Acróstico 31
- Riesa Editora

- 11 de fev. de 2024
- 17 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2025

Espaço e Flutuar
Tão bonita.
Ela era bonita pra caramba, como podia?
Era sábado de manhã e Hanni estava no estúdio, mas não para fotografar; estava lá para assistir Presley fotografando. Ela não sabia, claro que não sabia, mas Hanni havia contratado o melhor estúdio de Auckland, o mesmo onde a Diesel costumava realizar seus ensaios, e havia pedido a melhor fotógrafa que conhecia, uma australiana extremamente renomada na Oceania, com quem Hanni havia trabalhado para marcas como Hugo Boss, Balmain e Jacquemus. Queria o melhor para aqueles dois composites, mas algo lhe dizia que Presley daria conta sem grandes problemas. Contratou também uma stylist, que encontrou as cores que combinavam perfeitamente com Presley. Ela ficava bem de preto, o traje social a vestia muito bem, e aquele rosto realmente não precisava de muita coisa.
Face card. Era sobre isso e ponto. Se pode ajustar muita coisa, mas ao ter um rosto como o de Presley, o esforço para que câmeras e luzes funcionem é realmente mínimo. Hanni estava toda de Paco Rabanne naquele dia, jeans, camiseta masculina, um olho na criança correndo de um lado para outro no estúdio e outro em Presley sob o foco habilidoso da fotógrafa. Hanni já tinha feito dezenas de vídeos dela, havia tirado nem sabia quantas fotos, feito Stories e Stories, tanto na sua conta como na conta dela.
— Manu, acho que podemos fazer em preto e branco, o que você acha? Olha isso aqui, o contraste dos tons por ela — A fotógrafa mostrou no notebook enquanto faziam uma pausa — Presley, o seu rosto é... — Sorriu, tentando achar a palavra certa — Esculpido, cada proporção está no lugar correto, olhos que conversam com o nariz, que conversa com a boca, bem distribuídos pela face. Como você nunca pensou em fotografar?
— Ah, não houve tempo — Abriu um sorriso muito tímido. Ela era tímida, Hanni não aguentava quando a timidez surgia assim — Aquela criaturinha ali não me deu tempo de pensar em muita coisa, não.
— Sabe que você não tem um rosto coreano, a Manu tem esse rosto, tem todas as linhas coreanas, a gente vê nas feições dela, esses ângulos aqui — Apontou para a mandíbula de Hanni, a linha dos olhos — Perfeitamente coreanos, mas como ela não tem o tom de pele tradicional, ela se tornou altamente vendável, deixou de ter um rosto clássico e caiu num tipo de beleza fashionista demais e altamente exuberante. Você tem algo diferente disso, a sua beleza é urbana, é como se... tivesse nascido em Londres, mestiça de etnias, você é urbana, mas muito sofisticada. Sei que a Diesel está pensando em fazer um duo muito sofisticado, com muita beleza, jovem, refrescante, é a ideia que estão querendo que a superstore tenha. E com um rosto que ninguém conhece — Ela abriu outro sorriso — Eu faria o mesmo se tivesse uma loja e você tivesse ido parar na minha inauguração.
Hanni e Presley trocaram um olhar, os sorrisos ficando tímidos.
— Ah, mas vocês são uma graça juntas também! — A fotógrafa disse, fazendo as duas rirem demais.
Mais algumas fotos de Presley e pronto, tinham o suficiente. Presley era boa nisso, era boa com câmeras, havia estudado design por tempo suficiente para compreender os seus traços, os seus ângulos, e Lia tinha razão. Costumava estar na frente das câmeras e gostava, não era nada novo para ela. Com o que havia aprendido com Hanni, não houve grandes dificuldades.
Dificuldade mesmo foi fazer a Taz-mania parar na área das fotos quando chegou a vez dela. Aika era intensa, estava feliz, se divertindo muito, mas parar quieta realmente não era o forte dela. Hanni teve que intervir, conversar com ela, sempre sorrindo, sempre calma. Com a direção de Hanni, o ensaio começou a andar.
— Manu, ela é muito parecida com vocês duas! — A fotógrafa disse, checando a câmera por um instante enquanto Presley se trocava.
— Eu sei, notei isso assim que conheci essa criaturinha aqui — Hanni estava de joelhos diante de Aika, sempre em contato visual com ela, sorrindo sem conseguir parar, porque o ensaio estava ficando lindo.
— Vocês estão juntas há quanto tempo? — Ela perguntou, voltando a clicar Aika, que estava a coisa mais linda, toda de jeans, descalça, os cabelos soltos e aquela carinha perfeita. Como podia?
Hanni se atrapalhou via pensamento com a pergunta.
— Então, nós... É que nós não estamos exatamente...
E a voz de Presley surgiu em coreano, de dentro do camarim.
— Babe, eu preciso de você aqui!
Hanni abriu um sorriso, a fotógrafa também.
— Não exatamente, entendi, entendi.
— Você me dá só um segundo — Sinalizou para Aika — Seja boazinha, eu já volto.
Hanni entrou no camarim e encontrou Presley sentada sobre os joelhos em um canto, de cabeça baixa, tentando controlar a respiração, extremamente enjoada.
— Honi...
— Aqui, já estou aqui com você — Hanni a abraçou por trás, colocando a mão por dentro da camiseta dela, tocando seu abdômen, da mesma maneira que a ajudou naquele dia no jiu-jitsu, e Presley apenas soltou o ar profundamente, relaxando imediatamente.
— Como pode algo tão simples ajudar tanto?
— O calor ajuda, e a pressão nos pontos certos também. Pres, eu acho que... já sabia. Desde aquele dia, lá no jiu-jitsu.
— Mesmo?
— Mesmo. Isso me passou pela cabeça. Mas daí, mandei o pensamento embora, deixei para lá, não voltei a pensar nisso — Seguia a massagem, os dedos delicadamente afundando, gerando calor, fazendo o enjoo acalmar.
— E acho que fiz a mesma coisa daquele dia para frente. Você está tensa, não está?
— Eu não gosto dessa ideia do Bogum te encher de perguntas, me sinto uma adolescente quando ele exige essas coisas.
— Ele se preocupa com você, Hanni. E eu havia conversado uma coisa com ele antes e as coisas mudaram agora, não é um problema para mim.
Houve um silêncio.
— Hanni, o que foi?
— É que... são muitas explicações. Nós duas somos... difíceis de explicar.
— E se a gente passar a explicar só para quem precisamos e ignorar o resto?
Hanni pensou um pouco.
— Você vai ficar chateada se eu te apresentar como amiga de vez em quando?
Presley sorriu.
— Claro que não, Hanni, sei que é isso que somos. E sei que você realmente se incomoda com essa questão do casamento, estou começando a te entender melhor.
— Tem uma coisa que você me disse uma vez.
— O quê?
— Que você não iria sair de um relacionamento e pular em outro.
— Hanni... — Presley respirou fundo — Tudo o que digo sobre relacionamentos, não se aplica a você. Não foi isso que você me disse?
— E para mim é assim.
— Para mim também é. Por que você está insegura hoje?
— Eu não sei. Não gosto de me sentir assim.
Aquela foi a primeira fragilidade que Presley viu em Hanni durante todo aquele tempo.
O ensaio de Aika terminou, num enorme sucesso. Ela era realmente boa nisso; adorou estar na frente das câmeras, o que deu um alento a Presley. Seria uma grande brincadeira para ela, e o dinheiro que recebesse pelos seus trabalhos seria diretamente investido no seu futuro, como haviam combinado... os três, Leo, Presley e Hanni. Haviam tomado um café juntos na noite anterior para conversarem sobre os contratos de Aika e o jantar de domingo com os pais de Presley. Sabia que Hanni tinha ficado desconfortável com Leo, mas não tinha uma fórmula para melhorar aquilo. Apenas esperar que eles ficassem mais à vontade um com o outro com o tempo.
Pronto, entraram no Volvo, e Presley dirigiu para a casa de Marcelo e Sabina. Naquela vez, havia feito uma sobremesa ela mesma para levar, uma torta bonita que as crianças iriam adorar. E Hanni seguia um pouco ansiosa. Pararam em um sinal, Presley deu uma olhadinha para trás: Aika estava imersa lendo no iPad. Olhou para o lado e Hanni não parava de balançar a perna. Colocou a mão na perna dela.
— Babe, o que está errado?
— Nada, é só...
— Hanni, não mente pra mim. O que está te deixando assim?
Ela respirou fundo.
— Não deixe o Bogum te convencer das coisas que ele acredita.
Presley olhou para ela, abriu um sorriso e fez um carinho nos cabelos dela.
— Honi, olha pra mim.
Hanni olhou, não queria parecer boba, mas já devia estar parecendo.
— Irei ouvir o seu irmão, respeitosamente; afinal, ele é o seu oppa e precisa ser ouvido, mas nós duas somos mulheres adultas e tomamos nossas próprias decisões.
— É que... ele vai dizer que não sou boa nisso. Em tomar as minhas decisões.
— Bem, eu sou boa nisso — O sinal abriu, Presley voltou a prestar atenção na direção — Estamos cuidando uma da outra e eu não tenho nenhum adendo a fazer sobre a sua capacidade de tomar boas decisões. Tudo bem?
Hanni respirou fundo.
— Tudo bem.
Chegaram no condomínio. Passaram pela portaria, estacionaram na torre de apartamentos. Presley pegou a torta, estava de vestidinho justo, preto, com um agasalho amarrado na cintura. Hanni, toda de preto ao seu lado, carregava Aika no colo. Elas subiram, tocaram a campainha, e Hanni seguia tensa. Então, Presley aproximou a boca do ouvido dela, falando qualquer bobagem que sabia que a faria rir. Ela riu mesmo, porque ria fácil das coisas, então a puxou pela cintura, fechando os olhos, encostando a testa no ombro dela. Hanni beijou a testa dela, cheirando aqueles cabelos, falando com ela, um apego só, o tempo todo, um apego só...
Que dava para ver nas câmeras.
— Aqui, o gorgeous couple de volta à nossa porta — Sabina disse, observando-as pela câmera de segurança.
— Manu mais rendida do que antes, olha isso.
— Oppa, Presley é boa para ela.
— Sei que é, é só... complicado. E com nossos pais vindo em breve, nem sei. Bem, vamos colocar essas três para dentro.
Atenderam a porta e um festival de sorrisos foi trocado. As crianças vieram recebê-las também, felizes por estarem vendo Aika, e decidiram almoçar antes das conversas. Tinham se atrasado um pouco; estava passando da hora das crianças comerem. O almoço foi tranquilo, cheio de assuntos leves e muitas risadas, porque Marcelo e Sabina eram extremamente agradáveis. Quando as crianças terminaram o almoço e receberam a sobremesa, Pipe pediu que comessem na mesinha do quarto de brincar. Eles permitiram, e os três partiram juntos, com seus pedacinhos de torta, seguindo a pequena e responsável líder que era Pipe Park. Era hora da conversa difícil.
— Então, Bogum, desde a nossa última conversa até agora, uma... — Presley trocou um olhar com Hanni — Variável nova surgiu.
— Uma variável nova...?
Outro olhar entre Hanni e Presley. Hanni tomou a frente.
— Presley não sabia que... Bem, nós não sabíamos que ela estava grávida enquanto nós duas... Mmmm. A gente não sabia.
Os olhos de Bogum cresceram trezentos por cento. Sabina teve uma crise de risos. Hanni decretou que eles precisavam de um café e foi preparar um café para todos, enquanto seu irmão insistiu em conversar a sós com Presley na varanda, o que Hanni discordou totalmente.
— Babe, tudo bem, ok? Nós só vamos tomar um café e conversar.
— Eu não gosto dessa ideia, Pres.
— Bem, amanhã a minha mãe deve querer conversar a sós com você na varanda também.
— Vou desmaiar.
Presley riu.
— Claro que não, fica tranquila, está bem? — Deixou um beijinho nela, pegou duas xícaras bem servidas de café e foi até a varanda, onde Bogum esperava por ela.
E foi uma conversa longuíssima, onde Hanni não podia ouvir nada, apenas ver os dois através das vidraças. Seu irmão não parecia nervoso, mas parecia tenso, muito tenso, e Presley apenas manteve a mesma postura a conversa toda: uma postura segura, tranquila, sempre olhando nos olhos e respondendo tudo com sinceridade.
— Ela é muito segura, né? — Era Sabina, observando os dois da cozinha ao lado de Hanni enquanto tomavam café.
— Ela sabe como falar com as pessoas, é uma das coisas em que ela vai muito bem — Sua perna não parava de balançar.
— Manu, como você está com tudo isso? De verdade, como você está?
Hanni respirou fundo, sem tirar os olhos de Presley. Sentou-se sobre o balcão da cozinha.
— Eu não sei muito bem. Não era o que eu tinha em mente, mas, ao mesmo tempo... — Abriu um sorriso — A ideia faz o meu coração flutuar.
Sabina sorriu também.
— Meio que você fez com ela, Hanni.
— Eu sei, sinto assim, de verdade.
— Você lembra... — Sabina se sentou ao lado dela no balcão — Lembra que Bogum e eu tentamos engravidar por muitas vezes? Mas não dava certo. A gente vivia muito aos trancos e barrancos, brigava muito, não conseguia dar certo em lugar nenhum. Eu sabia que o amava, ele sabia que me amava, mas a gente não conseguia se entender. Então, teve o nosso maior momento de fragilidade, o seu acidente. Você estava sob os nossos cuidados, tivemos que mudar tudo em prol do seu bem, e da maneira que foi, tinha que ser nós dois, a gente só podia contar um com o outro. E foi como... não sei, eu me apaixonei por ele de novo. Vendo aquele rapaz sendo tão forte, cuidando de tudo, te protegendo, e ele diz que se apaixonou por mim de novo pelo mesmo motivo. De repente, sem nenhum esforço extra, sem fazer nada de diferente, nós engravidamos. Sabe o que acho? Alguns bebês só podem ser feitos com muito amor, muita paixão e do jeito que vocês explicaram que foi, arrisco dizer que a Presley só engravidou porque conheceu você. Porque vocês duas se apaixonaram.
Hanni respirou fundo, sorrindo, olhando para baixo, relaxando um pouco.
— Mas ainda assim, o bebê tem um pai. Com quem ela ainda continua casada.
— Mas ela está se separando, não?
— Está, mas não tenho um bom pressentimento sobre isso.
— O que é totalmente natural. Hanni, pela primeira vez, você está tendo uma pessoa que teme perder, já parou para pensar nisso?
Outra respiração profunda. Andava pensando nisso o tempo todo, na verdade.
A conversa com Bogum levou mais um tempo, quase uma hora. Presley disse que falariam depois sobre a conversa, mas por hora, podiam curtir a tarde que haviam planejado com Marcelo e Sabina. E foi uma tarde muito boa; assistiram a um filme juntos enquanto as crianças brincavam. Conversaram um tanto mais, muito amistosamente. Bogum parecia mais tranquilo, e Presley parecia bem. Voltaram para casa no final da tarde, para Takapuna, levaram Aika para brincar um pouco lá fora com o filho da vizinha da frente. Enquanto assistiam aos dois correndo com Blackstenius, falaram sobre a conversa com Bogum. Ele conversou com Hanni também, a sós. Não havia sido exatamente bom, mas não havia sido de tudo ruim. Seu irmão estava preocupado, e não era sem razão.
Elas estavam sentadas no tablado da varanda.
— Ele tem razão em estar preocupado, Hanni, não tiro a razão dele. Não é o que eu gostaria para Aliana, por exemplo. Inclusive, eu seria muito mais incisiva com ela do que ele foi comigo numa situação assim.
Hanni olhava para as crianças, rindo e rindo, brincando juntas. Então, Presley falou novamente.
— Hanni, eu não quero me aproveitar de você.
— Eu não sinto que você esteja fazendo isso, Pres. Sabe de uma coisa? Amanhã, a sua mãe vai achar que estou fazendo o mesmo com você.
Presley olhou para ela, abriu um sorriso.
— Que vantagens tenho para você tirar de mim...?
Hanni respirou fundo pela centésima vez apenas naquele dia. Se deitou, com a cabeça no colo de Presley, que imediatamente levou a mão para aqueles cabelos, tocando os piercings na orelha dela delicadamente.
— Aika. Esse bebê de agora.
— Hum, essas vantagens...
— Ela vai pensar o mesmo. Eu só... sinto isso.
Houve um momento de silêncio. E de repente, Presley quebrou chorando.
Hanni se sentou imediatamente, acariciando as costas dela, tentando entender o que havia acontecido.
— Ei, o que foi, Pres?
— Bogum está certo, Hanni. E a minha mãe vai estar certa amanhã quando me pressionar sobre o que estou fazendo com você, não estando com você, mas o que estou te causando. Acho que... — Respirou fundo, tentando se acalmar — Nós duas estamos fazendo o mesmo que fizemos no dia que passei mal no jiu-jitsu: estamos ignorando, deixando para lá um problema que a gente sabe que existe. Eu não te dei tempo para pensar nisso tudo — Puxou o ar profundamente, tentando se acalmar — Estou com tanto medo de te perder que não te dei tempo para pensar, para entender as coisas, para perceber os seus sentimentos. Você não quer ir nesse jantar amanhã.
— Honi, não é assim...
— Você não quer ir e está correta em não querer. Foi uma ideia ruim, não sei por que ouvi o Leo nisso. Não posso te sujeitar a algo assim apenas porque estou com medo de te perder.
— Presley, eu disse que vou estar com você. Não sou criança, sei o que disse, sei o que prometi.
— Mas você realmente pensou? Você teve tempo para pensar em tudo isso? Eu não tenho nada a oferecer para você agora que não seja problemas.
— Não fala assim, babe.
— Eu invadi a sua vida, mudei um monte de coisas e sigo querendo mudar mais coisas ainda, apenas porque estou com medo de te perder e isso é egoísta, é pequeno. Eu já estava apaixonada por você quando deixei isso acontecer. Fui descuidada, eu não deveria ter deixado ocorrer. Eu não posso... passar em cima de você com os meus problemas. Nós nem estamos juntas.
— Presley, já te expliquei o motivo de não estarmos juntas, e não, não tem nada que eu queira mais do que estar com você. Mas começamos tudo isso da maneira errada, temos uma criança entre nós duas, temos duas agora, eu não quero... ser descuidada nas coisas. Foi tão estranho estar com o Leo ontem à noite, na casa de vocês. Eu não gosto do sentimento de estar tomando coisas dele. A esposa dele, as crianças dele.
— Hanni, as coisas não são assim também.
— No momento, são. E esse sentimento me incomoda. Mas quero estar com você, quero estar com a Aika, eu só quero que essa situação fique menos pesada, mais tranquila. Não quero sentir isso, que estou com algo que não me pertence, por isso, estou insistindo no divórcio.
Presley buscou os olhos dela.
— Você está desconfortável.
— Eu estou.
Presley ficou quieta por alguns instantes, abraçando os joelhos contra o abdômen.
— Hanni, acho que a gente precisa de algum espaço.
— Presley...
— Para pensar em tudo isso, para tentar formar cenários na nossa mente, para entender o que a gente está sentindo. Você é... jovem, é linda, é cobiçada, não quero te fazer refém dessa situação, te fazer sentir que você tem responsabilidades onde a única responsável sou eu mesma. Não quero acelerar as coisas como estou fazendo, como fiz na quinta, quando você claramente estava desconfortável de ficar comigo na outra casa.
— Presley, Presley: — Hanni segurou o rosto dela com as duas mãos, fazendo-a olhar nos seus olhos — Eu já estive com uma abusadora, eu sei reconhecer uma, e não, você não está nem distantemente qualificada para isso — A soltou, olhando para frente, ficando claramente nervosa com o que havia dito.
— Hanni...
— Não precisa dizer nada sobre isso. Você só não é abusiva comigo e tudo o que fizemos até aqui, foi porque nós duas queríamos. Mas talvez você tenha razão, nós não estamos pensando sobre o assunto, estamos tentando ignorar algo que tem sim um peso, uma gravidade. Talvez a gente precise de algum espaço para pensar melhor, entender melhor. Mas nós não estamos sendo... abusivas.
Um muro de silêncio enorme se formou. A cidade amuralhada de Cartagena, se tornando Xi’an. Presley levantou, foi lá dentro, deixando um espaço para Hanni respirar. Retornou com duas canecas de mate gelado, sentou-se ao lado dela novamente.
— Obrigada.
Mais silêncio. Hanni seguia com os olhos fixos para frente, nas crianças, lutando com muitas emoções diferentes muito claramente, brigando para manter dentro, não deixar nada escapar.
— O quanto ela te machucou?
Ela soltou o ar pela boca, os olhos cristalizando por um instante.
— Cinco centímetros na cabeça, uns dez na minha alma. Sabe de uma coisa? Às vezes, penso que é ela que não permite que eu seja feliz — Disse, a garganta apertando demais — Você me disse uma vez que nunca pode ter nada do que quer, acho que eu também não. Por todo esse tempo depois do acidente, nunca cheguei tão perto de ser feliz como estou agora, mas olha o tanto de pessoas que estão entre nós. O tanto de... — Puxou o ar, segurando o choro dentro da cabeça — Convenções. Passos a seguir. Sentimentos a respeitar.
— Hanni, eu prometi que nunca ia te machucar.
— Você não me machuca. A situação que está machucando agora. Não é o bebê; é a situação. Pres, eu acho que... preciso realmente de algum espaço.
Sabia que ela precisava.
Haviam acabado de descascar uma ferida grave, que Presley seguia sem saber a profundidade total, apenas sabia que ainda doía, e a última coisa que desejava na vida era imprimir mais dor em Hanni, quando ela claramente estava lhe dizendo estar desconfortável. Deixaram Aika terminar de brincar, e Presley pediu que ela se despedisse de Hanni. Ela contestou, mas acabou cedendo. Presley a colocou no carro e veio se despedir de Hanni.
— E amanhã? — Hanni perguntou.
— Não se preocupe, eu resolvo isso. Você tem certeza de que quer ficar sozinha aqui? Não é melhor ficar no Bogum ou chamar alguém pra cá?
— Estou bem, Pres, eu só... preciso pensar um pouco mesmo. Você está bem para ir pra casa? Você não tem que sair daqui assim também.
— Hanni, a gente não pensa quando estamos juntas, é impossível.
— Nisso, você tem razão — Ela abriu um sorriso fraco. Os braços cruzados no abdômen, um olhar baixo, uma postura que Presley ainda não havia visto nela. Havia conseguido quebrá-la assim?
— Liga se precisar de mim?
— Claro que sim. Me liga também? Para qualquer coisa.
— Claro que ligo. Tira o dia para você amanhã, está bem?
— Pode deixar.
Trocaram um olhar. Presley se afastou, indo em direção ao carro.
— Presley?
— Oi!
— O meu coração flutua quando penso em nós duas.
Presley voltou, andou em direção a ela e a beijou, puxando sua coreana pela cintura, a beijando longamente, densamente, com pedaços de alma escapando pelos lábios das duas.
— O meu coração é seu. A gente vai resolver tudo isso.
E assim, Presley partiu para casa.
Foi difícil dormir aquela noite. Se sentia sufocada por tudo, assustada com a conversa, mas dentro do seu coração, sabia que era a coisa certa a se fazer. Não podia continuar atropelando as coisas, passando por cima da vida de Hanni daquela maneira. Precisava dar um tempo a ela para pensar, raciocinar sobre a situação toda. Presley havia tido esse tempo quando ela estava em Paris. Não resolveu muita coisa? Não, mas ao menos, teve o direito de pensar.
Havia sido um relacionamento verdadeiramente abusivo com a tal namorada anterior. Algo que havia deixado marcas. Era compreensível a proteção de Bogum, compreensível as muralhas de Hanni e era preciso admitir que a situação não era simples. Era necessário admitir que uma criança muda tudo e que o momento de Presley era muito, muito complicado mesmo. Não conseguiu dormir sozinha; foi buscar Aika para dormir consigo. Pegou no sono, teve pesadelos, acordou muito cansada e ligou imediatamente para Leo.
Desmarcou o jantar; iria falar com seus pais sozinha, era o correto a fazer. Ligou para sua mãe em seguida, pediu que ela cancelasse o jantar, mas Presley e Aika iriam almoçar com ela. Checou seu celular, não havia mensagens de Hanni. E quando escreveu para ela, a mensagem não foi entregue.
O que estava acontecendo...?
Talvez ela precisasse mesmo ficar sozinha. Tentou não se preocupar com isso, mas durante a manhã inteira, ficou checando se aquela mensagem havia sido entregue e não, nada.
— Será que ela ainda está dormindo? — Se perguntou, já tocando a campainha na porta de seus pais, levando Aika pela mão.
Ao menos, aquele almoço ocupou a sua mente por três horas, e sim, foi tão difícil quanto imaginou que seria. Sua mãe recebeu a notícia da gravidez como se estivesse num paraíso; ela sempre quis ter um segundo neto, era um sonho dela. E aparentemente, esse bebê, na mente dela, era um bilhete premiado para reatar o seu casamento. Quando Presley negou, foi muito difícil. Foi exaustivo, doeu em muitos momentos. Não era algo que ela iria admitir. Como assim? Presley grávida e seguia rejeitando o casamento?!
— Mãe, eu não vou voltar com o Leo! Por favor, coloca isso na sua cabeça de vez!
— E o que você vai fazer com essa criança, Presley? Me explica o que você tem em mente, porque não consigo entender!
— Vou cuidar dessa criança eu mesma, da mesma maneira que cuido da Aika! O Leo só precisa assumir as responsabilidades de pai que ele tem. Ele já está ciente, tudo deve dar certo assim — Sua cabeça estava estourando de dor, sua mãe a encurralava na cozinha enquanto o seu pai saiu para brincar com Aika no quintal.
— Presley, você está cometendo um erro grave. Com você mesma e com essas crianças.
— Não estou. Sei das minhas responsabilidades, sei que sou uma boa mãe, darei conta de tudo isso.
Conseguiu sair perto das quatro, e seu pai a seguiu até o carro.
— Filha, e a Hanni?
Presley respirou muito fundo.
— Ela está bem, nós... estamos pensando em como resolver tudo isso.
— Mas ela vai estar com você?
Presley esperava que sim. Checou seu celular antes de começar a dirigir; a mensagem seguia não entregue. Daí, tentou ligar e nada; o celular estava desligado. Sim, havia prometido um espaço para ela, mas uma sensação ruim começou a tomar conta e, quando percebeu, estava dirigindo para Takapuna. Passou pela portaria, chegou até a casa, desceu com Aika, bateu na porta. Não, nenhuma resposta. Então, digitou a senha e entrou, chamando por ela, mas ninguém respondeu. Não tinha ninguém em casa. Mas o carro estava na garagem. Ligou para Kaori.
— Na verdade, eu não falo com ela desde ontem. Presley, está acontecendo alguma coisa?
— Eu... eu não sei. O celular está aparentemente desligado e ela não está em casa.
— Vocês brigaram?
— Nós... decidimos nos dar algum espaço, para entender melhor as coisas.
— Oww — Ela ficou em silêncio por um tempo, como que absorvendo as informações — Presley, ela deve ter saído para pensar. Quando está com problemas, ela costuma sumir assim, para pensar melhor.
— Então, não devo me preocupar?
— Acho que não, não é a primeira vez. Vamos dar um tempo para ela, Hanni deve aparecer em breve.
Presley respirou fundo, sentindo seu coração bater totalmente irregular no peito.


Intenso demais! 🫣
Nossa 😔
E o coração fica apreensivo até o próximo capítulo!!
E quando a gente achava que tinha céu de brigadeiro pela frente... surgem umas informações e preocupações que nos fazem sofrer de novo pela Hanni e pela Pres.
De fato, essa conversa foi necessária, especialmente após saber como a ex da Manu era muito abusiva, mas não deixa de machucar ver elas duas com essa distância, mesmo que seja importante para elas se resolverem.
Próximo capítulo será no aniversário da minha irmã, mas eu que recebo o presente no lugar dela rsrsrs
A conversa era necessária, o espaço era necessário, mas a gente sofre junto! Sigo aguardando o felizes para sempre…