Acróstico 48
- Riesa Editora

- 6 de mai. de 2024
- 19 min de leitura
Atualizado: 26 de jun. de 2025

Aika e Min-ho
Ligaram para Kaori; ela veio buscar Aika. Ficaria com ela, e Aliana ficaria com sua melhor amiga, deitadinha perto dela, mantendo-a calma. Já tinham feito aquilo antes, podiam fazer novamente. Dormiram muito pouco; as contrações estavam agitadas. Era necessário cuidado, controle. Presley estava sentindo dor e acompanhando a viagem de sua esposa, que não parava de mandar mensagens. Pegou internet em todos os voos; queria estar perto dela de alguma forma. Estava sendo a idiota que Presley amava, dizendo um monte de bobagens enquanto a distraía das dores do parto. A cada duas horas, ela era examinada e, sim, estava mesmo em trabalho de parto. Ainda conseguiu comer um pouco pela manhã, mas à tarde ficou impossível.
Tudo incomodava: estava quente, agoniada, o bebê estava agitado, as dores estavam aumentando, e Presley se agarrou em Lia e não soltou mais.
— Estou aqui com você. Sua esposa está chegando. Vamos fazer isso juntas, ok?
— Minha filha está bem?
— Está. Kaori a levou para o trabalho para ela se distrair. Disse que está animada porque finalmente vai ver o bebê — Contou sorrindo.
— Algo que ela diria com toda certeza. Lia... — Agarrou a blusa dela, a puxando para perto.
— Está tudo bem, ok?
— Onde está a Hanni agora?
— Agora? Já saiu de Singapura, faz umas duas horas.
Deviam faltar umas seis horas para ela chegar. E as contrações acalmaram de novo. Presley conseguiu dormir um pouco, mas acordou com Min-ho...
Empurrando Aliana. Ela estava deitada ao seu lado e dava para sentir, literalmente, dava mesmo.
— Ok, acho que é agora — Nana informou.
— E onde está a Hanni?
Estava chegando no aeroporto naquele exato momento.
— Corre, corre, corre! — Estava passando em altíssima velocidade pelos saguões do aeroporto. Havia solicitado ajuda para resgatar suas malas ainda no voo, informou a urgência e assim que desceu, lá estavam elas. Resgatou suas malas da esteira, as colocou no carrinho e continuou a correr.
Correu para fora, empurrando aquele carrinho pesadíssimo. Ainda bem que treinava duro. Achou o Kicks laranja que a esperava, colocou as malas no porta-malas e entrou rapidamente. Aika gesticulou:
"O bebê está chegando também!" E ela estava animada com isso no banco de trás.
— Não é maravilhoso, bebê? Ele podia só... ter combinado comigo — Deixou um beijinho na mão de sua menina — Tay, ela está bem?
— Está. A médica disse que tudo está bem. Ela só quer a esposa. Hanni, tem certeza de que não vai desmaiar? — Perguntou quando já estava dirigindo.
— Eu não vou desmaiar!
— Mas já está meio branca — Kaori estava se divertindo.
— Vim correndo, garota! Mas não vou desmaiar.
— O Leo desmaiou, sabia?
— Pois eu não vou!
Entrou no hospital achando que ia desmaiar.
E Nana riu horas disso.
— Ok, onde você estava exatamente...?
— Na inauguração de uma YSL em Milão. Você quer não me julgar? — Tinha isso. Hanni havia chegado à Nova Zelândia com seu vestidinho de festa, salto e casaco. Não havia dado tempo nem de se trocar, o que deixava a cena de uma modelo correndo pelo aeroporto ainda mais entretenimento. Tinha certeza de que alguém a filmou. OK! Agora estava se trocando, colocando a roupa necessária para entrar na sala de parto.
— Manu, você ama demais aquela garota, definitivamente.
— Eu amo, e agora a gente vai ter outro bebê — Disse, e os olhos enchiam naturalmente — Eu não acredito que você me fez tomar banho.
— Claro que sim. Você voou por horas, estava numa festa. Pronto, agora podemos ir. A equipe disse que o parto está próximo. Não desmaie, ok?
— Eu já disse que não vou desmaiar!
Finalmente, entrou naquela sala de parto e correu para sua esposa imediatamente.
— Babe, ei… — A beijou delicadamente — Cheguei, desculpa a demora.
— Você veio de Milão — Presley se agarrou nela.
— Disseram que ela chegou de vestido de festa e tudo, Pres — Lia estava se divertindo.
— Mentira! — Presley riu, mesmo com dor.
— Eu cheguei, me fizeram tomar banho ainda, mas vim o mais rápido que pude, babe.
— E... foi suficiente, num limite inacreditável.
Havia sido porque foi Hanni entrar naquela sala e as contrações enlouquecerem. E, sendo assim, não levou quarenta minutos entre Manu chegar, beijar sua esposa e ter seu menino nos braços.
E não, ela não desmaiou. Segurou firme, agarrada na mão de sua Presley, que era pequena, mas era forte, era valente, fazia o que tinha que fazer, ignorando a dor, enfrentando o que tinha que enfrentar. Menos de uma hora depois, lá estava o choro do menino delas, grande, agitado, que veio imediatamente para o peito de Presley e para as mãos de Manu, que ficou sem ar. Quando olhou para ele, só... ficou sem ar, de mãos trêmulas, chorando sem conseguir controlar. Ele era tão delicado, tão bonito, o choro enchendo aquele quarto, e era um face cardizinho, ainda todo amassado, mas claramente parecido com Aika.
E parecido com... Hanni. Trocou um olhar com Presley, trocaram um beijo, trocaram amor, bem ali, naquela sala fria, com um novo pedacinho de vida existindo entre elas.
Ainda não dava para acreditar que estava com ele nos braços, tão pouco tempo após ter chegado. Presley estava apagada, dormindo, mas Min-ho estava acordado e já tinha feito Hanni se virar na primeira troca de fraldas. Ok, tinha Lia consigo, outra que sempre sabia o que fazer em qualquer situação, e Hanni estava tão grata por ela existir que disse que a amava no meio da troca de fraldas, o que a fez rir demais.
— Eu também te amo, sua idiota.
— Obrigada — Disse, entre as lágrimas — Por me amar, mesmo eu sendo idiota, mesmo eu perturbando a sua vida todo santo dia...!
— Você não vai mais ter tempo para isso, infelizmente. Vou até sentir falta. Vem cá, Manu, lembro que tem que cuidar das dobrinhas — O bebê estava agitado, chutando, se movendo, cheio de energia.
— Lembro dessa parte também e tem que...
— Segurá-lo assim para conseguir encaixar a fralda.
Venceram a primeira troca de fraldas e agora Hanni estava com ele nos braços, aquele pedacinho de criatura que havia nascido com três quilos e pouquinho, mas que, de alguma maneira, estava pesando em seus braços, a ponto de arder o meio de suas costas. Lia voltou para o quarto, com um pacote em mãos.
— Dói as costas, não é?
— Muito! Como pode doer tanto assim?
— É uma mágica dos bebês, também não entendo. Me dá ele aqui, senta pra jantar, aproveita que isso vai ser raro nos próximos dois meses.
Passou o seu bebê para os braços de Lia, mas os olhos seguiam presos em cada pedacinho dele.
— Ele é lindo, não é? — Hanni não conseguia parar de admirar.
— Lindo! Igual a Aika quando era bebezinha assim. Ela nasceu o bebê mais lindo do mundo, Hanni, você tinha que ver. As fotos não fazem jus ao quanto ela era bonita desde sempre.
— Ela é como eu, bonita a vida toda.
— Você deixa de ser idiota ao menos aqui! — Lia a repreendeu rindo, mas a idiota estava rindo também. Hanni estava virada há quase quarenta horas, mas nada parecia abalá-la. Ela estava simplesmente feliz e a felicidade é combustível para todas as coisas.
— Eu deixo, prometo que deixo. Lia, a Aika está bem?
— Está bem, mas quis ir pra casa dormir. Disse que amanhã vê o bebê. Ela disse que teve um dia longo — Contou sorrindo.
— Ah, eu imagino o dia longo da minha filha! Lia, isso... é inacreditável. Como...? Sabe? — Os olhos brilhando, os dedos acariciando os cabelos escuros do bebê.
— Eu sei. Você não o ama, de todo o seu coração, tudo subitamente?
— Sim — Perdeu uma lágrima sorrindo — E há um ano e meio, eu não tinha nada.
— Pois bem, agora você tem tudo isso.
Aquela primeira noite foi... mágica. Hanni disse que Lia podia ir pra casa, ela tinha que descansar, mal havia dormido na noite anterior, podia cuidar de Presley e do bebê agora. E foi uma noite muito diferente mesmo. Presley acordou para dar de mamar e só de ver sua esposa grudadinha do seu lado, a observando dormir como se...
— Eu fosse a coisa mais bonita desse mundo — Disse sorrindo, depois que já estava dando de mamar.
— Mas você é — Ela respondeu, os olhos brilhando, o sorriso aberto — É a mãe dos meus filhos, é a mulher mais linda desse mundo — A beijou, na boca, na testa, mantendo-se muito pertinho dos dois — Babe, ele é lindo demais — Disse, fazendo outro carinho nele.
— Ele é... uma cópia da Aika. Ou seja, outra cópia sua. Lembra que te falei na morfológica? Vi as semelhanças imediatamente.
— Isso é... tão diferente — Sorriu, movendo o nariz, fazendo uma careta.
— De repente, somos quatro agora — Presley não conseguia parar de sorrir também e o jeito que ela olhava para aquele bebezinho... era apenas amor. As duas eram apenas amor ali naquele quarto — Aika já viu o irmãozinho?
— Não, ela disse que... teve um dia longo e queria ir pra casa dormir.
— Essa sua filha, Park Manu...!
— Eu sei, a personalidade grita!
— Honi, onde que... Estamos só nós duas aqui?
— Eu disse para Lia ir dormir em casa, babe.
— Mas você pegou um voo tão longo, a minha mãe pode vir também, ela disse que viria se a gente precisasse.
— Então, acho que não precisamos. Você e eu, huh?!
Os olhos de Presley brilharam demais.
— Você e eu, meu amor. Sempre, você e eu.
Dormiram agarradinhas pelas duas horas que o bebê permitia e acordaram juntas em todas as horas de mamar. Era Presley quem podia executar a tarefa? Sim, mas Hanni estaria com ela todo o tempo que pudesse. Se há algo do qual nunca ninguém se arrepende, é de passar tempo com quem se ama. E a amava muito. Amava aquele bebezinho. Amava sua filha. Deus, a amava muito! Quando ela correu para os seus braços na manhã do dia seguinte, era claro e palpável. Amava aquela menina com cada bom sentimento que podia existir dentro de si.
— Pronta para conhecer o seu irmãozinho?
“Pronta! Papai pediu para ligar, por vídeo.”
— Ah, vamos ligar para o papai sim.
“Mamãe está bem? Um bebê dá trabalho.”
Ela parecia focada no trabalho que bebês dão.
— Mamãe está bem, ela quer ver você — Hanni sinalizou.
“Está bem!”
E com uma Aika Park mais do que saltitante, Hanni a levou para conhecer o irmãozinho. Ela ficou feliz assim que olhou para ele, pulando de um pezinho para o outro, dizendo que “finalmente, dá pra ver, dá pra ver!”. Então, beijou Presley, subindo na cama com ela, para ver o bebê mais de perto. “Ele é bonito! Igual a mim...”
— Como essa menina não seria sua filha, Manu, sinceramente?! — Kaori estava rindo demais.
— Ela COMPREENDE a própria beleza — Hanni estava rindo também, chegou mais pertinho, sinalizou para Aika — Ele é bonito igual a você, filha.
“Pode ser modelo depois.” Ela sinalizou, fazendo o primeiro carinho nele, que agarrou o dedinho dela com a mãozinha inteira.
— Uh! — Ela vocalizou, absolutamente surpresa.
— Ele sabe quem você é, está vendo? — Presley estava com os olhos cheios vendo aquela interação.
“Mamãe, ele vai aprender NZSL?” Ela perguntou, e Presley começou a chorar. Estava sensível ainda, aquela era uma pergunta extremamente sensível. Olhou para Hanni; ela estava com os olhos cheios também.
— Ele vai, sim, filha.
— Ele vai ser poliglota igual à mamãe, igual a você, meu amor — Hanni fez um carinho nela, e ela sinalizou para o bebê:
“Você vai pra casa. Tem um quarto pra você. E vai ser bom.”
Iriam todos para casa em breve e seria bom, sim.
Ok, o que nem de longe queria dizer que seria fácil.
Três dias depois, estavam em casa, incluindo Leo. Ele já tinha voltado e chorou como uma criança quando conheceu o filho. Era parecido com Aika; ele não parava de repetir para Presley enquanto o segurava. Observando toda aquela interação com Aika no colo, Hanni entendeu um pouco melhor a dimensão daquele ex-jovem casal que teve que passar por muita dor com a primeira filha. Leo ainda tinha marcas; Presley também. Min-ho ser um bebê saudável não trazia a calma que deveria trazer, porque Aika havia nascido exatamente assim. Era irracional? Era. Mas era compreensível quando a própria Hanni havia sofrido tanto com um fantasma do passado.
Eles estavam felizes, claro que estavam, mas havia aquele medo, escondido no fundo da alma, de que algo parecido com o que aconteceu com Aika pudesse ocorrer.
Porém, olhar para Aika era o melhor alento também. Ela estava grandinha, saudável, altamente funcional. A maioria dos medos que Presley e Leo tinham em relação a ela, depois do diagnóstico de surdez, acabaram por não se concretizar. Aika era sociável, independente, aprendia com uma enorme facilidade, fazia amigos como todo mundo ou até melhor que a maioria. A leitura labial dela era perfeita, ela podia escrever – sem falhas – em dois idiomas e estava aprendendo português com Hanni. Era tão fluente em NZSL que ensinava tranquilamente também; Alexia já se comunicava com ela por língua de sinais sem ajuda nenhuma, aprendendo apenas com a própria Aika. Ela era forte e sabia se defender. E sim, ela seria uma irmã mais velha incrível. O que Hanni e Presley não esperavam é que ela fosse se tornar uma filha mais velha tão perfeita.
Ok, era impossível dormir no primeiro mês.
Presley havia alertado Hanni sobre isso, mas ela não achou que seria tão literal assim. E sim, ainda bem que havia pegado a licença maternidade nos seus contratos porque era totalmente impossível trabalhar daquele jeito. Elas só não perdiam totalmente a noção do tempo e da realidade porque tinham Aika para dar conta, uma menina cheia de compromissos por falar nisso. Tinha escola, jiu-jitsu, trabalhos para gravar, dever de casa, refeições que precisavam ser feitas na hora certa e, se não fosse isso, Hanni e Presley, com toda certeza, esqueceriam de comer. Era muita coisa mesmo. Min-ho era um bebê que chorava bastante, que gostava de colo. Presley culpava Hanni e Leo por isso; seu menino simplesmente recusava a cama, e a culpa devia ser dos dois, que não permitiam que ele ficasse sozinho nem um instante. Então, os culpava, mas nem conseguia ficar brava de verdade.
Era lindo ver Min-ho nos braços de Hanni, era lindo observar como ela o olhava com tanto amor, como se ele fosse o centro do seu universo. Uma devoção transbordava dos olhos de sua esposa, a mesma devoção com a qual ela olhava para Aika e que, agora, direcionava ao seu menino também. Leo estava presente da melhor forma possível; vinha ver os filhos todos os dias depois do trabalho, passava tempo com eles, preparava o jantar e até expressava desejo de fazer mais. No entanto, ele tinha o cuidado de não invadir a privacidade de Presley e Hanni. Sabia que Presley preferia a companhia de Hanni durante as noites, mesmo que isso fosse um fardo para ambas; mas era uma intimidade que só elas compartilhavam, e Hanni não desejava outra pessoa. Ela havia afirmado que fariam tudo juntas, e assim faziam, enfrentando todas as situações que surgiam. Era comum acabarem adormecendo em lugares inusitados de vez em quando, mas não era grave; era algo que poderia ser melhorado com o tempo.
— Honi, como você conseguia fazer isso sozinha? — Hanni perguntou numa noite, caminhava pelo quarto com Min-ho nos braços, enquanto Presley tomava banho. Ela riu alto.
— Eu não faço ideia, mas lembro que era uma restrição absurda dos meus direitos básicos. Havia dias em que não comia, não dormia, não tomava banho; a Lia estava se formando, o Leo trabalhava muito, minha mãe vinha, mas era pouco, pois ela também trabalhava. Mas a Aika era uma criança tranquila, sabe? Ela me ajudava.
— Ela continua nos ajudando, está preparando a mesa para o jantar agora mesmo.
— E não tem dado trabalho, não é? Ela está calma, e o que ela pode fazer, faz sozinha, apesar de você estar por perto o tempo todo.
— Você também está, babe, estamos fazendo um bom trabalho.
Estavam. E Aika estava fazendo um ótimo trabalho com Min-ho também.
Foi um presente assistir ao jeito como ela lidava com ele.
Sim, Aika não ouvia e o bebê, naqueles primeiros meses, não enxergava propriamente. Então, como eles podiam se entender? Pois eles se entendiam. Aika descobriu uma espécie de linguagem de toque com Minho (Hanni apenas juntava os dois nomes quando o chamava carinhosamente e também o chamava muito em português), e ele, de alguma forma, apenas compreendia e se acalmava com a irmã. Quando Minho estava chorando muito, Aika deitava com ele e os dedinhos tapavam o esterno dele com muita delicadeza e, de repente, o choro apenas parava. Ela também pedia para Hanni tocar o violão, ia para frente dela, trazia o bebê no seu colinho. Hanni que se virasse para tocar assim, com os dois na sua frente, mas ela tocava, e era a coisa mais linda da vida.
Ao final do primeiro mês, Presley já cantava “O Leãozinho” perfeitamente em português, porque quando tudo estava para desabar dentro daquela casa, era o que Hanni fazia. Violão, suas duas crianças, tudo acalmava. Porém, Minho realmente não gostava da cama e foi Aika quem ajudou a resolver. Ela ainda cabia no berço junto com ele e quando queriam que ele dormisse lá, ela subia, o abraçava, os dedinhos fazendo carinho no peito dele, ele se sentia seguro e dormia. Mas existiam dias em que nada o acalmava, principalmente durante as noites e deve ter sido no finalzinho do segundo mês que, depois de uma noite muito longa, Hanni e Presley foram acordadas com café na cama.
Suquinho, pão com manteiga, leite, cereal e ovos? Como...?
— Filha, como você fez ovos fritos? — Presley perguntou após chorar dez minutos seguidos.
“Papai me ensinou, pode fazer no micro-ondas. Ele...” Ela mordeu um dos pãezinhos, havia trazido tudo em uma sacola de compras, o ovo perfeitamente fechado num potinho, e depois arrumou tudo na mesinha de estudos de Presley, que montava e desmontava em cima da cama. “Fazendo o café, disse que vai ficar pronto logo.”
— Papai está lá embaixo, filha? — Hanni perguntou, os olhos cheios também porque havia sido lindo vê-la trazendo o café para elas daquela forma.
“Liguei, papai. Ele... casa, Alexia. Vocês cansadas. Um bebê, muito trabalho.”
Ela fazia chamadas de vídeo para o pai, que agora, já a entendia muito melhor por NZSL. E realmente, Leo estava fazendo o café da manhã. Era um sábado, ele estava todo engravatado, preparando coisas que estavam cheirando bem demais.
— Quando o bebê não estiver apenas mamando, vamos poder fazer mais coisas com ele, poderei passar mais tempo com eles dois, nossos pais vão ajudar também, Kaori, Lia, todo mundo. Agora, ele ainda precisa muito da Presley, mas depois, vai ficar mais fácil, Manu — Leo disse, após deixar a mesa do café pronta para elas.
Ficou imensamente grata por Aika existir. E por Leo estar melhorando.
Então, Hanni teve que voltar a trabalhar no terceiro mês, e Presley achou que fosse enlouquecer. Sim, ela tinha apoio, tinha ajuda, mas nunca havia parado para pensar na ideia MALUCA que era ter um bebê de três meses e uma criança de quatro anos na mesma casa quando se está sozinha. Aika era... Aika. Era a Taz-mania, o Furacão Katrina, era La Niña, e o fato de ela não ter mudado era um sinal de que a introdução de um novo bebê não havia sido traumática. Mas tinha dias que, sinceramente!
Era Aika correndo pela casa, Minho chorando, e Blackstenius, que em algum momento tinha sentido que aquela casa era dela também. Era o almoço, a casa e A FACULDADE. Não havia trancado a faculdade; seguia estudando, ou fingindo que estava estudando - quem saberia? E sua esposa trabalhando feito louca para cobrir as contas que não paravam de chegar. Sim, Leo oferecia ajuda além da pensão, mas elas não aceitavam, porque tinham ciência de que eram meio caras, elas duas. E Hanni se virava para dar suas aulas, fazer seus ensaios, para levar Aika nos compromissos dela, e sempre, a qualquer mínimo sinal de folga, corria pra casa, onde imediatamente um bebê era arremessado no seu colo junto com a mãe.
— Honi, eu vou ficar doida — Presley disse, de moletom e camiseta, cabelos presos num coque alto, totalmente destruída pelo dia.
E Hanni a puxou para o seu colo, a aula rolando no MacBook, seu menino todo agitado no seu colo, rindo de qualquer coisa porque, de alguma maneira, Minho era um tipo que ria de tudo, igual à mãe brasileira.
— Não vai não, meu amor, eu cheguei — Hanni respondeu sorrindo, mexendo nos cabelos dela.
— E amanhã, quando eu estiver ficando doida de novo?
— Eu vou chegar de novo, babe.
— Hum! Cadê a nossa filha?
— No jiu-jitsu, eu vou buscá-la daqui a pouco — Se curvou, a cheirando um pouquinho porque ficava longe e voltava louca de saudade da sua esposinha.
— E você tem que treinar também, honi, você é modelo.
Hanni riu.
— Eu já treinei, meu amor, hoje à tarde fui treinar. E quando o bebê precisar menos de você, você também vai treinar, ou fazer qualquer coisa que você queira fora desta casa que... Babe, é a Blackstenius? — Hanni apertou os olhos e viu algo se movendo no canto da sala.
— É, é que... fiquei muito nervosa e ela chegou aqui, daí me acalmei.
— Uh! Ok, é disso que esse menino está rindo.
— É, ela... — Presley se sentou, se acalmando — Faz nosso menino rir, sabe.
— Achei que era aleatório. Esse garoto é todo aleatório — Hanni o ergueu diante dos seus olhos, cheirando a barriguinha dele, o fazendo rir — Eu te amo, filho, eu te amo! E vamos buscar a sua irmã daqui a pouco, pra sua mãe assistir à aula.
— Babe, você está toda gostosa e eu estou assim, ele acabou de golfar em mim, inclusive — Disse, fazendo sua esposa rir demais. Hanni estava de vestidinho, saltos, cabelos presos num coque baixo, toda maquiada.
— É que saí rápido para dar tempo de pegar a Aika, honi.
— E eu sigo golfada e com olheiras.
— E segue linda, babe, a mulher mais linda do mundo, que faz amor comigo, que promete me fazer outro filho.
— Quando este crescer, eu prometo, daqui a... uns cinco anos a gente faz outro, amor.
Dali a cinco anos, parecia um bom tempo também, porque de alguma maneira, Hanni apenas sabia que estariam juntinhas, no mesmo lugar ao qual se pertenciam, que era uma à outra.
Tudo o que você deseja está do outro lado da fronteira do medo.
E todos os dias, Presley se agradecia por ter ultrapassado tal fronteira.
Auckland, dois anos depois.
“Dias que começam assim 💓☕️🧇.” 13°C, 7:39AM. Foto postada por yourhanni.
E agora, dentro da barraca de Hanni, Aika e Presley, tinha um gatinho!
Hanni e Aika passaram correndo, pegando as pranchas do lado de fora, as duas de long john, animadas demais porque o mar estava azul e cheio de ondinhas. Agora, Aika já tinha a própria prancha, remava sozinha; estava com seis anos e meio, e era insano o quanto o tempo podia passar rápido. Presley olhou as duas entrando no mar e, seu gatinho, querendo escapar!
O segurou, puxando-o para o seu colo, enchendo seu menino de beijinhos porque ele seguia a coisa mais linda da vida, um face cardizinho que era a cara de Hanni, o cabelo cortado igual do papai, mas aquela cara linda era toda da outra mãe. Aliás, Hanni o vestiu por inteiro, a minicalça de moletom, o suéter por dentro, a jaquetinha North Face; o bebê mais lindo do mundo, muito provavelmente.
— Para onde você pensa que vai, hein?
Ele riu, gesticulando. Queria ir atrás de Hanni e Aika, claro.
— Você é um bebê ainda! Não pode entrar no mar assim, filho — E ele... sinalizou, ergueu as mãozinhas para que Presley pudesse ver e sinalizou — Quando sua mãe sair, ela vai levar você lá, isso.
— Um biscoito, mamãe! — Ele articulava, ainda bem atrapalhado nas palavras. Minho sinalizava melhor do que falava, era uma graça.
— Um biscoito você pode — Abriu o pacote de Monteiro Lopes que haviam trazido para o café da manhã na praia — Um para você e um para mim.
— Muito, muito bom! — Ele mordeu o biscoito e abriu aquele sorriso lindo que tinha.
— Muito, não é, meu amor? É um doce brasileiro. Quem mais é brasileira?
— Mamãe!
— Mamãe é brasileira, isso — Os olhos grudando nas suas duas meninas no mar, já remando em direção às ondas — E ela veio me encontrar bem aqui. Nós duas, Park Manu, tínhamos que ser — Disse, olhando para ela.
Era tão lindo o seu amor.
Elas saíram do mar uns trinta minutos depois, bloqueando o vento com as pranchas, tirando o john porque estava muito frio, trocando pelo moletom rapidamente, aos risos, porque aquelas duas juntas sempre seriam uma pequena baderna. Trocaram de roupa muito rápido e, antes de entrarem na barraca, do nada, começaram a coreografia de Flower na areia, com Minho correndo imediatamente para elas, pois ele também sabia fazer, e Aika rindo para ele, correndo um pouquinho porque ele adorava correr atrás dela. Eles adoravam brincar juntos e, desde a semana passada, Minho agora também estava no jiu-jitsu. Ele insistia em ir, e Hanni segurou um pouco porque aquele podia ser um espaço que Aika não iria querer dividir ainda, mas ela quis. Ficou animada com a ideia, pois gostava de ter o irmão por perto, e ele era completamente apaixonado por ela.
Min-ho trocava tudo e qualquer pessoa pela presença de Aika. A seguia pela casa feito um pequeno fã, mas também entendia quando ela precisava de espaço, e Presley achava o relacionamento deles a coisa mais delicada da vida.
— Ele é totalmente apaixonado por ela, honi — Presley disse, quando sua esposinha entrou na barraca, a agarrando um pouquinho porque estava frio, enquanto suas crianças brincavam pela areia.
— E ela é por ele. Ela tem tanta paciência. O que você quer no seu café, meu amor? Vou fazer para você — Hanni perguntou, completamente agarrada em Presley pelas costas, sentindo o cheiro dela.
— Você me mima tanto.
— É que você merece os mimos, cada um deles. Olha que lindos os meus face cardizinhos, você que me deu — Disse, beijando o pescoço dela, a fazendo rir demais.
— Dei, para sair todos a sua cara. Ainda preciso de uma explicação plausível para isso.
Hanni riu, apertando-a nos braços um tanto mais.
— A que vou ter, será a sua cara, é justo assim. Você disse que vai me fazer outro bebê, honi.
— Eu disse e vou. Daqui a uns três anos farei outro bebê na minha modelo — Presley respondeu sorrindo — Olha para eles, honi, como eles... conversam — Agora eles estavam conversando, Aika sinalizando e mostrando coisas para ele.
— As coisas encontram uma forma de ser quando existe amor. Como nós duas — E então, Hanni pegou algo na mochila e colocou diante dos olhos de Presley — Feliz três anos juntas, meu amor.
Era uma série de fotos, daquelas que máquinas tiram em cabines, do último domingo delas num parque de diversão com as crianças. Tinha uma florzinha amarela junto e um relógio da CK, porque afinal, Presley era casada com uma YSL model e tudo mais.
— Você... lembrou, meu amor.
— É claro que sim — Colocou o relógio no pulso dela, delicadamente — Faz três anos que você invadiu a minha vida e mudou todas as coisas, três anos que eu te amo, que não sei virar uma esquina sem você — A apertou nos braços de novo e mais uma vez, a beijou um pouquinho, sorrindo demais — Você lembra, babe, quando tudo o que eu queria era a sua felicidade?
— E estar comigo — Disse, agarrando-se pelos braços dela.
— E agora, nós temos tudo isso.
E deste jeito, elas apenas seguiam vivendo juntas, dia após dia, o poema acróstico mais bonito já escrito.

Notas da Autora: Tessa Reis
Quando começamos “Acróstico”, não tínhamos ideia do que poderia se tornar. Era uma ideia nova, uma era diferente do que quem nos lê, estava acostumado, um tiro no escuro que apenas esperávamos que desse bons resultados. E de maneira surpreendente, nosso novo projeto acabou super bem recebido e foi carinhosamente abraçado por vocês, membros mais do que fiéis do TR'Clube ❤️. O carinho de vocês por essa história, fez toda a diferença, mesmo sendo desafiador no começo. Vocês confiaram nesse romance que faria muito mais sentido mesmo, ao ser lido de trás para frente.
Muito obrigada por todo amor envolvido em todos esses meses de postagem! E uma nova história está chegando em breve. Espero que este carinho, seja refletido também para a nossa nova jornada.
Grande beijo e encontro vocês em “Hickey” 😉.
Voltamos em breve!

Muito bom…história linda!!! Obrigada TR por sempre nos trazer histórias lindas!!!
Sobre quem seria Hickey? 👀🫣
Eu sei que tô atrasado, mas… acompanhar a jornada dessa linda família, desse casal incrível que conquistou todo mundo, foi uma honra incrível!
Só posso lamentar que acabou, e mesmo assim… dizer que valeu muito a pena!
Obrigada Tessa por mais uma vez encher nossos corações de sensibilidade e bons sentimentos! Ler o que vc escreve nos acalenta e traz momentos de puro amor e carinho! Sucesso sempre! Que venham os novos amores de Tessa, que se tornam nossos!😍