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Acróstico 17

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


Amanhecer


O sol entrava pelas portas da varanda, pintando o chão de madeira do quarto de Hanni e, delicadamente, subindo, centímetro a centímetro, chegando até dois pares de pernas completamente enroscados.


Estavam rolando pela cama, rindo de qualquer coisa, Hanni de lingerie, Presley de calcinha e camiseta, olhos brilhando, sorrisos ininterruptos, um corpo sempre buscando o outro, mãos se tocando demais e beijos que não paravam. Elas se beijavam o tempo todo, se cheiravam o tempo todo, não queriam parar, soltar, fazer outra coisa que não fosse estarem uma na outra, quase como um vício.


Ou, em vício. Achavam estar mesmo viciadas.


Honi, eu preciso ir — Presley disse, sentada em cima dela, com a boca correndo por aquele pescoço que não conseguia parar de tocar.

— Você realmente precisa?

— Eu preciso, Aika está em casa, lembra?


Hanni revirou os olhos, e Presley riu.


— Externalize esse pensamento.

— Ela também tem pai.

— Tem, mas ele vai trabalhar daqui a pouco. Você me pediu para amanhecer com você, nós amanhecemos, huh? — Desceu mais beijos pelo pescoço dela, a mão seguindo por aquele abdômen atraente até repousar em sua...

— É assim que você me diz que precisa ir embora...?


Presley a olhou nos olhos.


— Vem para o banho comigo — Presley pediu, afundando beijos pelo pescoço dela e acariciando por cima da calcinha, exatamente onde sabia que... apenas sabia, desde a primeira vez que ficaram no meio da rua.

Babe...

— Vem?


A carregou para o banho, os risos ecoando pela casa inteira.


Foram para o banho, a luz do sol também invadia o banheiro, roupas fora do corpo e, entre todas as fantasias que Hanni já havia tido com Presley, em nenhuma delas estava tê-la tão, mas tão viciada na sua...


Só foi empurrada contra a parede e apenas viu Presley descendo pelo seu corpo outra vez, a viu se ajoelhando e a boca apenas...


— Devagar, honi — Hanni pediu, já fechando os olhos, as mãos já perdidas entre os cabelos dela.

— Você está dolorida, não está? — Ela perguntou sorrindo, muito atrevida, olhando para cima.

— Você sabe que sim! Aquele tipo de dor...

— Depois de uma noite gostosa — Lambeu Hanni, de forma muito delicada, a fazendo se derreter num suspiro — Estou sentindo também.

— Eu te machuquei?

— Babe...

— O quê?


Ela olhou para cima mais uma vez.


— Não tem uma mordida que você tenha me dado que eu não tenha gozado feito louca.


Era por isso que Hanni não sabia quantas vezes gozaram durante aquelas horas.


E a vontade simplesmente não passava.


Perderam a hora no banho, é claro que perderam, porque se Hanni gozava, queria fazê-la gozar também, e isso se tornava um ciclo viciante, descontrolado. Não, elas não tinham nenhum controle e nenhum medo. O que mais surpreendia era a ausência de medo, porque deveriam sentir, mas aquelas horas haviam sido tão mágicas que... o medo simplesmente sumia. Era inexistente. Será que era isso que acontecia quando se encontrava aquela pessoa? Não exatamente uma forever person, mas...


— Presley, já aconteceu de você ficar com uma pessoa que só de encostar te deixou obcecada? — Havia perguntado para ela no meio da noite, enquanto faziam amor no chão da cozinha.

— Já. Você. Quero mais noites assim, Hanni, eu preciso de mais.


Tiveram outra conversa depois do banho, enquanto Presley se vestia para sair e Hanni se vestia para dormir.


— Como você...? Não deixou nenhuma marca? — Presley se observava no espelho.

— Deixei onde você pediu para deixar — Respondeu Hanni, sorrindo.


Ela puxou o top, a marquinha sobre o seio, uma delícia!


— Eu sei, mas você não deixa de me morder, de me chupar e só não deixa marcas. Como você...?

— Experiência.


Presley a olhou feio.


— Ei!

— Com quantas mães você já saiu na vida, Park Manu?

— Uma. Você! — Ela respondeu, rindo — Babe, eu costumo ficar com algumas modelos, e modelos não podem chegar marcadas para fotografar.

— Você vai fotografar na segunda.

— Eu sei, vou levar bronca de novo — A abraçou por trás, beijando carinhosamente o ombro dela — Mas não tem problema, eu gosto, com você. Aquela primeira noite, se você não tivesse deixado nenhuma marca em mim, era capaz de eu ter duvidado do que havia acontecido.


Presley se virou de frente para ela.


— Desta vez, você tem certeza?

— Acho que sim. Mas é bom ter umas marquinhas suas em mim de qualquer maneira.


Presley a olhava nos olhos. A beijou, sentindo os braços de Hanni ao redor da sua cintura.


— O que a gente faz agora, Hanni?

— Se eu disser que quero ser sua amiga... Ouch! — Levou uma mordida no ombro, de graça, riu demais — Presley!

— Eu não sou a Alexia, Hanni, você não pode me enrolar assim!

— Eu não enrolo ninguém, o meu medo é que você não me assuma, lembra? E você já sabe, se não assumir, é escândalo — Apertou os braços na cintura dela — Quando eu te vejo de novo?


Era uma pergunta complexa. Presley enroscou os braços no pescoço dela.


— Acho que tenho muita coisa para resolver, eu não sei como será essa semana, não sei como será agora quando voltar para casa, a verdade é que... eu não sei de muita coisa, Hanni.

— Presley...

— Vamos descendo, eu quero te fazer ao menos um café.


Desceram, Presley foi fazer um café, Hanni encontrou alguns biscoitinhos. Haviam jantado no final das contas, às cinco da manhã. Presley adorou o pão com linguiça, e Hanni não esqueceria aquela cena tão cedo: as duas de lingeries, sentadas em cima do balcão da cozinha, conversando e conversando, o prazer ainda correndo pelo corpo, uma eletricidade única, diferente. Presley serviu duas xícaras, uma para cada. Ela já estava nas roupas do dia anterior: minissaia, top, os cabelos molhados, que não secaram. Hanni sabia que precisavam falar sério um pouco.


— Pres, eu sei que você vai odiar o que vou dizer, mas... é provável que você precise de uma amiga nos próximos dias, nas próximas semanas, eu não sei.


Ela respirou fundo.


— E tem que ser você?

— Você só tem a mim e a Aliana. Tem a Kaori também agora, mas enfim. O que eu não quero é que você escolha quais assuntos tratará comigo, ao invés de deixar vir naturalmente. Eu não quero que... você esconda nada de mim, eu não sei se estou me fazendo compreender muito bem.


Presley pensou um pouco. Deu outro gole longo na sua xícara.


— Nós não estamos livres.

— Estamos quase, mas ainda não. E eu não quero... pesar nesse tipo de decisão. Sei que você está decidida a isso há muito tempo antes de mim, mas... — Olhou nos olhos dela — Tudo o que quero é que você seja feliz. Eu senti isso de imediato, assim que olhei para você naquele hospital. Quero que você seja feliz e quero estar com você. São os meus sentimentos primordiais quando se trata de você.


Presley chegou pertinho dela. A olhou nos olhos, a beijou rapidinho.


— Quero que você seja feliz e quero estar com você. Quero estar sempre aqui, com você. Mas estou com medo. Porque é comum que... as coisas nunca saiam como desejo — Disse, com algum pesar.

— Ei... — Hanni tocou o rosto dela — Nós não estávamos com medo horas atrás. Não vamos sentir medo agora. Vamos encarar a situação, resolver o que temos que resolver, é assim que as coisas funcionam, não temos muitas saídas. E é por isso que eu não quero que você me isole dos problemas, entende isso?


Presley buscou os olhos dela novamente. A abraçou, sentindo os braços de Hanni cruzando em sua cintura.


— Você... é realmente uma ótima amiga para mim, eu sei que posso contar com você — Era uma grande verdade.

— E eu não quero que isso mude, ainda mais, nesse momento incerto de agora.


Presley não queria perdê-la. E nem queria ir embora, mas sabia que precisava ir. Hanni a acompanhou até o seu carro, agora cheio de coisas de Hanni, cheio de coisas de Presley. Ela ensaiou retirar, mas...


— Deixa assim — Presley pediu.

— São roupas que preciso lavar, babe.

— Eu sei, honi, deixa aqui, deixa comigo. Tem roupas no seu carro também.


Hanni a olhava. A beijou, mais uma vez, longamente, ela dentro do carro, Hanni inclinada para dentro. E finalmente, Presley partiu. Hanni abriu o seu carro, encontrou um casaco de Aika e um terninho de Presley. Pegou os dois, caminhou de volta para dentro de casa sentindo o cheirinho das duas.

Às sete da manhã, Aliana estava sendo acordada.


Não sabia exatamente o que havia feito na sua vida passada, porque tinha que ser cármico, tinha que ser mesmo de umas duas vidas para trás para estar sendo acordada num sábado, às sete da manhã, após ter ido para a cama às cinco. Tentou ignorar, jurava que tentou, deixou o celular tocar até cair e permitiu que batessem na porta o suficiente para ver se desistiam, mas não, nada feito. Então, se deu conta de que não era Presley, porque ela tinha chave, e decidiu ir ver quem era de uma vez.


— Sério isso, Leo?

— Preciso que você fique com a Aika — Ele disse, entrando com sua filha ainda adormecida sobre o ombro.

— Por quê? O que...? — Andou até ele — Me dá ela aqui — A pegou nos braços e a levou para o quarto, não queria que Aika acordasse, e Leo se moveu na iminência de segui-la — Não, eu não estou sozinha.

— Como assim não está sozinha?

— Não estou, espera aqui — Entrou no quarto com Aika nos braços.

— E você vai colocar a minha filha para dormir com um cara qualquer?!


Ela voltou para a porta.


— Não é um cara qualquer, é a minha namorada. Quer falar baixo para não acordá-la também?


Ele parou. Deu dois passos para trás, andou para o sofá meio sem reação. E delicadamente, Aliana colocou Aika pertinho de Kaori.


— Kaori?

— Hum?

— O bebê está aqui, ok?


Ela passou o braço por Aika.


— Ok. Está tudo bem?

— Eu não sei ainda, já volto.


Retornou para a sala. Claramente, seu irmão não havia dormido nada. Pegou dois cafés expressos para eles e sentou-se perto de Leo.


— Você está namorando?

— Estou, mas ela ainda não sabe.


Como assim...? Ok.


— Por que não?

— Porque eu não namoro há muito tempo, eu não sei ainda se é isso mesmo que quero, mas por hora, por esta semana, ou essa noite, pareceu um namoro

— Ela está dormindo aqui.

— É, nisso que pensei. Leo, o que você...?

— Estou fazendo aqui? Vim ter certeza de que a Presley não dormiu aqui, ela não voltou para casa.

— Ela...?

— Disse que ia ficar aqui com você.


Aliana ficou em silêncio. Custava ter avisado?


— Ela disse que me traiu, Lia, e eu sei que você sabe com quem.

— Leo, isso é assunto de vocês. Você entende que eu não devo interferir?

— Não é você?

— Meu Deus! Você quer checar quem está no meu quarto?


Mais um silêncio.


— Acho que preferia que fosse você.

— Não, não preferia, claro que não — Aliana o abraçou pelos ombros.

— Você gostou dela por muito tempo.

— Gostei, mas ela se casou com você e eu nunca cruzaria essa linha. Presley é minha melhor amiga, Leo, e é assim há anos, e você sabe que depois que a Aika nasceu...

— O mundo dela se tornou a Aika — Os olhos dele se encheram — Sabe o que é muito triste sobre tudo isso? É que sinto que nunca tive a chance de ter uma esposa mesmo, da mesma forma que ela não teve a chance de ter um marido do lado, nós só... nos tornamos pais, saímos de um estágio direto para o outro. Amo a minha filha, você sabe que amo, com todos os problemas que sei que tenho, com tudo o que sei que devo a ela, eu amo a minha filha, eu amo a minha família.

— Leo, eu acho que você está apegado a uma ideia muito romântica sobre o que é um casamento, sobre o que é uma família. Você é muito novo, não deveria estar enterrado nessa vida de trabalho, casa, trabalho do jeito que está. Talvez essa mudança seja mais necessária do que você imagina, talvez não veja a importância disso agora, mas quando olhar de mais longe, vai compreender melhor.


Ele pareceu pensar a respeito.


— Mas, e a Presley?

— O que tem ela?

— Como ela vai fazer tudo sozinha? Ela vai recusar que eu siga cuidando dela, Lia, você sabe como ela é.


Aliana o apertou mais forte nos braços, pensando sobre o que ele estava dizendo.


— A Pres vai ter que aceitar se algo começar a faltar. Mas ela está indo bem na embaixada. Se ela trabalhar nos dois horários, ganhará o dobro, o que não é nada ruim.

— Ela está indo bem?

— Está traduzindo para mais de uma língua, tem recebido mais tarefas e feito as lives da embaixada junto com o embaixador. Você não viu nada disso, não é?

— Eu... nem tinha a visto no Instagram da Diesel.

— Lembra do que eu sempre te falei? A Presley não tinha que estar enfiada em casa, Leo. Ela é linda, é interessante, sempre recebeu atenção, e eu sei que isso te incomodava. Sei que te deixava inseguro, e eu acho que inconscientemente, talvez, você tenha ficado confortável com essa nova era dela muito em virtude disso. Isso te deixava confortável. Ninguém ia roubá-la de você dentro de casa.

— Como um covarde agiria — Ele disse, soltando o ar pela boca — Mas eu não estava errado no final.

— Como assim?

— Ela saiu faz menos de um mês e alguém a levou de mim. É... esse embaixador? Sei que ele se interessou por ela. Embaixadores não fazem entrevistas para tradutoras.

— Não! Claro que não é, Leo. Isso não é mesmo importante. Ela não te explicou? Foi uma única vez, não existe uma relação. Essa decisão de separar, é pela Presley, apenas por ela, não envolve mais ninguém. Sei que é difícil de entender, eu mesma fiquei com dificuldades ontem, e deve ter sido por isso que ela não veio comigo, eu a irritei.

— Ela saiu de casa calma, numa calma que me assustou. Como que...?

— Eu a irritei, eu consegui, enfim. O importante é que tudo isso é mesmo apenas sobre ela. Ela quer tentar outras coisas, quer ter perspectivas que dependem dela. Você sabe que ela jamais se tornaria a esposa que te espera com o jantar na mesa. Eu não sei como ela estava se tornando essa pessoa, só... não era a Presley. Ou era ela tentando, entende? Tentando que vocês dessem certo de alguma forma, de alguma maneira, porque não tem nada que aquela mulher queira mais do que deixar a Aika confortável, do que fazê-la feliz, e isso passa, sim, pelo relacionamento de vocês dois. Então, essa Presley que se casou com você é a Presley tentando, Leo. Ela tentou, mas agora precisa de mais. Por que você veio deixar a Aika aqui? Já vai para o trabalho?

— Eu não tenho como trabalhar, Lia. Eu não vou hoje, mas preciso conversar com a Presley, preciso que ela volte para casa. Você pode pedir que ela volte? Precisamos terminar de conversar.

— Você não conhece a sua esposa mesmo, não é? Ela vai voltar. Ela já deve estar lá, porque imagina que você vai trabalhar e ela precisa ficar com a Aika. Vá para casa, eu cuido da pequena. Tente ponderar tudo com racionalidade. Você não está feliz também, isso eu sei.

— Mas eu deveria, não é? Com a filha e a esposa que tenho. Eu deveria.


Não soube o que dizer.

Quando Presley chegou, não encontrou ninguém em casa.


As coisas estavam todas do jeito que havia deixado, nada parecia alterado, fora do lugar. Leo havia feito café e só. Sua filha não estava, o carro dele também não, mas não se desesperou. Conhecia seu marido, confiava nele plenamente. Ele deveria ter ido levar Aika em algum lugar e estaria de volta logo. Tomou outra xícara de café, fez um sanduíche de queijo e presunto (que Hanni adorava); Presley estava faminta. Trocou de roupa e sentiu novamente aquela dorzinha gostosa por dentro.


Era engraçado, Presley sempre teve na cama um comportamento diferente do que esperavam dela, mas havia sido somente até aquela noite com Hanni. Naquela noite, se sentiu inspirada a fazer muita coisa; na noite passada então... Nunca tinha se sentido tão livre com ninguém. Tão... capaz. Era essa a sensação que tinha. Se sentiu inspirada, intensa, sexy demais. Havia pensado diariamente desde aquela primeira noite se saberia o que fazer com Hanni se elas avançassem mais. Bem, ela estava deliciosamente dolorida, sorrindo e com a pele brilhando quando a deixou de manhã. Alguma coisa havia feito direito.


Veio para o sofá e esperou. E logo, Leo estava mesmo de volta. De jeans, camiseta, cabelos bem penteados, bonito, sim, sempre bonito.


— Você... não vai trabalhar?

— Não, eu tirei o dia de folga. A gente precisa conversar, Pres.

— Eu sei que precisamos, mas achei que você fosse trabalhar. Vim ficar com a Aika para que você possa ir.

— Essa casa é sua, Presley, não aja como se não fosse, como se você tivesse que voltar para outro lugar. Onde você dormiu?

— Leo...

— Eu sei onde você dormiu. Deixei a Aika com a Aliana, sei que você não ficou com ela — Silêncio — E eu vi que você está com o seu carro novamente.


Mais silêncio. Presley nem havia pensado nisso.


— Passei a noite com uma amiga.

— Com a Hanni.

— Isso, com a Hanni. Eu me desentendi com a Aliana e acabei indo ficar com a Hanni, achei melhor.

— Ela me disse isso também. Bem, você teve uma noite fora, deve ter conseguido respirar, pensar melhor nas coisas. Eu pensei bastante, e acho que não quero ficar preso no que você me contou, sobre ter cometido um deslize. Nós somos casados, Presley, temos uma filha que precisa de nós dois, você sabe disso melhor do que eu. Então, a gente pode... conversar? Com calma?


Presley olhava para ele. Podiam, claro que podiam, era o mínimo.

Manu foi acordada com a voz de Aliana ecoando em sua cabeça.


Aliana? Como assim...?


— Park Manu? Acorda que eu trouxe a sua filha para você cuidar, eu tenho que trabalhar e não confio na Kaori para ficar com ela.


Checou a hora no celular, era quase dez da manhã. Levantou, estava só de lingerie; colocou um shortinho e um moletom. Quando desceu, era isso mesmo. Lá estava na sua sala, Aliana Harris, já pronta para ir trabalhar aparentemente. Jeans, camiseta, terninho, óculos escuros, uma gata!


— Como assim...?

— Você deixa a Kaori livre para entrar e sair da sua casa, dá nisso — Aliana veio até ela, lhe deu um beijo no rosto.

— Tudo bem?


Hanni abriu um sorriso que, sinceramente, que coisa charmosa.


— Entendo por que as mães caem em cima de você gratuitamente. Eu cairia e nem sou mãe, para de sorrir assim.

— Lia!

— E ainda fica vermelha, é o fim mesmo. Ok, sua noite foi boa, não foi?

— Foi... maravilhosa! — Havia ficado um pouquinho mais vermelha só de lembrar.

— Presley já foi para casa?

— Foi. Ela disse que o Leo provavelmente teria que trabalhar, alguém precisava ficar com a Aika.

— Ele levou a Aika para mim, mas tenho que trabalhar também, então, eu trouxe a criança para você. Você pode ficar com ela?

— Posso, claro que posso, estou com o dia livre hoje. Isso significa que o Leo não vai trabalhar?

— Não, ele tirou o dia para conversar com a Presley, pediu que eu ficasse com a Aika por conta disso. Hanni, vocês duas...?

— Nós conversamos, está tudo bem. Sei que ela está no meio de algo, eu também estou. Estou aqui por ela, para apoiar no que ela precisar.

— Você está no meio de algo também? Ainda?

— Lia...

— Enfim, não é meu problema, eu sei. Mas sinceramente, Park Manu, já temos problemas demais, agiliza isso aí — Disse, a fazendo rir — Então, fica com a sua filha?


Hanni sorriu. Claro que ficava. Foi lá fora e imediatamente, Aika correu na sua direção. Hanni a tirou do chão, jogando-a para o alto, provocando muitas risadas antes de abraçá-la com força, cobrindo-a de beijos e, acima de tudo, de amor. Como podia parecer tanto com amor aquilo que existia entre elas?


— Acho que é — Kaori disse, parando ao lado de Aliana.

— É pouquíssimo tempo.

— Você já leu ali na parede da Hanni? — Kaori apontou para o quadro que ela tinha na sala.


Nós nunca temos que forçar o amor. Nós nos afogamos nele no momento em que o encontramos.


Parecia fazer sentido.


Aliana foi trabalhar e, após passar uma hora inteira brincando com Aika, Hanni foi fazer o almoço. Ela queria... “churrasco”, igual ao que haviam comido outro dia, na festa depois da graduação, e Hanni foi providenciar o que ela queria. O arroz, a carne, a linguiça, a salada, tudo, só porque gostava de vê-la sorrindo daquela forma. Ela ficou feliz, ajudou em tudo, conversou com Hanni, fez perguntas que Manu ainda decifrava devagar, mas decifrava. Estava estudando mais, vendo mais vídeos e dominando o alfabeto; tudo facilitava e ficava muito surpresa com o tanto de palavras que Aika sabia soletrar.


— Ela tem três anos ainda, faz quatro semana que vem — Hanni dizia, enquanto almoçavam na mesa lá fora.

— A Aliana estava falando sobre a facilidade da Presley para idiomas, listou uns quatro que ela fala e uns três que entende, ela deve ter herdado isso da mãe. Hanni, você não vai me contar o que aconteceu, não?

— Com a criança que é poliglota? De jeito nenhum, eu te conto depois.


Foram para dentro depois que almoçaram. Aika estava suja, havia brincado muito lá fora. Hanni deu banho e a trocou. Quando foram para o sofá assistir Pokémon, ela acabou dormindo em vinte minutos. A deixaram dormindo no sofá e foram fazer um café para as duas, enquanto Hanni contava como havia sido a noite.


— Ela...?

— Juro que não esperava vinte por cento de toda... aquela atividade — Hanni tomou um gole do seu café, sorrindo.

— Hanni, você é inocente mesmo, né? A gata quase te pegou lá fora, no meio da rua. O que você achava que ia acontecer com ela te pegando aqui dentro, no conforto do teu lar? — Kaori não parava de sorrir — Ela só...?

— Me pegou aqui, nesse balcão mesmo. Desci do quarto, radiante por tudo o que a gente já tinha feito, mas ela me seguiu até aqui e só... me pegou. Do jeito que ela queria.

— E você é a primeira dela mesmo?

— Eu não sei, não perguntei sobre isso para ela. A gente nunca... se perguntou nada sobre isso. Ela nunca me perguntou se eu ficava com mulheres, eu também não perguntei para ela, a gente só... sabia? Sabia algo uma sobre a outra, ou assumimos algo uma sobre a outra.

— Hanni, você... você está diferente com ela.

— Eu sei, eu estou apaixonada por ela, Tay. Sei disso, ela sabe disso, aparentemente, muita gente sabe disso. Mas ainda há muita coisa para ser resolvida, ela me disse que pediu a separação, mas entre pedir e conseguir, muita coisa ainda acontecerá. Tem o casamento, tem a Aika, essas coisas não se resolvem assim.

— Você... é tão calma. Eu no seu lugar, estaria surtando desde já, mas você está aqui, calma, tranquila.


Hanni olhou para o sofá. Aquela pequena coreana dormindo tão tranquilamente.


— A Presley quer se ajustar, Kaori. Ela está se separando para arrumar a vida dela e isso não acontecerá se ela só pular de um relacionamento para outro, ainda mais, pular para um relacionamento comigo.

— Manu, você fala como se fosse a pior pessoa do mundo para se relacionar, quando, na verdade... você é essa aqui, que teve todo o cuidado do mundo com a Presley, que saiu para comprar carne porque aquela coreanazinha ali pediu, que está aprendendo NZSL para conversar com ela. O que tem de tão errado com você?


Ela tomou outro gole longo do seu café, olhando para Aika mais uma vez.


— Eu... eu não me relaciono, Tay. Não sei se estou pronta para me relacionar, se eu seria uma boa namorada para alguém.

Para alguém, eu tenho realmente as minhas dúvidas; as mulheres adoram você e você adora as mulheres, eu não te culpo por nada, porque vejo a queda livre em cima de você. Mas para a Presley... Hanni, eu acho que vocês já estão namorando, mas não notaram ainda. Você disse para ela que está apaixonada?


Ela confirmou sorrindo.


— E ela disse também. Foi tudo tão bom, tão... simples. Como algo que precisava acontecer, que não tinha como não acontecer. Ela disse que precisava ir, que não podia ficar, mas eu pedi e ela amanheceu comigo.

— Bem, eu amanheci com a Aliana também.

— Mesmo? Na casa dela?

— Ela me pediu para ficar. Eu não sei o que pode significar, mas estávamos juntas e ela pediu que eu não fosse embora. Eu... conheci o Leo quando ele foi deixar a Aika, acabei saindo do quarto e o conheci.

— E como ele é? Quero dizer, eu já sei como ele é fisicamente, mas como ele é mesmo, como pessoa.

— Ele é bonito, gentil, parece com a Aliana. E não parecia que tinha dormido muito.

— Eu também não dormiria na situação dele. Eu não sei como me sinto a respeito de tudo isso, não sei se tenho que sentir algo também, eu nunca estive em uma situação assim antes.


Kaori a olhou e abriu um sorriso.


— Nunca, Manu?


Ela riu.


— Nunca... presenciei uma separação.

— Você sai antes, né, sua canalha!


Ela riu alto demais.


— Eu não disse nada, foi você que disse!

— Aham, fui eu que disse. Ali, sua filha acordou.


Hanni olhou e:


— Ela não está acordada — Hanni deixou a caneca sob o balcão e foi pegar Aika no colo imediatamente.

— Ela... não está acordada?

— Não está, está sonâmbula provavelmente. A Presley me disse que ela desperta assim de vez em quando, às vezes está acordada, às vezes não, mas como ela não tem estímulos auditivos... — Hanni a apertou contra o seu peito e se levantou com ela, balançando-a suavemente — Ela tem que sentir a gente — E delicadamente, começou a tapear o esterno dela e os olhinhos foram se fechando novamente. E o celular de Hanni começou a tocar — Vê quem é, por favor.


Kaori pegou o celular.


— É da portaria — Atendeu, ouviu e: — Hanni, é a Alexia. O que eu faço?


Ela respirou fundo.


— Pode liberar.

— Mesmo? Seu pescoço tá lindo.

— Deixa, eu vou fazer o quê? Será pior se eu disser que não.


Kaori autorizou e desligou.


— Quer que eu saia com a Aika?

— O quê? Deixar a criança com você? De jeito nenhum! — A apertou contra o peito ainda mais forte.

— Mas desde quando sou tão irresponsável assim, gente?

— Você não sabe coreano — Cheirou Aika, andando de um lado a outro com ela — E ela faz o que quer de você.


Kaori pensou um pouco.


— Talvez você tenha alguma razão. Mas acho que preciso sair, Manu, Alexia e eu não temos mais clima, nunca tivemos, na verdade. Vou para casa e volto no final da tarde, tudo bem? Venho buscar o Furacão Katrina quando a Aliana sair. A Presley não te escreveu nada?

— Não, mas não se preocupa com a Aika, eu cuido dela.

— Muito melhor do que eu. Me liga qualquer coisa, tá?

— Ligo, pode deixar.


Alexia viu o carro de Kaori cruzando o seu caminho na contramão. Ela estava saindo muito claramente e meio que não se surpreendia. Nunca tinham se dado muito bem; não iria melhorar agora, onde tudo estava tão complexo. Parou o carro, a porta estava aberta. Foi entrando devagar e viu a TV ligada, uma temporada de Pokémon passando. Hanni estava no sofá, com uma cópia dela agarrada ao seu lado, tomando suquinho natural, suada, sinalizando com aqueles dedinhos. Alexia não soube muito bem o que dizer, apenas chegou perto, se abaixou, fez um carinho em Aika porque ela era irresistível. E viu as marcas no pescoço de Hanni.


— A mãe dela está aqui também?

— Não, não está. Você não me disse que vinha, ela... ela estava dormindo, acordou de repente, assustada. Mas acho que vai dormir de novo e nós podemos conversar, tudo bem?


Alexia tocou a mãozinha de Aika e ela sorriu. Como podia ser tão parecida com Hanni assim?


— Ainda não disse para Presley que ela não pode marcar uma modelo?

— Alexia...

— Ela vai acabar com você. Ela sabe disso e você sabe disso.


Hanni ergueu a mão, pedindo para ela parar.


— A criança consegue ler você. Alexia, por que você não pega um suco e vem assistir o anime conosco?

— Sério isso, Manu?

— Foi você quem veio sem a gente combinar.


Alexia a olhou, levantou, foi pegar um suco e sentou-se ao lado delas no sofá.


— A gente nem terminou, eu volto aqui e te encontro casada e com uma filha.


Hanni sorriu.


— Ela parece minha, não parece?


Alexia olhou.


— Parece. E a mãe é uma vampira.


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4 comentários


Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
06 de dez. de 2023

Que capitulo incrível! è a demonstração clara da necessidade de rede de apoio e suporte em qualquer relação. Coração apaixonado por essa criança linda que é o elo de ligação de todos...😍

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Samily Lima
Samily Lima
06 de dez. de 2023

Amei de vdd esse cap, acabei relendo umas 2x kkkkk… quero mt q elas se organizem, ja ta me dando agonia a Presley querendo conversar com esse empata alma do “marido”. Agr a Hanni tb tem q dar uma adiantada tb ne, a bixa ta se enrolando ainda com a Alexia 🤡

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setubalrodrigues
setubalrodrigues
05 de dez. de 2023

Essas duas juntas sao lindas demais... Gostei o que a Lia falou pro Leo sobre a Presley ele achou que a esposa dele fosse uma Amelia que ia ficar em casa a mercê do marido, Leo meu filho quem nao cuida acaba tendo o que nao deve voce ficou pensando so no trabalho e esqueceu a sua esposa e filha, ainda bem que apareceu a Hanni pra cuidar delas e sinto muito caro Leo voce perdeu a sua mulher... Que tudo se resolvar que ela se separe logo e que a Hanni despache de uma vez logo a Alexia e que elas sejam felizes😘

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Rodrigo Mesquita
Rodrigo Mesquita
05 de dez. de 2023

Certo, sinto que esse capítulo prepara a transição pro grande debate entre a Grande Tradutora e o Grande Traste... digo, Presley e Leo. Afinal, se ela quer ficar com a Hanni, ela quer resolver também essa situação com o marido... aliás, ver ele descrevendo pra Lia o que ele sente em relação a tudo isso me fez perceber que ele tem na cabeça a ideia do homem provedor da casa, quando uma família tem que ter... presença. E isso ele não teve.


Também foi uma boa sacada da Lia mostrar pro Traste que não é só pq ele trabalha e ganha bem que a Presley tem que ficar tipo a Fiona na Torre, só esperando o príncipe (ou ogro) chegar.…


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