Relicário 6
- Riesa Editora

- há 3 horas
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Ritual
A frente fria seguia uivando, mas não machucava. Não quando andavam o tempo todo bem pertinho uma da outra, muito agarradas. Giulia era mais alta, mais imponente, gostava de esquentar, de proteger, de mimar. Theodora estava se sentindo extremamente mimada e nem sabia direito se merecia todo aquele mimo. Mas ela estava dando com tanta atenção e carinho. Do cupcake delicioso às flores irlandesas que ficaram muito bem cuidadas na mesa de Theo, passando pela delicadeza de ter reservado uma mesa para as duas num lugar que ela simplesmente amava. Ir assistir ao pôr do sol no Bondinho era algo que Theo gostava de fazer ao menos uma vez por mês. O sol merecia ser exaltado, aplaudido, e ela adorava ir admirar. Mas isso, como tantas outras coisas, andava esquecido, sem ser praticado há um tempo.
O tempo exato, não sabia e nem precisava mesmo saber. Theodora sabia que andava obscura, sabia que todos andavam meio preocupados, inclusive ela mesma. Nunca havia se visto tão sem poder de reação como andava desde o seu término. E queria deixar pra trás. Essa marca, essa palavra.
Chegaram ao Pão de Açúcar e, infelizmente, o sol foi embora mais cedo, afinal, era outono. Mas a lua se propôs a subir quando elas pegaram o bondinho, e foi um presente igual. Theo assistiu nos braços dela. E Giulia a abraçava por trás, aquecendo, cuidando. Gostava dos braços dela em si, gostava da sensação de inclinar a cabeça para trás e encontrar os ombros dela, o quentinho, a tranquilidade. Chegaram lá no alto e pediram chocolate quente, para dividirem o cupcake antes de pedir o jantar.
— Tenho uma pergunta — Era Theodora, provando o bolo, que estava delicioso.
— Você, nas aulas, sempre tinha uma pergunta — Giulia abriu um sorriso, beijando-a rapidinho — Faz, fada, a sua pergunta.
Theodora se derretia quando ela se lembrava de tudo. Se derretia quando a beijava o tempo todo.
— Acho que nunca vi você bebendo nada alcoólico. Estou pensando aqui e, apesar de você estar em todas as baladas da vida, você não bebe, Lia.
— Você também não. Sempre foi minha companheira dos sucos e dos drinks sem álcool. Se não fosse você, eu me sentiria bem sozinha, viu, nesse sentido aí.
— Mas é opção?
— É uma opção. Bebi duas vezes na vida e foi traumático, descobri que a bebida desencadeava uma situação no meu cérebro, então é, é sim, uma opção — Giulia abriu um sorriso, e Theodora sentiu que não deveria aprofundar na “situação”. Podia ficar para outro momento.
— Eu gosto. Você sabe que... — Ia dizer que tinha esse tipo de desencontro com Camila, que adorava sua cervejinha todo final de semana, mas já chegava de falar da sua ex. Estava cansada de estar sob aquele guarda-chuva. Devia ter sido o tempo que passaram juntas, mas já estava bom, de verdade. Então encaixou outro assunto — Fiquei curiosa a respeito da sua saga em busca do apartamento. Encontrou algo que curtiu?
— Então, até gostei de dois lugares, mas um deles é caro demais e o outro é pequeno demais, sem luz solar. Fica mais difícil trabalhar as pinturas.
— Você... pretende ficar em Ipanema mesmo?
— Pretendo, sim. Adoro o clima e, se eu procurar direito, tem alguns aluguéis que são mais em conta — Pegou o cardápio para dar uma olhada. Já havia anoitecido e esfriado um pouco mais. A banda se arrumava no palco para começar a tocar.
— Então, a Beta estava falando hoje que está pensando em alugar o loft dela.
Giulia ergueu os olhos em sua direção, com um determinado sorriso no rosto.
— O loft dela que fica bem em cima do seu apartamento?
— É, esse loft. Na verdade, ela nunca se deu muito bem com a Camila, acabou que ela nunca mudou pra lá. E hoje ela me chamou pra falar a respeito, e eu pensei que...
Daí, Giulia se recostou na cadeira, abrindo um sorriso maior ainda.
— É o loft acima do seu apartamento, com uma escadaria que sobe pela sua sala — Disse, num tom sorridente, que foi deixando Theodora vermelha.
— Olha, é tudo ideia da Alberta. Ela me disse e eu achei que...
Giulia a agarrou e a beijou novamente, rindo demais.
— Theo, você está me chamando para morar quase junto.
— Então, é que você sabe que tem uma entrada independente, para quando você quiser passar com os seus contatinhos.
Giulia a beijou de novo, puxando-a para bem pertinho, sem parar de sorrir.
— Hum, quando eu passar com os meus contatinhos, e o que mais?
— Tem uma varanda, com luz solar — Theodora estava sorrindo, sentindo os beijos dela pelo rosto, os braços a agarrando pelo pescoço.
— Luz solar, importante para os quadros, para as plantas. O que mais tem lá?
— Tem alguns móveis, tem cama, a prataria dos meus avós.
— E beijinhos na minha vizinha de baixo? Acha que vou ter?
Theodora se derreteu mais uma vez. E daí lembrou de algo.
— Giulia, eu morro de ciúmes, meu Deus! Se eu te ouvir com algum contatinho, eu nem sei, vou ter uma coisa, então talvez não seja uma boa ideia...
Ela estava com aquele sorriso lindo, aberto.
— Humm, eu ter contatinhos, fada — Completou a frase de Theodora — É essa ideia que não é boa. Escuta, Theo, presta atenção: eu não tenho mais nenhum contatinho desde sábado.
— Lia...
— E vou ficar assim enquanto a gente estiver de boa, entendeu? Theodora Esposito é mulher de uma mulher só e eu quero manter assim. Quero ser esta uma mulher. Pode ser assim?
E o coração de Theo se liquefez todinho. A agarrou e a beijou muito longamente, a beijou, a segurou pela nuca, a manteve pertinho.
— Pode. Pode até mudar para o loft...
— Que tem a escada...
— Na minha sala. E a prataria da minha família. E a cama de pallet.
— Isso, a cama de pallet. Eu já dormi nela algumas vezes, lembra?
— Troquei o colchão recentemente. Nem estava esperando ninguém, mas acho que, de alguma forma...
— Você estava, sim. Eu estava. Faz seis anos que eu estava — Respirou pertinho dela, como quem não quer afastar nem um centímetro — Você me ajuda a arrumar tudo?
Theodora respondeu a abraçando muito forte, cheirando-a, sentindo-a tão perto.
— Achei que você podia não querer.
— Ficar perto de você? Achou? Preciso te provar mais umas coisinhas, não é?
Só algumas, coisa pouca. Theodora sabia de todas as suas inseguranças e sempre quis escondê-las, mas agora... agora não sentia que precisava. Escolheram o jantar, algo que ambas adoravam, e assistiram ao show de rock nacional cantando todas as músicas, regadas a bastante limonada e mais um chocolate quente, dividido, tomado muito agarradas, muito tranquilas. Tiraram muitas fotos naquela noite. Fotos divertidas, de amigas, de casal. Elas simplesmente apareceram, as fotos de casal, tal como Giulia naquele dia na praia: inesperadas e naturais. Estavam naturalmente um casal, e os olhos de Giulia, antes sempre em atenção plena ao seu redor, agora tinham apenas um pouso: Theodora. Seus detalhes, sua beleza. Ela havia saído tão bonita de manhã que, apesar de não ter conseguido tempo de ir buscá-la para almoçar, deu seu jeito de conseguir um jantar.
Não qualquer jantar. Um jantar gostoso, divertido, apegado e que havia rendido um convite para morar quase junto.
Um quase já era bastante coisa com Theodora, a que sempre correu com as coisas em baby steps, um passinho de cada vez. Primeiro colocava um pé, sentia a segurança e então movia o outro. Não era de correr, não precisava disso. Preferia fazer as coisas devagar e com segurança. Giulia havia decidido que iria no passo dela. E sentia que não iria se arrepender.
Voltaram pra casa, no caso, para o apart-hotel, agarradas como em todas as outras noites, agora cantando um rock nacional, uma completando a frase da outra.
— O que está acontecendo? O mundo está ao contrário e ninguém reparou — Giulia estava feliz.
— O que está acontecendo? Eu estava em paz quando você chegou.
Nem tudo estava. Mas Theodora agora sentia que estava, sim.
Foi um resto de semana bastante intenso. No dia seguinte, Giulia foi buscar as irmãs Esposito para almoçarem e combinarem como seria o tal aluguel, e teve a mais absoluta certeza de que o valor cobrado sequer chegava a ser simbólico, de tão gentil que Alberta se mostrou.
— Aquele loft foi feito para um artista. As histórias de família contam que nosso avô o construiu para que nossa avó tivesse onde tocar piano. Eles faziam verdadeiros saraus de música e leitura de poesia. Theo já contou sobre?
— Já, e precisa contar para este país inteiro no livro que ela não terminou de escrever ainda!
Não havia terminado, era verdade, e naquela noite, quando chegou do trabalho, já tinha uma jantinha bem nordestina lhe esperando, cujo pagamento era rever suas anotações. E seus tesouros de família.
— Olha esta foto aqui, eu adoro esta foto. Você imagina o escândalo para a época? — Era uma foto rara de seus bisavôs — A humanidade já teve muitos momentos ridículos, viu...?!
— E continuamos tendo ainda, infelizmente. Theo, sua bisavó era linda!
— Olha o que meu bisa escreveu aqui atrás: um vassalo e sua rainha — Leu, abrindo um enorme sorriso e vendo Giulia sorrir de volta.
— Você gosta de histórias de amor desde a faculdade. Escondia que gostava, mas vivia carregando um romance.
— Há um preconceito com quem gosta de ler romances, sabia?
— Outro degrau bobo da nossa sociedade! Mas me mostra, você havia começado a escrever...
— Tinha. Quer que eu leia alguma coisa?
Ela quis, e naquela noite Giulia pegou no sono ouvindo Theodora ler um livro de poesias, depois de já ter lido todos os seus escritos autorais do projeto. Dormiu no seu colo, e Theo quase não pôde dormir porque não conseguia parar de olhar para ela.
Começaram a mudança no dia seguinte, a empacotar coisas, arrumar outras, e a vida todinha de Giulia cabia em duas caixas, duas mochilas, uma maleta de ferramentas e uma única mala.
— E olha que acho que tenho muita coisa ainda. A ideia é ter menos, para não ter que perder tempo arrumando tudo.
Fazia total sentido. No dia seguinte, Theodora foi para o trabalho ainda em sua nuvem particular, de onde nunca mais havia descido, e quando chegou à noite, não pôde acreditar que o loft tinha sido pintado, o chão já estava lavado e brilhando, banheiro OK, cozinha também. E, além de tudo, tinha jantinha americana lhe esperando.
— Hamburguinhos, foi o que deu para fazer, fada.
Imaginou o que ela faria quando tivesse tempo. Jantaram e dormiram na cama de pallet, no loft mesmo, mas não antes de fazerem amor, não antes de terem mais uma noite regularmente intensa, de apego, de tesão, de descoberta. Fariam uma semana juntas e parecia que uma vida toda já havia se passado.
Giulia mudou no sábado e Theodora, claro, estava lá para ajudá-la. A arrumar as coisas, a instalar a TV que ela havia comprado. Como ia jogar videogame sem uma TV? E quando sua vizinha não estivesse a fim de lhe emprestar e tal? Ah, sim, de móveis ela tinha uma cadeira gamer, o conteúdo de uma das caixas e, em seis horas, havia reinstalado a bancada e nela construído um canto alemão, onde poderia fazer refeições e usar o computador.
— Está vendo estes círculos aqui dentro? — Giulia estava mostrando as marcas internas de um pedaço de tronco de árvore — São marcas de crescimento. Cada círculo desse equivale a um ciclo de crescimento, não necessariamente doze meses do ano humano, mas os meses que cada espécie leva para se desenvolver num ciclo inteiro, que pode ser menos ou mais de doze meses. E olha todos estes anéis aqui, é para venerar, não é? Nós também temos estas marcas dentro dos nossos ossos. Quando cortamos um osso, é possível fazer este cálculo de idade e saber por quanto tempo ele fez parte de um ser vivo.
Ela era delicada, inteligente, charmosa demais.
E Theodora nunca na vida havia visto alguém conseguir um emprego com tanta facilidade. Achava que tinha sido no segundo dia em que ela tentou. Pegou um pouco do seu trabalho, fez um lindo portfólio e, na quarta-feira, saiu de uma entrevista de emprego já com carteira assinada.
Giulia Arraes iria trabalhar numa galeria no Leblon, na curadoria de artistas independentes, e tudo ia muito calmo, muito tranquilo. Os dias seguiam bem, dentro de um novo normal, como se sempre houvesse sido assim, como se sempre tivessem estado naquela rotina, naquela configuração. Giulia conseguiu um emprego de seis horas por dia, o que lhe dava um espacinho para voltar pra casa e fazer suas coisas, seguir com seu trabalho no ateliê. E, falando nisso, o loft, no final das contas, estava servindo apenas de ateliê mesmo, porque, após a primeira noite, estava bom. Giulia já havia sido respeitosa o suficiente para Theodora. Já era hora de sua cama passar por um ritual.
Era apenas uma cama. Que um dia havia sido de um casal e que agora pertencia a outro.
Casal. A nomenclatura caiu bem, natural e silenciosa. Não falavam sobre, apenas sentiam que tudo estava assim.
E deve ter acontecido na terceira semana delas.
Era final do mês e as contas deram uma apertada básica por conta da mudança, do início do apego. Por que eram desse jeito? Inícios de apego? Cheios de saidinhas, jantares, um cinema não fazia mal. Enfim, o final do mês apertou, e decidiram revezar o patinete. Em um dia, Theodora ia trabalhar nele, no outro, ia Giulia, e assim economizavam alguma coisa em transporte enquanto o carro de Theo não ficava pronto. Era outra dor de cabeça. Uma peça faltava e então outra, então surgia outro problema, coisas de veículo acidentado. Nada demais. Andavam tão imersas uma na outra que absolutamente nada era problema.
Mas a rotina tranquila de namoro não nomeado, de nomenclatura silenciosa de casal e das idas para o trabalho de patinete foi subitamente interrompida.
Era um dia feio, frio, outra manhã de uivos assustadores, daquelas de fechar o bondinho na Urca. Theodora lembrava de ter tido um pressentimento quando Giulia insistiu para ir de patinete. Então, Giulia saiu para o Leblon, Theodora partiu para Copacabana e, quando subiu para pegar um café, para dar uma esquentada antes de começar a trabalhar, seu celular tocou.
E não houve tempo nem para um pensamento antes de descer correndo.

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