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Acróstico 46

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


Fast Forward


Park Manu tinha TDAH e isso piorava consideravelmente em situações que pareciam absurdamente descoladas da realidade. Por exemplo, quando assinou seu contrato com a YSL, aquilo parecia totalmente impossível de acontecer, mas estava acontecendo. Algo parecido ocorreu quando se tornou uma Diesel Girl e até, quando estava dando sua primeira aula de jiu-jitsu para uma turma cheia no Centro de Cultura Brasileira. Não parecia real. O primeiro beijo com Presley? Parecia menos real do que seu primeiro ensaio como Diesel Girl. Elas fazendo amor no meio da rua? Hanni nem dormiu e levou 24 horas para ter certeza de que tinha mesmo acontecido. Ainda bem, ela havia deixado pistas no seu corpo que comprovavam que era real. Bem, América também havia tratado de deixar comprovações de que aquele momento insano era verdadeiro.


Ela desmaiou nos seus braços, e uma garotinha apareceu correndo, assustada ao vê-la apagada, procurando proteção nas pernas de Hanni, como se...


Se conhecessem. Testou três idiomas com ela, em ordem aleatória. Ela tinha TDAH mesmo, deve ter ido do menos provável para o mais provável, e a criança respondeu no último.


Mami, mi mama, mi mama...

— Está tudo bem, fica aqui, está tudo bem, ok?


Duas funcionárias vieram ajudar. Um segurança a carregou para um sofá no interior da loja, e Hanni tentou extrair o máximo de informações possíveis daquela garotinha de dois anos. Ela devia ter no máximo dois anos e era parecida com América. Os mesmos cabelos castanhos, os olhos bem desenhados, pequenos, duas jabuticabas, o arco do Cupido perfeito nos lábios. Era dela, não havia dúvidas nenhuma disso.


— Você tem um papai?

Sin papi — Ela seguia chorando no colo de Hanni, mas agora estava mais calminha, apenas soluçando. As palavras eram confusas, ela só tinha dois aninhos mesmo, e o espanhol de Hanni não era dos melhores, mas achou que entendeu “sem papai”.

— E mamãe, você tem outra mamãe?


Outra mamãe ela tinha! E disse que sabia onde ela estava. Pegou Hanni pela mão e saiu a puxando pela loja, então para a calçada, uma loja para frente e, apontou, mamãe, era aquela.


E deve ter sido a situação mais estranha que Hanni já tinha passado na vida, mais esquisita do que o momento em que conheceu Leo pessoalmente.


— É... espanhol?

— Não, pode ser inglês — Ela olhou muito desconfiada, já pegando a criança no colo.

— É que eu estava numa loja, América passou mal de repente, a criança apareceu e ela continua desmaiada.

— América está desmaiada?!


E isso se tornou toda a prioridade dela. Voltaram para a loja e aquela moça foi cuidar de América; as funcionárias já estavam prestando assistência e ela estava se recuperando lentamente. Ela foi se sentando, respirando fundo e buscando Hanni imediatamente com o olhar. O ar cortou sua garganta; era ela mesma. Não que houvesse espaço para dúvidas antes, mas agora, com toda certeza, era ela, acordada, há quatro passadas de Hanni. Não podia permanecer ali, não precisava ficar ali.


— Bem, você pode separar as peças que escolhi? Volto daqui a pouco para realizar o pagamento — Falou com uma das funcionárias.

— Ah, claro que sim! Vou deixar separado.

— Ótimo, volto em breve.


Saiu, sem olhar para trás ou pensar em muita coisa; só precisava andar um pouco, respirar, entender o que havia acontecido. Pretendia dar uma volta no quarteirão para matar o tempo e então se deu conta de que as sacolas com seus vestidos de noiva também haviam ficado na loja. Aff, por que tinha saído daquela forma? Não precisava fugir de ninguém. Pensou em ligar para Kaori ou para Presley; não escondia mais nada de sua noiva, mas era madrugada em Auckland e aquela não era uma emergência. Tinha saído da forma que não gostaria, mas, ao mesmo tempo... seu coração não estava disparado, não estava... com medo de nada. Sempre se perguntou como seria se, de repente, cruzasse com América de novo; os pensamentos eram muito mais assustadores do que a realidade. E quando estava desviando o caminho porque havia decidido dar um tempo num café para então voltar na loja...


Foi pega pelo braço e colocada contra a parede do café que pretendia entrar.


— América... — Nem se sentiu ameaçada; apenas segurou a mão dela que lhe tocou, fazendo-a soltar.

— Um café. Por favor.

— Nós não temos motivo para tomar café nenhum. Você me seguiu até aqui?

— Não! Juro que não. Não sabia que você estava em Paris; você não postou nada, não tinha como eu saber.

— Então, as minhas postagens, você segue vendo.

— Sim, e deixo você saber disso, por isso te segui com a minha conta principal. Não quero mais fazer nada que você não saiba. Hanni, só... por favor, dez minutos. Posso falar o que preciso aqui também, só preciso que você me ouça. Eu não planejei te encontrar aqui, mas aconteceu e acho que preciso só de alguns minutos para me curar de um dano enorme. Penso nisso todos os dias, é como uma prisão.


Hanni a olhava nos olhos. Seu celular começou a tocar, quebrando aquela ponte visual.


— Só um momento — Olhou e era Presley. Atendeu imediatamente, sem pensar muito. Era madrugada; será que havia acontecido alguma coisa? — Babe? Está tudo bem?

— Está, eu só... acordei e queria ouvir a sua voz. Está tudo bem, meu amor? Estou com saudade, , é um absurdo.


Trocou um olhar com América. Era como... estar entre o seu passado e o seu presente, que também era o seu futuro. Delicadamente, indicou o café para América; elas iriam entrar. Conversou com Presley um pouco mais, ela só havia acordado ansiosa, com saudade; havia sonhado com Hanni e queria ouvir a sua voz. Sua noiva era apegada assim e nada no mundo podia ser melhor; tal como nada no mundo podia estragar o melhor que estavam vivendo. Não quis falar sobre América para ela naquele momento; ela tinha que dormir, o dia seguinte era importante, seria a apresentação do TCC que era...


Dance by designer. Ela iria dançar e então apresentar. Hanni não perderia isso por nada e menos ainda atrapalharia. América era problema seu e iria resolver. Já estavam sentadas numa mesa quando desligou.


— Você está bem? Não tem minutos que desmaiou.

— Eu... sim. Só... preciso de um café, eu acho.


Hanni a olhava. Ela seguia bonita como sempre. Mas não parecia ameaçadora como antes. Parecia... menor. Mais encolhida. Assustada. Seria uma armadilha?


— Um latte seria melhor, não? Mais leite e menos café.

— Ah, pode ser assim.

— Vou pedir.


Hanni foi até o balcão, pediu os cafés, deu seus nomes, esperou por eles. Precisava respirar um pouco, ainda estava respirando quando foi interrompida. Recebeu os cafés, com "Manu" e "América" escritos nos copos. Voltou para a mesa, entregou o café para ela.


— Obrigada.

— Onde está sua menina? Ela é linda — Disse, oferecendo um pequeno sorriso, não a queria acuada do outro lado da mesa também, Hanni não era essa pessoa.

— Ah, ela... — Soltou o ar profundamente, em alívio, deu para perceber — Está com a outra mãe.

— Ela me contou que o nome dela é Amelia.

— Isso, Amelia, tem... dois anos e meio.

— Ela ficou muito à vontade comigo, era como se me conhecesse.

— Ela deve ter reconhecido você dos vídeos com... a sua filha. Os Reels de surfe, ela viu no meu celular.


Hanni a olhava sem desviar o olhar. Mas ela desviava.


— E o que você contou para a sua filha sobre mim?

— Manu...

— O que contou? O que de bom você tem para dizer a ela sobre mim? Qual conto de fadas você cria?


Ela cruzou os braços e finalmente seus olhos.


— Eu não preciso criar nada, muitas coisas boas aconteceram entre nós.

— E terminaram com você tentando nos matar.


Ela deu de ombros.


— Quantos contos de fadas não terminaram em perseguição e morte?

— Você realmente está me dizendo isso?

Não. E não é isso que quero dizer. Eu não quero que a gente brigue, que discuta. Quando te vi do nada lá na loja, o meu coração parou e só... — Ela respirou fundo, os olhos enchendo de lágrimas — Não foi isso que aconteceu na primeira vez que você me beijou? Você lembra disso?


Hanni lembrava. Inclusive, quase desmaiou também no seu primeiro beijo com Presley, e isso a deixou pensativa por uns dias. Se América tinha sentido algo parecido no primeiro beijo delas. Era mesmo como dois relacionamentos diferentes, vividos pelas mesmas pessoas.


— Eu lembro.

— Nosso começo realmente foi como um conto de fadas. A garota mais bonita da festa me beijou, meu coração parou e acho que fiquei obcecada por você desde aquele momento. Nada parecido nunca tinha me acontecido. Aquele tipo de... emoção intensa. Manu, eu tenho redes sociais desde os meus treze anos, a idade mínima que os apps permitiam para a abertura de uma conta. Fui crescendo, conquistando coisas e acho que acabei sofrendo aquilo que você vivia me acusando de ser mesmo: fui descolada da realidade. O que eu queria, eu podia ter; o que desejava, era só comprar. Vivia cercada de pessoas que não me viam de verdade, que só tinham um único interesse em mim, aquela prostituição de fama desenfreada que você mesmo, muito nova, me alertou a respeito. Minha cabeça naquela época era muito ferrada. Estava entediada com tudo, cansada e, você apareceu. A garota que me beijou e me fez desmaiar. E você não me queria — Disse, e os olhos ficaram mais molhados ainda; ela tomou um gole do seu café para acalmar — Você não estava interessada em nada do que eu tinha. Não queria fama, não queria dinheiro, estava feliz com o seu trabalho, adorava sua faculdade e seus despretensiosos círculos sociais, muito mais vivos do que os meus. E você não me queria. Queria me dar uns beijinhos e sumir, ir para suas outras garotas, que eram muitas. E eu fiquei obcecada por conseguir a sua atenção. Obcecada com a ideia de que eu seria a sua única.

— E assim, você parou de me ver como uma pessoa e passou a me ver como... uma bolsa que todo mundo queria, mas só você tinha.

— Manu, não era assim também.

— Era assim, você sabe que era. Você... me agredia. E me fazia acreditar que era eu que estava agredindo você. Mentia para mim, me tratava como uma bonequinha exótica que você havia conseguido comprar. A bonequinha coreana, que falava português, tinha o plus de ser brasileira também. Uma peça única, que apenas você tinha. Eu não precisava... falar, me expressar, ser uma pessoa funcional; não era isso que você queria de mim. Você queria apenas a minha imagem. Apenas a projeção que você havia feito mentalmente. Eu e a sua exótica gata, a serval que você criava em casa, tínhamos a mesma função na sua vida. E ela era melhor tratada do que eu.


Ela lagrimou.


— Me perdoa por tudo isso. Eu... não conseguia ver as coisas dessa forma.

— Porque estava focada em você o tempo todo. Porque só você importava no seu mundo descolado da realidade. Eu tinha um medo danado daquela gata — Disse e seus olhos se encheram — E ela sentia o meu medo e eu achava que ela me ameaçava, que não era amistosa comigo e só depois de muita terapia, eu me dei conta de que aquele medo que eu sentia não era da serval, era de você. Eu só projetava o meu medo na gata, mas o meu medo real era você. Eu tinha medo do que você podia fazer comigo, temia dormir do seu lado e nunca mais acordar. Então, simplesmente não dormia e dizia que a culpa era da gata. Mas você era a predadora, não a gata. E eu me sentia predada por você e isso só continuou. Mesmo depois do acidente, onde tentei me estabelecer para recomeçar e você nunca deixava. Você seguia atrás de mim, feito uma predadora que havia perdido a presa favorita de vista — Respirou fundo, seu coração estava batendo muito forte só de relembrar aquelas coisas, mas se estava diante dela, iria falar tudo o que não havia dito naquele tempo todo tão silenciada por medo — América, como você vai se sentir se alguém fizer o mesmo com a Amelia quando ela crescer? — Os olhos se encheram muito, mas Hanni não lagrimou — Ou, como você vai se sentir se ela fizer o mesmo com alguém?

— Estou tentando criá-la melhor do que fui criada. Estou tentando... que ela seja melhor do que eu, mais segura, mais... sensível. Manu, eu só...

— Quer ouvir algo que nunca te disse? Eu me apaixonei por você. Também só percebi isso depois de muita terapia, mas apenas mulheres que amam permanecem onde permaneci por tanto tempo. Deixei você me machucar, porque achava que você ia melhorar, que em algum momento, ia voltar a ser a América do nosso primeiro encontro, do nosso primeiro mês. Uma princesa. Educada, atenciosa, que me ouvia, prestava atenção nas coisas que eu dizia. Não foi amor à primeira vista, mas foi amor à segunda, terceira, quarta vista. Fui vendo você melhor naquele mês, vendo coisas que gostava, e então, você esmagou tudo quando mudou. Quando se tornou... a serval me observando dormir. Lembra de quando eu disse que a minha princesa preferida era a Jasmine, de Aladim? Porque ela era durona, era a herdeira e queria ser rainha, criava um tigre com ela e não tinha medo de nada. Você parecia a Jasmine pra caramba naquele primeiro mês — Disse, já restabelecida — Mas aí se tornou o meu pesadelo preferido, e então, apenas um pesadelo. Como... um filme adiantado em fast forward, onde tudo passa tão rápido que a gente não faz ideia do que aconteceu entre uma cena e outra. Você... você faz terapia?


Ela respirou fundo, engolindo o choro e outro gole de café.


— Faço, desde quando acordei depois da cirurgia.

— Você ficou com alguma sequela?

— Só... me colaram de volta à realidade de maneira violenta e eu levei uns meses para compreender esses meses em que persegui você feito uma maluca. Bem, eu estava maluca mesmo, descobri que tinha crises de mania e você era o meu alvo. Eu era viciada em você, alucinada por você, não conseguia prestar atenção em mais nada, porque não tinha mais você comigo. Então, minha mãe me internou. Me interditou na justiça e me internou. Passei quase um ano internada, sem celular, sem internet, sem nada. E descobri também que na minha cabeça bagunçada, a minha realidade estava no celular. As pessoas que eu conhecia? Estavam no celular. Quem me criticava, ou me colocava para cima? No celular. Era como se... eu não fosse uma pessoa. Fosse apenas um holograma. E me trazer de volta para a realidade foi muito difícil. Hanni, quando você diz que vai matar alguém na internet, isso não acontece. Quando você diz: fulano morreu para mim. Não acontece. Mas se você acelera o carro com sua namorada no banco do passageiro, isso pode matar. É a vida real, não é digital. Mas a minha mente era toda digital naquele momento. Eu não queria morrer, Manu. E nem queria machucar você de verdade.


Hanni tomou outro gole do seu café.


— A internet comeu o seu cérebro, garota.

— Tipo... comeu. E não sou o único caso. Sabia que na Espanha, me usam como case de sucesso reverso de como a saúde mental pode desaparecer pelo uso excessivo das redes? Vi uma garota esses dias, de um reality show no Brasil, também fruto da geração digital, que cresceu dentro de uma tela. Quando tiraram essa tela dela, deu muito ruim. No meu caso, quando você se tirou de mim... eu enlouqueci. E eu sentia muita dor o tempo todo. Aquelas últimas semanas antes do acidente, eu sentia dor 24 horas e acho que entrei no meu primeiro episódio de mania, que levou até o acidente. Não sei como posso dizer “me perdoa por ter tentado acabar com nós duas”, sem parecer uma personagem da Colleen Hoover, mas... — A frase foi tão absurda que fez Hanni rir.

— Eu não li esses livros.

— Não leia, eu li e me dei conta de muitas coisas sobre mim mesma que não preciso que você se dê conta também. Manu, eu nunca mais vou te machucar.

— Eu sei, você não pode mais agora.


Silêncio. Goles de café. E Hanni tinha coisas a resolver com ela ainda. Foi em frente.


— Você precisava disso para terminar de curar? Está aqui, conversamos. Você foi muito ruim para mim, e sim, isso refletiu na minha vida por um tempo, mas agora, não reflete mais. Eu estou bem, estou feliz. Ainda vou na terapia porque não quero repetir nenhum comportamento abusivo no meu relacionamento atual. Mas me incomoda muito que você tenha começado a me seguir no Instagram daquela forma, que esteja seguindo a minha noiva. Você diz que está melhor, mas isso é bem esquisito, não acha?

— Sei que é. Sei que ainda tenho alguns episódios de mania, onde preciso saber de você, preciso olhar para você, mas acho que pode ser também porque não conversamos. A nossa última conversa terminou de maneira violenta e eu não me sinto bem dessa ser a minha última lembrança sua. Não adiantava também a gente ter conversado antes, eu ainda estava muito doente, mas agora, depois que a Amelia nasceu... as coisas mudaram pra mim. Comecei a ver as coisas por outro ângulo, de verdade.

— Você se casou?

— Sim, mas estamos separadas agora. Esta viagem para Paris foi para ver se... a gente consegue se entender outra vez.

— Você é abusiva com ela?

— Não, nós temos... um tipo muito comum de relacionamento, na verdade. E acho que isso me incomoda um pouco. Ela é uma ótima esposa, ótima mãe, mas não sou louca por ela e nem ela é por mim. Sinto falta disso às vezes.

— América, você não é qualificada para ser louca por alguém de maneira segura, então... — Disse, e ela riu um pouco.

— Penso nisso também. Manu, durante o nosso relacionamento, eu me tornei uma pessoa que não fazia ideia de que poderia ser. Por isso, quando você falava, parecia tão distante pra mim. Eu não me via como abusadora, não via o que estava fazendo, só tinha um objetivo e faria tudo para manter comigo o que queria. A minha terapeuta fala que eu ter a oportunidade de te pedir perdão é indiferente para você. Mas é muito importante para mim. Ela me diz que a sua jornada é outra, que você deve me culpar, sim, mas que deve se culpar também, porque... o comportamento é este mesmo. É tudo muito delicado e consigo ver por que devo ficar longe de você. Sofro desde quando te vi com a Presley. Desde quando... vi o jeito que você olha para ela, o jeito que... vocês duas se encaixaram na vida uma da outra. Me atingiu. Cada nova foto de evolução do namoro, me atingia. Ainda tenho sentimentos por você e isso provavelmente me afasta da minha esposa e da minha família. Estou te olhando de perto agora e, você parece... uma deusa de tão bonita. É o seu auge da beleza. Você foi bonita a vida inteira, mas agora... não parece real. E isso tem a ver com ela, claro que deve ter a ver com ela. A paixão deixa as pessoas assim. O meu auge de beleza foi quando estava namorando você. E agora eu te vi passando por tudo o que passei com você, mas com outra pessoa. E ela é... incrível. Vi a sua última postagem, vocês duas na praia e um dos comentários foi: faces, now. Vocês duas são lindas e ficam ainda mais bonitas juntas, numa mesa de cartas, é Blackjack. Mas não é apenas a beleza que há, sei disso muito bem. Você está feliz com ela.

— Eu estou. E nada vai me tirar disso, você entende? Mesmo a sua inconveniência de seguir a nós duas no mesmo dia, e eu sei que foi para intimidar.

— Sinto muito por isso.

— E as ligações?

— Ah, Manu, eu... perdi o controle. Queria falar com você, queria que a gente tivesse essa conversa que estamos tendo agora. Mas notei o que estava fazendo e parei. Você viu que parei.

— Eu não posso ser os seus episódios de mania e dizer que está tudo bem, não está. América, nós estamos em países diferentes, temos círculos completamente diferentes, a gente não tem que se cruzar por aí. O que aconteceu aqui deve ter sido uma manobra do destino para que nós duas conversássemos e eu pudesse ficar mais tranquila no meu relacionamento. Minha noiva está grávida, você entende isso? Você não a deixa nervosa, mas é algo que ela não precisa ter que lidar de jeito nenhum. Você é meu passado, meu problema. Como a sua esposa se chama?


Ela respirou fundo para responder.


— Pilar.

— Eu não sou o problema dela, entende? Ela me olhou como se estivesse vendo um fantasma, como se o seu maior pesadelo estivesse diante dela, e eu não sou esse pesadelo; éramos para ser apenas duas desconhecidas. Nunca fiz nada contra ela, mas você causa isso. Você a assombra comigo. Somos uma história que deu muito errado. Eu também fui abusiva com você e sinto muito por esses abusos, de verdade. Hoje, com a cabeça que tenho, faria tudo diferente e talvez nós duas não tivéssemos acabado naquele carro. Acordei durante o resgate, América. Vi você coberta de sangue, dependurada no cinto de segurança, esmagada pelo airbag; achei que tivesse morrido. Até meses atrás, sonhava com essa cena. Com o sangue, com o cheiro de morte. Fomos para cama juntas tantas vezes, eu amei você, não deveria ter que te ver daquela forma.


Silêncio. Ela chorando, Hanni apertando os dedos em ansiedade. Não queria estar ali, mas precisava terminar aquela conversa. Então, continuou:


— Eu tinha esse pesadelo e nele existia o medo da minha própria morte. Achei que você tivesse morrido e que eu fosse morrer, e essa é a pior sensação do mundo. E você causou tudo isso, porque quis. Você tomou essa decisão e... eu não quero ter que olhar para você. Da mesma maneira que você não deve querer olhar para mim. Esses sentimentos ruins de quando você começou a ver a Presley comigo não precisam existir. Tudo pode ser evitado. Talvez leve mais alguns anos pra gente poder dizer: hum, agora acho que olhar pra ela não me incomoda mais. E pode ser também que isso nunca aconteça e tudo bem, nós duas causamos isso. Vamos assumir essa responsabilidade. Estragamos tudo, não dá para manter contato, não dá para tentar amizade. E não quero trazer um novo drama pra gente, não quero mover ações judiciais, desenterrar essa relação que nenhuma de nós se orgulha. Esse encontro pode ser apenas porque você precisava falar, eu tinha que te ouvir, porque quero ter tranquilidade no meu casamento e você precisa salvar o seu. Para de assombrar a sua esposa comigo. Vocês têm uma filha juntas, vocês não podem só... desistir da ideia por algo tão fora de mão. Mas se for isso mesmo, se achar que já tentaram tudo e não tem como continuar, vá em frente, entra numa nova vida, aproveita a sua filha, curte o que esse trabalho desde os seus treze anos tem para te oferecer agora. Enterra nós duas. Não deixa mais essa história ruim tirar nada de você.


Ela ficou quieta por alguns instantes, ficou quieta até terminar seu copo de café, na verdade. Parecia estar pensando em tudo.


— Você está tão diferente agora. Está... madura.

— Farei 29 anos em breve, o tempo passou, América.

— Em fast forward.

— Talvez, em fast forward.

Presley estava pronta para a sua apresentação. Cabelos soltos, saia longa, camiseta e casaqueto por cima, toda de preto. A bancada de avaliadores estava pronta para analisar a sua apresentação e anos depois, estava de volta ao palco da sua antiga faculdade, onde havia dançado tantas vezes e agora, retornava para finalizar seu trabalho de conclusão de curso. Estava descalça e checando o celular antes de sua apresentação começar. Ainda tinha dez minutos e notou algo em seu Instagram. Seu Instagram de mais de dez mil seguidores, e ela sentiu falta de um em específico.


— Lia, Lia — Aliana estava lá, a ajudaria com a apresentação.

— O quê? Algum problema?

— A ex da Hanni parou de me seguir.

— Como...?

— Todo Story que eu posto, ela aparece como visualizadora, mas postei agora e nada dela. Tive uma intuição, fui olhar meus seguidores, ela não está mais lá.


Aliana pegou seu celular e foi checar.


— Ela parou de seguir a Hanni também.

— Ela... Mesmo?

— Sim, olha aqui — Mostrou para ela — Ela parou de seguir também. Isso... é uma coisa boa, não é?

— É uma coisa ótima! Era tão estranho postar coisas e vê-la olhando para mim. Mas o que será que aconteceu?

— Ah, Presley, pessoas seguem em frente. Talvez ela tenha tido um estalo e percebido que nada daquilo fazia sentido. Vocês vão se casar, vão ter outro filho em breve. Eu, que sou sua ex controlada, às vezes, fica pesado pra mim, imagina pra ela.

— Mas você deixa de ser idiota! — Começou a rir.

— Mas é verdade! Se eu não tivesse a minha namorada linda, gostosa, estilosa, olha pra ela, olha — Virou Presley na direção de Kaori, que estava com Aika no colo nas poltronas do público — Eu estaria bem surtada com você e a Hanni, pensando naquelas coisas todas de “por que ela e não eu?”, etc. Leo está assim essa semana, o namoro dele acabou e ele está na fase de sofrer por você de novo.

— Nada, é só porque está sozinho. Tenho uma teoria que o seu irmão me amou mais na projeção mental que ele fez de mim, do que na realidade. Lia, onde está a Hanni?

— Neste exato momento... — Checou no notebook — On-line, esperando você se apresentar.


Presley se sentou em frente ao notebook por um instante para observá-la melhor e lá estava ela, no seu quarto de hotel, muito bem-vestida. De camiseta branca, terninho por cima, cabelos presos num rabo de cavalo elegante.


— Eu também tenho câmera?

— Tem, mas só tem cinco minutos, ok?

— Ok! Eu só quero que ela me veja.


Aliana liberou a câmera e Park Manu se derreteu inteira.


— Meu amor, você está tão linda.

— Estou linda? Você está linda! É de madrugada aí, não achei que...

— Eu não fosse me vestir para a apresentação de TCC da minha noiva? — Ela levantou rapidinho, estava de jeans e DE SALTO — Eu jamais faria isso.

Honi, você colocou salto!

— E maquiei, coloquei a lente — Ela voltou a se sentar e aproximou os olhos da câmera, e que olhos, Presley suspirou — As verdes deixam meus olhos maiores.

— Esses seus olhos são a coisa mais linda. E você vai se casar comigo.

— Vou! Assim que eu chegar, não tem motivos para esperar mais. Quero que a gente se case logo, babe, pode ser assim?


Os olhos de Presley cristalizaram. Ficava emocional toda vez que Hanni falava do casamento delas.


— Pode. É claro que pode. Eu só queria ter certeza de que é isso mesmo que você quer, honi.


Olhos profundamente nos olhos.


— Você é o meu amor, é a minha garota entre um milhão, a única coisa que faz sentido é que eu não te perca nunca. E eu não deixarei outra pessoa criar as minhas crianças — Abriu aquele sorriso lindo que Presley tanto adorava — Falando nisso, onde está a minha menina?


Ela sorriu.


— Me assistindo da plateia, linda, você tem que ver. Vou fazer uma videochamada pra você quando tudo terminar aqui.

— E o meu menino, está bem?


O sorriso de Presley ficou enorme.


Com saudade de você. Mas isso, a nossa menina está, eu também estou. Honi, está tudo bem?

— Tudo muito bem. Vai lá, sei que está em cima da hora, te assistirei daqui. Boa sorte, e babe, você tem certeza do que você significa pra mim?


Olhos brilhando.


— Eu tenho. Eu tenho sim.


Disso, Presley nunca esquecia.


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2 comentários


sylber1011
sylber1011
05 de mai. de 2024

😮‍💨

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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
29 de abr. de 2024

As vezes o destino nos coloca diante do "problema" para ele deixe de ser problema! Ufa, melhor assim! 😍

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