Relicário 4
- Riesa Editora

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Kalsarikännit
♪ Falling into you… Baby…
Even electricity can't compare to what I feel…
When I'm with you… Ooh baby
Given up my ghosts for you and now I'm see-through… ♪
Foram para uma outra atmosfera.
E foram direto. Assim que entraram no hotel, Theodora escolheu uma playlist em seu celular, pegou seus AirPods, colocou um em seu ouvido e o outro no ouvido de Giulia e, pronto, foram para a estratosfera juntas. Puxou aquela gostosa pela garganta e subiram o elevador aos beijos, se sentindo muito perto, e nem eletricidade era capaz de descrever certinho o que Giulia estava sentindo enquanto Theodora, bem, Theodora havia acabado de abrir mão de seus fantasmas por ela.
Sim, realmente, agora estava conseguindo ver através.
Entraram no quarto aos beijos, num descontrole de impulsos intensos, porque a pele estava fervendo, estava em flor, cada poro, cada centímetro, à flor da pele, as mãos de Theodora livrando Giulia da jaqueta, as mãos dela fazendo o mesmo, casaco pra longe, suspiro alto, respiração entrecortada. Giulia a pegou pela cintura e a tirou do chão, girando com ela, levando-a para sobre a bancada da entrada e, naquela pegada, naquele braço lhe apertando a curva das costas, na mão em sua nuca, no corpo pressionando contra o seu e nas suas pernas se agarrando nela, apertando forte, os dedos desabotoando a calça dela, enquanto os dedos afoitos de Giulia já estavam lhe livrando das botas, depois da calça, depois da blusa, deixando Theodora apenas de lingerie, azul royal, naquele corpo delicioso.
Giulia mordeu a boca, olhando para a entrada daqueles seios, a testa encostada na dela, o coração tão disparado, os fones ainda nos ouvidos das duas e aquela linha perfeita de clavícula que...
— O que foi? — Theodora foi soltando lentamente a faixa que mantinha o cropped super justo no corpo dela.
— ♪ And even if I could I wouldn't turn on you… ♪ — ♪ E ainda se eu pudesse, eu nunca me voltaria contra você... ♪ — Ela cantou baixinho — ♪ And I would stop the world for you and I… ♪ — ♪ Eu pararia o mundo por você e eu... ♪ — Giulia cantarolou, enquanto soltava os sapatos dos pés, ainda com a testa muito colada na de Theodora, intensidade, apego, uma coisa correndo pelo corpo de ambas.
— ♪ I wanted to let you know, I'll never let this feeling go… ♪ — ♪ Eu quero que você saiba que eu nunca vou deixar esse sentimento ir embora... ♪ — Theo cantou juntinho com ela, em sussurro, enquanto descobria aqueles seios mais do que endurecidos, excitados demais, uhum, chocolate amargo europeu, uma coisa de se pôr na boca.
♪ This love has no ceiling, I cannot deny… ♪
— ♪ All I see is you lately, wide awake and in my dreams, I see your face so vividly… ♪ — E, delicadamente, Giulia tirou o fone do próprio ouvido, passando sozinha a sussurrar a música, enquanto o coração de Theodora disparou tão forte que ela podia sentir pela pele, as mãos dela lhe invadindo os quadris, empurrando seu jeans para baixo, lhe pegando, lhe agarrando, e as testas seguiam grudadas, os olhos dela seguiam em seus seios, gostosos demais, a boca dela mordiscando a sua orelha e...
Theodora apertou as mãos dela em si, sentindo-se quente inteira, pulsando inteira. Giulia estava lhe tocando com os olhos, lhe excitando sem precisar alcançá-la com as mãos, era sensorial, extrassensorial, dentro e fora de todos os sentidos.
— ♪ I don't know what I'd do, ooh baby… ♪ — E finalmente Giulia foi correndo os dedos pela sua cervical, alcançando o abotoador do sutiã, soltando-o em um único movimento — ♪ If you only saw a friend in me, I'd be bittersweet... ♪ — ♪ Eu não sei o que eu faria, baby, se você visse apenas uma amiga em mim, eu teria gosto doce-amargo... ♪
— Você é doce-amarga, é meu chocolate europeu doce e amargo.
— Na corzinha que você adora e com o gosto que... você vai gostar. Sou cítrica.
E, dizendo isso, Giulia colocou sua calcinha de lado e a penetrou. Assim, testando um a um todos os dedos dentro de si, penetrando, retirando, trocando de dedo, sentindo de novo, escorregando o toque, percebendo o quanto Theodora estava molhada, o quanto estava excitada, o quanto...
Hum, e Giulia estava uma delícia absoluta, usando todos aqueles dedos. As coxas de Theo apertaram os quadris dela, o seu corpo tremulou, sentindo demais. O beijo era gostoso, intenso, doce, amargo, cítrico, Giulia era tudo isso ao mesmo tempo, como um chocolate temperado, aromatizado, com laranja, limão. Theodora não conseguia explicar, não sabia explicar. A única coisa da qual sabia é que o amor delas começou naquela bancada, migrou para o quarto, terminou no chuveiro e durou por todas as horas que amanheceram a madrugada.

Foi acordando muito devagar. Abriu os olhos, viu onde estava e lembrou do hotel, tal como, em segundos, lembrou de tudo o que havia acontecido nas últimas 24 horas.
Então veio o sorriso, só de se mover na cama e sentir Giulia dormindo ao seu lado.
Virou-se na cama devagar, colocando-a em seu campo de visão, e lá estava, dormindo de bruços, meio por cima dos lençóis, mais para o canto da cama. Sabia que ela não gostava de dormir junto, e Theodora respirou muito fundo, apertando os lábios. Ainda não acreditava em tudo o que havia acontecido e não acreditava que tinha acontecido daquela forma. Irreal, inebriante, intenso demais. Seu corpo ainda estava sensível, sua mente estava sensível, bastava fechar os olhos e...
O beijo dela, as mãos pelo seu corpo, o corpo encaixando no seu.
Abriu os olhos novamente, sentindo o coração enervar. E estava também pulsando entre as suas coxas, que perigo, seu corpo reagindo apenas com uma lembrança. Respirou fundo, se acalmou. Beijou a nuca dela, fazendo um carinho, e levantou-se devagar, na ponta dos pés, para não acordá-la.
Achou sua lingerie na sala, não no quarto. Giulia estava em um apart-hotel, tinha uma salinha, uma cozinha americana e o quarto em si. Vestiu sua lingerie e, na mesa improvisada de trabalho dela, encontrou um blusão azul-marinho. Ela sempre adorou azul-marinho. Vestiu, deu uma olhada rápida e, na verdade, não era uma mesa improvisada, era uma bancada improvisada, com pedaços de madeira, ferramentas, projetos desenhados à mão. Que interessante. Tudo em Giulia sempre havia sido muito interessante.
Foi até o banheiro, lavou o rosto, deu um jeito de escovar os dentes, checou seus machucados, não havia sentido nenhum deles. Nem durante a tarde, nem à noite, nem no amanhecer que tiveram juntas. Era como se tudo o que estava sentindo antes tivesse deixado seu corpo. Quase como um ritual. Rituais marcam passagens do anterior para o novo, e estava se sentindo assim, pós-ritual, com algo tão bom invadindo por dentro que nem sabia bem.
E, ao não saber, se permitiu não tentar catalogar, permitiu-se apenas sentir. Sem análise, sem perguntas, sem julgamentos, o que em si já era um avanço e tanto em relação a quem Theodora Esposito costumava ser.
Enxugou o rosto e foi dar uma olhada na cozinha, ver se tinha algo que podia fazer de café da manhã. Na verdade, tinha bastante opção. Giulia adorava cozinhar, era uma de suas inúmeras paixões, e isso era uma das coisas que Theodora admirava bastante nela, essa capacidade de ser boa em coisas tão diferentes. E isso estava espalhado por aquele apart-hotel.
Voltou para a bancada improvisada, para olhar as coisas mais de perto. Havia peças de madeira bruta, diversas ferramentas manuais para as quais Theodora não fazia a mínima ideia do que serviam e, os desenhos? O que podia dizer dos desenhos? Eles estavam encostados na parede de trás, todos em A1, mulheres lindas, de todos os jeitos, todas as formas, cores e belezas, fortes, empoderadas, em desenhos delicados e sempre acompanhadas de outro ser vivo: elefantes, cavalos, rinocerontes, árvores, montanhas, mares. Tudo o que Giulia considerava vivo. Ela era uma estudiosa de religiões naturalistas, como as que os incas seguiam, os maias, os astecas. Acreditava em divindades naturais e respeitava todas elas, estudava o sagrado feminino e respeitava a religiosidade cristã do lugar de onde havia vindo.
Ela era uma respeitadora. Uma adoradora do sol e das boas coisas.
Havia uma placa de madeira sendo trabalhada e, quando Theodora passou a mão para limpar a serragem de cima, descobriu uma frase em lettering muito bem trabalhada:
“Nada ocurre por casualidad...”
Guardou na mente.
Giulia despertou pouco antes de Theodora terminar de preparar o café da manhã. Estava passando o café, com pãezinhos numa bandeja, algumas frutas que encontrou, iogurte, e lá veio ela, lhe abraçando pelas costas, roubando um cheiro, beijando o seu ombro, fazendo um carinho. E estava difícil se manter sem apego. Quase impossível, aff! Theodora tinha plena consciência do quanto era emocionada.
— Vou fazer uns ovos estalados pra gente, tá? Você quer crepe? — Giulia perguntou, carinhosa.
Theodora a olhou surpresa.
— Sabe fazer crepe, Lia?
— Minha linda, eu faço crepes em segundos.
E não é que ela fez mesmo? Os crepes franceses, os ovos estalados, de lingerie e camiseta branca, enquanto seguiam no clima gostoso da noite anterior. Cortando frutas, fazendo uma baguncinha básica. Farinha e ovos sempre geravam bagunça. Trabalharam juntas enquanto lembravam de coisas que aconteceram na balada e das coisas pós-balada, e deviam ser exatamente essas coisinhas que não permitiam que nenhuma das duas parasse de sorrir.
Colocaram uma música baixinho e, ao se darem conta de que estavam fazendo café da manhã em plenas duas da tarde, os celulares seguiam desligados, sem bateria, e o crepe de Nutella com morango... Hum, Giulia sabia exatamente o que estava fazendo.
— Vem, vamos comer aqui.
E aqui era com a vista da pequena varanda. Abriram apenas a cortina, estava gelado demais para abrir as portas, fizeram um piquenique no piso, sob um tapete quentinho e felpudo, com suco, café, as frutinhas cortadas, os crepes, pães, ovos estalados e aquela vista. O tempo havia virado totalmente no Rio de Janeiro, uma frente fria uivante estava marcando presença e, bem, tinham uma à outra, bem ali, muito pertinho.
— Foi... foi tudo bem ontem? — Theodora perguntou, um tanto sem jeito.
Giulia abriu um sorriso.
— Se foi tudo bem? Theo, você deve ter sentido.
— Acho que senti, quero dizer, você sabe tudo o que fez comigo, aqui fora, na cama, no chuveiro, mas é que... — Demorou-se colocando mel em seu pão, era uma mania dela que Giulia achava a coisa mais lindinha — Eu nunca estive com outra pessoa, Lia. Intimamente. Diferente da Camila. E eu não sei bem como...
— Espera, espera aí, fada — Giulia a puxou para si, colocando-a entre suas pernas, entre seus braços, cheirando, apertando, mantendo muito perto, porque o que ela estava dizendo merecia atenção — Você está me dizendo que nunca esteve com outra pessoa além da Camila e agora de mim? — Beijou o ombro dela ao perguntar, mantendo-a sob seus carinhos.
Theodora abraçou os braços dela em si. Não esperava um julgamento, claro que não, mas o carinho havia caído muito bem para se sentir mais à vontade.
— Nunca. Eu já fiquei com outras pessoas, mas nunca fui mais longe com ninguém e, com a Camila, foi... foi... — abriu um sorriso, devia estar toda vermelha — foi diferente. Não foi tudo tão acertado quanto ontem, mas...
— Porque você foi realmente muito certeira, tipo, você só sabia... onde... a minha coisa estava. Sua boca foi reto pra lá — Giulia disse, a fazendo rir.
— Foi, não foi? Eu não achei que... que ia fazer tão bem. Porque, como estou te explicando, a minha experiência nisso é bem... bem resumida.
— Theo, você sabe que cada mulher é diferente, né? Não importa que eu tenha um pouco mais de experiência do que você, a minha experiência não serve de nada com alguém diferente. O que aconteceu ontem é que a gente se encaixou. Em tudo. Desde quando a gente só brincou lá no seu sofá.
— Você sentiu... onde era a minha...
Giulia gargalhou, cheirando os cabelos dela. Theodora tímida era uma coisa.
— Eu senti. Isso é bem raro, tá? Eu não quero pressionar você em nada, mas é muito raro mesmo, fada.
Theodora beijou a mão dela com carinho.
— Eu me sinto em um carro de Fórmula 1, a 400 quilômetros por hora, em Spa-Francorchamps.
— Ninguém corre isso tudo em Spa-Francorchamps, Theo.
— Exatamente. Está me entendendo?
Estava, estava sim. Giulia a apertou em seus braços um pouco mais.
— Fala pra mim, o que você quer fazer hoje? Quer um espacinho, quer grudar em mim...?
— As duas opções estão disponíveis...?
— Estão, claro que estão.
— Então quero grudar. Quero que você me mostre os desenhos, as ferramentas, o que você faz com a madeira. Lia, eu quero outra noite em Ipanema, mas de tarde, aqui dentro.
Giulia sabia o que ela estava querendo dizer.
— Vamos nos conhecer de novo.
— É isso, eu... eu quero.
Não tinha o menor problema, pois Giulia também queria.
Colocaram os celulares para carregar e foram para o banho, bem quentinho, porque realmente tinha ficado gelado do nada. Tomaram banho juntas, aos beijos, namorando de novo e, tão natural quanto buscar água quente naquele comecinho de outono, foi o corpo esquentar inteiro e pedir pra fazer amor. Fizeram de novo, amor agarrado, gostoso, agora sóbrias, sem a influência da euforia da noitada e... Theodora sentiu tudo igual. E fez tudo igual. Estava sentindo pelo corpo dela, pelas reações físicas naturais, o quanto Giulia seguia excitada, tão molhada. O beijo era gostoso, as fibrilações mentais que ela lhe causava...
Ela a virou de costas, pegando Theodora pelos cabelos em feixe, beijando seu pescoço, sua nuca, grudando o corpo inteiro dela contra o seu.
— Quer ter uma tarde kalsarikännit? Mas, ao invés de a gente pegar bebida alcoólica, a gente faz um chocolate quente cremoso? Uns biscoitos caseiros, daqueles de Natal que você adora. O que você acha, Theo? A gente põe suéter, meias e escolhe um game.
O corpo dela nu e vibrando contra o seu, como podia? Theodora tentou se manter.
— Você tem um videogame aqui?
— Você não acha que, na partilha dos bens, eu ia deixar o videogame com a Breena, acha?
De jeito nenhum, Theodora achava. O que achava era um charme que Giulia conhecesse uma palavra e um hábito finlandês, que soubesse fazer chocolate cremoso e que quisesse ter uma tarde assim, de suéteres e meias enquanto jogavam videogame. Saíram do banho, se vestiram em roupas de frio e foram para a cozinha novamente, fazer os tais biscoitos de Natal. E o chocolate quente cremoso ficou delicioso. Foram jogar na sala, Horizon Zero Dawn, foram se tornar Aloy, a arqueira na caça de robôs-dinossauros, enquanto falavam de tudo e de qualquer coisa. A tarde passou assim, de grude, muito agarradas, jogando videogame, ficando uma pelo colo, pelos braços da outra, e, quando a fome de jantinha bateu, lembraram dos celulares ainda desligados.
Theodora ligou o celular para pedir comida e ele começou a tocar em sua mão.
Era Camila. Theodora olhou para o aparelho, meio sem saber o que fazer. Olhou para o celular e então para Giulia, o coração disparando, as ideias confusas.
— Atende. Vocês estão bem, não estão?
Estavam. Atendeu, e Camila estava em um lugar nada silencioso, lhe chamando para ir até a hamburgueria de “quando ficava frio”. Era um lugar que costumavam ir no inverno, por ser fechado, ter uma vista incrível e hambúrgueres maravilhosos, veganos e não veganos. Costumavam ir com a turma da faculdade. Ah, ela estava com o pessoal da faculdade, que estava com saudades de Theodora. Por que ela não vinha?
Olhou para Giulia.
— Vai, é claro que você vai.
Disse que ia, Camila ficou feliz e Theodora desligou. Ainda ficando meio esquisita.
— Ei, Theo, o que foi?
— É que... a gente só está de boa super recente. É esquisito pra mim, Lia — Era, nem sabia explicar o motivo pelo qual era — Você já se encontrou com o pessoal da faculdade depois que voltou?
— Ainda não. Não marquei com ninguém, estava vendo outras coisas primeiro.
— Então vem comigo, por favor.
— Theodora...
— De amiga, se você preferir. A gente deixou de ser amiga porque dormiu junto?
Não haviam deixado. Mas Giulia não sabia bem se queria ir de amiga, era essa a dúvida. Bem, estavam com fome, ir até a hamburgueria não deveria ser algo tão complexo assim. Se trocaram, Theodora teve que se virar com o guarda-roupa de Giulia mesmo, achou uma calça, um suéter obviamente maior que seu tamanho, calçou suas botas outra vez e partiram, de Uber, de mãos dadas, natural como todas as outras coisas que estavam acontecendo. A noite seguia muito fria, mas muito bonita, o céu estava bonito, o clima agradável, entraram na hamburgueria e, quando os amigos notaram que não apenas Theodora havia vindo, como também havia trazido Giulia, a festa foi enorme.
Ficaram felizes mesmo em revê-las, porque Theodora estava desaparecida também havia um tempo, então eram duas desaparecidas queridas reaparecendo e algo muito bom se espalhou por todos ali. Camila foi a última a cumprimentá-las. Abraçou Giulia, feliz em revê-la, e abraçou Theodora muito longamente. Elas se olharam, se abraçaram de novo e só então se sentaram na mesa, como as coisas costumavam ser antes, os quase quinze amigos e mais Giulia e Camila, com Theodora entre as duas.
Sempre havia sido assim.
Com uma coisa e outra mudadas agora.
A noite foi muito agradável, com um clima de reencontro. Theodora monitorou seu coração o tempo todo perto de Camila, e Giulia foi a Giulia de sempre, falante, divertida e com as mãos em cima dela o tempo todo. Era algo que ela sempre havia feito, porém Theodora nunca tinha sentido. Mesmo. Só sabia que as mãos dela estavam ali porque Camila reclamava às vezes. Mas, desta vez, estava sentindo e as mãos dela estavam lhe causando coisas diferentes. Vontade de também tocá-la, como na noite anterior, mas não podia. Em respeito a Camila. E então chegou uma moça que elas não conheciam e Theodora percebeu do que se tratava. Era alguém que Camila estava conhecendo, e foi esquisito. Por um segundo, ficou triste por dentro, mas não durou de verdade. Logo chegou a hora de ir embora. Theodora trabalhava na manhã do dia seguinte e precisava dormir em sua casa.
— Por quê? — Giulia perguntou.
— Preciso das minhas roupas, linda, e...
Ela sorriu.
— Acabou de me chamar de “linda”. Você quer mesmo que a gente durma separadas hoje, nesse friozinho, fada?
Foi a vez de Theodora abrir um sorriso diferente.
— Eu pretendia que você viesse comigo. Ou, como o seu apart-hotel é todo gostoso, eu posso pegar algumas roupas e...
— Passar uns dias. Só uns dias, pra gente terminar de conversar as coisas, sabe?
— É, tem assunto pra caramba, eu sei.
Elas tinham. E poder contar com o abrigo de Giulia, enquanto Camila conversava lá fora com a tal moça que havia ido encontrá-la, foi muito bom. Era muito adolescente pensar que jamais encontraria outra pessoa para namorar que não fosse Camila? E que a cena dela conhecendo outra pessoa na sua frente sempre a tivesse assombrado porque provavelmente estaria sozinha e tal? Bem, agora tudo isso apenas lhe pareceu uma grande bobagem.
Era hora de ir. Se despediram, longos abraços, longos olhares. Camila também havia respeitado Theodora diante da moça do Tinder.
— Eu não acredito que você está arrumando encontros no Tinder, Camila — Disse para ela num tom descontraído, enquanto Giulia seguia conversando com alguns amigos e Theodora esperava pelo Uber delas.
— Então, você e eu, a gente começou a beijar na infância ainda, depois começamos a namorar adolescentes, eu não sei bem como é que se flerta, como é que se conhece pessoas, Theo, sei lá, fiquei perdida — Camila respondeu, sorrindo também.
— Entendi, está perdoada. Ela parece ser bem legal, a moça que o Tinder te trouxe.
— Parece, mas sei lá. Sabia que ela é madrinha da escola de samba lá do morro dela?
— Mas veja só você, ingressando no mundo do samba!
— Então, veja isso. Mas... eu não sei — Seguia com um sorriso no rosto, mas os olhos agora estavam desviando para o nada — Posso ser a ex invasiva só um minutinho?
— O que foi?
— Por que você está usando roupas da Giulia?
Theodora sorriu, era isso.
— Ah, a gente se cruzou na praia, passamos o dia juntas ontem e o dia de hoje, aí... — Apertou os lábios um instante, agora Camila estava a olhando nos olhos — Eu estava com ela quando você ligou, no apart dela, e precisei trocar de roupa.
Então, Camila abriu um outro tipo de sorriso.
— Theodora Esposito, você jura pra mim, de dedinho, que ela não pulou em cima de você assim que soube do nosso término?
Theodora abriu um sorriso entregador. E Camila procurou Giulia com os olhos imediatamente.
— Giulia Arraes, você não vale um desconto de Uber, sabia?
— Mas o que foi, doutora? Para eu ter caído em desvalorização tão rapidamente? — Giulia perguntou de volta, sorrindo.
— Vem aqui pra gente conversar rapidinho.
Giulia veio e Camila foi tudo, menos a ex neurótica ou invasiva. Só queria dizer na cara das duas que sabia, que sabia absolutamente de tudo, desde aquele elogio à clavícula de Theodora, sempre teve certeza de que, se terminassem, lá estaria Giulia pronta para o bote.
— Minha filha, você acha? Ela não perdeu um segundo após saber essa informação — Disse uma das amigas, morrendo de rir, porque havia sido muito engraçada mesmo a chegada de Lia e Theo tentando disfarçar as coisas.
— Mulher, isso deve ter pego o primeiro avião quando soube da sua separação lá na Irlanda — Disse outra, também pernambucana.
— Olha a imagem que vocês fazem de mim! — Giulia estava para morrer de rir.
— Lia, desde quando elas se separaram, a gente só pensava em você, que você precisava saber tal informação.
— Está vendo? É fato notório e público que você sempre quis dar o bote na minha aristocrata aqui! — Era Camila.
— Nem teve bote não, mulher, foi um negócio que assim, sei lá, aconteceu.
— Sei, sei bem como essas coisas acontecem.
Então, no meio dos sorrisos, Giulia puxou Camila para mais perto, para falar apenas com ela.
— Tudo bem pra você?
— Ah, Lia, ao menos eu te conheço, sei que você se importa com ela, você sempre olhou para ela de um jeito. Parecia seu sonho distante.
— E era. E é. Camila, eu sempre tive o maior respeito por você, pelo relacionamento de vocês, mas... é um sentimento. Era antes, segue agora. Eu não estou te dizendo que algo sério vai acontecer, mas é um sonho mesmo, estou nesta atmosfera ainda.
— Olha, Lia... não é muito simples ouvir tudo isso — Camila abriu um sorriso meio nervoso — Mas eu sempre morri de medo de a Theo cair nas mãos de quem eu não conheço, não gosto, não vou conseguir conviver.
— Ei, eu não caio nas mãos de ninguém, está bem? — Theodora havia acabado de voltar lá de fora, onde esperava o Uber.
— Sei que não, mas você é uma fada mesmo, Theo. Eu sei do que ela fala. Você é boa demais. Não pode se envolver com alguém que não mereça você.
Theodora ficou olhando pra Camila, no mínimo, surpresa.
— Você acha tudo isso mesmo? Porque ontem de manhã eu estava analisando o quanto fui ruim pra você.
— Se você fosse tão ruim, não teríamos dado certo tanto tempo. E nem eu teria passado quatro anos do nosso namoro defendendo você dessa Giulia perigosa aí.
Elas estavam leves, ponto. E que bom que estavam assim, que a atmosfera pesada, gradativamente, aparentemente, andava sendo deixada para trás. O Uber delas chegou, Theodora veio buscar Giulia, e Camila viu pela primeira vez a sua ex-namorada pegando outra garota pela mão. Era estranho não ser aquela que ela estava levando pra casa.
Era estranho. Picou seu coração e lhe tirou um pedaço.

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