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Vulnerável 5


Vulcanizada


A segunda prova do líder foi resolvida ainda durante o ao vivo: uma prova rápida, envolvendo sorte, lógica e velocidade, em rodadas eliminatórias. Novamente, Gabriela chegou até a rodada final, mas aquela liderança realmente escapou de suas mãos.


Sentiu, de verdade, que deveria ter ganhado. Geralmente, tinha um feeling que não costumava falhar; só não tinha como fazer ideia do que viria pela frente.


O líder vencedor em questão foi Henrique, o lenhador do bem, pai de dois bulldogs, tatuador, bonitão. Deveria estar concorrendo a galã da edição com Gabriela; ela desconfiava. Ele pôde levar seis pessoas para o VIP e optou por quatro dos rapazes. Das garotas, levou Nuna e Bruna. Gabriela desconfiou do motivo de ele ter escolhido justamente as duas.


Tinha zero dúvidas de que Bruna era magnética para homens e mulheres, de que já deveria haver milhares de edits dela com a música "SexyBack", de Justin Timberlake. Nenhum tema se encaixava melhor. E, sobre Nuna, se Henrique concorria com Gab ao posto de galã da edição, Nuna concorria com Bruna ao de gata da edição.


Sim, tinha mulheres lindas e uma supermodelo na casa, mas aquela menina era de uma beleza natural absurda. A pele amendoada, os olhos claros, as longas box braids dando todo um estilo a mais a ela, um corpo que gritava naturalidade. A beleza de menina preta não passava despercebida de jeito nenhum. Henrique queria formar casal. Um que funcionasse. O plano mais batido de todos.


Mas, de repente, uma bomba de situações que não tinha nada a ver com aquele plano começou a ser inflada em 48 horas.


Primeiro, começaram a surgir problemas com punições. Dois rapazes do grupo dos anônimos que estavam no VIP eram, de longe, os mais punidos, sempre fazendo algo errado, o que gerava perda de moedas. As compras do VIP já tinham sido prejudicadas por isso, e as compras da Xepa também, porque, assim, era o que dava ao colocar um bando de gostosas festeiras confinadas em um mesmo espaço.


As garotas haviam levado algumas punições também. Monique, porque não acordou para o Raio-X; Lia, por perder o microfone no meio da enorme bagunça de malas, maquiagens e afins no quarto feminino; Mel, por comer um item do VIP sem perceber. Mas nada comparado ao tanto de moedas que os dois rapazes perdiam; isso era algo claro. Gabriela achou que o problema que estava sentindo, e que iria acontecer, viria daí, mas acabou vindo de um lado totalmente inesperado.


Existia uma composição fadada a se tornar explosiva naquela casa. De um lado, um grupo de mulheres muito fortes e cheias de personalidade, que não baixavam a cabeça para ninguém; do outro, um grupo formado por homens básicos, machistas e grosseiros. Grosseiros não no sentido de estupidez, e sim das brincadeiras sem filtro. E esse grupo definiu muito rapidamente uma mulher preferida para direcionar ataques disfarçados de brincadeira: Eduarda Ricca.


Repórter esportiva, modelo, casada com outro jornalista muito conhecido, que havia sido vítima de vazamento de fotos e vídeos íntimos no começo do ano. Os comentários machistas sobre isso, vindos desse grupo, não demoraram a circular pela casa. Primeiro, apenas uma faísca. Algo dito aqui, outra coisa dita ali, um olhar desrespeitoso, uma risadinha, uma cantada baixa. E parte disso acontecia no quarto do novo líder, que Nuna e Bruna estavam frequentando naquela semana.


— O cão, ele é extremamente articulado — Foi uma frase aleatória de Bruna que, com o passar daquela semana, acabou sendo mais do que precisa.


Começaram a falar disso mais vezes e Nuna começou a ouvir. Primeiro, não quis acreditar que era aquilo mesmo que estava ouvindo, mas as conversas e as risadas foram ficando mais altas, mais frequentes e, quando teve certeza do que estava ouvindo, não teve opção a não ser falar.


Era um movimento arriscado. Ela sabia. Estaria traindo um grupo que a acolheu, mas era claramente mais errado não dizer nada. Então, chamou Gabriela e contou. Ela, obviamente, decidiu chamar Eduarda para expor a situação. Eduarda trouxe Lia, que trouxe Camila, que trouxe Monique.


Quando perceberam, estavam num canto do jardim com a maioria das mulheres da casa, se inteirando da situação, pensando juntas, porque algo precisava ser feito. Chegaram ao consenso de que era necessário se posicionar. Líderes lideram e, naquele momento ali, de repente, tinham duas líderes que, assim que se encontraram, divergiram automaticamente.


Bruna ficou de um lado. Gabriela, do outro.


— Você não ouviu o que a Nuna disse?

— Ouvi, mas eu disse que estou naquele quarto também e não ouvi nada disso! Por favor, Gabriela, o Henrique é um cara legal. Você acha que ele permitiria...?

— Bruna, você ouviu a Nuna? É o que estou te perguntando, porque não tem como você ter ouvido o que ela disse e tomar uma atitude assim!

— E você não está ouvindo o que estou dizendo? Eu também estou lá e estou dizendo que não teve nada dessa conversa. Caramba!

— Você está insinuando que ela está mentindo?

— Você está insinuando que estou mentindo, Gabriela?!

— Bruna, por favor...

— Por favor, digo eu! É sempre assim, você nunca acredita em mim. Acredita em uma estranha que conhece há duas semanas, mas em mim, não. É impossível!


Essa discussão só terminou quando Gabriela atravessou o jardim, deixando Bruna falando sozinha, para ir falar com quem realmente interessava naquele momento.


Eduarda estava chorando do outro lado, amparada por Nuna e Lia.


— Vamos resolver? — Gabriela perguntou a Eduarda.

— Como? Eu não sei nem por onde começar, Gab.

— Eu começo pra você.


De conversa com homem machista, Gabriela entendia muito bem.


Em dez minutos, Gabriela estava confrontando Henrique sobre o assunto, que, obviamente, não ficou apenas entre eles. O grupo dele chegou, o de Gabriela também. A conversa foi tensa, desajeitada; os rapazes confrontados não sabiam muito bem como se defender de algo que claramente havia acontecido. A reação deles disse tudo.


E o mínimo que Gabriela esperava era que Bruna trocasse de lado quando percebesse o engano. Ela também cruzava com homens machistas diariamente; não era possível que não fosse apoiar uma mulher vítima de machismo descarado. Mas ela não se moveu.


— Eu não estou vendo motivo para este movimento todo! VT por VT, eu também sei fazer, Gabriela.

— Sério que você vai ficar nessa, Bruna? Você está fora de si, fora do assunto, fora de tudo!

— Gabriela, não é pra tanto! Essas coisas acontecem; aconteceu com ela. Ainda que alguém tenha falado alguma coisa, não dá para calar todo mundo; é a atitude que tem que mudar.

— A atitude da vítima que tem que mudar?

— Odeio essa palavra!

— Deixa as vítimas serem vítimas, Bruna. Ela foi vítima de um abuso, de uma exposição criminosa.

— Gab, não é pra tanto! — Bruna repetiu — Você estava fazendo outro jogo aqui, virando todo mundo para o seu lado, fugindo do conflito e agora, de repente...

— De repente, ficou pessoal! Você sabe que isso é muito pessoal pra mim.


Os olhos de Bruna se encheram. Ela não rebateu. Gabriela sentiu na hora. Era pessoal para Bruna também.


— Isso... é defesa — Gabriela se deu conta.

— Não ouse me analisar! — Bruna já tinha passado por um vazamento de vídeo íntimo e só não queria tocar no assunto — Aqui não é lugar para dar foco nisso. Só vai reviver tudo, você não percebe?

— Você é que não está percebendo os absurdos que está dizendo.


E o clima de guerra entre as duas apenas continuou. A discussão entrou pela noite; Gabriela era fria, direta, reta nos argumentos. Contra os caras, sequer aumentou a voz, encarou, de braços cruzados, olhando nos olhos, mas, quando a discussão com Bruna ficou mais feroz... a postura desapareceu, a calma também, a voz se alterou, ganhando um tom aflito que quase ninguém conhecia. As duas se aproximaram. Olho no olho. Perto demais, a ponto de realmente preocupar. Gabriela Habren só desandava com Bruna Ribeiro e ninguém conseguia entender.


— Bruna, presta atenção nas coisas que você está supondo! — Gabriela agarrou o braço dela e, imediatamente, Bruna colocou a mão sobre a pegada, procurando a câmera que estava enquadrando as duas.

— Gab, chega! — Bruna deslizou a mão pela pegada dela suavemente, checando a câmera de novo. O movimento de Gabriela em si não havia sido violento, mas a câmera podia contar outra história, então suavizou o máximo que conseguiu — Vai com as meninas.

— Bruna...

— Você está muito nervosa, vai com as meninas, não mistura as coisas. Você não tem que fazer nada agora por uma coisa que já aconteceu — então buscou as garotas pelo jardim — Lia? Lia, vem aqui, por favor. Eu não quero mais falar com ela.


Outra confusão se formou. Gabriela ODIAVA quando Bruna a tratava assim e, dessa vez, teve que ser praticamente arrancada da frente dela e trancada na despensa por Lia, Eduarda e Nuna.


— Ei, ei! Você não tem que deixá-la fazer isso com você. Gab, você fez aqueles idiotas se tremerem e deixa a Bruna fazer isso com você? — Era Eduarda.

— Ela... me tira do sério! Você entende? Por que tenho que ficar longe?

— Vocês têm assuntos não resolvidos, isso está claro para todo mundo. Acho que o problema foi você ter ficado do meu lado — Nuna ponderou — ou, melhor, ter acreditado em mim e não nela.

— A Bruna é infantil de vez em quando, você sabe disso — Lia avaliou.

— Ela não é infantil, ela é intensa — Gabriela rebateu.

— A fama dela é de puxar o tapete das amigas, você sabe disso também, Gab.


Gabriela olhou para Lia.


— As pessoas falam demais.


A guerra só estava começando.


Nuna foi isolada no VIP; os rapazes passaram a tratá-la como traidora e o clima estava muito pesado. O dia seguinte começou sufocante, com uma divisão muito clara na casa. Bruna e Gabriela mal se olhando.


Perto das duas da tarde, Bruna percebeu uma situação.


— Nuna, você não vai comer, não?

— É que...


Bruna olhou para onde ela estava olhando.


— Ah, mas você vai comer. Não está comendo porque esses idiotas estão te olhando feio? Tem dinheiro seu aqui também, você vai comer sim, e eu quero ver quem tem coragem de vir aqui perturbar!


E era por essas e outras que Gabriela a admirava tanto.


Bruna virou guarda-costas de Nuna pela casa. Nada justificava aquele isolamento. O grupo de Gabriela também ganhou rachaduras; duas das garotas debandaram para o outro lado e, assim como os rapazes, a isolaram também, elegendo-a como a culpada do caos, como se tudo estivesse em paz antes.


— Sabe o que é isso? É gente acostumada a engolir sapo para não causar desconforto — Bruna disse a Nuna em determinado momento — Deixa as coisas como estão, não cria climão e, quando esse tipo de pessoa se dá conta, está sofrendo diversos tipos de abuso em nome de não querer “causar”.


Nuna respirou fundo.


— Achei que você não estivesse acreditando em mim.

— Eu só não queria estar envolvida nisso — Explicou, sentada na cama — Trazer o caso da Eduarda à tona mais uma vez a faz sofrer e gera matérias a respeito — Matérias que deveriam estar ressuscitando o caso de Bruna também.


Era um vídeo íntimo, gravado por sua namorada da época, no seu próprio celular. Nunca entendeu como aquele vídeo vazou, nem por que ocultaram a parceira. Ela não aparecia diretamente no vídeo, mas as mãos apareciam, e as vozes haviam sido removidas do vídeo postado.


— Entendo ser um assunto delicado, mas, sororidade, Bruna.


Bruna sorriu.


— Ninguém se lembrou de ter na minha vez.


E, sim, durante todo esse tempo, algo em Bruna estava dando sinal sobre a postura que deveria ter tomado, mas era difícil quando se toca em algo que ainda dói e incomoda. Mais tarde, depois que olhasse tudo de fora, se cobraria. Deveria ter jogado mais e sentido menos.


Logo, o ao vivo começou: todos para a sala, um clima estranho e, quando terminou, foi automático. Se despediram do apresentador e Henrique veio para cima de Gabriela imediatamente.


As acusações eram quase engraçadas. De repente, o cara legal e good vibes da internet estava acusando Gabriela de manchar a honra e a reputação dele, da forma mais machista e descabida possível. Insistia que ela estava ajudando a propagar uma mentira, que estava falando do que não sabia, que tinha sentido pelo tom do apresentador que algo estava errado, e daí pra frente foi só pra baixo. E lá estava, novamente, a Gab vulcanizada devidamente invocada, encarando o bonitão de frente, queixo erguido, olhando reto nos olhos e cheia de deboche.


Ele gritava, ela devolvia. Tom adequado, argumento irrefutável, mas, quando a discussão começou a ir para um lugar mais delicado, Gabriela foi saindo do sério. O assunto com Eduarda era algo que ela não admitia que fosse tocado de qualquer forma; era por Eduarda e era também por ser pessoal, o tipo de coisa que deveria estar acima de qualquer tipo de jogo. Cada vez que ele insistia em trazer o assunto, Gabriela só ia ficando mais furiosa. E, novamente, quando todos julgaram que realmente iria ficar fora de mão, que Gabriela não estava ouvindo ninguém...


Lia foi buscar Bruna para resolver.


Ela estava no jardim, demorou para entender, mas ouviu que Gabriela estava numa confusão e apenas andou pra lá. Chegou ao ápice da discussão. Viu Henrique se aproximando de Gabriela de um jeito que...


De jeito nenhum permitiria. Colocou-se entre os dois imediatamente.


— Cara, para com isso, deixa de ser babaca!

— Bruna, você nem sabe o que está acontecendo!

— Estou te vendo muito perto dela; dane-se o que está acontecendo!

— Essa louca está querendo acabar comigo aqui dentro. Isso não vai ficar assim!

— Quer saber, Rique? — Usou o apelido porque a Gab debochada estava ativada também — Vota em mim domingo! Você não tem o poder do voto? Vota em mim, pronto, resolve isso votando e não me enche mais!


Gabriela era corajosa. Até demais.


Disse isso e o deixou falando sozinho, saiu para o jardim; o grupo dela a seguiu e o bate-boca passou para Bruna e Henrique.


— De que lado você está? Vai lá, com a sua amiguinha! Você fica nessa com a Habren e não tenha dúvida nenhuma de que você é voto dela no domingo!

— Dela? De todas elas! Confere quantas são ali, e tudo isso por sua causa! Você é um idiota, cercado por um bando de babacas!


Era noite de festa. Uma festa que já nasceria morta se fosse qualquer outro elenco. Mas não naquele.


De jeito nenhum eles matariam uma festa.


Veio a festa, zerou o dia. Era esse tipo de elenco: todos com DNA de baladeiros; de tédio, ninguém morreria. A festa se chamava “Eclipse” e estava inteira em tons prateados, azul-escuros e dourados. Gabriela usava um minivestido prateado, enquanto Bruna surgiu toda de preto, com detalhes metálicos, de minissaia transpassada, cropped feito com conchas costuradas juntas por correntes metalizadas.


Gabriela estava lua e Bruna, mar.


Eram como um eclipse das marés.


Mas Bruna foi para a pista de dança, estava tocando funk, e logo veio Monique grudando nela, dançando juntinho, cheirando aqueles cabelos, falando no ouvido, e Gabriela...


Nem sabia. O rosto impassível, mas, por dentro, um vulcão.


Esperou tocar “Gata” para a coreografia em grupo que elas já estavam fazendo bem sincronizadas, mas, depois, decidiu ir dormir mais cedo. Não ficaria para ver mais interações que não desejava; o dia tinha sido pesado, estava bom de carga. Tomou banho, se trocou e deitou-se em sua cama no chão. Pensou demais. A cabeça não parava. Mas conseguiu pegar no sono.


Quando acordou, Bruna estava dormindo ao seu lado.


E o despertar de Gabriela gerou um edit embalado por “White Flag”, de Dido, mais uma vez. Estavam na maior emissora de novelas do país; eles sabiam criar uma storytelling que se vendia por si só.


Ficou quieta um tempo, abraçando os joelhos contra o abdômen, olhando para Bruna dormindo, pensando mais. Parecia que só pensava o tempo todo, a ponto de estar sentindo dor de cabeça há três dias. Gabriela tinha convicção de que estava correta e se atirar na frente de um paredão também havia sido estratégia, tanto para corroborar sua posição quanto para... encerrar aquela tortura.


Então, se estava errada, não para si mesma, mas para o público, se o julgamento era esse, que saísse logo.


E, se estivesse errada diante do público, ao menos Bruna estaria correta e a marca dela, protegida. Ela havia entrado comprometida com uma figura pública muito querida, a líder da banda do momento. Não achava que uma traição chocaria a fanbase muito bem-estruturada de Bruna, mas as consumidoras dos produtos da Fierce... Isso podia causar um rombo, sim. E sentia Bruna cada vez mais latente sobre todas as coisas, mais impaciente, sensível a todos os estímulos.


Ela era um pássaro livre e achava que o efeito gaiola a estava afetando. Assim como as brigas, as conversas, as fofocas.


Será que tinham ido até ali apenas para enterrar o que lutaram tanto para conseguir?


Bruna despertou. Viu Gabriela, se deu conta de onde estava, um olhar longo. No edit, a música seguia tocando, enquanto elas se olhavam e não se diziam nada. Os olhos verde-baja-mar de Gabriela, os castanhos intensos de Bruna, um toque despretensioso entre os dedos das duas, mais conversa silenciosa. Então, um diálogo baixinho, mais do que sussurrado:


— Aconteceu alguma coisa ontem? — Gabriela perguntou, não em tom inquisidor, mas sim preocupado, cuidadoso.


Bruna negou.


— E como você veio parar aqui?

— Acho que... não me lembro. Bebi muito ontem, mais do que deveria.


Mais silêncio. Bruna olhando para a boca dela, traída pela sonolência, a música acompanhando o queimar daquela sensação entre as duas. Gabriela levantou e não se falaram mais por aquele dia inteiro. Era dia de prova do anjo, que ela ganhou com uma facilidade assustadora. Gabriela era boa de resistência, boa de memória e boa de mente; tinha ido ali quebrar o recorde de provas ganhas e era o que faria.


Era só isso, focar no que tinha ido fazer e as coisas deveriam dar certo. Colocou o líder no castigo do monstro e, no domingo, protegeu Nuna com a imunidade e, como esperado, foi mandada direto para o paredão. Pelo voto dos participantes, Monique foi enviada também, e coube a Habren o contragolpe de puxar mais alguém. Nem titubeou; se não podia mandar Henrique, mandaria Luís, aquele conhecido pelas falas mais ofensivas a respeito de Eduarda.


Final da votação, mais confusão entre Gabriela e Henrique, que Bruna interrompeu novamente. Tirou Gabriela dali, entrou em outra discussão intensa com ela, e era tanta coisa que acabou rindo. Bruna caiu na risada e Gabriela riu junto; aquela risada sempre seria contagiante.


— Mas o que foi, menina? — Gabriela perguntou, um pouco mais leve.

— Quando eu dizia que você era a maior barraqueira, ninguém acreditava em mim, e olha você aqui agora!

— Você não diz que a gente tem que se defender, levantar a voz...?

— Digo sim, sempre. Se você está sendo atacada, vendo algo de que discorda, tem que se defender mesmo, nada de deixar barato — Bruna a olhava.


Fizeram uma pausa, respirando fundo as duas. E Gabriela perguntou:


— Você acha que estou perdendo seguidores aos milhões com essas brigas?

— Um milhão só por falar comigo, mais outro cada vez que você briga com o bonitão pai de pet ali.


Gabriela acabou rindo; deveria ser exatamente assim.


E, naquele reality, as segundas eram muito piores do que os domingos. As dinâmicas eram plantadas para causar conflito. Gabriela já estava cansada. Ficou apenas se defendendo naquele jogo de acusações que chegava a ser violento de tão desconfortável. Ficou impassível, olhando todo mundo reto, sem titubear, mas se defender com a garra que Monique tinha, não deu.


Sentiu mesmo que Luís e Monique haviam ganhado no grito, mas não tinha ido ali para isso; seus objetivos eram outros. A terça-feira chegou; era a hora da verdade. O coração de Luís disparado, o de Monique acelerado e o de Gabriela batendo normalmente. Ela era feita de gelo, Bruna dizia, e ninguém acreditava também. Se medissem os batimentos de qualquer outro, deveriam estar perto de duzentos o programa todo, tinha certeza disso, mas Gabriela Habren... não, de jeito nenhum.


Eles não tinham como saber, mas ela foi a menos votada da noite, seguida por Monique, o que concretizou a eliminação de Luís com uma margem larga de votação. E tudo ficou ainda mais claro na mente de Gabriela: se as coisas estavam indo bem para si, não deveriam estar indo tão bem para Bruna.


Não estavam mesmo. Enquanto as redes de Gabriela subiam, as de Bruna estavam estagnadas. Ainda não perdia mais seguidores do que ganhava, mas aquele algoritmo estava preocupando sua equipe.


— Talvez ela perceba que ficou do lado errado agora — Júlia falou.

— Sabe? A gente que se iludiu; a Bruna nunca passaria para o papel de mocinha, ela é esse caos aí — Dara explicava.

— O problema é essa imagem de vilã começar a refletir na Fierce, nas propagandas, na publicidade, em tudo isso. A análise de riscos só aumenta; o valor de mercado da empresa está estritamente ligado à imagem dela. Tinha uma chance de isso dar certo, e essa única chance era ela ter deixado a Bem Indecente aqui fora, o que não aconteceu — Júlia estava refletindo.

— O meu namoro anda dependendo de Gabriela Habren; se isso não é o fundo do poço, eu não sei mais o que é — Gio estava visivelmente cansada — Ela só não ficou com a Monique até agora porque a Habren está lá, tenho noção disso total. A gente deveria ter feito algo antes de ela entrar, mas eu realmente não achei que as coisas iriam para este lado.

— Mas você sabe que isso não vai refletir em você tão mal quanto vai refletir nela, Gio. Você, sim, foi aprovada para o papel de mocinha diversas vezes — Foi uma observação de Júlia.

— Eu sei, e a Bruna, antes de tudo, é uma amiga que eu amo. Ao mesmo tempo, acho que, sem a Habren lá, também seria diferente. Ela não tomou o lado do Henrique, ficou contra a Gabriela. E a sua amiga Demerara, ó, assim que não a favoreceu mais, ela sumiu daqui.

— É como são todas as empresárias do entretenimento. Se fui contratada por não ter coração, o que te faz imaginar que ela tenha um?


Gio refletiu; Júlia tinha razão.


— Hum, faz sentido. E o que a gente vai fazer? Qual a estratégia?

— Acho que... “estratégia Bruna Ribeiro” é a que resta. Vamos assumir os nossos B.O.s e ir em frente; é isso que ela sempre faz.


Mais tarde, Dara estava terminando uma conversa ao celular quando notou Gio pensativa na varanda. Estava pronta para um show na madrugada, esperando que viessem buscá-la, mas, pelo olhar, o pensamento dela estava bem longe dali. Dara desligou, passou pela cozinha e então foi até ela.


— Gio, ei... — Entrou na varanda, com duas xícaras em mãos — Eu trouxe chá de limão pra você.


Ela pegou a xícara e abriu um sorriso.


— Mesmo com a Bruna longe, seguimos fazendo chá de limão nesta casa.

— Pra mim, faz parecer que ela está lá na cozinha, não que está longe da gente — Dara se encostou ao lado dela, sorrindo; era outra menina preta que não economizava beleza — Por que você está tão pensativa?


Gio bebeu um gole do chá, respirando profundamente.


— Fiz algo de errado.

— O que você fez de errado, Gio?

— O vídeo íntimo da Bruna voltou a circular com a comoção em torno da Eduarda na casa e acabei vendo. Eu não deveria ter visto; não sei por que fiz isso. É desrespeitoso com algo que ainda a machuca demais, mas, quando percebi, já tinha aberto o arquivo. Quem é a outra garota, Dara? Vi uma entrevista da Bruna da época, ela dizendo que era íntimo, que havia gravado com a namorada. Que namorada era essa?

— A namorada que ninguém nunca conheceu. Ela nunca havia mencionado nenhuma namorada antes; pra mim, ela nunca namorou ninguém antes de você. Mas disse isso nessa entrevista. Quando perguntei quem era, ela desconversou, falou que havia dito “namorada” para suavizar as coisas.

— Você acreditou?


Dara respirou fundo outra vez. Negou.


— E essa não foi a única vez que eu não acreditei nela a respeito disso. Eu acho, sim, que ela namorou alguém, escondido de todo mundo. Acho que foi um namoro que existiu e se partiu muitas vezes, e que não foi algo qualquer; foi algo que durou. Esse vídeo a destruiu de muitas maneiras. Mas acho que o principal problema não foi a exposição pública em si de um momento íntimo, mas sim quem a expôs.

— Isso foi há dois anos; ela estava morando fora — Gio se deu conta.

— Terminando a pós-graduação dela na Coreia. Exatamente há dois anos, a gente assinou contrato com a produção da nossa linha de cosméticos e esse vídeo saiu. Foi um golpe muito forte.

— Imagino que tenha sido.


Houve um momento de silêncio.


— Esquece isso, ok? Vai fazer seu show, tira isso da sua cabeça — Dara deu um beijo na testa dela — Vou subir, estou precisando de um banho e da minha cama, que não me vê há alguns dias — Comentou, sorrindo.


Gio beijou a mão dela, abrindo um sorriso.


— Pode deixar. Vai lá descansar.


Dara subiu e Gio tomou outro gole do seu chá, perdendo o olhar para o nada mais uma vez. Então, pegou seu celular, destravou duas vezes; sua galeria também era protegida por senha. Olhou prints que havia tirado do tal vídeo. Era claramente Bruna, de lingerie, em algum tipo de dinâmica sexual com a tal namorada que filmava tudo e, vez ou outra, a tocava. Os prints eram desses toques, eram daquela mão. A namorada estava de moletom de manga longa, mas, por um milésimo de segundo, a manga repuxou e deu para ver uma determinada joia naquele pulso.


— Insegura, exagerada, imatura, sim — Gio falou consigo mesma —, mas nunca fui louca.


Nunca deveria ter duvidado de sua intuição.



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