Relicário 5
- Riesa Editora

- há 1 dia
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Casualidade
Houve um clima distinto naquele retorno pra casa.
O Uber parou um pouquinho mais à frente, e só o caminhar de Theodora já pediu um carinho quentinho. Giulia fez esse carinho nela, puxando-a para pertinho, abraçando-a pelos ombros, e ela simplesmente veio, se alinhando ao seu corpo, aceitando o aconchego. Abriu a porta do carro, entraram, e Theodora voltou para o seu ombro, para o seu calor na noite fria. Foram silenciosas por um tempo, até que, bem baixinho, Giulia começou a cantarolar assim:
— ♪ ¿Cómo puedo hacer para no imaginarte? Si Madrid me grita que corra a buscarte… Otra calle más que me acerca a tu nombre… La verdad la sé y es que no puedo olvidarte… ♪ — Beijou o canto da testa dela, tirando um sorriso lindo de Theo — ♪ Súbete conmigo a recordar… Cómo nos gritaba la ciudad… Sé que todavía hay algo más… ♪
E Theodora se deu conta do que ela estava cantando. Seguiam no mesmo gosto musical, ainda que à distância. Era Marta Soto, deixando claro que...
— ♪ Y que nada ocurre por casualidad… ♪ — Theo cantou junto com ela esse pedacinho.
♪ Nada ocorre por casualidade... ♪
— ♪ Hoy en el metro me acordé de tu mirada… En otro cuerpo, en otra voz, en otra cara… ♪ — Giulia voltou a cantar, aquela quase canção de ninar sobre alguém que via a sua pessoa em outras pessoas, de tanta falta sentida. Costumava ver Theodora nos metrôs da Europa. Mas achava que ainda não era hora de falar de determinadas profundidades.
Cada coisa acontece no seu tempo certo. E nenhuma delas por casualidade.
Havia um mar agitado se acalmando dentro de Theodora. Primeiro, já estava se cobrando — mais postura, menos sentimentos —, mas, assim que começou a caminhar naquela noite fria e sentiu os braços de Giulia ao seu redor, o mar revolto começou a ceder. Não havia sido desastroso, afinal. Reencontrar Camila não havia sido. Ninguém havia brigado, chorado, se ferido, se magoado. Vê-la com outra pessoa acabou sendo mais tranquilo do que imaginava. Claro que não havia sido agradável. Havia sentimentos que aconteciam quase por vontade própria, sem explicação racional: orgulho ferido, fragilidade pessoal, até o famoso “o que os outros vão pensar”, que Theodora julgava não ter, mas, no fundo, tinha. Esse incômodo em ser julgada, em ser vista “por baixo”. O que era, no fim das contas, uma grande bobagem. Acabou passando aquelas horas sem nenhuma ansiedade real. Bem, quase nenhuma, porque, perto de ir pra casa, teve uma.
O final de semana estava acabando, e sempre soube que Giulia não era exatamente uma pessoa de semana, mas sim de final de semana.
— Mas isso foi você quem colocou na cabeça! — Ela respondeu, rindo, quando desceram do Uber e subiram para o apartamento de Theodora, no mesmo agarro, no mesmo carinho.
— Você sempre foi uma “eu odeio segunda-feira”. Certeza de que fazia parte dessa comunidade no Orkut.
— Theo, a gente é geração Orkut, caramba...! E eu achando que estaria toda centralizada aos 30 e aqui estou, aos 32, começando tudo de novo — Entraram no elevador — Sabe que pessoas como Camila Mendes nunca começam de novo e pessoas como eu só... recomeçam. No Cariri, no Recife, em Vila Velha, aqui.
Theodora olhou bem para ela.
— Por que acha que Camila não recomeça?
— Porque ela não precisa. Ainda com o rompimento de vocês, como foi o comportamento dela?
Theodora parou um pouco, pensando a respeito.
— Ela... Bem, terminou uma especialização em gestão de hospitais, recebeu um prêmio pela atuação dela durante a pandemia de COVID, que, graças a Deus, já ficou pra trás, foi convidada para participar de várias forças-tarefas, para tocar dois projetos, um de instalação de pias públicas na Favela da Maré e outro de alimentação coletiva em Jacarezinho, e... — Refletiu, sorriu — Entendi.
— O que você fez nesse tempo?
— Tentei recomeçar — Theodora abriu um sorriso, saindo do elevador e indo para o apartamento — Ela não recomeçou nada, só foi em frente.
— Há pessoas que são assim, Theo. Elas são... espíritos independentes. As causas e os objetivos delas são maiores do que elas. Não é porque a vida pessoal deu uma desandada que o resto tem que parar.
Entraram no apartamento.
— Camila é assim e eu... Bem, eu construí a minha vida ao redor dela. Fui fazer a universidade que ela queria, para ficar perto dela, viemos morar em Ipanema para facilitar as coisas e eu só estou no emprego de hoje porque ela me empurrou pra lá, confiou em mim e...
— Olha, isso não é um problema, não é mesmo. Mas é que... cadê o seu livro? O que você queria publicar, contando a história da escravidão africana e italiana no Brasil? Ia usar a história dos seus bisavôs, não era? Escrever um romance histórico, discorrer sobre a falta de indenização dessas pessoas e sobre como isso contribuiu para a formação dos guetos no Brasil e tal. Onde foi parar esse seu sonho?
Provavelmente dentro de um dos sonhos de Camila. Que não era culpa dela de forma nenhuma. Era sua culpa, sua opção, se deixar para depois porque os projetos de sua ex pareciam sempre tão mais nobres. Giulia a puxou para perto e a beijou.
— A gente vai ter uma tarde de resgate de projetos, tá? Até porque preciso recomeçar aqui e não sei se os meus projetos, que davam certo lá na Irlanda, darão certo aqui também. Mas, por agora, vamos voltar àquele ponto em que você me disse que eu não tinha cara de dia de semana.
Theodora riu.
— Não tem mesmo!
— A melhor parte disso aí é que quer dizer que você me vê quase como uma fantasia, a garota que está sempre em clima de final de semana.
Theodora, suavemente, se dependurou no pescoço dela.
— Você é meio fantasia mesmo, eu sempre te vi assim. Você nunca... estudava. E sempre tinha as médias.
Giulia gargalhou.
— E se eu estudasse, seria brilhante, é o que minha mãe vive dizendo. Vamos lá pegar o que você precisa?
Foram. E, junto com as roupas de que precisaria, Theodora aproveitou para pegar a caixa de pesquisa daquele livro que tanto dizia que iria escrever depois da faculdade.

Sequer lembrava da última vez em que havia jogado tanto videogame.
Foi o que fizeram depois que chegaram de volta ao apart-hotel. Montaram o videogame, cada uma jogando um pouco enquanto faziam um segundo jantar, também em dupla. Fizeram macarrão, uma salada rapidinha, alguns camarões e lula à dorê falsa — era cogumelo, mas Theodora garantiu que ia ficar igual, e não é que ficou? Tal como funcionou muito bem o jantar feito entre uma partida de videogame e outra.
— Mas como é que fica igual, Theo?! — Giulia perguntou enquanto jantavam, com as luzes da sala apagadas e o videogame ainda ligado. Seguiam jogando, sentadas no tapete mais do que confortável que Lia havia trazido da Noruega.
— Eu não sei, a Camila descobriu essa receita na internet e eu fiquei tão viciada — Levou outro anel de lula falsa à boca e despausou a partida — Lia, você se incomoda...?
— De você falar dela? Não me incomodo, não. Como ela falou também, vocês estavam juntas desde sempre. Tem muita coisa sua que a envolve, é natural. Tipo este tapete viking que você adorou.
— Breena comprou para você! E nem por isso precisa ser intocado, inominado.
— Eu vivi a Breena, você viveu a Camila. Não é como se, pra gente ir em frente, precisássemos extrair cada parte delas. Se não foi ruim, por que retirar?
Fizeram amor antes de dormir, durante o banho, vindo terminar na cama, e as duas acabaram pegando no sono nuas. Foram acordadas tremendo durante a madrugada.
— Theodora Esposito, você é uma irresponsável! — Giulia disse, enquanto se vestiam rapidinho, em roupas quentes.
— Ah, só eu, né?! Claro que sou só eu...! — Ria enquanto também se vestia, bem depressa.
— Fada, vem cá, quentinha assim — Giulia a puxou para os braços, apertando-a, cheirando-a. Ainda não estava acreditando direito que aquilo tudo estava acontecendo.
— Vou acordar toda atrasada e morrendo de sono — Disse, fazendo manha, se esquentando no corpo dela.
— Eu acordo com você — Ela respondeu, fazendo Theo sorrir de maneira inesperada.
— Jura?
— Acordo, coisa linda, faço seu café, te deixo no trabalho.
Theodora sorriu mais.
— Não precisa me deixar no trabalho, mas eu aceito o café.
Giulia a levou de volta pra cama, sorrindo, beijando, e o tempo que ficaram de namoro em plena madrugada fez com que Theodora dormisse agarrada ao suéter dela e acordasse a cheirando.
E bem, Giulia, que detestava dormir agarrada, acabou deixando que ela passasse a noite inteira em seu peito.
Foi no peito dela que Theodora acordou, sentindo o quentinho da pele. E mal se moveu, Giulia se moveu junto.
— Ei, fada, bom dia...!
Theodora abriu um sorriso terno. Os olhos brilhando, a respiração mais devagar. Foi algo que notou. Sua respiração havia acalmado, parado de sempre parecer em estado afoito, como se estivesse correndo de alguma coisa o tempo todo. Não sabia explicar. Mas agora estava mais calma.
— Já acordou mesmo?
— E vou fazer o nosso café da manhã para você não se atrasar. Vai para o banho, vai!
Theo foi para o banho, quentinho, calmo, e, quando se vestiu, foi ouvindo uma música que vinha lá de fora e um cheiro de café da manhã que também não sentia há muito tempo. Saiu, e lá estava Giulia fazendo um sanduíche de frigideira que...
— Mas o que você está aprontando? — A abraçou por trás, beijando a nuca, o ombro dela.
— Falta só seu ovo, gosta molinho, que eu sei.
Ficou maravilhoso. Um sanduíche com queijo, presunto parma, tomate, espinafre, com um ovo por cima, sal, azeite, ervas, uma coisa linda e absolutamente deliciosa. E deve ter sido isso que fez Theodora chegar ao trabalho absolutamente leve. O sanduíche de frigideira, o carinho do café da manhã, aquelas pernas lindas cruzadas no blusão que cobria só até o meio das coxas, os cabelos desgrenhados de Giulia, a conversa fácil, simples. Deve ter sido tudo isso junto que a fez chegar sorrindo, tranquila, a ponto de subir até a máquina de café para pegar um leite quente açucarado antes de qualquer coisa.
Alberta a seguiu.
Trabalhavam juntas na filial brasileira de uma grande revista internacional, onde Theodora jamais pensou que poderia ter uma chance. Mas teve. E, no processo seletivo seguinte, Alberta fez a mesma tentativa. Tinham formações diferentes — a irmã era designer criativa e Theodora, jornalista editorialista — e trabalhar juntas, no mesmo prédio, era um grande presente.
— Não é por nada não, mas você passou pela frente do meu aquário praticamente flutuando.
Theodora nem abriu outro sorriso, apenas seguiu no sorriso em que já estava desde o momento em que entrou. Colocou sua ficha na máquina, adicionou açúcar ao leite.
— Ah, Beta, é que... Como eu te explico?!
— Você e a Lia estão se entendendo! Você explica simples assim. Primeiro: olha como você está bem-arrumada! Andava vindo trabalhar em estilo pijama de domingo ultimamente.
Theodora estava muito elegante naquela manhã. Saia-lápis de couro preta, blusa três-quartos areia, arrumadinha para dentro da saia, meia-calça, sapato alto, correntinhas no pescoço por cima, cabelo arrumado, maquiagem leve.
— Para! Que também não estava sendo assim.
— É claro que estava! Theo, eu andava muito preocupada com você, falando sério agora. Eu já estava achando que nunca mais ia te recuperar dessa Fossa das Marianas em que você se afundou depois da Camila. Li a sua última crônica e sabe de uma coisa? Ela era você. Aquele título estava te resumindo.
Sua última crônica havia sido intitulada: O amargo que deixei existir.
— O problema em si nem é o amargo, é a parte em que você se reconhece como causadora dele. A Camila te deixou amarga, mas, a partir do terceiro mês, você permitiu que isso seguisse te deixando assim, e isso estava acabando com você. E com a sua permissão.
— Beta, é que você não faz ideia de como foi difícil tudo isso.
— Faço ideia, claro que sim, mas nunca senti nada parecido. Porém, você acabou de usar o tempo verbal no passado e acho que sequer percebeu.
Era verdade.
— No final das contas, você tinha razão. Foi muito bom conversar com a Camila de novo, ver como ela estava, ter certeza de que ela não estava me odiando e... eu não sei. Foi bom. Eu ainda estava sentindo muito, até que a Giulia apareceu do nada.
— Demorei pra acreditar que estava mesmo vendo ela ali, sabia? Mas foi mais fácil acreditar que eu estava vendo a Lia do que acreditar que eu estava vendo você fora da cama! Fala pra mim, você está feliz com ela, não está?
— É claro que estou, mas me incomodam algumas coisas — Pegou seu leite quente, que ficou pronto — Tipo, eu estava tão mal e fiquei bem de repente só porque ela apareceu.
— Está com medo de curar um amor com outro?
— Beta, é a Giulia! Ela é do mundo, é fluída, e eu não estava conseguindo fluir nem pra fora de um relacionamento em que eu já estava sozinha. Estou adorando ficar com ela, tanto que... eu não quero soltar. E ela... ela é menina solta, se ela decidir só... sei lá. Se for só... por uns dias? E eu ainda fragilizada pela outra situação?
— Irmã, você é muito sapatão emocionada, viu...?!
E Theodora quase se afogou com o leite.
— É claro que não sou!
— É claro que é, sim. Já está louca pra levar a Lia pra casa, pra namorar regularmente.
— Eu gosto do regular.
— E se ela quiser ser regular com você? Já pensou nisso?
— Claro que já! Estou pensando nisso o tempo todo porque ela... Ah, Beta, só tem sido muito bom. Eu só quero voltar para ela hoje, sabe?
— E ela quer que você não volte? Olha, Theo, só fala com ela abertamente. Faz as perguntas que precisa. A Giulia sempre foi louca por você, não é segredo pra ninguém. Tenho certeza de que ela não está com planos de desgrudar de você. Mas, se você está com dúvida, pergunte para ela. Claramente. O combinado nunca sai caro. Seja sincera. É o simples segredo de todas as coisas. Quero te dizer que amo a Camila, amo mesmo, e por sorte de todos, o término de vocês não tem como excluí-la. Ela segue sendo da nossa família. Dito isso, eu sempre quis a Giulia na nossa família.
— E depois a sapatão emocionada sou eu, né?!
Alberta riu.
— Mas é verdade! Desde quando conheci a Giulia, eu quis que ela ficasse com a gente pra sempre. Nossa família é tão séria, eu sou a única louca. Com ela presente, nossos natais seriam mais animados. Ela sempre te fez bem. Você sempre era outra pessoa com ela por perto. Era mais parecida com a Theo da minha infância, ou aquela da adolescência, do período sem Camila. Você se tornou uma linda versão de você mesma ao lado dessa mulher maravilhosa que é a nossa prima, mas eu sentia falta de você menos séria. Da sua versão que usaria uma máscara de LED numa balada — Disse, sorrindo — Com ou sem Giulia, ou Camila, ou qualquer pessoa, você precisa manter determinados pedaços que fazem de você essa coisa linda que você é.
Theodora olhou para a irmã. E a abraçou longamente.
— Vou manter, prometo. Igual àquela música de que você gosta...
— ♪ Agora quero ir, para me reconhecer de volta... ♪
— ♪ Para me reaprender e me aprender de novo... É isso. É todo o meu plano. ♪
Alberta a olhou nos olhos.
— Relaxa, está bem? Pergunte o que você precisa e permita-se andar só um pouquinho sem saber bem para onde está indo. Acha que consegue?
Respirou fundo. Tudo bem, achava que conseguia. Voltou para a sua nuvem e foi começar seu dia de trabalho, que foi muito simples, muito tranquilo. As demandas chegaram sendo devolvidas com uma eficiência que não se via em Theodora Esposito há muito tempo. Perto do horário do almoço, decidiu chamar Giulia no WhatsApp. Intenção? Queria almoçar com ela, mas não quis lançar o convite assim, para não parecer a fada gay emocionada e grudenta. Já bastava ser gay e emocionada. Descobriu que ela estava na rua. Disse que havia marcado salão de última hora e que estava procurando um apartamento para alugar. Sua estadia no apart-hotel se esgotaria no final de semana e precisava achar um lugar. Havia enrolado nas últimas duas semanas, e agora precisava correr com aquilo. Theodora a ouviu falar animada de alguns lugares que havia visto, e isso a desencorajou até de fazer um simples convite para o almoço.
Desligou, e Alberta se materializou na sua frente.
— Mas... Alberta! — Levou a mão ao peito. Ainda ia morrer de susto, sério — Como é que você...?!
— Estou aqui há três minutos, Theodora — Sua irmã cruzou os braços, rindo demais — Você não ligou para chamar a Giulia para almoçar?
— Liguei, mas... ela está ocupada, procurando um apartamento para alugar.
— Tenho um apartamento para alugar, bem acima do seu.
— Tecnicamente, é um loft, separado do meu apartamento por uma escadaria.
— Mas ela sabe que está para alugar?
— Nem eu sabia, Alberta! Você nunca quis alugar.
— Está para alugar agora. Se ela não for precisar de muito espaço, o loft está lá. Tem entrada independente, cozinha pequena, varandinha onde entra luz solar — Abriu um sorriso e deu de ombros — É só uma ideia.
Theodora olhou para a irmã.
— Está tão desesperada assim para me ver com alguém?
— Estou desesperada para não ver você cometendo o mesmo erro outra vez. Lembra que fazia isso com a Camila? Escondia o que estava sentindo, fingindo que não estava interessada. Deixava nossa prima achar que estava gostando de você sozinha. Foi ruim, não foi?
Havia sido.
— É por isso que fico achando que deveria tentar melhorar para ela, quase como uma compensação por tudo.
— Bem, tenta melhorar para você mesma agora porque... Você viu a mulher com quem a Camila está saindo? Não ia dar para você não, Theodora! Aquela preta lá tem que ser endeusada, tratada na base da realeza, feito uma rainha mesmo.
Só sua irmã para fazê-la rir daquela maneira. Foram almoçar juntas, o turno da tarde também passou rápido e, quando estava quase na hora de sair...
— Estou aqui embaixo, tá? — Giulia ligou para dizer.
Houve um calor no coração de Theodora só de ouvir aquela simples frase. Disse que ela podia subir, explicou o andar, a sala, e, quando a viu caminhando na sua direção pelo meio das ilhas de bancada...
Seu coração parou no peito.
Giulia estava linda. Havia cortado o cabelo, deixado pouco abaixo dos ombros e estava loira, ao mesmo tempo em que seguia morena na parte de baixo dos fios, o tipo de estilo que nela era muito natural. Daí, as botas nos pés, o jeans rasgado, um suéter elegante por cima e uma camisa de botões por baixo. Podia-se ver o colarinho, os punhos em azul royal. E, bem, ela havia trazido um pequeno ramalhete de flores rústicas e um cupcake.
Giulia se aproximou sorrindo, chegando até a mesa de Theodora.
— Posso fingir que não são pra você, se for causar constrangimento. Eu ia te esperar lá embaixo — O sorriso seguia.
— Mas são pra mim?
— Pra quem mais, Theo? Com quem é que ando de amorzinho há maior tempo?
Outro sorriso de Theodora. Achava agora que tinha se derretido inteira.
— Faz só 3 dias, Lia.
— Ei, minha linda: faz 6 anos, está bem?
Olhos brilhando. Sorriso brilhando. Aliás, achava que a palavra mais correta era glowing, mas não encontrou um equivalente justo em português.
— Eu quero as minhas flores. E o meu cupcake.
— Então, aqui estão. Flores irlandesas que estou cultivando na janela, você viu, né...?
— Na janela do banheiro!
— Mas elas são guerreiras, veja bem que lindas estão — Entregou para Theo — E o cupcake que fiz pra você.
Cupcake red velvet, diga-se de passagem, vermelho, com calda de cereja, a coisa mais bonita.
— Você faz os seus presentes. Sempre foi assim.
Giulia se abaixou junto dela, ao lado da sua cadeira.
— Tem mais significado assim. Eu te trouxe as flores e o cupcake para convidar você para ir jantar comigo. Naquele restaurante lá na primeira estação do Bondinho, sabe? Não abre sempre à noite, mas vai abrir hoje, com showzinho de rock nacional. Você aceita?
Theodora tocou o rosto dela e a beijou rapidinho, quase escondido. Estava no trabalho, mas aquele pedido merecia um beijo.
— O que você está fazendo comigo, hein?
— Agora, neste momento? Só te levando pra jantar. E depois te levando pra gente jogar videogame e dormir junto, se você ainda quiser grudar. É você quem diz, fada.
Disse sim. Para o jantar, o show de rock nacional, o videogame, o grude. Sim, sim para tudo isso.

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