Vulnerável 6
- Riesa Editora

- há 5 dias
- 14 min de leitura

Eroica
Voltar do paredão deu a Gabriela uma nova perspectiva.
Passou a quarta-feira inteira concentrada. Sua mente intransponível retornou, e ela voltou a pensar com a clareza que era sua característica. E agradeceu que essa calma a tivesse tomado, porque o que veio naquela festa...
A tortura começou com o figurino.
A festa se chamava “O Inferno”, e todos receberam figurinos pretos ou vermelhos. Preto para Bruna, vermelho para Gabriela. Aliás, Gabriela recebeu um vestido muito bem ajustado. Alças espaguete, nesgas no abdômen e as linhas musculares delicadas se destacando na pele bronzeada pelos dias de piscina. O vestido era justo no dorso, mais solto para baixo, curto o suficiente para Bruna engolir em seco quando viu.
Gabriela havia sido vestida como a própria demônia, a anfitriã mais do que perfeita para o cargo.
Mas quando Bruna viu seu próprio figurino...
Achou que ia conseguir corresponder à altura, sim. O cropped preto, justinho, de mangas longas, gola alta, curto para deixar seu abdômen totalmente exposto. A calça jogger de cintura baixa, um agasalho do mesmo tecido sintético da calça para amarrar na cintura. Dava para ver as alças altas da calcinha desenhando formas pelo corpo dela. Botas de salto alto, do tipo coturno.
Gabriela respirou bem fundo quando a viu pronta.
A maquiagem de Bruna estava perfeita, os acessórios escolhidos a dedo. Seja lá quem fosse a stylist que estava vestindo todo mundo, era de extremo bom gosto e conhecia Bruna muito bem. Ok, era só ir lá fora e sobreviver à festa. Tudo ficaria bem.
A festa foi liberada e estava insana.
A decoração, a vibe. Tinha um túnel em labirinto, uma cápsula cheia de luz vermelha onde poderiam fazer vídeos e tirar fotos, que eram automaticamente reproduzidos em um telão do lado de fora. Gabriela foi até o bar e deu uma risada alta quando viu o vinho que estava disponível: Eroica Riesling. Um vinho branco norte-americano que era um dos seus preferidos. Uma coincidência? Raramente se mandava vinho para as festas, mas ali estava o seu preferido. Abriu a garrafa, serviu-se de uma taça e, quando colocou os olhos no telão...
Bruna estava no túnel vermelho. Fazendo o seu melhor catwalk, a luz vermelha realçando o preto do figurino, valorizando a paleta escura do combo: cabelos, olhos, maquiagem, tatuagens. O olhar reto, ferino, o andar de gata, a sedução no jeito de se mover. Gabriela não conseguiu evitar o sorriso.
O sorriso escapou enquanto tomava seu vinho e assistia àquele live action de alguns sonhos que, de tão eróticos, não contava nem para si mesma. Naquele exato momento, pensou que talvez estivesse prestes a enfrentar a maior prova de resistência da sua vida, mas nem por um segundo imaginou que seria tão...
Literal.
Monique estava simplesmente infernal em seu vestidinho preto, cheio de transparências e péssimas intenções. Ela estava feliz, empolgada, comemorando o retorno e, com a quantidade de destilados que veio no bar naquela noite, a Bem Indecente foi invocada antes de uma da manhã.
Aconteceu que, com a clareza do resultado do seu paredão, Gabriela tinha ignorado Bruna aquele dia todo. Não foi de propósito; era porque estava colocando suas ideias no lugar. Mas, para Bruna, Gabriela tinha se afastado por compreender que ela estava perdendo. Isso foi trabalhando na sua mente. E, naquela noite, quando se sentiu claramente rejeitada mais uma vez, a única coisa que Bruna queria era chocá-la de raiva.
E chocou.
Foi logo depois da coreografia de “Gata”, com todo o elenco feminino. Gabriela estava distante, mas foi puxada para a pista de qualquer maneira, e uma verdade que não podia ser contestada era: a energia de quando faziam aquela coreografia era maravilhosa. Elas se sentiam bem, juntas, livres, felizes demais, era sempre um dos pontos altos da noite, e bem ali Gabriela notou que Bruna já estava passando dos limites.
Ela tinha um problema com álcool. Vinha lidando bem com isso, mas, aparentemente, agora... só tinha voltado tudo ao que era antes. Naquela festa, ela estava bem além do ponto em que havia chegado nas anteriores. A fala alterada, a risada mais alta do que o comum e os olhos dela... Gabriela não sabia explicar, mas podia perceber, pelas pupilas de Bruna, que ela provavelmente já deveria parar. Os sinais estavam todos ali, mas Gabriela não podia fazer nada.
Então se afastou de novo. Foi pegar outra taça do seu vinho, que havia escondido num canto do jardim, quando ouviu os gritos comemorando o beijo e olhou só para ter certeza. Era isso mesmo, tinha acontecido: Monique e Bruna estavam aos beijos na pista de dança. Até que havia demorado. Serviu-se de mais uma taça de vinho e sentou-se numa bancada. Nuna se aproximou.
Ela estava de vermelho, lindíssima, diga-se de passagem. O contraste do vermelho justo com o bronzeado de praia, os olhos de gata que puxavam para o verde. Gabriela riu sozinha. Como tinha ido parar numa casa cheia de mulher gostosa? Devia ser castigo divino — pensamento aleatório aflorado pela quinta taça de Eroica.
— Tudo bem? — Nuna perguntou, preocupada.
— Tudo, sim. Eu nunca entendi por que todo mundo grita quando o povo beija — Gabriela abriu um sorriso tranquilo.
— É o espírito da quinta série. Você... tentou se conectar com ela. Tentou ao máximo.
— Acho que... engraçado, eu sinto que a minha batalha é para me desconectar dela, entende? Eu não queria me importar.
— Mas você se importa, Gab.
— Me importo, mas são questões externas. A gente se desentendeu lá fora, não era aqui dentro que ia resolver — Mantinha o olhar em outras coisas.
— Gabriela, você tem que me prometer uns negócios... — Nuna se sentou ao lado dela.
— Me fala, o que preciso prometer? Prometo tudo — Respondeu, sorrindo.
— Vai ter que me prometer que, quando a gente sair daqui, vamos marcar em Vila Velha pra você me responder perguntas de um questionário que estou criando aqui na minha cabeça — Nuna disse, fazendo Gabriela rir demais.
— E já são quantas perguntas aí nesse questionário?
— Umas trinta, mas diariamente me aparece outra questão.
— Desconfio que só vai crescer até o final deste programa aqui. Você podia dormir comigo hoje — Gabriela deitou a cabeça no ombro dela.
— Quer ficar de parzinho também? — Nuna perguntou, num tom divertido.
— Quero, você é meu parzinho! — Respondeu, sorrindo, enroscando seu braço no dela e buscando sua mão — Você é meu presente aqui, sabia? Sem você e a Eduarda, eu estaria muito sozinha.
— E eu, sem vocês duas, já não estaria aqui, Gab. Daí você me fala: quando achei que um dia eu ia ser amiga de Gabriela Habren, que ia dividir leite condensado com Eduarda Ricca ou até ser defendida por Bruna Ribeiro? Ela segue me protegendo, mesmo discordando.
— Ninguém é uma coisa só. As pessoas têm dificuldade de ver as multifacetas, porque a maioria segue com uma visão apenas binária — Refletiu. Ficaram em silêncio por alguns segundos e, depois, Gabriela concluiu: — Sabe o que a Bruna adora ler?
— O quê?
— Histórias que tenham o arquétipo de Hades e Perséfone. Você sabe o que é? — Nuna negou — Em resumo, Hades é o deus da morte, o deus do submundo. E Perséfone é uma jovem dócil, ingênua, filha de Deméter, a deusa da agricultura. Dito isso, você deve saber que Hades sequestra Perséfone, que, de alguma maneira, se apaixona por ele.
— Gente, mas que síndrome de Estocolmo é essa na mitologia grega...?
Gabriela deu outro gole em seu vinho, rindo um pouco.
— Pois é, essa é a história. Mas o arquétipo é mais delicado, porque vemos Perséfone como alguém fácil de agradar, que não gosta de tomar decisões, que... está confortável em ser cuidada pelos outros. Ela é doce, a alma de qualquer festa, a boa menina que sofreu muito, mas não perdeu sua essência por isso. Ela sempre floresce, sempre renasce, não pode ser derrotada. Isso tudo enquanto Hades é o bad guy, mas é admirável também. É forte, obscuro, mas, ao mesmo tempo, também é fiel, prudente, comprometido com quem se importa. É um arquétipo de luz e escuridão.
— Opostos que se atraem.
— Isso. Ela acaba se apaixonando por ele, a ponto de fazer um acordo com sua mãe deusa: Perséfone não precisa mais ser salva, porque não está mais sequestrada, mas também não deixará o seu amado. E, assim, passa a ficar metade do ano no submundo com Hades e a outra metade sobe à superfície para ficar com sua família. Nos meses em que ela fica no submundo, sua mãe fica tão triste que lança o outono e o inverno sobre a Terra.
— Ela fica com Hades e enfia o sequestro no c*, né? — Nuna disse, fazendo Gabriela morrer de rir.
— É mais ou menos isso.
— Por que você está me contando essa história, Gab?
Gabriela respirou fundo, olhando para qualquer lugar que não fosse a pista de dança.
— Hades está fazendo uma nova vítima. Mas, na mente dele, é Perséfone quem o faz e, em algum lugar, talvez seja mesmo. A deusa do submundo está em movimento — Completou, fazendo pouco sentido, mas Nuna achou que entendeu uma coisa ou outra — Quer saber? Vou ganhar essa prova amanhã e nós vamos ficar protegidas naquele quartão, você vai ver!
— Assim! Nessa energia, Habren, é como gosto de te ver!
— E quer saber mais? Segura a minha taça.
Tinha começado um set de funk e Gabriela queria só testar uma coisinha.
Aquela festa ficaria marcada como uma das melhores da edição.
A pista de dança ferveu quando Gabriela decidiu voltar. Entrou no set de funk apenas para provar o ponto de Bruna sobre o quanto dançava bem. Sabia o poder que seus movimentos tinham e, pela cara de Bruna Ribeiro, ela tinha sentido. Tentou disfarçar, deu uma voltinha, mas, quando a pista ferveu no auge do set, acabou se jogando também.
Bruna já tinha feito tudo errado, tudo o que não tinha entrado ali para fazer. Era para atingir Gabriela, mas machucava Gio. Não deveria ter bebido, não deveria chegar perto de Monique e, menos ainda, perto de Gabriela Habren.
Mas, quando Gabriela se deu conta...
Não. Bruna foi tão discreta que ela sequer percebeu. Foi dançando com uma, com outra, a pista havia enchido de repente, mas, quando Gabriela notou, recebeu uma encoxada muito familiar.
Bruna ainda iria fazer o seu coração parar naquele programa.
Ela encostou de leve, mal tocando em Gabriela, mas se colocando perto o suficiente para sentir a energia que acontecia quando estavam juntas.
Gabriela Habren era magnética.
E Bruna era ímã, era um corpo que gerava ondas magnéticas ao seu redor. Sempre houve esse campo magnético entre elas. E, quando Bruna chegou perto naquela noite, após uma garrafa de Eroica inteira na cabeça de Gabriela e mais algumas doses de destilados...
Hades. A grande questão é que, sempre que Gabriela se tornava Hades, Bruna era Perséfone sem resistência nenhuma.
Gabriela se jogou para trás, grudando nela de verdade.
— Tá dando para sentir o Eternity?
— Gabriela...
— Eu não senti o argan, o mel... — Virou de frente, tocando o rosto dela, enfiando o nariz nos cabelos de Bruna o mais rápido que podia. Roubou um cheiro e se afastou rapidamente. O emoji de boca mordida existia por causa daquela reação ali: Bruna sentiu o impacto, fechou os olhos, mordeu a boca, sorriu em seguida.
E novos gritos anunciaram que havia acontecido outro beijo entre Henrique e Camila. E Monique não foi a única que Bruna beijou naquela noite. Com Gabriela na pista de dança, ela decidiu distribuir selinhos pela noite toda, se divertiu demais e, quando fez a coreografia inteirinha de “Envolver” mais uma vez, incluindo a parte de solo...
Gabriela acabou sorrindo. Não aguentava. Como havia ido se enfiar em uma casa com Bruna, onde ela rebolava daquele jeito sem pudor nenhum? Esperava que seu poker face estivesse em dia. E, dali em diante, Bruna apenas passou muito do ponto. As cervejas faziam estragos nela, mas os destilados...
Eles a derrubavam mais rápido. A partir dali, tudo se tornou simplesmente uma loucura. A bebida pareceu causar efeito em todos. Todo mundo passou dos limites junto, foi um show de punições pelos motivos mais variados possíveis. E, no meio de tudo isso, de repente, Gabriela notou que Bruna não estava em lugar nenhum.
Bem, a encontrou pelo telão: ela estava sentada sozinha no túnel vermelho.
E era muito ilustrativo: da Bruna Ribeiro do começo da festa, fazendo um vídeo maravilhoso, tirando fotos incríveis, sendo linda, confiante, até aquela que havia bebido tanto que não devia fazer ideia de onde estava. Ou de como sair dali, foi o que Gabriela descobriu assim que chegou pertinho dela.
— Bru, precisa que eu te ajude em alguma coisa?
— Eu não consegui... sair. Eu não lembro por onde sair, bae.
Bae. Pegou no coração de Gabriela.
— Tudo bem, não tem problema. Quer que eu tire você daqui?
Bruna a olhou nos olhos. O rosto inocente, o olhar desprotegido... Como podia? Ela passou os braços pelo pescoço de Gabriela.
— Tira — Escondeu o rosto no ombro dela.
Gabriela a ajudou a ficar de pé e a pegou no colo, segurando-a pelas coxas, sentindo-a toda agarrada em seu pescoço. E, com ela assim, foi caminhando para fora do túnel.
— Habren, está tudo bem? Precisa de ajuda? — Um dos rapazes perguntou, e Gabriela negou.
— Tudo bem, ela só está de manha.
— Eu não faço manha — Bruna respondeu, fazendo manha.
— Nunca fez, claro que não.
— Gab, para onde que...? — Bruna estava confusa.
— A gente vai ao banheiro, está tudo bem.
A levou no colo até a entrada da casa, então foram andando até o banheiro.
— Você me carregou de salto, Gabriela.
— Para usar salto, tem que ser capaz de fazer qualquer coisa com ele. Vou te esperar aqui, ok?
Tudo bem, Gabriela podia esperar lá fora. Bruna entrou no lavabo e esvaziou o estômago. Como tinha bebido tudo aquilo? Às vezes, nem ela mesma conseguia se explicar. Mas, imediatamente depois, se sentiu melhor. A pressão em sua cabeça reduziu; no peito também. Havia feito bobagem, mas Gabriela... ela ainda estava perto. E deveria estar mesmo muito bêbada para ter esse tipo de pensamento. Saiu.
— A maquiagem sobreviveu? — Perguntou.
— A sua sempre sobrevive, Bru. Vamos voltar?
— Voltar?
— Aham, a gente tem que voltar.
Voltaram, porque Gabriela havia guardado um belo estoque de chocolates do buffet. Recuperou todos e sentou-se na grama, ao lado de Bruna.
— Chocolate?
— Pra gente restartar — Ela disse, enfiando uma trufa na boca e entregando outras para Bruna — Isso sempre corta o efeito. Lembra?
— Verdade — Bruna enfiou uma trufa na boca também — Eu não sei por que fiquei assim tão rápido.
— Tinha mais destilados hoje. Mas tomei uma garrafa de vinho inteira. Adivinha qual?
Bruna abriu um sorriso.
— Não...?!
— Uhum! — Se esticou, pegando a garrafa que havia escondido no jardim — Olha aqui, você lembra?
— Gab, eu estou muito bêbada, mas não tem como esquecer um negócio assim. Mas olha! Já te vi bebendo uma garrafa inteira dessas e saindo dirigindo em seguida.
— Eu já fui tão irresponsável, meu Deus!
Bruna olhava para ela.
— Você confia... que não vou dizer nada de errado, mesmo bêbada assim.
— Confio em você, Bruna. Foi o que tentei dizer na última vez que...
Bruna levou a mão à boca dela.
— Não fala mais. Você não está confiável, minha gata — Disse, de olhos fechados, fazendo Gabriela rir demais.
Depois da superfesta, veio o super after, com mais cenas inusitadas para a edição. O chocolate ajudou a cortar o efeito do álcool em Bruna, mas ela desconfiava que não havia funcionado em Gabriela. Até porque...
— Meu Deus...! — As mãos de Gabriela tinham feito um negócio praticamente sozinhas.
— Você... me pegou, Habren! — Estava no chuveiro com Eduarda e tinha colocado as mãos nos seios dela sem querer. E Eduarda estava rindo demais da situação.
— Não peguei, não — Gabriela tinha pegado, porque eram muito parecidos com outro par de seios que adorava.
— Pegou! E pegou gostoso. Estou carente. Não me pega assim, não, Habren, ainda mais com esses olhos verdes aí, eu tenho um fraco.
Gabriela estava rindo demais.
— Eu devia ter bebido menos.
— Nuna! Nuna, vem, a Gab me deu uma pegada!
— Você quer parar de espalhar, Duda? Desse jeito, eu não te pego nunca mais!
— Nuna, cancela, Gabriela Habren só pega no sigilo!
Bruna apareceu do nada, só de lingerie, aquela maldita lingerie preta que escapava da calça jogger. Olha lá! O par de seios naturais, lindos demais, tal como aquele corpo todo detalhadamente esculpido com a intenção de matar Gabriela. Ah, com certeza Gabriela lembrava.
— Sua fama está se espalhando, Habren.
— Bruna, some daqui, pelo amor de Deus! — E Gabriela virou de costas, olhando imediatamente para a parede, o que fez Bruna morrer de rir.
— Gabriela, você não está me olhando? Olhe aqui pra mim rapidinho.
— Não tem ninguém te esperando, não?
— Tem, mas quero o seu boa noite primeiro. Habren, me dá boa noite.
— Boa noite, Bruna! Durma bem!
— Não vai me olhar?
Gabriela virou de frente. E decidiu sair do banho.
Só de biquíni, o corpo escultural, as pintinhas de beleza. Passou pertinho de Bruna, um olhar alongado por ela inteira, e pegou a toalha.
— Olhei. Pode pôr no seu currículo — Ela disse, bem desaforada, e saiu do banheiro.
E Bruna ficou...
— Odeio essa menina, odeio!
— Você repete isso umas três vezes por dia, Bruna Ribeiro — Eduarda ainda não havia parado de rir.
— É para ver se me convenço de que é ódio mesmo.
— Ô, Bruna, pegaria a Habren? — Nuna perguntou, quase despretensiosamente, mas só quase.
— A Habren? Não pego! Onde eu pego? E nem ela me pega, aqui, olha... — Apontou o próprio corpo — Gabriela não pega mais, nunca mais.
Todas caíram no riso.
No final, Bruna dormiu agarrada a Monique e Nuna cuidou de ocupar o espaço ao lado de Gabriela. E uma guerra de ships estava declarada no dia seguinte: brunique x gabruna, chazinho x espumante.
A nota oficial de Gio Jordín veio pouco antes da prova do líder: muito educadamente, dizia apenas que ela não falaria a respeito do que estava acontecendo na casa e que esperaria Bruna sair para uma conversa. Era por essas e outras que ela vivia passando nos testes para mocinha.
A prova do líder veio, uma mistura de agilidade e força, feita em rounds de eliminação que culminaram em quatro vencedores que iriam disputar uma rodada final.
Henrique x Camila x Bruna x Gabriela.
E, na pressão absoluta, a vitória foi de Gabriela Habren. E a questão era que, além de ter físico, memória e mente, Gabriela tinha muita sorte.
Venceu a prova e montou um VIP feminino em seguida, formado por suas principais aliadas. Bruna não estava entre elas, mas, em contrapartida, estava com suas próprias aliadas na Xepa, e isso tornava as coisas um pouquinho melhores.
Aos trancos e barrancos, Bruna estava se dando bem com todo mundo, ou melhor, com quase todo mundo. Sentia Gabriela mais distante, e isso machucava mais do que gostaria. Ela era uma nas festas e outra fora delas, era como se tivesse duas personalidades. E Bruna se perguntava quando não havia sido assim.
Hades e Perséfone, mudando de lugar o tempo inteiro.
A sexta-feira amanheceu calma e bonita.
E havia um café da manhã bem interessante na mesa da Xepa. Fizeram o melhor que puderam: café, pão na chapa e uma tigela generosa de algo que todas curtiam:
Geleia de mocotó.
Que aquelas três moças veganas adoravam. Sentaram-se as três: Bruna, Monique e Camila, elogiando a geleia, que era tão gostosa. Espalhavam a geleia pelas torradas enquanto Gabriela e Nuna estavam saindo do quarto do líder.
— Mas você sabe o que é? — Monique perguntava.
— O quê? Mocotó? — Camila indagou.
— Parece uma semente, não parece?
— Não! Parece nome de fruta. Deve ser uma fruta dessas do cerrado, que ninguém sabe o nome — Bruna falou.
— Deve ser! — Monique concordou — Uma fruta do cerrado. Ou uma florzinha.
Nuna e Gabriela se olharam, sorrindo demais.
— Eu conto ou você conta?
— Não, ninguém conta! — Gabriela foi levando Nuna para o outro lado da piscina — Deixa elas comerem, não tem quase nada na Xepa.
— Mas como elas não sabem que mocotó é a canela do boi, Gab?
— Elas não sabem — Gabriela estava sorrindo demais — Deixa elas pensarem que é uma flor ou uma fruta, não vai fazer mal. Sabe? Adoro essas coisas nela.
— Na Bruna?
— Uhum! Ela é uma mulher de negócios foda, uma cosmetóloga incrível. Ela estudou para isso, leva muito a sério e só trabalha com coisas que sejam boas para as pessoas e para a natureza. Mas, ao mesmo tempo... não sabe o que é mocotó. É inocente assim, é bobinha, eu acho a coisa mais linda.
Nuna olhava para Gabriela.
— Você gosta mesmo dela, né?
— Gosto. E, por isso, estou me preparando para a possibilidade de ela nunca mais querer falar comigo.
— Por que você está dizendo isso?
Nuna entenderia no domingo.








Comentários