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Acróstico 42

Atualizado: 26 de jun de 2025


Acróstico


Amor em Ponto de Transbordo

 

Acordaram no horário combinado e Hanni quis que sua mulher ficasse na cama um pouco mais. Disse que ia fazer café, que Presley não precisava se apressar. Era um carinho, mas Hanni queria limpar a bagunça do dia anterior também, deixar a casa em ordem porque Bogum viria mais tarde. Cuidar do churrasco, da festinha que havia prometido para Aika, e não queria que ele sequer imaginasse que havia tido uma crise. Até mesmo porque havia sido muito bem... abreviada daquela vez. Haviam combinado tudo no dia anterior, antes do furacão, e no horário marcado certinho, Kaori e Aliana estavam passando pela porta.


Trocaram beijos de bom dia e Lia perguntou onde estava Presley.


— Tomando café na cama, mas disse que vai ficar pronta em dez minutos.

— Hanni, não tinha como o Leo TER CHANCES de brigar com você pela Presley, você é muito superior, eu fico impressionada.


Hanni riu e, em dez minutos, Presley estava pronta. Iria ajudar Aliana a resolver alguma coisa e depois iriam direto para a academia. Desceu, de moletom, tênis nos pés, camiseta, casaco, cabelos soltos, a coisa mais linda da vida.


— Certeza de que não quer que eu volte para arrumar a Aika?

— Ela não precisa mais da gente para isso, quer ver? — Hanni olhou para Aika, que já estava tomando café sobre o balcão da cozinha. Ela havia acordado muito animada pulando em cima da cama e repetindo: “graduação, graduação!” — O que você precisa colocar na sua bolsa de academia, bebê? — Hanni sinalizou para ela, perfeitamente. Presley morria de orgulho.


“Kimono! Rash guard!” Os dedinhos dançando no ar.


— Muito bem! E o que mais?


“Uma calça! A faixa! Elástico, cabelo!”


E Presley apenas sorria, jamais imaginou que Aika estaria tão responsável, mas lá estava sua menina, responsável, calma, empolgada com algo.


— Bebê, e o que não pode esquecer de novo?


Ela pensou, os olhinhos super expressivos buscando aquela resposta. Daí, claramente encontrou, sorriu.


“Chinelo!”


Hanni beijou a testa dela sorrindo.


— Muito bem, filha.


E os olhos de Presley se encheram de algo. Mas ela segurou firme, beijou sua menina, beijou sua namorada, muito longamente.


— Te encontro em duas horas.

— Vou morrer de falta.


Presley nem sabia o que fazer com aquela mulher.


E assim, Aliana e Presley partiram de carro, deixando Kaori e Hanni sozinhas com Aika.


— Me fala, Manu, como você está?

— Reiniciada.


Kaori riu.


— Como...?

— Sabe Ariana Grande cantando que Deus é uma mulher? Então! Preciso me casar com a Presley, Kaori. Ela resolveu anos de terapia dançando em cima de mim. Não sei te explicar essa mulher e o que ela faz comigo.


Kaori riu alto, sentindo um alívio enorme ao ver o quanto sua amiga estava bem. E ela própria parecia estar...


— O que aconteceu? — Hanni perguntou, sorrindo, notando como ela estava diferente.

— Fui pra casa ontem e a Lia estava me esperando, casualmente nua no meu sofá. Então, ela me vendou e... — Suspirou só de lembrar — Acho que ela pegou umas dicas com a Presley, porque, sinceramente...


Hanni já estava rindo.


— Ela... te devorou?

— Com muitos talheres, muitos recursos, estou fora de mim até agora.

E era essa a urgência que Presley tinha que resolver com Lia.


Sim, haviam falado disso a semana inteira, e Presley nem se deu conta de que estava esbanjando conhecimento no assunto até começar a falar sobre isso com Aliana. E quando ela finalmente se sentiu segura, pensaram numa noite interessante, onde Lia pudesse ir ficando mais à vontade devagar, sem pressa. Só precisava quebrar aquela ideia de que não fazia tal coisa. Ela queria fazer, desde a primeira vez delas, só estava insegura de ir muito mal e Kaori perceber que precisava trocar de mulher.


— Como se ela fosse te descartar por algo assim, Lia — Haviam pegado dois cafés e agora estavam numa Apple Store, escolhendo um iPhone para Hanni. A urgência era só conversarem sobre a noite que havia sido perfeita.

— Sei que não é o principal, mas é importante, a Kaori é mais nova do que eu.

— Cinco anos apenas.

— Mas é mais nova e vivia cercada de mulher, eu sei. Mas acabou que... — Abriu um sorriso só de lembrar — Eu adorei, a gente se conectou, sabe? Segui as suas instruções inicialmente, mas depois foi só ouvir o corpo dela, está tudo lá, a gente só tem que estar atenta para prestar atenção e entender. E acho que já passou da hora de pedir aquela garota em namoro.

— Vocês duas são piores que Hanni e eu nisso de namorar — Disse sorrindo, pegando dois modelos — Preto ou prata?

— Para a Manu? Preto. Me fala aqui, por que os seus olhos se encheram hoje cedo enquanto ela falava com a Aika...?


Sorriso de Presley.


— Ela chamou a Aika de “filha”, Lia.

— Isso eu ouvi, mas ela nunca...?

— Nunca. Ela trata a Aika como filha, mas nunca havia verbalizado isso. Acho que a proximidade da Hanni com o Leo tem, surpreendentemente, ajudado. Ele anda fazendo questão de que ela se sinta bem desde aquela discussão que tiveram e isso tem me feito lembrar os motivos pelos quais me casei com ele. Ele é... gentil. Sensível. E a pragmática Manu tem delicadamente caminhado em mais segurança do meu lado. Ela fez uma postagem ontem...

— Chorei igual a uma idiota e o filho nem é meu.

— Então — Os olhos de Presley se encheram só de lembrar — Ela sempre foi sensível comigo, extremamente delicada, você sabe, mas esses passos são ela se abrindo, e agora, entendo melhor o motivo de ela ter se trancado tanto. Ela continua tendo algumas amarras, mas ela me deixa ficar, está se soltando devagar, no tempo dela, e tudo bem. Tempo é tudo o que a gente tem agora. Ela quer um menino — Os olhos brilhando — Ela verbalizou que quer um menino, chamou a Aika de filha, contou para os pais dela sobre a gente.

— E para três milhões de pessoas.


Presley riu.


— Para essa galera toda. Ela... tem medo. Porque estamos muito bem e, de repente, surgiu essa mulher outra vez.

— Ela só surgiu porque viu vocês duas ficando sério através das redes. Mas quer saber? A mulher está na Espanha, se passou uma vida inteira. Ela é meio doida? Sim, mas ela não conhece Presley Park como conheço, sei tudo o que você é capaz de fazer para proteger a sua família.

— Eu já estou pensando nisso.

— Você... já?

— Já — Abriu um sorriso — Serei jurista, se já era perigosa antes, imagina agora. Já estou pensando sobre isso, farei umas pesquisas, falarei com os meus professores, mas a Hanni é brasileira.

— Sim, brasileira.

— E lembro de ter visto nas notícias sobre um homem que assassinou a namorada brasileira na Austrália, e foi processado no Brasil, porque não importa onde um brasileiro esteja, se ele sofre algum tipo de crime, o criminoso pode ser processado no Brasil. O processo na Espanha deu em nada, mas essa maluca deve ficar longe se não quiser ser processada no Brasil.

— Presley... — Aliana estava muito surpresa — Você vai ser tão boa nisso.


Outro sorriso dela, estava sorrindo fácil demais.


— Aqui, vamos levar esse aqui — Optou pelo preto, entregou para a vendedora.

— A câmera desse aqui é excelente, você deu uma olhada? — A vendedora perguntou.

— Dei sim, é para uma influencer, a câmera importa demais — Explicou sorrindo.

— Ela é casada com uma modelo — Aliana sussurrou para a vendedora.

— Sério? Modelo?!

— Lia...! — Presley começou a rir.

— Uma gata, menina, espera que você tem que ver.


E assim, Aliana pegou o próprio celular, mostrou o Instagram de Hanni, abriu algumas fotos e...


— Ela está na fachada da Diesel!

— Essa mesma. E a câmera tem que captar esses bits de beleza aqui.


Acontecia que Aliana era mais fã de Hanni do que a própria Presley e, Hanni era tão fã de Lia quanto. Se implicavam o tempo inteiro, mas eram só elogios uma da outra para terceiras pessoas.


— Forma de pagamento? — Já estavam no caixa.

— Ah, sim, crédito — Presley colocou um cartão sobre o balcão.

Hum, black. É da sua modelo...? — Aliana brincou.


Presley mostrou para ela o nome no cartão: Presley Park.


— É adicional de um cartão dela.

— Pres, vocês estão casadas mesmo.

— Sabe por quanto tempo eu quis algo assim do Leo? Sim, todo esse tempo, e para ela, não tive que pedir. Só chegou para mim. Eu... vou falar com os pais dela hoje, depois da graduação e da festinha da Aika. Vou correr com o meu divórcio, cuidar disso pessoalmente agora. Quero me casar com a Hanni, Lia, terminar a faculdade de designer antes do bebê, ter essa criança com ela e...


Sorriso de Aliana.


— Acho que nunca te vi tão determinada e nem tão cheia de planos.

— Estou feliz, Lia. Tão feliz que dá um medo, que algo possa acontecer e...

— Não, algo vai acontecer, sempre acontece, a vida é assim. Mas vocês duas não vão se perder. Eu nunca... havia presenciado esse fenômeno ao vivo.

— Fenômeno...?

Amor de verdade acontecendo. É arrebatador e deve dar um medo insano. Mas não tem como ser destruído. Muita coisa deve sim acontecer, Presley, mas vocês duas... só vão continuar — Aliana a abraçou — Estou tão feliz por você.


E Presley também estava.


Como nunca havia sido antes.

Kaori ainda não estava acreditando no quanto Hanni estava bem depois de uma noite de crise.


Sim, já tinha visto muitas crises antes, mais do que havia admitido para Presley (pois ainda queria que sua amiga se casasse com aquela gostosa e temia que ela escapasse se soubesse das quinze crises que Kaori já tinha presenciado), mas nenhuma tão grande e nem tão intensa. E numa crise média, como havia sido a última que Hanni teve com Alexia, ela teria ficado estranha por mais de uma semana. Mas agora, estava reiniciada de fato, apenas algumas horas depois. Estava falante, atenta, revisando o que precisava fazer, e Aika não cabia em si de ansiedade no banco de trás do Volvo.


Tinha se vestido sozinha, colocado a mini legging que fez Kaori apertá-la por horas e enchê-la de beijos porque era fofo demais. Vestiu a mini rash guard, “papai que comprou”, ela informou, vestiu calça moletom por cima, jaqueta, “a minha marca que deu”, esclareceu, fazendo Hanni ter um ataque de beijos em cima dela. A marca que deu era a Billabong, que sim, teria Aika em seu próximo ensaio infantil.


— Manu, ela já entendeu que vocês terão outro bebê em casa? — Kaori perguntou enquanto, CUIDADOSAMENTE, estacionava o Volvo de Presley. E Aika sinalizou lá de trás — O quê? O que ela disse?

— Disse que sabe do bebê, só não quer no quarto dela — Hanni respondeu sorrindo e sinalizou para Aika “nada de bebê no seu quarto, estou cuidando disso” — Ela já entendeu, temos conversado sobre tudo. A capacidade de compreensão da Aika é impressionante — Hanni prestou atenção nela de novo, ela estava sinalizando, riu.

— O que foi agora?

— Ela perguntou se, caso ela mude de faixa, vai poder dar treinos na escola dela, quando eu não estiver presente, que nem você faz aqui, porque... — Ela seguia sinalizando — Vai ser a mais graduada da turma. Amo essa criança! Como eu não amaria uma criança assim, me diz?! — Hanni se soltou do cinto e passou para trás, apenas para encher sua menina de beijos, e então sinalizou para ela — Claro que sim! Você será responsável pela turma, igual a Tay é por essa turma aqui.


Aika sorriu e sinalizou para Kaori.


— O quê? — Kaori não parava de sorrir, era fofo demais.

— Ela disse que vai ser você na outra turma.

— Tenho é que ficar atenta pra você não tirar até essa turma aqui de mim, face cardizinha!


Ela apenas ria, aquela risada gostosa, alta, que curava todas as coisas.


Hanni desceu com ela no colo, carregando a sua bolsa, a bolsa dela, as coisas que haviam trazido de casa, e Sabina já estava na academia com Pipe e Mave, igualmente empolgados. Agarrou os dois, encheu de beijos e foi resolver as coisas que precisava. Se trocou parcialmente, Kaori fez o mesmo, as duas checando se estava tudo em ordem, recepcionando os alunos conforme chegavam. Então, Presley chegou. Beijou as crianças e foi até sua namorada, já com dois celulares nas mãos.


— Coloca sua senha, meu amor, vamos transferir tudo para o seu iPhone novo.

— Você já cuidou disso pra mim? — Nem sabia que ela tinha saído levando o celular antigo, mas Presley realmente pensava em tudo. Hanni digitou sua senha para liberar a transferência.

— Claro que sim! Minha esposa é influencer, não pode ficar sem celular. Você gostou?

— É lindo! Eu queria um preto, exatamente assim. Não disse nada porque não sabia que você tinha ido resolver isso, babe. Foi muito caro? Eu não devia ter...


Presley a beijou rapidinho, com carinho.


— A YSL vai pagar — Respondeu sorrindo — Me fala, o que você precisa que eu faça?


Ela tirava o peso do mundo, e Hanni não podia estar mais rendida por ela.


— Acho que... o seu talento para eventos.


Presley riu, sabia do que ela estava falando. Foi conferir as faixas, o lanche; teriam um brunch depois da cerimônia. Testou o microfone e foi recepcionando quem estava chegando. Algo muito gostoso começou a acontecer: abraços carinhosos dos convidados, dos alunos, de todos que as conheciam naquela academia, seguido de "parabéns pelo bebê". E Hanni estava recebendo aqueles abraços também, se derretendo de sorrisos cada vez que ouvia, trocando olhares com sua garota. Os olhos dela cada vez mais brilhantes, mais molhados. Hanni estava feliz sim; ela continuava feliz e isso acalmava o coração de Presley demais. Haviam passado por uma onda tão grande quanto tinha sido a descoberta da gravidez, e sabe? Nada havia mudado. Elas resistiam, estavam bem, estavam felizes.


Babe, pode colocar o seu quimono? — Hanni perguntou, quando tudo já estava pronto.

— Mas eu também?

— Queria que você perfilasse também, a Aika vai ficar feliz, eu vou ficar feliz.

— Desse jeito, eu não tenho como dizer não — Respondeu sorrindo — Você trouxe um quimono pra mim? — Perguntou. Hanni já estava pronta e linda, de branco, tranças boxeadoras, o rosto limpo, sem maquiagem nenhuma, linda!

— Claro que trouxe — Beijou a testa dela com carinho e notou um pai atrasado chegando — Leo chegou.

— Eu não acredito, ele veio mesmo? — Presley olhou muito surpresa.

— Olha a criança correndo pra ele — Hanni mostrou sorrindo.


Aika correu para o pai quase que imediatamente, pois estava no tatame. Lembrou de frear, pedir para sair, tudo bonitinho. Hanni não aguentava. Ela correu para Leo, que a pegou no colo imediatamente.


— Ei, meu amor, ei! — Ele cheirou sua menina carinhosamente, e então a colocou no chão, pegando algo em uma sacola de papel — Aqui, pela sua graduação! — E era um Pokémon de pelúcia, que fez aqueles olhinhos ficarem enormes de empolgação.

Uh! — Ela vocalizou e então sinalizou "Eevee".

— Isso, é esse. Você gostou?


Ela o abraçou, feliz demais, e Presley estava...


— Você que disse pra ele! — Acusou Hanni, e ela se entregou, rindo demais.

— Ele não sabia qual comprar. Não tem problema ajudar, né?

— É o que as mães fazem o tempo todo, ajudam os pais a não passarem vergonha — Disse, e os olhos de sua Manu se encheram imediatamente. Ela moveu o nariz, fazendo uma careta, algo que costumava fazer quando se emocionava — O que foi, meu amor?


Ela negou, sorrindo. Não conseguia explicar, mas Presley entendia. Tocou aquele rosto lindo.


— Eu disse mãe.

— Disse — E isso pegou Hanni demais.

— E é verdade, você tem que se acostumar, porque a gente vai se casar e você já tem crianças comigo, meu amor — Outro beijinho nela, sorrindo sem parar — Agora vai lá recepcionar o seu novo amigo que vou trocar de roupa.


Hanni sorriu, deixou outro beijo na testa dela e foi até Leo. Cumprimentaram-se e conversaram rapidamente. Aika mostrou a pelúcia feliz da vida, enquanto ele perguntava mais ou menos como tudo seria e onde poderia ficar. Hanni indicou o lugar dos pais, que já estava lotado.


— Mas a Lia guardou o seu lugar, ela está ali do outro lado.

— Ah, ok! Posso ajudar em alguma coisa?


Hanni o olhou, aquilo era novo. Se era novo para ela, imagine para Presley.


— Aqui ou depois. A Aika me falou do... do... Qual o nome mesmo?

— O churrasco?

— Isso! Churrasco.

— Provavelmente sim. Ela convidou bastante gente. Estou feliz que você tenha vindo e a Aika também.


Ele fez um gesto de cabeça, sorrindo. Em seguida, deixou outro beijo em sua filha e foi para perto de Aliana.


— Você veio mesmo! — Aliana o abraçou.

— Vim. Eu... não quero me tornar o papai, Lia.

— Você não vai — Ela o pegou pelo braço, ficando grudada nele.

— Cadê a sua namorada?

— Conferindo algumas coisas, já vai começar.

— E a Presley?

— Acho que foi se trocar.


Presley se trocou: legging, rash guard, colocou a calça, percebeu uma forma diferente no seu corpo. Seu bebê estava crescendo mesmo. Colocou a parte de cima, achou sua faixa na bolsa, fez uma trança rápida e foi para o tatame. Falou com Leo rapidinho, pediu licença para entrar no tatame e correu para perfilar; todos já estavam em linha. Então, cumprimentos, e a graduação começou pelas crianças. Mave foi a primeira, fez sua demonstração com muito afinco, muita concentração, e saiu da faixa cinza para a cinza com ponteira preta; ficou feliz demais, os olhinhos brilhando, a coisa mais linda. E Pipe já era cinza com ponteira preta, levantou quando Hanni a chamou, pulando sem parar.


— Ok, Pipe, com quem você vai fazer a sua demonstração? — Hanni perguntou para ela.

— Aika, Aika! — Ela respondeu falando e sinalizando. E lá veio Aika, tão saltitante quanto. Presley não aguentava, estava sorrindo sem parar ao ver a empolgação de sua filha e os olhos brilhantes de sua namorada. Hanni amava o que fazia e isso era bonito demais.

— E o que você vai mostrar pra gente?

Armlock! — E ela seguia saltitando e saltitando.

— Então, vamos lá.


As duas se ajoelharam no tatame, trocando olhares, então se cumprimentaram. Era muito bonito ver como aquelas duas se conectavam. Movimentaram-se com precisão, demonstrando tudo de forma muito bonita. Claramente, a primeira faixa amarela surgiu. Pipe merecia. Ela ficou feliz, e a foto de Hanni amarrando a nova faixa nela foi a coisa mais linda da vida. E chegou a vez de Aika. Hanni a anunciou falando e sinalizando, e ela correu em direção ao tatame, tão saltitante quanto Pipe.


— Acho que é de conhecimento de todo mundo que Aika é filha da Presley, que está bem aqui, e todo mundo sabe também que... — Um “hummmmm” percorreu a sala inteira, fazendo Hanni rir demais — Sim, isso mesmo. Mas acho que ninguém sabe que quem me apresentou a Presley foi a Aika — A pegou no colo, para que ela pudesse ver o que Hanni estava dizendo — Conheci a Aika no hospital, onde faço musicoterapia com as crianças, e ela se agarrou na minha faixa assim que me viu. Eu não sabia nada sobre ela, nunca a tinha visto pelo hospital, só sabia que ela tinha esse sorriso lindo aqui e que, com toda certeza do mundo, a mãe estava em apuros atrás dela, porque era um exemplar de criança sem mãe por perto. Olhem esse sorriso, obviamente é um sorriso de espoleta. Quem trabalha com criança reconhece uma criança-espoleta assim que olha para uma. Eu não sabia explicar o motivo, mas senti imediatamente uma conexão com ela. Poderia ter sido pela etnia, por ela ser parecida comigo, não soube no momento. Mas sei que a conexão existiu e que quando a vi nesse tatame pela primeira vez, entendi o que era. Tínhamos uma paixão em comum, na verdade — Deu outra olhadinha para Presley — Bem mais que uma. Eu não sei o que a Aika vai querer ser mais tarde, mas sei que agora, já estamos diante de uma atleta habilidosa, dedicada, talentosa, que aprende apenas de olhar, numa única repetição. A compreensão visual dela é fora do comum e, em um mês, estaremos na nossa primeira competição oficial. Quero convidar todos desde já: se vocês querem compreender o que estou dizendo sobre a Aika ser diferente, peço que a vejam no campeonato. Mas por agora, ela vai mostrar o que já consegue fazer com três meses de treino — A desceu para o chão, se abaixando junto dela — Aika, quem vai ser seu parceiro?


Ela sinalizou e apontou: “mamãe!”


E isso pegou Presley totalmente de surpresa. Apontou para si mesma, sinalizando para ela, era isso mesmo? Ela riu, era isso mesmo.


— Presley vai ser sua parceira, então, ok! Aika, cuidado com a mamãe, ela é mais frágil que você — Disse, arrancando risos de quem assistia.


“Muito cuidado, mestre!” Ela seguia saltitando e saltitando. E Hanni desligou o microfone rapidinho, Presley queria falar.


— Hanni, o que eu faço?

— Ela vai se mover por você, a coloque na guarda e ela fará o resto — Ligou o microfone de novo — Aika, o que você vai demonstrar hoje?


Ela sinalizou.


— Abertura da guarda, 100 quilos, passagem de guarda e finalização em armlock — Hanni traduziu, e Presley estava rindo.

— Tudo isso em mim?

— Você vai ficar bem.

— Ok.


Sorrisos, e Presley foi para o tatame, fechou a guarda em sua menina e ela era simplesmente... Rápida, limpa, habilidosa demais. Presley não viu nada, a abertura de guarda que Aika adaptou para fazer em um adulto, a escapada, a imobilização, passagem de guarda, então a finalizou em armlock na mesma velocidade com que Hanni se movia. Arrancou aplausos, ela se curvou agradecendo e veio abraçar a mamãe, agradecendo também.


— É isso, ela é muito rápida, muito limpa e eu poderia encher essa faixinha branca aqui de graus, ou colocar uma ponteira preta, mas não faz sentido. Quando um aluno avança mais rápido que os outros, isso precisa ser reconhecido. Então, Aika — Se abaixou juntinho dela, já desamarrando a faixa branca — Essa faixa aqui já era, não precisa mais dela — Hanni esticou a mão e recebeu a faixa cinza de ponta preta das mãos de Kaori, que a auxiliava o tempo todo. Quando Aika viu a faixa, os olhinhos se encheram demais; ela ficou claramente emocionada e Hanni também ficou — Bem-vinda à faixa cinza, meu amor — Amarrou a faixa na cintura dela e sua criança a abraçou, chorando um pouquinho, o que arrancou um ahhhhhh conjunto pela sala inteira. Presley se abaixou pertinho dela, vendo se tudo estava bem.


"Eu não sabia que ia ganhar outra cor." Ela explicou, arrancando sorrisos de Hanni e Presley.


— Você é muito boa, merece outra cor, bebê — Hanni beijou a testa dela com carinho, com os olhos cheios também e segurou Presley ao seu lado — E antes de a gente ir para os adolescentes, eu queria abrir a graduação dos adultos faixa branca com Presley Park.


Presley abriu um sorriso nervoso, o que mais não sabia que ia acontecer?


— Jiu-jitsu é uma arte marcial diferente, é sobre habilidade e talento sim, mas é também sobre um papel social no tatame. É sobre o quanto um aluno se demonstra disponível para ajudar, o quanto de serviços presta nas aulas. Presley reduziu os treinos em virtude da gravidez, informação que sei que todo mundo já tem, porque como são fofoqueiros os meus alunos, ENFIM — Disse, arrancando mais risadas — Mas ela cuida de muita coisa do nosso lado, meu e da Kaori. Cuidou pessoalmente das faixas, do evento de hoje, ajuda com as crianças, com os adolescentes e está sendo providencial no nosso primeiro polo externo, que será inaugurado na terça-feira, na escolinha da Aika. E pelos seus serviços e pelo seu talento, porque você sabe que é talentosa, já estava começando a dar trabalho aqui nos treinos — Hanni se ajoelhou diante dela, segurando sua faixa e recebendo o esparadrapo branco que simbolizava o grau — Você recebe o seu primeiro grau, obrigada por tudo. Tudo! — Olhos nos olhos, as duas de olhos brilhando, o sorriso também e o amor, só dava para ver.


Um abraço longo trocado, uma foto linda tirada, Aika e Presley voltaram para se sentar, enquanto a graduação apenas seguiu. Mais faixas distribuídas, mais graus entregues, um clima muito agradável, com muitas risadas. Hanni era extremamente carinhosa com seus alunos e, é claro, a mais graduada ficou por último.


— Kaori Taylor, por favor, é o seu momento — Puxou sua amiga para perto, sorriso das duas — Como está claro para todo mundo, Kaori é a nossa aluna mais graduada, está no final da faixa azul e foi a minha primeira aluna neste projeto. Eu já treinava em outra academia, mas recebi um convite para abrir uma turma nesta academia aqui e, por uma semana mais ou menos, ninguém se inscreveu — Contou, arrancando risos dos presentes — Triste, mas verdade. E quando já estava tendo certeza de que a minha turminha seria cancelada por falta de alunos, alguém se inscreveu e a aluna número 0 era essa minha amiga aqui, que decidiu começar a treinar só para eu não fracassar na minha primeira turma de jiu-jitsu — Disse, a fazendo sorrir — Por umas duas semanas, a Kaori era a minha única aluna, mas conforme começamos a movimentar aqui dentro, cada vez mais pessoas paravam ali naquela vidraça para assistir e, na terceira semana, as matrículas começaram a chegar. Sobre a esportista, posso dizer que Kaori é dedicada, forte, não é a mais talentosa, ela sabe que não é, mas é a mais esforçada, a mais tenaz, não desiste nunca, não para até compreender o movimento, até conseguir aplicar e isso faz dela a nossa melhor atleta. E isso, eu posso provar agora mesmo. Kaori, o que você vai demonstrar hoje?


Kaori estava derretida, o que era engraçado, porque não costumavam ver aquela neozelandesa derretida daquele jeito. Mas se recompôs para responder:


— Hammer lock e chave de calcanhar invertida, mestre.

— Chama quem vai demonstrar com você, vamos lá.


Ela chamou um dos rapazes, por quem, muito rapidamente, passou por cima com os golpes extremamente limpos e precisos, o que fez Hanni sorrir demais. A puxou para perto outra vez e agora, era Presley quem estava com a última faixa que Hanni tinha que entregar. Os olhos de Kaori se encheram assim que viu a faixa roxa.


— Você sabe que é sua, não pode ser de mais ninguém, e nem é surpresa ou novidade para ninguém que já faz muito tempo que você merece estar nessa faixa. Não preciso repetir nada sobre a atleta que você é. Te digo sobre isso em cada treino, e nem preciso falar do trabalho social que você executa aqui dentro, cuidando de tanto, puxando treino sempre que necessário, não preciso falar sobre nada disso. A gente assiste ao vivo aqui dentro todos os dias. E na ausência de necessidade de falar sobre essas coisas, acho que... — os olhos das duas cristalizaram, tanto os de Hanni, como os de Kaori — Só quero falar sobre a amiga que você é, porque isso sim, sei que nunca te disse direito. Eu sempre ouvi dizer que um único amigo pode fazer toda a diferença na vida de qualquer pessoa, mas só senti isso na pele quando a gente se conheceu — Disse, olhando nos olhos de sua amiga — Eu não sei onde estaria hoje sem você, Tay, não sei mesmo. Sabe? — Se voltou para quem assistia — Sempre ouvi que se você não quer ser incomodado em lugar nenhum, é só sair agindo que nem louca que ninguém vai te aborrecer, porque assim, ninguém quer ter que lidar com uma louca desconhecida, obviamente. Mas essa garota aqui — A abraçou pela cintura, sorrindo — Ela não só lidou com uma louca desconhecida, como fez isso em uma floresta totalmente isolada e sem saber nada de jiu-jitsu — Contou, arrancando risos e fazendo Kaori rir demais também — E não fez apenas isso! Ela falou com a louca, cuidou de acalmar a maluca e ainda por cima, levou essa desequilibrada para o carro dela, para a casa dela, até ter certeza de que a louca estava bem. Então, gente, essa louca era eu — Mais risadas, e Kaori já estava vermelha de tanto rir — E ela é tão linda, é tão nobre que sempre que alguém pergunta como nos conhecemos, ela diz assim: “ah, a gente se conheceu na praia, se conheceu surfando”. Ou, “ah, a gente se conheceu fazendo uma trilha”. Qualquer resposta genérica, menos “ah, a Manu estava louca tendo uma crise andando sozinha pela floresta”. Então, eu tenho certeza de que todos aqui devem ter ótimos amigos, mas ao nível Kaori... acho complexo de se achar. Às vezes, a gente tem várias almas gêmeas e eu sei que você é uma das minhas — Disse, já se ajoelhando diante dela, soltando a faixa azul — Obrigada por ser quem você é, obrigada por cuidar de mim tão bem e me deixar cuidar de você do meu jeito, que nem sempre é o melhor, mas é com todas as boas intenções do mundo. E você aceita assim, porque tem a capacidade raríssima de amar as pessoas pelo melhor e mais frágil que elas têm por dentro — Amarrou a faixa roxa na cintura dela, firmemente — Bem-vinda ao time dos roxas.


Com um abraço muito longo e algumas lágrimas, a cerimônia de graduação foi belamente encerrada.

— Minha linda, você está chorando há quase duas horas inteiras já — Aliana dizia, dirigindo para a casa de Hanni, para o churrasco de Aika, enquanto Kaori seguia sorrindo e chorando sem parar ao seu lado. Haviam feito os rolas de comemoração, a recepção com o brunch havia sido maravilhosa, porque Presley realmente era ótima nisso, e agora estavam indo para a parte dois.

— É que eu nunca choro, acho que agora meio que...

— Manu abriu a represa — Aliana pegou a mão dela e beijou com carinho — Baby?

— O que foi, meu amor?


Aliana deu uma olhadinha de lado.


— Podemos namorar?


E Kaori chorou copiosamente até chegarem em casa, e Lia não conseguia parar de rir.


— Mas o que você fez com ela, Aliana, pelo amor de Deus...? — Presley estava querendo rir, mas não podia.

— Eu pedi pra gente namorar, mas não tive resposta ainda, só essa choradeira — Respondeu rindo demais, mantendo sua garota nos braços.

— Eu aceito!

— Ah, até que enfim! — Presley não parava de rir.


E Aliana agarrou sua neozelandesa e a encheu de beijos.


— Ei! Não pode mais voltar atrás — Ressaltou.

— Eu só quero ir pra frente com você, my gorgeous — Kaori a olhou nos olhos e se ajoelhou diante dela.

— Meu Deus do céu, o que está acontecendo...? — Manu tinha se aproximado, sem conseguir entender toda aquela cena inesperada. Kaori para morrer de chorar e agora ajoelhada, e Lia a olhando feito uma besta, muitas informações juntas no seu jardim.

— Tay...? — Os olhos de Aliana se encheram.

— A gente pode noivar?


Sorriso todo derretido de Lia, olhos cheios de lágrimas. Afirmou, sem palavras, ou iria chorar. Podiam noivar, e assim, apenas noivaram, no meio do jardim, sem anel para pedido, sem nada planejado, e noivaram.


Simples assim. Fácil assim.


O amor de verdade é simples em sua essência.

 


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6 comentários


ana.gouveia.vet
12 de abr de 2024

Não haveria a publicação do capítulo 43 hoje?

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sylber1011
sylber1011
9 de abr de 2024

Queremos extra dessa noite ai?!?! Da Aliana e Kaori!!!

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sylber1011
sylber1011
9 de abr de 2024

❤️

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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
8 de abr de 2024

Capitulo "amorzinho 100%"! Lindo e reconfortante! Amei!😍

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Karla Maiara
Karla Maiara
7 de abr de 2024

Gente a Aika todo emocionada 🥰😍😍😍😍😍

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