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Relicário 3




Theodora


Theodora foi para o banho ainda atordoada. Sua mente estava mexida, seu corpo inteiro estava mexido. Era engraçado, porque sempre houve uma energia com Giulia desde a primeira vez. Não sabia explicar de outra forma. Quando falou com Camila sobre essa energia, ela achou que podia ser pelo fato de Lia também ser queer. Era queer, geek, e-girl, sexy pra caramba. Não a achou sexy? Camila havia perguntado naquela conversa, e Theodora negou. Claro que não, sexy não. Mas a verdade é que... bem, a energia devia ser atração, e tinha sim a achado muito sexy. Lembrava de ter sentido culpa por isso. Era sexy em sua imposição física, sexy no sotaque, na leveza, na diversão, porque Giulia sempre foi tão divertida que nem dava para explicar. E agora havia reaparecido. Do nada. Da mesma maneira que magicamente sumiu, magicamente ressurgiu, e Theodora...


Queria sair com ela. E ter jantinha com ela também.


Se vestiu, bem aristocrática como costumava ser, calça de courino preta, blusa elegante, tal como o casaco que separou, xadrez em cores blasées, marrom, cinza, branco-gelo. A verdadeira herdeira...


— Do italianinho abandonado na roda dos expostos! — Giulia disse, assim que a viu entrando na cozinha e, de maneira mágica, ela já estava cheirosa, limpinha e trocada.

— Mas como, Lia...? — Trocada, de jeans, jaqueta preta e um cropped todo feito de faixas, deixando à mostra...


Tinha um fraco por aquele corpaço. Theodora estava tomando plena consciência disso.


— Eu ia ver o campeonato e depois ia sair com um contatinho. Ia me trocar na casa dela.

— Ah, então te tirei do contatinho?


Giulia a puxou pela cintura e a beijou, sorrindo. Gostoso demais.


— Tirou. Mas, por você, eu deixava uns dez contatinhos esperando. Você entende isso, Theo?

— O quê?

— Que sou doida por você há tempo demais?


Theodora agarrou os braços dela em si. Eram tão bons de tocar. Os braços, a pele, o perfume gostoso que ela estava usando.


— Você é uma sedutora, Lia.


Giulia cheirou o seu pescoço, o cabelo, deslizando pela sua pele, a arrepiando inteira.


— Meu Deus, Giulia...!

— Vamos ver se sou ou não. Fiz ceviche pra você, fada.

— Você...? Sério?!

— Você adora, eu lembro. Achei um peixinho, limão, fiz tudo rapidinho para nós duas. Vem, eu arrumei um cantinho pra gente jantar.


Era uma sedutora, sim. E Theodora queria estar seduzida por ela. Era um sentimento atento e consciente.


O jantarzinho foi nada silencioso! Aliás, Giulia lhe corrigiu: jantarzinho era coisa aristocrática; estavam tendo uma jantinha mesmo. Um ceviche delicioso, com uma garota linda do outro lado da mesa, uma música tocando, um bom vinho aberto, uma jantinha simples, tão deliciosa quanto o papo entre elas duas.


— Não, mas você está vendo? É uma cidade desvalorizada e eu adorei, me senti muito bem lá.

— E Londres, q que achou?

— Fiquei lá um mês e, olha, me senti em casa. Com essa cara de leste europeu aqui, minha filha, eu me misturava fácil com os albaneses, os bósnios, os kosovares, essa galera toda — Ela contava sorrindo — É uma cidade muito miscigenada agora. Tipo, a Meghan Markle? O bebê dela e do Harry é a cara dessa Londres atual. É que o Harry está meio farto desse negócio de família real, mas são a própria representatividade.

— E os episódios de racismo? Porque aconteceram. Escrevi vários artigos a respeito, inclusive.

— Aconteceram, mas aconteceu também o levante contra. Se não na mesma proporção, em proporção parecida. A imprensa segue marrom por lá, um sensacionalismo terrível, mas as ruas? As ruas estão cheias de albaneses, asiáticos, pretos, ameríndios. Tem tanto ameríndio lá quanto aqui.

— E o que você fez nesse tempo lá? Porque, se eu te conheço, você não ficou lá apenas de...

— Esposinha da irlandesa? Claro que não! Lembra que eu desenhava?

— Claro que lembro.

— Então, eu desenvolvi mais essa parte do desenho, fiz um curso de design e comecei a fazer algumas telas e uns quadros de madeira, alguns móveis também.

— Você foi aprendiz, não foi?

— De carpintaria, exatamente. E começou a entrar muito em tendência esse lance de móveis medievais, mais rústicos, sabe? Espera, vou te mostrar.


Ela pegou o celular, vindo para mais pertinho, mostrando o tipo de desenho que havia desenvolvido. Giulia desenhava mulheres, claro. Mulheres poderosas, amazonas, guerreiras, rainhas, mães solteiras, o que fez Theodora sorrir. Ela era, sim, uma reconhecedora de poderes. Mostrou os móveis rústicos, com linhas medievais, os objetos menores que aprendeu a esculpir e os quadros de madeira, peças inteiras, com frases poderosas escritas em lettering. Tudo muito bonito, muito delicado.


— E você segue trabalhando com isso? — Theodora perguntou, quando já estavam chegando em... — Lia, estamos em Santo Cristo?

— Onde tem as melhores baladas desta cidade?! — Ela desceu do Uber, agradecendo e puxando Theodora pela mão. Raves estrondavam, piscavam em luzes diversas, uma do lado da outra. Theodora adorava aquela rua! Mas, como em sua tendência atual, fazia tempo pra caramba que não ia ali — Não tenho onde montar meu ateliê, estou num hotel ainda — Giulia respondeu, aumentando o tom enquanto andavam em direção às baladas.

— Em Ipanema?

— Ganhei em euro por dois anos, fada — Respondeu, rindo, enquanto já comprava um drink de frutas logo na entrada.

— Não é por isso! É... por que Ipanema?

— Theodora Esposito, mulher, por que você acha que escolhi Ipanema?


Theodora abriu um sorriso, se dependurando no pescoço dela sem sequer perceber.


— Vai fazer eu me sentir desse jeito.

— É pra você se sentir, meu amor — Ela a abraçou pela cintura e a beijou, gostoso, apegado, porque sequer estava acreditando ainda — Tive um pressentimento, Theo.

— Do quê?

— Que devia vir para Ipanema — Recebeu o drinque, pagou, agradeceu — Agora, pergunta de um milhão de dólares: há quanto tempo você não dança?


Era mais tempo do que a última vez que havia gozado.


Giulia pegou outro drink de frutas para Theodora pelo caminho e a levou para a pista de dança. Absolutamente cheia. De pessoas, de energia, de vibração. E era algo que Theo simplesmente adorava! Dançar assim, se soltar. Sequer gostava de beber, dispensava os drinques, as cervejas, qualquer coisa, apenas para estar no meio daquela energia, sentindo as batidas nos ouvidos, aquela euforia contagiante. Dançaram muito, juntas, agarradas, e dançaram uma para a outra, se olhando nos olhos, trocando sorrisos, gargalhadas, sentindo cada música na pele e aquele sentimento...


Theodora não conseguia explicar. Era como se tivesse aberto a represa e estivesse se sentindo simplesmente leve, absolutamente bem. Estava dançando, rindo muito, se divertindo e sendo seduzida. Tinha certeza de que estava sendo. Ali estavam elas, dançando de frente uma para a outra, os cabelos já molhados de suor e os olhares se cruzando, o olhar reto de Giulia lhe fazendo estremecer, desejar. O jeito que ela estava se aproximando mais, enquanto cantavam juntas qualquer letra, de qualquer música.


Sua aristocrata decadente era uma coisa. Giulia nem sabia como havia passado tanto tempo sem aquilo. A puxou para mais perto ainda, sentindo a mão dela lhe arranhando a cintura. Era fada, sim. Uma garotinha sensível, que gostava de ser mimada um pouco, de ter atenção, e que só precisava... lembrar quem realmente era. Giulia tinha flashes sobre quem Theo realmente era. Não Theodora Esposito, a noiva da doutora Camila Mendes, ativista, mulher forte, detentora de um grande futuro. Apenas... Theo. A quem conheceu de verdade durante uma rara noitada em que terminaram apenas as duas, rindo e conversando na praia de Ipanema. Theo, que tinha feito sapateado a vida inteira, era viciada em videogames, amava nadar, cantar em espanhol, tocar violão. Já tinha uma queda por ela, Giulia sabia disso. Aliás, soube desde a primeira vez que a viu entrando em sua sala na faculdade.


Uma coisinha impecável e charmosa, vestida de jeans, saltos e um suéter elegante no outono do Rio de Janeiro. Giulia teve uma fisgada por ela, algo cutucando em seu coração e em outras partes de si. Tinha jeitinho de burguesa, arrumadinha, toda no lugar. Giulia simplesmente gostou e, quando viu a menor oportunidade de puxar assunto, falou daquela mandíbula perfeita que ela tinha, porque era mesmo perfeita, tal como a clavícula tão bem desenhada, toda alinhada. Theodora riu quando a ouviu falando. Uma risada boa, gostosa, revigorante.


— Você...

— Eu desenho. Pessoas. Mulheres. Então, esses detalhes...


Theodora havia olhado em seus olhos.


— Olha, é que, com toda certeza, ninguém nunca elogiou meus ossos.


E Giulia achou que, sendo assim, nunca esqueceria. Nunca esqueceu mesmo.


— Ei! — Theodora passou os braços pelo pescoço dela — Você foi pra onde?

— Você nem ia acreditar — Giulia apertou os braços em volta da cintura dela — Sabe o que comprei no último Halloween?


Não sabia, e Theodora não pôde acreditar no que era quando ela tirou da bolsa. Eram máscaras de LED, que acendiam uma em neon lilás e outra em neon vermelho, com dois x no lugar dos olhos e um sorriso macabro inspirado em...


— The Purge! Você assistiu The Purge!

— É claro que assisti, Theo! História trash, filmagem trash, eu estava lá, eu fui! — E Giulia colocou sua máscara, e é claro que Theodora a seguiu.


E lá estavam, em plena balada, com a máscara assustadora de neon, dançando, rindo, se divertindo tanto que Theodora precisou parar lá pela décima música que haviam emendado. Precisou ir até o bar, levantar sua máscara creep de LED, e Giulia pediu um smoothie de morango.


— Pede um pra mim?

— É pra você, fada. O meu é este aqui. Amigo, você prepara um de limão também?


Theodora ficou olhando para ela. A delicadeza, a beleza, a leveza.


— Eu não estou acreditando no que meus olhos estão vendo!


E aquela voz escandalosa jamais seria confundida.


Era Alberta. Sua irmã, fazendo escândalo, saltou em Giulia. Os motivos pelos quais elas sempre seriam almas gêmeas eram vários, mas um deles era esse: enquanto Lia tinha máscaras de LED, Alberta estava inteira maquiada com tintas que brilhavam no escuro, batom verde-neon, máscara de cílios igual, e uma linha laranja fluorescente que cruzava seu rosto, acompanhando o horizonte dos olhos, linhas étnicas, bonitas, e um estilinho bem carioca na balada. Sua irmã mais velha era uma figura e havia ficado muito, mas muito feliz em encontrar Giulia outra vez.


— Eu não acredito! Mas como...? Primeiro, eu não acreditei que estava vendo a Theo aqui, depois vi você e, caramba!

— Cheguei não faz nem duas semanas, Beta. Estou atrás da minha tribo ainda!

— E você tem máscaras de The Purge! E tem a minha irmã! — Alberta puxou a irmã para um carinho, olhando-a com muita doçura, e Theo sabia exatamente do que se tratava. Ela andava muito preocupada com seu estado de espírito, havia sugerido ir a um terapeuta e tudo na última semana — Ela não queria abandonar a solidão dela por nada.

— Olha, até que ela veio facilmente comigo — Giulia disse, fazendo Theodora rir demais.

— Sua convencida. Beta, você está aqui sozinha...?

— De jeito nenhum! Vamos, vocês duas. Quero aproveitar essa noite com vocês!


Foram com ela, e a noite foi muito bem aproveitada e extremamente divertida! Alberta estava com algumas amigas, de passagem pelo Rio, umas meninas alto-astral, engraçadas, e estar com Giulia... Como Theodora poderia explicar? Se olharam a noite inteira, e esses olhares também queriam dizer algo, tal como o fato de Giulia ter se comportado demais perto de Alberta. O término de Theo não era exatamente recente, mas, ainda assim, ela manteve uma distância que Theodora julgou a coisa mais delicada. Mas que não era tão necessária assim. Foi lá dançar pertinho dela, dividir as fritas, as bebidas e beijá-la um pouco mais, porque beijá-la estava sendo uma delícia, porque suas mãos não queriam ficar longe da pele dela, da cintura, da energia.


Achava que era disso que mais estava viciada: na energia dela.


Theodora a empurrou contra a parede, enquanto as luzes piscavam, a DJ incendiava a pista, as pessoas dançavam, elétricas, eufóricas. No meio de tudo isso, virou a máscara que usava para trás da cabeça, mantendo-a acesa em lilás neon.


— Parece um sonho, sabia? — Giulia disse, enquanto sentia aqueles lábios suaves passeando por seu pescoço.

— A gente aqui, se beijando de máscaras LED de série de terror — Theo a acariciou mais, fazendo-a rir.

— Você foi meu sonho por muito tempo, sabia?


Theodora a olhou nos olhos.


— Jura que foi assim, Lia?

— Juro que é assim ainda.


Theodora a beijou, com sua máscara brilhando ao contrário, confundindo, e a beijou descendo as mãos por ela, sentindo Giulia em si, sentindo-a apertando, precisando, suspirando um pouco mais forte. Era o cheiro de Theodora, eram as mãos delicadas, o beijo gostoso e um tesão guardado por tanto tempo que...


Giulia virou uma garotinha, nervosa com o próprio desejo entrando em descontrole.


— Theo...

Shssssss... — Theo apertou a mão na coxa dela, muito perto da virilha, enquanto a pressionava, a pegava, tudo muito gostoso, intenso. E, para esta última parte, particularmente, Giulia não estava preparada — Você está tão quente.

— Ai, Theo — Suspirou, sentindo a boca dela em seu pescoço.

— A gente tem a noite inteira, tá?

♪ I'll be with you from dusk till dawn, I'll be with you from dusk till dawn... ♪ — ♪ Eu estarei com você do crepúsculo ao amanhecer. Era a música que estava tocando. ♪ 

— Do crepúsculo ao amanhecer, aham, eu quero.


Queria isso. E todo o tempo indeterminado que estava querendo desfrutar com ela.


Colocaram suas máscaras de volta e foram dançar mais um pouco, no meio das amigas recém-feitas, dançar para molhar os cabelos, para ligar o botãozinho da euforia enquanto chamavam atenção e se divertiam demais com aquelas máscaras! O papo não parava, a música não reduzia, e Theodora não fazia ideia de que horas eram, mas ficou com fome. E não era de qualquer coisa.


— Daqueles podrões?

— O mais podrão possível! Sabe onde tem? Lembro que tinha aqui perto.


Tinha ali perto. Se despediram e saíram apenas as duas, por aquela avenida que vibrava, cercada de baladas de todos os lados, e com um food truck que vendia o melhor hambúrguer podrão da vida! Pegaram a fila para pedir, conversando demais, porque tinham milhares de assuntos a pôr em dia. Compraram o tal podrão, com batata frita, que foram comer num cantinho, com suas máscaras de LED colocadas ao contrário.


— Mas me diz se não é uma ótima ideia? Me diz! — Giulia estava contando, empolgada, mais uma de suas ideias de empreendedorismo. Ela era assim desde a faculdade, cheia de ideias originais.

— Sorvete em porta de balada? Olha, eu compraria!

— Esse povo sai louco de fome e depois quer algo doce! Eu mesma agora, louca de fome, e depois vou querer algo doce.

— Já avistou algo doce?


Giulia apenas moveu a sobrancelha, muito safada. O algo doce chamava-se Theodora Esposito.


— Você não vale nada.

— Aff, se eu não valho, fada, eu valho demais, viu...?! — Beijou o pescoço dela, sorrindo — Espera, você lembra daquela noite em que a gente foi parar na praia?!


— Fingindo que estávamos tipo em Londres, não no Rio de Janeiro superperigoso!

— A gente, sei lá, estava tão de boa!

— Quando a Beta me deu bronca, ela perguntou o que eu havia cheirado, porque não era possível! Duas loucas sozinhas andando pela praia em plena madrugada.

— Foi nessa noite que você me falou que tinha vontade de conhecer Cusco, Theo, acampar no Vale Sagrado, pra ver se conseguia fazer contato com alguma civilização extraterrestre.


Theodora riu alto.


— Eu disse! Disse que, hum... — Mordeu mais um pedaço de seu sanduíche — Queria fazer um curso de fotografia também.

— Um curso que tem lá, eu estava pesquisando, sabia? Quando decidi que ia voltar, eu queria fazer alguma coisa assim, pra complementar minhas pinturas. E a gente ficou horas falando sobre teorias dos antigos astronautas, vulgo alienígenas do passado, daquele programa do History que só nós duas devemos assistir.

— Você disse que... iria comigo. Naquela noite lá. Acampar para ver alienígenas. E para ir às baladas de Lima.

— Lembro que disse — Giulia sorriu, vendo aquele olhar lindo que ela estava lhe dando — Falamos também de ir até o Egito.

— E viajar pela América Central, descer pela América do Sul, documentando a história da América pré-colombiana — Era engraçado. Theodora estava lembrando de tantas coisas. Lembranças escondidinhas em sua mente estavam acenando, agora que Giulia estava por perto, incluindo... — Sabe o que eu disse quando a Beta me perguntou o que eu havia cheirado nessa noite aí?

— O quê?

— Eu disse que tinha sido você. Que, aparentemente, você tinha efeitos alucinógenos em mim.


E havia algo mais doce do que Theodora lhe dizendo algo assim?


Ah, sim, tinha. Theodora dançando, sapateando no meio da rua, com a máscara ao contrário na cabeça, o casaco arriado pelos braços, deixando ver aquelas costas lindas, elegantes, delicadas demais, bem desenhadas. E ela estava leve como um suspiro italiano. Dançando no meio da rua, sentindo a música, cantando alto.


—Lia! Você conseguiu o Uber?

— Consegui, mas a bateria está acabando. Decora a placa: XKV!

— Giulia, você é a única pessoa que decora as letras, não os números.

— Lógico que não! Theodora, decora? Decora porque... Sério?! — O celular apagou.

— Quanto tempo estava? — Theo seguia dançando no meio da rua, livre, eufórica, linda demais.

— Um minuto, estava em um minuto e... Theo!

— XKV, XKV, ele passou! Ele passou!

— A gente tem que ir atrás dele! — Giulia disparou, correndo atrás do carro.

— Mas como?!

— Você não foi campeã de 200 metros na faculdade? Corre, criatura!

— Você quer que...? — Ela seguia rindo demais, completamente eufórica!

— Vai, Theodora, vai! A gente vai ficar presa em Santo Cristo, mulher!


Theodora foi. Saiu correndo, em altíssima velocidade, atrás do carro, de máscara neon agora no rosto e tudo. Acelerou as passadas e entrou em modo de corrida, ajustando o corpo, os braços, pegando velocidade, fazendo os músculos despertarem em explosão, e ultrapassou Giulia em segundos. É claro. E, mais claro ainda, foi que uma burguesinha correndo de botas em alta velocidade, de máscara neon, chamou a atenção do motorista, que encostou, esperando pelas duas.


— Boa noite, moço, você passou!

— Eu imaginei — O motorista disse, sem acreditar — Que máscara maneira!

— É maneira, né? Espera um pouco — Theo tirou a máscara — Lia, nem na quinta marcha você chegava aqui!

— Sou e-atleta, não sirvo pra esporte no mundo real direito, não! Esqueceu deste detalhe?

— Exagero. Você não é nenhuma sedentária, que eu sei. E-atleta tipo Jogador Número 1 — Foi buscá-la pela mão — Vem, vem terminar a sua noite do crime — Era o slogan da série ruim que gerou as máscaras e que elas tinham certeza de que, no mundo, também só elas duas haviam assistido.


Entraram no carro as duas, as baterias das máscaras de LED indo embora, mas nunca os sorrisos, nunca a conversa, nunca o namoro. Levava meia hora de Santo Cristo até Ipanema e, quando a corrida alcançou o final, foi que Theodora se deu conta de que...


— Me trouxe para o seu hotel.


Giulia beijou a mão dela em frente à calçada.


— Eu não queria terminar a nossa noite de crime no seu apartamento. Sei o que ele significa pra você e... olha, Theo, a gente pode só subir, pode só dormir perto, não tem problema. Sabe... — A enrolou em seus braços, fazendo-a virar de costas para si e de frente para a praia — Eu nunca tirei da cabeça aquela noite aí nessa praia. Ficamos sozinhas e eu fiquei achando que estava imaginando demais. A gente se conhecia havia pouco tempo e eu nunca imaginei que...

— A gente tinha tanto em comum. Eu também não. E menos ainda imaginei que... — Virou-se de frente — Na verdade, eu acho que imaginei, sim, que outra noite daquela podia acontecer. Mas não conseguia encaixar onde, já que... tudo parecia tão decretado pra mim.

— Bem, não tinha nada decretado. Nem antes, nem agora.


Theodora a abraçou.


— Mas eu quero. E não será um crime. Será uma vontade. Uma vontade muito forte. Você está sentindo o quanto é forte?


Estava, sim. Giulia beijou Theodora e, lá no alto do céu, o sol começou a clarear a noite, querendo nascer.

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