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Acróstico 47

Atualizado: 26 de jun. de 2025


Acróstico


Presnni


E três dias depois, finalmente, Hanni estava de volta a Auckland.


Pareceu que aqueles dias não passavam nunca; que todo trabalho era infinito. Era muito ruim ficar longe de Presley e Aika. Definitivamente era. Mas com o adendo da gravidez, isso ficou ainda mais evidente. Não queria que Presley precisasse de qualquer coisa e não pudesse ajudar porque estava longe. E a "qualquer coisa" era qualquer uma mesmo, incluindo uma simples massagem nos pés. Hanni queria estar com ela neste nível de detalhe. Em resumo, isso não era apenas amor; era MUITO AMOR. E ainda bem, era recíproco.


Tinha dito que não precisava, que iria de Uber, mas quando Hanni pisou no aeroporto, sua família estava lá.


Aika ainda de quimono, era dia de aula de jiu-jitsu na escolinha, e sua noiva muito, mas muito grávida. Hanni pegou sua menina no colo, a enchendo de beijos, fez o mesmo com sua Presley em seguida, a mão na barriga dela.


Babe, parece que fiquei um mês fora.

— Eu acho que o seu filho vai ser enorme, tá? Melhor você dobrar aquele seu treino de costas, honi — Presley respondeu sorrindo.

— Eu dobro e vou treinando com este bebê aqui por enquanto! — Revirou Aika nos braços, a fazendo rir demais — Que saudade de você, criança — Disse, em coreano, olhando para ela, que tocou os dedinhos no seu rosto e sorriu.

Honi, ela está me odiando, tá? Eu não via a hora de você voltar por causa disso também.

— Odiando muito?

— Muito! E olha que essa criança nem nasceu ainda.


Aika odiando era uma graça e de partir o coração, tudo ao mesmo tempo. Foram para casa, com Hanni dirigindo enquanto ouvia sua noiva fazer uma lista de reclamações que iam desde Aika estar relapsa na escola, mal-humorada com as professoras, até estar cheia de respostas para cima de Presley, inclusive fechando os olhinhos para ela na hora das broncas. Também estava sendo malcriada na hora do banho, e de jeito nenhum queria ir com o papai, porque o papai era muito chato e Hanni nem conseguia defender Leo de tal acusação. Ele estava muito melhor, muito mais presente, mas ainda trabalhava demais nos momentos em que deveria estar apenas com a filha.


— Ele sugeriu uma psicóloga infantil.

— Não é necessário, babe, ela só está enciumada.


Presley se agarrou no braço de sua noiva.


Honi, você acha que vai passar muito tempo fora quando o bebê nascer?

— Eu conversei sobre isso nessa viagem — Beijou os cabelos dela com carinho — Pedi para ficar na Oceania a partir de março, por ao menos, três meses. Tive todo o cuidado para não parecer rebelde, mas eles ficaram meio pensativos. Porém, quando eu falei o motivo, todo mundo entendeu. E se estivermos casadas, tenho até alguns direitos, sabia?

— Pois você terá direitos porque vamos nos casar em dois dias, tá?

— Sério?! — Um sorriso escapou.

— Muito sério! Já está tudo organizado, o cartório tinha data, consegui um buffet, você trouxe os nossos vestidos. Babe, eu já estava doente de saudade de você, porque te amo muito, acho mesmo que não falta nada.


Não faltava nem um pouquinho.


Foram para a casa em Takapuna e Aika estava outra criança. Carinhosa com Presley, obediente, foi tomar banho sozinha, vestiu-se sozinha, ajudou até a colocar a mesa do jantar.


— Ok, ela não vai mesmo odiar você — Presley estava vendo e não estava crendo.


E Hanni estava rindo igual a uma idiota.


— Eu disse para você que ia lutar com todas as minhas forças para que isso não acontecesse!


Jantaram juntas, com Aika contando muitas coisas da semana dela, coisas da escola, dos treinos, de Kaori, dos amiguinhos, sorrindo plenamente porque Hanni estava em casa. Como podia não querer voltar o mais rápido possível? Como podia deixar qualquer outra coisa manchar o poema que elas eram?


Hanni cuidou de tudo aquela noite, mesmo depois de todas aquelas horas de voo. Enviou sua noiva para o sofá, pés para cima, para que ela assistisse a um episódio da série que gostava, tomando um chazinho para esquentar, enquanto Manu cuidava da cozinha, deixando tudo em ordem. Hanni foi catar brinquedos pela casa com Aika, relembrando sua menina das regras; ela se desculpou e prometeu melhorar com os brinquedos, com a mamãe, com o papai e com Kaori.


— O que você fez com a Kaori, criança?


“Disse uma mentira e ela ficou triste.”


— Uma mentira...?


E os dedinhos dançaram no ar em alta fluência porque agora Hanni já entendia quase tudo:


“Eu disse que não gostava dela, mas é uma mentira. Você pode ligar, para eu me desculpar.”


Hanni a pegou no colo e ligou para Kaori. E ela estava triste mesmo, de coração partido; sua amiga era sensível assim, mas Aika explicou que era uma mentira e que sabia que não podia mentir. Disse também que estava muito chateada, mas não sabia o motivo e, por fim, se desculpou. Daí, Kaori aceitou e ficou apenas feliz. Aika estava estressada com sua ausência; Hanni sabia disso, se culpava por isso, mas Presley dizia que tudo bem, era só mais um sinal de que Park Manu tinha mesmo se tornado uma mãe de família. Depois que tudo estava em ordem, que Aika já estava dormindo, Hanni desceu para o sofá com sua noiva. Fez outra rodada de chá para as duas e, finalmente, contou sobre o que tinha acontecido em Paris.


Presley ouviu tudo de sobressalto, as duas sentadas frente a frente no sofá, pernas recolhidas, partilhando um cobertor, TV no mute.


— E você só...?

— Não senti nada, Pres. Estava olhando para ela, do outro lado da mesa, mas eu não sentia nada. Tipo, no dia que ela seguiu nós duas no Instagram, foi como... — Respirou fundo — Um monstro enorme furando a nossa bolha. Nós estávamos seguras aqui, felizes aqui e, de repente, surgiu um monstro no meio da nossa sala. Você me fez ir em frente, não me deixou ficar presa nessa ideia. Eu voltei para a terapia, comecei a falar mais sobre isso e, ao mesmo tempo, passei a esquecer sobre isso. Tinha tanto acontecendo, a reforma da casa, os cuidados com a Aika, o bebê que está chegando, nós duas. Incomodava saber que ela estava nos vendo, mas já não me causava dano como antes. Até os meus pesadelos sumiram. Mas estar de frente para ela, achei que pudesse ser mais assustador, mas não foi.

— Você estava tranquila quando falamos.

— Eu estava. Fiquei tranquila o tempo inteiro. Desconfortável? Sim, mas sem nenhum sinal de ansiedade.

— Bem, você é uma mulher agora, honi. Não é mais a adolescente que ela conheceu.

— Mas eu era, babe. Até conhecer você, eu ainda era a adolescente que ela conheceu, era... a garota que ela quebrou. Depois que a gente se apaixonou, após ter você e ter a Aika, o meu maior medo se tornou a dúvida sobre mim mesma, que eu mesma tinha. O não saber se havia amadurecido mesmo ou se ainda era a garota quebrada, que ia acabar decepcionando vocês duas. E quando você engravidou... — Os olhos se encheram — Tive tanto medo de ser uma farsa. Porque estávamos bem, nós duas e a Aika, eu conseguia te ajudar com ela, conseguia ser presente e suficiente para vocês, mas como seria com um bebê novo? Como me encaixaria nessa vida? Muitas coisas me machucavam em estar com a América, mas tinha uma que era muito mais chata de sentir: eu claramente me percebia desencaixada da vida dela e tive muito medo disso acontecer na sua gravidez. E doeria infinitamente mais — Perdeu uma lágrima.

— Meu amor... — Presley tocou o rosto dela com carinho.

— Por isso, me afastei no começo, fui para a praia antes de a gente se acertar em definitivo, era esse medo, de não ser suficiente, de ainda estar quebrada, de acabar decepcionando você, ou, simplesmente, não conseguir um espaço na sua vida com essa variável nova. Cometi erros com a América, você sabe que sim. E eu queria dizer isso para ela também, me desculpar por essa parte. Quando ela descobriu o aneurisma, eu não soube apoiar, não soube o que fazer, não sabia como agir. Há pessoas que só sabem como agir em qualquer situação, você é uma dessas pessoas, mas outras não sabem, têm essa dificuldade. Por isso, faço tantas perguntas nas suas consultas: cuidar não é tão nato em mim, eu preciso de instruções, e a América também precisava. Ela e eu, não tínhamos como dar certo de forma nenhuma. E acho que no final das contas, ela está certa, a gente precisava dessa conversa, eu precisava... acabar com essa ideia de vez de que ela tem algum poder sobre mim ainda. Não tem mais nada lá, Pres, nada. Eu sequer a odeio, quero que ela fique bem, que cuide da menina linda que ela tem, que ajuste o casamento dela, que seja feliz.

— Mas ela ainda estava stalkeando você, honi.

— Eu sei, por isso deixei claro que precisamos nos manter bem afastadas, a obsessão tem que parar e é apenas isso mesmo agora, uma obsessão. A relembrei que stalking é um crime e que cabem alguns processos sobre o que aconteceu ainda, aquela orientação que você já tinha me dado. Ela deixou claro que não quer saber mais de processos, o relacionamento dela não vai muito bem, ela teme uma futura disputa judicial pela filha, caso as duas não se entendam, então ela não pode ter nenhuma anotação jurídica negativa mais.

Babe, você acreditou que ela realmente não sabia que você estava em Paris?

— Ela realmente não tinha como saber, a reação quando nos encontramos pareceu bem verídica também. Mas se foi ou não, também não importa, ela me mostrou as duas contas de Instagram no celular dela, nos deixou de seguir em ambas e acho que ela ficou aliviada de saber que eu não a odeio. Vi algumas mudanças no comportamento dela também, ela não posta nada da filha, por exemplo. Acho que a relação dela com as redes está melhor. Pres, ela sempre lidou com muito hate na internet. Nós... não temos isso, você e eu. Dificilmente aparece alguém nos dizendo coisas ruins, acho que... nunca aconteceu, ou se aconteceu, não vimos. Muita coisa fez parte da bomba-relógio que ela se tornou comigo, incluindo, eu mesma.


Presley a olhava.


— Algo muito importante aconteceu nesse encontro: você a humanizou. E isso não é uma coisa ruim, não, é uma coisa boa. América fez uma coisa terrível, mas isso não a torna, necessariamente, uma pessoa terrível. Se ela melhorou, não tem que pagar por isso a vida inteira também. Você está aqui, vocês duas sobreviveram, ela foi uma mulher desesperada, mentalmente em surto, uma abusadora por oportunidade, insegura e bem babaca, mas apesar dos predicados, é apenas uma mulher também. Que hoje, você consegue lidar. Porque tem idade, recursos, maturidade para tudo isso. Olha, se ela aparecesse aqui do nada, eu adoraria falar com ela de uma maneira que a faria chorar no banho por anos, mas você fez isso com delicadeza. Lidou do seu jeito e acho isso muito mais importante do que a conversa que eu teria com ela — Disse, sabendo que sua noiva ia rir.

— Eu disse isso para ela.

— O que você disse, honi?

— Que a minha noiva é esquentadinha e não iria querer saber da história da pobre moça rica que perdeu o controle de tanto morar na internet.

— Ah, isso eu não ia mesmo! — Disse e foi para o colo de sua Hanni, sentir o cheirinho dela, ficar agarrada porque estava mesmo morrendo de saudade — Tenho tanto orgulho de você, sabia?

— Muito mesmo?

— Muito. Seu score de esposa não para de subir — Brincou, a fazendo sorrir.

Babe... — Começou a correr a boca pelo pescoço dela.

— O que foi, meu amor? — Perguntou, já fechando os olhos, os seios enrijecendo só de sentir aqueles lábios de coração passeando pela sua pele.

— Será que eu consigo te deixar com tesão agora?

— Me dá sua mão — Pegou a mão dela e deslizou para baixo de sua camisola de seda preta, e Presley estava...

Babe...

— Dentro de mim, honi, eu preciso de você dentro de mim.


Fizeram amor no sofá, com aquele quadro no canto da sala, aquele que dizia que nunca é necessário se forçar o amor, pois se for amor mesmo, ele te afogará no mesmo momento, e isso parecia tanto, mas tanto com as duas. Era insano pensar no quanto de certeza Presley teve sobre Hanni assim que a beijou; e insano o tanto de certeza que Hanni também teve, com o plus de ficar extremamente assustada por estar se sentindo assim por uma mulher que, em tese, não poderia ter. Não poderia ter, mas lutou por ela mesmo assim, não poderia ter, mas brigou consigo mesma para não desistir, apesar do medo, apesar da incerteza do que poderia acontecer. Era Presley, e não fazia o mínimo sentido não brigar pela possibilidade de tê-la.


Sim, havia dias que ainda não parecia real e aquela noite em si, após terem feito amor e de Presley ter adormecido, Hanni estava olhando para ela na cama e não dava para acreditar. Iriam se casar. Aquelas duas mulheres, quebrando regras em nome da atração numa noite pós-festa, se beijando e se sentindo culpadas por terem cedido uma à outra, iriam se casar. Eram uma família agora. Aika era sua, o bebê que ela estava esperando? Era seu também. E toda vez que pensava nisso, Hanni acabava chorando. De felicidade.


Bem, estava com suas lágrimas silenciosas de felicidade quando viu uma sombra pequenina passando pelo corredor.


Uma sombra?


Levantou-se bem devagar para não acordar Presley, saiu no corredor. A porta do quarto de Aika estava aberta. Olhou para o andar de baixo e lá estava uma hurricanizinha dentro da geladeira. Hanni a observou primeiro. Ela escolheu, escolheu e pegou um achocolatado de caixinha. Então, com muito cuidado, ligou a TV e diminuiu todo o volume. Ficou assistindo com a Senhorita Bulbassauro ao seu lado. Hanni checou o horário, quase duas da manhã. Decidiu descer. Foi até a geladeira, pegou um achocolatado também e então veio para o sofá com ela. Aika sorriu assim que viu Hanni.


"Mamãe dormindo."


— Mamãe dormindo, ela anda muito cansada — Sinalizou para ela.


"Um bebê, muito trabalho."


— Muito trabalho mesmo.


"Ela, tão cansada que não acorda para o café."


— Você quer dizer, esses dias? — Ela afirmou — E como você tem feito?


"Leite, cereal, pãozinho, manteiga! Para mim e para ela." Contou orgulhosa.


— Então está fazendo o café para vocês duas? — Ela afirmou, aquele sorriso lindo no rosto. Ela estava tão diferente; os cabelos estavam compridos, a franjinha cortada pouco acima daqueles olhinhos lindos; estava maiorzinha, parecia que tinha decidido crescer rápido nos últimos meses, estava ainda mais linda, a face cardizinha.


"Mas ela chora."


Hanni riu porque dava para imaginar a cena.


— Mas chora sorrindo, não é?


"Tem um sorriso!"


— É de orgulho de você, meu amor. E de culpa, porque ela sabe que tinha que estar fazendo mais.


"Mas um bebê dá sono. Ela sente dor também." Contou, se agarrando bem do ladinho de Hanni, como sempre fazia. "E eu, malcriada."


— Por que você acha que ficou tão malcriada?


Ela pensou um pouquinho. Terminou a caixinha de chocolate, colocou sobre a mesinha de centro e virou de frente para Hanni no sofá.


“O bebê é seu filho?”


— Sim, o bebê é meu filho — Respondeu, limpando a boquinha dela de chocolate.


“E eu sou sua filha também?”


Os olhos de Hanni se encheram imediatamente.


— Meu amor, claro que sim, você é minha filha também, minha primeira filha — Disse, tocando o rostinho dela, a olhando nos olhos — Aika, essa família só existe porque você me achou — Falou, e ela sorriu, como se entendesse tudo — Você lembra quando me encontrou lá no hospital?


Ela fez um sinal com os bracinhos, como se estivesse tocando violão, o rostinho adorável, um sorriso que não fechava.


— Esse dia! Você me achou e agora, nós somos uma família. Você é minha filha.


“Uma filha e um bebê.” Os dedinhos dançaram no ar.


Os olhos de Hanni brilhavam demais.


— Isso, uma filha e um bebê.


E ela veio para o colo de Hanni, deitou-se em seu braço, colocou os dedinhos em seu rosto e então sinalizou, letra por letra, porque achava que Hanni podia não saber aquele sinal. Foi assim que Hanni terminou chorando copiosamente, abraçada em sua menina.


O que aqueles dedinhos haviam sinalizado letra por letra foi:


“Eu amo você.”


E assim, na manhã seguinte, quando Presley acordou sobressaltada, achando que estava atrasada de novo, se percebeu sozinha na cama. Levantou-se o mais rápido que sua barriga permitia e, ao sair do quarto e olhar para o andar de baixo, encontrou sua noiva dormindo no sofá, agarrada em sua menina.

Hanni estava totalmente agarrada em Aika, a mantendo entre os seus braços como quem segura um bichinho de pelúcia, as duas dividindo a mesma coberta, as respirações calmas e lineares. Veio para pertinho delas e olhou aquela cena um pouco mais. Aika não estava dormindo muito bem naqueles dias. A encontrou fora da cama algumas vezes e só não encontrou mais porque andava mesmo dormindo muito. E quando despertava assustada desses sonos mais profundos, sua menina já estava de pé, preparando café da manhã para as duas. Estava rebelde? Sim, estava, mas não deixava de ajudar em nada do que precisasse. E quando ela aparecia com o café da manhã improvisado no quarto, chorava em descontrole, parte por culpa, por não estar conseguindo dar conta dela sozinha e parte por orgulho, porque sua menina estava crescendo. Uma criança sensível, delicada e funcional, que podia dar conta não apenas de si mesma, mas também de Presley.


Estava difícil, mas ela seria uma ótima irmã mais velha, Hanni tinha toda razão. E quando sua noiva acordou com o cheirinho de café sendo preparado, acabou chorando novamente ao contar para Presley o que havia acontecido durante a noite.


— E você chorou assim...? — Presley estava rindo demais.

— Devo ter chorado ainda mais. Ela disse que... a gente só chora — Comentou, rindo no meio do choro.

— Ela não tem paciência pra gente!

— Nenhuma! Ela estava incomodada com isso, sobre o bebê.

— A reafirmação de que é seu filho, a gente deve estar falando assim sem perceber. Mas ela é sua filha, é o amor da sua vida. Eu já até me conformei com isso, não tem concorrência — Disse, mexendo a omelete que estava fazendo.

— Sinto que ela foi minha filha de outras vidas, eu nunca conseguirei explicar isso, babe.

— O amor não se força e nem se explica, honi.


Era bem assim que era.


Sim, dois dias depois, elas estavam devidamente casadas.


Hanni em seu vestidinho YSL de princesa moderna, não branco, mas champagne, levemente esvoaçante. Os cabelos trançados, um sorriso que não saía daquele rosto ao ver sua esposinha de Balmain, toda de branco, o vestido mais curto, com um terninho italiano por cima, os cabelos presos num coque baixo, elegante, os olhos brilhando que não cabiam em si. Poucas pessoas no cartório, Aliana e Kaori como testemunhas, os pais de Presley presentes, Sabina e Bogum também. Haviam trazido os gêmeos para fazer companhia para Aika, que estava a coisa mais linda do mundo: toda de jeans, jaqueta muito estilosa, cabelos trançados, os tênis nos pés. Hanni trouxe tudo de Paris e ela contava isso para toda pessoa que tinha oportunidade.


E tudo parecia absurdamente IRREAL. Hanni se casando? Irreal. Com a garota casada que ela havia levado para a aula de jiu-jitsu? Irreal. Elas estavam esperando outro bebê? Aham, tudo irreal, o que apenas deixava tudo mais bonito ainda. A cerimônia foi rápida, elas queriam que fosse rápida, prometeram aos pais de Hanni que dariam uma festa decente quando o bebê nascesse, mas que a prioridade seria mesmo o casamento e eles entenderam. Era importante também que Min-ho nascesse com elas já casadas. Isso simplificaria os trâmites que teriam pela frente, desde coisas triviais como Hanni poder acompanhar Presley no hospital até as mais complexas, como a licença maternidade que ela poderia ter em seus contratos. Então, o casamento foi priorizado. O juiz de paz perguntou o que todos já tinham certeza da resposta: era vontade de ambas estarem ali? As duas desejavam o casamento? Porque não era muito comum uma noiva que tinha uma noiva surgir grávida no cartório, ele disse, as fazendo rir.


— Somos um poema acróstico, senhor juiz — Presley explicou.

— Podem e devem ser lidas em diversas direções, compreendi — Ele estava sorrindo também — Sendo de vontade de ambas as Park aqui presentes, eu declaro Presley Park e Hanni Manu Park oficialmente casadas. Beijo liberado. Acho que nunca casei um casal tão bonito antes, vocês estão no top do ranking!


Elas riram antes do beijo, devidamente registrado, porque estavam de fato ambas lindas demais, brilhando de tão bonitas, olhos brilhando, sorriso brilhando, felicidade que dava facilmente para ver. Muitos aplausos porque o face card couple estava finalmente se casando! “Finalmente”, porque elas sempre pareceram um casamento desde o começo. Mas agora era oficial, estavam morando juntas, estavam atreladas uma à outra numa união devidamente reconhecida, estavam absurdamente felizes de se terem. Pararam na praia delas a caminho de casa, tinham uma fotógrafa contratada, fizeram algumas fotos juntas, com Aika, pegando o dia bonito que estava fazendo, toda aquela luz natural na praia que elas gostavam de acampar para cafés da manhã. Irreal. Surreal. O jeito que Park Manu era capaz de amar Presley Park era surreal de tão bonito.


E era amada daquele exato jeitinho de volta.


Sim, claro que tinham uma festa quando chegaram em casa.


Muitos amigos, ótima comida, música rolando, presentes! Estavam ganhando muitos presentes e, após o buffet já estar sendo servido e alguns discursos feitos, com uma hora de atraso, Leo apareceu. Sozinho, mas teve a companhia de sua filha imediatamente. Aika veio para perto dele, como se sentisse que ele precisasse de companhia. Ele foi gentil, trouxe presentes para ambas, mas seguia abalado com o término de namoro. Ou com o casamento em si. Estava confuso. Bem, pegou uns docinhos e se recostou em uma das mesas para comer. Aika já estava correndo com os amiguinhos e, uma presença encostou do seu lado:


— É esquisito, né? — Ela perguntou.


Ele deu uma olhadinha para o lado. Que gata! Tipo, UAU!


— O que... é esquisito? — Deve ter gaguejado um pouco. A conhecia? Tinha quase certeza de que sim.

— Ver sua ex se casando com outra. Eu totalmente já superei a Manu, mas vê-la casando me deu um negócio.

— Você é ex-namorada dela?

— Alexia, prazer em te conhecer — Tocou a mão dele, cumprimentando-o.

— A gente... se segue no Instagram — De repente, se deu conta.

— Nos seguimos, Leo Harris. Inclusive, sempre te achei um gostoso.


E Aliana teve certeza de que seu irmão iria desmaiar. Daí, foi ajudar.


— Ele te acha uma gostosa também, tá? Só deu uma travada agora porque você é muito direta e ele é muito coreano ainda, ele acha que não é, mas é sim.

— É... isso aconteceu — Ele disse, tentando sair do torpor que tinha entrado — Mas é... Você é linda, eu fiquei nervoso.


Lia sempre dizia que seu irmão havia conseguido Presley parcelando em 10x no face card que ele tinha, porque nas primeiras interações com ela, Leo sofreu aquele mesmo nível de travamento, o que dizia que isso podia ser um sinal positivo. Talvez um furacão como Alexia fosse o que ele precisasse para se ajustar na vida de vez. Presley riu por uma hora inteira quando, depois da festa, ouviu essa história de Kaori e Aliana.


— Mas tipo, ela o levou pra casa?

— Neste exato momento, seu ex-marido está do outro lado da rua com a sua vizinha, ex da sua esposa.

— Gente...! — Estava sorrindo, não conseguia parar — Imagina se isso dá certo?


Hanni riu duas horas após ouvir essa mesma história, agora que já estavam na cama as duas, a noite de núpcias devidamente cumprida porque, ao irem pra casa, Kaori e Aliana levaram Aika para passar a noite. Se só teriam lua de mel em dois anos, teriam ao menos uma noite inteira só para elas.


— É que a Alexia é uma escola de samba, sabe? E o Leo é muito certinho.

— Mas acho que ele precisa justamente disso, uma mulher que o empurre para a frente, ou ele fica paradão a maior parte do tempo — Presley explicou, completamente nua nos braços de sua esposa. As duas suadas, os cabelos molhados, os sorrisos que não se fechavam, o prazer ainda correndo pela pele — Honi, o tanto de coisas que mudou em tão pouco tempo...

— É insano pensar nisso tudo pela ótica do tempo. Ele passou de forma diferente para nós — Disse, beijando a testa dela.

— Nós sempre faremos mais sentido de trás para frente, e estou feliz por não termos desistido de nada, por nem sequer termos pensado em desistir.

— Você é o meu amor, Pres. É a minha alma gêmea. Só estava perdida de mim.


Era toda a verdade. E o tempo passou diferente para as duas mais uma vez.


Muita coisa aconteceu em dois meses. Presley se formou em Design, com direito a festa de formatura e tudo; Hanni teve que viajar ainda mais duas vezes para a Europa e mais algumas pela Oceania; o ritmo de trabalho das duas ficou insano. Sim, o comportamento de Aika melhorou muito depois da conversa com Hanni. Até com Leo, ela estava se comportando melhor. A criança ficou mais receptiva a sair com ele novamente, uma vez que, com Alexia, as coisas eram muito mais divertidas. Sim, eles seguiam juntos depois daquela primeira noite, o que era ótimo para Leo, que estava devidamente apaixonado, e um bônus para Aika, que ganhou alguém para jogar futebol com ela, para assistir Pokémon junto. Era bom para todo mundo, inclusive para Presley, que realmente precisou de mais ajuda nas ausências de Hanni.


Não era fácil ficar sem ela. Mas era um mal necessário porque elas precisavam realmente de dinheiro. Hanni havia gastado na casa, na reforma, teve que abrir mão de alguns recursos pelo caminho; a YSL exigia uma certa exclusividade, ocupava boa parte do seu tempo. Presley ficaria ao menos seis meses sem trabalhar e ser modelo era algo caro, chegava a assustá-la em alguns momentos o tanto que Hanni gastava com a própria profissão. Ela também ficaria sem trabalhar direito, ao menos por dois meses. Havia conseguido essa licença, mas isso também significava bem menos dinheiro. Então, Presley deixava sua esposa viajar. Não era à toa, era por elas.


— Presley, você fica tranquila com ela...? — Aliana perguntou naquela noite, Hanni estava em Milão, para a semana de moda.

— Tranquila, você acredita? Agora sei que nada pode tirá-la de mim — Respondeu sorrindo, muito, mas muito grávida. Estava, inclusive, se movendo devagar, porque andava particularmente difícil naquela semana — Mesmo eu estando imensa.

— Para! Você não está imensa — Aliana respondeu sorrindo, estavam bebendo um chá na cozinha.

— Eu não consegui nem colocar os meus sapatos de senhora hoje, a Aika teve que calçar para mim. Lia, estou sentindo que ele vem antes.

— Antes, você diz...?

— Antes, tipo, duas semanas antes.

— Mas estamos duas semanas antes já.

— Por isso, pedi para você vir dormir aqui hoje. O Leo está na Austrália, a Hanni na Itália.

— Daí, sobra para a terceira opção. Como pode o meu relacionamento com você ser tão injusto pra mim?

— Lia!

— Ninguém quer ver a melhor amiga parindo, Presley, eu já tive que ver uma vez.

— Porque seu irmão desmaiou — Sempre iria rir daquilo.

— Então! Você cuida de segurar esse menino aí até a mãe dele chegar, e... — Aika estava sinalizando e sinalizando — Sim, Taz-mania, é sua mãe também.


“Porque você esquece.”


— Mas essa garota...! — Aliana não acreditava em Aika de vez em quando, e Presley estava rindo.

— A culpa é sua. A minha filha estava toda revoltada achando que só tinha uma mãe, que o bebê era o único herdeiro — E de repente, fechou os olhos, respirando muito fundo.

— Pres...?

— Uma contração, espera — Segurou no balcão, Lia veio para perto, a manteve nos seus braços, e Aika chegou nelas imediatamente, sinalizando.


“É o bebê, ele está se movendo muito.”


— Isso, meu amor, ele está se movendo — Lia respondeu.


“Você tem que ligar pra Hanni.”


— Mas ela está muito longe, está trabalhando.


“Ela disse que tem que ligar se o bebê se mover muito.”


— Lia, eu acho que... você tem que ligar para Hanni mesmo — Presley estava ofegante.

— Espera, vamos só... no hospital, qualquer coisa, você liga para ela.


Mas Aliana teve uma intuição de ligar para Hanni antes de saírem.


— Eu não faço ideia do que você pode fazer com essa informação estando do outro lado do mundo, mas achei melhor te dizer. A Aika disse para eu te ligar.

— Ela está certa. Obrigada por ligar, Lia. Cuida delas, por favor, eu já chego.

— Mas como...?

— Eu já chego, prometo.


Foram para o hospital. Presley seguia com as contrações; na verdade, estava sentindo desde o dia anterior, mas estavam distantes uma da outra, então não devia ser nada de mais. Mas agora sentiu que era algo mais. Não foi apenas a contração; foi uma intuição também. Aika tinha se adiantado uma semana, por que Min-ho não se adiantaria duas? Então, arrumou algumas coisas em casa e foi para o hospital. Passou por alguns exames, e Nana achou melhor mantê-la internada.


— Você acha que...?

— Acho que sim, Presley. Onde está a Hanni?

— Em... Milão

— Na verdade, já está voando — Aliana informou.

— Como...?

— Falei com ela de casa, agora ela me mandou mensagem, já está embarcando, vem pra casa mais cedo.

— Ela... — Os olhos de Presley se encheram — Amo tanto a minha esposa, Lia, ela é tão maravilhosa.

— Eu sei. Falei com o Leo também e ele só mandou um "vai me informando" — Estava rindo disso até aquele momento — Amanhã, neste horário, ela já vai estar aqui.


Então, Presley falou com seu menino:


— Será que você pode esperar sua mãe chegar, filho?


E seu celular deu sinal.


"Babe, eu estou indo, ok? Eu amo você. Lembra que amo, não importa a circunstância. Estou ansiosa e feliz! Mesmo que ainda não seja a hora, prefiro estar com você. Já tinha falado com a minha agente sobre isso. Hoje, eu tive uma intuição. Arrumei minhas malas, olhei os voos. Deixei um reservado para cada dia até o meu retorno e veja só, eu precisei mesmo. Deixa a Aika com a Kaori, ela deve ser um tipo que desmaia em partos, melhor a Aliana ficar com você. Te amo, te amo! Já chego. Te amo!"


Presley chorou igual a uma criança por sentir tanto, mas tanto amor envolvido.


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3 comentários


Silvia
Silvia
07 de mai. de 2024

A Manu tem a mesma capacidade de amar da Havana e isso me encanta!!!

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sylber1011
sylber1011
06 de mai. de 2024

❤️

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Adriana Evangelista
Adriana Evangelista
03 de mai. de 2024

ah gente que lindas! Essa Aika da para pegar pra gente? Amor demais!😍

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