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Acróstico 44

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


Oficialmente Noivas


Westfield Newmarket, um mês depois.


Sim, estavam no shopping das marcas de luxo, aquele que a mãe de Presley ficou orgulhosa de Hanni estar indo a uma festa de inauguração. Agora, a Sephora já estava devidamente inaugurada. Inclusive, tinham passado em frente uns dez minutos antes. Havia um display enorme exibido na vitrine principal com um anúncio da YSL Beauty e o rosto de Hanni estampado.


Aquele rosto lindo em destaque, com uma maquiagem impecável, um batom junto ao rosto, vermelho - o mesmo vermelho que destacava aqueles lábios de coração - e Presley ficava muito derretida, toda agarrada na sua modelo que era mesmo a mulher mais linda do mundo. Ela só sabia, era a sua opinião e que ninguém discordasse. Foram resolver algumas outras coisas e então se separaram. Presley precisava ir a uma loja em outro piso e Hanni precisava voltar até a Sephora. De alguma forma, a YSL mandou coisas para ela que tinham se perdido na entrega; daí enviaram novamente, mas para loja desta vez.


— Você viu que tem outro display seu no meio do shopping? — A moça que estava atendendo perguntou.

— Mesmo?

— Mesmo. Está do outro lado e olhando de frente. Dá para ver o da Diesel também. Ótimo para uma foto — Ela contou sorrindo, arrumando as enormes sacolas com a logo da YSL — Prontinho, seus vestidos e sua maleta de maquiagem, Manu. E essa aqui — Ela pegou uma sacola um pouco menor — É para sua noiva.


Manu abriu um sorriso enorme, os olhos brilhando.


— Sério?

— Sério. Presley Park, está no bilhete. Achei que ela viria com você.

— Ela veio, mas está resolvendo outra coisa. Aliás — Checou a hora — Preciso ir, tenho que encontrar com ela na praça de alimentação. Vou olhar o display que você disse!


Se despediu das garotas da loja e foi atrás de Presley. Hanni estava bem embaixadora da marca aquele dia, com minissaia jeans, camiseta e jaqueta, toda de YSL. Os cabelos soltos, o rosto limpo e um sorriso que nunca mais tinha se fechado. Era oficial, estavam morando juntas. Fazia uma semana que Presley havia saído em definitivo da casa em Hillcrest. Haviam decidido se manter apenas em Takapuna, na casa agora devidamente quitada e que estava passando por uma pequena reforma. O estúdio tinha se tornado de fato um quarto para Aika e o quarto gigantesco de Hanni agora estava sendo redividido em um novo quarto para o bebê. Quis cuidar da reforma sozinha, mas Presley não permitiu. Passariam por aquilo juntas.


E sendo assim, atualmente, Hanni, Presley e Aika moravam apenas no primeiro andar. Estavam dormindo em seu confortável sofá enquanto Aika dormia numa barraca de acampamento que montava num ponto diferente da casa todas as noites. O desafio mesmo seria convencê-la a voltar a dormir numa cama, pois estava divertido demais. Caminhou com suas sacolas, checando coisas no celular, chegou à praça de alimentação, pediu um café, pegou uma mesa e deu uma olhadinha para os lados: nada. Nem de Presley, nem de Leo. Era hora de almoço, Leo havia levado Aika para trabalhar com ele aquele dia, mas ficou de entregar a criança de volta naquele horário.


Estava respondendo a um e-mail quando Leo apareceu com a criança no colo e... De olhos fechados?


— Mas...?

— Ela está me ignorando, está vendo?


Hanni quis rir, não podia.


— Ela fechou os olhos para...?

— Me ignorar, porque fui repreendê-la e ela não gostou! Daí, ela... — Ele passou a criança para o colo de Hanni — Está fechando os olhos para não ouvir a bronca!

— Não... ver a bronca, no caso.

— Não ver a bronca, isso! Você precisa dizer que ela não pode fazer isso, Manu! — Ele estava muito irritado, dava para sentir a irritação e a frustração nele.

— Eu digo! Assim que ela abrir os olhos, eu digo — A virou nos seus braços, deixando-a de peito para cima. Ela estava apertando os olhos com muita força, muito determinada — Leo, isso é muito fofo — Acabou rindo, pois era impossível não fazer.

— Você não pode ceder à fofura, Manu, ela está sendo malcriada!

— Ok! Eu não vou ceder, só me fala o que ela fez.


Ele mexeu no celular e mostrou uma foto.


— Isso é...

— A parede da minha sala.

— E esses são...?

— Documentos que estavam na mesa.

Uh!

— Que ela grampeou na parede UM A UM.


Hanni refletiu.


— Ok, vamos falar sobre isso, assim que... ela abrir os olhos.


Daí, ele relaxou um pouquinho.


— Tirando essa última parte, ela se comportou muito bem.

— Mas ficou entediada.

— Aparentemente sim. Bem, eu tenho que ir. Cadê a Presley?

— Ela foi buscar alguma coisa numa loja do primeiro piso.

— Você viu que tem um display seu no meio do shopping?

— Ainda não, mas vou ver! — Respondeu sorrindo.

— Ok, eu tenho que ir — Deixou um beijinho em Aika e partiu apressado.


E Hanni...


Pegou a mãozinha de sua menina, e a cheirou na barriga, uma brincadeira delas, o que a fez rir e abrir os olhos imediatamente, tendo certeza com quem estava.


— Aika, você não pode ignorar o papai — Disse, colocando-a sentada na mesa bem à sua frente.


“Papai chato.” Ela sinalizou.


— Ele ficou chato porque você... — Que sinal podia ser “grampear”? Criou um — Tec, tec nos papéis dele!


Ela riu, aquela risada adorável demais.


“Chato ficar sentada.”


— Eu sei, mas não pode ser assim. Algumas coisas são chatas mesmo — A colocou sentada na cadeira e a puxou para o seu lado.


“Eu vi você!”


— Onde você me viu, bebê?


Ela olhou de um lado para o outro, como que tentando localizar o lugar onde havia visto Hanni. E então, Presley apareceu.


Agora, visualmente grávida. Estava com quase quatro meses e a barriguinha já estava ali, delicadamente destacada pelo vestidinho justo que ela usava naquele dia. Vestido justo, branco, curtinho, jaqueta de couro por cima, os cabelos soltos, os tênis nos pés, uma graça, cheia de curvas novas e sempre apressada com algo. Hanni achava uma graça como, ultimamente, ela andava mais apressada do que nunca.


E geralmente, ela praticamente sempre estava quase atrasada para algo.


— Filhinha — Deixou um beijinho em Aika, sinalizou para ela — Como foi com o papai?


“Chato. Papai chato.”


— Ela... fechou os olhos para ignorar o Leo, Presley — Hanni informou, querendo rir muito.

— Ela...?

— Chegou aqui de olhinhos fechados, muito determinada a ignorar o Leo.

Babe, você não pode rir — Porque Presley estava querendo rir vendo-a rir.

— Eu sei! Mas é que foi muito engraçado, você não faz ideia.

— Depois você me conta o que ela fez, agora a gente tem que decidir onde vai almoçar. Preciso estar no trabalho em... — Checou o relógio — Uma hora. Aika tem que ir para a escola, você tem ensaio e, temos que buscar seus pais no aeroporto às sete — E Presley tirou algo de uma das sacolas que trazia em mãos e colocou no dedo de Hanni, beijou em seguida e a olhou nos olhos — Você ainda quer se casar comigo, babe? — Era...


Um anel de noivado. Que veio absolutamente do nada.


Honi... — E os olhos de Hanni cristalizaram imediatamente.

— Meu divórcio saiu faz vinte minutos, acabei de assinar digitalmente, e comprei seu anel de noivado porque a sua mãe precisa ter certeza de que sou uma mulher séria. Então — Se sentou, porque ajoelhar seria dolorido agora, seu abdômen estava muito dolorido, algo normal, sua barriga estava crescendo e isso doía — Park Manu, você aceita se casar comigo?

— Você é uma boba, sabia?! — E Manu uma idiota porque seus olhos estavam cheios como se não tivesse sido pedida em casamento há um mês!


Presley a puxou pela jaqueta e a beijou, sorrindo demais.


— Você precisava de um anel de noivado, honi.

— E você precisa também! Ok, a gente nem havia pensado nisso e...


Presley levantou a mão, pedindo um segundo.


— Vou instalar um GPS nessa menina! — Porque Aika tinha, simplesmente, sumido.

— Ela estava bem aqui!

— Eu sei, eu digo pra você, é um segundo e ela desaparece! Ok, ela deve estar neste piso porque tem medo de escadas rolantes, vamos para lados opostos.


Elas foram para lados opostos, buscando uma unidade de criança sem mãe. Era a primeira vez que Aika escapava assim de Hanni. Avisou a segurança, pedindo ajuda, e seguiu correndo por aquele piso, buscando sua menina, perguntando se alguém havia visto uma coreanazinha minúscula. O shopping era circular. Hanni correu o mais rápido que conseguia buscando pela sua Aika e de repente, viu Presley. E ela estava filmando alguma coisa.


Babe...?

— Encontrei a sua filha, Park Manu.


E ela estava BEIJANDO O DISPLAY DE HANNI.


Hanni começou a rir, ficando levemente vermelha. Ela estava agarrada em seu display no meio do shopping, o qual ficava no mesmo campo de visão da Diesel, e Presley ainda não estava acreditando. Havia fotografado, estava filmando, mas ainda não acreditava no que estava vendo. A cena começou a chamar a atenção, porque as vendedoras da Diesel tinham se aproximado ao notar uma criança sozinha e agora estavam reconhecendo Hanni.


— Vai, Park Manu, pega a sua filha, vamos! 

— Agora você está negando a nossa filha, é isso? — Hanni estava rindo e derretida demais.

— Ela está beijando um pôster seu no meio do shopping! — Presley não conseguia parar de rir.

— Pois em breve, serei eu beijando um pôster dela, quando ela estiver numa campanha! — Hanni se abaixou, pegando sua menina, e a abraçou com carinho — Filha, você escapou — Sinalizou para ela.


“Eu vi você, eu vi! Aqui!”


— Sem dúvida nenhuma, essa é a sua maior fã! — Uma das vendedoras disse sorrindo.

— Você acredita? Ela escapou para ver a minha foto — Encheu sua menina de beijos e então sinalizou para ela — Aika, não pode escapar assim.


“Eu ia voltar!” E então ela foi até Presley, a pegou pela mão e a trouxe para frente do display. “Hanni, linda!” E Presley apenas se derretia.


— Linda, não é, meu amor? — Olhou para o display, que ABSURDO DE MULHER LINDA, Aika tinha toda razão — Meu Deus, e você vai se casar comigo, eu vou te fazer mais um filho — Disse, fazendo Hanni rir demais porque nem duvidava.

— Mais um?

— Aham, uma menina, porque este aqui tenho quase certeza de que é o seu menino mesmo. Fica aí com ela, honi, eu vou tirar uma foto.


Tirou a foto, enquadrando o display da YSL, o painel da Diesel atrás com uma foto gigantesca de Hanni enquanto ela segurava sua maior mini fã do mundo. Aika estava mesmo encantada com o display, que era bem maior do que ela; as luzes pareciam encantá-la, a fotografia brilhando, tudo parecia altamente hipnotizante para ela. Almoçaram juntas, e depois do vídeo de Aika beijando o display de Hanni viralizar no Instagram de Presley, Hanni estava... muito boba. Com o vídeo e com o anel no seu dedo. Ela não parava de olhar.


— Você gostou mesmo, meu amor?

— Como eu não gostaria, babe? Eu não fazia ideia de que...


Presley beijou a mão dela.


— Eu colocaria um anel no dedo da minha noiva? Eu só estava esperando esse divórcio sair de uma vez. E agora, vamos pensar no nosso casamento, sua mãe quer antes do nascimento do bebê. Mas só se você estiver confortável, se a ideia já estiver tranquila para você.


Manu a beijou. Só a puxou pela nuca e a beijou.


— Eu quero. Só não quero você correndo com mais uma coisa, mas também não tenho ideia de como fazer nada de casamentos, então você tem que me dizer o que fazer e eu faço.

— Minha noiva tem TDAH! — A encheu de beijinhos.

— Aham. Mas quando você me diz o que fazer, eu faço certinho, você sabe.


Sabia. E achava uma graça o quanto Hanni se propunha a aprender coisas que nunca havia feito antes, como não tinha problema nenhum em perguntar. Nas consultas de Presley, ela seguia uma máquina de perguntas a cada coisa nova que surgia: como fazer isso, como ajudar naquilo, é normal tal coisa? Como podia fazer melhorar? Presley seguia indo para o jiu-jitsu, mas só treinava com Hanni, que tinha todo cuidado do mundo com ela. Era bom que ela se movesse, que se mantivesse ativa, e só era incrivelmente bom passarem o máximo de tempo possível juntas, agora que podiam abertamente estar uma com a outra, como um casal. Hanni ainda pensava nisso e seu coração flutuava. Só... causava uma sensação muito boa por dentro.


Arrumaram Aika no banheiro do shopping mesmo, a malinha de modelo seguia sempre no carro delas, então Manu foi deixá-la na escola e depois levar Presley no trabalho. Chegaram dez minutinhos antes e puderam ficar de apego, trocando uns beijinhos, falando do casamento.


— O que você quer, Hanni? — Perguntou, as duas no banco de trás para poderem ficar juntinhas. Presley nos braços dela, a cabeça em seu peito enquanto recebia carinhos infinitos de sua noiva.

— Acho que... simples, prático? Só para os nossos amigos mais próximos?

— Podemos ir ao cartório e depois fazer uma recepção em casa mesmo, o que você acha?


Hanni sorriu, às vezes achava que Presley lia a sua mente.


— Acho que você é perfeita — Disse, cheirando os cabelos dela.

— Sua mãe não vai achar simples demais?

— Acho que ela prefere simples também.

— Babe...

— O que foi, meu amor?

— E se ela não gostar de mim pessoalmente?


Hanni riu, ela estava com essas ideias na cabeça o dia inteiro.


— É claro que ela vai gostar de você pessoalmente, honi. Ela está ansiosa para te conhecer. Temos jantar no Bogum hoje, e amanhã, na casa dos seus pais. Vai dar tudo certo.


Presley esperava que sim, mas existia uma ansiedade pinicando por dentro, lhe dizendo o contrário a semana inteira. Sabia o que era, se chamava "medo da felicidade", e deveria corroer a maioria das pessoas. Quando as coisas começam a apenas dar certo demais, esse medo surge, que algo possa acontecer e só... destruir tudo. Sabia também que andava uma bomba de hormônios; estava chorosa, ansiosa, seu corpo estava mudando e até começou a ficar insegura, mas não tinha como ser real. Não com sua noiva acordando todos os dias e lhe enchendo de beijos, dizendo o quanto ela estava linda, o quanto estava sexy, a seduzindo para fazerem amor. E se Presley já era louca por Hanni antes de todos os hormônios, agora não podia vê-la trocando de roupa que já estava pulando em cima dela. Não podia sentir o cheiro dela, não podia encostar que já ficava louca de vontade, e sua gostosa estava sempre disposta.


Deus, iria se casar com ela. Isso havia acontecido, estava acontecendo. Seu divórcio tinha finalmente saído, Leo havia ido em frente, o relacionamento dele com Hanni estava cada vez melhor, e o relacionamento de Hanni com os seus pais era... muito delicado, muito bonito de ser assistido. Seu pai era mais calado, era mais de observar do que de falar, mas se via como ele ficava confortável com Hanni e sua mãe estava cada vez mais confortável com a situação também.


Haviam tido uma conversa séria sobre tudo. Jimin tinha perguntas. Hanni era a primeira? Presley nunca havia notado nada diferente em si antes? Havia sofrido? E quando ela fez essa pergunta, Presley chorou como uma criança. Não, não havia sofrido, mas sabia que deveria ter milhões de garotas como ela sofrendo, especialmente no seu país de origem. Sofrendo caladas, sofrendo por não entender os próprios sentimentos, sofrendo por achar que jamais teriam alguém.


Presley tinha muita sorte. Sorte pelos seus pais, sorte até pelo cara com quem se casou, que não estava fazendo um inferno da sua vida. E sorte por conseguir ficar com a mulher por quem estava apaixonada, sorte de as coisas estarem se ajustando, mesmo quando ficaram tão complicadas. Tudo ficaria bem com os pais de Hanni, seria assim, teriam uma semana agradável; nada estragaria isso.


Ainda assim, ficou nervosa a tarde toda. Hanni correu para o seu ensaio, tinha um photoshoot na praia naquele dia, no mar; iria gravar alguns takes surfando e o horário estava bem apertado. Gravações no mar eram sempre incertas, dependiam de muitas coisas. Queriam ir buscar os pais dela no aeroporto, mas Presley estava achando uma loucura. O voo chegava às sete da noite, tinham que buscar Aika ainda e...


— Presley? — Sua chefe a chamou.

— Oi — Respondeu, muito no automático, batendo o pé enquanto bebericava uma xícara de chá e fazia algo no notebook.

— Isso tudo é por que vai conhecer seus sogros?

— Sim! A gente só se falou a distância, e se eles me olharem e mudarem de ideia?

— E por que mudariam?

— Porque tenho uma filha e outro bebê que está chegando!


Ela riu.


— E não são da Hanni por acaso?

— Sim, mas... Meu Deus, eu ainda não acredito que eles entenderam a nossa história.

— Pres, quem não entender com vocês contando, basta parar e olhar para vocês duas por uns dez minutos que tudo fica claro. Isso é amor. Em estado puro. Tanto que fica aparente, qualquer um pode ver.


Presley sorriu, parando o pé nervoso.


— Vai dar certo, não é?

— Claro que sim! — Sara se levantou — Deu minha hora, depois te mando mensagem para confirmar como tudo terminou bem.


Significava que era hora de Presley também. E, como previsto, Hanni se atrasou. Ligou perguntando se Presley podia ir buscar Aika de Uber e esperá-la no aeroporto. Chegaria em breve, estava saindo da praia naquele momento, mas segundo ela, chegaria em breve. Então, Presley buscou Aika. Após se checar e ter certeza de que estava apresentável, arrumou a trança que usava naquele dia, o vestido preto que disfarçava sua barriga, e o terninho também preto por cima. Resgatou sua filha e foi para o aeroporto, pegou algo para Aika comer, e Hanni não chegava nunca!


Presley havia chegado era umas seis e meia. Então, se passou dez minutos, mais dez minutos, e depois mais dez. Deu sete horas, viu que o voo havia pousado, e Hanni simplesmente parou de responder às suas mensagens. Onde que...?


E de repente, uma surfista apressada cruzou as portas do aeroporto.


De calça Billabong, camiseta preta, boné sobre os cabelos ainda molhados e chinelo. Qualquer dia, colocariam sua noiva para fora de algum estabelecimento por preconceito social com moradores de rua; ela fazia cosplay perfeitamente de uma indigente de vez em quando. Mas tão lindo aquele rostinho. E todo o resto. E o estilo. Anf, já estava com tesão. Ela chegou correndo e pegou Aika no colo, beijando Presley em seguida, pegando a mão dela e escorregando algo pelo seu dedo.


— Hanni...?

— Seu anel, oficialmente noivas — Beijou os dedos dela com carinho, abrindo aquele sorriso lindo, e Presley... se derreteu, puxando sua Hanni, se abraçando nela um tanto mais.

— Você comprou...?

— Agora. Saí da praia e só corri para comprar. Mas não pretendia terminar tão tarde, tive que sair do mar e vir direto — Contou sorrindo, mexendo com Aika um pouquinho, a fazendo rir — Você gostou, babe?

— É... lindo! — Presley estava olhando e nem parecia real. Era um anel de ouro branco, com uma belíssima pedra em cima que... — Hanni, é um diamante?

— É! Bonito, não é? É um solitário.

— Você desceu do carro com um diamante na mão?


Ela riu, nem tinha se dado conta.


— É que eu nem pensei nisso, só queria que minha mãe visse que sou uma boa noiva e te comprei um anel também. Ah! Olha, eles estão ali! — Sim, era um daqueles dias em que Hanni estava claramente hypada, cheia de energia.


Ela foi levando Presley pela mão até seus pais, carregando a criança no colo. Quando iam se aproximando, Aika pediu para pararem. Hanni a colocou no chão para entender e era o cadarço solto. Como ela podia conhecer os novos avós de cadarço solto? Hanni riu, amarrou para ela e seus pais chegaram até elas. Os olhos brilhando, sorrisos que não se fechavam. Hanni cumprimentou os dois cordialmente, coreana, curvando o corpo e então só se abraçou a eles.


Que apertaram a filha nos braços, a cheirando, a sentindo, dando muito amor e carinho. Ela olhou os dois nos olhos, o olhar todo cristalizado, recebeu mais alguns beijos e se voltou para Presley e Aika.


Appa eomma, essa é a Aika — Disse, de frente para a criança, para ela entender — Aika, esses são meus pais.


E aquele serzinho minúsculo os cumprimentou à maneira oriental, baixando a cabeça, curvando o corpo, o que era a coisa mais linda e preciosa do mundo, porque ela havia decidido isso sozinha.


— Mas como você é linda! — Seori se abaixou para que ela pudesse ler seus lábios — Pode me dar um abraço?


Ela sorriu e a abraçou, indo para o colo de Seori logo em seguida, sorrindo para Kook, o pai, que já estava todo derretido por ela.


— Algum abraço? Só um? — Ele pediu, e ela foi para o colo dele imediatamente, a borboletinha social fazendo sua mágica — Ah, muito obrigado! Abraços são muito bons! Filha, ela é linda, e sua noiva também é linda.


Presley abriu um sorriso também, os olhos brilhando, porque era assim que elas viviam o tempo todo.


Appa eomma, essa é a Presley, minha noiva.


Presley os cumprimentou cordialmente, também curvando o corpo, tímida de um jeito que Hanni não lembrava de tê-la visto antes.


— Seori-ssi, Kook-ssi, é um prazer.

— Ah, venha aqui, você é muito bonita! E já tem barriga agora! — Seori a abraçou também, carinhosamente. Aparentemente, o Brasil havia tornado aqueles coreanos mais calorosos do que se espera — Já sabemos se é menino ou menina?


Presley respirou melhor depois do abraço e trocou um olhar com Hanni. Estava tudo bem; era isso que aquele olhar lhe dizia.


— Ainda não. Tentamos ver esta semana, mas não foi possível — Então, ela se voltou para o pai — Kook-ssi... — O cumprimentou novamente, enquanto ele seguia com Aika no colo.

— Aqui, um abraço também — Ele a abraçou respeitosamente — Sua menina é linda e se parece com a minha!


O sorriso ficou ainda mais largo.


— Parece, não é?!

— Fica mais visível ainda de perto!

— Kook-ssi e Seori-ssi fizeram boa viagem?

— Viagem muito tranquila! Quase sem turbulências — Ele respondeu, começando a se mover ao lado delas. Perguntando para onde deveriam ir, Hanni indicou e pegou Presley pela mão quando eles foram andando na frente por um instante, ainda com Aika no colo. Presley toda executiva, Hanni ainda salgada da água do mar, e aquele olhar entre elas que dizia tanto.

— Tudo bem? — Hanni perguntou em inglês.

— Acho que sim.

— Está tudo bem, nós vamos jantar, babe.


Presley recostou-se nela suavemente.


— Ok.

— Você está linda, meu amor — Hanni a cheirou, relaxando-a.


E Presley era louquinha por ela.


Foram para o apartamento de Bogum; seus pais ficariam com ele. O apartamento era maior, tinha espaço, e a conversa foi muito agradável até lá. Presley foi relaxando durante o caminho, ficando menos nervosa. Respondeu às perguntas que eles fizeram sobre Aika, sobre o bebê e sobre elas duas também. Como andavam as coisas? E o divórcio?


— Assinado, Seori-ssi.

— E temos data para o casamento ou...?

— Estamos... — Presley trocou um olhar com Hanni, que apenas ria. Como podia ser tão besta assim? Ela estava se divertindo com seu nervosismo — Vendo algumas datas.

— Antes do bebê?

— É, isso, antes do bebê.


Chegaram ao apartamento de Bogum e tinham um jantar enorme os esperando. E foi muito agradável; os gêmeos correram para os avós, correram para Aika. Já estavam esperando por ela, tinham um jogo novo, queriam mostrar. Eles seguiam muito unidos, e o jantar acabou sendo extremamente agradável. Teve tom de interrogatório algumas vezes? Teve, mas era apenas porque os pais eram mesmo zelosos e queriam ter certeza de tudo. E depois do jantar, da conversa e do interrogatório, Presley estava cuidando de empilhar as louças quando Seori se aproximou.


— Quero te dizer uma coisa, Presley.

— Ah, sim, claro — Enxugou as mãos e se voltou para ela.

— Nós não somos xenofóbicos, de maneira nenhuma. Nossos filhos são brasileiros, isso nem cabe. Mas estou bastante feliz que Hanni tenha se apaixonado por uma coreana. Não é por nada, é só pelo... atalho cultural. É só porque é mais simples, não precisamos ficar explicando nossos costumes ou sendo julgados por eles. E, por outro lado, é bom também que você esteja fora da Coreia, porque assim, vocês duas são facilmente possíveis, com bem menos preocupações. O que aconteceu com a Hanni antes, podia ter acontecido mesmo com uma coreana, mas com toda certeza não teria acontecido se a Hanni tivesse estado com alguém mais parecida com ela. Essas coisas são importantes, Presley, e olhando para vocês duas hoje... Não, vocês não são parecidas. Mas são altamente compatíveis. E, complementares — Disse, fazendo Presley respirar fundo de novo — Estou feliz de finalmente conhecer você, eu amei minha neta nova e vou amar este aqui também — Disse, tocando o abdômen de Presley por um instante.


E foi assim que, mesmo duas horas depois do término do jantar, quando já estavam no acampamento delas em Takapuna, Presley não parava de chorar. Enquanto seu pentauro-do-açúcar não parava de correr pela sala em círculos, gesticulando: "campeonato, campeonato, campeonato!", e sua noiva, ainda salgada, mantinha Presley no colo para ver se ela se acalmava.


— Meu amor, tudo ocorreu bem, não foi?

— Aham, mas sua mãe disse que... — Ela puxou o nariz, tentando respirar fundo — Ela amou a neta nova dela e vai amar o nosso menino também — E voltou a chorar tudo de novo, e Hanni estava rindo sem conseguir parar.

— Mas é o objetivo, não é?

— É sim — Disse, toda agarrada nela — Seu pai ficou todo bobo com o seu pôster gigantesco na Queen St. Ele vai chorar quando ver os displays do shopping, eu chorei.

— Mas, babe, você está chorando por tudo — Hanni a cheirou um pouquinho mais.

— Eu sei, e também... — Presley se sentou melhor, tentando se recompor — Também estou com tesão desde a hora que você chegou vestida feito uma indigente.


Hanni riu alto.


— Vou cuidar disso assim que a criança dormir. Mas acho que... Foi o bolo de chocolate? — Aika seguia correndo em círculos, movendo os bracinhos atleticamente, gesticulando "campeonato, campeonato, campeonato!".

— E ela está empolgada para amanhã, para o... campeonato. Honi, será que isso vai machucar muito ou...?

— O campeonato? Não, os outros é que têm que se preocupar com a Aika.

— Não, Hanni, estou preocupada de você apanhar, com tantas faixas marrons com mais tempo do que você.


Hanni riu como uma idiota por horas. Mas depois que a criança dormiu e elas fizeram amorzinho no chuveiro e vieram para a cama-sofá, se pegou pensando nisso.


— Meu Deus, e se eu apanhar na sua frente?

— Vou invadir o tatame sem controle nenhum porque quem irá bater numa mulher grávida?

— Muito menos na minha! — Beijou um pouquinho a barriga dela, que estava deitada em seu colo — Mas eu não vou apanhar, estou decidida.


Decidida a não apanhar, foram para o tal campeonato no dia seguinte. Com Aika extremamente empolgada e ansiosa, Presley pôde vivenciar aquele clima pela primeira vez. O ginásio estava lotado, várias academias estavam inscritas, e Hanni tinha duas, estava com a sua academia, onde era aluna e a academia onde era mestre, a do Centro de Cultura Brasileira, incluindo o polo da escolinha, que ninguém iria competir além de Aika, mas as crianças quiseram vir para apoiá-la e ver sua mestre lutando. E Presley agora se vestia de preto, e lá estava, de legging, camiseta Tom Ford larga, boné sobre os cabelos. Teve que deixar suas meninas na quadra e subir para as arquibancadas, onde Aliana já estava, onde os pais de Hanni já estavam com Bogum e onde seus pais chegaram logo em seguida. Apresentou as duas famílias e eles imediatamente se entrosaram, criando uma bolha coreana no meio do campeonato nacional neozelandês.


— Quem diria que isso poderia ser... tão simples? — Aliana sussurrou para Presley.

— A cultura ajuda. Estarmos num país estrangeiro também — Respondeu, os olhos grudados em sua Hanni aquecendo as crianças. Quimono branco, tranças boxeadoras, aquela boquinha linda que Presley beijava.

— Ajuda também vocês duas serem assim uma pela outra, não tem como ser contra, é IMPOSSÍVEL ser contra.

— Lia, quando você se casa?

— Eu não sei ainda, provavelmente ano que vem.

— Preciso me casar esse ano, antes do bebê nascer, não sei como, você vai resolver comigo.


Leo chegou um pouquinho antes da primeira luta de Aika, com a namorada ao seu lado. Sua menina estava uma cópia de Hanni, também de branco, com as tranças boxeadoras, e ela, simplesmente, desconhecia perder.


— Aika, se perder, tudo bem.


“Ok. Não vou perder!” E seguia saltitando e saltitando, e Hanni não dava conta.


Bem, ela não perdeu mesmo. Aika lutou cinco vezes, e as cinco lutas não duraram cinco minutos. Ela era rápida, habilidosa, tornou-se a estrela do campeonato infantil e, aos quatro aninhos de idade, sagrou-se campeã nacional, enfrentando inclusive crianças mais velhas. Era disso que Hanni falava, da atleta que ela poderia se tornar e que já era. Mave não foi tão bem, mas conseguiu o terceiro lugar. Pipe recebeu sua medalha de ouro em seguida, enquanto Kaori enfrentou lutas duríssimas, saindo com os dedos esfolados, uma boca estourada, diversos hematomas espalhados, mas conquistou um vice-campeonato em sua categoria. E Hanni continuou avançando, passando tranquilamente pelas primeiras lutas, encontrando um pouco mais de dificuldade na semifinal, e a final foi tão intensa que poderia fazer uma grávida passar mal.


De raiva.


A ideia de Presley saltar no tatame caso Hanni estivesse apanhando e tal? Então, não foi bem assim.


— Manu! Saia daí debaixo, saia agora, vamos! — Hanni estava levando um aperto daqueles sob a adversária, já estava descabelada, vermelha, cansada, com uma queimadura no meio da cara, e a grávida dependurada no alambrado, gritando com ela — Park, Manu! A Aika está assistindo isso!

 

Ela deu uma olhadinha para o cronômetro e para o placar. Tinha trinta segundos e três pontos a menos. Mas sua Aika estava assistindo. Do alto do seu primeiro lugar. E de alguma maneira, com uma força que não sabia muito bem que ainda tinha, conseguiu um último upa, jogando sua adversária de lado e escorregando por baixo dela, manga pegada, braço cruzado, garganta travada. Havia entrado? O golpe havia entrado? Havia entrado! E começou a estrangular. Tinha se movido tão rápido que sua adversária não fazia ideia do que estava acontecendo e só tinha que apertar. Olhou o relógio de novo, ouvindo sua noiva gritando, o ginásio inteiro gritando e faltando uns dez segundos, a adversária apagou.


Pronto, Park Manu, era campeã nacional em sua nova faixa.


E depois que conseguiu se mover, Hanni se arrastou até a arquibancada, para ser abraçada e para beijar sua noiva.


— Você prometeu não apanhar, Park Manu! Hanni, meu Deus...! — Tocou a queimadura de quimono no meio do rosto dela — Quando você tem que ir para Paris?

— Em dez dias só, babe.

— Isso sai em dez dias?

— Isso o que exatamente...?


Presley riu e beijou sua Hanni outra vez.


— Vai dar tempo! Vem, passa pra cá, seu pai ficou nervoso, minha mãe ficou furiosa, quase que ela invade o tatame.


Era de se esperar de sua sogra. E dentro da bolsa de Hanni, esquecido por horas, estava o seu celular, tocando sem parar, por quase uma hora seguida. Um número desconhecido, com "Madrid" informando na tela.


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2 comentários


sylber1011
sylber1011
02 de mai. de 2024

Eita

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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
17 de abr. de 2024

"sem medo de ser feliz!kkkkkk

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