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Acróstico 18

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


Apego


Presley não fazia ideia de que podia existir um tipo de conversa que esgotasse tanto mentalmente quanto aquela que teve com Leo.


Por que tinha que ser tão difícil? Por que tinha que magoar tanto? Presley tinha razão quando conversou com Alexia sobre os silêncios. A grande maioria das relações, ao chegar ao fim, é consumida por um silêncio extremamente frio e cruel. Assim era, pois o mais difícil de verbalizar era, de fato, o fim. O ponto final. O ato de abandonar a ideia, o se dar por vencido.


As palavras de Leo foram mais dolorosas do que Presley esperava. Ela sabia muito bem das falhas dele como marido, mas ouvir as suas falhas como esposa doeu profundamente. Ela também reconhecia suas próprias falhas. Sabia que não tinha sido nem perto da esposa que deveria. Nunca foi exemplo sequer de uma namorada, fato comprovado, pois até engravidar, ela e Leo não tinham declarado nenhum status de relacionamento, não por ele, mas puramente por ela. Nunca quis estar atrelada a um compromisso. Gostava de ser livre, de não dar satisfações para ninguém. Por isso, ela entendia Hanni e compreendia Alexia na mesma proporção. Hanni não queria se envolver, e Presley costumava ser essa pessoa. Ela compreendia o quanto deveria doer a Alexia desejar o oposto, porque já tinha causado essa dor em outras pessoas.


Leo havia sido o último, e ele fez questão de trazer tudo isso para a conversa que começou pela manhã e cruzou a tarde inteira, mudando de intensidade, dor e raiva a todo momento. Deixou que ele falasse tudo, que reclamasse do namoro deles, que descascasse Presley como esposa, uma ótima mãe desde sempre, mas esposa? Ela nunca havia demonstrado grande interesse por ele, ressaltou. A cama não funcionava para ela, por que não funcionava? Por que ela evitava, tirava as chances de eles consertarem o que ambos sabiam que tinha falha? Nesse momento, Presley sentiu que estavam a um passo de falar sobre a sexualidade dela, coisa para a qual não estava pronta, mas ele não falou sobre isso, recuou, então ficou grata. Na hora do jantar, saíram para comer, foram até um McDonald’s. A conversa continuou pesada, mesmo fora de casa. Voltaram para casa, voltaram para a conversa e, em algum momento, ambos não puderam mais, concordaram que era melhor dormirem, respirarem, precisavam daquela trégua.


Mas quando acordaram pela manhã, tudo ficou muito emocional.


Ele ainda tinha mais coisas a dizer, mais coisas que magoavam, mais acusações reais da forma como Presley havia negligenciado o casamento deles. O quanto ela se escondeu atrás de Aika para que não tivessem uma chance e depois quis dar uma chance, mas como, com Leo já tão inseguro e magoado por ela? Magoado pelas coisas que aconteceram com Aika? Ele se fechou também, se fechou por defesa, se fechou porque, durante o tempo todo do relacionamento deles, todo mundo sempre esperou que Presley o deixasse. Por que ela não havia feito antes? Por que só estava fazendo agora?


— Leo, você não entende? — Estava exausta; já era quase cinco da tarde, e Presley não aguentava mais. Não tinham almoçado; já tinha chorado muito. Sua cabeça estava a ponto de explodir, e tudo doía: seu corpo, seu coração estava esmagado por dentro, pequeno demais — Tudo o que você está me dizendo por horas, desde ontem, só deixa claro que esse casamento foi natimorto. Não tem como dar certo. Nos casamos pelo motivo errado. Aliana estava certa desde o começo.


— Claro, ela queria você! Você acha que eu não sei, Presley? Eu passei anos me perguntando se tudo estava bem cada vez que vocês duas sumiam juntas para algum lugar!


— Se você tivesse falado comigo a respeito, saberia que nem a memória desse beijo eu tenho, para mim, tinha sido algo muito menor. Lia e eu falamos disso apenas semana passada para você ter uma ideia. Eu me casei com você. Eu quis isso, eu me esforcei para dar certo. Tivemos um ponto fora da curva, que foi o problema da Aika, e nós passamos por tudo juntos. Vivo naquele hospital, ouço o relato das mães, muitas delas sozinhas, porque o casamento não suportou a pressão de se ter um filho que constantemente precisa de assistência médica. Mas nós sobrevivemos. A gente não teve só erros, Leo, nós acertamos em muita coisa. Mas agora... temos que aceitar. Eu não estou feliz, você não está feliz, somos muito jovens para aceitar que é só isso que a gente pode ter.


Houve um novo grande silêncio. Ele chorou mais, ela chorou mais. Se precisasse chorar ainda mais, Presley sentia que poderia desmaiar. E por fim, ele falou novamente.


— É a modelo da Diesel, não é?


Presley respirou muito fundo.


— Leo, sou eu. Por que é tão difícil de acreditar que uma mulher pode estar querendo algo para ela mesma, que não esteja atrelado a um relacionamento?


Outro longo silêncio. Que ele quebrou novamente.


— Eu... eu preciso que você saia. Por uns dias ao menos. Essa casa é da Aika, eu jamais vou tirar a minha filha daqui. Vocês ficam, mas eu preciso encontrar um lugar para mim, preciso tirar as minhas coisas daqui e não vou conseguir com você aqui dentro. Posso pagar um hotel para vocês duas se você não quiser ficar com os seus pais, ou com a Aliana.

— Não... não se preocupa com isso. Saio por uns dias, eu dou um jeito.


Mais alguns silêncios. E Presley foi fazer uma mala rápida, pegou algumas roupas suas, outras de Aika, pegou a mochila dela, o que ela precisava na escola, separou alguns brinquedos que sua menina gostava mais. Tudo chorando, sem conseguir parar, porque não deixava de ser triste. O que diria para ela? Ainda não havia pensado nessa parte. Como explicaria uma separação para Aika?


Pensou em ligar para os seus pais, dizer que ficaria lá uns dias, mas seria exaustivo, seria outra cruzada, apenas sabia, sua mãe tentaria fazê-la voltar atrás e não era disso que Presley precisava. Ficaria com Aliana, era mais perto do seu trabalho, mais perto da escola de Aika. Mandou uma mensagem para ela e sua cunhada disse que tudo bem, que já esperava por isso, que podia contar com ela. Daí quis mandar uma mensagem para Hanni, mas não soube o que escrever. Ela não havia escrito nada também, podia estar ocupada resolvendo o próprio relacionamento.


Pegou uma bolsa esportiva em seu carro, que era de Hanni, e guardou os quimonos, os seus e os de Aika, ficando surpresa com o tanto de roupas de Hanni que estavam na sua lavanderia de casa. Deu outra mala pequena. Pronto, duas malas, uma bolsa, duas mochilas. Quando veio morar com Leo, lembrava que havia chegado apenas com uma mala, mas isso foi antes de Aika; isso foi quando era outra Presley, cuja única peça original que ainda tinha era um determinado vestido em cetim de seda preto, do qual fez questão de levar consigo. Não estava acreditando que iria sair de casa mesmo. E isso causava alívio e muito desespero. Foi difícil sair do quarto, e quando saiu, foi difícil sair dos braços de Leo.


Ele a abraçou muito forte, ainda muito abalado, muito triste; os dois estavam. E Presley disse a ele as coisas que faltavam: ele não era um péssimo marido, não era um péssimo pai, nem um péssimo namorado.


— Me liga se precisar de qualquer coisa, quando você quiser ver a Aika, qualquer coisa mesmo.

— Eu ligo. Tentarei ver algo aqui no bairro mesmo, para não ficar tão longe de vocês.

— Faz isso, vai ser melhor assim.


E assim, ela saiu de casa. Colocou as coisas no carro e dirigiu só até o final da rua. Precisava respirar um pouco, se acalmar. Sabia que não era seguro dirigir estando tão nervosa, e isso a fez pensar em Hanni de novo, no acidente. Teria sido durante alguma briga? Hanni. Hanni. Pronto, estava mais calma e dirigiu até Aliana. Já estava escuro e dirigir de alguma maneira acalmava Presley; sempre havia gostado. Passou pela ponte, viu os barcos, as luzes, a Sky Tower toda acesa. E chegou no apartamento de Aliana. Subiu, de óculos escuros mesmo estando noite já, mas seus olhos estavam vermelhos, seu rosto abatido. Amarrando os cabelos num coque alto, apenas subiu.


Aliana a recebeu na porta e a abraçou muito forte, puxando-a para dentro.


— Ei, como você está?

— Exausta. Cansada. Mas acho que sobrevivemos. Cadê a minha filha, Lia?

— Está com a outra mãe.


Presley tirou os óculos.


— Como assim está com a outra mãe...?


Aliana riu.


— Eu tinha que ir trabalhar ontem e não quis deixar a Aika só com a Kaori. Se a Aika pedir, a Kaori se deita no chão para ela passar em cima. Então, eu a levei para a Manu.

— Para Manu? E não pegou de volta?

— Fui ontem quando saí do trabalho, mas a Aika não quis vir, então a Manu não quis forçar. Fiz mal ou...?


Presley sorriu.


— Ela ama a Hanni, mas ontem Hanni não teve muito tempo de sono.

— Presley! Você não deixou a mulher dormir?

— Como? Eu não conseguia tirar as mãos de cima dela, tirar a minha boca de cima dela, só de a gente se encostar... — Presley suspirou, mesmo sem perceber — Eu já estava pronta para fazer tudo de novo — Abriu outro sorriso, o rosto cansado, mas o sorriso era muito genuíno.

— Eu sabia que não teria como vocês não ficarem. Eu disse para Kaori, assim que você chegou lá. Vocês resistiram até demais! Quem avançou em quem?


Presley se recostou na parede, braços cruzados, um sorriso que não conseguia evitar.


— Eu avancei nela e ela não... nos parou.

— Presley... — Aliana chegou perto — Ela é uma gostosa, não é?


E a linguagem física de Presley só relaxou, como podia? Sorriso aberto, olhos brilhando, o rosto ficando levemente vermelho.


— Eu já sabia que ela era gostosa, a gente se pegando aquele dia já tinha sido a coisa mais gostosa da vida, mas fazer tudo sem restrições, sem roupa nenhuma. Lia, você não faz ideia...

— Do quanto ela é gostosa nua, estou entendendo, mas só posso imaginar.

— Só imaginar! Está ótimo para você assim. Ela é linda, atenciosa, sabe muito bem o que faz e chegou a partes minhas que eu nem sabia existirem. Foi só... muito gostoso, tudo. Eu nunca me senti tão sexy antes, Lia. Você sabe que eu sempre gostei de me sentir desejada, mas foi muito diferente com a Hanni, eu não consigo explicar. O jeito que ela me deseja é diferente. Fico louca só com o jeito que ela me olha. Eu me senti atraída por ela imediatamente, você sabe disso, mas eu realmente não achei que poderia ter alguma chance de algo acontecer entre a gente e agora que aconteceu...

— Presley, a dona de casa, realmente não teria nenhuma chance com uma mulher como a Hanni, mas a Presley que conheci... Você merece uma mulher assim. Pres, você... — Aliana colocou duas xícaras na cafeteira, iniciando o preparo — Você não sente que se casou antes de descobrir um pouco mais sobre esse lado?


Presley veio para a cozinha e se recostou no balcão.


— Eu tenho pensado bastante nisso, não só em mim, mas em você também. Lia, depois de mim, você...?

— Eu fiquei com umas duas meninas depois de você. Mas coisa de balada, sabe? Que não continuou em lugar nenhum.

— Então você me traiu e nem compartilhou, é isso mesmo?!


Aliana riu.


— Presley, eu nem sabia se podia compartilhar, você esqueceu a gente! E eu nunca esquecerei que você esqueceu, saiba disso. Mas voltando à história, na virada desse ano, eu havia decidido que iria explorar mais esse meu lado, mas não é muito simples fazer isso nessa bolha hétero onde a gente vive. Você furou essa bolha. Achou a Hanni, a Hanni trouxe a Kaori e as coisas têm sido... bem interessantes.

— Vocês se viram a semana toda, isso é inédito se tratando de você.

— Ela... dormiu aqui ontem. Estava tudo tão bom que eu não quis que ela fosse embora.

— Você quebrou uma regra sua.

— Quebrei. E não sei de muita coisa, mas não quero ficar com medo. Você está sem medo.

— Ah, Lia, estou morrendo de medo.

— Mas não está deixando isso te paralisar. O pior que pode me acontecer é eu me apaixonar por ela e ela não se apaixonar por mim, mas isso nunca matou ninguém. E o pior que pode te acontecer... Hanni está apaixonada, Pres. Você também está.

— Eu sei, das duas coisas. Mas eu não acho que... eu já estive aqui antes. Em algo tão sincero, tão recíproco, tão... igual. O Leo me perguntou sobre ela.

— E o que você disse?

— Nada, eu não sei o que dizer ainda, Lia, e não tem muito o que dizer também. Somos amigas, é a única coisa concreta até agora, e disso, ele sabe. Eu não posso pular de um relacionamento para outro, sendo que eu nem sei se ela está disposta a isso. Hanni não entra em relacionamentos, ela não está disponível.

— Mas você disse que ela está apaixonada.

— Ela me disse que está. Mas também propôs amizade assim que a gente conseguiu conversar sem a pressão do tesão agindo na nossa mente. Me disse que eu provavelmente iria precisar de uma amiga nos próximos dias, que não queria que eu não procurasse por ela, que ela quer estar disponível para tudo — Pegou a xícara que Aliana oferecia.

— Totalmente errada ela não está. Ela tem te ajudado muito ultimamente, tem estado mais presente para você do que eu, por exemplo.

— Ela é bem-sucedida — Lembrou, sorrindo. 

— Ela é! Não trabalha igual uma escrava como eu trabalho. Kaori acha que... ela teve algum relacionamento que não deu muito certo.

— Eu também acho, mas ela não fala disso. O irmão dela é bem protetor, sabe, e a cunhada tocou num assunto no dia da graduação, sobre algo que aconteceu com a Hanni antes do nascimento dos gêmeos. Ontem ela falou algumas coisas, mas nada que eu consiga tirar uma conclusão. Eu não acho que ela queira namorar comigo ou algo assim.

— Então você acha que ela só está usando você...?

— Não, de jeito nenhum — Presley abriu um sorriso — Ela gosta mesmo de mim, eu consigo sentir.

— E o que exatamente vocês pretendem fazer com essa relação que não pode ser uma relação...?


Presley não tinha essa resposta.


Terminou seu café e foi buscar sua filha.


Já conhecia aquele caminho naturalmente, sem precisar pensar muito a respeito dele. Só foi dirigindo e sentindo uma pequena ansiedade crescendo por dentro. Deveria avisar que estava chegando? Mas Hanni estava com Aika; Presley sabia que ela não faria nada com Aika estando em casa. Era engraçado, não se preocupava. Se Aliana tivesse deixado Aika na casa dos seus pais, teria reclamado, mas com Hanni, apenas ficava tranquila e se perguntava de onde isso vinha, de algum lugar desconhecido, que ela não conseguia acessar; só sabia que era genuíno.


Não avisou que estava chegando, passou pela portaria sem problemas e dirigiu para a casa de Manu. Checou a hora; era quase dez da noite. Estava cansada, exausta, sua cabeça ainda doía. Veio muito devagar, tentando ver se havia algum carro parado lá que não fosse o de Manu, mas não havia; ela estava sozinha.


Bem, não estava sozinha. Estava no sofá, dormindo, com o bebê dormindo sobre o seu peito.


Presley digitou a senha na fechadura eletrônica da porta e as viu assim que entrou. Aproximou-se devagar, deixou seus chinelos na entrada e foi até perto delas. Aika já de pijaminha, claramente de banho tomado, limpinha, e Manu estava de calça moletom e camiseta, toda de preto, o que ressaltava mais ainda as marcas que Presley havia deixado no pescoço dela. Precisava cuidar disso melhor; sua modelo não podia fotografar marcada daquela forma. Os cabelos soltos, o corpo relaxado, o nariz sentindo o cheirinho de Aika e, não, não existia melhor forma de dormir que não fosse aquela.


Era impressionante o quanto elas se pareciam. Aika tinha as suas bochechas, o seu sorriso, mas os lábios eram em formato de coração, o olharzinho era de Hanni, os cabelos escuros também. Como... como falaria com ela? Como explicaria que ficariam fora de casa uns dias e o motivo por trás disso? Ela entenderia? Como diria que não estariam em casa no dia do aniversário dela, que não haveria festinha naquele ano? Pensou nisso, e as lágrimas só vieram. Tentou conter, segurar o choro, não fazer barulho, mas...


— Mas... ei... — Manu despertou imediatamente, movendo-se com cuidado e sentando-se com Aika em seu colo — Babe, o que foi?

— É que... desculpa, você me deixou a senha da porta e...

— É para você entrar quando quiser — Hanni tocou o rosto dela com carinho — O que aconteceu? Senta aqui, vem.


Ela não precisou pedir duas vezes. Presley passou para o sofá, se enfiou ao lado dela, recostando-se nela, no braço dela, no carinho dela que a grudou contra o seu corpo, segurando Aika com um braço em seu colo e Presley com o outro, a trazendo para junto, beijando os cabelos dela.


— O que aconteceu? Estou aqui com você, seu bebê também. Ela sentiu sua falta.

— Ela sentiu?

— Sentiu, me perguntou de você o dia todo — Hanni cheirou os cabelos de Presley, a mantendo muito pertinho — Você já comeu?

— Não, ainda não. Só almocei.

— Então fica aqui com a Taz-mania que vou fazer alguma coisa para você comer.

— Não precisa, Hanni.

— Claro que precisa — Beijou a testa dela, colocou Aika no sofá e foi até a cozinha.


Ela foi para a cozinha e Presley levou Aika para seu colo, cheirando-a, tocando nela, vendo o quanto sua garotinha era linda. Ela sempre acalmava o seu coração, de alguma forma, de alguma maneira. Mesmo quando ficou muito doente e Presley só podia vê-la de longe, quando a via, se acalmava, tinha certeza de que as coisas dariam certo, que ela ficaria bem, que as coisas se ajustariam de alguma forma. Não sabia muito bem quanto tempo passou, mas Hanni voltou com um prato montado de churrasco.


— Você fez churrasco?

— Ontem e hoje, Aika pediu — Ela respondeu sorrindo — Me dá ela aqui, vou colocá-la na cama.

— Mas...

— Você já tem que ir?

— Não... não exatamente. O Leo me pediu para sair de casa por uns dias, até que consiga um lugar para ele, então...


Hanni a olhou nos olhos. Pegou Aika no colo.


— Eu já volto.


Ela subiu com Aika, e Presley conseguiu ouvi-la trancando a varanda e deixando a porta aberta. Alguns minutos depois, Hanni desceu novamente.


— Você já jantou? — Presley perguntou.

— Sim, jantei com a Aika.

— Ela se comportou direitinho? Eu não fazia ideia de que a Aliana havia trazido ela para você.

— Sim, trouxe a criança e fez bem. Aika me fez companhia, se comportou, conversamos um monte — Contou sorrindo.

— Mesmo?

— Mesmo. Estou ficando boa com o alfabeto e ela tem paciência, gosta de ensinar, fica feliz quando a gente aprende. Pres, ela me falou sobre uma situação na escola.

— Ah, sim — Respondeu, já na metade do prato, que estava delicioso — Preciso ir até a escola falar sobre isso, mas nunca consigo chegar mais cedo. Ela disse que tem alguns meninos maldosos...

— De outra sala e acontece durante os intervalos. Ela não fica triste, mas se incomoda.

— Vou dar um jeito de ir à escola essa semana.

— Posso ir com você quando for? Eu tenho um workshop dentro do programa do jiu-jitsu que talvez possa ajudar. Já fiz isso em algumas escolas.

— Mesmo?

— Aham. Cuidando dos pequenos cometedores de bullying, que nem sabem que estão cometendo bullying ainda — Ela contou sorrindo, sentando-se ao lado de Presley.

— A gente pode tentar ir amanhã, o que você acha?


Hanni se encolheu ao lado dela, colocando os pés sobre o sofá, pois estava esfriando.


— Tenho um ensaio, mas vai terminar antes do meio-dia. Acho que dá tempo sim. Pres...?

Oi — Em português.

— Como foi a conversa?

— Ah, Hanni... Tensa, densa, triste. Estou exausta, parece que fiz cem rolas um seguido do outro, meu corpo dói, minha cabeça dói, mas acho que ficamos bem no final. E você aqui? Aika atrapalhou alguma coisa?

— Ela me ajudou, na verdade. A Alexia veio aqui ontem.

Uh... E ela...? — Apontou para o pescoço de Hanni.


Ela riu.


— Sim.

— Hanni, ela vai me matar quando me encontrar de novo — Disse, rindo de nervoso.

— Não vai nada que eu não vou permitir — Hanni a abraçou, chegando bem pertinho, sorrindo demais.

— Você contou alguma coisa?

— Não contei nada, não, mas ela deduziu algumas coisas. Não conversamos muito, na verdade. Ela ficou aqui, a gente assistiu Pokémon, eu saí para brincar com a Aika, ela ficou um pouco mais e foi embora. Tinha um evento à noite, ficou tudo bem.

— Ela... ainda pode vir aqui hoje?

— Não, não há motivo para vir aqui. Você terminou o jantar?

— Já sim.


Hanni retirou o prato dela e o colocou sobre a mesinha de centro.


— O que você acha de subir, tomar um banho para relaxar e depois descer para assistirmos algo juntas?

— Vai acabar ficando muito tarde para dirigir, Hanni.


Hanni deitou a cabeça no colo dela, com os olhos na TV.


— Onde você vai ficar? Imagino que não seja na sua mãe.


Presley olhou para ela e correu os dedos por dentro daqueles cabelos macios, massageando o couro cabeludo, a fazendo fechar os olhos imediatamente.


— Isso é tão bom — Disse sorrindo.

— Amo fazer isso — Curvou o corpo, deixando um beijo na testa dela — Como você sabe que eu não vou ficar na minha mãe?

— Aliana disse que não levou a Aika para ela porque, é sempre, um pouco... — Se virou, virando o rosto, escondendo no abdômen de Presley, sentindo o cheiro dela — Intenso.

— “Intenso” é um adjetivo interessante — Presley respondeu sorrindo, seguindo aquele carinho, correndo os dedos pelos piercings na orelha dela — Minha mãe odeia a Lia, odeia.

— Mas por que essa agressividade toda...?

— Minha mãe sempre amou o Leo, desde o primeiro dia, e eu acho que em parte, é porque ela achava que a Aliana ia acabar me levando para o caminho do lesbianismo — Contou, fazendo Hanni rir demais.

— Ela não vai ser uma grande fã minha, provavelmente.

— Por que não? Essa carinha de hétero aqui, quem diz? — Curvou-se novamente, beijando o cantinho do rosto dela, a fazendo sorrir com o carinho, os olhinhos apertando.

— Preciso ir como modelo.

— Ela vai amar a modelo — Mais carinhos naqueles cabelos — Vou ficar com a Aliana esses dias.

— Hum... E tem que ficar com ela todos os dias?

— Como assim?

— Sou sua amiga também, está tarde, fica aqui hoje.

— Hanni... — Desceu os dedos até a nuca dela, puxando um pouquinho, fazendo uma pressão gostosa demais.

— Fica aqui.

— Aika e eu?

— Tem espaço para vocês duas. Quando as crianças vêm juntas, eu monto o sofá-cama para elas lá no estúdio, fica confortável.

— Onde você colocou a Aika?

— Na minha cama. Mas podemos colocá-la no estúdio. Ou, ela pode dormir com a gente. Ou, vocês duas podem dormir na cama e eu durmo no estúdio — Disse, passando a mão por baixo de uma das coxas de Presley, deitando-se mais confortavelmente ainda, os olhos fechados, aproveitando o carinho que ela fazia em sua cabeça.

— Acha mesmo que vou tirar você da sua cama, honi?

— Eu não sei, você nem quer ficar aqui comigo.


Presley desceu os dedos pela cervical dela, tão suave, tão gostoso, um apego tão grande. Como podia existir tanto apego no meio de tanta confusão? Mas ele existia e às vezes, não parecia haver nada maior do que o apego entre elas duas.


— Vou tomar banho, você coloca a Aika para dormir no estúdio? Ela se mexe muito durante a noite.

— Coloco. Eu mostrei a casa toda ontem para caso de ela acordar, saber onde está.

— Como você sempre pensa em tudo?

Ouvindo você. Do jeito que você sempre me ouve.


Um pequeno silêncio. Muito carinho, os dedos de Presley pelos cabelos dela, os de Hanni pela sua coxa, pelo seu abdômen.


— Hanni?

— Hum?

— Você pode me dizer o que quiser, quando quiser, quando achar que deve, tudo bem?


Ela abriu um sorriso. Beijou o abdômen de Presley e subiu o beijo, para o colo dela, o pescoço, beijando de um jeito que causou cócegas.


— Hanni!

— Vou arrumar a cama da criança, vai para o seu banho, vai.


Fizeram assim. Hanni foi arrumar o estúdio, abrir o sofá, deixá-lo muito confortável e quentinho, e então foi buscar Aika. A colocou no sofá-cama, trouxe a Senhorita Bubu, a cobriu e deixou um beijinho nela.


— Hanni?

— Oi — Voltou para o quarto.

— Esqueci a toalha.


Hanni pegou a toalha, levou para ela, e Presley achou uma graça o esforço que ela fez para não olhar para o box. Hanni não existia mesmo. Terminou seu banho, vestiu roupas dela, inclusive calcinha e uma camiseta. Quando Hanni surgiu novamente, já tinha se trocado também. Sério que ela dormia daquele jeito? Estava usando uma camiseta e boyshorts da Hugo Boss, toda de preto, e Presley só...


Mordeu a boca, abrindo um sorriso, Hanni notou.


— O que foi?

— Nada — Só estava calculando o tamanho da sua prova de resistência. Os cabelos soltos, a camiseta mais curta, deixando ver aquele abdômen, a calcinha boxer justinha, uma coisa! Calculou certinho e, hum... não ia dar, não — Fecha a porta?


Hanni olhou bem para ela, o quarto escuro, o corredor também na penumbra. Deu uma olhadinha para trás: Aika estava dormindo profundamente. Ligou a luz do corredor e fechou a porta atrás de si.


— Ela sabe abrir fechaduras, Hanni.


Hanni riu, passou a tranca e correu para a cama. Saltou em Presley, a fazendo rir demais, e a abraçou pelas costas, enchendo a nuca dela de beijos, envolvendo-a completamente com seu corpo, braços, pernas, enroscando-se nela inteira.


— Eu descobri uma coisa — Hanni disse, sem soltá-la nem um pouquinho.

— O que você descobriu?

— Que adoro o cheirinho na sua pele depois do banho — Afundou o nariz no pescoço dela, a mantendo muito perto de si.

— E eu adoro quando você entra para tomar banho comigo.

— Presley...


Presley se virou nos braços dela, a olhando nos olhos, mantendo-se muito próxima. Seus olhos se adaptaram à luz, permitindo que visse toda aquela beleza de perto.


— Você já modelou para essa marca aqui? — Correu a mão pelo cós da boxer que ela estava usando.

— Ainda modelo para eles de vez em quando. Quer ir comigo amanhã? É para a Diesel, a gente leva a Aika, ela me pediu para ver um ensaio.

— Ela pediu? — Tocou o rosto dela, a mandíbula, os dedos escorregando até a orelha dela, sentindo os piercings. Hanni fechou os olhos, se derretendo naquele carinho.

— Pediu, quer conhecer o meu trabalho e disse que você não a levou ainda no seu trabalho.

— Mas essa menina retém muitas informações.

— Ela é inteligente, Pres, muito inteligente. Fico surpresa com a quantidade de palavras que ela conhece, soletra e escreve perfeitamente, em duas línguas, sendo tão nova. O que a gente vai fazer no aniversário dela?


Presley sorriu.


— Está lembrando disso também.

— Estou. A gente pode fazer alguma coisa lá na academia depois da aula, ou algo na escola dela. Perguntei o que ela queria, mas ela disse que queria ir surfar de novo e eu achei pouco. A gente pode ir surfar no dia que ela quiser, mas aniversário é especial — Ela disse sorrindo.

— O que você acha de a gente fazer algo no hospital? É na sexta, você está lá nas sextas. Se bem que gosto das outras ideias também, ela gosta de festa, sabe.

— Pode ser! A gente pode fazer algo nas três esferas, uma semana de aniversário, todo dia algo especial. Assim, talvez ela não sinta tanto estar fora de casa por esses dias.


Ela seguia pensando em tudo. Era impossível não estar apaixonada por ela, ponto. Então, Presley sentiu aquela mão subindo por dentro da sua camiseta, suavemente, os dedos dela correndo pela sua cervical.


— Hanni...

Você. Dormiu. Com. Menos. Roupa. Ontem — Ela disse, pausadamente, deslizando a boca pelo pescoço de Presley e, puxando a camiseta dela.

— Quero você dormindo nua em mim — Queria.


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3 comentários


Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
11 de dez. de 2023

A vida se moldando para o que é o certo! Duas lindas!👩‍👩‍👧

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sylber1011
sylber1011
11 de dez. de 2023

Fofas

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Rodrigo Mesquita
Rodrigo Mesquita
10 de dez. de 2023

E no final das contas, a Pres acabou indo pra casa da Hanni... De novo, fica a sensação de que elas são uma família completa, só falta o rótulo mesmo 😊😊


E eu pensando aqui que esse casamento foi natimorto desde o início, a Pres tem razão... Desde o capítulo 1 que essa sensação já existia, só nao havia sido registrado ainda! Nem sei exatamente o que avaliar sobre o assunto, mas fico pensando que nem uma terapia seria capaz de salvar esse relacionamento.


E, considerando como a sra. Park e a Lia praticamente não se bicam, aposto que o encontro entre sogra e nora vai render um tempestade elétrica, com mtos raios e trovões!


Essa reunião de família promete...

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