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Relicário 7




Relicário


Não lembrava da última vez que havia ficado tão nervosa com algo, mas Theodora desconfiava que isso também já fazia muito tempo.


Abandonou o café assim que recebeu a ligação e, quando desceu correndo, não lembrou de nada. Apenas pegou a bolsa e saiu às pressas, já chamando um Uber em meio a uma tempestade de uivos, raios e trovoadas, um cenário que não tranquilizava em nada o seu coração já nervoso. Encontrou o carro e, enquanto ele seguia para o hospital, milhares de pensamentos negativos invadiram sua cabeça de uma só vez. O tempo de cada coisa, as chances que a vida dá, os enroscos nos fios de Ariadne. Desceu com as mãos trêmulas, entrou naquele hospital lotado, confuso, e achou que jamais fosse encontrar Giulia lá dentro, cercada por pessoas desinformadas, apressadas ou que simplesmente não lhe deram ouvidos quando ela só precisava de uma informação.


Tinha outra questão: tinha pânico de hospitais. Nunca havia lidado bem com aquilo. Fora uma criança que frequentou muitos pronto-atendimentos e, em determinado momento, foi vencida. A ansiedade apertou a mão em sua garganta e, quando deu por si, estava abaixada em um canto, respirando muito fundo, tentando se acalmar. Precisava respirar, se acalmar, e enquanto repetia esse mantra em sua mente, uma mão pousou em seu ombro:


— Theo?


Ergueu os olhos e era Camila. Uniformizada, bem-arrumada e surpresa por estar encontrando Theodora ali.


— Camila, ei... — Levantou-se, respirando fundo, tentando acalmar a mente incendiada.

— O que você está fazendo aqui? Está tudo bem?

— Eu não sei se está. Me ligaram, a Lia sofreu um acidente, mas este lugar está lotado e eu não consigo nenhuma informação!

— Calma. A Giulia...?

— É, é ela, e ninguém me ajuda, ninguém me informa!

— Tudo bem, calma. Fica quietinha aqui, eu vou lá dentro ver se consigo encontrá-la.


Ela foi, e Theodora sequer lembrou de perguntar o que Camila estava fazendo ali. Devia ter vindo trazer algum paciente, algo assim, mas, naquele momento, a única pergunta válida em sua mente era onde estava Giulia e como ela estava. Não via a hora de tirá-la dali, de entender o que havia acontecido, de saber se ela estava bem, porque... porque ainda não sabia de nada. Como ela estava, se estava tudo bem, se tinha se machucado, se era sério. Ninguém dizia nada. Baixou a cabeça, respirando fundo, sentindo o coração apertado, os pulmões comprimidos, e o choro veio de novo, subindo pela garganta. Quando se deu conta, já estava escorrendo pelos seus olhos.


— Ei, Theo, ei... — Camila abaixou-se perto dela, já de volta, a tocando nos braços — Encontrei a... Ela... Vocês já são algo? Além de amigas, quero dizer.

— Camila...

— Péssimo momento, desculpa. Olha, eu liguei para a Beta vir pra cá, você não lida bem com hospitais.

— E a Giulia? Onde ela está? Você a achou?


Camila abriu um sorriso brando.


— Achei. Demorei um pouquinho para estabilizá-la antes de... de você poder vê-la.

— Ela está estável, então?

— Está. Está com alguns machucados, mas nada sério. Ela é muito forte, né? Caiu, mas caiu se defendendo, brigando, não permitindo que nada mais grave acontecesse. Ela conseguiu cair para o lado da calçada, não para o lado da pista. Seria perigoso.

— Então eu posso...?

— Entrar para vê-la, sim. Eu... eu te levo até ela, vamos lá.


Foram, passando pelas paredes frias daquele hospital feito de dor e nervos à flor da pele. Theodora tinha arrepios quando pensava em hospitais, não sabia como Camila conseguia, ainda mais sendo médica emergencista. Ela era forte e sempre repetia que seu trabalho era mais coração do que dor, mais adrenalina do que medo, que aquilo a mantinha atenta, presente no momento. Ela levou Theodora até a porta da enfermaria onde Giulia estava e perguntou:


— Você sabe o que aconteceu com ela? Ou sabia que podia acontecer...?


Theodora se deu conta de uma coisa.


— É algo que acontece de vez em quando? Não foi a primeira vez?

— Não foi. Eu só quero saber se você sabia disso — Camila perguntou, preocupada.

— Não. Eu não teria... deixado não é a palavra, a Lia não é desse tipo, mas não teria sido displicente com ela.

— Não foi. E ela ficou muito sem jeito quando me viu. Acho que isso pode ser um problema para ela. Perguntou se estava bonitinha antes de deixar você entrar, então sei que nem preciso te pedir, mas capriche na delicadeza. Ela precisa de você delicada e dócil, do jeito que sei que você é.


Theo trocou um abraço com Camila.


— Se a gente precisar de você...


Camila abriu um sorriso. “Se a gente precisar.”


— Eu venho. É claro que venho.


Despediu-se dela e entrou na enfermaria. E só de ver Theodora caminhando firmemente em meio àquela enfermaria lotada, Camila percebeu que ela realmente estava diferente. Nem estava vendo a enfermaria, só buscava Giulia com os olhos. A encontrou no final do corredor, uma moça teimosa tentando sair da cama sozinha. Theodora, delicadamente, pegou a mão dela.


— Ei, você, fugitiva, onde pensa que vai?


E Giulia abriu um sorriso ao vê-la tão perto. Um sorriso. As mãos encontrando os punhos dela. Os olhos parecendo olhos de quem havia acabado de levar um caldo em Ipanema, daqueles no fosso perto da areia que ninguém percebe. Ela estava machucada, suja, com a jaqueta jeans mastigada pelo asfalto, ferida na testa e com a mandíbula toda ralada, o que deixou Theodora...


Meu amor — Sentou-se no colo dela, mantendo-a onde precisava, impedindo-a de fugir e oferecendo um monte de apego.


Giulia apertou os braços ao redor de Theo, deitando a cabeça no ombro dela, afetuosamente. Precisava de sua garota por perto, caramba, como precisava.


— Ei, minha linda, eu estou bem, tá? Eu pedi pra Camila esperar um pouco para...

— O quê? Mais um pouco para eu poder te ver? Estou tão preocupada, Lia. Acha que eu deixaria passar mais algum segundo sem saber como você está?


Giulia se derretia.


— Eu queria ter ao menos lavado o rosto, me sinto meio babada ainda.


Theodora sorriu.


— Isso não importa. Não importa mesmo — Beijou a testa dela e se colocou de pé outra vez, analisando onde ela tinha se ferido mais — Me fala o que você machucou. É só o que estou vendo mesmo?

— Ah, Theo, acho que foi só por onde os olhos estão pegando mesmo. Eu estava de jaqueta, meu rosto foi o que machucou mais e eu realmente devo estar babada ainda — Ela abriu um sorriso. Estava envergonhada, desconcertada, e tudo o que Theodora queria era apenas tirá-la dali.

— Vamos, eu ajudo, te levo até o banheiro. Já podemos ir pra casa? Cadê o seu médico?

— A única médica que me atendeu foi a doutora Camila Mendes, que, aliás, foi maravilhosa. Acho que só passei por enfermeiras desde o momento em que cheguei aqui, muito atenciosas, por sinal.


Hospitais públicos. As minorias seguiam desfavorecidas séculos depois, até no básico, que deveria ser simples.


— A doutora Camila disse que já podemos ir. Você se sente bem para caminhar?


Giulia afirmou que sim, podia caminhar.


— Então vamos pra casa.


Theodora buscou Camila novamente e, daquela vez, Alberta já estava presente, muito preocupada também. Já tinham cuidado da liberação de Giulia. Ela não havia quebrado nada e, apesar de a raladura na mandíbula ser feia, era apenas uma raladura mesmo. Camila pegou a autorização de saída e terminou o atendimento no carro de Alberta, lugar mais calmo, mais arejado, fora do pico de estresse que era o hospital. Era por Theodora, Giulia sabia, e a energia estava diferente ali. Não sabia explicar o que era, e nem estava em condições de analisar muito. Seu corpo inteiro doía, sua cabeça também. Giulia só queria um banho quente, acalmar a mente, apagar aquela manhã. E Camila foi extremamente gentil, precisava assinalar. A examinou novamente, criteriosamente, seus movimentos, seus reflexos, tudo parecia OK. Receitou algumas medicações para dor e:


— Chá de maracujá com camomila vai ajudar bastante. Beta, você leva as meninas?

— Vou fazer melhor, fiquem com o carro vocês duas. Se precisarem de algo, terão como resolver mais rápido. Deixo você de volta na sua ambulância, Camis.

— Não precisa.

— Precisa sim, prima. Vou pedir um Uber.


Alberta pediu o Uber, enquanto Theodora e Giulia partiram com o carro pra casa.


— Você sabe que eu não ia... — Camila começou, bem sem jeito.

— Eu sei, é claro que eu sei. Mas é que... Camila, a Theodora acabou de sobreviver a você — Alberta falou, num tom leve, o que fez Camila rir.

— Parece que está falando de um Katrina, algo assim.

— Não deixa de ser. Foi muito difícil pra ela. Você só foi em frente, é o que faz desde sempre, eu sei, mas a Theo levou um tempo para se colocar de pé.

— A Giulia não é algo muito inconstante para ela se apoiar?

— Aí que está. Giulia deu a mão para ela se levantar, mas a Theodora se colocou de pé sozinha. Você sabe que tanto o que você sentia quanto o que a Theo sentia no relacionamento de vocês já era apenas um sentimento-fantasma. Um fantasma daquele sentimento extraordinário do começo, lá do primeiro beijo, com qual idade...?

— Quatorze.

— E do namoro não nomeado da adolescência. Lembra por que vocês demoraram tanto tempo para namorar?

— Parecia grande demais, inconstante demais para caber num rótulo.

— O rótulo só veio aos vinte e dois anos. Daí ficou extraordinariamente sério de repente. Assustou todo mundo, principalmente a nossa família. E quando vocês duas romperam... sei que doeu de verdade. Como um músculo rasgado ao meio, com vasos sanguíneos destruídos e fibras rompidas. Mas depois isso fechou, você foi em frente, mas a Theo ficou agarrada numa dor que agora também era apenas um fantasma. Sei que dá medo vê-la finalmente indo em frente, mas você não ama mais a minha irmã. Não como amante, noiva, namorada. Um amor de porto seguro sempre vai ser bom, mas, sozinho, não pode ser suficiente. É preciso mais. Tempestades e calmarias.


Camila lagrimou.


— Acho que entendi o que você está dizendo. Obrigada por isso. Por evitar que eu seja só egoísta.

— Você não é. Nunca foi. Não vai se tornar agora. Vem aqui — Alberta a abraçou — Eu amo você. Desculpa se em algum momento transpareci algo diferente.

— Eu sei que ama, eu amo você também. Acho que a Theodora se apaixonou pela Lia à primeira vista, Beta. Ela só não entendeu que havia sido assim.

— Você sentiu isso desde o começo.

— Senti, eu brinco a respeito, mas tinha uma energia.

— E a energia viaja — Alberta disse, um pouco mais leve.

— Viaja. Viaja sim.

Theodora parou num mercado antes de ir pra casa. Pegou algumas coisas para fazer uma sopa porque, além de tudo, Giulia seguia fria, muito gelada, com bastante frio. Passou na farmácia também, comprou os remédios e, assim que chegaram em casa, fez questão de ajudá-la no banho. Ela ainda estava zonza, desnorteada, e seguia muito sem jeito. Cuidou dela no banho, depois a colocou na cama, fez a sopa e, quando foram comer, sentou-se bem pertinho. E os olhos de Giulia encontraram os seus, curiosos, acalentadores.


— Quer saber o que aconteceu, não é?

— Acho que sei o que aconteceu. Você se sentiu mal e caiu do patinete. A questão toda é: por que ir de patinete se você pode se sentir mal e cair, Lia...?

— Então, é que nem sempre eu me sinto mal assim. Isso é uma coisa que acontece, mas não acontece sempre.

— O que você tem? Convulsões aleatórias, epilepsia...? Eu não sei os nomes exatamente.


Giulia respirou fundo. Nunca seria fácil falar sobre.


— Epilepsia. Foi o diagnóstico final.

— E você vai pra balada usando máscara de LED, amor. Como assim? Eu sempre ouvi que luzes podem causar convulsões.


Ela sorriu.


— Tem essa situação também. As luzes nunca me fizeram mal, nem o videogame, ou o computador. Mas as duas vezes em que ingeri álcool na vida deu muito ruim.

— Então é por isso que...

— É por isso. O álcool acelera a minha atividade cerebral, mas não é o único gatilho. Eu não conheço os outros gatilhos, na verdade. Hoje, por exemplo, nada significativo aconteceu.

— Você acordou com dor de cabeça.

— Acordei, mas isso... — Giulia pensou melhor — Bem, isso pode ser algo que devo anotar. Não dirigir com dor de cabeça.


Theodora a olhava. Aproximou-se e a beijou, carinhosamente, doce, delicada, toda apegada porque o susto que havia levado... Respirou fundo, tocando o rosto dela, a testa dela com a sua.


— Por que você nunca me disse nada? Não agora, mas nos quatro anos que passamos juntas antes. Por que nunca disse, Lia?

— Ah, Theo, é que... — A puxou para junto, mantendo-a muito perto de si. Ainda estava trêmula por dentro, do susto, da dor, da confusão e pelo que podia ter acontecido — É uma situação esquisita, nem todo mundo reage bem.

— A uma crise epilética?


Giulia sorriu.


— A uma pessoa tendo uma crise epilética. É assustador, eu sei disso muito bem. Isso tudo começou quando eu tinha uns treze anos e, com uns dezesseis, eu tive a minha primeira namorada, e ela era tão apaixonadinha por mim, você tinha que ver — Seguia contando, sorrindo — Então, com uns dois meses de namoro, a gente estava numa festa e eu bebi pela primeira vez na vida, e uma crise aconteceu. E aquela menina toda apaixonadinha por mim passou a ter medo de ficar sozinha comigo.

— Medo? Mas como assim, medo? É uma crise, algo de uma doença, não é algo que você tenha controle ou não.

— Eu sei disso, ela também sabia, mas traumatizei aquela menina. Não foi culpa minha e nem dela. É que você não viu acontecendo, Theo, daí entenderia melhor o medo.


Theodora pegou a mão dela e beijou.


— Eu vi sim.


E Giulia a olhou surpresa.


— Você... viu?

— A pessoa que me ligou, ligou por vídeo. Queria ter certeza de que era alguém que conhecia você — Theodora respirou fundo — Ele ligou para mim porque eu era o último número discado no seu celular. Não porque tinha alguma identificação, algo que deixasse claro que sou o seu contato de emergência.

— É que acaba que eu não tenho isso. Já me disseram que preciso ter, em caso de algo assim acontecer, mas...

— Você é teimosa, eu sei. E deve ter aprendido a esconder tal informação porque, um: algumas pessoas reagem com medo e, dois: outras reagem com superproteção. Eu não serei nem uma coisa nem outra. Mas quero reagir cuidando de você. Eu pedi para a Alberta ir à oficina, fazer andar o conserto do carro. Eu não quero mais você andando de patinete por aí, Lia.

— Theo... — Giulia abriu um sorriso luminoso, olhos brilhando.

— Eu não quero, meu amor. Se posso cuidar disso, me deixa cuidar, está bem?


Giulia a abraçou.


— Eu não acredito ainda que estou ouvindo algo assim de você. A minha paixão de tanto tempo, que parecia tão inalcançável e...

— De mim, apaixonada por você igualzinho, da mesma forma. Mas acho que você ainda não acredita nisso direito, então decidi me colocar em uma posição de perigo.

— Sério? Como assim, fada, em posição de perigo? Você detesta...

— Estar vulnerável, sem saber direito da... — Theo abriu um sorriso — reação das pessoas a uma vulnerabilidade minha. Bem, eu tenho uma aqui.

— Você vai me contar? Em troca desta que entreguei pra você e tal?

— Parece justo.

— Parece mesmo, vamos, me conta a sua — Giulia já estava mais animada, leve.

— A minha vulnerabilidade aqui é que estou apaixonada por uma garota. E não sou o contato de emergência na agenda dela.

— Theo! — Giulia caiu no riso.

— E deve ser porque eu não estou fazendo as coisas direito com ela. Apesar de ter insistido pra ela ficar com o loft acima do meu apartamento e tudo — Estava sorrindo, Giulia também estava — Você sabe que eu não sou de ficar com ninguém.

— Hum, espera, isso é verdade. Mas não foi você quem cometeu o erro.

— Ah, não foi?

— De jeito nenhum — Giulia amarrou os cabelos curtos num coque samurai — Você notou que seus machucados acabaram de curar da batida de carro e agora tenho uns aqui pra gente seguir tendo cuidado na hora de namorar, né?


Theodora riu, a beijando mais uma vez.


— Eu vou cuidar.


E Giulia cruzou os olhos.


— Está na hora de a gente namorar. De verdade. Quero um coração do lado do meu nome no seu celular, fada.

— Vai carregar um cartãozinho dizendo que o seu contato de emergência é a sua namorada?


Giulia se derreteu. A beijou e beijou de novo, e beijou mais uma vez, porque realmente tudo ainda parecia irreal.


— Vou carregar.

— Ok — Os olhos de Theodora não paravam de brilhar — Não que isso tenha influenciado em algo mais, o andar de cima será oficialmente apenas estúdio, tá? Eu quero você aqui embaixo, comigo, quero seu nome lá na caixinha de correspondência do apartamento sete.

— Theodora Esposito e Giulia Arraes, que casal, hein?! Aquela caixa de correio vai tremer com tanto peso assim.

— Vai, não vai?! — Theodora seguia agarrada nela, toda enroscada, com cuidado, mas agarrada — A gente está namorando e depois...?

— Quem sabe o depois? Sei o agora, meu amor, e o agora é que... — Os olhos de Giulia se encheram — Quando recuperei a consciência no hospital, eu só queria que você aparecesse. Então a gente pode só...

Namorar — Theodora lagrimou — Até dezembro, ao menos?


Giulia riu, perdendo outra lágrima.


— Até o Natal, pode ser. Depois a gente faz outros planos, parece ótimo pra mim.

— É que é o sonho da Alberta ter você num Natal da nossa família.


Agora Giulia gargalhou.


— Eu vou de qualquer jeito, tá? Ainda se você desgostar de mim como namoradinha.


Theodora a beijou novamente, longamente, com um sorriso que não saiu mais da sua boca. Não achava que desgostaria. De jeito nenhum parecia.


Muitas coisas mudaram naquela semana. O pedido de namoro foi levado muito a sério, e quem levou mais a sério, de fato, foi a felicidade das duas. As duas queriam, as duas estavam com medo de pedir, vulneráveis demais, e isso foi algo novo para Theodora, que jamais achou que Giulia pudesse ter vulnerabilidades também. Bem, ela tinha e precisava de cuidado, de atenção. Levou uns dois dias para se recuperar do abalo sísmico mental que uma convulsão causava nela. Era algo que machucava e, é claro, assustava. O coração de Theodora quase parou no peito quando recebeu aquela ligação e viu Giulia derrubada na calçada, sem nenhum controle do próprio corpo. Então cuidou dela, deu um jeito de receber seu carro no dia seguinte e de deixá-la confortável de todas as maneiras possíveis.


Cuidou das refeições, dos lanches, pediu para trabalhar de casa por dois dias, apenas para não a deixar sozinha. Queria ter certeza de que Lia realmente estava bem e queria se acalmar, porque o susto de tudo o que havia acontecido foi um enorme divisor, um esclarecedor de sentimentos, acendeu um holofote em sua mente sobre o quanto estava envolvida por ela, o quanto estava apaixonada, o quanto a queria bem. E, naqueles dias, Theodora fez questão de fazê-la entender que era assim, quis mostrar a profundidade de tudo, todas as suas vulnerabilidades, e passaram os dois dias agarradas. E os que vieram a seguir foram simplesmente mais intensos do que a primeira semana que tiveram. Foi como se o mundo inteiro tivesse desfocado e elas ficassem apenas uma na outra, no amor, na paixão, no apego que estavam sentindo. E, quando o mês virou, as coisas estavam tão bem que Theodora sequer se deu conta de que algo estava vindo.


A semana havia sido intensa. Era uma semana importante para Giulia, sua primeira exposição aconteceria na sexta-feira e ela não parou sequer um segundo. Uma rotina nova havia surgido, muito mais apegada, muito mais de pertinho. Elas revezavam o carro, se deixavam no trabalho, se encontravam para almoçar e os jantares em casa seguiam a coisa mais gostosa da vida. Cozinhavam juntas e então iam comer assistindo a algum filme, alguma série ou jogando, online ou no videogame, e era leve, era divertido, era dengoso demais. Pegavam uma praia juntas ou saíam com uns amigos. O sábado era reservado geralmente para uma balada e, como a semana havia sido corrida, decidiram se dar uma balada de presente naquele final de semana. Para se curtirem e para comemorarem a primeira exposição organizada por Giulia, que havia sido um verdadeiro sucesso.


E foi nesse retorno que Theodora acabou sendo surpreendida por algo que não sabia que ainda estava ali. E não, a surpresa não foi ver Camila trocando beijos com a passista em um barzinho perto do seu apartamento. A surpresa foi o que ver aquele beijo lhe causou.


Giulia estava dirigindo, mas viu o que Theodora havia visto e viu o que aquela visão havia causado nela. Ela tentou disfarçar, é claro que tentou, inclusive baixando sua máscara de LED do nada para o rosto, o que fez Giulia rir.


— Ei, fada? Amorzinho, o que foi?

— Nada, é só... alergia.

— Ah! A máscara ajuda na alergia, é claro que ajuda, são hipoalérgicas, havia esquecido — Giulia disse, sorrindo, enquanto fazia a curva e parava à frente do prédio que já era delas, de casal, claro que era. Esposito e Arraes estava escrito na plaquinha. Giulia já estava com os cabelos escuros novamente e estava toda de preto, um charme à parte no meio daquela madrugada.

— Para de rir de mim, linda.

— Paro, mas só se você me der um beijinho, vem aqui — A puxou pela nuca, subiu a máscara dela e a beijou longamente, toda cheia de carinho, apego e compreensão. Giulia era toda feita de coisas bonitas — Aqui, fada, agora fala pra mim, o que você está sentindo?

— Não foi nada, é que, de repente...

— Theodora, você não tem que mentir pra mim, está bem? Sei o que você viu, eu vi também, sei que ficou esquisita com isso. Qual é o problema? Vocês namoraram, sei lá, desde os treze anos, é normal.

— Não é normal, Lia. Quero dizer, eu estou tão bem com você, já estou até insegura sobre quando você vai me deixar. Você sempre deixa todo mundo.


Giulia riu e a beijou, muito carinhosa, muito deliciosa. Por que ela tinha que ser deliciosa daquele jeito?


— Eu não estou pensando em te deixar, nem um pouquinho. Lembra que eu disse “até o Natal”? Falta tempo ainda — Ela disse, fazendo Theodora rir mesmo contra a própria vontade.

— Para! Você não vai me deixar no Natal. Estou muito apaixonada, muito apegada, muito feliz. Eu nem sei o motivo disso daqui, e...


Outro beijo de Giulia. Ela sempre a beijava gostoso em momentos tensos, que deixavam de ser tensos apenas por causa daqueles beijinhos.


— Eu te esperei por seis anos, Theodora, não vai ser assim, está bem? Não tem dezembro, não tem data, só tem a gente, fada. Eu e você. Somos boas juntas, não somos?


Theodora a puxou pela jaqueta, para mais pertinho ainda.


— Gostei de ouvir isso, linda.


Giulia cheirou os cabelos dela, sorrindo.


— Então, meu amor, qual é o problema?

— Eu não devia mais me sentir assim pela Camila.

— Theodora, presta atenção: você e a Camila construíram uma vida juntas, uma vida mesmo. Seis anos de namoro oficial, mais todo aquele tempo de namoro adolescente. Isso tudo não vai desaparecer em meses, os sentimentos não funcionam assim. Não é porque a gente está namorando, não é porque está gostoso, que a feiticeira da Camila será automaticamente eliminada do jogo — Disse, a fazendo rir — Você abriu uma janelinha no seu coração e eu passei pra dentro, mas é só um espacinho mesmo, por enquanto. Voltei da Irlanda com um espaço maior, então você já está mais confortável dentro de mim. Mas você... são todos os dias, amorzinho. Todos os dias você vai deixar a Camila ir embora um pouquinho mais e eu vou ficar mais confortável dentro de você. O que você sente por mim vai ter mais espaço e as ansiedades que ela possa causar vão reduzir, até ficarem apenas as coisas boas, num cantinho onde caibamos nós duas sem problema nenhum. A cura que você procura não sou eu, Theo, e também não é a Camila, não é ninguém. É você mesma.


Theodora pensou consigo. Parecia fazer total sentido.


Abraçou Giulia muito forte, não fazendo ideia de quando Camila iria embora, mas extremamente grata por Giulia estar ficando. E foi quando, finalmente, algo mudou em sua mente e “ir embora” perdeu o peso. Não podia ser mais importante. Ir embora nunca seria mais importante do que ficar. Trocou o ir embora por permanência e o peso de tudo evaporou no ar, feito pó de fada.


Não havia cura. E nem precisava dela.


Havia um ritual. Uma passagem mágica de uma coisa para outra. Nas próximas semanas, conheceram melhor a nova namorada de Camila. A moça se chamava Larissa e era estudante de veterinária, ativista de causas sociais. Tinham tanto em comum que não poderiam combinar mais. Theodora sequer conseguia imaginar que poderia existir alguém assim para Camila. Como também relutou em imaginar que sim, havia outra pessoa perfeita para si mesma no mundo e, mais do que isso, já a conhecia, só não havia se dado conta.


Fantasmas. Curas. Rituais.


Os meses foram se passando tão suaves que mal puderam perceber. Os dois anos anteriores haviam sido pesados, de pandemia, coisas novas que nunca haviam vivido antes, e aquele ano atual parecia simplesmente um presente, uma coisa boa, doce, de reinauguração da humanidade. Aos poucos, Giulia foi se tornando mais artista do que curadora na galeria e seu trabalho era algo que enchia Theodora de orgulho, lhe inspirava, empolgava a criar. O projeto do seu livro foi retomado assim que Giulia recebeu um convite para uma exposição de seus quadros, que encontravam compradores tão facilmente quanto os móveis medievais que fazia, as portas, os pequenos objetos de madeira. A escrita de Theodora nunca havia vindo com tanta facilidade. Os artigos estavam maravilhosos, sendo parabenizados sempre. Ela estava ganhando cada vez mais destaque nas crônicas e o seu livro-sonho ia muito bem, obrigada. E, em dezembro, quando estavam completando cinco meses de relacionamento, Giulia apareceu com uma proposta:


Por que elas não iam para o Peru?


Não encontraram objeções e lá se foram, no segundo dia de férias de Theodora, para uma viagem maravilhosa direto para a cidade de Cusco.


Theodora nunca conseguiria resumir aqueles dias. Explicar o quão especiais foram cada uma das sensações. Cusco era mágica, o Vale Sagrado dos Incas nem se fala. Sentiram a conexão com aquele lugar, respiraram a magia de Machu Picchu e os dias em que decidiram apenas não fazer nada, só andar pelos lugares, captando a energia... Não, jamais conseguiria explicar. E talvez, ainda assim, fosse mais simples explicar a conexão com o lugar do que explicar a conexão entre Giulia e Theodora.


Sabiam que estavam ligadas, conectadas, em conexão direta uma com a outra, mas aqueles dias ali...


Theodora havia passado quase uma noite inteira acordada pensando nisso. Na noite em que decidiram dormir num camping, numa barraca, enquanto observavam o céu de Cusco em busca de sinais alienígenas. Foi uma noite linda, divertida demais, em que riram o tempo todo, fizeram uma fogueira, assaram marshmallows, um chocolate quente cremoso para lembrar a primeira semana delas. Depois, dançaram com suas máscaras de LED numa festinha improvisada com alguns peruanos, umas irlandesas — elas pareciam seguir Giulia por todos os lugares — e, quando foram para a barraca e fizeram amor...


Theodora não pôde dormir.


E achava que só conseguiria dormir novamente após deixar muito claro para Giulia o que, de verdade, pretendia com ela.


Faria uma impetuosidade.


Voltaram pra casa cinco dias antes do Natal, a festa mais tradicional da família Esposito, onde sua avó preparava todos os quitutes italianos aprendidos com o patriarca órfão lá da roda dos expostos. Theodora tinha um presente especial para toda a sua família: o livro que misturava a história da escravidão no Brasil e suas memórias familiares havia ficado pronto. Sua própria revista fez questão de publicá-lo e ela não via a hora de entregar a todos o seu primeiro livro da vida. Estava muito feliz. Giulia estava muito feliz e havia recebido um pedido especial de Theodora:


Ela havia pedido para que fizesse um relicário.


Especial, de alguma madeira com um aroma gostoso. Não precisava ser grande, na verdade, o queria da dimensão de uma caixinha, que coubesse um presente, uma joia. Ela podia fazer? Com símbolos incas e astecas, e um disco voador? Giulia começou a rir quando ela pediu o disco voador, mas era sério. Ela queria assim. Era um presente especial e, sendo assim, fez com o maior cuidado e talento que podia existir na vida.


E o dia 24 chegou. Haviam assado alguns biscoitos para levar para a ceia e, enquanto Theodora arrumava os biscoitos devidamente confeitados, Giulia cuidava dos últimos detalhes do pequeno relicário. Lá estava, feito de madeira de pinheiro e cheio de símbolos solares, incas, astecas, linhas de Nazca e, é claro, discos voadores.


— Você sabe a origem dos relicários, não é? — Theodora perguntou, arrumando os biscoitos e olhando Giulia trabalhar. A coisa mais linda possível, de short curto, camiseta azul, o coque samurai nos cabelos, os traços albaneses e nordestinos. Era louquinha por ela. Olhava apenas para confirmar e, com ela trabalhando com as serras e as talhadeiras, no meio da madeira, nem sabia.

— Origem religiosa, né? A mãe de Alexandre, O Grande, foi uma das primeiras a recolher relíquias religiosas e a guardar nesses relicários.

— É, é isso mesmo, mas também relicário quer simplesmente dizer lugar para guardar relíquias, de qualquer origem — Apertou os lábios, chegando mais pertinho dela, e Giulia sorriu. Theodora notou — O que foi?

Você. Fica linda nessas camisas brancas, eu fico toda perdida, fada.


Mais sorrisos.


— Ainda fica?

— E vou ficar sempre — Giulia se inclinou para beijá-la rapidinho — Continua falando do relicário — Voltou os olhos para os últimos detalhes da peça, as portinholas abertas, o lugarzinho para a joia lá no meio.

— Então, relicários, na verdade, servem para proteger qualquer tipo de relíquia. As religiosas, joias, pedras preciosas, e eu fiquei me perguntando também se não seria o lugar ideal para se guardar um sentimento.


E Giulia sentiu um movimento e então seus olhos foram automaticamente atraídos e se encheram. Imediatamente. Porque Theodora estava ajoelhada na sua frente, segurando um pingente em ouro branco de Apu Inti, o deus Sol dos Incas.


— Um sentimento de seis anos e seis meses, o que você acha? Não é ideal para guardar aí?

— Theo... — As mãos estavam trêmulas, a voz também. Então, Theodora, sorrindo e lagrimando, pegou o relicário das mãos dela e colocou o pingente do Deus Sol lá dentro. Coube perfeitamente.

— Ficou perfeito, não ficou? É seu presente de Natal, meu amor. O sentimento guardado aqui, esse que a gente cultivou por todo esse tempo, mesmo quando eu não entendia, não via, ele sempre esteve aqui, sempre foi você e talvez eu tenha me cegado tanto por estar aterrorizada de saber que eu estava apaixonada por você, que era a minha pessoa, e... — Sorriso, mais lágrimas, pegou a mão dela, e um anel brilhou aos olhos de Giulia.

Fada... — Ia ter um troço.

— Este presente aqui é pra mim. Claro, se você quiser me dar, né? Mas é que... sabe, meu amor, eu cresci tanto em tão pouco tempo com você ao meu lado. Acho que nunca na minha vida me diverti tanto, nem fui tão saudável, nem tão feliz. Eu amo você. Isso não é um segredo. Eu chorei sozinha um final de semana inteiro quando você foi para a Irlanda e nunca disse pra ninguém, nem pra mim mesma, porque, se eu verbalizasse, teria que explicar para o meu maior carrasco o que se passava: eu mesma. Agora eu já verbalizei, lá naquele dia em que fomos caçar OVNIs de madrugada e me expliquei o motivo, e olha, se depender de mim, esse motivo nunca mais vai voltar a se mostrar. O motivo era: e se eu tivesse te perdido? Eu não quero perder você. E nem marcar uma data. Mas eu gostaria de te pedir um presente, eu posso?


Giulia já estava com o rosto todo molhado.


— Pede, fada.

— Giulia Melo Arraes, você quer se casar comigo? Com essa sapatão emocionada, ajoelhada diante de você?


Giulia se abaixou e a beijou, sorrindo muito, chorando demais, agarrando-a, cheirando-a, apertando-a em seus braços porque era um sonho. Um sonho do mundo real, no qual, mesmo parecendo impossível, jamais havia parado de focar, de querer, de desejar.


E ali estava, sua fada de League of Legends, sua paixão de tanto tempo, lhe pedindo em casamento.


— Você não é emocionada, são seis anos e meio, meu amor.

— E aceita? Você aceita?

— Só se você colocar data, daqui a uns dois meses no máximo. Dá tempo, não dá? Dois meses pra gente se casar? Vai que você muda de ideia, fada.


Não mudaria. Simplesmente sentia que não mudaria. Foi assim que chegaram à festa de Natal da família Esposito. O anel no dedo de Giulia não pôde deixar de ser notado e, menos ainda, podiam não notar a alegria das duas. Camila viu, entendeu, desejou felicidades. Do fundo do seu coração, desejou. E fez sentido.


— O que fez sentido, Camis? — Theodora perguntou a ela durante a animada ceia. A família ao redor da mesa, a felicidade constante, os presentes esperando na árvore, as luzes piscando pela decoração.

— Quando vi aquela criatura ali pela primeira vez, eu te senti mais dela do que minha. Mas culpei os discos voadores, devia ser essa similaridade, mas agora... — abriu outro sorriso — estou muito feliz por vocês duas.

— Mulher, imagina eu! — Giulia veio para perto, sorrindo, natural, tirando Theodora para dançar no meio da sala, no meio da festa, aquela festa em que ninguém estava mais feliz do que elas.


Pessoas se apaixonam por caminhos misteriosos. E, entre discos voadores, culturas solares e um apego de faculdade, ali estavam Giulia e Theodora, mais do que apaixonadas.


Naquele Natal, a família Esposito ganhou uma nova foto oficial de família. Camila tinha uma nova namorada e Theodora, um novo amor de sua vida. E foi como se ambas sempre houvessem estado ali, daquela forma, naquela configuração. Ninguém precisava ser curado, nenhum amor mais necessitava ser ritualizado, o sol havia girado, os planetas se realinhado e tudo estava no lugar, bem guardado, bem protegido, como o mais bonito de todos os relicários.

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