Acróstico 25
- Riesa Editora

- 13 de jan. de 2024
- 16 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2025

Obsessão
Kaori estava de roupão, toalha na cabeça e seriamente se perguntando: COMO SE PODE FAZER PARAR DE CORRER UMA CRIANÇA QUE NÃO ESCUTA?
Não tinha como, Aika estava correndo pelo apartamento na sua frente, rindo a ponto de parar de respirar e Kaori não conseguia pegá-la, simplesmente não conseguia. Estava tentando cercar a criatura, mas ela só escapava, passava por baixo das coisas, por trás dos móveis, se escondia porque sabia que tinha feito algo errado, ela era inteligente assim e sabia que Kaori tinha muitas fraquezas a serem atacadas. Presley havia ido trabalhar, tinha um evento importante aquele dia, Kaori tinha pedido para entrar no mesmo horário de segunda, Presley não queria incomodar Sabina e Kaori adorava aquela pirralha.
O único problema é que ela era particularmente desafiadora. E em um instante, que não deve ter sido nem dez minutos desde que Kaori entrou para o banho, ela havia feito uma pintura surrealista na parede da sua sala. Uma verdadeira explosão de cores, arte de primeiro escalão, algo impressionante mesmo. E agora estava correndo de calcinha entre os seus móveis.
— Aqui, peguei você! — Finalmente, Kaori a capturou, saltou por cima do sofá e a prendeu entre o sofá e a mesinha de centro — Aika Park!
“Com água, sai!” Ela sinalizou, morrendo de rir, e Kaori não entendeu nada.
— Preciso que você pare de correr e entre para o banho! Aika, você entendeu? Banho, precisa ir para o banho! — E Aika sinalizou e sinalizou, mas Kaori não entendeu nada, e ela escapou correndo de novo.
Pelo chão, passando para trás do balcão da cozinha, então, escorregando por baixo da mesa em direção ao quarto, onde Kaori saltou e a pegou em cima da cama. Aquela risada podia acender uma cidade inteira com coisas boas! Como podia? A risada ser tão boa e a criança tão arteira?
— Aika! Estamos atrasadas, você tem que parar de correr e me obedecer! — Ela apenas ria e ria, então partiu para o jiu-jitsu com Kaori, era sério? Era muito sério! Kaori conseguiu segurá-la novamente e a olhando nos olhos: — Aika! Eu-eu... — Kaori apertou os olhos, tentando parecer ameaçadora — Vou ligar para sua mãe.
E ela parou imediatamente, arregalando aqueles olhinhos puxados.
— Uh.
— Não faz “uh” que é a coisa mais linda da vida! — A encheu de beijos, a fazendo rir ainda mais, a enchendo de carinhos, e espera, estavam atrasadas — Quietinha aqui, espera, espera... — Pegou o celular, checou a hora, fez uma ligação por vídeo. Ela atendeu no terceiro toque — Sua filha fez arte na parede da minha sala.
E Hanni começou a rir do outro lado. Já estava no carro, voltando para o seu hotel, era quase uma da manhã em Paris.
— Ela... não deve ter sido tão grave o estrago.
— Ah, foi extremamente grave o estrago! — Kaori andou com Aika em seu colo de volta para a sala, mostrou a arte, a parede inteira, de um lado a outro, pintada com todas as cores do arco-íris.
— Oww! — Hanni estava tendo uma crise de risos agora — Mas espera, foi com o kit dela? A Presley só compra materiais que podem ser removidos com água e sabão.
— Hanni, ela achou giz de cera dentro desta casa, eu não faço ideia de onde ela achou, mas achou e agora... — Kaori começou a rir também, estava uma arte belíssima de fato — Só fala com ela? Preciso que ela se acalme, que tome banho, nós estamos atrasadas aqui.
— Cadê ela? Me deixa ver a criança.
Kaori a colocou de pé no chão e entregou o celular para ela. Aika ficou imediatamente feliz ao ver Hanni na tela.
— Você pode acender a luz, por favor? — Hanni pediu para o motorista, ele acendeu a luz interna do carro, para que Aika pudesse vê-la melhor — Obrigada. Oi, criança, oi! Espera, por que você está só de calcinha e com a boca suja de leite?
— Ela se recusa a ir para o banho! — Kaori respondeu, fora do foco da câmera.
— Meu Deus, Tay, você é tipo o outro pai, mas um pouco melhor.
— Ah, obrigada, eu acho.
— Por que você pintou a parede dela, bebê? — Perguntou em coreano, e Aika deu o celular para Kaori segurar. Ela respondeu movendo os dedinhos, sinalizando um monte de coisas, e Hanni morreu de rir — Ela disse que a sua parede estava sem graça.
— Ah, agora está de fato engraçada, objetivo alcançado!
— A gente pinta de novo; ela deve achar que todo giz de cera sai com água. E você não pode deixar a criança sozinha, Tay.
— Foram dez minutos; eu estava no banho! Hanni, pede para ela ir para o banho?
Hanni falou com Aika em coreano novamente. Ela falava em coreano, a criança respondia em NZSL, e elas se entendiam plenamente. Então, Aika devolveu o celular para Kaori, a puxou para baixo, sinalizou alguma coisa e deixou um beijinho no seu rosto. Correu para o banheiro.
— Ela se desculpou pela parede — Hanni explicou.
— E foi para o banho?
— Isso. Eu pedi para ela ir para o banho e se vestir para a escola; ela sabe fazer isso. Vai se comportar para almoçar também. A Presley vai almoçar com vocês?
— Hoje não, ela está num evento que inclui almoço.
— Tay, está tudo bem?
— Tudo bem, ela só... está corrida com o trabalho. Lia disse que essa era a correria dela antes de você. Para se acostumar com algo ruim, demora, mas com algo bom, é imediato. É pouco tempo, mas você já faz falta para ela aqui, Manu.
— E ela faz falta para mim — Hanni suspirou sem sequer perceber — As duas fazem. Você sabe que amo Paris, mas dessa vez, eu não vejo a hora de voltar. Acho que... estou me tornando assustadoramente grudenta — Disse, fazendo Kaori rir demais.
— Eu vivi para ver isso! Você estava em uma daquelas festas...?
— Estava, estou exausta, você não faz ideia.
Conversaram um pouquinho mais, e Aliana apareceu para almoçar, morreu de rir ao ver a nova parede de Kaori e se surpreendeu ao ver Aika de banho tomado e arrumada, sozinha, por ela mesma. Apenas trouxe elásticos de cabelo para Aliana; queria tranças, ela sabia fazer? Não sabia, mas Kaori sabia. A colocou no colo, fez as tranças que ela queria, Aliana parecia preocupada com algo.
— Eu não quero demonstrar nada para a Presley, mas estou muito preocupada com a situação. Como... tudo será. Se ela pudesse trabalhar quarenta horas semanais, tudo estaria tranquilo, mas como ela consegue? Já é complicado deixar a Aika na escola regular, a palavra “creche” causa pesadelos nela e com outro bebê, como será?
Kaori pensou um pouco, terminando as tranças de Aika.
— E a vida do pai vai seguir inalterada.
— Inclusive, melhor do que antes, já que a Presley quer prosseguir com o divórcio. A vida é cruel com mulheres. Tay. Como você acha que a Manu vai reagir?
Ela respirou fundo, beijou o rostinho de Aika.
— Aqui, bebê, sua comida — A colocou sentadinha e entregou um bowl de frango e salada, aquela criança era praticamente um coelho, amava vegetais — Lia, eu meio que estou conhecendo essa Hanni junto com vocês. A versão que conhecia anteriormente, se afastaria de imediato, a Manu não... permitia aproximações. Ela andava por aí, dava uns beijinhos, dormia com algumas garotas, depois, ghosting nelas todas. Daí apareceu a Alexia e elas são niveladas, sabe? Frequentam mundos parecidos, isso sustentou algo mais denso, mas não era profundo. A gente não sabe muito sobre a Manu, eu a conheci na praia, surfando, sei que ela é brasileira, que modelou na Europa por muito tempo e tinha vindo morar aqui porque o país tem praias, tem florestas, natureza poderosa, enfim. Ela é feliz, divertida, ama estar na noite e é solteira convicta. Nada de apegos. Nada de compromissos. Então, aconteceu a Presley e tudo é novo desde o começo. Acho que a Manu nunca... tinha se apaixonado antes.
— Você acha? Nem pela possível namorada problemática?
— As namoradas ficam problemáticas porque a Manu não se apaixona, Lia. E acho que é até por isso que ela dá tanto ghosting, ela tenta evitar chegar em problemas, mas sabe? Ela levou a Presley para a academia no dia em que se conheceram. A levou para casa uma semana depois. Como dá ghosting assim? Foi isso que me pegou. Notei que ela não estava preocupada em se causar problemas em casos de sumiços e isso deve ser porque ela nunca pretendeu sumir da Presley. Ela estava apaixonada, do minuto um, pela Pres, pela Aika, e queria passar mais tempo com elas. Acho, particularmente, que ela é incapaz de sumir. A Manu não consegue sumir da Aika, Lia. Mas não sei como ela reagirá ao saber da gravidez. Eu... realmente não faço ideia. Talvez ela feche as portas novamente, por proteção, para não querer se comprometer, não sei.
Presley também não sabia.
Lia levou Aika para a escola naquele dia, e Presley estava correndo de um lado para o outro no evento. Comeu rapidamente e voltou para o evento, foi intérprete, tradutora, passando de equipe em equipe quando necessário, ajudando na organização geral. Descobriu que era boa com isso também, com a organização de eventos, e sinceramente? Melhor lotar sua mente de tarefas do que pensar demais. Terminou o dia exausta, com os pés doendo nos sapatos de salto, a postura doendo dentro do vestido preto e branco que havia escolhido e que exigia uma postura impecável. A trança seguiu intacta o tempo todo, muito bem-feita, tal como sua maquiagem. Saiu de casa se sentindo bonita e postou alguns Stories que não deu tempo de olhar as respostas. Só conseguiu olhar tarde da noite, e sim, seu Instagram seguia crescendo, agora eram sete mil seguidores e isso dava uma quantidade considerável de respostas e reações. Porém, só uma importava.
Clicou na fotinho de Hanni.
Ela havia reagido em todos os seus Stories, mas entrou primeiro numa foto que havia sido tirada das suas costas parcialmente nuas, a trança descendo alinhada à sua cervical, a postura dos ombros no vestido elegante. Presley havia adorado aquela foto.
“Eu quero morder você.” Próxima reação: “Você está parecendo uma boneca, babe.” Próxima: “Tão sexy, e só está traduzindo um discurso chato.” Próxima: “A vontade de sentir essa boca contra o meu pescoço está me deixando louca...”
— Ah, Hanni... — Se curvou sobre o próprio abdômen, sentindo seu corpo inteiro reagir.
Chorou um pouquinho antes de responder. Colocou Aika na cama; estava na sua casa novamente e nem sabia por que tinha ido. Era bem mais difícil enfrentar as coisas por lá. E era engraçado, vivia naquele lugar há mais de quatro anos, mas agora tinha outro lugar onde preferia estar. Chorou um tanto mais. O que faria? O que iria acontecer? Então foi para seu quarto, ligou a TV, não conseguiu ver nada, tentou ouvir música, funcionou menos ainda. Chorou mais, tentou calcular mentalmente que horas eram em Paris, não conseguiu, só ligou para ela.
— Honi, você pode falar? Eu não sei que horas são aí, eu só... queria ouvir a sua voz.
Hanni abriu um sorriso enorme.
— São quatro da tarde e eu estou me maquiando, babe, posso falar. Você estava tão linda hoje, eu vi todos os seus Stories.
Conversaram uns vinte minutinhos, e Hanni quis fazer chamada de vídeo. Lá estava ela, linda, linda, linda, sorrindo, sendo cuidada para o próximo photoshoot, e Presley estava...
— Honi, o que você está vestindo? — Ela perguntou em coreano.
Presley estava na cama, deitada de bruços, e todo o aperto por dentro tinha simplesmente desaparecido só de olhar para Hanni. Abriu um sorriso.
— O que estou vestindo? Roupas do meu boyfriend.
Hanni mordeu um sorriso.
— Me deixa ver melhor.
Presley estava inteira de Calvin Klein: calça jeans, lingerie cujo cós estava aparecendo na calça, top e uma jaqueta também jeans por cima. Havia levado Aika para Kaori, para uma aula extra na academia onde Hanni treinava, porque sua menina estava agitada. Quando chegou, só tirou a jaqueta e a camiseta, e agora havia colocado a jaqueta de volta para falar com Hanni. Então, só abriu a jaqueta, descobrindo um dos ombros, a deixou ver seu decote, sua boca, o detalhe da lingerie escapando do jeans...
— Presley... — O corpo inteiro de Hanni disparou.
— Vem pra casa — Disse e mordeu a boca, deixando Hanni...
— Você vai me matar qualquer dia.
— Está sentindo a minha falta, honi?
Feito louca. E Hanni precisava ver mais, por foto; estava no meio de uma equipe e não podia deixar Presley mostrar demais por vídeo. Mas só para ela, podia, queria, precisava, e o tanto de fotos sexy que trocaram aquela semana foi insano. O tanto de sexting também, inclusive, determinada uma da tarde em Auckland e quatro da manhã em Paris, Presley parou o carro num ponto cego do estacionamento da embaixada e deixou Hanni absurdamente, densamente, insanamente MALUCA naquele quarto de hotel em Paris. Se tocou e a deixou ver, mostrou para ela, achou um ângulo perfeito e gozaram juntas, porque era necessário, porque estavam loucas de vontade, de saudade e, nada parecia suficiente.
Era uma quinta-feira, e no final da tarde, Presley levou Aika para o jiu-jitsu, novamente na outra academia. Decidiu fazer a aula também, direto com Kaori, com todo cuidado que achava que nem era necessário ainda, mas enfim. Fez a aula e foi bom, dissipou um pouco a mente, andava com dificuldades de parar de pensar e com dificuldades de... soltar Hanni. Deus, como faria isso? Como falaria com ela? Estava morrendo de falta dela, e agora que restava pouco para ela voltar, seu coração estava nervoso que não cabia em si. Não queria perdê-la. Mas achava que iria, e seu coração apenas doía. Terminaram a aula, e na hora de voltar para casa, voltou para Takapuna.
Com o carro de Hanni, usando um dos quimonos dela. Havia sido tão gostoso estar com ela, ainda que fosse por vídeo. Porque, especificamente naquele dia, Presley acordou louca de tesão. Além do medo, da preocupação e do não saber o que faria da sua vida, ainda tinha isso, o tesão que não a deixava nem por um segundo. O que faria com tudo aquilo? Chegou, tirou apenas a parte de cima do quimono, ficou com a calça e a rash guard e foi fazer o jantar, enquanto Aika subiu direto para os brinquedos. Desceu com o Pikachu e o Charmander que havia ganhado de aniversário, e Hanni estava ligando.
Estava chegando no estúdio onde faria o ensaio daquele dia, fotos e vídeos. Seria um dia mais longo, e nem de longe parecia que ela tinha sido acordada de madrugada.
— Eu dormi tão relaxada depois — Ela contou sorrindo, aquele sorriso lindo, perfeito, aquele pescoço pelo qual Presley era tão louca.
— E eu dobrei de produção — Respondeu sorrindo também — Hanni, você deve me achar uma ninfomaníaca.
Ela riu alto.
— Ando ninfomaníaca em cima de você, não vejo a hora dessa semana passar e eu voltar pra casa, babe.
Conversaram um pouco mais, Hanni amando ver Presley na sua cozinha, Aika correndo pela casa, contando do seu dia, da aula na outra academia. Hanni entendia sua menina cada vez mais. Presley não sabia, mas ela estava tendo aulas on-line de NZSL. Contratou uma professora particular, uma hora por dia, estava aprendendo especificamente coisas que falava com Aika, para acelerar seu entendimento, e sentia que estava dando certo. Hanni não havia contado para ninguém e se perguntava o motivo, mas também não importava. Estava melhorando, se comunicando com ela melhor, era tudo o que importava.
E naquela madrugada, foi Presley quem foi acordada.
Chamada de vídeo deliciosa, com aquela gostosa completamente nua, e não, Presley não fazia IDEIA de como seria quando ela voltasse. Foi para casa na sexta, o sábado levou uma vida para passar e ficou sozinha com Aika, em casa, sem energia para fazer muita coisa, apenas pensando e pensando, e evitando que sua filha destruísse a casa; ela estava agitada assim. E no domingo, foi pior ainda. Leo surpreendentemente apareceu novamente, requisitando seu dia com Aika, chegou cedo, tomaram um café juntos, conversaram um pouco. Ele estava empolgado com um projeto novo e, aparentemente, havia aceitado a separação. Disse que já tinha dado entrada nos papéis, que Presley seria acionada em breve, e tiveram uma conversa meio sem jeito sobre valores. O mês estava fechando, então perguntou o que Presley queria que ele pagasse.
Ainda não havia pensado nessa parte.
— Vamos fazer assim, eu vou pagar a escola, o convênio da Aika e as contas da casa deste mês. Acabei de sair, Pres, não faz sentido eu não pagar este mês. Não te perguntei, e o jiu-jitsu, quando vence e quanto custa?
— O jiu-jitsu... — Presley respirou fundo — Eu-eu... vou na academia amanhã, só fiz a matrícula e não peguei nenhuma fatura — Havia acabado de se dar conta disso.
— Está bem, você vê e me diz, eu posso ajudar nisso também. Você está precisando de alguma coisa?
Não, não estava. Presley havia recebido seu salário aquele dia, mas não tinha certeza se não precisaria em breve. Sua mente estava fazendo contas e nenhuma delas fechava exatamente. Mas um problema de cada vez. Leo levou Aika, e Presley ficou extremamente sozinha. Quis correr para Takapuna, mas não podia. Sabia que não podia, que não devia, mas seguia vestida de Calvin Klein inteira apenas porque aquele jeans estava com o cheiro de Hanni. Passou dois dias de Hugo Boss pelo mesmo motivo e foi trabalhar de Chanel no evento pela mesma razão. E perto das dezoito, Hanni ligou. Era domingo à noite em Auckland e domingo muito cedo em Paris. Hanni havia corrido e terminado seu check-list inteiro sem grandes problemas, ensaios feitos, vídeos gravados, eventos comparecidos e estava mais do que pronta para suas 29 horas de voo.
— Pres, me espera em casa.
— Honi, é que... quando você chegar, a gente precisa conversar.
— Então me espera em casa, qual o problema? A gente conversa lá.
Presley sorriu. Iríam conseguir conversar dentro daquela casa? Havia proposto ir pegar Hanni no aeroporto e levá-la para jantar em algum lugar; ela iria chegar cansada, mas não tinha certeza se teria como não saltar em cima dela assim que a visse entrando de volta em casa. Presley, particularmente, estava a ponto de ter uma síncope de tanto tesão acumulado, mas sabia que tinham que conversar, de preferência, antes de qualquer coisa, mas, ao mesmo tempo...
— Babe, vai pra casa, por favor?
Ela pedindo assim, Presley tinha zero de defesa.
Foi para Takapuna. Assim que desligou com ela, porque não teria condições de dormir na sua casa, apenas sabia disso. Então, dirigiu para lá, chegou, deu uma olhadinha geral; tudo seguia em ordem. Foi para a cozinha, fez um mate quente. Baixou a cabeça no balcão. O que faria, o que faria...? Subiu para o quarto, ligou a TV, abraçou o travesseiro. O cheirinho de sua Hanni era a única coisa que a acalmava ultimamente.
— Presley, você não pode perder a Manu — Falou consigo mesma.
Estava mais preparada naquela segunda-feira.
Hanni havia combinado com Kaori que ela ficasse com Aika durante aquela segunda-feira. Já estava chegando, pensariam em tudo certinho quando ela voltasse. Então, não viu sua menina pela manhã. Leo deixou Aika direto com Kaori, e Presley correu para o trabalho. Trabalhou pela manhã, a buscou ao meio-dia para almoçar, trocar de roupa e levá-la para a escola, tudo isso mentalmente cronometrando o tempo de voo de Hanni. Presley teve uma crise de choro no trabalho naquela tarde, de ansiedade, medo e até revolta pela situação.
Mas não podia ficar assim, não podia transferir esse tipo de sentimento para um bebê que não tinha nada a ver com suas confusões pessoais. Então, chorou no banheiro após ter vomitado seu almoço inteiro. Passou uns dez minutos chorando até conseguir se acalmar. Se acalmou, terminou seu dia de trabalho, buscou Aika, a levou para o jiu-jitsu e pediu para Aliana aparecer.
E ela veio, claro que veio, e Presley morreu de rir ao perceber que ela estava sem cheiro nenhum.
— Só produtos neutros, chega dessa humilhação de você me enjoando — Disse, sentando-se com ela numa das mesas da cafeteria — Me fala, descobriu sobre as matrículas?
— Descobri, Hanni está pagando.
— Mesmo?
— A minha matrícula e da Aika também — Respondeu, respirando muito fundo — Eu nem pensei sobre isso, ela não me disse nada também e...
— E... ela só quer vocês duas perto dela. Quando ela chega, Pres?
Outra longa respiração.
— Chega amanhã, às sete da noite, mais ou menos. Você fica com a Aika pra gente conversar?
— Claro que fico! Pego nossa menina na escola, não se preocupa. Como você está? Já sabe o que vai dizer? Como vai começar essa conversa?
Presley começou a lagrimar.
— Pensei em muita coisa, Lia, minha mente parece que vai explodir, mas continuo sem fazer ideia de nada.
— Não, você já decidiu algo muito importante, seguir com a separação. Acho que agora, não tem nada mais importante do que isso. O resto está em suspenso mesmo, já estava antes. Você vai passar por uma separação, por uma gravidez. Pres, eu conheço o Leo, ele vai assumir o bebê, você sabe disso, e se ele não assumir, eu assumo — Disse, fazendo sua amiga rir um pouco no meio do choro.
— Você me disse isso da outra vez.
— E eu assumiria, mesmo universitária, e a gente daria conta, você sabe disso. Porém, a sua modelo não vai permitir tal coisa. Ela não deixa mais a gente nem tomar banho junto, imagina assumir o seu bebê.
— Acho que ela vai me devolver para você. Você aceita?
Aliana pegou a mão dela sobre a mesa:
— Claro que sim! — Beijou a mão dela com carinho — Mas ok, me fala o que está te assustando pra valer.
Presley perdeu outra lágrima. Aliana a conhecia tão bem.
— Eu não quero... arruinar a Hanni com isso. Sei que ela está gostando de mim, a gente é louca uma pela outra, Lia, eu sei disso, eu sinto isso. E se eu a machucar demais?
Aliana apertou os lábios.
— E se ela machucar você demais? Você não pensa nessa parte?
Não, Presley não havia pensado. Mas pensou naquele momento, deu para ver que ela pensou.
— Ela... não, Lia. Ela não pode me machucar.
— Como você tem tanta certeza, Pres?
— Eu sinto que não pode. A Hanni nunca me machucaria, ou machucaria a Aika, eu só sei disso, não me pede para explicar como sei, eu só sei.
Não precisava de explicação. Ela confiava em Hanni de olhos fechados e Lia só queria confiar também. Se Hanni nunca tinha se apaixonado, Presley nunca havia tido o seu coração partido. Aliana nem sabia como isso poderia ser, ainda mais, naquela situação tão delicada.
Presley foi pra casa, em Takapuna, levou sua Taz-mania, extremamente agitada naquele dia, mas parecia mais calma depois do jiu-jitsu. Cuidou dela, fez janta para ambas, checou o horário e simplesmente não conseguiu dormir. Foi para a cama, ficou rolando com os travesseiros de um lado para outro, olhando a hora que não passava de jeito nenhum. Ligou a TV, tentou assistir algo, mas não funcionou também. Desligou a TV, foi buscar sua Aika, se deitou com ela, muito abraçadinha, mas só dormiu depois que Hanni ligou.
Ela estava em Doha novamente, e sim, sabia que alguma coisa estava acontecendo. Presley estava chorosa nos últimos dias, e Hanni desconfiava que não era apenas saudade. No entanto, não quis conversar à distância e só ficou muito, mas muito sensível quando Hanni tentou insistir. Não tinha problema, já estava voltando, e sua mulher estava na sua cama, bem onde pertencia e deveria estar.
Ficar longe havia sido horroroso, não que Hanni tivesse dúvidas se estava apaixonada por ela ou não, sabia que estava, só não sabia que podia ser tão ruim assim ficar longe. Falou com ela, sentiu novamente a voz estremecida, o apego de algo que estava doendo.
— Babe, eu quero te ver.
— Honi...
— Deixa, vamos.
Presley não resistia. Ligou a TV para ter alguma luz e liberou sua câmera.
E lá estava, sua modelo linda demais, de boné, top Diesel, jaqueta, Airpods nos ouvidos, já na fila de embarque. Presley estava na cama, de calcinha e moletom, com Aika nos braços. Hanni derreteu imediatamente.
— Meu Deus, eu não sabia que dava para sentir tanta falta assim — Disse sorrindo, mas com o coração mais do que apertado.
— Hanni...
— Babe, me escuta, olha pra mim: eu não vejo a hora de estar com vocês duas novamente, você acredita nisso?
Presley olhava no fundo daqueles olhos lindos.
— Eu queria você aqui, agora — Disse, com os olhos cheios.
— Meu amor, eu já vou chegar. E a gente vai resolver qualquer problema que esteja acontecendo, e eu vou dormir grudada em você, porque se eu tiver que passar mais uma hora sem você, eu acho que quem vai ter concussão mental, serei eu — Disse, fazendo Presley rir um pouquinho.
— Promete.
— O quê?
— Que você vai dormir grudada em mim.
— Prometo dormir grudada em você e resolver qualquer problema que seja, está bem?
Presley só queria que fosse simples assim.
— Está bem.
— Vou embarcar agora, mas tira uma foto e me manda? Você está linda, a Aika está linda.
E Hanni não existia.


A Hanni não pode abandonar ela gente, ela mesmo disse na época que eram amigas. Estou me corroendo de ansiedade.....
Ai meu, to ficando com medo…mas não é possível que a Hanni vai dar uma dessas…
É claro que com um amorzinho desse a Hanni não vai dar pra trás...Calma Presley! vai dar tudo certo! A Tessa não nos decepciona. kkkkk😉