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Acróstico 30

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


A Pragmática Manu


Naquela noite, Presley voltou para casa em Hillcrest.


Era uma quinta-feira, e Hanni estava correndo com sua rotina de quinta. Ela havia ido à escola de Aika e assinado um contrato para aulas semanais, uma vez que a procura aumentou significativamente após o workshop. A escola enxergou a oportunidade de incluir o jiu-jitsu como uma nova atividade na Educação Física. Hanni ficaria responsável por auxiliar a escola a montar um dojô, ministrando aulas toda quinta-feira. Quando não pudesse comparecer, Kaori assumiria as aulas; ela era ótima com crianças e ainda precisava do dinheiro.


— Sabe, eu acho isso muito legal nelas duas. Buscam trabalho, aceitam desafios e fazem muitas coisas ao mesmo tempo — Aliana comentou, enquanto tomavam um chá antes do jantar.

— Foi assim que elas se tornaram amigas, têm a mesma vibe. Eu até hoje não entendo os horários da Kaori.

— Ela estuda de forma semipresencial, geralmente de manhã. Em seguida, trabalha na Sky Tower, normalmente das onze da manhã às quatro da tarde. No tempo que sobra, pratica jiu-jitsu, se dedica à criação de conteúdo, nas sextas tem aula presencial, participa de voluntariados, e ainda presta serviços no Airbnb.

— Ela vende experiências.

— Isso, guia grupos em trilhas, organiza passeios radicais, eventos diversos. Ela nunca... — Aliana sorriu, pensativa — Fica jogada em casa sem fazer nada. E ela é jovem, poderia estar assim, mas opta por lutar por coisas que considera importantes. Está pagando o apartamento, conseguiu comprar o carro que queria e ainda ajuda os pais.

— Você a admira demais.

— Sim, eu admiro. É engraçado como nunca me dei conta, mas um bom relacionamento começa com admiração. Acho que percebi isso claramente quando ouvi você falando da Hanni e ela falando de você. Vocês se admiram muito, Pres, o olhar é de admiração o tempo todo, isso é bonito demais. Então, aprendi isso com vocês duas.

— Bem, eu só aprendi sobre isso agora também. Por que a gente aprende as coisas de forma equivocada? Principalmente, as coisas que tocam a relacionamentos?

— Acho que é porque não se fala muito disso. A gente aprende como ser bons filhos, bons pais, bons amigos, mas nunca bons amantes. Nem essa palavra é usada, é quase um tabu, como se fosse algo que todo mundo deveria saber e ponto. Onde ela está?

— Hanni? Na aula dela de jiu-jitsu, levou a Aika junto hoje. Deve chegar daqui a pouco. Ela tem um show mais tarde.

— E é por isso que a sua perna não para de balançar...?


Presley riu, totalmente culpada.


— É... complicado.

— Mas vocês conversaram, ficou tudo bem.

— Ficou tudo igual. Lia, quando eu era pequena, no primeiro livro que meu pai lançou e entrou algum dinheiro, nós saímos de férias e fomos para a China, visitamos muitas cidades e uma delas foi Xi’an, uma das cidades amuralhadas mais bonitas e mais protegidas do mundo. Lembro de ter ficado olhando para as muralhas e pensado que nada poderia entrar com tanta proteção. Hanni é como uma cidade amuralhada. Quando ela quer, ela só... se fecha, se protege.

— Mas com você, ela é diferente.

— Sim, pode não ser como Xi’an comigo, mas ainda é... Cartagena, com muralhas menores. Consigo vê-la pensando, presa na própria mente, como costumo ficar. A diferença é que sou uma molenga e ela é pragmática para algumas coisas. Porém, ela não é só isso. Ao mesmo tempo que passou o dia todo pensando, também passou o dia inteiro...

— Falando da esposa grávida e da filha! — Aliana não aguentava. Elas haviam criado um grupo há algumas semanas, e por aquele dia inteiro, Hanni falou do bebê, da enorme probabilidade de ser dela, que não tinha como se isentar de fato. Na mesma energia, Kaori dizia que deveria estar 184 a 1 de Hanni contra Leo, irritando Aliana. Aparentemente, era esporte recreativo para ela agora enumerar os privilégios que tinha com Presley. Ou pior, irritá-la com fotos dos ensaios, coisa que ela já fazia antes, mas desde Paris, estava impossível. Aliana recebeu outra mensagem — Aqui, a idiota que você não namora!


Presley pegou o seu celular para ver: era uma foto do ensaio de mais cedo, Hanni de biquíni preto, o abdômen marcadinho, os cabelos super hidratados, uma coisa! E a legenda era: “Eu estava extremamente GOSTOSA hoje de manhã, chuta o motivo, Lia.” E Aliana estava furiosa, rindo, mas furiosa.


— Meu Deus, ela dorme comigo, sabe...?! — Presley deu zoom na foto, nos detalhes, um absurdo!

— Presley, ela não sai do meu pé!

— E nem você do pé dela, quer o quê? Mas é disso que estou falando, ela é uma cidade amuralhada? É, eu consigo vê-la pensando o tempo todo, porém, ela é assim, também é extremamente inteligente, porque os argumentos dela fazem todo sentido. Mas, ao mesmo tempo, é boba desse jeito. Em resumo, eu estou apaixonada por uma idiota — Deu mais um zoom naquela foto — Olha essa boquinha, essa mulher me beija.


E Aliana começou a rir demais.


— Está apaixonada nada: você está amando essa idiota. Já se deu conta disso, Pres?


Presley respirou muito fundo. Afirmou, já tinha se dado conta sim.


— Mas ela segue solteira, porque é pragmática com isso.

— Ela é coreana, amiga. Hanni não vai namorar antes de você separar, já entendi isso e acho que você também. Porém, ela não vai te deixar, eu sei que não vai.

— E se aparecer outra, Lia? Mais simples, mais fácil, menos complicada?

— Pres, aparece todo dia — Falou, respondendo à mensagem desaforada de Hanni. Havia acabado de tirar uma foto de Presley sem ela perceber, por motivos de estar imersa na foto de sua garota de biquíni. Fez um coraçãozinho cruzando os dedos, captou a foto assim, Presley linda e o coraçãozinho. Legenda: imagens ao vivo do meu date da noite — Mas ela não está interessada, aparentemente, Hanni realmente se tornou uma mulher de família depois de você. Não fica ansiosa com isso, não, ela vai tocar como toda semana e voltará inteirinha para você. Me fala, que horas o Leo chega?


Presley checou o horário.


— Em uma hora mais ou menos, depende da hora que ele sair do trabalho.

— Está mais calma hoje?

— Mais calma, acho que agora vou começar a ver as coisas com mais clareza.

— Quando vai fazer o seu composite?

— No sábado mesmo, o da Aika também.


Lia a olhou com carinho.


— Lembro de quando você dançava, o quanto amava a câmera. Tem tanto de você que foi abandonado na parte de trás da sua mente, Pres.


Nisso, ela tinha absoluta razão.


— Lia?

— O quê?

Eu lembrei.


E Aliana abriu um sorriso.


— MENTIRA!

— Lembrei — Da noite em que elas ficaram, tinha lembrado — Acho que lembrei, vou te dizer o que lembrei e você diz se foi isso mesmo ou não.

— Vamos lá, me conta tudo o que você lembrou.


Contou o que lembrava. Lembrou que estava muito chateada aquele dia, que haviam brigado, ela e Aliana. Lembrou também que quando a encontrou na festa, já estava vindo de outra festa e havia bebido. Lembrou claramente que a olhou e a viu mais bonita do que nunca. Mas ela começou a falar, a brigar de novo, e Presley apenas buscou uma maneira prazerosa de fazê-la se calar. Daí a beijou, o beijo foi bom, a ponto de levá-la para o sofá e só subir em cima dela para continuar. Lembrou de querer arrastar Lia para o carro e então, de terem sido interrompidas por Leo. Tudo perfeito, havia sido isso mesmo que aconteceu, e Presley só queria entender por que tinha enterrado tudo isso.


— Tem uma conservadora dentro de você, Pres. Mas acho que você mesma a estrangulou nas últimas semanas.


Fazia sentido. Lia partiu, Presley foi checar o jantar. Havia feito uma massa artesanalmente, apenas para se acalmar um pouco. Ainda estava pilhada, ainda mais com Hanni tendo outro show naquela noite, ainda mais com elas dormindo separadas. Sabia que tudo isso fazia parte e sabia que Hanni estava correta em conduzir as coisas com mais calma, mas ainda assim...


A campainha tocou. Presley foi abrir a porta e abriu um sorriso enorme. Hanni estava de calça de quimono, rash guard, os cabelos presos num coque alto, e sua menina estava junto, toda de quimono ainda, as duas de branco, e Aika com um coquezinho alto também. Como podia?


— Estou atrasada, não consegui dar banho nela, Pres.


Presley a puxou pela cintura e a beijou, para o horror de sua vizinha da frente. Desta vez, pôde pegar uma reação, riu, Hanni olhou para trás, tentando entender.


— Ninguém pode te acusar de não dar entretenimento, Presley Park.

— Essa acusação eu não recebo jamais — Pegou Aika no colo — Entra, vem.

— Estou atrasada mesmo, honi. Preciso ir em casa, tomar banho.

— Entra, toma banho aqui, janta, depois você vai.


Hanni olhou naqueles olhos.


Babe...

— Vem, eu juro que não tem nenhum Godzilla aqui dentro.


Conseguiu arrastá-la para dentro, mostrou o banheiro de Aika, pegou as chaves do carro e foi pegar a mala da modelo lá de dentro. Elas entraram juntas no banho e então, sua coisinha linda surgiu de roupãozinho, dizendo que estava com fome, saltitando sem parar, contando da aula, só COM ADULTOS, que lá tinha outro mestre, numa empolgação só enquanto Presley esquentava o molho para o ravioli. Daí montou os pratos e pediu para Aika ir perguntar qual queijo Hanni queria por cima. Ela voltou trazendo Aika no colo, já praticamente pronta.


Que crime!


Ela estava de short jeans curtinho, acinzentado, cheio de pedrinhas decorativas porque era para o palco, blusa justinha, também escura, de couro. Os cabelos presos num rabo de cavalo, com duas trancinhas finas caindo ao redor daquele rosto lindo e, de lentes, lentes verdes-acinzentadas.


— Caramba!

— Vou colocar a Tom Ford por cima, acha que vai ficar bom?

— O que não fica bem em você?


Hanni sorriu, ficando vermelha. Veio até ela, a beijou um pouquinho.


Brie, eu prefiro queijo brie.

— Então senta para você jantar, vou finalizar o seu prato.


Ela finalizou, uma coisa linda de prato, Presley era caprichosa assim. Sentaram-se para jantar, Aika e Hanni, falando do dia, contando da aula. Aika era um evento onde quer que ia, não tinha muito jeito, ela vendia carisma, e a idiota por quem Presley estava apaixonada também. Ela se divertia tanto com tão pouco, estava empolgada com a desempenho de Aika entre os adultos, não se precisava de muito para fazê-la sorrir, e aquele sorriso...


— Você tinha que ver! A cara da Mia quando a Aika passou para as costas dela no meio do rola.


“Ela, guarda, abriu!” Aika sinalizou, de pé na cadeira enquanto comia, sorrindo sem parar.


— O choque no rosto dela, porque a criança foi para as costas, eu tinha que ter filmado! Babe, o que é isso que estou comendo...?

— Ravioli recheado com shimeji, shitake, tomate e manjericão.

— Acho que... — Levou outro para a boca — Posso comer uns trinta e seis desses aqui, você não pode ficar cozinhando assim. Como eu vou cuidar das coisas sem os contratos de modelo? Presley, essa indústria é totalmente desumana, tóxica.

Babe... — Presley começou a rir.

— Hum, outra coisa... — Colocou outro na boca — Meus pais estão vindo pra cá, em dois meses. Você tem que estar separada em dois meses, Presley Park.

Uh! — Aquilo pegou Presley desprevenida — Mas você...?

— Você prometeu me assumir.

— Meu Deus, eu vou, claro que vou, mas para os seus pais também?

— Principalmente para os meus pais. Como assim? Que tipo de coreana você é?

— Você está falando sério?

— Muito sério — Ela disse, mas estava sorrindo. Presley nunca sabia o que era sério e o que não era com aquela mulher — Falando nisso, quando você vai falar com os seus pais?

— Minha nossa, ainda tem isso.

— Quanto antes, melhor, Pres.


Ela tinha razão, mas Presley sabia que aquilo seria muito mais difícil do que as conversas anteriores. Sua mãe era coreana; ela não aceitaria que sua filha desse à luz a um bebê longe do pai. Menos ainda aceitaria que Presley estivesse com Hanni. E sabia que Hanni não aceitaria ser assumida sem o divórcio assinado. Por Deus, como tinha se enfiado num problema deste tamanho? Então, a campainha soou, sabiam bem quem era.


— Hum, eu só preciso escovar os dentes e retocar a maquiagem — Hanni foi para o quarto de Aika, usar o banheiro dela, e Presley foi abrir a porta.

— Ei — Ele lhe ofereceu um sorriso, de terno azul-escuro aquela noite.

— Oi — Presley deixou um beijo no rosto dele, mas ele ficou plantado na porta, sem entrar — Entra, Leo.


Ele deu uma olhadinha para trás.


— Hanni está aqui?

— Ela veio deixar a Aika, está terminando de se arrumar para um show.

— No mesmo bar da outra noite?

— Acho que sim.

— Hum, eu vou estar lá, meus amigos acabaram de mandar mensagem.


Presley cruzou os braços. Era só o que faltava, Leo se interessar por Hanni; seus face cardizinhos ficariam sem pai.


— Entra, eu fiz jantar pra gente.


E antes de chegarem na cozinha, Hanni surgiu, já com a jaqueta Tom Ford por cima, mais comprida que o short jeans daquela noite. Cumprimentou Leo, muito coreana, Presley já tinha notado que com homens, ela era coreana; com mulheres, brasileira. Não discorreria mais sobre o assunto. Nem pôde beijá-la quando ela saiu. Fez o leite de Aika, a colocou na cama; sua menina estava cansadinha. Então, veio para a mesa com Leo, para continuar a conversa da noite anterior.


— Eu... só fui pego de surpresa ontem. Mas depois, com calma, eu sei em qual noite aconteceu, está tudo bem, Presley, desculpa pelo que disse.

— Não tem problema, eu estava muito nervosa ontem também, acabei reagindo demais.

— Posso fazer algumas perguntas?

— Claro que sim.

— Você e a Hanni... Estão juntas?

— Sim, e não. Ela não vai estar comigo de verdade até a separação oficial.

— E como ela reagiu?

— Ela... bem, ela também não esperava por isso. Mas ela é minha amiga, prometeu ficar do meu lado para o que eu precisar.


Ele cruzou os olhos de Presley.


— E você acha que isso será suficiente? Pres, um bebê muda muita coisa, você vai precisar de apoio, todo tipo de apoio.

— Que espero que você me dê, afinal, o bebê é seu, Leo.

— É claro que vou te apoiar, mas é diferente apoiar de longe, do que apoiar estando juntos todos os dias.


Presley apenas o olhou; ele entendeu aquele olhar.


— Pres, eu posso melhorar nisso. Fiquei pensando hoje o dia inteiro sobre. Estou feliz que teremos outro bebê, a gente queria, lembra? — Ele falou sorrindo — Talvez venha um menino, ou outra menina, não me importo, só estou olhando para essa gravidez como uma oportunidade de melhorar.

— Aika já está aqui, Leo, você DEVE melhorar com ela, não esperar por outro bebê para querer fazer diferente.

— Quero melhorar com ela também, claro que sim. Quero estar mais presente, fazer mais coisas juntos. Estava pensando até em pegar um curso de NZSL novamente, quem sabe não consigo aprender mais um pouco desta vez. E quero ser melhor para você. Estar mais presente com você, te apoiando mais.

— Leo, a minha namorada estava saindo quando você chegou — Disse, só de uma vez — Nós dois terminamos, não há mais como voltar, achei que essa parte estivesse clara.


Ele ficou em silêncio por um tempo. Comeu um ravioli, pensou um pouco.


— Você disse que não estão juntas.

— Não oficialmente, mas estamos no meio de algo. Claro que não se esperava um bebê no meio de tudo isso, mas...

— Você tem uma incerteza com ela, não percebe? Não é algo concreto. A gente podia... tentar. Pelas crianças.

— Eu não posso fazer isso, Leo.

— Você prefere a incerteza?

— Eu prefiro... tentar outra coisa.


Outro silêncio longo.


— Leo?

— O quê?

— Você já me perdoou? — Pela traição.


Ele respirou fundo.


— Você já me perdoou? — Ele perguntou de volta.

— Você...?

— Não, nunca traí você. Estou perguntando se você já me perdoou por ter sido um babaca com você, por ter te abandonado aqui dentro sozinha, por ter sido... egoísta. Fraco. Eu só consegui ver todas essas coisas agora, estando de fora, vendo... o seu namoro com a Hanni. Eu a segui no Instagram. Não tem um dia que ela não poste algo sobre você, sobre a Aika. Fiquei me perguntando se era porque é algo recente, mas acho que nem no nosso algo recente, fui assim com você. E eu deveria. Você é uma joia, Pres. Ela te mostra o tempo todo porque é assim que tem que ser. Achei que ser fiel a você e cuidar das contas deveria ser suficiente, mas hoje sei que estava muito errado. E sim, tenho consciência, esse bebê, em partes, é dela também. Se ela decidir ficar, será dela, tal como a Aika hoje, já é dela também.


Silêncio de novo.


— E você está bem com isso?

— Eu não sei. Detestei vê-la saindo daqui, mas, ao mesmo tempo, gosto dela. Gostei desde o primeiro contato. E sei que se vocês ficarem mesmo juntas, o natural será eu cruzar com ela mais vezes. Você... já contou para os seus pais sobre ela?

— Meu pai sabe, minha mãe ainda não.

— Ela não vai reagir nada bem.

— Eu sei, estou me preparando para isso também. Leo, nós precisamos ir lá, conversar com eles.

— Deveríamos ir nós três, o impacto seria um só, ao menos.

— Como se a Hanni não terá nada comigo antes do divórcio?

— Ela é muito coreana para uma brasileira.

— É, eu sei disso.

— Mas acho que a sua mãe ficaria mais tranquila de saber que você não está sozinha, apesar da nossa separação. Elas já se conheceram?

— Sim, e foi muito agradável. Mas daí para apresentar a Hanni como namorada é outra situação.

— Bem, propõe pra ela de qualquer maneira, quem sabe você não tem uma surpresa.


Com Hanni pragmática? Não apostava em muitas surpresas, mas enfim. 


— Leo, você acha que a gente consegue acelerar os papéis?

— Farei o meu melhor.


A conversa terminou bem aquela noite. Terminaram de jantar, partilharam uma sobremesa. Aika tinha mesmo dormido sozinha e Leo partiu para uma noitada casual de quinta-feira com os novos amigos, no mesmo lugar onde Hanni estava tocando. Se jogou no sofá, colocou algo na TV exclusivamente para que não prestasse atenção, e foi caçar as mentions de Hanni, ver como estava o local aquela noite.


Igual a anterior, cheio de gente bonita, umas trinta garotas já marcando Hanni. Era interessante, ela não sofria tanto assédio masculino; a teoria de Presley é que ela intimidava os homens por ser bonita e reservada demais. E a mesma garota da vez anterior abriu live quando o show começou. Hanni e seu violão, a banda que ela queria apresentar, mas ainda não tinha acontecido a oportunidade. Abriu o show com “Pillowtalk”, apenas ela e o violão, o que fez Presley sorrir demais.


Não era uma coincidência, sabia que não era. Então, notou que tinha uma mensagem de “Park Manu 🥵”.


“Vai ter transmissão em live, me assiste, babe.”


Abriu o link, era uma transmissão em altíssima qualidade, com duas câmeras filmando do palco; por isso as lentes, a maquiagem caprichada. Era aniversário do restobar, não podia ser um show qualquer, e Hanni nem pôde ensaiar direito com tudo o que aconteceu. Ela estava nervosa, mas aparentemente, agora isso havia passado. Saiu de “Pillowtalk” acústico e entrou em “Hasta Los Dientes”, deixando o violão de lado por um instante, ficando soltinha pelo palco, indo pra frente, sorrindo para as pessoas. O show estava LOTADO, sem espaços vazios. Então, ela veio para uma das câmeras, cantando bem pertinho, aquela letra que dizia mais ou menos assim:


No es tu culpa lo que me haces sentir... Yo estoy loca, pero loca por tí... — Não é sua culpa o que você me faz sentir... Eu estou louca, mas louca por ti... — Niña hasta en mis sueños tú me haces sufrir! Te ví con tu ex y me quise morir... — Cantou para a câmera, fazendo Presley sorrir demais, a ponto de ficar vermelha assistindo — No te quiero compartir, te quiero solo pa mí... Não quero te dividir, te quero só para mim. Então, ela fez um coraçãozinho com os dedos e soletrou o nome de Presley em língua de sinais — ¿Me entiendes? Que mi cuerpo se enciende!


Era pragmática? Sim, mas era a coisa mais linda da vida também, e aqueles pequenos gestos de Hanni só davam a Presley a maior segurança do mundo. Tinha umas cinquenta garotas atrás dela? Claro que tinha, era para ter. Bonita daquele jeito, gentil, atenciosa, talentosa, bem-sucedida, como não teria? Mas quem estava ganhando beijos e música grudenta no palco era Presley. Brigaria por ela, hasta los dientes, como dizia aquela música. Ficou agarrada no celular, assistindo ao show inteiro. Não foi pequeno; ela cantou quinze músicas em quatro idiomas diferentes, todos os que falava. Um show lindo, agitado, e a energia de Hanni era surreal. Como ela podia colocar uma plateia inteira neozelandesa para dançar ao som de uma música brasileira? Inclusive, essa música, Hanni apontou para a câmera de novo, e por língua de sinais, pediu para Presley olhar a letra.


Uh — Estava entendendo certo? Leu de novo e de novo, começou a rir. A música chamava “Café da manhã” — Café da manhã com... ;p? Faz parte do título...? FAZ PARTE DO TÍTULO, entendi, eu sou o café da manhã, meu Deus, Hanni.


Aquela era a coreana que só queria namorar depois do divórcio.


E não tinha jeito de Presley deixá-la ir pra casa sozinha aquela noite. Ligou para ela assim que terminou o show.


— Presley...

— Vem pra cá.

— Você sabe que eu...

— Então vem buscar a gente.


Ela pareceu pensar seriamente no assunto.


— Ok, buscar vocês eu vou.


Hanni dirigiu para Hillcrest, ficava, literalmente mesmo, cravado no relógio, a sete minutos de distância da sua casa em Takapuna; era muito perto e muito misterioso que nunca tivessem se cruzado antes. Tudo acontece quando tem que acontecer, era isso, ponto final. Mas, de onde estava até Hillcrest, levou vinte minutinhos. Não era perto, mas era quase uma da manhã e não tinha trânsito. Estacionou seu Jimny e nem precisou bater na porta. Segundos antes, a porta se abriu e Hanni foi puxada para dentro.


Oh, Deus, era uma armadilha.


— Presley, você tá maluca? Pelo amor de Deus!


Porque ela a puxou para dentro e fechou a porta, empurrando o corpo de Hanni contra o dela. De moletom e calcinha, vestindo nada mais do que isso, descendo a boca pelo seu pescoço, grudando o corpo todinho contra o seu, e aquela mão atrevida que só desceu para o jeans imediatamente, tocando-a de uma maneira que...


— Eu tive uma ideia — Ela sussurrou no seu ouvido, as mãos já tirando a jaqueta do corpo de Hanni.

Babe... — Hanni mordeu a boca, já enlouquecidamente excitada por ela. Como podia ser assim? Como podia estar com tesão o tempo todo que Presley estava por perto?

— Fiquei aqui me perguntando... — Suavemente, tirou o moletom que vestia, e a lingerie cheia de transparência nocauteou Hanni completamente — Se você chegaria com fome — E sem dizer mais nada, ela só se ajoelhou na sua frente, abrindo o seu jeans enquanto baixava beijos por aquele abdômen, enquanto baixava os zíperes das suas botas cano curto com uma habilidade que Hanni nem sabia.

— Pres, o bebê...

— Tranquei a sua filha no quarto — Ela respondeu sorrindo, baixando o zíper do short de Hanni.

— E o meu outro bebê...?


Presley sorriu, seus olhos brilhando.


— Está muito seguro — Baixou o short dela, descobrindo o boyshort preto, curtinho da Hugo Boss que Hanni usava por baixo do jeans. Presley ergueu os olhos, buscando os dela — Posso, meu amor?

Você. É. Um. Perigo. E eu amo isso.


Elas fizeram amor na sala de Presley, que jamais, JAMAIS, havia tido atividade sequer parecida com nada que fizeram. E claro que Hanni ficou faminta depois, com os dedos doendo, inclusive, que Presley nunca mudasse, amém! Ficaria muito triste se aquele comportamento ninfo saísse de sua garota. E da lista de coisas que Presley jamais imaginou, estava Park Manu de camiseta e boyshort, jantando na sua mesa pela segunda vez apenas nas últimas seis horas. Serviu um único prato para as duas, com o ravioli que havia sobrado do jantar. E apenas de lingerie, Presley contou a ela sobre a conversa com Leo e a ideia que ele havia dado sobre irem juntos explicar a situação na casa dos seus pais.


Hanni quase se engasgou.


— Você quer que eu vá...?

— Manu, não é para você me pedir em casamento, só para demonstrar que vai estar do meu lado durante tudo isso.


Ela estava claramente em pânico, chegava a ser uma graça.


— Você quer contar para sua mãe que a gente...?

— Que você está comigo, me apoiando.

— Porque o seu divórcio continua em andamento.

— Você está apegada a esse detalhe do divórcio.

— Não é um detalhe, para sua mãe principalmente! Ela vai pensar que eu me intrometi no meio do seu lar.


E Presley teve uma crise de risos.


— Ela vai pensar mal de você?

— Muito! Ela vai achar que destruí uma família.

— Para formar outra família comigo, não é tão grave, vai.

— Você está se divertindo!

— Eu não estou, não, estou nervosa com isso também — Pegou a mão dela com carinho — Mas acho que o Leo tem razão, penso que há uma chance de mamãe ficar mais tranquila se perceber que não estou sozinha — Olhou bem para ela, e então: — Babe, você não quer me assumir.


E Hanni abriu um sorriso, enquanto engolia outro ravioli.


— Claro que vou te assumir, como assim...?

— Você não quer ir falar com os meus pais.

— Eu vou, honi, como não vou? Vou sim! Vestida de modelo — Daí olhou para ela de lado — Você vai me assumir para os meus pais?


Presley começou a rir.


— Claro que vou. Por que eu não assumiria?

— Por causa do seu divórcio.

— Vou resolver isso, está bem?

— Em menos de dois meses

— Em menos de dois meses, prometo. Preciso falar com o seu irmão também — Presley estava se dando conta da lista de pessoas com quem tinha que falar.


Hanni a olhou de lado novamente, outro ravioli na boca.


— Aham. Você vai explicar pra ele?

— Eu... explico.


Mais um ravioli.


— Quando a gente vai falar com os seus pais?

— No domingo, vou pedir para minha mãe fazer um jantar. Agora, vamos para o banho?

Mmmm... Ok. Eu vou dormir no sofá.

— Ah, mas de jeito nenhum! É só uma cama, Hanni. Eu nem quero pensar em quantas garotas aquela cama onde durmo com você já viu, e...


Hanni a beijou, rindo demais, ok, estava sendo boba e não queria Presley pensando... naqueles números. E foi assim que acabou dormindo naquela casa, naquela cama, agarrada em sua garota. Foi assim que foi acordada com um beijinho, com Presley já pronta para ir para a embaixada porque estavam precisando dela.


— Mas você vai me deixar aqui?

— Fica aqui, babe, eu venho almoçar.


Ela foi trabalhar. Hanni dormiu mais um pouco, porque andavam dormindo muito pouco ultimamente e, acordou com um bichinho entrando por baixo do seu edredom. Era Aika, eufórica por estar vendo Hanni em casa, perguntou de Presley, então explicou que a mamãe havia ido trabalhar, e foram para a cozinha juntas, fazer o café da manhã, com Aika mostrando onde ficavam as coisas, agarrada em seu colo. E enquanto faziam isso, a campainha tocou. Hanni colocou um roupão por cima da camiseta e da calcinha que vestia e foi atender, com Aika em seu colo.


Abriu um sorriso para a total desconhecida do outro lado da porta.


— Oi, bom dia — Hanni tentou ser o mais simpática possível naquela situação estranha de estar atendendo uma porta que não era sua.

— Oi! É, eu moro na casa aqui da frente e recebi uma encomenda da Presley — Ela checou Hanni inteira, tentou ser discreta, mas não deu muito certo.

— Ah, sim! É... a Presley não está, mas posso entregar para ela.


E a moça ficou olhando para Hanni, mil pensamentos passando pela mente dela muito claramente. Então sorriu, acabou sorrindo.


— Quê?! — Hanni acabou rindo também, porque não estava entendendo nada.

— É que a minha mãe acha que você está namorando o Leo, mas acho que você está namorando a Presley.

— Você veio para descobrir.

— E entregar a encomenda. Só não esperava que fosse você a abrir a porta.

— É, então.... A encomenda...? — Esticou a mão para pegar a encomenda, a garota apontou o pacote na direção dela, e então, negou — Quê?!

— Qual dos dois?

— Sério?

— Extremamente.


Hanni apertou os olhos contra ela.


— Você está certa.


Ela riu alto. E entregou a encomenda.


— Bem-vinda à vizinhança.


A pragmática Manu estava mais pegajosa do que nunca.

 


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6 comentários


Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
08 de fev. de 2024

Não vejo a hora desse jantar em família!!!!kkkkkk Vai ser top! 😂

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sylber1011
sylber1011
08 de fev. de 2024

Kkk vizinhos, a minha passeadora de cães, tem um irmão pequeno que vem juntos buscar minha cachorra pra passear as vezes, e ele me perguntou se minha namorada era minha filha mais velha kkkkk e temos so 2 anos de diferença de idade kkk bonitinho 😂

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Larissa Soares
07 de fev. de 2024

Assunto da vizinhança pelo resto da vida kkkkk

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setubalrodrigues
setubalrodrigues
07 de fev. de 2024

Qual vizinhança nao tem um vizinho curioso kkk.... Leo querendo voltar com Presley ainda bem que ela nao aceito o argumento dele.

Ansiosa pra ver o encontro de Hanni com a sogra

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Taiani Eustaquio
Taiani Eustaquio
07 de fev. de 2024

Mas gente, parece meus vizinhos kkkkkk Adorei

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