de roupa e vestiu algo de Presley, com o cheiro dela, e a encontrou na cozinha. Aika estava brincando sozinha na sala, e Presley estava...
Ela também havia tomado banho, estava com os cabelos lavados, ainda molhados, vestindo short e um moletom branco, Aliana só sabia que era de Hanni. Chegou perto dela e fechou os olhos.
Recebeu uma borrifada de Coco Mademoiselle quase na cara.
— Presley Park!
— Eu sei que este aqui, não estou enjoando. Fiz chá, pega para você também.
Aliana pegou um pouco de chá e encheu a xícara de Presley mais uma vez.
— Além de ter esquecido a nossa noite, você me enjoa, duas vezes e para completar, não está enjoando a sua atual, é isso mesmo?
Presley a olhou com olhos culpados. Era isso mesmo.
— Ok — Lia se sentou do outro lado da mesa — Não sou mais apaixonada por você, então desta vez, vai doer menos.
— Lia, da outra vez...?
— Eu estava apaixonada, doeu um pouquinho, sim, mas não importa mais agora — Tocou a mão dela sobre a mesa, abrindo um sorriso tranquilo — Pres, você fez o teste?
Ela lagrimou. Afirmou.
— Os três?
— Os três. E os três disseram a mesma coisa — Outra lágrima pingou na mesa — Lia, eu... Meu Deus!
— Achei que você e o Leo nem...
— E achou certo, até essa noite acontecer. Fazia uns três meses que a gente não tinha nada — Ela respirou fundo, tentando se acalmar um pouco, seu coração batendo todo errado no peito — Mas teve essa noite. Nem sei muito bem o que aconteceu. Depois que Hanni e eu ficamos, eu fiquei alucinada de tesão 24 horas, então a gente se afastou. Teve aquela semana estranha e sei lá, eu dormi uma noite pensando nela, sonhei com ela, um sonho quente. Acordei quando o Leo chegou e lembro que me senti péssima no dia seguinte, porque não estava com ele ali. Só queria aliviar aquela febre que estava sentindo por causa dela. Foi nessa noite, Lia. Eu não tomo anticoncepcional e às vezes que acontecia, a gente sempre usou camisinha. Eu não lembro de ter usado essa noite, foi... essa única noite — Disse, com seu coração doendo demais, estava doendo mesmo, fisicamente doendo.
— Ah, Presley... — Aliana apertou a mão dela. Dava para sentir a dor pela qual sua amiga estava passando; estava nos olhos dela, no corpo dela.
— Eu senti que tinha alguma coisa acontecendo, claro que senti. Mas entrei em negação. Não podia ser isso, tinha que ser outra coisa. O que eu vou fazer, Lia, me diz? Nem sei se vou conseguir cuidar dessa casa, se vou conseguir cuidar da Aika sozinha e agora...
— Ei, ei, você não está sozinha. Você me tem e tem a Manu, Presley. Ela está com você, do seu lado.
— Você acha, Lia? Acha que ela vai seguir do meu lado agora? — As lágrimas despencaram de novo — Eu nem consegui me separar ainda!
— Mas vai separar, e vocês podem continuar dizendo por aí que não namoram, que são apenas amigas, mas todo mundo que minimamente conhece vocês, sabe que não é nada assim. Nós duas sabemos que vocês estão juntas, se cuidando mutuamente, cuidando da Aika. Você acha, Presley, que a Hanni vai só abandonar a Aika?
— A Aika não, ela vai me abandonar — Não parava de chorar — É um bebê, Lia! Um bebê que não é dela.
— Por probabilidade, deve estar uns duzentos para ela contra um do Leo, e você nem teria feito nada se não tivesse possuída de tesão por ela. A Hanni tem que levar esses dados em consideração, não pode ser assim, não — Disse, fazendo Presley rir um pouco — Pres, eu sei que você não queria agora, que era a última coisa na qual estava pensando, porém, você sempre quis um segundo filho.
— Sempre, mas não agora, não do Leo. Eu queria... — Ela tomou outro gole grande de chá, respirando muito fundo — Vejo a Hanni com a Aika, sabe? Sei que ela ama crianças, que tem instinto materno. O irmão dela me disse esses dias que sabe que ela nasceu para ser mãe, e se fosse dela... Claro que eu ia querer um segundo filho. Se ela me pedisse, estaria pronta para ter outro bebê, um que parecesse com a gente. Tenho fantasiado dias com isso. Mas não é o caso, não é o que aconteceu. Disse para ela que estava com medo, porque nunca consigo ter o que quero e não tem NADA que eu queira mais do que estar com a Hanni agora. Estou tão apaixonada por ela que dói. E agora...
— Presley, ei, calma, está bem? Não é o fim do mundo, a Hanni é louca por você. Você não está sentindo nada sozinha.
— Lia, estou grávida! Não é dela, é do cara de quem estou me separando.
— Você... vai prosseguir mesmo, certo?
— Me separar? Claro que sim, não posso voltar atrás nisso, já andei muito para desistir das coisas agora.
— Então, as coisas não mudam completamente.
— Lia, vou estar IMENSA em alguns meses, a Hanni vai perder o interesse em mim.
Aliana começou a rir, mesmo sabendo que não deveria.
— Ela vai? Você ficou a grávida mais sexy que eu já vi, ela não vai perder interesse em você por causa disso. A questão não é essa.
Não era mesmo. A questão era o que Presley deveria fazer com essa nova variável agora. Teve outra crise de choro, muito longa, muito desesperada, a ponto de Aika parar de brincar e vir para o colo, tentando entender o que estava acontecendo.
"Hanni, onde?" Sinalizou para Aliana.
— Hanni? Voando, bebê, ela está viajando — Aliana sinalizou para ela. Ela estava preocupada mesmo e já sabia que Hanni acalmava Presley.
“Fica você, então.”
— Como assim “fica eu, então”, Aika Park? Já me trocou assim, garota? — Aliana perguntou injuriada. Presley acabou rindo, mesmo no meio da crise de choro.
— Lia, você quer parar?
— Essa face cardizinha me substituiu, você não viu? Ela queria a Hanni aqui! — Olhou para Presley, ela deu aquele tipo de olhar — Vadia, você também queria. O que estou fazendo aqui, sabe? Eu fui substituída muito rapidamente.
— Para, vem aqui, me abraça, me acalma.
Foi e a abraçou, envolvendo as duas. Colocou Aika em cima da mesa e disse que estava tudo bem, que passaria a noite com elas. "Mamãe está bem, só está cansada.", explicou e Aika a olhou como quem não acredita muito, mas se manteve comportada. Aliana pediu que ela voltasse a brincar, pois cuidaria de tudo; estava tudo bem. Ela foi, e Presley tentou se acalmar um pouquinho.
E Aliana riu de repente.
— O que foi?
— Lembrando de como você explodiu em cima de mim naquela noite! Sei que te irritei, e que eu estava irritada por ter sido tirada de cima da Kaori por uma briga que não era minha, mas você ficou louca comigo, Pres, fez a cena de pular do carro em movimento e tudo — Falou, e Presley riu ao lembrar também.
— Eu já estava te enjoando.
— Já! E lembrando aqui que a Hanni ameaçou pular da sacada do quarto se você não esperasse por ela aquela primeira noite. Graças a Deus, um casal tranquilo, onde nenhuma das duas é maluca.
— E acho que ela pularia mesmo, nem sei se ela não pulou aquele negócio antes, parecia bem confiante no que estava dizendo — Presley respirou muito fundo, a centésima respiração profunda só naquelas horas — Como... como vou dar conta de tudo, Lia?
— Você acha mesmo que a Hanni...?
— Eu não posso exigir isso dela. Ela é solteira, tem a vida dela, que é muito tranquila, muito livre, eu... não posso pedir muito. Ela vai continuar por perto, não consegue ficar longe da Aika, o elo que existe entre as duas, não sei explicar, só sei que existe, que é real, que não vai se desfazer, porém, mais do que isso... — Os olhos puxados se encheram de novo — Ela não vai me querer.
— Nem você acredita nisso, Presley.
— Por que ela ficaria comigo, me diz? Nem tenho nada para oferecer agora, Lia. Já não sabia como seriam as coisas, agora, sei menos ainda. Então, o que posso oferecer para ela? Que tipo de relação? Peço para ela ficar e digo o quê? Eu terei um segundo filho, não sei como vou cuidar dessa segunda criança, como vou conseguir juntar algum dinheiro até ter que parar de trabalhar. Já fiz as contas, sem o Leo aqui, minha vida financeira vai realmente apertar. Como posso tomar conta de mim mesma desse jeito? A Hanni foi para Paris assinar com a YSL, eu tenho o quê? Um contrato de 28 horas semanais que me manteriam bem até, mas antes dessa variável atual. Não posso... parar a vida dela na minha. Eu não tenho um futuro nesse momento.
— Não, você só tem o presente. E é só o presente que você pode oferecer a ela. Presley, eu sei que você tem muita coisa para pensar, que a sua cabeça está bagunçada inteira, mas uma coisa que você precisa entender é que, quem vai decidir no final das contas, é a Hanni. Você não vai conseguir decidir por vocês duas, ou saber o que vai acontecer, então, não sofra antes. Você está grávida, temos que cuidar de você agora. Quanto tempo é daqui até Paris?
— Quase 27 horas — Respirou fundo, tentando se manter, sua cabeça não parava de doer — Daqui a... — Checou o relógio — Dez horas, ela tem uma conexão em Doha, depois, mais sete horas até Paris.
— E ela volta quando?
— Em dez dias.
— Vai deixar para conversar com ela pessoalmente?
— Sim, não existe possibilidade de atrapalhar um momento tão importante. Ela foi para Paris, para a sede da YSL, é um contrato global, algo grande.
— A Kaori disse que é a coroa que faltava para a carreira dela.
— É isso, é desse tamanho mesmo. Ela está muito feliz, não vou atrapalhar isso de jeito nenhum. Vou esperar que ela volte. E até lá... espero já ter conseguido organizar a minha cabeça.
Esperava de coração que as coisas fossem assim.
Aliana ficou e preparou o jantar naquela noite, bom, se é que se podia chamar de jantar, ela fez macarrão com queijo. Era sabido que Aliana daria uma péssima esposa, ainda mais agora que tinha uma namorada que não sabia que ocupava o cargo. Ela não desgrudava de Kaori, e Presley não sabia que elas estavam assim, conversando o tempo todo, mas estava feliz de ver sua amiga tão empolgada, com uma pele linda e os olhos brilhando.
— Lia?
— Hum? — Ela respondeu, sem tirar os olhos do celular.
— Kaori continua passando fome?
— Estamos conversando sobre isso, quero fazer mais, sabe.
Aliana cuidou de Aika, a colocou para dormir e colocou Presley para dormir também.
— Tenta descansar, vamos.
De alguma forma, dormiu. E acordou segundos antes do seu celular dar sinal, mensagem de Hanni.
“Babe, está dormindo? Acho que já é meia-noite aí, não é? Meus relógios estão confusos, não liguei para não te acordar caso esteja dormindo.”
Presley ligou para ela.
— Hanni, eu sou grudenta — Disse, a fazendo rir do outro lado.
— Eu sei, honi, e amo que você seja grudenta assim, eu sou com você.
— Queria tanto que você estivesse aqui e só faz dezessete horas que você saiu de perto de mim, é um absurdo.
— Se você não tivesse trabalho presencial, teria te trazido comigo, sabia? Você e a Aika, vim pensando nisso o voo inteiro. Quando você terá férias?
Presley lagrimou. Tentou não deixar transparecer na voz. Sorriu.
— Ah, Hanni, vai demorar.
— Mas quando tiver, nós vamos viajar. Para a Europa, para o Brasil, ou outro lugar que você queira ir.
Transpareceu na voz.
— Ei, o que foi? Você está chorando? Eu disse alguma coisa que não deveria?
— Claro que não, honi, eu só... estou sentindo a sua falta mesmo, é um absurdo.
— Me deixa te ver.
— Não, Hanni.
— Me deixa, vai.
Deixou, mas manteve a luz apagada, de modo que Hanni não pudesse vê-la em detalhes. E ela estava linda, brilhando na luz, sorriso aberto, nem parecia que tinha passado dezessete horas voando.
— Então, vai ficar sozinha amanhã?
— Vou, Leo vai ficar o dia todo com a Aika, quer mostrar o apartamento para ela.
— Por que você não fica lá em casa? É pertinho da praia, você pode dar uma volta se quiser, tem as quadras no condomínio, a piscina.
— Mas não tem você.
Own! Doce. Doce de doer, e Hanni não conseguia parar de comer.
Desligaram. E Presley dormiu novamente, acordou meio que no automático. Hanni pousaria em uma hora e ela se deu conta de como sempre estava mentalmente contando o tempo quando estavam separadas. Por Deus, como seria tudo? O que iria fazer? Nem sabia como seria capaz de ficar sem Hanni naquele momento. Arrumou uma mochila para Aika, que havia acordado boazinha, perguntando se Presley estava bem. Sua menina foi para o banho sozinha, tomou café da manhã muito comportada e quis terminar de arrumar sua mochila. Trouxe a Senhorita Bulbassauro, a camiseta da seleção neozelandesa, seus óculos da Oakley e o agasalho do Pikachu.
“O quimono, na outra casa, está.” Ela sinalizou, como quem esquece algo importante.
— Na outra casa? — Presley sinalizou de volta.
“Hanni, a outra casa.”
Claro, claro, a outra casa que ela já considerava sua.
— Eu vou buscar depois. Filha, a aula de amanhã...
"Kaori, mestre."
Presley sorriu. Como ela sabia de tudo?
— Isso, com a Kaori de mestre. Você vai querer ir?
"Sim, sim!" Nem sabia por que ainda perguntava.
Leo apareceu surpreendentemente no horário combinado. Óbvio, Presley precisaria conversar com ele, mas não agora, não antes de darem entrada nos papéis do divórcio. Não tinha como sustentar duas crianças sozinhas; ele teria que cuidar disso com ela, mas uma coisa de cada vez. Primeiro divórcio, depois pensariam nas crianças. Nas crianças. Seriam duas agora. Leo foi embora, e Presley teve outra crise de choro antes de Aliana sair para o trabalho.
— Pres, Pres, olha aqui pra mim: sua modelo está ligando, se acalma para você falar com ela.
Ela se acalmou e retornou a ligação, mas por voz; não queria que Hanni a visse com cara de choro logo cedo, ela acabaria desconfiando de algo. Tinha chegado bem, já estava a caminho do hotel. Eram dez da manhã em Auckland e meia-noite em Paris; iria jantar no hotel mesmo e dormir, ainda tinha uma reunião com sua agente europeia logo pela manhã. A diferença de fuso horário entre elas era um desafio. Quando Aliana saiu para o trabalho e Hanni foi dormir, Presley se sentiu imensamente sozinha naquela casa. Era engraçado, não conhecia ninguém na vizinhança; era um bairro de pessoas mais velhas e mais fechadas, que pouco tinham a ver com eles dois. Presley sempre lembraria da sensação de ter amado a casa, mas sentiu que se enfiariam numa bolha, que ficariam isolados naquele lugar. E de fato, foi o que aconteceu.
Pegou sua bolsa e dirigiu para Takapuna. Com óculos escuros e vestindo roupas de Hanni, estava toda de Hugo Boss. Dirigiu sem pressa, passando pelos lugares lentamente, ouvindo uma playlist e tentando limpar a mente. Decidiu atravessar a ponte. O dia estava lindo, ensolarado, com um céu azul sem nuvens, o que indicava um dia mais frio, pois o inverno estava atingindo seu auge. Aika era uma criança do inverno; havia nascido durante uma noite extremamente fria. Presley sempre lembraria daquela sensação: a mistura de dor e frio, um medo intenso. Não há nada tão assustador quanto ter um bebê, especialmente pela primeira vez. Esse bebê que estava a caminho provavelmente nasceria em março, no final do verão ou no começo do outono. Onde estaria quando ele nascesse? Na sua vida, onde estaria? E quem estaria com ela, esperando? Afastou esses pensamentos e entrou numa clínica laboratorial que sabia aceitar seu plano de saúde.
Queria fazer um teste de gravidez. Tirou sangue e realizou o teste, que ficaria pronto em 24 horas, sendo possível verificar pelo celular. Ótimo! Ao sair dali, foi até a praia próxima da casa de Hanni, onde haviam acampado para surfar naquela semana. Estava ventando frio, então ficou pouco, mas sentou-se na areia por um tempo, observando o movimento e refletindo. Pegou o celular, deu uma olhada nos últimos Stories de Hanni, não havia visto nenhum ainda, e sorriu para todos eles. Hanni parecia feliz, animada, mostrando algumas coisas e, por fim, o último Story era um vídeo, provavelmente gravado de dentro do carro, mostrando as luzes da Champs-Élysées. E em coreano:
“네가 여기 나와 함께 있었으면 좋겠어, babe.”
"Eu queria que você estivesse aqui, babe." Como poderia não estar apaixonada por aquela mulher? Não havia marcação no Story, não era necessário; só havia uma coreana que pertencia a Hanni, só existia uma com quem ela queria estar, e não duvidava disso. Não podia perdê-la, pelo amor de Deus! Como resolveria isso? Não chorou. Não podia continuar chorando do jeito que estava. Chorar não resolveria nada; precisava se manter calma para ponderar as coisas direito. Foi para casa. A casa de Hanni, que de alguma maneira, já parecia tão sua. Parou na entrada, levantou os óculos e sorriu para o porteiro.
Entrou, trocou algumas palavras com uma vizinha no meio do caminho; era aquela que morava do outro lado da rua e tinha um menino com quem Aika estava tentando fazer amizade. Então dirigiu mais e quando estacionou, Sasha estava chegando com Blackstenius.
— Você voltou! Cadê a face cardizinha? — O apelido havia pegado, não tinha jeito.
— Está com o pai hoje.
— E a namorada está em Paris.
Sorriu ao ouvir. Não negou, não afirmou, conversaram um pouco mais e, finalmente, Presley entrou. Nossa, parecia casa pra caramba! Tudo parecia casa, o cheiro no ar, uma mistura de Miss Dior e Coco Mademoiselle, o jeito que a cozinha estava arrumada. E quando se deitou na cama... O cheirinho de sua mulher veio como um abraço. Presley se abraçou ao travesseiro dela.
— O que vai acontecer com a gente agora?
Queria ter aquela resposta. Pensou em ligar para Kaori, mas preferiu ficar sozinha por um tempo. A outra casa estava uma bagunça, e ela não estava com disposição para lidar com isso. A casa em Takapuna estava arrumada, mas havia algumas roupas para lavar? Sim, e por sorte havia. Presley se acalmava lavando roupas; era estranho, mas era assim que se sentia melhor. E Hanni realmente tinha roupas demais. Bastava olhar com um pouco mais de atenção para sempre encontrar algo: quimonos no carro, casacos pendurados, roupas de praia. Parou ao olhar para o estúdio, que agora parecia um quarto de Aika.
A cama nunca mais havia sido desfeita; Hanni a manteve do jeito que ela queria. Havia outra barraca montada no quarto, cheia dos brinquedos que ela havia ganhado de aniversário. As coisas de Aika não saíram mais, na verdade, foram outras coisas que estavam saindo: o teclado, o violão, alguns móveis. Hanni abriu espaço para elas. Cuidou da casa, organizou um pouquinho, fez almoço para uma só. Era estranho demais. Acabou dormindo muito naquele dia e, se Kaori não tivesse aparecido à noite, teria dormido mais.
— Certeza de que vai ficar bem aqui sozinha? — Ela perguntou antes de ir embora.
— Já me acalmei, vou ficar bem sim. Kaori, eu sei que nem preciso te pedir isso, mas...
Kaori a abraçou.
— Não precisa mesmo, essa conversa é só de vocês, Pres. Escuta, se precisar de qualquer coisa, sabe que é só me ligar, não sabe? A Manu me pediu para ficar perto de você.
— Ah, ela pediu?
— Claro que pediu.
Não surpreendia Presley em nada. Não esperava menos da sua não-namorada perfeita.
Conversaram por vídeo antes de Presley dormir. Era manhã em Paris e lá estava sua garota, de vestidinho curto, casaco por cima, toda de preto, cabelos soltos, perfeitos, toda de YSL e pronta para seu primeiro compromisso. Era domingo na Nova Zelândia, mas era sábado em Paris.
— Vai levar a Aika na aula?
— Vou, sim, para prestigiar a Kaori e evitar crises de choro, você sabe como a Aika é apegada às aulas de jiu-jitsu dela. Babe, ainda que eu esteja dormindo, vai me contando as coisas?
— Conto, honi, claro que conto. Sabe o que estava lembrando? Você já trabalha horário integral essa segunda, como vamos fazer com a Aika?
Ela não esquecia de nada. Hanni deu a sugestão de Sabina; sua cunhada podia ficar com Aika se Presley quisesse, mas ela não queria dar trabalho, não queria abusar. Leo já voltaria ao trabalho na segunda também. Dormiu pensando nisso. E Hanni foi encontrar sua agente; iriam tomar café da manhã juntas.
E foi muito bom revê-la. Blanca Marin, a espanhola que havia assumido o posto de sua agente assim que Hanni chegou à Europa, com dezesseis anos. Blanca havia cuidado de boa parte de sua carreira, desde os estudos de Hanni até os seus principais contratos. Foi por causa dela que ficou baseada na Espanha depois que se formou na Inglaterra. Não podia dizer que ela era como uma segunda mãe, pois só era doze anos mais velha que Hanni, mas podia dizer que Blanca era sim como uma irmã, que sempre lhe cuidou com muito mais afinco do que uma simples agente. Trocaram um longo abraço quando se encontraram, tomaram um belíssimo café da manhã, com o tipo de vista que apenas Paris é capaz de oferecer. Hanni amava aquela cidade, era uma de suas preferidas no mundo.
— Manu, o cronograma parece apertado, mas sei que você consegue. Eles sabem que você mora longe, mas querem você. Existe esta tendência por modelos asiáticas no momento e eles acreditam que você não é apenas um rosto local, não te querem apenas na Ásia ou na Oceania, é para a campanha na Europa também. Então, nós temos quatro ensaios marcados, duas gravações, dois eventos e a assinatura do contrato antes de tudo isso, daqui a uma hora. Animada?
Se ela estivesse de pé, teria saltitado igual Aika e Pipe.
Foram para a sede da YSL: advogados, produtores, fotógrafos, tudo muito parecido em qualquer lugar do mundo. Contrato assinado, saíram para almoçar em um restaurante agradável. Já era tarde, quase cinco da tarde, então mandou mensagem, apenas por mandar. Sabia que era madrugada na Nova Zelândia, mas...
Presley ligou de volta.
— Só um minutinho — Atendeu — Babe, não está dormindo?
— Estava, mas alguma coisa me acordou.
Elas conversaram um pouquinho. Hanni pediu licença, saiu da mesa e foi até perto de uma das janelas. Iria anoitecer em breve. Os cabelos estavam presos para trás, num laço elegante. A postura de Hanni gritava elegância, como a de uma esposa ou de um boyfriend. Conversaram por uns dez minutinhos, trocando muitos sorrisos. Então, Hanni voltou para a mesa, e Blanca estava sorrindo.
— Quê? — Hanni perguntou, sorrindo também.
— É madrugada na Nova Zelândia, não é?
Hanni sorriu.
— É sim.
— Então...?
— Eu... só queria ouvir a voz dela.
Blanca não estava acreditando.
— Park Manu, você está se tornando uma grudenta, é isso mesmo?
Ela tomou um pouco de água, rindo demais.
— Acho que isso está acontecendo. Eu nunca gostei de grude, você sabe, mas com a Presley só... eu não sei, eu gosto das mensagens longas, gosto de ligar, de saber como ela está, como foi o dia. Tudo tem sido bem diferente com ela, Blanca.
— Sei que só uma mulher bem diferente teria efeito parecido sobre você. Ela é coreana?
— Coreana.
— E é linda. É modelo também?
— Não, ela é... Poliglota, trabalha com traduções na Embaixada Sul-coreana.
— Oh, bonita assim e...?
— Mais inteligente do que bonita, e ela é bonita deste jeito que você viu — Manu não conseguia parar de sorrir.
— E ela tem um bebê.
— Tem, a Aika, de quatro aninhos, completou essa semana.
— Ah, eu sei — Blanca pegou o celular e abriu o Instagram, buscou a conta de Hanni, as últimas postagens estavam cheias de momentos com Aika e Presley — Eu olho o seu Instagram, Manu, sou sua agente! — Disse, sorrindo — E a criança parece UM ABSURDO com você, achei até que tinha perdido alguma coisa.
— Olha essa foto aqui — Mostrou uma foto que elas tiraram na última aula de jiu-jitsu, cópias perfeitas.
— Não, ela gosta de jiu-jitsu também?
— Adora as aulas, começou recentemente, na verdade, é tudo muito recente.
— Ao ver as fotos, não parece recente.
— Eu sei, tenho essa sensação também, de que não é recente, que elas... sempre estiveram comigo, não sei explicar muito bem.
— Você está feliz?
— Muito feliz. É só... inesperado. Tudo aconteceu tão rápido, tão de repente e agora tenho essa linda dormindo na minha cama e não quero que ela saia de lá. Nós não estamos namorando ainda, mas...
— Mesmo? — Blanca mostrou a última postagem que Hanni fez, aquela da graduação — Isso aqui parece bem coisa de namorada para mim.
Hanni abriu outro sorriso.
— Blanca, sendo muito sincera?
— Seja, por favor.
— Eu me sinto casada. O Bogum sempre disse que assim que olhou para a Sabina, ele sabia que ia se casar com ela e não sei, eu só senti algo parecido com a Presley? Não sei explicar, é tudo novo, mas a situação é complexa, não é simples de resolver. Então nós não estamos namorando, mas iremos.
Blanca olhou bem nos olhos dela.
— Manu, vocês estão namorando.
Ela riu.
— Não. Ela é minha esposa. Mas oficialmente namorando, ainda não estamos.
Blanca riu alto com a lógica dela.
— É só... muito bom ver você feliz assim. Depois de tudo que aconteceu, realmente me preocupei de que você nunca mais se abrisse novamente, que nunca mais se curasse. Como você está com essa parte, Manu?
Hanni respirou fundo, perdendo o sorriso por um instante.
— Tudo vai bem, o pior realmente ficou para trás, eu só... não deixei mais isso ter tanto controle sobre mim. O que aconteceu, aconteceu, não posso mudar. Podia ter feito muitas coisas diferentes; afinal, se a América chegou ao ápice que chegou, foi porque eu permiti.
— Ainda acho que foi porque eu permiti. Você era muito nova, não tinha que ter passado por metade das coisas que passou com ela — Blanca disse com pesar.
— Não tinha como ninguém saber, nunca disse nada claramente para ninguém, a grande verdade é que... nem eu me dava conta. Era uma relação que eu sequer levava a sério. Ainda acho que tudo aconteceu por coisas que fiz, ou que deixei de fazer, enfim. Ficou para trás, eu estou feliz em Auckland, as coisas estão tranquilas e agora, estão melhores do que nunca. Eu confio na Presley — O sorriso voltou só de dizer o nome dela — Quero que você a conheça, você vai me entender melhor.
— Bogum já a conheceu?
— Já, Sabina também. Eles a adoram, as crianças se dão bem, Aika e Pipe especificamente têm um laço muito forte. A Presley... só é diferente, tudo é muito diferente com ela.
Blanca sorriu para ela.
— Olha esse seu sorriso, não tem como não adorar quem está te fazendo sorrir assim!
Não tinha como mesmo.

Presley acordou com dor de cabeça.
Não tinha como ser diferente, havia dormido pouco, agitada, e mal colocou o pé para fora da cama e já estava enjoando. Vomitou o que não tinha no estômago, entrou para o banho, tentou acordar sua mente. Tão quieto sem Aika e Hanni brincando de jiu-jitsu no quarto ao lado, atrasando o café da manhã. Olhou para baixo, tocou seu abdômen, não havia sinal de nada ainda, obviamente, mas Presley se sentia diferente. Como seria tudo? Como seria ter as conversas de que precisava? Saiu do banho, abriu o armário gigantesco de Hanni, pegou uma calça jeans, blusa preta, gola alta, casaco de malha, quadriculado, Dior, do tipo que ajudaria a pagar o resto da casa, só sabia. Não deu tempo de tomar café, passou num drive-thru, pegou um café para si e, havia saído no carro de Hanni, estava apegada assim.
Buscou Aika; Leo já estava esperando, sua filha ainda de pijama, e Presley seguia sem saber muito bem o que faria com ela. A beijou; ela estava meio adormecida, então a colocou na cadeirinha, Leo entregou a mochila dela.
— Algum problema com o seu carro?
Ficou pensando no que responder. Acabou dizendo que sim, meio que no automático, não deu maiores explicações. Checou o relógio; tinha meia hora para estar no trabalho. Decidiu ligar para sua chefe, explicou parcialmente o que estava acontecendo e estava pronta para ir trabalhar, mas...
— Traz ela com você.
— Sem nenhum problema?
— Sem problemas, traz ela com você.
Ok, mas teve que correr com algumas coisas.
Decidiu estacionar e lembrou de Kaori; ela morava naquele prédio. A acordou, precisava dar banho em Aika, Leo só tinha a tirado da cama e entregado mesmo. Então subiu, acordando sua menina também; ela chorou um pouquinho, não queria entrar no banho. Depois, não queria se trocar, estava birrenta, e Presley nem podia culpá-la.
— Pres, eu fico com ela — Kaori disse enquanto Presley tentava fazer Aika parar de chorar.
— Você não tem que entrar no trabalho daqui a pouco?
— Daí, eu a deixo com você, mas entro tipo às onze, é tempo de ela dormir um pouquinho, a gente nem sabe se ela dormiu direito. Aika não estranha lugares novos?
Estranhava, era provável que tivesse dormido pouco mesmo.
— Ok, só não a deixe te fazer de escrava.
Essa parte já era mais difícil de Kaori garantir, mas OK.
Presley deixou um beijinho em sua filha e correu. Acelerou para o centro, estava um dia frio e seu café havia esfriado, havia esquecido dele. Venceu a ponte, a Sky Tower acenando, e dirigiu direto para o centro, Queen Street, sentindo mais saudades de Hanni, algo apertando por dentro. Pronto, chegou, subiu correndo, estava dez minutinhos atrasada.
— Ei, cadê o bebê?
— Ah, consegui deixá-la com uma amiga.
— A modelo não está...?
Presley respirou fundo, mas abriu um sorriso.
— Está viajando a trabalho, vai ficar fora por uns dias.
— Daí fica mais corrido para você, não é?
Como todo mundo sabia?
— Tudo fica muito mais corrido sem ela. E a Aika é apegada, mais grudenta do que eu.
— Às vezes, penso pra valer que algumas coisas seriam mais fáceis se eu tivesse uma esposa ao invés de um marido.
Presley só fechou os olhos, rindo, não tinha como negar muita coisa.
Focou no trabalho, mas toda hora checava se tinha mensagem de Hanni ou se o resultado do exame havia saído. Não, nada de um e nem do outro. Hanni estava dormindo, o exame ainda não estava disponível. Kaori ligou mais tarde, seu chefe havia ligado, trocado o turno dela. Ela trabalharia apenas mais tarde. Presley não queria aparecer para almoçar? Aliana iria também e, para sua surpresa, Kaori cozinhava muito melhor do que Lia.
— Tenho um pack de dez receitas aprendidas e você precisa comer bem agora — Ela disse, trazendo os pratos para a mesa: salada, peito de frango grelhado, arroz, ovos; estava, inclusive, bonito.
— Aika se comportou bem?
— Muito bem, mas pediu para falar com a Hanni. Eu liguei.
— Como assim você ligou, Kaori? Não é de madrugada lá?
— É, mas ela atendeu. Elas conversaram um pouquinho, a Aika ficou feliz, a Hanni ficou mais feliz do que ela.
Presley nem duvidava. E no finalzinho do almoço, quando Aika já estava arrumando a mochila para a escola, o resultado do exame saiu. Nada que Presley não esperasse, mas confessava que estava com uma última esperança de que o exame desse um resultado diferente dos outros.
— Aqui, grávida, de duas a três semanas. Presley, não tem como a Hanni se livrar disso fácil assim, não. De duas a três semanas, por altíssima probabilidade, esse bebê é dela. Faz três semanas que vocês não saem de cima uma da outra — Disse Kaori, fazendo as duas rirem um pouco.
— Por probabilidade, está 99 contra 1, já disse isso pra você.
Presley respirou muito fundo.
— Vocês não fazem ideia de como gostaria que ela estivesse aqui. Essa ansiedade vai acabar comigo.
E só tinham se passado 48 horas.


O teste de fogo da Hanni tá chegando, mas eu acredito que ela será uma mulher de fibra e vai babar pelo novo filho e pela futura esposa - mas, até lá, o jeito é sofrer com a Pres e passar todo o nosso apoio pra ela!
Mas aposto que a família dela vai fazer esse papel por nós!
Ah meu deus…que ansiedade
Eu tô mais ansiosa do que a Presley!! Que Hani não nos decepcione.
Fiquei com peninha da Presley chorei junto com ela, agora que ela ta super feliz ao lado da Hanni acontece esse impresvisto, mas calma Presley a Hanni nao vai te deixar sozinha tenho certeza que ela vai ficar do seu lado e vcs duas vao criar esse bebezinho juntas, mas acho que a Tessa deve ter alguma carta na manga pra essa solução toda, so nao quero que vc volte para o Leo, ja estou ate imaginando o discurso da mae da Presley quando souber que a filha esta gravida ai meu deus ajude a Presley por favorzinho.
poxa vida! Que agonia essa da Presley, tadinha! Agora maninha é esperar... Mas acho que a Tessa está testando nossa sanidade e ansiedade....😉